Revisita do sabiá laranjeira

A manhã vai nascendo. Posso pressenti-la, embora a luz ainda não tenha chegado. Abro os olhos. Não há nada mais inútil do que abrir os olhos no escuro. Nestes poucos minutos entre a madrugada e a alvorada eu, feito um peixe, poderia não ter pálpebras.
Tem horas em que muitas de nossas habilidades são imprestáveis. A de poder fechar os olhos é uma delas.
Pensando nisso, há quanto tempo não fecho os olhos? Digo, quando não estou me preparando para dormir. Há uns bons anos. Mais do que sou capaz de rememorar. Costumava fechá-los quando era moleque.
Já fui criança, incrivelmente criança. Lembro que gostava de experimentar. O objeto mais constante dos meus experimentos era eu mesmo. Fechava as pálpebras, me inundava de mim, enveredava por dentro como se explorasse um estranho. Me punha do avesso, passava horas... horas, não, dias, dias e noites, no meu imenso pavilhão escuro. Embora não enxergasse praticamente nada, lembro de que caminhava com desenvoltura aqui no meu eu-gruta. Ou seria “lá”?
Meu pavilhão parecia abafado e infinito ao mesmo tempo. Não tinha passagens, ruas ou caminhos. Apenas atalhos, atalhos incomodamente estreitos, apertados, como se não fossem feitos para o meu trânsito. E longos – longos demais para ser atalhos. Sem razão de ser. Na maior parte do tempo, lembro, ansiava angustiado pela dádiva de poder andar sem obstáculos. Mas aparentemente era impossível. Os intermináveis atalhos eram uma sina. Maldição. Eu estava condenado.
Dentro do pavilhão de mim me sentia o mais minúsculo dos insetos rastejantes. Minúsculo a ponto de não existir. Mais minúsculo do que o mais ínfimo dos vermes. Mesmo assim, me via gigante.
Às vezes, o pavilhão, embora infinito, não era suficiente para me conter. Nessas horas tinha de prender a respiração, relaxar dolorosamente os músculos, encolher a barriga, comprimir o peito, estreitar os ombros, recolher a cabeça, me espremer e, me esgueirando qual um colossal inseto incontível, bater em retirada. 
Havia outras situações em que era obrigado a suspender meus passeios pelo pavilhão. Quando não eram os atalhos labirínticos ou o verme corpulento ou o gigante apequenado, era a presença “dele”. Não tinha e nunca tive provas de que “ele” estava por perto. Jamais encontrei um rastro naquele chão que ora era de terra, ora, de pedra ou de areia ou ladrilho vermelho. Jamais senti algum cheiro incomum que denunciasse um intruso. Nunca constatei nenhum sinal factível da existência de alguém em meu imenso e solitário escuro supostamente vazio. Mas havia aquela desconfiança imorredoura. Desconfiava, cada dia mais aflito, da presença “dele”. A suspeita infundada mas irreprimível é a mais cruel das torturas. “Ele” me rondava, eu tinha quase certeza. E a incapacidade de estar plenamente convicto me angustiava ainda mais. Mesmo hoje ainda não sei ao certo se “ele” de fato estava ali. E de uns tempos para cá dei de cismar que não era “ele” e sim “ela”.
A manhã prossegue nascendo. Como podem ser demorados esses partos matinais. Alguns levam toda uma vida. Há, entre esses, uns que são mais tenebrosos que a mais negra das noites. Quase clamam, com perdão do gracejo sem graça, um aborto.
Meu olhar continua a averiguação do escuro. Seria um bom momento para a poesia, este. A alvorada e o crepúsculo sempre nos trazem, a nós românticos açucarados, alimento para a imaginação. Mas é claro que o poeta não carece de comida. Ou de vitaminas ou sais minerais. O poeta autêntico, digo. O que, é igualmente claro, não é meu caso. Não que eu não tenha sensibilidade, vocação, introspecção, desgosto com a vida, “gaucherie” – esses ingredientes sem os quais nenhum poeta digno do nome poderia passar – suficientes para a tarefa. (Ou “missão” ou “destino”, se preferirem.)
Pelo contrário, sou, modéstia à parte, bem dotado nesses quesitos. Sobretudo, como deve estar evidente, no item “desgosto com a vida”. Nesse sou craque. Se mágoa, padecimento, amargura e congêneres bastassem para fazer um bom poeta, eu teria ganho o Nobel um bom, bom tempo atrás.
Mas, pobre de mim, me faltam três elementos básicos.
Um é a coragem. Sou um dos homens mais covardes que conheço. Por exemplo, percebo hoje, já com uma bela carga de experiência de vida nas costas, que naquele pavilhão de que falei acima havia uma pera de luz bem ao lado da porta, pera cuja existência sempre me recusei a admitir. Tudo teria sido incalculavelmente mais simples se tivesse me dignado a iluminar aquela grande e sombria nave gótica. Mas também hoje me dou conta de que prefiro as sombras à claridade. Quem sabe eu seja mesmo aquele inseto rastejante com que fantasiava nos meus delírios autoexploratórios. Quem sabe não mereça senão uma bela pisada duma bota clemente que venha pôr um fim a esta vidinha miserável que tenho levado desde que nasci.
Se há algo que um poeta requer para se dizer poeta é bravura. O candidato a vate tem de ser valente para encarar sua “humanidade” de frente, sem desviar para o lado seus olhinhos assustadiços. Nossa “humanidade”, ou seja, nossa condição de homens e mulheres determinada por nossos sentimentos, estados de espírito, emoções, pensamentos e hereditariedade, entre outros, é o grande assunto da poesia, e talvez o único que interesse de fato. É, nada mais, nada menos, que o famoso “dedo na ferida”. Em maior ou menor extensão, todos nos achamos capazes de cutucar nossas próprias fraquezas. Mas poucos o somos de fato. E os verdadeiros poetas são os capazes. Escarafunchar os próprios sentimentos, pegá-los com mãos fortes e nuas, não é batatinha. Identificar o que realmente somos e não retroceder ante a dor que se torna cada vez mais lancinante à medida que avançamos é tarefa hercúlea. E expor o que jaz dentro de nós em estado bruto, intratável, refratário à nossa própria força de vontade, é a recompensa.
Desse primeiro elemento básico deriva o segundo: sinceridade. Não existe poeta mentiroso. A poesia é consequência da nossa veracidade. Mesmo o mais erudito e inteligente e loquaz e fecundo dos mortais, dotado do mais rico vocabulário e das mais prodigiosa imaginação, será um retumbante fiasco poético se não for capaz da sinceridade. A retórica por si só é balofa feito um imenso saco estufado de ar. É por isso que a grande maioria dos pretensos poetas deste mundo não passa dum bando de papagaios constrangedores recitando trovinhas sem graça. Versos falsificados, melados de lirismo planejado, respingando a sentimentalismo pisado e repisado, não têm nada a ver com poesia. O “fingidor” de Fernando Pessoa, para nos atermos a um poeta conhecido de todos e imitado à exaustão, é o mais “autêntico” dos personagens poéticos jamais inventados por um gênio literário. O que nos esclarece e arrebata em Psicografia é precisamente o grandioso confronto de fingimento, nosso estado quase que permanente, e revelação. O “insight” deflagrado por esse embate é de tirar o fôlego. E a simplicidade com que ele se desveste diante dos nossos olhos. Quase um direto no estômago. Uma “porrada”, como Pessoa gostava de dizer.
