iwjj012 passa logo?

Me arrependo
das mulheres que não amei
das mulheres que não beijei
das mulheres que não traí

Me arrependo
de cada momento
em que, por experimento,
permiti que minha mente em desnorteio se entregasse ao desespero atrás da música impossível que meus ouvidos exigiam ouvir

Me arrependo, todos os instantes,
De todos os instantes em que fugi e em que fiquei
Em que nem notei, em que dormi
Dos sonhos que não tive, dos sonhos que esqueci

Me arrependo da última dança
E, naturalmente, da primeira

Me arrependo do olhar curioso daquela garota do prédio da rua Goitacazes
Do seu perfume, da invasão inebriante em minhas narinas quando a puxei para dançar
Me arrependo, ó Deus, da sua pele de seda a roçar os pelos do meu rosto púbere

Me arrependo dos que me leem de nariz torcido me achando repetitivo e previsível
E que só fazem me arrepender cada vez mais dos meus arrependimentos

Me arrependo do que fiz, do que falei
E daquela distante tarde em que nasci

Da vida que vivi, da vida que evitei
Do pouco que fui capaz de aprender essas longas décadas
Da chuva que ameaça cair na tarde de amanhã

iwjj012 no duro

Agora me convenci
A dor existe
O padecimento intolerável existe
A degradação e a degenerescência existem
A morte existe

Retiro tudo que sonhei
Um dia

Uma noite

Amorokê - Capítulo 010

The sort of day that makes one glad to be dead.

