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Artigo primoroso de João Pereira Coutinho hoje na inglória Folha de S. Paulo.

Coutinho é o único articulista em cujas linhas ouso passar os olhos hoje. Cultura sólida e não fraudulenta como a dos outros, visão histórica, ou seja, infenso à tralha de modismos que brota qual praga nas mídias e nas redes, e, acima de tudo, faz uso do cérebro, o que não é pouca batatinha. Como dizia aquele sujeito que inventou a vitrola, apenas pouco menos de cinco por cento das pessoas pensam.

Agora que a luz do sol volta a brilhar nesta parte do Hemisfério Sul depois do pesadelo de oito anos sob os delírios etílicos do reizinho mitômano e mais de cinco a padecer com as psicopatias da mulher mais inacreditável que já sentou e jamais tornará a sentar a bunda no trono presidencial, finalmente podemos apreciar nossos horizontes duma distância razoavelmente segura.

Articulistas, todos, deram o que tinham que dar. Uns, cheguei a pensar que sobrariam relativamente incólumes da refrega contra a barbárie lullopetista. Foram os casos de Demétrio Magnoli e Fernando Gabeira. O primeiro logrou obrar duas ou três peças valorosas de denúncia contra a quadrilha governamental, mas terminou por se perder na afetação estilística, evidência de inidoneidade de propósitos, e na confusão ideológica, prova de hesitação. Meu desencanto com Magnoli se cristalizou quando o próprio Coutinho o chamou pro pau a respeito dum texto em que o brasileiro botava toda a responsabilidade do impasse entre Israel e palestinos nos primeiros e o sujeito deu uma de joão sem braço. Pra quem, como Magnoli, vive botando banca de oráculo em matérias geopolíticas, foi uma retirada de campo vergonhosa. Conheci Magnoli nos idos dos anos setenta na USP e tudo de que me lembro dele é que vivia interrompendo as aulas alheias pra dar aquela típica discurseira estudantil inconsequente e fazer agitação política. Quer dizer, interrompia minhas aulas nas raras vezes em que eu estava longe do balcão do Bate-Pinga sorvendo uma das minhas hipergeladas kaipiroskas de figo com caqui.

O outro, bem mais consistente em termos de ideias e posicionamento político, também logo mostrou que, papagaiando a sentença de Paulo Francis sobre Clarice Lispector, não tem fôlego. Lembro que o próprio Gabeira reclamou desse tipo de cobrança quando lançou O grebúsgulo do Majo logo depois de O gue eh izo gombanhero? e a crítica caiu de pau choramingando que o segundo livro não espumava com a mesma verve do primeiro nem causaria o mesmo frisson nesta nossa dorminhoca cena literária. De novo, o próprio Francis, na ocasião, veio em socorro do mancebo que então passava a se banhar em Ipanema em sumaríssimo maillot rosa-pink, pra desgosto nada prolifilático dos esquerdosos de O Pasquim, à frente Jaguar e Ziraldo, aquele que não descansou enquanto não descolou uma pensão vitalícia às nossas custas por ter sido "perseguido" na ditadura, atitude devidamente ridicularizada pela insuperável mordacidade de Millôr: então não era ideologia, era investimento. Por falar em Folha, outro de seus colaboradores que também arrumou uma bela bufunfa mensal até o fim de seus dias pra se refazer dos tormentos da "perseguição" é o soporífero acadêmico Carlos Heitor Cony, de quem comprei dois livros há umas décadas e não consegui passar da segunda página.

Ainda na zona de rebaixamento, não poderíamos omitir o triste caso daquele que um dia despontou como o mais feroz combatente dos desmandos lullopetistas, só pra se revelar um vendido safado quando o desgoverno da psicopata aléxica já dava mostras de degringolar. Pra cúmulo dos cúmulos, hoje o dito vendilhão tem o descaramento de atacar Sérgio Moro e os rapazes da Lava-Jato que estão tentando higienizar a pocilga em que se transformou este país e fazer pouco dos que se manifestam nas ruas contra os políticos. Como bem sabem meus quase três leitores e dois-quartos, fui um dos primeiros escritores antipetistas a assacar o indicador teso e indignado contra o narigão torto desse pequeno jornalistão que aluga seu teclado aos pamonhas tucanos e, dizem as boas línguas, ao sr. Gilmar Mendes. Como ninguém me arrumou uma cadeira na ABL nem um púlpito na Veja, porém, não deu no Jornacional. 

