Memórias do cárcere químico Xb

Que delícia deve ser
Nascer, fechar os olhos
E morrer

E que delícia certamente é
Nascer, fechar os olhos
E não ver

Saber sem conhecer
E ficar no mundo
Sem estar
E deixar o mundo
Sem lembrar
E olhar o mundo
Sem querer
E abrir os olhos
E não ser

Surdo rugido


Na tarde do sábado sem noite  nem dia
Na tarde do sábado que não havia
Cerrar os olhos era malabarismo
E reabri-los, lembrança temida
De olhar a parede de bege e pastel
Cingindo, com a mão que tremia
Discreta de transe e esperança de
Ressuscitar por minutos que fosse
Os carros fúnebres da agonia
A servir de cenário invisível para o
Menino recém vindo do túmulo.
Podia ter visto manjedoura, reis
Magos, Estrela de Belém, tudo e
Nada. Espectadores próximos, distantes,
Espalhafatosos, sussurros sibilantes
A embalar crianças agraciadas com a
Dádiva do sono tranquilo, se recusavam
A tomar parte do espetáculo.

Eis o que o contemporâneo menino 
Esperava na tarde sem nome, sem dia
Esquecer, no sábado que não existia, 
A dor adormecida da acrobacia 

Pai

Coloco o cigarro entre teus lábios
E aspiro profundamente

Coloca uma canção dos Beatles na vitrola
Ante os olhares desconcertados dos circundantes
E a escutarei com os ouvidos do filho
Teu velho amigo antes de virmos a este mundo

Será nosso porre, pai
Você rolando do sofá da sala
Se estatelando no chão, enquanto
Meneio gravemente a cabeça
"Ah, criança, por que fui fazer todos
Teus caprichos?"

Porque aquela canção era pra você,
Pai

Ricochete

Quero mandar um abraço ao meu dileto amigo David Foster Wallace, encontrado pela esposa na ponta duma corda no meio da sala de estar (ou visita, não estou bem certo).
David, here’s to your magnificent Infinite Jest (que a Cia. das Letras publicou por aqui há uns dois meses, jesus christ, se o original já é ilegível, imagina a tradução pra este nosso amontoado destrambelhado de sílabas e fonemas. O miserável do tradutor deve estar tomando soro até agora).
Infinite Jest tem mil e cem páginas, das quais li quase cinco. Duvido que alguém no mundo tenha encarado até o ponto final. Pra você ter uma ideia, as infinitas notas de rodapé se estendem por dezenas de páginas, i.e., você tem de ficar voltando, voltando, voltando até atirar a porra pela janela.
Não culpo meu caro David. Tem gente para a qual literatura é fôdasse. É o teu caso. É o meu. Não nascemos pra Saul Bellow mas também temos direito a cutucar esteticamente, ou tentar, o que nos aperreia a alma. Tem gente que ainda acha que literatura é o que eles leem. Nada disso. Literatura é o que nós escrevemos. Escrever é um gozar e o gozo é o que vale a pena, ainda mais se infinito. Lamento não estar ao meu alcance. Esssstou gozzzzzando, though.

Cheers.

Para Sylvia Plath


Na maioria eles estacionam longe, mesmo havendo vaga em frente, e vêm chegando sorrateiros, cabeça baixa, quase às escondidas. Não olham para os lados. O portão fica convenientemente às escuras. São quase todos velhos, caras que se pretendem circunspectas mas que denunciam a angústia da transgressão constrangida. Algumas velhas senhoras ousam comparecer sozinhas qual adolescentes fugindo da família. Muitos são gordos, alguns obesos, párias da classe média não aceitos em outros circuitos do epicurismo. Se não jogam, ficam em casa a se empanturrar, remoendo a culpa pela glutonice, provavelmente com muito maior amargor. Assim optam por um tipo de auto-degradação que confira ao menos algum prazer sem cobrar o alto preço de fechar os olhos diante do espelho.
Sylvia, há também os moços e as moças. Me espanto vendo-os vindo dar seu suado dinheiro aos donos da jogatina. Invariavelmente se vestem com discrição e simplicidade, tons pastéis, de certo receando chamar atenção. (Mas obviamente chamam a dum sujeito desgarrado do rebanho como eu.)
Mesmo o jeans é raro entre essa extemporânea moçada. Envergam ares de jovens cansados e desiludidos, envelhecidos demasiado cedo. Deslocados, a esta hora deviam estar alhures, bebendo vodka com energético, esnifando coca, curtindo os vícios próprios da idade. Em vez disso movem-se para dentro e para fora da grande casa silenciosos, olhares no chão, semiocultos na penumbra da noitinha, lamentando a insuficiência das sombras.
O recém-chegado dá um envergonhado toque na campainha e é instantaneamente absorvido como se um hiper-aspirador quântico o sugasse num piscar da história. Às vezes tenho a pachorra de fazer um pouco de farol na porta de casa acompanhando o movimento e então flagro uns e outros caindo fora nem dez ou vinte minutos se passam. Provavelmente são os mais afoitos. Ou entraram sonhando com a jogada milagrosa que lhes daria uma bolada suficiente para um mês de mercado ou já saíram de caso predispostos a perder logo tudo de uma vez na esperança de abreviar ao máximo, e ao mínimo, o sofrimento da impaciência. Qualquer que seja sua categoria, as maquininhas de arrancar grana de doentes os deixam lisos assim que finalizam a consumação média estimada. Permanecem no casulo tumular sobrecarregado de fumaça de cigarro apenas o bastante para algumas meias cervejas, das quais a derradeira abandonam pela metade assim que se dão conta de sua indefectível falta de sorte e fogem apressados para retomar suas vidinhas sem perspectiva.
Sylvia, sei que posso estar soando moralista. Mas, veja, não tenho de fato pena dos jogadores. Pelo contrário, admiro neles a facilidade com que se entregam à única curtição que ainda lhes é possível e a despreocupação com que dão de mão beijada suas economias aos “empresários” do jogo.
Eis um vício que jamais dominaria minha vontade, por fraca que seja, nem os resquícios que ainda me restam de sensatez, que nunca foi meu forte. Apostar no mano a mano com um computador que está sabidamente programado para trapacear flutua soporiferamente longe do meu entendimento. Me render ao auto-ludibrio, mesmo que por livre e espontânea vontade, a lúdico título, não faz meu gosto nem satisfaz minha vocação à desconfiança. Me pergunto se pode haver gente que curte ser enganada. Pode, obviamente, me respondo indiferente. Para que fim, nem imagino. Será sentimento de culpa que requer expiação circular e constante? Quem sabe. Nunca fui bom em análise psicológica. Cada um que seja louco como melhor lhe aprouver, não é mesmo, minha cara teutônica?
Eu nunca participaria dum esquema que não me permitisse auferir algum dividendo. Mesmo que simbólico. Se um dia entrasse num bingo, contendo o nojo daquele fedor misto de cerveja rançosa esparramada nos tampos das mesas, montanhas de tocos cigarros desamparadamente esmagados nos cinzeiros imundos e coxinhas, quibes e esfirras esquecidas pelos cantos, não ia sair sem um lucro qualquer, por ínfimo que fosse. Poderia ser um uísque por conta da casa a título de consolo pelos meus dez reais perdidos ou um brindezinho como um boné com a inscrição “Sou idiota, jogo no bingo do Zé”. De mãos abanando e cara de tacho, nem pensar.
Certo, os velhos - talvez não incluindo aqueles que frequentam bingos - antigamente costumavam recomendar a nós jovens, “nunca diga ‘deste uísque não beberei’". Gostavam também de repetir preciosidades como “o mundo dá voltas”, dito que eu, molecão afeito a radicalismos e chegado a um preto-no-branco, achava risivelmente imbecil. (Embora hoje saiba que é um dos pilares da existência e que não se ri impunemente dum dos pilares da existência.)
Ainda que leitor desde pirralho, sempre tive problemas com o potencial evocativo do vernáculo. Lembro que, púbere, metáforas e metonímias me irritavam. Passando pela escola, fui forçado a me submeter às figuras de palavra e de linguagem de que todos padecemos. Até assimilei algumas, só para me dar conta de que hoje em dia ainda as detesto, tal como Roth e outros grandes americanos mas que eram o xodó da minha iridescente Sylvia. (Provavelmente o são para os poetas em geral.)
Em contrapartida, todo mundo e sua sogra hoje diz “risco de morte”, ao que parece em nome da “clareza” da comunicação e sob o pavor de que as infinitas complexidades da língua fujam ao controle, que já é desoladoramente parco. Nesse sentido, acho mesmo que esses semiletrados têm razão: é melhor estarem bem seguros de suas palavras, por mais pobres que estas sejam, do que se aventurarem numa sutileza linguística que na verdade signifique o contrário do que pretendem expressar. Falar “risco de morte” no fundo é sensatamente não correr riscos de morte de vexames semânticos.