Quanto a Soninha, é daqueles entes que nem cheiram nem fedem.
Estou sendo frívolo de novo.
Não é bem verdade. Cheira, e gostoso. Um cheiro calmante de carne fresca. Fez só o primário e seu odor é suficiente para dar conta das necessidades da expressão. Miraculoso aromazinho nesta minha jornada de ecos surdos e delírios mancos. Uma mistura fina de suor secretado sem esforço, denotando cabecinha oca, nervos firmes e glândulas saudáveis. Para ela duas dúzias de palavras não polissêmicas e sem hífen dão para o gasto. Não sou um sujeito erudito, sofisticado ou complexo. Me limito aos instintos e às emoções básicas: comer, cagar, dormir, rir e chorar, não importa a ordem. Ordem não significa nada. A ordem é inimiga da harmonia. O que os doutos chamam pedantes de potencialidades da experiência humana são apenas variações em torno dessas atividades toscas. Sonhar, quase não sonho mais, e se sonho é em inglês, acordado ou dormindo, e quando sonho não muda coisa alguma — meu autodesconhecimento prossegue impávido como sempre foi e como sempre será e como quero que seja. Outros não conheço nem quero conhecer. Algumas, queria apenas comer, se pudesse. Para uns, não almejo senão cagar. Nas duas ou três pessoas de quem me aproximei um pouco desde que nasci, não achei nada de interessante que quisesse investigar a fundo. Funduras alheias me dão enjoo. Entro enquanto dá pé. Só levo papo com gente rasa. O que os outros dizem ou deixam de dizer, pensam ou deixam de pensar, sentir e querer tem tanta importância para mim quanto um filme de Goddard ou a pseudoliteratura inflada de Humberto Eco. Tudo se resume ao forte que esmaga o fraco. Os que tentam ser grandes mas não podem acabam diletantes apodrecidos. É o Princípio da Excelência que vêm me enfiando pelo rabo desde o primeiro minuto em que passei a existir. Para quem é forte, legal. Para os fracos feito eu, apodrecimento e descarte sumário. Eis a medonha dualidade de que não posso escapar. Não fui agraciado geneticamente com monstruosa capacidade analítica. A única obscuridade em que me animo a refletir é a da fossa negra no fundo do meu quintal e do meu espírito. Não nasci com o dom de sacar a natureza humana e expressá-la em poesia, nem possuo a habilidade de desembaralhar os inumeráveis fantasmas que me assombram, não chego ao tornozelo dos grandes, não passo dum insistente aterrorizado por ataques mentais distorcidos que muito raramente se transubstanciam em poesia, sim, venderia a alma para ganhar na loteria dos excelsos, talvez um dia corte os pulsos como prenuncio ser minha sina e meu dever de fraco sem outra utilidade senão lamber o saco dos eleitos.
Apesar desta minha olímpica indiferença aos outros, consigo perceber que Soninha não aceita bem a distância que faço questão de manter de todos e de tudo que todos prezam e minha autodevoção à minha própria alienação. Ignorante qual uma bezerra a se apascentar da ração que toma por ambrosia, torce o narizinho para o que chama de minha empáfia. Típico dos que, por um motivo qualquer, por um período na vida, estão à minha volta. Sei que aparento arrogância e desprezo pelos outros. Não, lhe expliquei diversas vezes. É apenas abulia. Ela parece entender na hora, depois acaba esquecendo. É incapaz de reter palavras difíceis. Espero não ter de explicar mais cem vezes. Vejo nos seus olhos não abúlicos que ela não só não compreende como também não tá nem aí. Sabe quando alguém da família desenvolve câncer no pâncreas e você até sente algo de compaixão, lamenta franzindo o cenho para que não haja dúvidas da tua solidariedade, mas se deixa perturbar por não fazer ideia do padecimento alheio, por mais afeto que se esforce por demonstrar pelo desgraçado prestes a esticar as botas? A cruz do abúlico é insuportavelmente pesada e grotesca como a do deprimido. Se fosse escritor, escreveria Darkness Visible.
Tenho vontade de conhecê-la melhor. Ir além da pele jambo, da bunda apolínea, das pernas equinas e da ignorância antropofágica. Na cama, ela devastaria minhas pretensões transcendentalistas, me conduziria a um estado animalesco que sozinho jamais descobriria ter em mim, pois que me ensinaram que o único estado mental aceitável é a dum eunuco adorador de deus, e então, se não fosse eunuco, ia querer é que se fodesse e que ela me fodesse com sua vagina de virago, e, se não fosse eunuco, ela me puxaria para cima do corpinho meigo e me daria uma chave com pernas poderosas e então travaria minha rola dentro dos grandes lábios mais fortes e resilientes e articulados que já teria visto e enfiaria uma língua elástica e serpeante na minha boca e meteria o dedo médio no meu cu até o meio enquanto com os dedos da outra mão me apalparia o períneo me estimulando a próstata e me ninaria como se fosse minha babá primeva até meu orgasmo explodir num gozo doloroso de intenso e ao mesmo tempo ecumênico e redentor e, se não fosse eunuco, podia passar meses sobre o corpinho macio dela, sem me mexer um músculo, explorando extático e exanimado as sendas circundantes do inconsciente. Se ela quisesse virtualmente me devorar às dentadas e se não fosse eunuco, não me oporia. Então temeria que ela fosse canibal e que acabaria engolido cedo ou tarde. (Rio imaginando meus 120 quilos entalados em seu esôfago de jibóia esguia que acabou de deglutir uma capivara.) Como já vimos, ia querer é que se fodesse. Estou farto desta vidinha de eunuco racionalizador de merda. Preciso saber como devo proceder para sair por aí mugindo e abanando o rabo e babando e fornicando desvairado e inclemente feito um roedor provido duma alma de roedor.
Não a conheço, não quero conhecer, não me conheço. Autoconhecimento é picaretagem inventada pelas Grandes Corporações que Me Engambelam para obter alguma vantagem inconfessa. Persigo apenas um objetivo inatingível: gozo infinito e permanente. Tudo que não faça parte desse propósito pode ser deixado no escaninho “Práticas Diversionistas” na minha mente gangrenada de tanto almejar à luz. Lembrar, tampouco. Quando lembro, quero é esquecer. Se impossível, então morrer. O fio da meada pode ser curto quando o sujeito tem boa-fé. Religião, a mais nociva das engambelações, não tenho. Crença, idem. Superstição, neca. Sou um primário, no mau sentido. Essas palavras incomuns que só se encontram no Houaiss nascem de situações igualmente incomuns. Não tenho por que usar palavras especiais. Assim como jamais utilizo a trigonometria ou a química. Você por acaso sabe para que raios servem hidrocarbonetos policíclicos aromáticos? Eu também não. Você sabe quem é Antonio Cândido e por que cargas d'água alguém teria a pachorra de se referir a ele como founding father da doxa uspiana? Para sorte sua, não.
Mesmo que existissem palavras para cada cor de pele, ninguém saberia como usá-las. A variedade de tons e texturas dos rostos com que cruzamos dia a dia é assoberbante. Sem falar do rosto em si. Nada é mais indefinível em expressividade. Nesses cinco mil anos de civilização dormimos e acordamos encafifados, apaixonados, agoniados com semblantes. O leigo em sensibilidade, obcecado pela noção de que as respostas estão na metafísica das estrelas, passa batido. Mas sabe direitinho o que interessa: rostos. Eis a diferença. É onde mais gastamos nossa escassa energia. Caras podem ser misteriosas. Fora caras, não há mistérios. Nós é que nos amarramos em ver sombras onde há simplesmente falta de luz. Topamos qualquer coisa para escapar do tédio. Imagine nossa vidinha sem a ideia da imortalidade (que no fundo nunca negamos nem admitimos honestamente para nós mesmos, tirando espíritas, cabalistas, místicos e religiosos que empobrecem nossa amarga epopeia a uma reles passagem, faquires que se dedicam ao autoflagelo por medida preventiva contra o padecimento da carne e ascetas que renunciam desde cedo aos prazeres embriagantes porque viver dá trabalho).
Fui me dar conta do que é cor jambo quando a conheci. Me dei conta de várias outras coisas a que nunca prestara atenção. Hoje ainda não presto à maior parte do que existe neste mundão infindável. O mundo tem coisas demais. A maioria, desnecessárias. Hoje à tarde vou começar um inventário. Não. Seria inútil. Como tudo que faço. Como tudo que todos fazemos. E o mundo tem gente demais. Isso até você e essa sua índole de bater perna pelo chóping cuma sacolinha plástica pendurada na mão ao cair do crepúsculo é capaz de entender. Ela não é mulher de faquir, não sei se faquir se casa, mas recende a precaução. E prudência, naturalmente. Na época em que lia, na época em que podia ler Huxley, tudo era mais divertido. Por várias razões, que gostaria de elaborar mas de que declinarei por falta de paciência para comparar presente e passado, nossas duas únicas dimensões tangíveis.
Ela usa cabelo liso roçando os ombros. Nem curtos nem longos.
Peço perdão pelos meus vícios. Pelas palavras que contra a vontade sou forçado a usar. Por decepcionar. Pela gangorra das ideias e das possibilidades. Não sei o que é pior: quando a palavra não vem ou quando vem seguida de todo um bando e você não consegue decidir qual usar. Cada escolha é uma angústia. Vou alinhando uma atrás da outra me recriminando, essa, pesada demais, aquela, imprecisa, a outra, impertinente, um rojão na noite idílica, le mot juste é sempre a próxima. Nos meus tempos de Portas da percepção tudo era mais fácil. Para começo de papo, vivia bêbado. Não é força de expressão — Dreher de sol a sol. Até aí, nada de novo. A única diferença é que as ressacas não eram tão horripilantes como as de hoje. Aquilo é que era viver. Para espanto de madame, alguns de nós humanos nascemos incapazes de tolerar a vida. Curto e grosso: não sabemos como. Acidentes acontecem. Eis algo em que a natureza é pródiga. Os eugenistas estão certos. Excrecências como eu deviam ser removidas. Uma borrifada de aerosol exterminante e voilá. Sou uma degenerescência. Todos — madames e cavalheiros finos inclusos — degeneramos. Comigo é dom nato. Por isso, ainda cedo, entreguei meu destino a uma garrafa de Dreher combinada a um daqueles copinhos de fundo grosso que o Lacerda usa quando serve cafezinho ao peão indo ao trabalho e cachaça ao mesmo peão na volta. Agora você entendeu por que esses copinhos têm o fundo tão grosso, não entendeu? De manhãzinha, tudo bem, neguinho está razoavelmente dono de suas comichões e hormônios. O fundão se mostra útil é à noitinha, na sacra hora da pinga, o cabra despeja no chão o tradicional golinho do santo, derrama a talagada goela abaixo, geme alto de alívio e gana de matar e solta o copo no balcão numa porrada. Fosse um copo tipo americano espatifaria em mil caquinhos.
Ela me ama porque, a cada dez tentativas, em só uma sou capaz de penetrá-la. Não ofereço perigo.
Como você percebe, certos aspectos da existência dos degenerescentes também são regidos pela lógica. Os cruciais, pelo menos. É extraordinário como somos capazes de bloquear nossa atenção ao que não importa. Comigo não tem essa de horário. O prazer supremo é abrir os olhos de manhã — ou tarde, dependendo dos antecedentese logo enfiar um cigarro entre os lábios, acender e queimar sôfrego até o filtro. Lá se vai um Free Box inteirinho em apenas três profundas e ferozes tragadas. Me sinto prestes a levitar, saber que estou me punindo a uma doença fatal dá um barato reconfortante, a fumaça envenenada parece matar alguém ruim aqui dentro que não curte se intoxicar. À medida que apodreço vou me escoimando de porcarias largadas em meu interior à minha revelia. Meu ato seguinte — depois de vestir as calças resmungando uma fieira de palavrões e limpar a remela dos olhos desfiando a mesma fieira de trás para a frenteé atravessar a rua, entrar no buteco do Lacerda e permanecer. O Lacerda nota apenas perifericamente minha imperceptível presença. Sem erguer os olhos da pia onde esfrega trôpego e triste suas tralhas, pinga meticuloso um Dreher num daqueles copinhos robustos. Apanho o copo de mão cheia, envolvendo-o com todos os dedos evitando que ele fuja, encenando pela enésima vez o rito da embebição descendo incandescente por dentro de mim para me purificar da minha imundice, conduzindo lentamente ao ralo da boca e escoando enquanto espero embebedar à loucura os micróbios e amebas que hospedo inerme. Então, permaneço. É meu tributo à sina da busca duma satisfação à necessidade de permanência transcendental de brâmanes e outros devotos. Aí, bem diante dos meus olhos, acontece: minha alma sai de dentro da geladeira viscosa onde o Lacerda guarda os restos de linguiça e salaminho e cumbucas da feijoada do sábado para se instalar algures em meu interior onde é, ou devia ser, seu lugar em qualquer homem que se digne. É uma alma azul reluzente, como sóem ser todas as almas. Um azul quase marinho, contornado por uma passamanaria fina em turquesa-bebê. E uma aura rosa-esverdeada, aqui e ali iridescente de musgo. Ela se acomoda e me aquieta e por alguns minutos me vejo razoavelmente saciado da minha sede atávica de ser em eterno desmame inconformado enquanto antegozo o próximo conhaque descendo qual lava benta de vulcão infindo pelo meu esôfago para implodir no estômago. Um só instante. Até o próximo. O antegozo é o que me cabe.
Soninha não é feia nem bonita — pelo menos não tão feia quanto o Lacerda em si. Nem graciosa nem sem graça. Cabelo quase preto roçando os ombros. Braços quase roliços. É o que mais gosto nela, vagina mágica inclusa. Talvez a única coisa, ainda não tenho opinião formada, mesmo depois desses vinte anos que passaram sem que me desse conta. Todo dia depois do almoço, o Lacerda, ideias estropiadas pela pinga, arrasta dona Juçara para uma sesta no quarto da casa que fica nos fundos (o Lacerda faz várias sestas ao dia com dona Juçara, o nordestino é acima de tudo um reprodutor), antes escalando a filha para a gerência do buteco.
Ela insiste em se mudar para a minha casa. Se cansou de me servir apenas na cama. E, a notifiquei, faz uns dias que estou tentando comer a Nilzete, recepcionista do doutor Evanildo, meu dentista (popular, devo esclarecer, antes que você pense que sou funcionário público com condições de pagar dentista bom). E a Solange, adolescente do segundo ano do segundo grau que não vai bem em português e a quem dou aulas de reforço uma vez por semana em que vim a descobrir que sempre podemos tirar algo até então impensado deste nosso corpo santuário do martírio e depositário de doenças e dores e usina de dejetos).
Eu simplesmente não posso assumir uma relação estável, pois sei, embora nunca lhe tenha dito, que logo, sem poder precisar quando, logo tudo mudará, não tenho como prever. Acontece que estou trocando, aos poucos, o Dreher pelo rum. Sem marca preferida. Outro dia entrei num buteco qualquer no centro e, essas coisas acontecem comigo, entrei no buteco e pedi um rum e quando dei por mim o copo já estava vazio à minha frente no balcão, e então pedi outro e outro. Na hora saquei, a partir dali mudanças adviriam. Deixei de ir no Lacerda uns tempos, fiquei devendo um mês de conhaque e uns saquinhos de amendoim.
Um dia cedinho tocam insistentemente a campainha de casa, pulo da cama sobressaltado, corro para a porta. É dona Juçara, que às lágrimas me leva até a casinha nos fundos do bar. Ela está trancada no banheiro. Bato, chamo, forço a maçaneta. Ouvimos uns gemidos. Mando dona Juçara sair da frente, cerro os olhos com força e dou uma joelhada na porta, que, para sorte do meu joelho, é travada apenas por um trinquinho precário. O Lacerda está sentado na privada, mal se equilibrando no canto das paredes, segurando a menina no colo. Ela está sem blusa e tem as calças jeans abaixadas até o meio das coxas. Ela se levanta, puxa as calças, veste a blusa, passa por mim e dona Juçara nos fitando desafiadora e sai calmamente. O Lacerda cobre a cara com as duas mãos. Depois disso vive se esquecendo de me cobrar o fiado.


