Aviso ao navegante em busca de "poesia"



Se aportou neste meu modesto site em busca de versos decorados com arranjos de perfumadas flores, entremeados de macias dores, apimentados com ronronantes amores, sorry, você desceu no cais errado.
E se aterrissou por estas bandas atrás de delicadeza, simpatia, urbanidade, brandura, frescor, respeito, complacência e outros sentimentos edificantes de equivalente jaez, sorry de novo – aqui não faço triagem sentimental. Me limito a, e me esforço por, falar do que deveras sinto. Não me presto a fazer o papel de poeta doce com versos arrebatadores apenas para saciar a gana que certos leitores têm por "viajar". A bem da verdade, não curto viagens. Pelo contrário, raramente saio do meu canto de onde olho o mundo da forma como gosto de olhar.
Quis fazer esta ressalva em vista do oceano de blogs abarrotados de "poesia" demagógica que banha este nosso insalubre universo online. Tais blogs açucaradamente poéticos apelam sem dó nem piedade ao mais primitivo sentimentalismo para angariar o maior número possível dos famigerados "seguidores". Movidos pelo impulso do ibope, seus autores parecem ter os olhos ofuscados por miragens de festas do Nobel e o coração carregado de amores estampados na revista Caras. O resultado é o assassinato sumário da verdadeira poesia por arroubos infantilizados e a mais descarada demagogia e conversa fiada, pragas destes tempos de informação total e verdade nenhuma.
Em consideração ao retro-referido, lanço aqui meu também modesto, funesto, molesto, desonesto manifesto: 
Mexer nos castelos sensíveis das palavras dá gelatina intangível, no espírito estremilique desagradável e duvidoso, na boca sabor azedo de arrependimento de que você não devia ter metido a colher no angu, dependendo da hora, da condição do espírito, da dor do desejo, de com quem acabou de falar ou sonhar, assuntos há que devem ficar intactos, para sempre talvez, você se enxerga, claro, metido na farda dum bandeirante em eternas vias de desbravar o oeste d’alma, nada interior ou em volta é sagrado, quem escreve se sente com o rei na barriga, no direito de mexer na casa do marimbondo sem pedir licença, não é bem assim, claro, tem o escritor com cultura acima da média e bom de técnica que escreve o que quiser à hora que quiser e tem o movido a inspiração, desembuchando só quando madame dá o ar da graça, escrevinhador escravo. Dos dois o último engana melhor porque logra transmitir o que dez entre nove escribas reputam a chave da boa escritura, mesmo quando não é tão boa, pelo menos não dá vontade de jogar no lixo, destino próprio de quase tudo que se escreve e já se escreveu, a saber, sinceridade.
Inspiração e sinceridade são o que há de raro e frágil num dia e você, pertencendo ao segundo time, tem de desenvolver manhas para ser agraciado com, segundo teu calendário lírico, razoável regularidade, algo entre “produção” constante e fastidiosa que te vai transbordando por olhos e ouvidos, te balbuciando tua baba embananada, te convertendo palavra a palavra num mudo falastrão e um conta-gotas sistítico, exudando com dolorosa e enervante parcimônia, síndrome do mehr licht gueteniano. O problema, você não quer dar mole agora que o riacho tá escorrendo com certa constância, e se a mina secar? quem sabe ela nunca existiu, você não passa dum pseudo sequioso delirando com água benta, não corra o risco, claro, até os grandes estão sujeitos à síndrome da mina perdida de que fala um espanhol que usou o dulcíssimo, o mais desamparado de todos os personagens literários, Batlerby, de Melville, para cunhar a classe dos escritores que cedo ou tarde dão a brochada literária definitiva cujo patrono é Rimbaud.