Nascido para o desafino


A caixa no Fastmail, maior, mais rápido serviço de correspondência eletrônica do lado de cá da rua, lotou esta semana com mensagens querendo saber quando será o próximo episódio da série Amorokê na vila. Cá pra nós, a mais empolgante dos últimos três dias – parodiando jornalistas de futebol e seus indefectíveis tabus (uau! o Santos não vence o Palmeiras há quase dois jogos...)
Dada a exorbitância de emails – alguns milhões, mais precisamente –, optei por este plá pelo próprio blog ao invés de abrir e responder um a um, o que levaria minha secretária Raphaela Samara a pedir a conta pela oitava vez só depois do almoço. (RS sai às onze e meia da matina e só volta amanhã depois do Mais você.)
Resposta: já está escrito o próximo episódio da série, achando-se no momento da Seção de Revisão Linguística (eu e minha mania horrorosa de salpicar meus textículos de interjeições alienígenas, em ortografia errônea e sentido despropositado e semântica esdrúxula, emporcalhando a sobriedade visual da mancha do texto com aspas e itálicos e enchendo o saco dos leitores que vivem reclamando da leitura espinhosa. Mas por ora não poderei atendê-los nesse quesito, pois o que mais curto na minha contristada existência à sombra dum pé de machucho seco no fundo do quintal, indefectivelmente c’um copo cheio até a borda de Johnny Walker Black (ganhei dum rapaz aí que voltou do Chile outro dia; bem que podia ter trazido uma caixa inteira, o muquirana), contrabalançado com algumas gotas de água da Sabesp, é verter parágrafos quilométricos entuchados de apostos e explicações predicativas simplesmente para embananar o entendimento e assim obrigar meus pobres leitores a ficar indo e voltando pelas linhas tentando extrair algum sentido das minhas deliciosas gororobas semióticas, o que na certa os deixa putos da silva araújo e a mim, satisfeito qual um bebezão gorducho corado de tanto mamar leite com farinha láctea e traçar pencas e cachos de banana com muita aveia e açúcar cristal servidos em colher grande pela negra Palmira, a empregada fervorosa em espírito e índole que cuidou (força de expressão, obviamente) deste vosso vil vassalo de um ano e meio aos seis, banana com aveia devidamente substituída na adolescência por baldes de cerva (de preferência Antártica) e litros de destilados (no mais das vezes vodka, uísque, stein, rum, conhaque e gin, nesta desordem, pois sempre tive para mim que a necessidade de organização do mundo e das coisas em geral deriva dum impulso neurótico de controle sobre o ambiente e os que nele habitam, envenenando a inocência primeva do primeiro olhar que deitamos sobre a natureza e implodindo nossos relacionamentos interpessoais e nos fazendo seres de arestas pontudas e caras bicudas e mãos e dedos esfiapados que quando tentamos fazer amor ou mesmo tomar um drinquezinho no happy hour quebramos rotundamente a cara e em última análise nos autossabotamos em realizar o propósito precípuo da nossa missão neste planeta desembestado no espaço, qual seja, a troca de impressões, visões de mundo e fluidos corporais nos intestinos do rebanho do Senhor, na acepção revolucionária preconizada por Karl Marx e exitosamente levada a cabo por Zé Dirceu e suas 27 ex-esposas, antes de sua jubilosa partida para Curitiba, sob os entusiasmados auspícios do estraga-prazeres Sérgio Moro, maior responsável pela abortada tentativa de implantação do socialismo do século 12 em nosso país).
Outro dia um sujeito aí veio me visitar c’um livrinho de contos da Marina Colasanti, comprou numa estação do Metrô por um pau e meio. Fiquei emocionado vendo o livro, li muito Colasanti há uns trinta anos, tenho vívidos na memória sua serenidade, humildade e, acima de tudo, compaixão pelo sofrimento dos homens, nos dois sentidos. Levei o livrinho pro banheiro, habitualmente a primeira parada de minhas novas leituras que subsequentemente se transferem para a mesa do meu computador, e me pus a ler. Ah, chama-se Contos de amor rasgado. Li o primeiro deles, curtinho à la Trevisan, me entusiasmei. O sujeito coça o ouvido c’uma chave dessas de porta e acaba abrindo a cabeça. Passei pro segundo, intitulado Por preço de ocasião. Começa assim: “Comprou a esposa numa liquidação, pendurada que estava, junto com outras (...)” Esse já não tão curto mas de bom começo, me animei. Passei para o terceiro. E o quarto. No nono ou décimo conto, atirei o livreco longe. Cada um deles borbulha duma imaginação visceral e exótica que a cada parágrafo vai abrindo uma sucessão de possibilidades de fantasia que invariavelmente morre de sequidão estéril no ponto final. O problema da imaginação na literatura é lograr levá-la para além dela mesma, usá-la como coadjuvante, não protagonista. A imaginação solitária, desprovida de outros recursos literários, não é suficiente para sustentar uma narrativa. Sempre existe o risco de se cair num Cem anos de solidão,belo e pobre. Não é moleza se desfazer do livro dum autor que aprendemos a admirar. Vou procurar outros livros de Colasanti, ver se deixo esse pra trás.
O mesmo que me deu a garrafa de JWB me trouxe os dois cadernos que faltavam das notas de Camus, Esperança do mundo e A desmedida na medida. Finaaaalmente. Ganhei ainda um livro de poemas dum poeta chileno, que devolvi ao presenteador depois abrir bem nuns versos tipo concretistas e folhear umas páginas. Melhor não declinar o nome da porcaria. Ah é, outro dia o mesmo me deu uma coletânea de Sylvia Plath perguntando “já leu?” Fiz que não ouvi, logicamente. Isso é pergunta que se faça? Às vezes me acho um misto de Hércules e Atlas por suportar tudo que tenho de suportar.
Sim, os milhões de emails que recebo semanalmente inquirindo se os personagens d’Amorokê na vila são fictícios. Que pergunta, holy fuck. Pela enésima, os personagens se baseiam em gente que existe de fato, em cada traço de caráter, ou falta dele, e em cada detalhe, não, não seria capaz de nem tenho talento para criar personagens ricos e complexos como Soninha, dona Jussara, Lacerda, Pizzaiolo, Genro, Gioacchina, Raimunda, Osório peneirado com 29 azeitonas durante as entregas de pizza, Carlão apaçocado sobre a moto novinha idem e tantos outros que pululam por estas páginas digitais qual girinos e pererecas sem destino num charco poluído de aventura, sorte e azar, esperança, cinismo, decepção, dita e desdita e tantos outros atributos e condições humanas estabelecidas literariamente pelo bardo Bill. Ao contrário de Colasanti e García Marquez, não tenho imaginação suficiente para construir personagens tão autênticos nas situações rocambolescas em que os coitados vivem se metendo por obra de suas aspirações e fraquezas ou de suas sinas freudianas. Devo admitir, inclusive ive v, que as reinações que perpetram e as enrascadas em que vivem caindo podem soar meio forçadas e até fantásticas aos olhos viciados em séries hollywoodianas e carminhas destituídas de vida interior e contradições interpretadas histericamente por atrizes globais protegidas pela câmara e pelo merchandising. Reconheço que Genro deglutir meia caçarola de sopa de marisco com meia banca de feira de pimenta e dois kg de sal apaixonadamente preparada por sua fêmea Soninha após uma tarde inteira despendida no buteco sob niagara falls de kaipiroska de figo e romã não parece lá muito verossímil. Mas posso garantir que fui testemunha ocular desse e de tantas outras extravagâncias que parecem ocorrer apenas na tevê.
Vocês notaram na enumeração de personagens que fiz acima a falta da Cateleine.
Faz anos venho tentando chegar a alto Mar.
Ondas intransponíveis me detêm.
Arrebentam sobre minha cabeça, me afogo.
A omissão não foi acidental.
Ressuscito.
Falar de Cateleine, como? Mesmo sentimento às vezes de escrever. Estou ficando covarde. Revolver meu angu interno, essa soberba superfície arroxeada que evoca o rosto sombrio do oceano.
Cate, não diga que sempre fui, não é verdade. Já fechei os olhos e pulei dum barranco no fundo da madrugada. Já saí dirigindo bêbado só de cueca e atravessei faróis de olhos fechados em outra alvorada. Já passei uma tarde inteirinha agachado escutando um rock várias dezenas de vezes sabendo que meu pai me escutava do outro lado da porta. Já pedi perdão a meu pai (não na presença dele, confesso).
Amanhã farei nova tentativa. E depois. E depois.
Tudo está aberto porque tudo está fechado.
Agosto chegou tão inesperadamente e aqui estou ainda esperando.
Cate, sabe essas pessoas que em vez de falar fazem declarações? Assim é Cateleine. Quando conversamos tenho gana de empunhar um microfone diante de sua boca. Se Cate existisse em 1882, dom Pedro lhe teria cedido lugar no quadro de Pedro Américo mofando no Museu do Ipiranga que um dia matei aula pra ver ao vivo. Cateleine podia se eleger Declaradora Oficial de Eventos do Mundo.
Senhoras e senhores, palmas para os Grandes Assertivos da História. Eles irão combater até que um jogue a toalha e escute o que o outro está tentando dizer. Tenho experiência com assertivos. Hoje à tarde deparei com o vivo voltando do trabalho. Não sabia que o vivo trabalhava. Ele me parou no meio da calçada com aquele jeitão dos assertivos que conheço desde meu segundo dia de vida. “Sabia que aqui é um puteiro?” indica o sobrado à nossa frente. Digo que não, não sabia. “Olha que coisa gostosa” indica uma moça saindo do puteiro. Olho. Holy fuck, como ter tesão por uma puta? nunca consegui, que degradante e depressivo, tantas vezes tentaram me levar a puteiros, nunca passei da porta, eu e minha educação católica.
Cateleine não escuta. Apenas finge, sabe? Assente, faz hum-hum mas você saca pela dissimulação no olhar. Só um Laurence Olivier seria capaz de simular essa dissimulação. Então Cateleine se entrega à auto-absorção por incalculáveis instantes, retornando em seguida pronta para fazer a próxima declaração. Sou independente e feliz, declara, mesmo quando não abre a boca. No século 21 o maior medo de todo mundo é admitir que é fraco e depende dos outros pra tocar sua vidinha de consumidor das migalhas culturais que a indústria do entretenimento deixa cair da toalha rendada “casualmente”.
Quero me casar com você.
Soltei um palavrão, virei as costas, decidi alçar voo feito super-homem.
A maioria dos emails que recebo pedem sem meias palavras que renuncie de vez às minhas pretensões poéticas e me dedique apenas a Amorokê. A esses prometo que já estou tomando providências para desviar meus impulsos de versejador grotesco para uma atividade mais lucrativa como sapateiro ou consultor petista. Alguns aconselham na cara dura que eu desista até mesmo do folhetim e de qualquer outra incumbência mesmo remotamente relacionada à literatura.
No lado esquerdo da minha mesa jaz um livro de Pedro Nava. Não vão acreditar mas também ganhei semana passada. Ainda não abri. Sou capaz de deixar um livro meses a fio esquecido ao meu lado sem a mínima curiosidade, até de repente o ler em um ou dois dias. Nava é o que nos coube de Proust, escreveu para reviver e como todo grande escritor viveu para escrever. Quando descobriram que era gay, desceu do prédio, se recostou a uma árvore numa rua próxima e deu um tiro na cabeça. Estou quase absolutamente certo de que se mataria mesmo hoje sob essa liberalidade fake sufocante que atravessamos. Questão de princípios. Há gays que não querem ser gays, assim como alcoólatras que não querem bidu. Gente sem caráter não tem princípios, simplesmente atende aos comandos dos instintos. Na apresentação do livro, uma senhora diz que o suicídio de Nava foi inexplicável. Há gente para que suicídio e homossexualismo fogem do escopo da literatura. Cuspe. Ó meu bom jesus que a todos conduz olhai as crianças do nosso brasil. Estamos fadados ao jardim d’infância.
Nota da minha secretária Raphaela Samara
Atenção: as menssagens enderecadas à mim que vim com efe em vez de pê-agá serão sumarialmente mandadas pro nosso arquivo morto. O patrão que mandô.

