Mistura em ré

Estou exausto de exaustão. Será este o autêntico derradeiro cansaço?
Vejo meus esconderijos devassados, minhas emboscadas antecipadas, meus golpes e ataques rechaçados pelo inimigo.
Só não vejo o inimigo.
Não sei quem é o inimigo.
Terei mesmo um?
Haverá um?
Se houver, então não será um só.
Mas tantos quantos eu seja capaz de esquecer.

Estou exausto dos meus inimigos.
Os sinto indóceis ao acordar. (Se é que acordo.)
Soberbos na claridade do dia.
Arrogantes sob a noite sem luar.
Invencíveis quando me venço.

Irresoluto vencedor, fico exausto do meu cheiro.
Exausto do meu gosto.
Exausto de mim mesmo.

Definições revogáveis

Grafiteiro: tipo de escritor que se põe a escrever nas paredes antes de se cansar de escrever para as paredes.

Infinitamente

condenado
me seduzo
me fecundo
acalentando
meu não parto

Expedição de descoberta a Portugal

Lá longe toca um roquinho vagabundo cantado em uma voz aveludada e metálica de criança velha.

Estou morto, penso, checando meus sentidos atento a novas diferenças sensoriais.

O chão estremece. Deve ser a raça de seres do espaço que vive debaixo da minha casa, me reconforto.

É engraçado estar morto. Será que Pavese também se sentiu assim?

Não devo brincar de forma tão frívola com a morte. É só mais uma das minhas obsessões mórbidas e vagabundas como esse roquinho longínquo, como a de qualquer marciano com fobia de elevador ou lugar alto. (Que engraçado.) Me lembro daquele médico português que insistia que Pessoa era um esquizofrênico com síndrome de múltiplas personalidades.

Tudo não passa de neuroses. Estou morto e espero não ressuscitar.

Projeto de hoje:

Esquecer.

Desequilíbrio fino

Que é que é: tem um cabaço que nunca rompe
Que é que é: tem um útero que jamais fecunda
Que é que é: tem um coração que nunca bate
Que é que é: tem uma cabeça que só pensa em explodir (que é que é: tem uma ideia que jamais basta, me diga, que é que posso fazer?)
Que é que é: tem uma faca que jamais corta
Que é que é: tem um rio que nunca corre, um sol que nunca brilha, uma chave que jamais abre
É que - ó amordaçada boca que grita - é que tem uma palavra que nunca é dita que nunca é ouvida

Chega de subir escadas, ascender elevadores, levantar cadáveres, erguer brindes
Preciso de quedas

Que é que é: um dia que nunca passa feito inteirinho de instantes que nunca passam
Tchau soa leviano, adeus, solene
Os ecos da tua voz ressoam pelas paredes e sei que nunca vão morrer
Sou impossível

Ventania wertheriana

Lembra quando você leu Werther?
Werther é um tolo, claro. (Tudo bem, só se usa "tolo" literariamente.)
Sempre que venta lembro da força invencível da natureza em Werther.
Lá fora na manhã deste 7 de outubro os ventos botam as árvores do meu jardim pra gemer.
E chiam as copas e soluçam as telhas e eu aqui dentro preciso celebrar à insurreição das coisas.

Revoada

Não, não é uma revoada de pássaros.
Tampouco sumiço súbito de pensamentos. Nem uma debandada de ideias em greve.
Não é sequer revoada. Nunca vi revoada. Sei lá o que é revoada.
Botei revoada no título só para pescar. Assim meio que jogando farelo na superfície da água.
Você se amarra em revoadas, eu sei. Embora, como eu, nunca tenha visto uma. E, ao contrário de mim, adoraria testemunhar uma no fim dum dia duro de trabalho.

Revoadas dão as melhores iscas.
Não é difícil botar uma revoada no título duma postagem. E se o peixe for afoito, basta sacudi-la entre as pontas dos dedos.
Você sabe, peixes nascem para ser comidos.
E se não te fisgasse eu podia apelar brandindo uma "Revoada de borboletas".
E se mesmo assim você se recusasse a morder, eu não hesitaria em intitular minha postagem de "Revoada de borboletas azuis num crepúsculo de primavera enquanto a lua acorda no céu".
Só que, além de não saber nada de revoadas, borboletas de qualquer cor me dão alergia, o lusco-fusco me dá palpitação, me sinto mal na primavera, não gosto da lua nem do céu. Acho mesmo que não gosto de nada.
E me entediam pescarias. Na verdade nunca pesquei. E me encafifam pescadores e sua paciência interminável à espera da mordida na beira do lago, assim como a manha que desenvolvem ao longo dos anos até adquirir traquejo, embora eu não seja dado a cismas. Cismas e revoadas são para apaixonados.

Perdi a fórmula da paixão.
Esqueci os objetos das minhas antigas curiosidades.
Mas sinto em mim nós.
Sinto em mim nós que não podem ser desfeitos.
Sinto em mim nós que nasceram antes de mim.

Isto posto, te faço aqui alguns alertas.

Não confie em mim.
Não, não sou desonesto. Ou baixo.
Só não aprendi a apreciar revoadas.
Por isso cresci confuso, atrapalhado, tristemente desastrado.

Assim me desonero de responsabilidade por propaganda enganosa.
O conteúdo é imprestável qual a embalagem.
Sou antes de tudo e depois de tudo um sujeito doentiamente desapaixonado.
Desapaixonado pela morte, pela vida, por todas as coisas.