Amorokê - Capítulo 009

Quem salvou a fama póstuma de Augusto dos Anjos foi seu povo, o do Nordeste e do interior do Brasil.
Otto Maria Carpeaux


Volto para casa, vejo o pedaço de papel dobrado em cima da mesa da cozinha. Poucas coisas são tão ominosas quanto um pedaço de papel dobrado em cima da mesa da cozinha. Sempre entro em casa meio precavido. Já é meio inconsciente. Esses traumas não me largam, ó mãe.
Vem, demônio, vem e assume. Peço, não demores. E, ao chegar sem anúncio nem pompa, sê rápido.
Hoje será. Eu sei.
Vem e te traz contigo. Você faz parte um do outro.
Me mostra o que sinto. Me explica.
Não quero ser apenas mais um dos teus filhos adotivos. Me extrai do meio da manada. Vê, já me desfiz de tudo que nos distancia.
Desdobro o pedaço de papel. A letrinha bonita e arredondada de Sílvia é miúda demais. Para piorar, a tinta da Bic devia estar no fim. Para piorar ainda mais, minha vista está embaçada. Labirintite ocular. Não vou ao gastro há uns dez anos. Tenho de pôr os óculos e aproximar o papel da cara para poder ler.
Decidi que não mais existo pra te agradar. De hoje em diante vou realizar minhas vontades. Seus desejos não são mais os meus desejos. Minha vida não é mais sua, meu corpo não é mais seu. Decidi que vou satisfazer apenas os desejos do meu corpo. Afinal é só um corpo. Vou me embonecar, assumir meu lado perua. Afinal, que é que você tem com isso?
Depois que disseram que o único problema filosófico é o suicídio, comecei a me preocupar. Até fiquei obsessivo. Deixou de ser papo de moleque romântico. Nunca tinha dado muita trela antes. Deixava sair pela linha de fundo como mais uma das incontáveis imperfeições da natureza a que estamos todos sujeitos. Sendo eu um melancólico mórbido, a blague de Camus ligou alguma fantasia primitiva aqui dentro que até então estava em repouso. Já tinha pensado pacas sobre o assunto, como encano alucinado em milhões de outros, ciscando aqui e ali algo que me faça sentido nesta sonata estéril de significados, mas de repente a noção só começou a deixar de ser vaga e alheia. Foi um clique. A idéia de que podia me matar era atraente demais — e a possibilidade, exequível demais — para fingir que não estava nem aí.
Folgo em saber que detenho a última prerrogativa de continuar ou não a existir. É um dos meus poucos poderes sobre alguma coisa. (A coisa de todas as coisas.) A partir daí, assumida a queda genuína para o suicídio, tudo se resume a aguardar. Como qualquer espera que tem alguma importância, esta também se arrasta, acelera, estanca, se dilui no dia-a-dia sem que você possa berrar basta e partir para alguma outra espera. Você não faz a mínima ideia de quando a bendita hora enfim chegará. Entrementes, vou tentando reunir coragem. Entrementes, vou pensando em escrever um manual sobre o maldito. Um decálogo. Dez princípios básicos que você deve seguir para evitar que os acordes dramáticos da sonata terminem por te levar a um leito de hospital por causa dum acidente imprevisto qualquer.
Não, não estou sendo pleonástico. Você não imagina quantos acidentes imprevistos forja o pretenso suicida cujo fito não é outro senão armar um escarcéu para chamar a atenção da mulher que lhe deu o fora ou do pai workaholic que não dá lhufas para o filhote desorientado sob o peso das próprias excentricidades. O manual está guardado algures na minha cômoda de seis gavetas num canto do meu quarto. Tenho receio de botar o bicho a lume. Toda vez que leio me dou conta de que a solução final não é tão complicada de pôr em prática. Ainda não sei se sou macho o bastante para segurar a barra caso algum neurótico efetivamente use a porcaria para desembarcar deste asilo de loucos. Não posso negar, porém, que ver que algo que escrevi deu algum resultado prático, embora trágico, seria motivo de vaidade e orgulho. Sei que você não quer, mas mesmo assim vou lhe dar uma pérola de sabedoria: um dos segredos para levar sua vidinha em relativa amenidade é não acordar o demônio que habita dentro de você. Se for sensato, você vai seguir meu conselho. A desobediência é o passo inicial rumo à catástrofe, creia. Arranque a fórceps as fantasias dessa sua cabecinha oca e pelo menos uma vez escute alguém que sabe o que está falando.
Você vai dizer que esse assunto não lhe diz respeito. Vai dizer que vive na mais perfeita tranquilidade e paz. E vai dizer que não é — nem jamais será — maluco a ponto de permitir que um demônio lhe tome conta da alma. Pois diga. Respondo que, em certas pessoas, o diabo — por alguma nebulosa razão que ainda não sei explicar — prefere viver em férias, eternamente tomando sol (para que quer ficar mais bronzeado também não sei) enquanto, com uma das patas, empunha uma caipirinha de vodka, com a outra acaricia uma resma de putinhas igualmente diabólicas e com a terceira redige o enésimo acordo ortográfico para os países lusófanos.
Piadas à parte, me permita fazer uma modesta interpretação da sua personalidade. A meu ver, seu maior problema é que você é destituído do sentido trágico da vida. Não, não cometerei a asneira de lhe recomendar Sófocles ou Shakespeare. Mas quem sabe uma ou duas páginas de Roth surtam algum efeito — efêmero, admito —, sobre  a boçalidade granítica com que você busca a felicidade a todo custo.
Isto posto, sei que você continua recalcitrante. Quer pagar para ver? Então me permita dar outro conselho: nunca pague para ver. Não se faça de anarquista. Simplesmente obedeça. Cordeirinhos feito você nascem para o abate. Não se concebe um cordeirinho adepto do suicídio. Até eu mesmo me acho um cordeirinho. Um cordeirinho deslocado que sonha em ser predador. Exatamente como você, rezo para que o lobo esteja morto de fome na hora fatídica; rezo para que o lobo não se sinta disposto a fazer de mim um brinquedo para suas garras e caninos; e rezo para que o lobo seja habilidoso o bastante e dê cabo de mim em um único e indolor golpe.
Somos infinitamente distantes, não somos? Vivemos incalculáveis dores-luz longe uns dos outros. Lutamos tanto para manter um tico de pessoalidade enquanto vamos tentando em vão nos tocar.
Você tem limitações de que às vezes quer se livrar num estalar de dedos, não tem? Eu mesmo vivo fazendo isso, sempre me esquecendo de que não sou capaz, estalando os dedos feito bobo enquanto me sirvo dum aperitivo ao cair da tarde no buteco.
Com o papel na mão, no primeiro instante não atino com a truculência e a selvageria do demônio. Ela já me deixou. Digo, ela já me deixou outros bilhetes antes.
Você acha que tudo podia ser diferente? Se eu quisesse? Afinal de que me defendo com tamanha fúria, erigindo muralhas e cavando pântanos e instalando armadilhas à minha volta? Se pudesse, me transformaria em vendedor de mim mesmo, cheio de dedos e bocas e trejeitos, fileira interminável de dentes rasgando o meio da cara, se pudesse.
Nos últimos tempos Sílvia também ficou obsessiva. O rosto sempre tenso. Não me preocupei. Enquanto o suposto suicida potencial fala que vai se matar, concluí em minhas investigações — acientíficas, devo esclarecer, mas confio na minha sensibilidade para fisgar um ou outro insight quando o assunto me interessa e quando me disponho a superar a preguiça —, o infeliz está ainda na fase de pedir ajuda, testando o efeito que a idéia produz nele mesmo, atento aos reflexos produzidos no rosto do outro. O sinal de crise séria vem com o mutismo. Então o cara já caiu na ratoeira da própria piada, de repente se vê sozinho no imenso palco que armou para si mesmo e que nunca imaginou um dia fosse estrear, se desligou do mundo exterior, cortou a fitinha azul e rosa que o prendia às pessoas, é um cérebro à deriva que pode partir para virtualmente qualquer direção.