Hoje tem panelasso. Frijidera ok.

Hamlet caipira


Bem, quinta de manhã, dia e hora de atualizar o diário.
Bati uns seis km de perna hoje. Eu e Zezeí.
Zezeí tá gorda feito uma almôndega cabeluda. Não consigo reduzir a dieta, morro de pena da carinha suplicando mais um, mais um, mais um. Cada dia mais esfomeada. Agora deu de comer cocô na rua. Vocês sabem, Zezeí não usa guia. Vai indo lá na frente farejando cada poça de mijo que encontra, eu atrás, cabisbaixo, remoendo as coisinhas que nasci pra remoer, como gosto de fazer, como gosto de ser, como gosto de rimar.
De repente flagro a diaba mascando, saio correndo mandando largar, ela se escafede engolindo na fuga. Além do cocô, morro de medo de chumbinho, claro. Vi outro dia não lembro onde um vídeo em que um mentecapto dava carne com chumbinho pros bichos da vizinhança. Matou dezenas de cães e gatos. Eu seria capaz de encher um filho da puta desses de porrada, tranquilamente. Idem esses políticos que metem a mão na nossa grana. Queria mesmo era ser carrasco pra executar político ladrão. Não é blague. Executava com gosto. Só um Lamborghini que a PF apreendeu na Casa da Dinda do Collor vale mais de três milhões. O maníaco tem quatorze carrões ao todo, entre eles uma Ferrari de um milhão e um Porsche de 600 mil. Na Suécia deputados e senadores vão de metrô para o trabalho, não têm carros oficiais, motoristas, salário-moradia, salário-guarda-roupa, salário-mordomo. A Suécia de hoje é fruto das carnificinas dos vikings e outras tribos sanguinárias de ontem. Parece que a civilização é um desdobramento de várias etapas de barbárie. Os países mais avançados deixam isso cristalinamente óbvio. A Guerra da Secessão matou 620 mil homens só nas frentes de batalha, 2% da população, hoje equivaleria a 6 milhões. Os recentes protestos dos negros americanos contra assassinatos de sua gente perpetrados pela polícia dá bem uma noção de quão distintas são as reações deles e nossas frente à injustiça. Eles têm centenas de políticos em cana há décadas. Delinquentes tipo Collor e Lulla não escarneceriam das leis como fazem aqui. Não vamos chegar a lugar algum enquanto ficarmos de papo pr’aquele lado que os papos ficam, a assistir a farra dos maganas com nosso sangue. Não há esquerdismo ou direitismo que nos tire deste chove-mas-não-molha. Dizem que Lullinha é um dos nababos mais ricos do País, o que não duvido. Enquanto o povão der poder a larápios como Lulla estaremos fudidos. Todas as demais tragédias que sofremos – bandidagem, hospitais entuchados de gente pelos corredores, doentes esperando três anos por um exame, cadeias repugnantes (que o ilmo. ministro da Justiça qualificou de medievais mas não mexeu um dedinho para corrigir), 55 mil mortes no trânsito a cada ano, professores que levam surras de alunos, universidades federais sem salas de aula – resultam da indigência cultural do povão e da bonomia das classes médias. Segundo a Unicef, 10.500 adolescentes e crianças foram assassinados no Brasil no ano de 2013. A maioria constituída de meninos pobres negros. Em 1990, contavam não mais que 5 mil. Se esses números não servem para demonstrar cabalmente a quem ainda vota no PT o que é a esquerda no poder, então é melhor cometermos um vasto suicídio coletivo de 200 milhões de cegos retardados.
Enquanto isso dondocas e dandizinhos passam as tardes nos portais de relacionamento discutindo as ofensas racistas contra a jornalista da Globo.
A tevê e a internet substituíram a realidade.
Meu estilo lenhador – vocês sabem, barbão comprido e abundante, cabelo curtinho – tem causado frisson nos meus passeios entre... as bichas. Sempre fui assediado por gays mas ultimamente a coisa tá começando a me encher os pacotes. Homossexuais, não sei se todos, são altamente promíscuos e por isso descarados e não se avexam em exibir despudor em público. Como digo, ativistas da própria sexualidade, o que pessoalmente me causa nojo. Para mim e para quem tem um mínimo de educação, sexualidade é assunto privado. Muitos são petulantes e agressivos. Numa época entrava numas, então resolvi pegar leve, esses sujeitos podem se revelar perigosos. Certa feita, três da manhã, entrei alegremente no banheiro público da Praça da República, fui atacado a chacotas e insultos por um bando deles, tive de recuar por um corredor polonês de bichas galhofeiras. Nas ruas, alguns encaram insolentes e insistentes, intimando, querendo confronto. Não tiveram quem lhes ensinasse modos ou não quiseram aprender. A cafajestice é a regra.
Chamo atenção de longe. Não só pelo estilo de derrubador de árvores mas também por esta minha carranca intensa de quem tem substância. Posso ver nos olhares o efeito que provoco. Que seria mais assoberbante se a maioria das pessoas tivesse um mínimo de cultura e sofisticação. Mas dá pro gasto. E não me interessa quem é incapaz de perceber que não está diante de mais um robozinho controlado pelos ditames ideológicos da época e pela propaganda da mídia. É como escrever. Escrevo para quem sabe reconhecer qualidade e identificar literatura. Dia e noite vejo gente perdida entrando em meu blog em busca de pornografia, versinhos açucarados ou piadas de papagaio tipo Verissimo. O crítico Wilson Martins ria gostoso de escritores que se dão demasiada importância. Sim, vaidosos fátuos correm o risco do ridículo. Mas depende. Até hoje escrevi uma quantidade considerável e de nível bom o bastante para não me dar importância. E Martins, qual a maioria dos críticos, vivia enchendo a própria bola, só que indiretamente. Quando faz pouco dos outros, você automaticamente se engrandece, certo? É o que acontece com tudo que todo crítico escreve. Mas faz parte. Vivemos uma batalha interminável do dia em que nascemos ao que damos bye-bye a este vale de etc. É melhor assumir e relaxar em vez de fazer papel de mestre-escola. Como dizia o poeta Joseph Brodsky, uma das características do mal é sua capacidade de se disfarçar de bem. “Você nunca vê o mal chegando e anunciando, ‘Olá, eu sou o mal!’”.