O truque fica mais óbvio na poesia populada de empulheiros que pretendem esconder o embuste no enigma poético, somos todos poetas sob a penumbra diáfana da manhã, tem umas palavrinhas manjadérrimas que só o vate recém-saído do ovo comete a asneira de empregar, mesmo tubarões caem na armadilha, quem nunca errou a mão lírica vertendo quadrinhas afogadas em calda de açúcar? Pseudopoetas batizam de poesia uma sucessão de artifícios salpicados de faíscas elétricas escarradas na poça melosa da inspiração morta. O primeiro sinal de empulhação é o truque do adjetivo inusitado, neguinho mete lá uns substantivos mornos de súbito estrategicamente, esfregando as mãos maquiavélico, olhinhos rutilantes, forma pares improváveis, trios destrambelhados que vai arranjando em forma de verso, apontando assertivo ao leitor, tu vai ficar embevecido, pois que isto é poesia. Ora, se até Pessoa em pessoa rebosteou na deleitosa lixívia rasa do eu, se atulhando nos truques do adjetivo inusitado. 
Um pseudopseudo é no fim um autêntico?
Há uma forma de flagrar a pseudopoesia: buscar a não poesia, o que Eliot chamava de poética excessiva, palavrinhas derramadas sob visões sentidas parafusadas na fórmula da mecânica sentimentalóide, por isso antipoética.
Quase nenhum escapa à praga do truque que você começa a manjar parágrafo cedo ou tardio. Proust de repente enche o saco e você fica se perguntando se não poderia ter omitido umas 500 páginas daquele caudal emporretado, que vontade de mandar à merda e virar concretista.
Salvante pedra no rim, não há dor que se equipare à explosão abafada dum poema falho. Penar em curto-circuito horas a fio para gerar um amontado de versos bastardos e ter de dar fim na tralha sem verter uma lágrima sequer, pois se pudesse chorar você não cairia na tentação de ser poeta, é mister de machos.
Sou avesso a facilidades.
E noções mitificadoras como milagres, destino e superstições (sejam benignas ou malignas).
E astrologias (sejam no singular ou no plural), tarôs, numerologia e que tais.
Sou avesso a religiões monoteístas ou panteístas e à ideia de deus, deuses e entes dividos do gênero (mas, certos religiosos, acho-os dignos e decentes. Eu mesmo me acho mais religioso que muitos praticantes que vejo por aí com cara de quem mendiga um lugarzinho no Céu).
Sou avesso a ideias como sorte, azar, urucubaca, mau-olhado.
E avesso a toda e qualquer noção que se destine a me afastar de mim mesmo. Sempre lutei muito para fazer o caminho exatamente inverso.
Por isso, sou avesso a tudo que se pretenda mágico ou tenha por finalidade plantar miragens entre meus olhos e a realidade. Não gosto de miragens. Não admiro quem goste de miragens.
Sou avesso a feitiços e feiticeiros, acho-os tolamente pobres.
Sou avesso a palavras mágicas e receio as consequências que elas podem engendrar. (Por exemplo, as mentiras que as palavras mágicas semeiam em cabeças propensas a mentiras.)
Sou também avesso ao pensamento mágico. E avesso, sobretudo, a seus adeptos. Os adeptos do pensamento mágico são escravos de ilusões, não toleram os fatos como eles são, tendem a sonhar com um mundo perfeito em vez de lutar por melhorar este calamitoso em que vivemos. Por isso os adeptos do pensamento mágico são muito perigosos.
Em suma, em resumo, etc., sou avesso ao faz-de-conta e aos que no faz-de-conta desejam se encarcerar.
Reconheço, porém, que é praticamente impossível eliminar o faz-de-conta das nossas vidas.
O faz-de-conta é inevitável em maior ou menor grau, dependendo da necessidade de fantasia de cada um de nós.
Mas sou avesso aos que fecham os olhos e mergulham no faz-de-conta tentando ser felizes por afogamento onírico.
Por todas as aversões acima, e outras que seria maçante enumerar, sou avesso a alienações de qualquer tipo.
E por isso, entre outras razões, os textos e poemas que escrevo não arrebatam, não encantam, não mistificam, não induzem a fugas, não seduzem, não corrompem com apelações afetivas, não se prestam a tonturas ou levitações.


E, embora seja avesso a tomar lados, a mim me parece que estou do lado certo.


Escolhi para mim o legado de Rilke. O único mundo aceitável para o poeta que se pretenda poeta é a solidão. É escolha mais difícil de manter que de fazer. Em fazendo a opção, o poeta inicia a luta contra o verdadeiro inimigo: ele mesmo. É luta inclemente, sangrenta, dilacerante e sem trégua.  Cuja vitória é a derrota.


A solidão é o maior dos sacrifícios. E não está ao alcance dos fracos de coração.


Amém.