Amorokê - Capítulo 008

A lua lembraria você, se sorrisse. 
Você deixa a mesma impressão 
De algo belo mas aniquilante. 
Sylvia Plath

Fiquei impotente há dois anos e meio. Começou naquela noite em que sonhei que era eunuco.
Sílvia, tentando me consolar, explicou as maravilhas operadas pelos modernos medicamentos anti-impotência. Várias vezes jurou que não me deixaria. Naquela época achei natural acreditar.
No sonho era um eunuco inglês. Cantava A day in the lie em voz de falsete. A letra era mais ou menos assim:

Don’t know where you’ve been all these nights
My ears’ve been full with darkness
Don’t know where I’m going to
Your tracks have been leading me astray
What is it I've been waiting for
Looking straight at the horizon?
Hey listen to the moaning sounds
From clouds gathering in the skies
A lie in the day


 Acordei no meio da madrugada todo molhado. Tinha ido dormir de bexiga cheia. É melhor se mijar de bêbado do que de medo.
Levantei da cama tomando cuidado para não acordar Sílvia, fui para a sala, fechei a porta, pus uma mazurka de Chopin, enchi um copo de Balla 12 até a borda e engoli. Apanhei meu bloco de anotações e registrei a balada com que sonhara e esbocei umas ideias ainda frescas do sonho. Quando olhei pela janela era de manhã.

Não sei se já disse, Sílvia me deixou. Quando a vi de novo, teria abanado o rabo se fosse um cachorro que reencontra o primeiro dono depois de anos sem saber direito se é lembrança de alguém bom ou mau, sem poder decidir se abana ou não o rabo. Devo me alegrar ou temer? Foi ela que me salvou da minha tragédia ou foi ela a causa da minha tragédia? Devo lamber suas mãos generosas ou morder suas mãos infiéis? Meus tíbios instintos caninos não me servem de ajuda. Dejavu inédito, me deixa sem referências. Entre meus medos está o que não conheço. Uma réstia de otimismo tenta se impor. Precavido, abano.

Amorokê - Capítulo 007

Deploro tudo que escrevo no meu pêndulo multipolar. 
Wil Vaccari

Bem, antes de continuar minha história, gostaria de acrescentar só mais um detalhe sobre como vejo o que escrevo. (Ou, no dizer dum acadêmico qualquer, “meu processo de escritura”.)
Não se preocupem, não vou deitar falação teórica a respeito. Deixo a tarefa para o retro-referido acadêmico. Apenas ilustrarei o tema com um instantâneo dos vários estados em que escrevo. O que se segue neste sétimo capítulo é um exemplo do que verti ontem à noite sentado à minha mesa no canto mais escuro do buteco do Lacerda depois de engolir meia garrafa de vodka. Quero crer que, além do álcool, este trecho sofreu uma influência combinada de Lispector com Nelson Rodrigues. Sei que soa absolutamente improvável, mas acredito que seja o diagnóstico mais próximo da coisa. Não sei dizer quanto de Lispector e quanto de Nelson há aqui. Não vejo mal em ficarmos no meio-termo. A título de advertência, em outras passagens haverá mais de um e menos do outro e vice-versa. Em outras, ainda, nenhum dos dois, graças aos céus.