Minha barba fulge ao longe, posso atinar. Além de hirsuta, farta. Quase nívea, como diria a núbil Raquel de Queiroz às voltas com a escritura d’O quinze na fazenda Pici da família no sertão do Ceará nos idos dos 1930.
Sou alvo preferencial não apenas de gays mas também de mulheres. Só que em número deploravelmente menor. Elas olham com discrição, evitando a todo custo encarar. Não querem ser tomadas por prostitutas, perigo que não atemoriza gays. As mais olhudas são as motoristas, da segurança de seus carrões fora do planeta, podem acelerar e sumir no trânsito. Na calçada praticamente nenhuma se atreve, há o risco dum approach que leve a um tête-à-tête e bater em retirada fica mais complicado. Às vezes uma mais assanhada manda uma avalanche de elogios a Zezeí ao invés de mirar o dono, que é avaliado rapidamente de soslaio. Essas aguardam a iniciativa do macho. Aguardam uns segundos e perdem o interesse.
Para minha tristeza, as que parecem mais acessíveis são as que já iniciam sua jornada sem retorno rumo àquele cabo que todas acabam dobrando cedo ou tarde. As senhoras acima dos cinquenta andam pela cidade meio ávidas, é visível. As de carro mais, também nesse caso. Carro é mais ou menos como o computador, o volante e a distância aumentam a confiança. As cinquentonas buscam aventuras outras que não sexuais. Talvez um companheiro, no que não acredito muito. Querem mesmo é comprovar se ainda são desejáveis. Estão plantando verde. Tenho certeza de que dariam no pé se tentasse uma aproximação. Mais que maridos, elas têm filhos. Já adultos, difíceis de enganar. Os maridos, esses são passados pra trás desde sempre.
As da chamada idade da loba, arredores dos 35 carnavais, são as mais comíveis, de mais de um ponto de vista. Se acham nos preparativos para a suprarreferida jornada, a juventude começa a erguer um braço para dar adeus mas ainda hesita. São as mais comíveis porque atravessam o clímax da vida no que têm de animal, a vitalidade plena, a sexual, aquela transição entre a inocência da alvorada e a experiência do crepúsculo. Sei, experiência própria, que é a etapa em que se encostam na parede e dão a si mesmas a chance do agora ou nunca. Me pergunto, quem sofre mais com a degenerescência etária, a mulher ou o homem? É forte a tentação de dar palpite mas me abstenho para não ser ainda mais frívolo do que sou. Estava lendo hoje o blog dum tal de Leandro Narloch na Veja Online e o rapaz tentava fazer pilhéria perguntando por que as feministas não lutam também pela igualdade numérica de gênero nas prisões brasileiras. Quer dizer, para esse cara a ambição das mulheres em participar igualitariamente do mercado de trabalho, dos parlamentos e outras instâncias da vida civil seria mais ou menos o mesmo que querer ser encarcerado numa das medonhas masmorras do sistema prisional brasileiro. Os leitores do sujeito entraram em êxtase, naturalmente, dizendo que ele estava sendo “lógico”. Alguns dos meus leitores me acham obsessivo porque volta e meia retomo os mesmos assuntos, mas eis por que vivo caindo de pau na maioria dos blogueiros dos grandes veículos de comunicação. Quase todos eles escrevem o que seus leitores esperam que escrevam e a isso denominam “lógica”. Não há pensamento legitimamente criativo ou inovador mas meramente a expressão dos pré-conceitos usuais no pedaço. A velha repetição de sempre para manter alimentada a macacada de auditório. Tive ímpeto de fazer um comentário e contraditar o blogueiro mas, ainda bem, me contive. Não quero mais entrar numas, como disse acima. Só serve pra te desgastar. Já faz algum tempo que não comento blogs e fóruns por aí e pretendo continuar no meu low profile. Podia usar um nick mas a troco de quê? E não quero mais ver meu nome misturado ao da manada que comenta esses blogueiros pagos para engordar as contas do patrão.
O bom mesmo nas ruas são os brotos. Algumas lolitas de doze são deliciosas. Heróis trágicos de Rubem Fonseca e Dalton Trevisan namoram ninfetas tenras assim. Quanto a mim, sou um pouco mais convencional. A minha, Soninha, tem já dezesseis, pelo menos passou, ou está passando, a adolescência. Dolores, a lolita de Nabokov, também tem doze. Como disse alhures, não li Lolita, nunca tive vontade e perdi definitivamente o interesse depois que vi o filme, o primeiro, de Kubrick, com a personificação da inveja e cansativo James Mason e o fabuloso Peter Sellers como Clare Quilty. A segunda versão, com o tarado Jeremy Irons e a insossa Melanie Griffith, nem sonhei assistir. E depois que conheci o desprezo enojado de Otto Maria Carpeaux pelo livro de Nabokov, encerrei de vez esse departamento. Carpeaux também bota no devido lugar secundário o universalmente incensado Apanhador no campo de centeio, de Salinger. É a diferença entre o verdadeiro erudito e o crítico de orelhas de livro.
Ah, brotos que não voltam mais. O império dos hormônios que causam estragos traumáticos nos circunstantes à medida que desfilam pra cima e pra baixo com seu diabólico fito. Hormônios que acordam hormônios. A irresistível fertilidade que todos existimos para cumprir, indiferentes às conveniências do pensamento em moda. Ah, brotos e sua frieza olímpica, o menoscabo ferino pelas reações que elas próprias arrancam dos cães de línguas de fora. Quão iníqua parece ao esfomeado a visão da fartura.

Como se chamam hoje? Cocotinhas teve vida efêmera nos idos dos setenta/oitenta. Meu ouvido para o coloquial anda desatualizado. Sinto falta da orkut e suas comunidades com alto teor de sinceridade em que podia detectar e aprender os novos rumos do jargão da molecada. Um escritor desfalcado do vigor do informal acaba virando um José Lins do Rego ou, para os vivos, um Ignácio de Loyola Brandão. Quais são os melhores fóruns hoje para investigações linguístico-sintáticas e atualização da gíria? Cartas para a redação, s’il te plaît. 