Nem tudo, porém outra vez, são decepções.

A luta contra os abusos intoleráveis de lulla e sua gangue veio por trazer a lume um pregador do brio de Marco Antonio Villa. Dá gosto de ver seu ânimo vingador e denodo no Jornal da Cultura, dedo em riste contra a câmara, aplicando ao pinguço os apodos merecidos. E revelou também o mais fino estilista de todos que se enojaram com os despautérios lullistas, o escritor e articulista de O Globo Guilherme Fiuza. A primeira coisa que nota o leitor das crônicas de Fiuza é que o autor nunca, jamais apela pra primeira pessoa do singular. Ao contrário daquele manjado cabotino neurótico e deplorável que pretende ser a estrela única e incomparável dos próprios artigos e que sobe nas tamancas quando se vê alvo duma chuva de achincalhes.

O artigo de João Pereira Coutinho hoje na folha tem por título Argumentar com defensor de Fidel em 2016 é degradação do nosso intelecto. Pois é. Nem precisava desenvolver o tema.

Que pretendo desenvolver one of these days. Argumentar com defensor do peetê e de lulla depois de tudo é insultar nosso cérebro. Antes da eleição do vigarista, com perdão do pleonasmo, sindicalista, costumava pensar que esses caras deviam chegar ao poder. Só assim o povão teria a chance de ver de perto e sentir na pele a incompetência abissal dos esquerdistas que, tal como a maioria dos intelecas, habitam o reino da fantasia. (Quer dizer, a manada lá de baixo, a massa de manobra. A nomenklatura no topo sempre se dá bem, obrigado.)

Assistindo agora à ressurreição dos discursos e das declarações mentirosas de petistas e psolistas e comunistas e congêneres, se fingindo escandalizados com o governo Temer como se a inimaginável avalanche de erros econômicos e de falcatruas bilionárias daqueles treze anos tivesse sido obra do além, me dou conta, estarrecido, de que a máscara não caiu e nunca haverá de cair.

Daí, em parte, os articulistas soarem agora quase supérfluos. O uso da razão parece inútil. Todos, absolutamente todos os argumentos foram postos no tabuleiro, com a necessária propriedade, com a devida explicação. Citando o epitáfio de Lobão (o cantor, não o ministro de dilma), discutir com petista é como jogar xadrez com pombo, ele vai derrubar as peças, cagar no tabuleiro e sair de peito estufado cantando vitória.

Foi preciso um não-inteleca pra decidir a parada, um artista, um cara que, antes de pensar, sente. Vivo fosse, o conterrâneo de Coutinho Pessoa certamente emitiria palavras ainda mais lapidares para o túmulo desses zumbis putrefatos que se recusam a calar as bocarras babonas.

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Um antigo leitor (não vou declinar o nome, não sou esnobe (ih, agora já esnobei)) escreve para dizer que minha escrita vai ficando cada vez mais suja.

Ah, esses higienistas. Um, esses eugenistas.

Intelectuais acabam virando intelectuais principalmente por uma necessidade de purismo. Tentam reconstruir no mundo das ideias a perfeição inencontrada no mundo dos fatos. Daí a formidável abundância de bizarrices pseudas. Primam aqui aqueles intelectuais que não têm intelecto suficiente para proclamar que o são.

Reverberando minha postagem anterior, não tenho saudade quase nenhuma de quando me preocupava em escrever bem. A boa escrita pode ser uma armadilha e é na maioria das vezes. Por isso há mil profes pascoalinos para cada grande escritor. Hemingway vivia reclamando que Dostoiesvy escrevia mal e não há termos de comparação entre ambos, apesar da tietagem descarada (e pour cause) de Carpeaux no célebre prefácio que escreveu para um livro do americano lançado aqui no meado do século passado.

Tudo bem, podem dizer que as ideias formam um mundo à parte, tal como o espírito. A questão é exatamente essa. Pretextos como esse é que têm resultado em inefáveis tragédias ao longo da história.


012jjiw (ou "Agora a Cateleine me mata")

Já não tenho saudade de quase nada, exceto de quando sentia saudade do tempo em que tinha saudade.

A cada dia vou me dando conta da inviabilidade d'um homem sem saudade. Eu, que tantas incontáveis vezes duvidei da minha impossibilidade, vou tentando me conformar que sou impossível.

Não é possível não ter saudade.