É chato discriminar. Eis o que penso da batelada de questões que a vida coloca. (Parece uma daquelas máquinas de treinar tênis, desvairada, centenas de bolas arremessadas em minha direção todas duma vez e eu, pobre, sem raquete.)
Literatura requer coragem, a vida, não. A vida não requer nada, a literatura, tudo. A vida não requer nada porque não se presta a conjugar seja verbos diretos ou indiretos. A vida não se presta a nada, pois não existe. É apenas um nome, nome abstrato que inventaram para designar a fenomenal combinação formada pela incidência e as cores das luzes, a reverberação dos sons e seus ecos, a intangibilidade da neblina. E, acima de tudo, a incomensurável passagem do tempo. Que nossos tolos relógios ficam loucos tentando medir.
Balbuciar “vida” é criar uma prece de exaltação ao esquecimento. Pensamos que sabemos do que falamos quando proferimos esse nome. Mas quando falamos “vida”, o tempo simplesmente para pela duração necessária para pronunciarmos as duas sílabas enquanto algo desmorona dentro da gente num gigantesco movimento inaudível, insentido, que aqueles agora cadáveres da região serrana do Rio e de Santa Catarina e da estação Pinheiros do metrô de Sampa devem ter vislumbrado em toda sua magnificência e horror um segundo antes de a avalanche carregar seu mundo embora. A vida é uma montanha que rui, rui e rui quando pensamos que é nosso dever — e pior, missão — enfrentá-la. Não passa duma ideia cheia de vácuo que imaginamos estar sempre guardadinha ao alcance da nossa necessidade de substância.
A literatura requer tudo porque é feita da vida que não há mas que mesmo assim constitui sua origem e sua base. Para mim — e, imagino, para quem quer que escreva — é vicária, i.e., exerce um papel de substituta na falta de algo mais apropriado. Como tal, quebra-galho. As palavras, que são seus constituintes, e como comprovou o linguista francês Saussure, são arbitrárias. Não têm nenhuma relação legítima ou de causa e efeito com o que conotam. (Mas não vou tomar esse atalho, é deveras bananoso.)
A literatura, impossibilitada de compreender algo que é inalcançável às palavras, tem de se contentar com tratar de gente como a gente através do teclado de gente como a gente. Ainda se nosso teclado tivesse tivesse milhões, bilhões de teclas...
Daí o pega-pra-capá em que os “pensadores” entram há pelos menos uns 4 mil anos. Daí, também, um sinal de alerta aos frívolos que dispensam os que se dispõem a tentar agarrar o rabo da besta cum seco piparote de seus dedões limpos do sangue e a assepsia de sua inaquilatável ingenuidade.
Blake provavelmente sabia do que estava falando nesse seu dístico sobre excesso/sabedoria. Leio Blake desde rapazote e por anos mantive um poema dele, London, emoldurado e pendurado numa das paredes do meu escritório, entre aquela foto em que Pessoa está diante dum balcão virando um copo de Clarete e um retrato de Kafka amarguradíssimo. Minhas paredes eram cobertas dos grandes. Me sentia protegido e meio cúmplice. Um dia tirei tudo, deixei só o Kafka, imagino que sem nenhuma razão particular.
De qualquer maneira, não acho que exista (grande) poeta que se mantenha ao largo do excesso ou não se devote a buscar algo de sabedoria. Assim como não há grande poeta que passe a existência propalando esse otimismo bobo a que chamo de de-bem-coa-vida. Não existem grandes poetas otimistas, joviais, assertivos, leves. Period.
Tenho dúvida se experiências intensas sempre são enriquecedoras. O que sei é que são as que ficam e que isso é o óbvio. Também tenho (grande) dúvida sobre a utilidade da experiência na formação do meu intelecto. Digo, A Experiência, não apenas as ruins. Venho guardando diligentemente comigo muito do que vivi na adolescência e nunca deixo de sentir inveja de mim naquela época quando lembro. Ser provido de recursos vocabulares para apreender a experiência não é a questão aqui. A adolescência é um distanciamento do mundo tão assoberbante e autêntico, que passamos (nós, deslocados) o resto da vida tentando compreender e, tomara, reviver. O que nos deixa um travo azedo na boca. Tudo parece ter sua hora.
Rimbaud atingiu seu auge estético aos parcos 16 anos. Nessa idade eu ainda lia tudo que me caísse nas mãos, absolutamente inseguro de que rumo tomar. Se eu-aquele pudesse ter perguntado a eu-este, eu-este responderia, esquece essa bobagem de rumo. Eis um dos grandes problemas do fenômeno da experiência. Esta faz parte do nosso instinto de sobrevivência e leva de roldão quase tudo que pensamos ter de sagrado em nós.
Iluminação.
Iluminação? (Estou me esforçando para resistir a uma das minhas piadas.)
Se dissesse quantas vezes atinjo a “iluminação” num só dia, vocês na certa ririam. Iluminação, e “rumo”, são conceitos que me enfiam na cachola desde que aprendi a falar e de que, junto com todo o resto de lixo alheio que me obrigaram a aceitar como meu, me esforço dia após dia para atirar fora.
Pensar, pensar de verdade, exige demolir os monumentos mentais que nos inculcam desde o berço em nome da sobrevivência. Ponto para a raça. Afinal, não devemos desprezar os 5 mil anos em que vimos aprendendo a derrotar a natureza para não morrer de fome e frio. Mas, de novo, nada a ver com escrever. Por que não escrever no escuro? É, acho, o que fazem os escritores em sua maioria. A escrita tem uma luz própria que leva indiferente o autor subjugado e que prescinde da nossa. De minha parte, comecei a escrever do jeito que gosto depois que percebi que tinha de me desfazer dos monumentos erguidos por outros. Aos vinte, escrevia empolado e insincero qual um causídico fazendo um pleito a um magistrado. Acho que é por isso que muitos escritores jogam na lata de lixo grande parte do que verteram antes de atingir a “maturidade” intelectual. Hoje obro muita porcaria e me dou por satisfeito.
Seja como for, essa iluminação excelsa só cabe aos excelsos. E na forma como vejo as coisas hoje, iluminação para mim guarda uma irrecorrível conotação de religiosidade e dessa procuro cair fora no ato. Os budistas se dizem iluminados mas parecem não saber necas de si mesmos. E ainda cometem terríveis injustiças em nome de sua inner light.
Bebo, e fumo, por prazer, não necessidade ou buscando inspiração. Com o tempo você aprende que o prazer é um bom critério de desempate. Na falta de outros minimamente confiáveis. Que outras alternativas você tem? Seu pai lhe ensinou a salvar a própria pele, e tal ensinamento mastodôntico acachapa todos os outros que no fundo você sabe que devia, ou podia, ter aprendido e não aprendeu.
Para mim particularmente é um aprendizado recente. Sempre cometi os chamados “excessos”. Mas antes eram pelas razões e para os propósitos errados. Na maioria me levavam a fugir, sem nenhuma ideia para onde. A fuga talvez seja o maior dos nossos erros. Nos ensinam a ser covardes, lição que se enraíza indelevelmente em nosso cérebro. E as implicações são simplesmente nefastas. Desenvolvemos uma  blindagem de que nada sai e em que nada entra. E nos enclausuramos numa casamata, munidos duma arma que não sabemos direito o que seja, para derrotar inimigos que não sabemos direito quem são.
Não, meus excessos não fizeram nem fazem de mim um visionário. Não quero nenhum poder de enxergar além de mim ou do que quer que seja. Minha limitadíssima realidade me basta. E é imensamente mais do que sou capaz de destrinchar. Meu escritório fica a uns 30 metros da minha casa. Me dou por feliz quando ao longo desse trajeto que percorro em 20 segundos consigo descer um tico em direção às profundezas cuja porta ora encontro aberta, ora sequer desconfio que exista e tenho a chance de me sentar à minha mesa ainda retendo algo digno de nota. É raro. Minha cabeça tem foro próprio e não dá pelota às minhas vontades. Eis outra lição que aprendi tarde. Antes, vivia tentando botá-la num arreio, guiá-la pelas belas sendas da imaginação. Minha luta diária é exercitar o descontrole. Não é moleza, ó mãe.
Depressão.
Se você chegou a um nível de depressão equivalente ao meu, sinto tremendamente e torço para que consiga se safar. Vai soar patético mas deprimidos me dão vontade de chorar, por conhecimento de causa.
Sempre curti brincar de deprimido. Não sabia distinguir de tristeza, bode, tédio, ódio, bobagens normais. Vejo a molecada por aí se proclamando deprimida e penso, você nem imagina a fria em que pretende se meter.
Na minha família parece ser herdada. A minha foi deflagrada com a morte de mamãe aos 95 anos, os últimos cinco prostrada de fadiga de viver, sinais diários do fim, e eu me considerava relativamente preparado. Outra vez, as peças que a racionalização nos prega.
Na semana seguinte, deitado no sofá lendo um livro que prefiro não dizer qual é, de repente me senti num estado inédito e irreconhecível. Até aí, mais ou menos normal, sempre tive essas mudanças de “humor”. Imaginei que amanhã passaria, como das outras vezes. Piorou, mas. Em dois dias estava catatônico, inerme, destituído de pensamentos e vontades e desejos e senso de autopreservação. Levei dois meses para admitir que precisaria de ajuda. Se vivesse sozinho, seria definitivamente o fim. Morreria de olhar fixo no teto do quarto.
É um desespero insolúvel. Quem quiser ter vaga ideia, leia Darkness Visible, de William Styron. Um dos meus poucos heróis.
Périplo íntimo, certezas castradoras, coragem de se atrever à viagem, Blake e o excesso de si mesmo.
Vou fazer um tipo de confidência. Sei que é um perigo — depois vão querer usar minha sinceridade contra mim. Já aconteceu antes.
Em algum momento entre a pós-adolescência e a idade da razão experimentei um turning-point. Minhas certezas mais instintivas e naturais cederam terreno às injunções do pragmatismo vital. Foi exatamente quando emergiram minhas primeiras noções do que significa ser adulto e responsável. Renunciei ao meu “projeto” pessoal, pois que o tinha muito bem claro na cabeça, para me submeter às inexoráveis rodas de que fala Herman Hesse.
Como que por encanto (as tais injunções etárias são de fato irresistíveis), vi que chegara a hora de abandonar minhas ilusões infantis e finalmente partir para a briga. Parei de escrever, deixei as drogas pesadas, casei com Sílvia e me coloquei à disposição da vida para que ela me conduzisse pelo caminho que lhe aprouvesse.
Tenho de interromper minha confidência aqui. Por ora só quero, e posso, adiantar que a vida efetivamente me tomou pelo braço e tem me puxado, ora a contragosto, ora de olhos deliciosamente fechados, em direções insuspeitas.
Mas (?) tenho presente que um dia lá trás fui meu próprio senhor. Não há como não fantasiar o que eu poderia ter sido e não fui. A única certeza é que estaria morto, sem considerar o mérito da questão.
Chego aqui com a impressão de que estou me mostrando espetacularmente confuso. Provavelmente não demonstrei nada do que pretendia demonstrar. Acho que não queria demonstrar nada. Aos meus desafetos, prato cheio. Pior para eles, sempre à espreita duma boa presa mas eternamente esfomeados.
Duvide. Duvide dos seus pensamentos, das suas fantasias, dos seus sonhos. Duvide do instinto do cão que se acha no dever de perseguir o gato. Do que lhe dizem. Das suas dúvidas. Duvide de mim, duvide de você.
Duvide do seu caminho, duvide que possam haver caminhos. A noção de caminho é demasiadamente física, evocadora do remoto, inacessível mundo lá de fora. Não quero andar, seguir a lua nem o sol. Minhas ruas não estão no Googlemaps. Os astros simplesmente transladam incônscios de suas órbitas. Se soubessem, provavelmente se rebelariam de seu destino e provocariam a hecatombe final. Por mim, nada contra.