A facilidade com que Pessoa chega à verdade, o despojamento vocabular de seus versos, a naturalidade, a quase modéstia são todos enganosos. Com licença do chavão, é complicado ser simples. A engenhosidade da simplicidade de Pessoa é atordoante. Mesmo se não entendemos exatamente o que ele quer dizer, pelo menos nos reconhecemos atordoados. Para a maioria de nós, isso basta. E talvez, ao contrário do que dizem os acadêmicos que vivem às custas de “explicar” a obra alheia, isso seja tudo que interesse. Mas o que os imitadores de Pessoa não compreendem é que ele é quem é porque teve coragem de mergulhar nas trevas do oceano de si mesmo e, ao retornar à superfície, expor as preciosidades que descobriu em suas profundezas da forma espantosamente bela e competente como expôs. Pessoa não nos mostrou onde está a poesia – apenas indicou o “seu” caminho. Cabe a cada um de nós descobrir o nosso.
E o terceiro elemento básico que me falta para ser poeta é a disciplina. João Cabral, um dos maiores poetas brasileiros – e pouco lido e imitado, por ser avesso ao sentimentalismo desbragado e buscar o rigor formal acima de tudo –, era disciplinado não apenas na métrica exata de seus versos, mas também em seus métodos de trabalho e no empenho com que se dedicava a seu ofício. Muito mais do que um apaixonado, era um “operário” da poesia. Tal como, nesse sentido, Drummond. Não que o desregramento seja incomum entre poetas, evidentemente. O próprio Pessoa era chegado numa manguaça – a cirrose o levou, pobre –, o que certamente não o ajudava em nada neste terceiro quesito poético.
Outro que bebeu a vida inteira e morreu em estado etílico foi Dylan Thomas. E lembremos Robert Lowell, William Faulkner, Fitzgerald. Entre os brasileiros, Paulo Leminski, biriteiro e sorvedor de tudo que o tirasse do eixo da mesmice. E me parece que Pessoa era dado mais à inspiração que ao método. Segundo consta – e salvo engano (hehehe, “salvo engano” é ótimo, você pode escrever qualquer barbaridade e anexar essa expressãozinha-salvo-contudo para limpar sua barra), bem, segundo consta, Pessoa escreveu o primeiro rascunho d'O guardador de rebanhos num surto de minguadérrimos 40 minutos!
Mas quando falo em “elementos básicos da poesia” estou me dirigindo a mim mesmo e a você, mortais comuns, não a gênios indóceis que não nasceram para seguir regras.
A manhã vai brotando ainda. Ou melhor, acho que vai. Não tenho certeza absoluta de que o tempo de fato passa. Como poderia? No escuro – no meu escuro – as coisas não acontecem, o mundo não existe. Talvez nem eu mesmo exista.
Mas não adianta brincar de Deus – já há ao meu redor uma penumbra inefável em vez das trevas absolutas de um minuto atrás. “Um galo sozinho não tece uma manhã”, verso inaugural, contidamente apoteótico, dum dos maiores poemas da nossa língua. Qual. Há vinte anos não acordo com a aurora sob o anúncio trombeteiro dum galo. Não há mais galos, sei. Os frangos de hoje são reproduzidos por computador. Sobretudo, não há mais galos tecelões. Se os há, converteram-se em arautos mudos de cada dia.
A penumbra vai esbranquiçando, já é possível distinguir a silhueta dos móveis. Surgem uns riscos na janela – é a luz solar tentando devassar meu quarto pelas frestas desalinhadas da veneziana. 
Será cada manhã prova da renovação da vida?
Quando era moleque, não dava a mínima para manhãs, vida, renovação, poesia, Pessoa, essa tralha toda. Passei a infância e a adolescência compenetrado comigo mesmo, às voltas com meu pavilhão, “ele” e outros assuntos pessoais e intransferíveis. Hoje às vezes penso, repito, “ele” talvez fosse “ela”. Se essa possibilidade tivesse me ocorrido naquela época talvez minha permanente desconfiança tivesse sido certeza e agora tudo seria diferente. Ou nada. Nada seria diferente.
O Sol finalmente se levanta. The Sun Also Rises. “Não perguntai por quem os sinos dobram. Eles dobram por ti.” 
A manhã vai... pronto, nasceu. E, miraculosamente, renasce, renasce, renasce sem parar, e desaparece para ceder lugar ao dia, que morre sob o manto da noite. Procuro renascer também, olhar minha escuridão com outros olhos, mas não há mais tempo.
O Sol não tem história. É praticamente o mesmo desde que foi criado com o Big Bang há 15 bilhões de anos. E continuará sendo ainda por outras centenas de milhões. Sou uma formiguinha absolutamente sem importância no infindável formigueiro que é este planeta, cada dia mais emporcalhado de fezes, graxa, cuspe, névoas químicas.
Esta semana recebi uma certidão da Itália atestando que meu avô Giocondo nasceu aos 18 de abril de 1873 num povoado chamado Crevalcore. Meu bisavô se chamava Giuseppe. Minha bisavó, Palma Strada. A certidão foi requisitada por minha irmã, que nos últimos tempos tem-se dedicado quase obsessivamente a levantar a árvore genealógica da família.
Palavrinha escabrosa, genealógica. Não entendo essa necessidade de buscar as raízes. Me cheira a medo de parecer zé-ninguém. Todos somos zé-ninguéns, uns mais, outros menos, mas zé-ninguéns.
O Sol vai iluminar esta e ainda outras bilhões de manhãs, outros bilhões de zés vão sonhar sob a mudança de estado mental que é a alvorada, o crepúsculo e fenômenos que tais da física.
Não passo dum efêmero, como efêmero foi o nascimento desta manhã. Quem sabe hoje ao longo do dia descubro que tenho câncer na próstata. Ou no esôfago. Ou um avião desabe sobre minha casa. E aniquile inelutavelmente alguns descendentes de Giuseppe e Alma, camponeses analfabetos que viveram no Norte da Itália no século XIX e cujo filho Giocondo, casado com Maria Olga, resolveu tentar a vida num país distante chamado Brasil. Costumo brincar que nono bem poderia ter dirigido seu volumoso nasone italiano rumo à “América”. Quem sabe teria me tornado um importante gângster em Chicago.
Mas não faria diferença. Provavelmente estaria olhando a luz entrar pelas frestas da veneziana, relutante em levantar, mal acordado e já exausto do dia e da vida. Com a única diferença, talvez, de ser acompanhado na solidão da madrugada pelo canto melífluo dum tordo, não deste meu inseparável sabiá-laranjeira que não se cansa de me convocar. Para que, não sei.