Amorokê na vila - Capítulo 037


“A ciência das coisas exteriores não me consolará da ignorância da moral nos momentos de aflição; mas a ciência dos costumes me consolará sempre da ignorância das ciências exteriores.”
Emmanuel Lévinas

9:24. Três batidinhas na porta. Me arrepio. Nunca vou me acostumar.
Estou escrevendo a enésima carta de despedida à minha ex-mulher Sílvia e paro.
Abro as quatro trancas. (Essas onomatopeias acidentais, frère Jacques, frère Jacques, dormez-vous?.) Fecho os olhos, sinto o leitoso hálito sorry.
Soninha entra com seus cinco (não perca a conta) celulares. Ontem me mostrou um por um e a parafernália de recursos. Cada qual com um tom de alguma dupla caipira. Claro: meu maior medo é que todos toquem duma vez. Como naqueles filminhos, bem quando estamos engatando na cama. A sinfonia do meu destino.
Sô, um dia vai chegar em que as nossas vidas estarão no YouTube e passaremos nossos dias assistindo nossas vidas no YouTube, entende, Sô?
Queria acrescentar uma citação qualquer de Christopher Lasch. Não pra me exibir. Nem uma demonstração de esnobismo Soninha entenderia. É que sinto falta de profundidade às vezes e com a Soninha é sempre tudo na superfície. Ela tem medo de afundar. Não me atrevo a dizer. Soninha é espontânea. Como jamais imaginei que possível fosse.
Eu tenho medo de aflorar.
Fico pensando na parede. Ela fica pensando no teto.
— Quando é que a gente vai casar?
— Sô, agora não. Estou escrevendo minha enésima carta de despedida para a Sílvia.
Arrisco um olhar de canto. Ela poderia reclamar do meu tom condescendente e antipático. Que sou mesmo duro de aturar. Mas ela é espontânea.
Como dizem os vencedores que levam por prêmio a batata, o silêncio é a melhor resposta. Podia dizer, olha, não me interessa vencer. E não sou muito a fim de batata.
Sílvia, tenho senso de territorialidade como qualquer um aí fora obcecado por ganhar a vida.
Não quero que você me julgue por tudo que lhe disse quando estávamos juntos. E sim no que sentia por mim. O que mais lamento é que esse meu pavor de ser apenas mais um zé-ninguém massacrado por senso de responsabilidade, obrigação de ser o que quer que exijam de mim (seja descomplicado, seja corajoso, seja homem, seja franco, seja tudo que o mundo quer que você seja) foi exatamente o que te afastou de mim. Errei em me fiar apenas no que sinto. Como é que devo agir agora?
Você sabe que não é fácil. Essa coragem que você me cobra é coisa de homúnculos que deixam o que sentem se embotar pelos mandos sociais. Mesmo assim você exigia que eu seguisse o rebanho.
Mas minha cara Sílvia, não nasci para zé-ninguém. Não “sinto” vontade de ter um carrinho manero. Não me “sinto” no dever de dizer que gosto de poesia para que meu público me ache um cara sensível. Tenho horror a quem vive de construir a própria fachada. O zé-ninguém não tem ideia do que deve sentir e quando sente sente-se o mesmo que outros 8 bilhões de zés. Olha, não estou lhe anunciando nenhuma novidade. Só queria que você entendesse que eu merecia a chance de tentar. Certo, não consegui escapar da zé-ninguenzisse. Para um escritor isso é terrível. Tudo bem, sei que você detesta quando falo assim. Mas este é o “meu” tema, o único de que posso e de que sei falar. Tudo bem, sou complicado. Mas qual poeta frustrado não é? Tudo bem, todos os poetas e o pai do Huxley são frustrados.
Descobrir o que sinto é a minha tarefa. Não pretendo soar nobre, como você certamente vai debochar. Apenas tento botar um mínimo de sentido no meu mundo. Sou indiferente ao que não me acenda uma luzinha ou me soe um alarme aqui dentro.
Você sempre tira pressuposições demais. Pare de pressupor o que sou e veja o que sou. Sei, requer um tico de treino. (Os participantes do concurso não levam um prêmio de consolação; teu prêmio seria me ter de volta. Não vou te perguntar se te interessa. Não me cabe essa pergunta.)
Eis um exemplo de suas pressuposições: você pressupõe, como seria “natural”, que tenho de me precaver contra naufrágios. (É mesmo, nunca te falei em naufrágios. Embora, vejo agora, seja bem possível naufragar em águas rasas.)
Ao contrário do que seria “natural”, não fujo de naufrágios. Já os sofri e sofro dia a dia. Embora não seja um navegante. Naufrágios — perdão pelo clichê — fazem parte.
O que acho engraçado é que, depois de tudo, você ainda ache que sou um cara preocupado com os zés e suas besteirinhas. Nos meus naufrágios diários me afogo, ressuscito, volto pro mar, me afogo de novo. E, olha, que é que pode haver de mais belo que um bom naufrágio ao entardecer? Se tiver um copinho de balla na mão direita e um free na esquerda, então, é sublime. E, claro, se tiver você me lendo, aí até me sinto quase feliz.
Teus insultos quando nos separamos não me espantaram. Me espantou, sim, a raiva com que os proferiu. Fiquei parado um tempão tentando compreender. Eram, imaginei, de novo as suas pressuposições. Você se desconcertava quando eu saía do figurino que você aprendeu a obedecer. Mas quando nos conhecemos naquele bar flutuante na ilha Porchat não te disse que sou um desconcertador profissional? Você riu, sem pescar. Tudo bem, falo demais e sei que meus leitores não pescam nem 9,45 por cento do que falo. Tudo bem, posso me defender alegando que lhe preveni. Adoro, você sabe, escandalizar a boa gente à minha volta. Até meus amigos o Fred e o Afonso, que têm uma porrada em comum comigo, vivem se espantando. Sei que não sou moleza. Eles me suportam porque são machos, embora gays.
Mas me diga uma coisa: você me amou porque viu em mim os encantos dum náufrago, não foi?
Não sei se você vai responder. Provavelmente fiz, mais uma vez, jus a teus insultos. Tenho esse dom de agredir na maciota. Dói mais, acho. Ossos do ofício, acho de novo. Não, não que eu queira ou goste de agredir. Bom, gosto, sim. É das poucas coisas que faço com prazer. Sorry. Mas não é deliberado. Escapa. Você sabe que adoro dar minhas espicaçadas. Sobretudo em quem amo. De preferência, com vara curta. Sei que você vai acusar esta alusão genital. Nunca vi uma mulher com tamanha queda pela genitalidade como você.
Quer que lhe diga outra coisa engraçada? Então aí vai: achei engraçado como, ao sair atirando, você me acusou... — como é que foi mesmo? não sei se foram estas as palavras exatas, já bebi além da conta — ah sim, me acusou de “escrever pra atingir outra pessoa”. Pois é, dois paranoicos feito nós não podem ter futuro. A diferença é que assumo minha paranoia, ao passo que você quer fingir que é sã. Você se amarra num teatro. (Embora o italiano com pendores dramáticos seja eu.)
— Vai demorar? — Soninha se posta às minhas costas e espia a tela. — Que é que você escreve tanto?
Quem não escreve (ou quem não escreve a sério) não pode entender. Às vezes nem eu mesmo entendo. Afinal, que é que escrevo tanto? Só ao acordar (de manhã, bem entendido) é que me faz algum sentido.
Não é moleza ter ao lado uma mulher e escrever para outra.
— Pombas, Sô. Assim você me atrapalha a concentração. Vai jogando aí no celular enquanto não termino.
Bom, minha cara Sílvia, por hoje acho que é tudo. Ando meio cansado. Não é moleza sentir o que sinto.
Só mais uma coisinha. Teus insultos me feriram e me divertiram. Feriram porque, apesar das aparências (a tola lei das aparências — Wilde dizia, é superficial não julgar os outros pelas aparências — genial, não? Quantos ensinamentos esses cabras têm a dar a quem quiser aprender), não sou masoquista. A bem da verdade, como diz o Luciano do Valle, sou um tico. Faz, ih, parte. Artistas estão condenados ao sofrimento (se você me perdoa a pretensão de me proclamar artista. Sei que, tem hora, soo um esnobe filho da puta. Sou um filho da puta). E divertiram porque são a prova mais incontestável de que você ainda me ama. Teria mesmo o descaramento de dizer que me adora. Vai ver você também curte curtir uma dor. Deus nos livre a nós dois.
Já que preza tanto a qualidade da coragem num homem, lamento que não tenha tido a coragem de fazer parte da minha ficção. Sim, alguns dias, em certos aspectos, sob determinados pontos de vista, passei de todos os limites. Em outros, também. Tudo bem, você não gosta de quem passa dos limites. Me ama e me despreza. Me acha um doente travestido de lírico. Um maníaco autocentrado incapaz de enxergar os sentimentos alheios.
Mas quase tudo se resumia a isso, minha cara. Tem algum problema? Ou está absurdamente fora do teu figurino?
Você me acusou de escrever para mim mesmo. Minha cara, quem se pretende escritor só pode escrever para si mesmo. Público é para os paulo-coelhos, os caetanos, os chicos. (Chico não escreveu aquelas duas bobagens só para agradar seu público?)
Então até a próxima. Não sei se você sabe, agora tenho um blog. Sei, é esquisito. Logo eu, não é mesmo? Mas, olha, é tudo bem modesto, sem nenhuma pretensão. Quer dar uma espiada? O endereço é este. Você vai ver que mencionei uma ou outra passagem sobre nós dois. Não se preocupe, sou discreto. E, você sabe, não fizemos nada que nos comprometesse. Infelizmente.
O blog me ajuda a relaxar enquanto vou tocando meus livrinhos. Ou “projetos”. Lembra como você ria dizendo que nunca vou acabar nenhum deles? Acho que tinha razão. Preciso de disciplina e vigor. Não tenho nem uma nem outro. Queria deixar registradas algumas coisinhas que aprendi, criar uns personagens a partir dumas pessoas que conheci. Mas como, se tudo que aprendi foi você quem me ensinou e a única pessoa que conheci foi você? Estou absolutamente vazio agora que você foi embora.
E sei que você nunca vai ler minhas cartas.
Queria te dar um beijo.
— Sô! Larga essa porcaria e vem discutir o meu egoísmo. Sei que você se amarra no assunto.