A tentação parece irresistível, eu sei. I've been there. Você tem esse sentimento de posse da dor, com escritura passada em cartório, e tudo está resolvido. Optou pela tristeza. Despreza os alegres. Alegria é atestado de bem-estar, bem-estar é prova de alienação. Não podemos esquecer nem por um minuto que somos seres vocacionados para o padecimento. Você não reivindica o direito à felicidade. Nutre, mais que um espírito, uma alma. Os equipados com alma não se podem dar tais luxos. Os felizes caminham -- você dá passos. Mas não são os passos cautelosos, estudados ao alcance de qualquer um. Seus passos são premeditadamente hesitantes. Deliberadamente irresolutos. Incertos de sua direção.  Trôpegos. Parecem buscar um tropeção. Só os tolos pisam firme. E quando seus pés tropicam, que a queda seja súbita, atordoante, perturbadora. Nada como um bom tombo para restaurar a sensação de estranhamento. E o mundo visto de baixo pode render inéditas perspectivas. Enxergar os adultos lá em cima como se fora um inseto rastejante, a musa preferida de Manoel de Barros. Esses adultos mesquinhos, robotizados, venais, previsíveis. Que graça tem saber o que acontecerá ano que vem, amanhã, daqui a um minuto? Você quer é levar a vida aos sobressaltos. A mesmice é o mal a combater. Está se viciando em surpresas. Quer virar um espantado profissional. Só o inusitado tem importância. Recebeu um mundo de segunda mão, um mundo a girar em rodopios que não nos deixam tontos, a despertar sonhos sem graça, a inspirar versos batidos. Crê que sentir-se deslocado é suficiente. Lança nas coisas esse seu olhar doente de perplexidade e se compraz. Quer-se atônito, desconcertado ante o milagre, a sentença, a impossibilidade de viver. Por isso, ao invés de viver, procura. Busca. Vasculha. Pergunta. Mas pergunta só a você mesmo -- está convicto de que os outros não têm a resposta. Acredita em mistérios como os religiosos acreditam em deus e os místicos em numerologia. Seu mundo está recoberto de véus, véus indefectivelmente diáfanos em cores pasteis, véus que caem e recaem sobre véus que encobrem apenas em parte as formas originais das coisas para que você nunca esqueça que as formas originais das coisas não lhe apetecem. O mundo como ele é não lhe interessa. Objetividade, eis a maior doença dos homens. O soterramento do pessoal em nome da sobrevivência física. O utilitarismo que devora as idiossincrasias, nos automatizando a todos. A ditadura das horas, dos costumes, das agendas, da língua. Você nasceu para indispor-se. Confrontar. Comprar briga. Fazer inimigos. Quebrar o espelho. Arrancar a máscara das máscaras.

Quero ser novo

Centauro, sátiro e/ou homem em fase de velha renovação procura profissional com tempo disponível e inesgotável paciência desejoso(a) de monitorar seus pensamentos vagos e prestar acompanhamento ao longo de seu dia. Nesta sua nova transição, dispensa números indefinidos, controles, orientação, mágicas, vaticínios, brumas e estados de espírito.

(Estados de espírito em geral são atropeladores e consomem todo o doce das coisas.)

Tal monitoramento deverá incluir ainda minhas etílicas noites em que meu desvairado repouso oscila qual um velocímetro esquizofrênico entre minissonhos fosforecentes em variegados tons pastel e os mais sombrios pesadelos que um ser supostamente humano já foi capaz de tolerar.

Favor me enviar proposta com seu melhor preço, discriminando prazos de entrega, de pagamento e de validade. Se possível, anexar um croqui indicando minhas necessárias saídas de emergência. Propostas metafísicas serão descartadas sumariamente. (Favor tomar cuidado para não acabar me transformando em galinha.)

Agora e sempre

Minha mãe me fita bem nos olhos e geme: "Essa noite eu morri".
Fico olhando o rosto dela sem saber se escutei direito. Ela morreu mesmo? Ou o morto sou eu?
Desvio o olhar para a empregada, em pé ao meu lado. Vejo nos olhos dela um brilho caleidoscópico de batatinhas fritas.

Seco feito carne de sol

Passei o dia todinho escrevendo sem escrever (nada que preste). E quanto mais escrevo menos sentido minhas palavras fazem. Fui, voltei, levei e trouxe. Tive ideias, persegui ideias, escrevi ideias até ultrapassar todos os limites da sensatez, desisti, tentei novamente com as mesmas, tentei com outras. Digitei palavras, pontos, vírgulas, travessões e aspas, períodos e frases e parágrafos. Apaguei uma a uma, um a um, deletei tudo, reescrevi, deletei de novo. Fui ler Neruda (quando estou mal leio Neruda porque Neruda me irrita), fui andar, fui beber, reescrevi, apaguei, fui beber, fui andar, fui ler Kerouac (tudo ficou pior). Escrevo, escrevo, escrevo, leio e não compreendo nada do que escrevo, carreiras de letras formando vocábulos sem significado numa língua estranha num alfabeto que desconheço. Estou absolutamente ágrafo. Beethoven escreveu a Nona praticamente surdo, depois os quartetos para cordas totalmente surdo. Certos críticos chamam os Quartetos de "visionários".