Anatomia duma intelectual profissional

Umpf!

Nota de junho de 2009: esta anatomia foi escrita após a descoberta da relação entre Zé Dirceu e Waldomiro e antes do mensalão.

Leio no Estadão entrevista c’uma senhora chamada Maria Victoria Benevides. Professora da USP, sabemo-lo todos que nos interessamos pelos rumos do Berção. (Caprichemos na norma culta da língua, que é pra ninguém depois querer tacar o apagador neste vosso pobre servo que não pôde concluir os estudos.)
Mais que professora, socióloga. Depois que Efeagá desfilou garbosamente de presidente do Brasil, sociólogos me deixam inquieto. Incomodado até.
A entrevista foi conduzida pela valente jornalista Laura Greenhalgh, que desde a primeira pergunta deixou claro à entrevistada que estava ali em nome de seus leitores. Extrairia da professora tudo que lhe permitisse a ética profissional. Naquela sala refrigerada a 23ºC, acarpetada em tons de marrom-glacê, paredes ornadas com obras de mestres modernistas brasileiros, ela, Laura Greenhalgh, seria a implacável porta-voz da nação, não se furtando a colocar as perguntas que tiram o sono de todos nós que, se me permitem uma autoparáfrase, nos interessamos pelos rumos do Berção. Por mais duras que pudessem parecer aos risonhos olhos acadêmicos da socióloga. Acrescente-se ainda que ambas bebericaram chá-mate com sutilérrimos tons de canela e limão durante a entrevista.
Mal começo a devorar a entrevista, bato o olho numa informação básica, bem na segunda linha: a professora tem 62 anos. Fico surpreso em ver que uma pessoa de tão provecta idade, certamente preocupada em como descolar soluções para as tragédias nacionais, possa colaborar com a administração peetista.
Seja como for, procuro enxergar a informação pelo lado positivo. Agora sei que a querida socióloga poderia ter sido duas vezes protagonista d’A idade da razão, de Sartre, e portanto trata-se, suponho, de pessoa com boa dose de bom-senso. Fico sabendo também que equivale a mais de duas balzaquianas. E que poderia ter tirado carta de motorista pelo menos três vezes. E que, do ponto de vista constitutivo, acha-se naquele período particularmente fértil em que acumulamos as mais significativas experiências biológicas e existenciais, mas ainda mantemos na memória resquícios daquela distante vitalidade com que reagíamos mais prontamente aos estímulos dos hormônios.
Mas ter 62 anos e ser professora da USP e socióloga não é tudo na vida de Maria Victoria Benevides: ela (cito textualmente da matéria) hoje integra a Comissão de Ética Pública, criada pelo presidente Lula pra avaliar a conduta de ministros e altos funcionários da administração federal.
Missão fácil? indaga a fera jornalista não a Benevides, mas ao leitor, como se o entrevistado fosse este e não aquela. Claro que não, responde a própria jornalista, antes que alguém tenha tempo de abrir a boca. Cito novamente: É trabalho voluntário, às vezes tem de ir ao Planalto para reuniões, chamar ministros às falas. E a intrépida entrevistadora tasca sem dó outra perspicaz pergunta: Quem gosta disso?
A entrevista, que ocupa toda uma página do Estadão, é ilustrada por uma grande foto colorida de Benevides. E já que esta é uma anatomia, façamos um exame mais detalhado da fotografia da socióloga, que é pra depois não dizerem que sou um anatomista superficial, que seria uma contradição segundo a boa prática bacharelesca.
Maria Victoria Benevides é fotogênica. Não fossem as 62 primaveras, até que valia um aplique. Não que eu me amarre apenas em brotos. É que ela jamais daria colher de chá pra quem nunca escreveu uma tese acadêmica nem passeou pela Europa às custas de indiozinhos kaiowás que se enforcam quando ficam ébrios.
Enquanto analiso a foto da simpática socióloga, vou saltando o olhar pelos parágrafos da entrevista. Como já esperava, Benevides não perde a oportunidade de enaltecer as virtudes passadas do peetê, a força de vontade dos peetistas, a determinação insuperável de Lulla em vencer os óbices que se lhe antepõem.
Benevides transpira um ar viçoso. A textura da pele não indica problemas nefríticos dignos de nota.
A certa altura Laura Greenhalgh tasca na bucha, como se adivinhasse meus pensamentos:
Professora, vê-se que o branco dos seus olhos não está... um... amarelo. Isso significa que a senhora não sofre de cirrose hepática. É verdade que nunca bebeu?
Nunca, Benevides estala a língua ao sorver um golinho de chá-mate.
Mas e o Waldomiro, professora?, insiste a incansável Laura Greenhalgh, passando a mão na testa como se a resposta a tivesse deixado mais que inquieta, constrangida. (É claro que quem a conhece sabe que nada, absolutamente nada a deixaria inquieta, muito menos incomodada.) Vai me dizer que não encheu a cara nem quando o jornacional passou o filme do Waldomiro extorquindo aquele bicheiro?
Hum, acho que pus muito adoçante, responde a socióloga.
Professora!, Laura Greenhalgh insiste, pondo-se de pé, olhos arregalados, voz estranhamente alterada. O braço direito do ministro Zé Dirceu! O homem estava instalado no coração do poder! A senhora não quis tomar sequer uma caipirinha de maracujá pra acalmar os nervos?
Nesse momento meus olhos fogem do texto da entrevista e retornam à fotografia. O cabelo de Benevides poderia ser mais bem tratado. Um profissional capilar competente talvez conseguisse pôr os fios algo rijos e encorpados em seu devido lugar.
Professora! Laura Greenhalgh se põe a caminhar pela sala, tropeçando aqui e ali no espesso tapete azul-ameixa que cobria o carpete verde-garrafa. O dinheiro se destinava ao financiamento de campanhas de peetistas para o governo de estados! Isso não é suficientemente grave?
Ah, o chá tá uma delícia, Benevides esfrega os lábios, saboreando.
Meu olhar volta para a foto. A socióloga tem nos lábios relativamente taludos e sensuais um meio-sorriso matreiro.
A indócil Laura Greenhalgh volta à carga:
E a CPI do Banestado, professora? O peetê ajudou a abortar a CPI! Mais uma vez os grandes ladrões da nação se safaram ilesos! Que é que a Comissão de Ética Pública tem a dizer a respeito? A senhora não sentiu ganas de arrancar os cabelos?
Desesperada, Laura Greenhalgh leva as duas mãos ao alto, agarra dois tufos de cabelos e começa a sacolejar violentamente a cabeça. Na foto, o meio-sorriso matreiro de Benevides se abre de todo, expondo os dentes bem cuidados, branqueados artificialmente.
Então algo me chama atenção no pé duma das colunas do texto da entrevista. São duas reles linhazinhas, pronunciadas no mais trivial tom blasé pela professora socióloga Maria Victoria Benevides:
Não tenho dúvidas sobre as boas intenções dos programas sociais do governo.
A indomável Laura Greenhalgh abre a vidraça e pula da janela. (Soube depois que a sala em que ambas estavam fica no terceiro andar e que a jornalista apenas quebrou as pernas, um braço e uma vértebra, sem sofrer nada mais grave, graças aos céus.)
Pô, Laura Greenhalgh, eu ainda queria saber se a socióloga guarda parentesco com o ínclito senador Mauro Benevides. Que saída mais impetuosa, seu.
Olho pela última vez a carinha meio galhofeira de Benevides na imensa foto colorida que ocupa toda a página do valoroso Estadão. Vê-se que é pessoa de bem: de bem com a vida, de bem consigo mesma.