Amorokê na vila - Capítulo 036


aprendi ontem
(Devo estar atrasado, ou talvez seja apenas um falso rumor, daquelas fofocas rancorosas que circulam entre a pia e a latrina na hora em que as refeições que foram ingurgitadas mais uma vez são jogadas nos baldes de merda),
aprendi ontem...

Antonin Artaud

Órbita em torno de nada, não tá na cara?
Tinha decidido não escrever mais hoje, mas minhas decisões só duram 3 segundos, tempo bastante para decidir que decisões são sempre erradas. (Sei.)
Ter blog é complicado. Minha cabeça está cozendo/cosendo o assunto há dias. Mas vou deixar esse papo para outra ocasião, quando amadurecer. À minha revelia. Ou, espero, apodrecer. Você sabe, nossas cabeças têm vida própria.
Se escrevesse hoje, ia ficar embananado, palavroso, devaneante e onírico no mau sentido. (Sempre é o caso do que quer que seja onírico. Em que pese ser o onírico e o sonambulismo meu habitat.) E tem mais: neste momento estou cuma raiva de dar medo. (É meu estado mais comum. Vou ver se consigo uma brecha amanhã de manhã.)
Agora quero falar da Soninha. Não posso casar com a Soninha. Ela já é comprometida. (Com o pai, Lacerda, dono de bar. Que a come todas as tardes na despensa nos fundos do boteco.) A última vez que dancei, The Animals, tinha 14 anos, quando tomava uns trecos barra-pesada. Minha dieta diária são 4 maçãs. Meu recorde é 8. O único problema da Soninha é que ela não aguenta beber. Se encachaça com duas meias cervejas. Preciso de alguém que se afogue de uísque comigo. Já vi gente que nunca ficou ébria na vida. E já vi gente que curte farejar o buquê duma taça de vinho, se possível seco.
Ufa, parece que desandei no palavreado mais uma vez. Vou tentar manter a sobriedade.
Fico sentado 18 horas/dia mas minha bunda é rígida qual a dum cadáver. Já tomei um ou dois banhos de cachoeira na minha vida. Num deles quase me afoguei. E já morei no mato. Caminhava uns 5 km por dia, hoje só saio de casa uma vez por semana para comprar cigarro e birita. É, no boteco do Lacerda. Ok, podia fazer logo um estoque e poupar o trabalho, mas tenho de ver a Soninha regularmente. Ela é a razão desta minha vida de cachorro, embora seja feiosa qual o pai. Me prometeu me curar a brochisse. Daí as sessões trissemanais. Ficaria com ela duma vez por todas se minha ex-mulher Sílvia tivesse a decência de sair da minha cabeça e deixar minha inexistente alma em paz.
Livros, vou ciscando aqui e ali, quase sempre no computador, leio umas 4 hs/dia, o último em papel que li até o fim foi Inveja e gratidão, M. Klein, há uns 20 anos, despenquei num abismo depressivo e nunca mais superei. Acho que foi então que tive a prova cabal de ser maluco clínico. Já tomei choque. Um baratão — qualquer dia quero de novo.
Hollywood, não consigo aguentar mais de 2 minutos. E se alguém me bota diante dum "filme de arte" tenho gana de sacar a pistola no melhor estilo Goebbels. Bin Laden errou — devia ter mirado a festa do Oscar, fazendo farofa de brads pitts, angelinas jollys, spielbergs e outros superherois e assim dado um alento à raça humana. Durante anos resisti à tevê a cabo, até que ano passado alguém aqui em casa mandou instalar à minha revelia. Só não atiro a tevê pela janela porque às vezes assisto a festa dos 95 anos de minha mãe. Se eu não esticar as botas antes dela, quero registrar o velório da velha em devedê. Assim terei algo para fazer quando não estiver no computador.
Meu guarda-roupa? Bom, o que meu guarda-roupa menos guarda é roupa. Entre uma mixórdia de badulaques tem apenas um paletó que aposentei ao desistir de vender toalhas para os turcos da 25 de março e duas calças de tergal que já não dão conta da minha barriga que, ao contrário de peter-pan, aparentemente decidiu não parar de crescer, contra minha vontade e parecer técnico. Meu médico recomendou persistir na terapia etílica. Pelo jeito vai levar mais uma década para fazer efeito. Na gavetinha de cima do guarda-roupa ainda tenho a última carta que mandei para a Nicinha, uma das minhas inumeráveis paixões pós-adolescência, carta que ela me devolveu sem abrir e que até hoje sei de cor.
Queria fugir de Sampa com a Soninha, mas me arrepio com a ideia. Primeiro porque o Lacerda ia me caçar até o fim do mundo por fugir com sua filha-amante. Segundo porque não sei se tolero por muito tempo a Soninha e seu rostinho de camafeu a aquele sorrisinho evasivo, inquiridor e insolente.
A maior parte do tempo vivo pré-armado c'um espírito amistoso que na hora agá sempre sai pela culatra, eterno moleque encabulado, mãos perdidas buscando o abrigo dos bolsos, surdo para o azáfama dos carros na rua e dos vizinhos. Gosto de beber no boteco do Lacerda porque fica numa esquina. Assim tenho mais rotas de fuga. Embora não faça muito diferença, pois quase sempre estou inundado (em vários sentidos).
Se fugíssemos, tenho certeza de que meu coração ficaria acelerado de paralisia, em permanente expectativa do alarme e do 38 do Lacerda. Não me perdoaria a imprudência e passaria cada momento doido de vontade de socar a cabeça contra um poste por ter caído na minha própria armadilha. Por que não fiquei no meu cantinho? Todas as vezes em que tentei concretizar minhas fantasias foram um desastre. Embora até hoje o pior que me aconteceu tenha sido uma ou outra bofetada de algumas ex-namoradas.
Por hoje é só. Agora tenho de ir na feira com dna. Jussara, mãe de Soninha. Curto ir na feira com ela porque vou analisando as fachadas das casas enquanto levamos um lero sobre os preços da batata e da cebola. Manjo um tico de arquitetura, guardei umas lições da época da faculdade, nas noites em que não estava de porre ou em que não esticava a bebedeira no balcão do Bate-Pinga, saudoso botequim que ficava na Corifeu de Azeredo Marques na entrada da Cidade Universitária, hoje substituído — ó praga — por uma academia de ióga. (Outro dia falei "ióga" não lembro onde e quase apanhei. Por que será que os ioguenses perdem a fleuma hinduísta e logo querem briga por causa dum ózinho mais aberto?) Vou omitir que uma razão secreta que me leva à feira é que me divirto com os olhares coquetes com que as donas de casa apreciam meus dotes físicos. Pois é, sou bem-feito de corpo. Parece que, quando saem para comprar seus víveres semanais, elas deixam a pudicícia em casa. Ah, se os maridinhos pudessem flagrar as sem-vergonhas. Qual caquis maduros, algumas até que são comestíveis, se você escolher direito e apalpar no lugar certo, tomando cuidado para não estragar. Feira-livre é melhor do que bienal das artes, mesmo com aquelas gostosas siliconadas que capitaneiam os estandes e nas quais eu não me atreveria a botar a mão. Já cometi a façanha de ir numa bienal sem olhar um único quadro. Outro dia tinha um nordestino vendendo uns anões de jardim depois da última banca. Aproveitei e trouxe um para casa. Onde vou pôr, nem imagino. Bidu, não tenho jardim.