ovjj012

Às vezes o mundo fica 
tão estranho de repente
que não estranharia
descobrir finalmente
que viver não tem mistério


(para minha Zezeí que vai se despedindo)

Novo capítulo de "O céu"

Capítulo 17 - O dia que nunca chega


http://oceudecandido.blogspot.com.br/

Amorokê - Capítulo 006


Tento me limitar às minhas impressões.
Wil Vaccari

Antes de me “aprofundar” nas peripécias que vivo neste meu estranho mundo e de falar dos personagens que o habitam, gostaria de me apresentar formalmente. Não topo muito esses romances por aí em que as gentes vão entrando de supetão e saindo de fininho, deixando o pobre leitor mais perdido que o Borges em salão de cabeleireira.
Meus conhecidos são pessoas humildes e obedientes: caipiras, devedores, doceiras,  jogadoras de game da lan-house no outro quarteirão, balconistas da farmácia ali na esquina, as atendentes da casa lotérica em frente. Não conheço caçadores, escritores ou gente que aplique na bolsa.
Em poucas palavras, sou mais ou menos assim.
Minhas pernas são inquietas, meus pés, desorientados, minhas mãos, ansiosas pelos relevos e depressões do corpo de Sílvia. Busco fatos, não abstrações obscuras. Torço para que uma ventania venha dissipar a fumaça e me dê a graça de driblar a boca do poço escorregadio pelo menos mais um dia. Quando mergulhar, não terei forças para me safar da água fria e turva. Posso sentir o sufoco que antecede o afogamento. Será conveniente gritar por socorro? Não quero alarmar os que me cercam. Sílvia não pode me ver assim. Não depois de todas as noites em que cobri cada centímetro de seu corpo com os mais doces beijos de que fui capaz.
Cuspo um sorvo da água râncida. Provavelmente não terei saúde suficiente para a empreitada. Fim. Meu cadáver enrijece. Devo fazer pelo menos uma tentativa. Vaga, espasmódica que seja.
Todas as pessoas que conheço têm algo em comum: a paixão que a elas devotei. Por umas, avassaladora. Por outras, tíbia.
Minha passagem tem sido tudo menos chata. Desde a noite imemorial em que meu pai fertilizou minha mãe para ir embora no dia seguinte. Minha mãe foi uma mulher bela e acolhedora. Seu único divertimento era pegar um bronzeado tropical dormitando entre um córrego de esgoto e outro nas areias da Praia Grande, onde se conheceram. Por que geraram este meu sangue conspurcado e esta minha carne excessivamente macia,  jamais disposta às empreitadas que me couberam, não sei. Fui expelido apalermado ao mundo e em apalermada estátua me empedrei.
Cumpre mencionar que meu pai não me deixou herança fora a labirintite permanente e a desventurança características da estirpe. Também não herdei o tirocínio de aceitar pacificamente que sou um deserdado. Se aceitasse, teria fugido das peripécias que engendrei para fazer cumprir meu direito a recebê-la e me poupado das enrascadas em que tais peripécias infalivelmente me enfiaram.
Dentre todos que conheço, Fred é o mais inevitável. E, como você notará, trágico. Não fosse, seria impossível admirá-lo ou conviver com ele. Fred tem a magreza obscena dum prisioneiro de Auschwitz. Você vai dizer que sou frívolo, mas invejo os que padeceram diretamente o holocausto. Pelo menos têm uma razão concreta para a angústia que os devora.
A cabeça tomba para trás, flexionando a nuca, alterando o campo de visão dos olhos, que se fecham. Os dedos dançam frenéticos. Não, me recuso. Tentarei me restringir ao estritamente necessário.
Meu rosto? É soporífero e meloso e, portanto, gorducho. Meu olhar? Estéril. Minha mente? Inundada da figura da Sílvia dos dias em que ela me chamava de benzinho.
Eu? Um rato fascinado por incêndios, embalado por vagarosos, pesados vagalhões que sobem do passado assim do nada, atormentado por uma coceirinha na virilha, que os dedos se negam a atender. Meus artelhos? Meus artelhos se retorcem impacientes, um pé pousa indeciso sobre o outro. Meus pensamentos? Caóticos. Minhas palavras? Sem razão. Meus padecimentos? Atrozes e infrutíferos, apenas sinônimos de atrocidades.
Meu mundo? Habitado por um advogado, um matador, um dono de bar, Soninha,  fornicadora competente determinada a erradicar a brochice que resultou dos meus relacionamentos com outras mulheres. Soninha diz que é este o único mal de que sofro e que ela é meu remédio.
Irmãos? Resistirei à tentação de falar deles.
Coceirinha. A mão direita desliza de mansinho sobre o brim azul desbotado da calça, os quadris sacolejam um átimo erguendo a bunda do assento, a mão solerte coça sem que o cérebro se dê conta.
Metas? Ressuscitar minha língua que jaz morta e lutar para que meus ouvidos não ensurdeçam sob a conversa fiada e meus olhos não se convertam em meros espelhos estéreis.
Desejos? Que as mãos de Sílvia pousem cada qual sobre um dos meus ombros, como sempre leves, não intrusivas, e sua voz sussurre perto da minha orelha esquerda, nunca mais vou te deixar, eu te amo.
Pretensão? Ser um paladino contra a mentira.
Tiques? Tolos esbravejos ocasionais.
Dúvida? Mon amour, que vou fazer neste apartamento sozinho comigo mesmo?
Esperança? Que a campainha do telefone toque, dissipando este amontoado de sombras sobrepostas a sombras.
Que minha paciência não acabe.
Cenário? Estamos trepando. Trepando vendo tevê. Eu, pensando. Ela, trepando. Cada qual com seus motivos particulares. Meus golpes são evasivos, não há como equipará-los às acrobacias dela.
Música preferida? A day in the lie.
Minha cabeça tomba, meus olhos olham para trás tentando enxergar seu rosto, a labirintite prontamente desencadeia a dança das paredes. Sílvia se dilui na névoa, se funde a Soninha, vulto cinzento rindo sem rosto.
Talvez fosse melhor se tudo tivesse sido diferente. Essa tua insuportável mania de não responder quando digo que te amo.

Eu sou eu. Só me resta cumprir meu papel.