Post escrito:
Relendo esta anatomia, vejo que ficou meio machista, sobretudo na arenga sobre a idade da Benevides, que desequilibrou o todo. Agora lembro que houve. Fiquei repentinamente cansado. Bem na hora em que estava para desenvolver outras partes da anatomia e tentar obter o dito equilíbrio. É isso que dá escrever demais. Mas não consigo conter minha verborragia. Já tentei imitar o Dalton, mas aquela economia lá dele poucos logram perpetrá-la. Agora relendo pela terceira vez, vejo que disse muita coisa que não queria dizer. E não disse muita coisa que queria. Me perdi, acho que na volta do banheiro. Sim, estou me lembrando. Tinha mil coisas na cabeça. Agora vou detonar aquela mulher, pensava. Os pensamentos fervilhavam feito vermes esfomeados atacando um naco de picanha esquecida há oito dias fora da geladeira. Aí sentei no computador e... puf! Sumiu tudo. É que escrevo demais, etc.


Guerrilla Girl I

Rallentando

Tânia Nijmeijer é universitária holandesa de classe média em permanente crise existencial. Infeliz consigo mesma, com seus pais, com a frivolidade dos coleguinhas na univer, com o conforto abjeto que seu país civilizado lhe oferece praticamente de mão beijada, belo dia resolve fazer “algo”. É preciso mudar o mundo, ideiazinha que alucina 9 entre 10 almas torturadas de jovencitos burgueses acometidos de gaucherie congênita. Outro belo dia, Tânia sai a viajar pelo mundo. Ao passar pela Colômbia, se toma de encanto pela miséria profunda do lugar. A grotesquerie dos nativos a fascina. O olhar vazio das crianças a cativa. “Algo” lhe diz em seu “íntimo” que ali está a solução para suas angústias kierkgaardianas de europeiazinha xarope. Next minute Tânia se deixa recrutar pela narcoguerrilha das FARC.
Isso foi há nove  anos. Há quatro, o exército colombiano achou o diário da moça. A certa altura ela escreve: Estoy harta. No aguanto más esta forma de vida.” Um jornal colombiano menciona a jovem “magra, de cabelos loiros, dentadura perfeita e sempre com um relicário ao pescoço com a fotografia da mãe”.
Se lê em seus escritos que, ao contrário do que ela própria e seus amiguinhos europeus imaginavam, os narcotraficantes não lutam pela liberdade porra nenhuma. Diz que as FARC são um presídio em que os comandantes têm e podem tudo e os “soldados” são tratados a porrete. Que guerrilheiros e guerrilheiras fazem sexo sem proteção, caindo enfermos de doenças venéreas, aids, o cacete.
Tânia quer dar o fora. Não pode, lirarirará. Passou ao status de sequestrada. Dizem na mídia que, agora que seu diário foi devassado publicamente, é muito provável que ela seja “julgada” e condenada por um tribunal “revolucionário”. Pobrecita.
Foi por esse tipo de ilusão que Tânia largou a família e o quasiparaíso. É de imaginar ...que após os 4 mil anos da luta civilizatória europeia que nos levou ao que mais próximo podemos almejar da perfeição tem gente que se decide pelo padecimento autoimolante. Tânia se rebelou contra o único socialismo possível com que aqueles paisitos sacais conseguiram trocar a miséria e a doença e a feiura por um mínimo de controle da indômita natureza do ser humano e capacidade de convivência.
Tânia (ou “Tanja” como quer o Estadão, por que será? de onde veio a ideia de que nome de gente não se traduz não sei, como também não sei por que tradutores acham que têm algo de sagrado e aportuguesá-los seria vandalismo, há poucas coisas duras de aturar como a heroína de nome raquel do filme americano que os outros personagens ficam o tempo todo chamano "Ruêikel, me passa a manteiga de amendoim!”, prova suprema da nossa incivilidade, se por milagre a cultura holliudiana nos abandonasse, deixaria um vácuo irreocupável, teríamos de ralar mais 2 mil anos pra achar o que pôr no lugar) Nijmeijer, parente do nosso dinossauro-mor Niemáier?, 24 frescos aninhos nas costas, deixou a barra pesadérrima da vidinha na Holanda, o país mais civilizado do mundo com seus coffeeshops em que o freguês puxa fumo e sorve magic mushrooms sem ter um peême do lado te extorquindo, a Amsterdã dos canais oníricos, a salada inefável de modernidade e gente bonita e saudável sob a sombra não turva de prédios medievais contando a história ao vivo, nas ruas gente brincando de estátua viva e cantores e músicos e atores, a miríade de museus, os melhores, lirará, a casa de Rembrandt, o museu de Van Gogh, o único país do mundo em que a legalização da eutanásia é discutida e, quase, praticada a sério, estrangeiros à parte, sem que o estado se intrometa muito além do devido, o que per se é ótima razão pra nascer naquelas bandas, o único problema filosófico existente é o suicídio, já dizia o ...espoleta Camus, cujo problema particular foi solucionado à sua revelia quando esticou as canelas naquela curva, sentado ao lado do filho do dono da Gallimard, a única liberdade importante é a de acabar com a própria vida, diria eu se vivesse longe, razoavelmente longe do peetismo que me enoja e 'smorece, a Holanda da sexualidade enfim trazida ao foro individual, maior liberdade não haverá de haver, os fumos da erva de boa qualidade se espalhando pelos confins da cidade, o bairro da luz vermelha, prostituição elevada a atração turística, as melhores casas do ramo, sexshops exibindo objetos que você custa a crer sirvam pra qualquer coisa útil na cama, mulheres se exibindo nas vitrines para espanto e deleite das famílias de forasteiros, acima de tudo, no ar, o perfume inebriante da liberdade, a crença de que cada um, cada um de nós, deles, sabe e tem o direito de saber onde mete o nariz sem que uma otoridade te desça o cacete no meio da orelha, o país em que ninguém está preocupado com a vida alheia, ó benção.
Tânia Nijmeijer vai ver é do tipo de gente fina que não tem vocação para tolerar a liberdade individual. Parece que é uma deformação mental que ataca 78 por cento da humanidade. Os outros 43 são ou tentam ser livres. 
Há uma porrada de outros europeus na mesma situação de Tânia na Colômbia, cativos de meliantes boçais metidos a reformadores do mundo, adolescentes impúberes quase todos “fugidos” da terra dos moinhos ou dos países nórdicos, campeões no quesito suicídio de jovens enfarados com o estado do bem-estar social. A petizada se deixa engambelar por ONG's criadas e financiadas pelas FARC com grana obtida com a produção e venda de coca. 
“Eu sei que mamãe e papai devem estar sofrendo uma barbaridade”, se lê no diário.
Podes crer, baby girl.