Amorokê na vila - Capítulo 035

Acredito profundamente em ser minimalista. A menos que você esteja de fato partindo para resolver o problema geral, não tente montar uma estrutura para resolver um problema específico, pois você não sabe como será essa estrutura.

Anders Hejlsberg

Até porque.
Mas vamos ao que interessa.
Você quer fofoca. Quem não quer? A fofoca é a forma mais simples e direta com que um terceiro nos descreve um segundo e, o melhor de tudo, nos escalando ouvinte privilegiado da descrição e, melhor ainda, nos envolvendo no enredo da vida do terceiro nos agraciando com a benção da interação. E, ainda melhor, a fofoca versa sobre o que para nós é o mais importante: pessoas. Se falar de pessoas ricas, legal. Se falar de pessoas ricas que amam, lindo. Se falar de pessoas ricas que trepam, e trepam numa fúria e duma forma que ousamos imaginar só em sonhos, ótimo.
Eu também fiquei decepcionado com as anotações vagas e quase abstratas do escritor amigo do tal de Fred.
Fatos, até que revela, mas poucos e esporádicos, E quando o faz o faz en passant, os adindo incidentais e irrelevantes, próprios para a lixeira.
Li a primeira vez até porque, que então parecia tão inofensiva e que dali em diante viraria praga, em Minha razão de viver em que Samuel Wainer conta que foi ora chegado ora desafeto de todos os poderosos da República a partir de Vargas. É um livrinho, com perdão da palavra, didático, mostrando quanto um jornalista que vira amigo de poderosos torna-se omisso com a desculpa de assim poder continuar fazendo parte da corriola e passar ao leitor “informações” de primeira mão. Embora eu sempre tenha sabido da porqueira que rola entre jornalistas e políticos, o livrinho me deixou meio enjoado. Essa gente que cobre o “círculo do poder” pode ser tão escrota quanto os mandachuvas. A promiscuidade come solta. Será verdade que aquele presidente engravidou uma jornalista? Difícil de acreditar, não é? E aquele ex-presidente do Senado cujo nome olvido que teve filha com a jornalista que depois mostrou as pudendas numa revista? Esse pessoal pululando em torno dos grandalhões da República faria melhor se abrisse para a gente o lado, digamos, mundano de suas relações profissionais, tipo “ontem transei com o presidente da Câmara e descobri, para a minha própria surpresa, que não dou importância a tamanho, salvo quando se trata daquela graninha por fora para o leite das crianças”. A circulação dos jornalões ia dobrar da noite para o dia. Quem sabe seria a salvação para o número de leitores em queda há uns anos, o pessoal parece mais interessado em interagir e dar uma de autor na rede do que ler notícia mofada do que houve há centenas de meses, ou seja, ontem. Faz uma cacetada que matutos digitais sacaram que a verdade jornalística é papagaiada e que não existe essa de visão objetiva e nós queremos é impressões individuais dum mundo cada vez mais refratário a explicações. Os telejornais aboliram a notícia e toda noite jogam na nossa cara de bobo um angu feito de sangue e terrorismo espetacular salpicado das inefáveis “informações” sobre o dólar, a bolsa, o tempo e, novo filão dos produtores da tortura em que se converteu a tevê, o tamanho dos congestionamentos. Isso não vai, não pode durar mais dois ou três anos, ninguém seria, acho, estúpido a ponto de engolir essa escrotice, a cada quinze minutos entrando uma trilha sonora alarmista para a mocinha carinha de sonsa “informar” que há 143 km de lentidão e estamos com 23 graus na av. Paulista, santo padre. E, suplício de todos os suplícios, dá-lhe Lula no palanque rodeado de coronéis nordestinos assentindo caninamente enquanto o salvador da pátria pela enésima vez vocifera em sua sofisticada tonalidade jato de areia contra a elite da qual ele mesmo faz parte há 40 anos e a igreja e a imprensa e o Congresso e os países ricos como se o presidente da República fosse eu, quem me dera, não ele. E, a cobertura política, que é que há para “cobrir” afinal? Durante uma boa parte da minha vidinha de inseto padeci dessa curiosidade idiota sobre o intramuros dos palácios e sua fofocaiada inócua. Atrai e ilude o leitor que confunde diz-que-diz e jornalismo. Editores sabem e escalam meia dúzia de relações-públicas para a fazer plantão no Planalto e no Congresso para no dia seguinte nos “informar” do que Dudu disse de Juquinha, lastimavelmente omitindo que Juquinha comeu Dudu e Dudu traçou a mulher de Zezinho.
Há uns anos ganhei da patroa um tijolo acho dumas 600 páginas escrito pelo alcoviteiro palaciano Carlos Castello Branco, nenhum parentesco com o ex-presidente sem pescoço, que narrava minuciosamente o cotidiano dos milicos por corredores e gabinetes. Parava aí, quando os outros aposentos é que valeriam a pena. Não lembro em qual jornalão escrevia, tinha uma “coluna do Castello” citada por todo mundo e sua manicure, lembro que lia esporadicamente sem dar bola, não sei por que cargas d'água-furtada Sílvia cismou que eu ia querer vinte anos de mexerico político empacotado num só volume. Enfiei o calhamaço no fundo duma estante qualquer e só bati o olho nele de novo outro dia quando fuçava à procura duma coletânea de artigos contendo aquele em que Carpeaux desce o ferro em Huxley, que achei deveras intrigante quando li a primeira vez, assaz curioso quando li a segunda, me soando algo de implicância com o baita sucesso que Huxley, menos erudito que Carpeaux mas ganhando em sagacidade, sempre fez entre a rapaziada sôfrega de entender o mundo, que Huxley procurava traduzir sem se emaranhar numa obscura mitologia germânica medieval lá.
São essas, acho de novo, minhas reflexões voltairianas, quando olho para o balcão e meus olhos dão com os olhos viajantes do Lacerda.
Mais feio que encoxar a mãe no tanque, o Lacerda foi compensado por deus com um tico de imaginação e criatividade, embora às vezes me faça duvidar que seja defacto humano e não protótipo experimental dum engenheiro genético infiltrado entre os fregueses do buteco.
É dos poucos, senão único, donos de bar eruditos que conheço. Tinha o Luizinho, retirante né em Brejo do Piauí que me servia no balcão do Bate-Pinga segunda, ou terceira, na Valdemar Ferreira à esquerda de quem entra para a Cidade Universitária, defronte uma churrascaria cujo nome me “escapa” e de cujos frequentadores dandizinhos garanhões e dondocas taradas assexuadas saindo de carrões e passando o volante a manobristas primos do Luizinho também naturais de Brejo do Piauí espanando felpitos imaginários ou não e esticando vincos e rugas com dedinhos nervosos dos terninhos de tergal e vestidões de baile ficávamos rindo anóxicos inebriados de soberba revolucionária, moleques ingênuos crentes que em breve escorraçaríamos os generais dos palácios, faríamos de dândis e dondocas nossos lumpen-servos. À medida que os grãos finos trotavam pernaltas para o restaurante com o rei-na-barriga de afluentes ignorantes cabeça de vento, teatralizávamos do outro lado da rua qual escolheríamos para chauffer, faxineira, coiffeur, jardineiro. As dondocas nove ponto cinco na escala Richter designávamos camareira particular. Dandizinhos mais bufões, mordomo. Escravo sexual não vale, alguém esgoelava, a revolução ainda não chegou lá, maconheiros promíscuos éramos todos mas nos avexava explicitar taras, a esbórnia sexual, vejo, está começando apenas hoje, os pré-adolescentes fornicadores atuais num só mês trepam mais vezes e com mais parceiros do que eu em toda minha existência de casto coagido, naquela época baixávamos o olhar puritano, hipócritas como nossos pais. As meninas bolshevikes, muito mais decididas e promíscuas que nós machos — como falavam aquelas viragos, deixariam Fidel no chinelo num concurso de resistência em palanque, ferocidade pittbulliana, muitas topariam numa nice um cargo de ajudante de