Amorokê - Capítulo 005


E o mais maravilhoso de tudo são as palavras e como elas fazem amizade entre si, se associando continuamente, até que nem mesmo obituários as separam.
O. Henry

Acordo de má vontade, me levanto pesando uma tonelada, faxina usual das vísceras, xícara de café na cozinha, espio através do vitrô, olho o mundo com olhar vítreo de sono e repulsa.
Sonhei que era o sujeito mais solitário do mundo. (Tenho pena de mim mesmo.) Ir sonhando assim de cara não é mole, bem sei. Foi em inglês. Sonhar em inglês em geral é predição de problema. Se britânico, catástrofe. Nada a ver com superstição. Ainda mais que não há semelhança entre analisar sonhos e ser supersticioso. Detesto supersticiosos e sua atitude prudente anti-especulativa frente à existência. (Eu mesmo não sou muito afeito a especulações; mas sobre bases outras.) Acontece que em muitas ocasiões acabei cometendo alguma cagada homérica depois de ter sonhado em inglês. É uma espécie de aviso. Sei, leva jeito de superstição/premonição. Você vai dizer que o sonho me deixa encucado e perturbado (mais do que já sou) a ponto de fazer uma burrada. Pode ser. Vai ver é exatamente esse o mecanismo sob a superstição. Não me interessa. Sou avesso a superstição. Nem sei por que estou falando disso. Talvez por causa do sonho. Quis dizer cisma. Essa não me falta.
Tem sofrimento demais neste mundo.
Se os fumos etílicos me permitem um mínimo de mnemonização, parece que ontem à noite, durante o penúltimo gole (o último nunca haverá de chegar), o tal de Fred chega do nada, senta à minha mesa no canto mais escuro do salão do buteco, tira algo do bolso de dentro do casaso e mo dá.
Parece um envelope. Outro. Branco
– Que raio é isto? — pergunto, apanhando o envelope branco.
– Um roteiro para seu livro — Fred diz com simplicidade, pousando as mãos na mesa.
Meu queixo cai, obviamente. Solto o envelope incontinenti, enojado. Empurro a cadeira para trás, me distanciando da mesa como se o envelope fosse uma cascavel armando o bote na minha direção.
Sem rir, Fred se diverte, saboreando sem pejo minha reação de asco.
– Que porra?
– Não se preocupe. É competente.
Emborco o stein dentro da boca e solto o copo na mesa com espalhafato para chamar a atenção do Lacerda sem precisar voltar a cabeça para o balcão. É o código para ele me acudir instantaneamente.
– Um... um roteirista? Outro escritor? Crítico?
– Mais ou menos.
Engulo o segundo stein e soco o copo na mesa de novo.
– Não estava no trato.
– E daí?
Estou desarmado. Espremo os olhos para ele com a minha cara de mau. Crispo os punhos dando a entender que posso cobrir ele de porrada.
– Não vá me dizer que trato é trato. — Agora ele ri abertamente. Me desarma uma segunda vez. Filho da puta.
– Quem? Conhecido?
– Não posso dizer.
– Fora de questão.
– Agora que já lhe entreguei o material, o trato não pode ser desfeito. — Ele observa meus punhos e sorri.
– Idade pelo menos.
– Se eu disser, você adivinha.
– E se for um fariseu ignorante? Não posso me expor assim.
– Pessoa cultíssima.
– E se sair por aí espalhando meu processo de trabalho?
– Não se preocupe. É responsável.
– Me dê alguma coisa. Qualquer coisa.
– Tudo bem. Mulher.
Minha cabeça pende para a frente, sinto que a ponta do queixo me comprime o peito. Tento amarrar os pensamentos em alguma âncora. Todos escapolem, incapazes de se demorar.
– Será mais uma fonte de inspiração — Fred encoraja. — Que escritor não gostaria duma ajudazinha quando está sem inspiração? Ainda mais duma desconhecida sabidamente interessada em seus escritos?
Ouço a voz (que voz?) e me emociono e concordo. A voz me traz lágrimas aos olhos. Não é bom quando você não pode fazer nada senão chorar? Não há a angústia das alternativas.
– Vamos fingir que é Sylvia.
– Plath?
– Isso.

Okay, vou escrever para os olhos de Plath minha parceira literária. Um doloroso pensamento instantâneo feito um estalo de dedos me explode no cérebro em que corto meu próprio pinto para tentar me qualificar para a tarefa. O desumano Ted depositou seu pênis laureado e praticamente gótico no indesvirginável ventre da minha Sylvia, inoculando no útero da angelical diaba o vírus da minha espécie.

Amorokê - Capítulo 004


Frases são apenas amontoados gráficos e sonoros aleatórios e anestésicos. Não recordamos o que importa de fato nem compreendemos as palavras. Somos eternas crianças inaptas para o aprendizado que nunca se concretiza.