A cidade ideal 6

Aquele dia naquela cidade aconteceu algo estranho. Não se sabem os antecedentes – são conhecidas apenas as consequências, que procuraremos narrar ipsis litteris (ou ipsis verbis para leitores mais enjoadinhos avessos a lugares-comuns).
Naquela cidade havia um quartel do exército. Como em qualquer quartel de toda e qualquer cidade em que haja quartéis, naquele quartel havia soldados. E os havia às pencas. Para sermos exatos, às centenas. E se quisermos primar no duro pela precisão, podemos dizer que havia dezenas de centenas deles no quartel daquela cidade em que algo estranho aconteceu.
O ano era o corrente. Ou quem sabe o passado. O mês, de outono (que, como todos sabem, é a mais insuspeita das estações). E se também quisermos ser precisos quanto ao dia, podemos dizer que era um dia de abril, maio, junho. E da semana, para retratarmos rigorosamente os fatos.
E agora que já nos localizamos no espaço e no tempo, passemos ao que aconteceu de estranho no quartel do exército daquela cidade aquele dia duma semana de outono.
Foi assim:
Um dos soldados, de primeiro nome João, José, Carlos ou Bento, foi escalado para a faxina da latrina do quartel. Ele está passando preguiçosamente o esfregão num dos cagaradores, digo, privadas.
Rapaz de biótipo nordestino, a pele morena é herança das surubas que seus antepassados escravos e indígenas faziam na Mata Atlântica longe dos olhos sorumbáticos e malemolentes portugueses. E os olhos verde-topázio vieram dos holandeses, que alguns meses antes tinham quebrado a cara na tentativa de invadir e ocupar um pitoresco bairro chamado Bahia, dos mais importantes daquela cidade. (Malogro que séculos depois os habitantes lamentariam amargamente, pois todos os cafuzos do lugar queriam ter olhos verdes, azuis ou pelo menos castanho-claros.)
Pois bem. Acha-se o soldado João, José, Carlos ou Bento distraído em sua estratégica operação higienizadora. Tem o peito estufado e a barriga encolhida, como soem ter os valorosos guardiões das fronteiras nacionais e das riquezas que há dentro delas. Maneja habilmente o esfregão com punhos dispostos a esmurraçar pela pátria.
Nisso, um dos muitos sargentos daquele quartel, de sobrenome Mendonça, Ari, Lucca ou Katinsky, adentra garboso a latrina, peito encolhido, barriga estufada, coisa e tal.
– Sentido! – vocifera o recém-entrado sargento, pisando duro para que os tacões emprestem à latrina um bom e saudável ar caserneiro.
O soldado imediatamente leva os dois braços à frente, apresentando armas com o esfregão à altura do peito em sinal de respeitosa prontidão.
O militar de patente mais alta bate continência em consideração a tão prestativa prova de servilismo e dá duas, três, oito voltas em torno do soldado. Quando começa a sentir vertigem de tanto zonzear, para e encosta pândego na parede, segurando a ponta do queixo entre o indicador e o polegar da mão esquerda e fazendo expressão zangada.
E relincha colérico:
– Este lugar está uma pocilga!
Os olhos de João, José, Carlos ou Bento ficam instantaneamente marejados.
O sargento não se amofina:
– Você é um porco!
O rapaz franze os músculos do rosto e soluça sob o inesperado e raivoso saracoteio do superior.
Mendonça, Ari, Lucca ou Katinsky continua possesso, os olhos espargindo chispas, a bocarra, perdigotos:
– Uma vergonha para o exército!
– Eu quero papai! – por fim brame o soldado, não suportando mais insultos e largando o esfregão e desatando em choro torrencial e escondendo o rosto entre as mãos.
O sargento, que jamais esperou que um subordinado pudesse verter tão copiosas lágrimas, ainda mais que nem tinha ainda ordenado um ataque aéreo com bombas de gás lacrimogêneo, arregala os olhos e ao mesmo tempo espreme o cenho, numa expressão de pasmo e revolta dura de ver e mais dura ainda de descrever.
Por uns instantes o sargento tenta formular mentalmente uma reprimenda que produza no soldado um choque de assombro e acabe de vez com aquele abusado despudor. Há de ser bronca tão retumbante, que fará tremer as paredes da latrina e será escutada além das muralhas do quartel e ecoará nos céus daquela cidade feito estrondoso trovão a anunciar o fim do mundo.
Tendo então a bronca prontinha nos miolos, o sargento enche os pulmões, aperta os olhos e brada:
– Eu quero papai!
O soldado João, José, Carlos ou Bento, mudo de espanto com a confissão de Mendonça, Ari, Lucca ou Katinsky, fecha a boca com as duas mãos.
O sargento, por sua vez, arregala os olhos, leva as mãos à garganta e deixa o queixo cair, sem querer acreditar no que seus próprios lábios acabaram de dizer.
Ambos se olham confusos. Querem falar, mas emitem apenas mumunhos incompreensíveis. Após alguns instantes de hesitação, se atiram um nos braços do outro e soluçam:
– Eu quero papai! Eu quero papai!
Nesse instante o capitão, cujo sobrenome é Mendes, Campos, Fernandes ou Braga, entra aflito na latrina, mão na braguilha, pronto para sacar o pinto e aliviar a bexiga. Vê o sargento e o soldado abraçados em tão abundoso pranto e estaca, atônito. Estica os dois braços ao longo do tronco, apruma o espinhaço e começa a abrir a boca, determinado a exigir compostura. Mas, ao invés de tascar o que naturalmente seria um terrível carão nos dois choramingões, só consegue gemer:
– Eu também quero papai! Eu também quero papai! – abrindo igualmente o berreiro.
João, José, Carlos ou Bento e Mendonça, Ari, Lucca ou Katinsky interrompem o choro e erguem os olhos para Mendes, Campos, Fernandes ou Braga. Alguém que testemunhasse a cena esperaria que ambos estivessem espantados ante um oficial do exército nacional exibindo sem constrangimento a mais sentida cara de chorão. Ao invés disso, se afastam um do outro e fazem sinal para que o capitão se junte a eles.
E o trio se põe a lamentar:
– Eu quero papai! Eu quero papai!
O queixume vai crescendo em intensidade. Logo chama atenção de outros militares. Cabos, tenentes, majores e coronéis acodem à latrina para verificar o que se passa. E cada novo recém-chegado fica enternecido pela cena, se entregando de pronto à choradeira que agora se alastra da latrina para o rancho, do rancho para o alojamento:
– Eu quero papai! Eu quero papai!
Em poucos minutos a latrina está lotada, sem espaço para mais um soldado sequer. O coronel Emiliano, Alves, Pinheiro ou Salvador, entalado bem no meio do grupo de chorões por ter sido um dos primeiros a chegar e por ter um dos choros mais estridentes, resolve pôr um pouco de ordem na zona:
– Atenção, tropa! Eu quero papai! Todos para o pátio!
