Breve incursão pelo inferno

Ao contrário do meu dulcíssimo Rimbaud, não preciso afundar na barbárie da Abissínia para passar estimulante estadia no inferno. Basta uma esticada até o “laboratório” de análises clínicas aqui na esquina para fazer um eletro. Arthur não carecia de estímulo não autóctone. Nasceu alucinado, e morreu. Adolescente-terror, prodígio na sala de aula, encerrou a carreira poética aos tenros vinte, num dos mais enigmáticos casos de aposentadoria artística precoce ever. Ganhou mesmo de bacharéis uspianos que nem atingem os 45 e penduram a chuteira prosopopéica, renunciando inclusive a ensinar a seus futuros exegetas sabáticos cabeça-limpa o que teria levado o doidivanas Arthur a trocar uma confortável cadeira estofada na academia francesa de letras por surreal carreira de contrabandista de armas na África. Flaubert preconizava, “seja regular e ordeiro em sua vida para poder ser violento e original em sua arte”. Arthur não quis seguir o conselho. Eu, sim. Afinal, sou um burguesinho xarope e maricas. Tenho horror ao desconforto. E virar cacho dum poetão mais velho tal como Rimbaud com Verlaine não é exatamente meu projeto profissional.
Um ato prosaico como tirar o carro da garagem revela-se proeza cinematográfica. Brasileiros e brasileiras dobram a 180 por hora a curva antes de casa e, ao me avistar tentando uma reles marcha à ré para me juntar a eles no trânsito selvagem, carcam o pé no acelerador antes que eu tenha tempo de completar a manobra. Sou obrigado a voltar à garagem e ficar outra meia-hora olhando aflito por sobre o ombro, à espera duma pausa miraculosa no torrente de bestas desembestadas.
Depois duma eternidade canso por fim. Fecho bem os olhos, engato ré e acelero. Seja o que o big boss quiser. Escuto pneus rinchando, outros guinchando, outros bramindo numa sucessão de freadas bruscas. Fôdasse. Causar uma batida agora seria o menor dos suplícios. Vou recuando torcendo para que meu algoz seja um Scania R114 de 500 tons, assim viro paçoca instantânea sem tempo nem para meu derradeiro versinho. Ufa, miraculosamente íntegro. O big boss nunca me dá ouvidos, fedepê. Os selvagens começam a se afastar, me fuzilando com carrancas de que nem Olivier interpretando Macbeth seria capaz. As mulheres são as mais ferozes. O mundo governado por mulheres não duraria uma semana. Para chegar a essa conclusão científica é só observar o trânsito dez minutos. 
Roberto Damatta dizia no livro aquele que a calçada é onde a espécie brasílica se socializa. Errado. É o asfalto. As escolas de sociologia, antropologia e congêneres podem baixar as portas. Uma excursão pelo inferno do nosso trânsito é suficiente para um mergulho intelecto-masoquista na nossa civilização. Está tudo lá: a presunção neurótica de eu tenho direito a tudo, você a nada; a selvageria decorrente do “desapego” às leis, a indisciplina, a arrogância, a bestialidade, a lei do mais forte, a entropia. E tem gente que olha Lulla, congresso, juízes, “instituições” do país e se espanta. Go figure.

Tendo concluído a integração ao tráfego com relativamente poucos traumas irreversíveis, boto primeira e lá vou eu. Será um km e meio de tortura até o prédio da clínica. Tudo por um eletro. Já sei. Vou chegar morto e assim prescindir do trânsito, estacionamento, manobrista, “atendente” do estacionamento, fichas isso e aquilo, calvário de meio quarteirão até o prédio aturando esses olharezinhos intrusivos com que brasileiros e brasileiras vindo em sentido contrário na calçada têm mania de querer escarafunchar a tua alma, porteiro, mostrar id ─ me tomam por Osama? Osama tá por fora ─, tapar o nariz para pular dentro do elevador carregado de ar viciado de puns e outras excreções da espécie, morrendo de medo de que chegou a minha vez de ficar preso, a cada andar me vendo na pele do Fortunato ─ gosh, que nome o Edgar foi dar pro rapaz! ─ de Cask of Amontillado.

Décimo-quinto, deo gratia. Saio e entro na “recepção”, caos sulfúrico. “Atendentes” cafuzas louras fake marchando para cima e para baixo socando com fervor suas ferraduras de 15 cm de altura contra o piso imitação de granito para produzir estampidos secos e duros que fariam inveja aos SS de Herr Adolf. Me aproximo hesitante ─ sou um rapazinho tímido, u know ─ do balcão, sem me atrever a erguer os olhos para a “atendente”, não quero nem de longe dar a impressão de que sou um rasputin intimidante. (Sou, mas agora não vem ao caso.)