Começo a ler a folha que tirei do maço, o título “Horror à poesia” capta meus olhos, me animo de pronto.
Resta ver se o cara segura as pontas da enormidade de implicações de tamanha pretensão.
Afora Eliot, Gombrowicz e outros menos cotados, poucos denunciaram com competência o excesso poético que leva ao cafona balofo dos que só sabem se empanturrar do gosto hiperbólico da rapadura coberta em melaço com chantili e cerejas acompanhada duma caneca de garapa.
Leio a primeira linha.
“A poesia mais elevada é aquela que atinge a profundeza do antipoético.”
Gostei. Me lembro de tomar um gole. Não vou dormir tão cedo mesmo. E o escuro lá fora não cessa de me atiçar. Sou um antipoeta romântico.
Quase todo mundo que conheço que se proclama apreciador de poesia mal ultrapassa Florbela Spanca, Mário Quintana e adjacências, o triângulo das Bermudas que devora flores, dores e amores feito um buraco negro lírico. A esses somam-se prodígios da literatura pop qual Clarice Lispector e Caio Fernando Abreu, leões-de-chácara da boa prosa de autoajuda.
Okay, forço a barra enfiando Clarice no mesmo saco que os demais. Mas o tacho da dúvida quanto à unicidade do eu e as brincadeiras com o espelho já foi suficientemente raspado por Pessoa. A ABL devia proibir a fuzarca de citações de trechos e versos de ambos nos portais de relacionamento. Raramente se encontra um perfil livre de vestígios de um dos dois.
Mas é o gaúcho o portento dos poetas bem-intencionados. Sei, vão me xingar por deitar o sarrafo no cara. Sempre tenho gana de esculhambar o Quintana quando penso nele. O poeta bom-mocista. O poeta-gracinha. Galã do panteão. O otimista. O perseverante. O afirmativo. O empático. Sempre algo positivo a nos dizer sobre o assombro que é viver. Você quer levar para casa, botar em cima da penteadeira qual um ursinho de pelúcia. Metade da vida mendigando uma boquinha na academia geriátrica de letras, que lhe respondeu cuma banana atrás da outra. Não sei ler a poesia dele sem imaginá-lo de pires na mão atrás de sarneys e generais de pijama e críticos medievais por um voto. Poetas não podem nutrir esse tipo de vaidade mundana. Poetas não são gente. Poetas têm de levar ferro, sentar ferro, não podem ser homenageados, condecorados, citados, idolatrados, invejados, imitados. Poetas têm de sofrer. 
O reconhecedor da poesia é aquele que não só tem o olhar arrebatado pelo incêndio mas também sonha em ser incinerado vivo e anseia para que o fogo devore o próprio sonho enquanto seus lábios murmuram que deseja que lhe cortem a língua para que assim ela, a língua, talvez lhe revele a sua verdade, aquela que até hoje não foi capaz de escutar em nenhum outro lugar e enquanto uma de suas mãos, parada e caída, seja apanhada pelo mais belo dos demônios e os dedos da outra se lhe cravem na garganta ao mesmo tempo em que um de seus olhos se fecha, atento ao que há dentro e o outro se arregala sob o facho de luz que brilha desde o céu a lhe queimar a retina.
Soninha para de roncar, solta um gemido, me preparo: vai acordar.
Que é que tá fazendo aí sentado?
Explorando o Grand Canyon.
Quero conhecer o Grand Canyon.
Vou tentar falar de Soninha mais à frente. Estou hesitante. Não queria nem incluí-la na história. Não sei direito o que pensar dela. E como é que você vai falar dum personagem do qual não sabe o que pensar? E a pobrezinha tem 16 aninhos e se apodera dos meus sensos e sentidos de forma absolutamente assoberbante. E o pai dela, o Lacerda — sim, o dono do buteco —, a violenta desde os doze. Ela diz que não, não é, nunca foi estupro, mas mando ela calar a boca, não permito que se confesse cúmplice do pai.
Onde fica o Grand Canyon afinal?
Soninha sonha em ser viajante do mundo.
Bem, posso adiantar por ora que gosto de Soninha porque ela é limitada, intelectualmente ingênua e jamais lhe passa pela cabeça competir comigo em outras esferas que a não a sexual. E, glória divina, ao contrário de mim, nunca se sente ameaçada, seja por fantasmas reais ou bandidos imaginários.
Uma semana depois que nos conhecemos no buteco, disse que queria casar.
A ideia me pareceu boa. Ela se emanciparia legalmente, poderia mandar na própria vida, se livrar do pai.
Quando lhe expliquei isso, respondeu que não queria se livrar do Lacerda.
Nem pensar, fechei questão.
Ela desatou a chorar.
Concordei.
Quis que eu pedisse sua mão.
Nem pensar, me assustei. Já vi a coleção de peixeiras do Lacerda.
Então a própria Soninha comunicou o casório ao pai, enquanto me trancava em casa por três dias até me certificar que o pai da noiva não ia esquartejar o noivo.
O Lacerda não concordou, claro. Não queria que a menina saísse de casa. Mas podíamos namorar. Um dia talvez desse sua benção. E tudo em agradecimento aos meus préstimos no alemão e nos livros. Seu maior objetivo era ser intelectual.
Vendo que eu não respondia, Soninha cobriu a cabeça com o lençol e pegou no sono de novo.
Levanto, me enfio numa calça de lã e desço para o escritório.
Venho matutando se faço um poema ou não.
Esse pensamento me horroriza. A palavra é pesada, sei. Horrorizava, no primário e depois no ginásio. Os culpados são professores iletrados e preguiçosos aliados aos parnasianos e seus sonetões embalsamados, de que todos tomamos doses elefantais na infância e cujas qualidades e defeitos só pude vir a apreciar adulto, naquela idade em que a maioria de nós já angariou experiência suficiente para obter autoconfiança razoável e finalmente consegue superar traumas psíquicos e poéticos. (Obviamente me refiro à maioria "normal", não a gênios que não se encaixam em classes e categorias qual rimbauds e byrons. O que me intriga em Rimbaud é se ele logrou a beleza de sua poesia mesmo sem vivência ou se logrou a vivência necessária muito antes de nós pasquácios.)
Sempre tive dificuldade em aceitar naturalmente a solenidade do poema, a pomposidade afetada dos bilacs, a artificialidade do parem-tudo-agora-vou-falar-de-sentimentos-nobres, a "especialidade" do momento sublime. Certo, só tarde descobri que o maior problema da poesia é ter de transformar sentimentos em palavras. Come to think of it, esse é o problema de toda literatura. Vai ver é por isso que se cometem atrocidades literárias às toneladas hoje e sempre e em todas as línguas. Vai ver também é por isso que às vezes críticos até que têm alguma utilidade. E não me refiro a bons ou maus em particular. Alguém precisa inventar a literatura sem palavras.
Gombrowicz já disse, acho, tudo a respeito em Contra los poetas . É um textículo de quatro páginas, que mesmo poetas podem ler entre um alexandrino e outro. Quando você quiser detonar um vate qualquer por quem tenha particular ojeriza, os argumentos estão todos lá no textinho de Gombrowicz, que, se eu tiver bastante energia, ganhará um capítulo só dele neste meu relato de blagues malsãs.
Afora porretadas homéricas e algumas sacadas aristotélicas (ele não parece fazer distinção entre poesia boa e ruim, tipo a e tipo b, usando apenas termos genéricos), o que deve interessar especialmente ao leitor não literato (a quem, imagino, sempre me dirijo) é o trecho em que se mostra assombrado quando verifica que muitos dos que se dizem admiradores da poesia sequer a leem. Isso é, acho, interessante porque você pode comprovar aí mesmo em sua casa, consultório ou oficina, não precisa de tecnologia de ponta nem mestrado na Uninove: basta olhar no espelho e se perguntar "afinal, li mesmo Psicografia  e achei do balakobako ou na verdade tudo que conheço é aquele "o poeta é um fingidor" que já nasceu clichê? Viu como foi fácil? Daí a importância de pensadores iconoclásticos.
Por qué no me gusta la poesía pura? Por las mismas razones por las cuales no me gusta el azúcar "puro". El azúcar encanta cuando lo tomamos junto con el café pero nadie se comería un plato de azúcar: sería ya demasiado. Es el exceso lo que cansa en la poesía: exceso de la poesía, exceso de palabras poéticas, exceso de metáforas, exceso de nobleza, exceso de depuración y de condensación que asemejan los versos a un producto químico.
A afetação talvez seja o que mais incomoda na poesia. O poeta afetado (quase todos?) logo no título "peculiar" revela que vem chegando cheio de segundas intenções, nenhuma delas "confessável". Okay, um dos propósitos da literatura é enganar — a leitura é um acordo tácito em que o autor se compromete a inventar situações mais ou menos legíveis (e, se for bom, deleitáveis) e o leitor se compromete a engolir de livre e espontânea vontade tais invencionices. Isso na ficção. Como poesia não é, o poeta afetado parece estar violando por princípio uma regra. Não há poesia sem sinceridade. (Tampouco literatura. Mas na poesia é mais patente.) O problema é que carinha simplesmente não consegue se conter. A maioria dos "poetas" sofre de incontinência verbal. O cara se acostumou a escrever, ou versejar, e nesse acostumamento, que em geral leva anos ou décadas, adquiriu posturas e desenvolveu técnicas e descobriu como forjar truques. (Um dos mais manjados é o "adjetivo inaudito". Esse exercício você também pode praticar em casa. Pegue um poema qualquer na rede, de preferência de algum poeta enaltecido pela crítica, e lá está, um ou vários substantivos qualificados por um adjetivozinho arretado e estrambótico, em geral destinado a criar um climazinho de, com perdão da palavra, estranhamento. É batata.) A inspiração vira preterível. Em alguns casos, carinha até aprende a suprimi-la. Inspiração, quando autêntica, perturba. Tem hora que é intratável, você não consegue senão se prostrar agoniado, esperando que a maldita vá embora. Isso me ocorreu mais claramente ainda há pouco, quando eu estava num site literário clicando aleatoriamente numa página de poemas de Bilac. No mais das vezes um amontoado artificioso de técnicas vazias. E o fato de que era parnaso não justifica. Muitos dos românticos são sacais. Simbolistas, mais ainda. Concretistas, hors concours.
Poucos gostam de literatura, pouquíssimos, de poesia. Quase todos acham que deviam gostar, só não imaginam por quê. Sobretudo na poesia, em geral buscam as razões erradas. Na sacada de Gombrowicz, as razões erradas são exceso de la poesía, exceso de palabras poéticas, exceso de metáforas, exceso de nobleza, exceso de depuración y de condensación que asemejan los versos a un producto químico.
O "sistema" é o culpado. Não se lê O tronco do ipê aos oito anos impunemente, em pleno fim do século vinte, modernismo já de bengala e fralda geriátrica, nós fumando no banheiro da escola, alguns já bebendo escondido, muitos em três ou quatro anos estaríamos nos iniciando em anfetaminas, national kid às segundas na Record, todos nos perguntando quase alucinados as perguntas que todo moleque se faz a si e a colegas, i.e., será que mulher gosta de sexo ou só faz pra agradar o marido?, será que um dia alguma mulher vai me querer? será que conseguirei ver uma bocetinha ao vivo ou morrerei tentando? e questões terrivelmente angustiantes do gênero, e a anta me vem com José de Alencar e aquele colossalmente aburrido ideário romântico.

Nos States todo mundo e seu tio lê porque escritores publicam, entre outras, para vender livros, o que requer que as vítimas tenham ao menos prazer de ler. Aqui os caras são não escritores mas eternos candidatos ao Nobel, beletristas sempre pensando em como contentar críticos e ganhar um encômio em algum caderno literário para mostrar ao vizinho e citar no currículo que vai apresentar para aquela vaga de professor de Letras em alguma subuniversidade do sertão. E mesmo que escrevessem para vender, venderiam a quem? Os únicos que defacto lêem, ou imagino que leiam, a sério são os críticos e outros "profissionais da área"? Dá-lhe, Gombrowicz: Libros como "La muerte de Virgilio" de Hermann Broch o aun el celebrado "Ulises" de Joyce resultan imposibles de leer por ser demasiado "artísticos". Todo allí es perfecto, profundo, grandioso, elevado, y, al mismo tiempo, nada nos interesa porque sus autores no lo han escrito para nosotros sino para el Dios del Arte.