Sem deter o pranto, apenas enxugando uma ou outra lágrima mais doída, um a um os milicos começam a deixar a latrina rumo ao pátio do quartel, onde poderão comunhar seu desamparo mais à vontade.
Os sentinelas, só observando enquanto a massa de milicos se movimenta pelo quartel, a princípio tentam resistir, temerosos de abandonar seus postos, mas logo se dão por vencidos e também debandam para o pátio. Até os recrutas, que normalmente levariam três anos para entender o que acontece à volta deles, saem de sua indiferença e vão assuntar.
E todos vão caindo no choro:
– Eu quero papai! Eu quero papai!
Em apenas três ou nove minutos o quartel está tomado de comoção. Um magnífico grito uníssono leva a cada canto daquela estranha cidade a comovente lamúria:
– Eu quero papai! Eu quero papai! – entoam todos os militares-órfãos.
Todos, menos um. O general Hamed, Russo, Dimopoulos ou Graça, comandante-em-chefe do segundo exército da quinta região, está absorto em sua sala, pés na mesa, escutando pelo rádio frenética e comovente narração da última partida do campeonato de boccia. De descendência carcamana, o general não perde uma transmissão dessas nem que os comunistas tomem o poder e mudem a cor das fardas do exército para rosa-pinque.
Fora do quartel, os outrora indiferentes habitantes daquela estranha cidade abandonam seus afazeres assim que escutam o formidável e quase ensurdecedor vozerio:
Eu quero papai! Eu quero papai!
Estupefatos, todos se entreolham (ou pelo menos os que não estão sozinhos. Os que estão apenas olham para o céu pensando ser o juízo-final).
Alguns se perguntam se o clamor provém do estádio de futebol. Será a final entre o time daquela estranha cidade e o da estranha cidade vizinha? Mas por que os torcedores estão berrando “eu quero papai!” em vez de xingar a mãe, o pai e a tia do juiz?
Em alguns bairros mais afastados as pessoas começam a repetir:
– Eu quero papai! Eu quero papai!
E logo a cidade em peso está cantando numa só voz:
– Eu quero papai! Eu quero papai!
O mundo parece ter-se paralisado ante tão lancinante cântico. Tirando bebês que ainda não sabem falar, não há um único humano que não tenha aderido à comoção. Até os animais se deixam contagiar. Cachorros vituperam. Gatos blasfemam. Porcos esconjuram. Políticos latem, miam e lambem senhas de contas na Suíça.
Os habitantes, como se estivessem acometidos da mais selvagem loucura, saem a perambular pelas ruas berrando a plenos pulmões:
– Eu quero papai! Eu quero papai!
Nem mesmo o prefeito, que nunca dá a mínima pelota ao que se passa naquela estranha cidade, consegue ficar alheio à tremenda manifestação. Assim que sua secretária lhe transmite um memorando de 23 páginas em formato A4 pondo-o à par da situação, o mandatário expede ordem para que os assessores mais diretos se reúnam no auditório municipal às dez e meia sem falta.
No horário marcado, o prefeito, meio a contragosto, deixa seu suntuoso gabinete de mesas em cedro, painéis em mogno, guarnições e rodapés em jatobá, revestimentos das paredes em copaíba, cinzeiros em cristal e porta-copos em papelão reciclado e se dirige ao estacionamento, onde seu motorista o aguarda ao lado duma limo cor de caju com goiaba silvestre.
O prefeito nota que os olhos do motorista estão marejados, mas faz de conta que não percebe.
– Auditório municipal – ordena assim que se instala no banco traseiro estofado com peles de jaguatiricas da caatinga e indígenas adolescentes kaiowá enforcados, ornadas com pupilas de araras azul-mandrová de olhos vazados.
Durante o trajeto, ele vai olhando as calçadas, onde todos seus eleitores bradam às escâncaras a toada infernal:
– Eu quero papai! Eu quero papai!
O prefeito tenta ignorar o que se passa à sua volta. Vasculha a consciência à procura de algo que lhe distraia os pensamentos forrados de cédulas verdes e cifrões dourados jorrando do paço municipal feito fonte da riqueza eterna. Às vezes gosta de fazer uma brincadeirinha mental em que substitui a carranca do Lula estampada nas notas de cem dólares por outra. Quem poria no lugar desta vez? Sim, aquela foto que sua secretária lhe dera ainda aquela manhã ao chegar ao gabinete. Era foto dela mesma, em pé numa praia mineira, de topless, torso meio torcido para permitir que a câmara enquadre todo seu suculento e rechonchudo bundão engalhardetado por um fio-dental furta-cor. Atrás (da foto), ela escrevera uma dedicatória: “Ao meu prefeitinho predileto!”
É nesse singelo exercício introspectivo que se acha a incandescente chapa de fritar e preparar tesouros para viagem existente no cérebro do predileto prefeitinho quando ele é desagradavelmente interrompido pela voz melosa do motorista:
– Chegamos, senhor prefeito. – E ajunta bem baixinho para que o patrão não escute: – Eu quero papai!
O prefeito dá uma boa chacoalhada na cabeça para dissipar o concupiscente torpor, desce do carro e ruma resoluto para o auditório, disposto a pôr um fim naquela disparatada conspiração de orfandade. Só pode ser coisa da imprensa oposicionista, enfurece-se, abrindo a porta do auditório com um solavanco.
Todos seus 326 assessores diretos estão ali. E cada um deles choramingando:
– Eu quero papai! Eu quero papai!
O prefeito se dirige ao mais direto dos seus assessores diretos e ordena:
– Convoque uma rede municipal de televisão agora mesmo!
A muito custo, o assessor mais direto executa a ordem do prefeito. Proferindo entredentes umas boas obscenidades (incluindo entre elas algumas inspiradas na foto da sua doce secretariazinha), o prefeito volta ao seu gabinete.
Não muito depois, estaciona diante do prédio da prefeitura um caminhão trazendo as duas ou oito toneladas de equipamentos necessárias para a transmissão televisiva. Os técnicos descem do caminhão e, ganindo “eu quero papai! eu quero papai!”, levam a parafernália ao gabinete, sempre acompanhados pelo olhar severo do prefeito.
Concluída a instalação, os técnicos anunciam:
– Vamos rodar, senhor prefeito! Eu quero papai! Pode sentar! Eu quero papai!
O prefeito toma posição em sua mesa.
– No ar! Eu quero papai! – o técnico-chefe avisa, se colocando atrás da câmara.
– Cidadãos! – o prefeito faz pose e começa. – Eu quero papai! Eu quero papai! Eu quero papai!
E todos na sala:
– Eu quero papai! Eu quero papai! Eu quero papai!
E todos na cidade:
– Eu quero papai! Eu quero papai! Eu quero papai!
E foi assim aquele curioso dia naquela esquisita cidade. E aquela noite também, sem que o estranho choro dos órfãos cessasse por um segundo sequer. E quando a atormentada noite acabou com a chegada duma nova aurora, todos os habitantes daquela cidade retomaram a manjada e segura vidinha de sempre.