A “atendente” está berrando ao telefone, ao lado de outras oito ou nove berrando ao telefone ou zanzando em todas as direções com cara de perdidas num aquário, me levando à loucura com suas ferraduras-fashion, se esforçando ao inefável para não tomar conhecimento de mim e de outros coitados que vão entrando à cambulhada. Juntas formam uma algaravia embevecedora que me transporta dejavuisticamente ao instante em que furei a bolsa de mamãe depois de quinze meses de luta e entrei de sola no mundo. A “atendente” ─ mistura do Charles Bronson com Mike Tyson de peruca amarelo-ouro ─ finge não me ver parado feito um mané diante do narigão dela, prossegue histérica ao telefone, me fazendo ter pena do miserável do outro lado da linha que deve estar amaldiçoando tanto quanto eu planos de saúde e a medicina moderna e laboratórios clínicos. Passados quarenta minutos, a loirinha mike-bronson resolve bater o telefone e me dirigir um olharzinho insolente, hostil, debochado e compassivo, numa infeliz combinação de sentimentos poucas vezes vivenciada por algum ser humano neste mundo. Estendo respeitoso, quase hesitante, o pedido do exame emitido pelo dr. Hélcio, um santo, e começo a tirar dos bolsos os documentos e cartões que charlie-tyson me “solicita” com candura e elegância. 
A essa altura estou suplicando internamente que um infarte ─ aquele cuja prevenção, ou tentativa de, me trouxe a este inferno in the first place ─ me poupe do martírio. Em vão. Venho tentando desenvolver uma técnica de enfartar reflexamente a “estímulos” externos ─ que, como todos sabem, abundam Berção afora.
Duas horas e lá vai pedrada depois outra cafuza, essa mais viking que as demais, invoca sonoramente meu nome, me arrancando do meu inútil exercício suicida. Com um policialesco aceno do focinho, a deusdede nórdico-maranhense me convoca a entrar na salinha do eletro. Me manda tirar a camisa e deitar na maca de barriga para cima. Obediente que sou, me ponho industriosamente a delirar que é chegada a hora do transplante.
Na tevê onipresente cenas inacreditáveis de hospitais dos “sus”. Corredores atulhados de mulambeiros jogados em colchonetes no chão, frascos de soro mantidos no alto por parentes e apiedados. Não sou de fazer perguntas, mas esta é irrecorrível: por que não se revoltam ante a distopia? Sempre que sou obrigado a aguardar meia hora num muquifo desdenhosamente camuflado de laboratório clínico me sinto transbordar de humilhação. Mesmo ter de esperar quinze minutos meu dr. Hélcio, particular, chega às raias do insuportável. Nessas horas desando a alimentar a imaginação com pás das pedras, minério de dor e sangue que compõem o suplício diário do povão tentado me ver no lugar deles. Impossível, laririlarará. O Etienne de Zola era um carinha cordato. Os desgraçados não se revoltam. Um ou outro se limita a descolar um ferro e arrancar os trocados que nós classes-médias capados juntamos ao ponto do enfarte, às vezes nos mandando para o Hades quando decidimos que não é justo dar nossa grana pr'um favelado indócil que não conhece o princípio do merecimento. A grana dos nossos impostos vai indo quase todinha para a casta enclausurada nos sistemas “públicos”. Casta composta de políticos, funcionários públicos, senhores cartoriais e ONIs (Outros Nababos Inindentificáveis), aparelhadores peetistas, tucanos, dirceuistas, quercistas, sarneiistas e escambauistas. Mansinhos, aguardamos meio impacientes nossa vez no abatedouro. 


Bebê de meia idade

para D.

Sentado neste banco de praça, cabeça baixa, olhando o chão entre meus pés, avisto um pequeno pedregulho de cor indefinível, assimétrico e amorfo feito as lembranças que desfiam do meu cérebro como dum novelo de trapos e se desfazem na sombra tão logo se separam.

Eis algo que uma vez sequer foi visualizado por alguém neste mundo. Algo a que ninguém jamais prestou atenção. Ainda assim, independente de mim, independente de quem quer que seja, ele existe — como os trilhões de planetas desconhecidos que dizem existir além do céu.
Como para a maioria das pessoas, quase todos meus pensamentos são, para mim, inúteis. Não me ajudam a ficar rico, não me ensinam como usufruir das delícias de não ter patrão ou como me livrar dos que mandam em mim, não me trazem a liberdade de tomar decisões sem ser obrigado a considerar todas as implicações pecuniárias que me escravizam, não me ensinam o Caminho das Bucetas.
Como muitas pessoas que vivem neste mundo que nos cabe — mas que são em pequeno número frente ao conjunto de todas as pessoas neste mundo que herdamos e herdamos e herdamos —, devem-me. E aqui estou para cobrar minhas dívidas. 
Como muitas pessoas que tiveram o azar de nascer neste mundo, oculto dentro de mim um eu que às vezes é tão real, que quase mereceria um heterônimo. Mas é um eu do contra, ranzinza, sempre me contestando os pensamentos e me atrapalhando os passos e me boicotando as ideias. Tal qual a maioria das pessoas neste mundo que, feito caramujos, trazemos acorrentado às costas, eu bem que trocaria esse oculto eu sabotador por um sócio. 
Mas ei que, para minha sorte — que é tão grande, que custo a acreditar que, dentre todos, coube a mim tê-la —, há dias em que um sócio me aparece e carrega às costas a maior parte do meu mundo. E ainda cobra algumas das dívidas que me são devidas. E ainda trava por mim algumas das batalhas que, desafortunadamente, sou obrigado a enfrentar. 
Feito a maioria dos seres que habitam este malfadado lugar, sou vingativo e, se pudesse, torturaria um a um os inimigos que fiz ao longo da minha vida. Depois os atiraria no fundo dum poço para que sofressem a mais cruel das mortes possíveis e que nos cabe a todos — a morte à espera da salvação. E também feito a maioria, não estou satisfeito com minha própria cara, penso obsessivamente em corrigir meus defeitos — físicos e mentais. E, qual a maioria, meu maior sonho é escrever um livro sobre a dor humana — coisa aí dumas 790 páginas — mas que seja best-seller no mundo todo e me renda muitas noites de autógrafos em que me bajulem, me incensem, me lambam as solas dos sapatos, os homens supliquem a deferência do meu olhar, as mulheres se ofereçam nas mais tórridas promessas extraconjugais. 
Pequeno pedregulho entre meus pés, que vive à revelia de tudo e de todos, tenho o direito de ser feliz. 
Tenho o direito de ser feliz? Sentado neste banco perdido nesta praça perdida nesta São Paulo perdida no universo, tento me agarrar às poucas lembranças boas que ainda carrego, tento misturá-las dentro do tacho que em banho-maria fervento na cabeça, sová-las como se sova a massa do pão e fazer delas o que algumas pessoas, algumas poucas pessoas chamam “experiência”. Tudo em volta é uma estrutura da qual não faço parte, neste mundo cinético em que só eu não me movo.
Eis-me aqui parado com meu passado falso, a mão estática no ar temerosa de concluir o ato. Olho para cima na esperança de estar sendo observado por um gigante tal qual observo o pedregulho. Nauseado, me conformo — sou apenas um bebê de meia-idade.