ordens do delegado Fleury, que acabou com a raça duma meia dúzia de esquerdizoides antes que estes acabassem com a dele, tarefa de que se desincumbiriam com proficiência, seguramente levando “serviço para casa”, preservando distância higiênica dum maricas vocacional feito eu —, concediam que, tudo bem, dariam para o Chê, pero le lambiendo los pies sólo tres veces por semana. Membro da doidivanas Libelu trotskista, o mais anárquico, um dos dois únicos não puros-sangues da troupe, seguidores fiéis de Bakhunin, juntamente cum japonês chamado Mário cujo anarquismo autêntico, eu sentia na pele, me dava calafrios em meus pesadelos em que me via desmascarado em meu papelzinho de burguês cagão travestido de terrorista de botequim e que, estava certo, empalaria, se tivesse chance, a filha dum general por dias a fio tal como os torturadores da Marinha faziam com as donzelas revolucionárias que lhes caíam nas garras, me apavorava inconfessamente a ideia de um dia ver no alto do pódio um suicida assassino como aquele japa sorridente de sorriso, com perdão da imagem sovada porém verídica, sinistro. Às vezes, enlevado por uma jarra de batida de maracujá com pouco gelo, pouco maracujá e muita cachaça, um stalinista da Caminhando empunhando um violão a relinchar para não dizerem que não falei de flores, porcaria infantiloide que só virou hino da esquerda universitária porque proibido pela censura dos milicos, expert em proscrever e levar às paradas bugigangas que de outra maneira cairiam no mais inelutável olvido, censores que tacavam o pincel atômico em qualquer bobagem que mesmo remotamente parecesse carmim ou cravo, metade do que “libertários” do naipe de Chico Buarque, hoje de olhinhos tão singelamente fechados e língua solenemente morta ante os desvarios totalitários cometidos pela nova casta de sindicalistas emperucados no poder ávidos por macaquear o estilo de vida dos ricaços que sempre condenaram, com a safada desculpa de não querer dar pano à direita, a sambar no bloco dos carregadores de “bandeiras” enquanto fôdasse a verdade, às vezes um stalinista violeiro ouvia nossas piadinhas escrachando a luta de classes e tentava nos passar um pito resmungando que libelus sem fibra nunca faríamos a revolução porque levávamos tudo na brincadeira, vaticínio de cuja confirmação só vim a me dar conta quando outro dia olhei e de repente vi na manchete do Estadão foto de Joe Dirceu de grão-vizir de Lula com aquele olhar tá-no-papo de réptil lá. Os calafrios não me abandonam. Quem conheceu um stalinista a olho nu sabe como é. Eu e o japa pedíamos pros órfãos de Stalin tocarem Mutantes, a primeira e única banda, com perdão do palavrão, iconoclasta do nosso horizonte perdido, heresia a que os bolshevikes missionários tinham ganas de nos excomungar a paulada, de que nos safávamos na base do gogó, pois que lêramos pelo menos Que fazer, o Dezoito brumário e o manifesto aquele, ao contrário dos joe-dirceus pragmáticos cuja cultura se resumia a meia dúzia de mandamentos maoístas.
Vezes raras eu decidia sair do Bate-Pinga e rumar para a ECA ao invés de dar a volta na Vital Brasil e pegar o outro buteco em que costumávamos nos reunir para deliberar sobre os rumos do Berção, de repente me ocorre que hoje eu podia ser um ministro aí com cartão corporativo, cota de diretorias na Petrobrás e outras benesses mais se tivesse perseverado naquela vida de vagabundo, se há um dito popular que aprendi a prezar acima de todos é “meu, o mundo dá voltas”, e nessas raras vezes o Luizinho insistia em me acompanhar até a sala de aula em que se convertia no único a prestar atenção na arenga do professor enquanto nós “politizados” prosseguíamos heroicos a deblaterar no buteco nossa trama para salvar o Berção do fascismo e outras aventuras quixotescas. Os olhos do Luizinho brilhavam excitadérrimos nos assistindo deblaterando efervescentes do outro lado do balcão as razões históricas do atraso nacional, Caio Prado Júnior nas pontas das línguas, a irresponsabilidade das elites, a validade das táticas estudantis e, épico dos épicos, qual seria nossa estratégia para chegar de mansinho a Brasília e pedir educadamente ao gal. Figueiredo que cedesse o trono a um de nós pelo menos por uns dois anos, que imaginávamos suficientes para converter o País no mais deslumbrantemente infinito canavial jamais visto na Via Láctea, instalando de km em km espantalhos com a carona do Fidel para afugentar os abutres capitalistas.
O Luizinho, saquei logo, levava jeito e por isso não me importava de arrastá-lo comigo à aula esporádica e às orgias à Calígula em geral levadas a cabo e rodo no prédio da História e outras menos populares. Leu toda a coleção do Darcy Ribeiro que uma professorinha condoída dos destinos das massas lá nos passou e que comprei a princípio entusiasmado com a, ugh, perspectiva de entender duma vez por todas os milhões de problemas incompreensíveis da Sexta Potência Econômica e que duas semanas depois lhe presenteei sem nem tirar o invólucro de elastano. O Luizinho a esta altura deve ter descolado um empreguinho público na prefeitura de Brejo do Piauí como qualquer filho que não foge à luta inteiramente devotado ao roubo e à corrupção. Provavelmente o piauiense está levitando sob as estrelas do sertão, muito melhor que eu, que renunciei a belos cabidões na Caixa Federal e na Secretaria do Planejamento de SP enojado, sou, afinal um carinha honesto e otário, com as pequenas e rendosas panelas que se formam em cada saleta fétida dos arranha-céus abarrotados de barnabés de papo para o ar e que se trabalhassem uma hora por dia certamente produziriam a segunda revolução industrial. (Preciso maneirar na musicalidade, vão pensar que não passo dum vate sem-vergonha.) Os libelus, não sei que fim deram, parte criou algum partidinho manero para proteger funcionários do Banco do Brasil que levam todo santo mês trocentas pilas na conta bancária e juízes com dois meses de férias por ano e seguro médico e odontológico e qualquer outro imaginável, afinal somos um povão feliz que não se pode dar o luxo de correr riscos, ao trôpego passo que os stalinistas da Caminhando entraram todos sob as cálidas asas de Lula.
Eu dizia que o Lacerda, mais feio que bater na mãe na Sexta-feira da Paixão e compensado por deus com tremendo poder imaginativo e engenhosidade e erudição, colou com durex um pedaço de cartolina na parte posterior da registradora em que estava escrito “Fiado só amanhã”, letrinhas grandes esmeradas da, como já disse, esposa dona Juçara.
Peguei e, vozinha fininha e débil, protestei.
Ao que o Lacerda me passou um carão, emendando:
“Até porque...”
Se cágado tivesse voz, seria assim.
Desliguei. Recolhi minhas milhares de anteninhas ouriçadas tentando captar todo e qualquer fenômeno desses com que a vida nos presenteia a cada segundo e que os 23 bilhões de futuros escravos dos chinas teimam em não acusar.
Uma ficou sintonizada. Por mais que pratique, nem sempre logro consumar minha técnica de me fingir de morto, que venho treinando desde que nasci e os anos seguintes de amarga obsessão por retomar aquela terna quinzena anos de amamentação que me deixou o gosto indelével da vida sob a língua.
Falei que até porque era a puta o que o pariu.
O tom dele subiu quase uma oitava de dó sustenido a si. Uma súplica. Fiquei enojado. O fedepê sabe ser repulsivo quando quer. Já pedi, várias, centenas de vezes, me avisa antes, me avisa antes! Sempre que for tascar um “até porque” a cada dois períodos em tudo que jorra copiosamente dessa vossa gargantinha de ouro, bota uma palavra de alerta.
Fred balança a cabeçorra, se divertindo.
Fred gosta duma citação creditada a Bakhunin: “O mundo será um lugar melhor quando o último burguês morrer enforcado nas tripas do último padre e afogado no sangue do último militar.” Será?