'Inda mais quando só se tem saudade do perdido mundo das aparências.

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Será que em épocas passadas, também atormentadas pela "crise" como esta e como qualquer época sempre será, será que em épocas passadas assistir a um carrão luzidio a deslizar pela rua cheio de brilhos e resplandecente de fricotes e abarrotado de penduricalhos a clamar aos quatro ventos a opulência e a falta de bom-gosto e a falta de compostura e a indigência cultural do proprietário, será que em épocas passadas assistir a tal espetáculo era tão nojento quanto é hoje?

Ou terá cada época a crise que merece?

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A morte de Ferreira Gullar enterra com o manto da humanidade a tragédia do time de futebol e seu velório interminável em que a grande imprensa chafurda impunemente, embora um calhorda na Folha tenha decretado que a mídia saiu "digna" da cobertura do evento.

A morte de Ferreira Gullar finalmente ensombrece o fim tardio d'um dos mais infames homúnculos do século 20, o assassino cubano cujas cinzas odientas vão passeando de cidade em cidade do Caribe nas telas das tevês e dos computadores e dos celulares qual a mais asquerosa das tochas olímpicas humanas.

A morte de Ferreira Gullar salvou meu fim de semana da repugnância absoluta para o enclausurar no fundo da mais sombria tristeza. Eu, que quando nada mais me dava uma gota de conforto, costumava me refugiar neste pensamento: "Inda bem que Gullar inda está vivo, mein Gott".

De novo na Folha, leitores choram a morte do poeta chamando-o de Goulart, Goullart, Gullart e outras grotesqueries mais, citando versos que nunca leram, destilando as bobagens de que só leitores de jornal são capazes. Um lá bota Gullar ao lado de "Drumond", santa mãezinha.

Há semanas venho tentando me conformar: minha repugnância pela boçalidade humana vai me matar antes que o câncer.

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Ao contrário da maioria das pessoas que se consideram sensíveis, não vejo mal no utilitarismo.

O único problema é quando, depois de utilizar os sentimentos alheios, o utilitarista não vê mais utilidade na presença, ou na existência, do outro.

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Como é nauseante essa gente que se entrega insensatamente ao papel que a vida lhe designou.

Como é deplorável essa gente que se entrega alegremente a seu papel biológico, a seu papel social, a seu papel sexual e sai por aí a exibir orgulhosa a tolice de suas certezas.

Como é desprezível essa gente que se deixa escravizar docemente e sai por aí à procura de escravos semelhantes, escravos equivalentes, naturalmente.

Como é intolerável esta peça de atores e atrizes distraídos.

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A obra de arte — antes de qualquer explicação antropológica, psicológica ou da teoria da arte — vem primeiro d'uma necessidade que reside no reino da Física. O impulso primordial que brota dentro do artista — e que ele ainda não sabe bem o que seja e que num momento subsequente pode fenecer ou prosperar — nasce dum espasmo de energia e o artista terá então de servir a seu papel de intermediário entre a natureza e o que chamamos, para fins de definição, "alma". 

É nessa interlocução que o artista realiza a troca energética com o mundo, dando sua parte de anima e tomando em retribuição sua quota de vida.

Por isso, o artista morre quando se cala e passa a lutar aflito para recuperar a capacidade de se expressar.

Aprendi que o artista inexpressivo é possível, todavia. Desesperadamente.

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Acordei c'um toque suave no ombro.

Me soergui e me recostei na cabeceira da cama e abri os olhos. Mamãe me pareceu absurdamente familiar, como se nos tivéssemos visto ontem à noite antes de deitar.

Começamos a conversar, ela falando muito mais que eu e durante três dias escutei inerme, quase hipnotizado e nos dissemos todas as coisas que ficaram subentendidas ou imanifestas durante as absurdamente fugazes  décadas em que convivemos.

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Haverá dor maior que morrer sem ter ensinado por não ter aprendido?

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A única mentira em que acredito é a minha verdade.

A única verdade em que acredito é a minha mentira.

Sorry.

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Consegui escutar duas dos Beatles hoje cedo, I'm only sleeping e I want you, e por um átimo revivi o momento da outra dimensão quando era capaz de me abstrair sem ter de dizer fôdasse o mundo. Olha, nada a ver com a letra de only sleeping, só coincidência. Décadas e séculos e milênios pra descobrir que tudo que fiz foi, tudo que faço é resistir ao crescimento. Ao nascimento.