Os ensimesmados

Somos os ensimesmados.
Tão ensimesmados, que, além de viver voltados para dentro, não fazemos conta de dar explicações supérfluas.
Não damos conta de muitas outras coisas. Pois somos os ensimesmados.
Vivemos tão embebidos de nós mesmos, que não damos importância às nossas redundâncias. E, tem hora, ficamos tão, mas tão ensimesmados, que ficamos martelando para nós mesmos que somos ensimesmados sem sequer perceber que estamos martelando seja lá o que for para nós mesmos ou para quem quer que seja.
No mundo, formamos um time.
O time dos... ensimesmados.
Você, obviamente, já deve estar rindo por dentro – e se não for dado ou dada a pudores, até mesmo por fora.
Que maravilha! você está se divertindo. Um time composto de membros que não tomam conhecimento uns dos outros.
Se pensou isso de fato, me regozijo. Pois acertou na mosca.
Vou avançando pela calçada. Cabisbaixo, como gosto de avançar pelas calçadas do mundo. Totalmente antenado nos meus próprios pensamentos. Completamente alheio ao que se passa à minha volta – sempre tomando o cuidado, claro, de verificar, a cada dois ou três minutos, quais diabruras Zezeí, minha mescla de dobermann e chiuauaua, anda aprontando pelo mundo. Se me certifico então de que nem ela nem nenhum transeunte corre maiores perigos do que é lícito correr nesta vida, prontamente reassumo meu auto-embebimento. Às vezes retomo o fio de onde parei antes da inspeção, outras simplesmente me entrego àquele a quem tenho me entregado desde que nasci sem precisar erguer os braços em sinal de rendição – eu mesmo.
Vou avançando pela calçada. Cabisbaixo, como gosto de avançar pelas calçadas do mundo. O treino de ensimesmado veterano me permite perceber, pelo rabo da orelha, que Zezeí me acompanha a distância segura uns três passos atrás.
De repente cruzo cum vulto. Prendo a respiração para não sentir seu cheiro. Nunca se sabe. Poucas coisas me dão mais repulsa que cheiro de estranhos na rua. Cheiro de certos conhecidos onde quer que seja é uma delas. Sigo em frente, o vulto segue em frente no sentido oposto.
Com base em minha reputação que bocas maledicentes andam enxovalhando pela cidade, você na certa está a imaginar que só me dei conta do vulto porque este pertencia a uma ninfa matinal recém saída do banho com sais de ervas e olivas gregas. Cujo aroma devastadoramente embriagador eu não deixaria de sentir mesmo se travasse as narinas cum pregador plástico.
Se foi isso que imaginou, lamento lhe informar que se enganou.
Continuo avançando pela calçada, cabisbaixo coisa e tal. Atrás de mim ou à minha frente, na mesma calçada ou na do outro lado da rua, os que me olham não notaram nada de anormal em minhas feições ou de diferente em meu andar.
Quero crer que você saiba a razão.
Dou mais uns trinta segundos, estaco como raramente tenho estacado, dou meia-volta.
Lá longe o dono do vulto, vejo sem surpresa, me imita. Não, não é imitação de papagaio e sim mero ritual  de quem não é afeito a rituais.
Ele imediatamente desfaz a meia-volta, retoma seu rumo.
Faço o mesmo.
Foram dois segundos, no máximo, três. Insuficientes para coletar informações mútuas. (Devia aqui dar graças a deus.)
Não sei se ele é apreciador dum gole ou outro ao longo da tarde, no crepúsculo do dia, ao cair da noitinha. Se for, talvez nos cruzemos por um buteco da vida. Se for, talvez troquemos impressões sobre isso e aquilo diante dum balcão a fervilhar dessas mariposas ávidas por experiências inusitadas que são os ébrios. (E às que entregam de bel prazer suas existências que, aos olhos dos que os olham lá da rua, parecem inúteis.)
Você está esperando um desfecho, bem sei.
Você é desses, você é dessas que esperam, e esperam desfechos.

Suculento cuspe

Minha palavra é a vida que passou


Minha palavra é o êxtase que não gozei
A ideia que não tive
A boca que não beijei

