DM CXXVII

Dizem tantas coisas.
Uau! Quem?
Oh dear, todos eles.
Pois têm línguas e não se fazem de rogados. Nem do que odeiam se fazer.
Terão medo de que suas línguas um dia atrofiem por falta de uso?
Melhor não arriscar.
Se atrofiassem, ficariam as incansáveis, serpeantes línguas como seus cérebros e seus corações.
Mas o que é que essa gente toda tanto diz, afinal?
Gosh, dizem tantas coisas.
Tantas, que seria impossível enumerar tudo que essa gente tanto diz.
Só não dizem que são maníacos do dizer.
Aí seria dizer demais.
E esses seres que tanto dizem podem ser tudo menos idiotas.
Okay, já sabemos: eles dizem muitas, muitas, muitas coisas.
Mas de novo: o que é que essa gente toda tanto diz, afinal?
Não daria pelo menos para exemplificar?
Provavelmente.
Não, de certo.
Daria, sim.
Por exemplo, entre tudo e tanto que dizem sem parar desde quando nascem até o dia em que suas elétricas paramétricas línguas enfim jazem caídas para sempre, dizem que a vida é uma luta.
Alguns vão além: a vida é nada mais nada menos que uma guerra!
Uuuu...!
E, dentre todas as coisas que eles tanto dizem tanto, tanto, tanto, dizem, veja só! dizem que a base de toda a vida é o merecimento!
Não! Não dizem, não!
Dirão barbaridades darwinistas assim?
Dirão, sim! E como! e, quando dizem, dizem solenes, a boca cheia do que se enchem as bocas, a língua viscosa estalando despudorada saboreando a verdade, baba babando babosa sem pejo nem continência enquanto os babões balbuciam aos borbotões suas baboseiras.
A base de toda a vida é o merecimento! eis o que mais dizem.
Que digam! digo eu.
Podem até estar certos.
Que sei eu?
Não sei quase nada.
Não passo dum garoto envelhecido que desde seu primeiro dia nesta Terra optou por duvidar de tudo que tanto lhe dizem.
Enquanto eles, de tanto, mas tanto dizerem, acabaram todos surdos ao que dizem.
Que digam! insisto.
Digam e digam e digam até caírem duros, com as orelhas entupidas de suas bombásticas declarações.
E enquanto dizem e dizem e dizem, fico aqui no meu cantinho, a me perguntar:
Se a base de tudo é o merecimento, por que DM gosta de mim?