A cidade ideal 5

Naquela cidade há uma autoestrada em que todos, absolutamente todos os motoristas, quando passam, passam acima do limite de velocidade. Principalmente naquele trecho. E nesse dia, com essa moça, não é diferente.
Ela passa e... catapum! O radar acusa o excesso. (Pois nessa cidade é assim que os radares acusam o que quer que precise ser acusado.)
Como em todas as cidades normais do mundo, a moça, naturalmente, é parada pelo policial rodoviário. Profissional tanto de reputação ilibada, sem nenhuma recriminação nem advertência no valoroso prontuário de serviços, quanto de farda imaculada, nada de gordurinha deixada acidentalmente no colarinho por um grãozinho de arroz desgarrado na hora do almoço, nem gotinha de leite mais desastrada no café da manhã ou um perdigoto lançado a esmo pelo capitão durante a preleção matinal, tendo irreprimível formação militar que incluíra até mesmo um Curso de Não Esmorecimento Frente a Sofistas, o qual, aliás, completou com louvor, não se avexa nem titubeia:
– Prrrrrrrrrrrrrrrriiiiiiiiiiiiiii! – faz ele com seu apito, esforçando-se ao máximo para imitar o som dos apitos do resto do mundo.
A moça, que sempre foi obediente em casa e na escola, para o carro no acostamento. Olha no retrovisor e vê o policial se aproximando. Ela não apenas já pensou em fazer curso de filosofia pura por correspondência, mas também já ouviu falar de Granger e Quine, considerados os pais da lógica moderna. Além disso, nunca se abisma e quando tem de chutar, chuta de prima.
– Bom dia, madame! – o policial diz, polida e educadamente como soem dizer os policiais rodoviários. – A senhora ultrapassou o limite...
A moça é não só paleontóloga de profissão, mas também fã número um de Rex Stout e Raymond Chandler. E mais: já assistiu a todos ou a quase todos os filmes americanos de tribunal. Além disso, conviveu longamente com cabeleireiros gays em salões de beleza, chiques ou não. Assim, sendo craque em tiradas de letra e em esgrima verbal, ela replica sem hesitação:
– Umpf! – faz, apertando os lábios no que parece ser um rosnado germânico mas que não passa duma expressão de desagrado.
O policial só olha, esperando o desdobramento dos acontecimentos. A moça, vendo que ele não faz nada, completa:
– Ah, seu guarda! O banco fecha às quatro e eu preciso pagar uma duplicata ainda hoje. Sem falta!
– Sei, sei – O guarda meneia afirmativa e ironicamente a cabeça. – Quando não estão levando um sobrinho para o hospital ou um vizinho para pegar um avião, estão indo pagar uma duplicata! Isso quando não vão tirar o pai da forca! Diga uma coisa, madame: se sabe que o banco fecha às quatro, por que não saiu de casa com a antecedência necessária para chegar à agência sem afobação?
– Bem, seu guarda – A moça desaperta os lábios de raiva e tasca sem dó nem piedade: – Já que o senhor perguntou, vou responder. Não saí de casa com a antecedência necessária porque não estava em casa. Estava no escritório.
O guarda, usualmente rapaz comedido, está cada vez mais contrafeito, em vias de ficar enfezado, doido de vontade de entregar-se de corpo e alma às delícias da fúria. Estufa o peito e vocifera, ar ladino de quem não se deixa enganar facilmente:
– E posso saber por que não saiu do escritório com a antecedência necessária?
A moça, que não é boba nem nada e já esperando a pergunta, arregala os olhos e ataca com voz estridente:
– O senhor pode não acreditar, mas antes de sair para o banco eu tinha levado meu pai ao hospital.
O policial, calejado que é em lidar com inventivos motoristas infratores, tasca igualmente na lata:
– O que houve com o pobre velhote?
A moça, embora sabedora de que a vida é inesgotável fonte de clichês e surpresas, está acostumada a tudo, menos a um guarda de trânsito que chame seu pai de “pobre velhote”! Por isso, não se contém e sapeca:
– Teve uma crise hiperglicêmica!
– Ah, é? Quanto de glicose? – desafia o guarda triunfante, certo de ter deixado a moça num beco sem saída.