Na tarde de ecos e silêncios
Minha palavra é aquela que
Calei

Noite de junho ou setembro

Ela acenou, sorrindo. Fez “espera aí!” com um movimento da mão e um meneio dos lábios. Um minuto depois a porta da rua se abriu e meu último adeus parecia não caber em mim nem em minha vida e lembrei duma antiga foto de minha mãe na janela dum casebre muito humilde em que o rosto dela se destacava do fundo negro de onde em meus três ou quatro anos temia fosse sair uma espécie vaga de monstro que primeiro devoraria a ela e então a mim. Ela abriu o portão e desceu para a calçada e se pôs a descer a rua e segui atrás. Dobramos a esquina e ela pegou minha mão e me senti pequeno e inexperiente. Aquela tarde tínhamos decidido terminar, agora percebia que ela também não acreditara muito em nossa decisão mútua. Pela quarta, quinta vez ensaiávamos uma despedida. De minha parte, claro, omitia que era uma não opção. Omitia para ela e sobretudo para mim mesmo. Nunca tive coragem de parar e assumir que seria incapaz de viver sem ela. Se parasse teria me dado conta da absoluta impossibilidade. Seria como optar pelo vazio, o vácuo, o nada, a morte. Desde muito cedo me achava relativamente preparado para morrer mas nunca tinha me levado muito a sério. O calor da mão dela dentro da minha de repente expôs a verdade medonha e a secura em minha garganta soou um alarme – precisava duma cachaça. Pensei em puxá-la na direção dum buteco na esquina mas não me atrevi. Precisava ter coragem e ficar sóbrio. Dois estranhos passaram por nós e a encararam com insistência e depois me olharam com desprezo como a se perguntar o que é que uma garota tão bonita fazia com esse fracassado. Ela me puxou outra vez, agora na direção da outra esquina. Ficamos andando pela noite, sem rumo, sem finalidade. Às vezes ela fazia um comentário sobre os pais, os irmãos, a escola, eu assentia indiferente, incapaz de me interessar. Nunca fui de jogar conversa fora. Então perguntei se ia no baile na casa do Serginho sábado à noite. Ela respondeu que não sabia se a mãe ia deixar. Torci para que a mãe deixasse mas continuei mudo temendo mostrar o que sentia. Ela me abraçou, me empurrando contra um muro, e grudou a boca na minha. Ficamos lá parados entrelaçando nossas línguas ávidas, esperançosas, desiludidas.

Admirável corpo novo


Umpf!

para Joana D'Gleyse

O tempo passa (uma citação de Fiori Gigliotti não vai fazer mal além do necessário). E o pessoal está cada vez mais jovem. Alguns chegaram quase a ninfetas e apolos.
A tecnologia, deusa da moda cultuada pelo novo ser do século 21, salvará do inferno da velhice e da feiura a gente aditivada e seus estranhos deslumbres. Basta uma visitinha ao consultório do cirurgião plástico, o mágico confessionário em que revelamos nossa podridão, para que o doutor nos facilite acesso ao reino da juventude.
Em 1904, quando sei lá quem escreveu Peter Pan, o menino que não crescia (criança, me aterrorizava a ideia de não crescer), ainda nos contentávamos em fantasiar, confinando nossos desejos mais proibidos ao pensamento. Peter Pan não correu o mundo apenas porque teve uma mãozinha de Walt Disney. Como tudo que sai da cabeça dum artista é o que ele vive embora se pense que invente, o boyzinho eterno não poderia ter vindo à luz em outro século que não o 20, quando se estabeleceu a ideia de indivíduo contra a do rebanho que existia para servir ao deus prevalente até então. Nem Shakespeare no século 16 teria imaginado um pirralho perenemente condenado à infância. O tempora o mores, xará. 
Fantasia hoje não basta ─ precisamos ser os protagonistas do nosso próprio filme. Mais: precisamos ser nosso próprio filme. 
─ Veja, doutor. Apareceu esta ruguinha aqui. E outra aqui. Por que a vida é tão injusta comigo?
─ Calma, dona Marta. Nada em que o old good raio gama não dê jeito. E pelos próximos trinta anos aplicamos de novo.
Enfim chegamos à cirurgia sem cortes, sangue e traumas. Gratificação instantânea ou outra cirurgia amanhã. Eis a tão esperada abolição dos ditos populares: pau que nasce torto não morre mais torto. 
A essa altura ─ a altura em que nos preocupamos apenas com as rugas ─, dona Marta já foi submetida a recauchutagem de cabo a, com perdão da palavra, rabo: reduziu o naso italiano, afilou as narinas à la Michael Jackson (aquele sui generis negro de cara nórdica, paradigma da sincrética Nova Beleza, que planejou e executou o próprio suicídio praticamente ao vivo nas telas das tevês, num ritual insano que se estendeu por anos a fio), eliminou pés-de-galinha, cotovelos-de-foca e focinhos-de-porco, alisou papinhas e papões, diminuiu a envergadura das orelhas, pôs um belo enchimento no queixo de Noel Rosa, suavizou os pomos de Henry Silva (essa fica para cinéfilos mais fanáticos). 
Convenhamos: antes das 170 cirurgias, dona Marta era um belo dum canhão. E só conseguira laçar seu Dudu porque seu Dudu também não era lá grande coisa. Passada a metamorfose, aposentou o carão de bruxa, transfigurando-se num escaravelho cibernético: rosto de pele retesada do Oiapoque à Marilena Chauí, olhar estranhamente assimétrico à la Rita buarqueana e sorriso mais misterioso que o da Monalisa, que, dizem as incansáveis más línguas revisionistas, na verdade era travesti, judia, negra e ninfomaníaca.
A mãe de todas as conversões, porém, parece ser a que ocorre no pudor ─ ou falta dele ─ dessa gente transformista. Era engraçado e ao mesmo tempo triste ver o paradigmático Mr. Jackson dando entrevista à imprensa. O rapaz parlava, mirando a câmera como se fora o mais natural espécime animal do mundo, casual, fuça andrógina coberta por máscara tutancamonense. Parecia pensar que nós telespectadores temos um botãozinho mágico que automaticamente pulverizaria de nossos cérebros a incômoda sensação de estarmos vendo o mais esquisito dos alienígenas cuja semelhança com o ser humano nos causava um choque, mesmo que não admitido. Ficávamos olhando encafifados, será que é gente? convictos de estarmos diante do nosso bisavô tentando falar do passado através do que devem ter sido nossas micagens uns cinco milhões de anos antes.
Na nova ordem do politicamente correto (nova historicamente; já quase ultrapassada para quem nasceu ontem), dia chegará em que esse tipo de dúvida será classificado como preconceito e nós duvidantes, permanentemente céticos e abismados com as novidades que vivem pondo o mundo de ponta-cabeça, poderemos ser processados e presos por não acreditar no que vemos (ou no que sentimos (embora já estejamos sendo “alienados” há pelos menos uns cinco mil anos sob o processo civilizatório)). A sanção ainda não está no código penal porque os correcionais não decidiram que tipo de preconceito configuraria a ojeriza a transformistas renegadores do próprio sexo e da própria raça. Bem que nossos valorosos políticos podiam incorporar à Constituição um artigo permitindo que o povo seja definitivamente feliz, proibindo terminantemente duvidar da humanidade de quem quer que se autoproclame humano. 
─ Voalá, dona Marta! ─ entusiasma-se o doutor, equilibrando um espelho diante do nariz do camaleão. ─ Rosto novinho em folha. E, de brinde, uma baita duma cara de pau! 
─Ora, doutor. Não precisava. Essa ganhei de nascença. 
Nos meus tempos de criança ─ ou seja, quando as pessoas nasciam, cresciam, envelheciam e morriam naturalmente ─, a mutação era privilégio de deus e prerrogativa de ídolos de Hollywood. 
─ Ava Gardner fez cirurgia para endireitar a boca! ─ anunciava o homem do Repórter Esso. ─ E Brigitte Bardot desenrugou as pálpebras! 
(Ainda éramos pudicos e omitiam as partes mais interessantes, as pudendas.) 
Arregalávamos nossos pequeninos olhos que nunca se cansavam do ofuscamento, tentando clarear a densa mas ainda impoluta névoa que aquelas novidades enfiavam em nossas cabecinhas caipiras. E “plástica” fazia soar um sininho lá no fundo do poço entrevado em que vivíamos, passando a integrar os Grandes Mistérios da Infância. Só marmanjo vim a ter ideia do que se tratava e acho que mesmo hoje não entendo direito. E a misteriosa operação nunca envolvia alguém que conhecêssemos pessoalmente ou uma prima distante. Era negócio de milhões de dólares, conduzido em necromântica torre aveludada de Beverly Hills, métier exclusivo das divindades do cinema e mil anos luz fora do alcance da baixa classe média em permanente estado de deslumbre.
O resultado do fosso intransponível era que ficávamos impossibilitados de fazer avaliações morais das ninfas transmudantes. E aquela gente pertencia a outra dimensão, mundo que invejávamos numa boa: não temíamos que pudessem nos destruir em nossa insignificância operária nem tínhamos a veleidade de almejar àquele universo utópico, que ─ alívio ─ diluía as tormentas que chacoalhavam nossos corações. 