– Mais de trezentos! – ela sacode na pinta, olhando-o com ar maroto e zombeteiro.
– Bicarbonato sérico?
– Inferior a dez!
– Osmolalidade plasmática?
– Variável!
– PH arterial?
– Sete! Como o senhor sabe, a diabetes é uma doença grave...
– Poxa, de fato! O coitado estava na pindaíba...
– Acho que o senhor quer dizer “nas últimas” ou “dobrando o cabo da boa esperança”! – Quem exclama triunfante agora é ela, rindo de desdém. – Além do mais, duvido que o senhor saiba o que é pindaíba!
– Saborosa fruta da família das anonáceas, própria para sucos e ideal em batidas de vodka para a praia em dias de verão! – ele bate o martelo, superior. – Além disso, qualquer semiliterato sabe que é “o” diabetes, não “a” diabetes!
– Só usei o artigo feminino para não soar pedante! – ela coroa, tentando desarmar o policial.
– Chega de papagaiada! – Ele ergue as duas mãos à altura da cabeça num gesto de impaciência. – Voltemos ao que interessa. Excesso de velocidade...
– Ah! Não multa não! Guarda para depois!
– Com esse trocadilho, agora são duas multas! – ele exulta, vencedor.
– Mas onde é que estamos? – ela indaga.
O policial, sem saber se a pergunta foi apenas retórica ou se de fato ela não sabe onde está, responde:
– Na BR4. Acostamento. Perto daquela cidade – ele aponta com o braço para a frente.
Quando ele ergue o braço, um passarinho chilreia candidamente em algum lugar no alto. Ambos olham para cima e ouvem um ligeiro “puft”.
– Veja o que o senhor fez no meu para-brisas! – ela indigna-se, dedo indicador em riste pressionando o vidro pelo lado de dentro. – Titica de pardal!
– Que pardal, nada! Rouxinol. Era só o que faltava. Confundir...
– A culpa é toda sua! – ela acusa, quase enfiando o mesmo dedão indicador nas fuças do policial.
– Vejo que a senhora apela para qualquer coisa na tentativa de mudar de assunto. Mas não sou tolo. Ultrapassar o limite...
A moça, deixando de lado o cocô do passarinho, não pestaneja e devolve:
– Com o perdão da palavra, quem diz que não é tolo não passa dum tolo!
O guarda, já acostumado a lidar com motoristas imprudentes e sem graça, sempre em busca de pretextos para safar-se das penalidades pelas infrações que cometem, não deixa barato:
– Então me diga como devo chamar quem recorre à desculpa que a senhora usou, que, mais que esfarrapada, é rota, malcheirosa e desdentada, para ficarmos apenas nos adjetivos mais evidentes!
– Desculpe o mau jeito, seu guarda, mas o que o senhor acabou de dizer é uma baita duma inconsistência, digna de figurar hors concours no salão de honra do museu do asneirol, se houvesse um!
– Sem querer apelar para a ignorância nem descer para a baixaria, devo dizer que a senhora nada mais é que uma sirigaita !
Ela olha para ele estupefata. Vendo que acertara no alvo, ele mete bronca, escandindo as sílabas com os lábios retesados:
– Si! ‘Ri! Gai! Ta!
– Vê-se que o senhor é pródigo em pontos de exclamação!
– A senhora é que não conhece pontuação!
– Duvido que o senhor saiba o significado de “sirigaita”! Se soubesse, não perderia tão facilmente as estribeiras!
– Pois então me diga o que significa “estribeiras”?
A moça abandona definitivamente o ar blasé de superioridade, faz um gesto irritado com a cabeça, pisa fundo no acelerador e arranca, o carro guinchando os pneus.
O guarda... bem, o guarda empunha o talão de multas e põe-se sofregamente a garatujar, pois naquela cidade é isso que, entre outras coisas, fazem os guardas.


Manhã de terça-feira


Me largas feito um saco murcho antes de
te afastar. Aqui permaneço, esquecido de
todos, dos deuses, dos pagãos, dos nêutrons,
dos australianos, dos tijolos dentro da parede,
infenso e
sereno em minha colossal insignificância.
Vives sem que eu exista e não sei que
estou vazio. Mas
eis que te escuto. Vou-me
enchendo. Dos teus sons. 
E tua visão. E teu cheiro. Que
bom te rever! me dou
conta de que meu conteúdo é te esperar.