Não que em nossa vidinha sob o lema Trabalho e Dignidade não houvesse lugar para frivolidades. Havia. Mas obviamente dentro do que em nosso meio era tido como bom-senso. Às meninas e moçoilas em geral permitia-se maquiagem segura e discreta que não transfigurasse o rosto da dona. A suave máscara de pó de arroz devia protegê-la dum perigoso contato com sentimentos com que ela talvez não soubesse lidar ─ e que, principalmente, não desse azo a ideias malucas a nós, glutões sexuais que nada tínhamos de belos adormecidos. Olhando hoje fotografias das décadas de 30 a 60, com mulheres de braços e pernas rechonchudas e tetas túrgidas e lábios carnudos pintados de carmim, pedindo para ser beijadas mas cientes de que a disciplina moral reinante impediria que caíssemos na lascívia, mulheres elegantes e ao mesmo tempo apetitosas, sóbrias e decorosas e ao mesmo tempo desejáveis, que nada têm a ver com a esculachada fauna de hoje, maltrapilhas anoréxicas pulando feito saguis fornicadores de mão em mão a cacarejantes e emperiquitadas assexuadas de indisfarçável aura de eterna menopausa, hoje, vendo aquelas fotografias, pombas, penso, porra, vivíamos à beira de vulcões congestionados de sexo contido mas nem por isso, quando irrompiam, irrompiam nessa boçalidade pretensamente sensual que virou praga.
Aquelas é que eram fêmeas, mon ami. A atual acessibilidade à beleza de laboratório, facilitada pela liberdade de costumes, na prática, em vez de fazer de nós seres mais livres, apenas acabou com o barato com que idolatrávamos as dríades agraciadas pelos deuses genéticos com a sorte de nascer com carinhas de anjo. Eu vivia caindo de amores por elas. Quando estava conseguindo me levantar, vinha outra, me levando de novo para o meu solitário mergulho na paixão não correspondida. Não ousava chegar perto das deusdedes. “Abordar”, jamais. A beleza hereditária é como o gênio: nos perturba porque está acima de nós, inatingível. De quebra, a beleza de laboratório dizimou os ideais estéticos perseguidos desde os gregos até as vésperas da Semana de 22. (Oxente, terá Monteiro Lobato tido razão?) 
Quando os limites ainda não tinham sido excedidos e não nos achávamos deuses, desesperados, egos hipertrofiados, peso intolerável, quando eu e minha irmã ainda pedíamos benção ao meu pai e à minha mãe antes de dormir (até que um dia meu cunhado, tendo ido dormir em casa e presenciado a cena que depois qualificou de humilhante submissão, me chamou a um canto e ordenou, de hoje em diante nada de benção, isso é coisa de criança, embora eu ainda tivesse uns oito anos, já velho para a época), antes sabíamos que nossa vã natureza guardava contradições intratáveis. Estas talvez pudessem ser ligeiramente tocadas nos altos círculos da aristocracia culta, que sabe tintim por tintim o que pode perder se confundir alhos e caralhos. Para a plebe que não tem onde cair morta nem viva e para quem viver é ficar eternamente à espreita das migalhas caídas das toalhas rendadas sobre as quais os ricaços celebram o júbilo de existir, as contradições humanas deveriam ter continuado intocáveis. 
A ciência veio mostrar que tudo é possível. Freud acabou (psiquiatras e neurologistas são ensinados a desdenhar do pai da psicanálise, produzindo mais dúvidas que certezas num tiroteio feroz entre os que se proclamam herdeiros genuínos e dissidentes por justa causa) com a conversa fiada de que a alma é indevassável. A Revolução Francesa já provara que nem só os ricos podem ter vida de rei. E a mídia (pulo a discussão hodierna sobre essa palavra; é aplicável como qualquer outra) escancarou os portões do paraíso para os plebeus, permitindo que roubassem o fogo dos deuses. Maravilhados, resfolegantes, de olhos vidrados, a working class passou a brincar com o fogo proibido e todos nos queimamos. 
O humanismo democracista populista desencadeado pela Revolução Francesa pariu a mosca azul que picou a caboclada. Em eras feudais, servos, cavalariços e roceiros estavam satisfeitos em receber tratamento de mula e manter distância dos mistérios do céu e da terra, obedecendo ao senhor e temendo a deus. A aia que trabalhava vinte horas por dia no castelo, muito antes de fazer a redentora bronha em Marx três vezes ao dia, provavelmente não reclamava da esporádica enrabada infligida pelo patrão. Não havia opção. E também parecia não haver alternativa à revolução burguesa. A grana produzida pelos descobrimentos, com o perdão da palavra, abundava ─ as cortes tiveram de abrir para os novos mercadores e deu-se então a degringolada. 
Os bolcheviques perderam o foguete da história porque tiveram o azar (e, para o resto de nós, a sorte) de a Europa estar metida na Primeira Guerra, que determinou o fim do século 19, o declínio do Império Britânico, o fim dum ciclo da Revolução Industrial e a ascensão do Império Americano.
Assim como a Francesa foi a culminância duma ordem que teve origem nos descobrimentos, a Revolução Russa foi resultado natural das estonteantes perturbações causadas pela Revolução Industrial e cujos espertíssimos intérpretes e arautos incluíram Newton, Voltaire e, quem diria?, Marx e suas geniais sacadas sobre os movimentos intestinos do capitalismo, juntamente com o funeral do Classicismo e da obra integral, dos romances com começo, meio e fim escritos sob as magistralmente insuperáveis e organicamente inteligíveis sinfonias de Beethoven e, antes, das divinas fugas e cantatas de Bach, que ─ não pode haver outra explicação ─, lhe foram sopradas aos ouvidos diretamente por deus, muito antes d'este ser diagnosticado morto por Kant, com certidão de óbito testemunhada por Nietzsche. O Romantismo e sua angst existencial foram o reflexo mais discernível desse vendaval. Marx, embora do escambau, conseguiu botar o dedo apenas em algumas contradições da nova era ─ a reviravolta foi acachapantemente colossal, não dando sopa nem para o igualmente colossal barbudinho que jamais imaginou que um dia estaria na foto de cabeceira de Lulla, o Metalúrgico Deslumbrado. E, depois, ele, Marx, também era humano ─ como todo bom patrão, precisava dar umas paradas para comer a empregada que culturalmente ainda vivia sob o Feudalismo e condenar a história a ser eternamente repetida. 
Uma revolução que pegou a rabeira do destempero delirante de Wagner e suas óperas quilométricas que tentaram unir o sombrio folclore germânico aos horrores do mais trágicos dos séculos, que terminou em Hitler e inaugurou a nova era sob os bills gates do Vale do Silício, uma revolução que perdeu o rumo sonoro sob o anarquismo da música dodecafônica, contemporânea das dezenas de movimentos estéticos que a cada dia se produziam na Europa convulsa tentando se firmar exatamente quando Joyce, Proust, Kafka, Picasso e outros menos votados iniciavam um retrato fugidio dos trilhões de pedacinhos em havia se convertido a amorfia da realidade, procurando rugir quando Freud começava a demonstrar ─ para quem estivesse a fim de ver ─ que estamos longe de ser donos do nosso destino (embora se tivesse inspirado literariamente nos anacrônicos insights seiscentistas de Shakespeare, que por sua vez desencavara umas lendas imperecíveis da mitologia grega), bem, essa revolução não podia dar certo. 
O momento propício passou e a oportunidade não volta mais. Parece que a luta de classes morreu na Paris de 1789, bem antes que Marx pudesse balbuciar “só sei que não sou marxista”. A Revolução da Informação provavelmente botará um fim na classe operária. Agora todos somos mestres, donos do nosso próprio nariz. A internet, o celular e toda a tralha eletrônica nos concede a liberdade absoluta de ser o que quisermos, onde quisermos, à hora que quisermos. Noventa e nove por cento da fantástica e ao mesmo tempo soporífera “experiência” on-line é lixo, claro, mas who cares? Cada um de nós tem o poder na ponta dos dedos, mesmo que a maioria acabe sem dinheiro para pagar a conta do provedor depois que a desenfreada corrida tecnológica abolir todos os empregos. 
O mundo sem fronteiras perpetrado pela informática nos distancia dos problemas que nos afligiam até ontem e que hoje retornam esporadicamente para nos atormentar qual pesadelos longínquos. O delírio de grandeza vislumbrado por Freud, a confusão entre querer e poder que invariavelmente nos faz quebrar a cara na vida, está se pulverizando frente à mágica ciberespacial. O inventor da psicanálise, provavelmente uma das três ou quatro cabeças dignas do nome no século 20, está sendo “revisto” pelos ianques, que não estão a fim de ouvir falar em limitações para o xaxado do homem na Terra. E, logo, no Universo. Onipotência deixou de ser delírio.
─ Sabe duma coisa, doutor? Cansei de ser hetero. Quero ser sapato. Quero, quero, quero! 
─ Absolutely, dona Marta! Absolutely! 
─ Como assim, absolutely, doutor? E escritora, doutor? Posso também? Sempre me amarrei naquele ar blasé-chique da Virginia Woolf. 
─ Não tem problema, dona Marta. Hoje em dia, com a internet, qualquer um escreve a porcaria que quiser. 
O zé-ninguém de hoje se pensa capaz de ter acesso à felicidade e derivados tais como bem-estar, elegância, conforto, luxo, beleza. A democracia irrestrita, confusa, sobrecarregada de direitos imerecidos porque não conquistados a ferro e sangue como antes, que, imerecida, leva na conversa os cabeças de vento de que a lei de Darwin foi finalmente abolida e podemos finalmente nos assenhorear do mundo, com o bônus do prazer infinito como manda nosso igualmente intratável senso de solidão, culminou na balbúrdia dos ismos do século 20, o século da libertinagem e da falta de compostura. É claro que “compostura” e termos que tais não foram incluídos entre a meia-dúzia de zurros que compõem o linguajar dos semiliteratos libertários que reverberam nos meios de comunicação e nas redes sociais e dos analfabetos que fazem nossas leis que, juntos, nos impõe um inferno pior que o feudal. Para eles, na mais infame das inversões de valores que ditam nossos destinos e seus rebanhos, nada é mais natural que a felicidade absoluta e nada é mais legítimo que obtê-la a qualquer preço. 
Os próceres do paraíso podem passar a perna em Freud mas não em Darwin. E nem interessa. Somos atochados desde criancinhas com quiméricos ideais democráticos propalados a quatro ventos mas praticados apenas na medida que beneficie o Poderzão com Maiúscula, aquele dos sarneys, lullas, collors e quejandos, de cuja essência apenas Kafka logrou tirar uma fina ao transportar as encrencas que arrumara com o pai para o plano mais geral da rupturas das gerações em particular e dos relacionamentos humanos em geral. (Peço humildes desculpas aos estruturalistas pela heresia de misturar a vida e a obra do sr. K.). 
Enquanto Eles espargem a cortina de fumaça de que todos temos direito a tudo, dezenas de worldtradecenters atulhados de crianças desmoronam todo santo dia nos países pobres. Não bastassem os quatro de julho e sete de setembro e todo o asneirol democrático-patriótico, agora temos de engolir a maldição do onze de setembro, glória de numerólogos asnáticos e dos maníacos por efemérides, apresentadores canastraços do jornacional choramingando a vileza dos islamitas que ainda estão nas trevas das Mil e uma noites esfregando a lâmpada esperando aparecer do nada um miraculoso gênio como provavelmente não seria possível esperar em outro país sob qualquer outra civilização mais pragmática, horror dos herdeiros dos comedores de biguemeque, porcalhões a atulhar oceanos de lixo, rios de metais pesados e o ar com o perfume da morte, leitores de Veja, inventores do fogão de acendimento automático que usaram duas cidades dos subservientes japoneses para estudar os efeitos da bomba atômica sobre a população civil, escandalizados com os selvagens mulçumanos e seu deus de araque, gente que obriga suas mulheres à burca, que vive num plano espiritual sem efeitos especiais, que não conhece as consequências da semana de sete dias de trabalho sobre as vilezas da realidade, da disciplina e da capacidade protestante em vencer a natureza, primitivos que fizeram picadinho dos magníficos duplos símbolos fálicos da América.
─ Veja só que bilauzinho, doutor! Eu queria era uma bazuca, um míssil intercontinental... uma... uma... Coisa! Que a Marta desmaiasse de ver. Que fizesse ela parar de sonhar com o negão frentista do posto da esquina.
─ Não se preocupe, seu Dudu. Estas pílulas vão resolver seu problema. De que tamanho estamos falando exatamente?
─ Hum... Uns quatro metros talvez. Que o senhor acha?
─ Quantas cabeças?
Que mulçumanos, latinos, budistas, bramanistas e outras raças/religiões dogmáticas que dão mais importância à castidade espiritual e à mitologia religiosa que pararam no tempo há três mil anos que à conta bancária e uma cozinha superautomatizada permanecem voltados para rituais tribais, adorando totens e cultuando o tio de Maomé, estão fadados ao extermínio, é óbvio. Os alemães, vivendo até a semana retrasada numa confederação de estados mais ou menos independentes sob distintos níveis de encantamento letárgico produzido pelo cravo diabólico de Bach e o sublime, demolidor piano de Beethoven, tiveram de levar duas monumentais sovas para esquecer a busca do ideal grego da beleza e entrar rapidinho na corrida tecnológica (tecnicismo que Hörderlin já criticava nos alemães de seu tempo) antes que fossem deixados para trás pelos americanos com sua congênita vocação para “fazer” dinheiro e com ele acumular poder e desenvolver tecnologia para garantir o conforto tão merecido pelos conquistadores modernos.
O pragmatismo americano, insondável para os outros povos, desabrochou na Guerra de Secessão sob a civilização saxã e a ética protestante do trabalho sacada magistralmente por outro cabeça do século 20, Weber, cujas ideias são anátema no nosso tolamente libertário Berção, cujos universitários, eternamente resolvendo os problemas do mundo com as barrigas flácidas encostadas em balcões de botequins, copo de cerveja na mão lisa de quem nunca pegou no pesado, maldizendo o infortúnio da senzala e fazendo greve contra cortes das verbas que irão sustentá-los num futuro próximo quando entrarem para o funcionalismo público, enquanto um pistolão amigo de papai não descola a vaga de escriturário na caixa econômica, onde ele, o universitário esquerdista, vai coçar o saco até morrer, metendo a mão na grana que não é dele sempre que surgir a oportunidade enquanto se prepara para ingressar num partido e repetir as práticas de gatunagem aprendidas na universidade, bem, o pragmatismo americano se consolidou na Guerra de Secessão sob o ar fresco da nova terra onde podiam fechar os olhos para o fardo cultural-histórico da Europa ainda sufocada pelo ranço da queda do Império Romano e as sucessivas encrencas que aparentemente nunca se resolveram, com a eterna pendenga França-Alemanha-Inglaterra e, em menor escala, Itália, útero do Império e onde os primeiros efeitos dos descobrimentos resultaram no Iluminismo pós-auge do poder político supremo da Igreja. O século 20, que começou a despertar na Revolução Industrial inglesa e amadurecer em 1865 nos EUA, não podia esperar. A Guerra Civil americana, que estabeleceu de vez a unidade e a identidade do país, durou quatro anos e matou mais de 600 mil soldados (ou 10% da população economicamente ativa), com bestialidade para nenhum Gêngis Khan botar defeito, a quase concomitante guerra austro-prussiana, igualmente decisiva para a unificação alemã, foi batizada de Guerra das sete semanas e consumiu pífios 30 mil, entre alemães, austríacos, italianos e húngaros, enquanto do lado debaixo do rio Grande a também concomitante Guerra do Paraguai, travada por seis anos, dizimava 90 por cento dos homens paraguaios.
Uns vinte anos antes da Guerra Civil, os EUA tinham abiscoitado do México nada menos que o estado do Texas. Os tataravôs de Carlos Fuentes, Chaves e Quico já haviam vendido o Norte da Califórnia para os ianques, mas bateram o pé quando estes disseram que também estavam a fim de um dos maiores depósitos de óleo do planeta. Em dois anos o papo estava resolvido. 
Será que teríamos enfiado o Paraguai no bolso e aberto uma comunicação com o Pacífico, engolindo o Chile se preciso, se fôssemos como os americanos? quem sabe estendendo o império brasílico até a Terra do Fogo e, aproveitando o embalo, anexando as demais republiquetas, viveiros de miseráveis manipulados por espertalhões de ONGs financiados com muita grana por canadenses, americanos e europeus que precisam descontar imposto de renda em programas sociais e sustentação de matas em perigo de extinção no Terceiro Mundo?
É curioso o desconhecimento quase total de nós não estudantes e não historiadores brasileiros sobre a guerra que travamos contra nosso vizinho hoje entreposto comercial da China. Os ianques, em estado permanente de devaneio militarista, ano a ano produzem bateladas de filmes e livros sobre a Guerra Civil que dividiu os estados nortistas e sulistas. Nós não ousamos falar do nosso passado bélico. Para eles é um passado de glória. Para nós, inexistente.
Os Estados Unidos se metem em algum tipo de guerra há 150 anos. Não pararam mais quando sacaram que podiam se tornar império numa relativa maciota. “Incorporaram” o belicismo. “Veterano de guerra” faz parte do cotidiano deles como “o luar do meu sertão” para nós. Eles têm veterano da Segunda Guerra, veterano da Guerra da Coreia, do Vietnã, da Guerra do Golfo e já da Guerra do Iraque. Não se avexam nem mesmo de ter invadido Granada. (Quem sabe em algumas décadas terão também veteranos da Guerra do Brasil, quando finalmente decidirem acabar com o carnaval na Amazônia, que caboclos incompetentes estão dizimando à desertificação.) 
Enquanto isso, o que ocorre na Europa? Há algum tempo um punhado de agricultores gauleses com bigode de Asterix atiraram algumas pelotas de queijo de leite de cabra contra a vitrine dum Mcdonalds no interior da França. Devem ter se imbuído do mesmo espírito com que cantaram a Marselhesa enquanto os chucrutes atravessavam desdenhosamente o Arco do Triunfo para ocupar Paris em junho de 1940. À parte torcerem o nariz para o incontornável domínio do inglês no mundo e terem se escondido atrás da Comunidade Europeia e da Alemanha quando peitaram a agressão americana contra o Iraque, tudo que os franceses produzem de importante no mundo são intelectuais que vêm aqui bajular Lulla porque se amarram num sindicato que garanta a todos os xeiques sindicalizados direitos eternos e aposentadorias incomensuráveis sustentadas por vassalos e odaliscas tropicais sob apoplético ataque carnavalesco. (Quando o peetê ganhou, franceses fizeram fila para homenagear o barbudinho e os “novos tempos”. Chô, frogs!)
Eis que a China assomou no horizonte. Provavelmente em 20 anos serão os novos mandarins dos reinos entulhados de lixo e oceanos assoreados de dióxido de carbono. Até lá a execução de criminosos e dissentes políticos pela bala na nuca talvez esteja implantada mundo afora. Seria bom ou ruim? Não tenho tempo nem vontade de decorar aqueles três mil ideogramas da língua deles. Comecei a aprender inglês, o idioma mais moleza que há, aos cinco anos. Não quero saber como se diz bom dia em mandarim. A simplicidade do inglês decerto azeitou o predomínio político, econômico e cultural americano. Talvez devêssemos começar a rezar para que os chinas tenham tempo de fazer em 20 anos todas as revoluções que culminaram no Ocidente que conhecemos hoje. Não acho que dona Marta e congêneres se dessem o luxo das 170 plásticas sob os novos patrões de olhinhos puxados ávidos por macaquear a América, absolutamente indiferentes à emporcalhação do planeta. O deus cristão talvez esteja dando graças a Kant por tê-lo matado ─ Ele não seria páreo para o Buda comunista.