Vate preguiçoso

para Sue Cida 


É tarde. Estou cansado. Me jogo na poltrona, cabeça congestionada de tédio, sinais trocados, sentimentos em curto-circuito. Corpo irrepousável.
Minha velha poltrona, que já era velha quando meu pai costumava sentar-se exatamente como estou agora. 
Olho o forro da sala, estriado de trincas do tempo, emaranhado de veios que guardam as respostas. 
Porra! poesia agora não! Tento resistir. Mas já é tarde. 
Com o canto dos olhos vejo a miserável espreitando. Vem chegando. Aconchega-se. Me cutuca. Tem a cabeça coberta por um capuz de pom-pom e o coração carregado de ardis. 
Estou cansado, maldita! Não quero me assombrar. Não quero descobrir. Não sou navegante, não gosto de física nem metafísica. 
Agora é tarde! Ela parece troçar de mim escancarando sua terrível bocarra de dentes encavalados e afiados, sôfregos lábios ressecados de anciã despudorada. 
Apoio o cotovelo no braço da poltrona, espalmo a mão para cima e sustento pelo queixo a cabeça que não quer outra coisa senão tombar. 
Já não te disse, ó virulenta, que para te alimentar preciso de disciplina, sobretudo disciplina, uma das muitas virtudes que não tenho? 
Olha! Vê minha carne flácida de molusco indolente, minha cara branda de epicurista sem-vergonha! 
Tivesse eu o corpinho enxuto do Drummond! Aquele sim era um poeta atlético. Num salto ágil, cultivado em décadas de exercício, pulava, te laçava em pleno ar, ó tarada. Antes que tocasses o chão ou te escondesses dentro do poço do cotidiano. Era um craque contumaz. 
Mas eu, quando vens vindo, e vejo que vens solerte, sorrateira, torço meu nasone italiano, desdenho, "Que venha! e que vá com saúde! E dê saudações aos seus!" 
Ai, que gigantesca preguiça do tamanho dum bonde! Ter de parar o que estou fazendo, violar a lei da minha inércia. Queres lei mais imperiosa que essa? 
Olha, moça, aqui vai uma recomendação: 
Podes passar batido, pois estou descansando. E quando descanso, me desobrigo de tuas visitas. 
Tenha dó. Olha que desânimo de pegar no batente! 
Pra que interromper o sono da vida? 
Essas façanhas estéticas são para os carlos e que tais, estetas tesudinhos. 
Ai que preguiça de viver. E ainda ter de fazer poesia! 
Deixemos a parada com o cabral macho, que além de melo ainda era neto e além de neto, joão. 
Tão ligeirinho. Recifense esfomeado sempre pronto para a fartura. 
Ou pro mané, outro pernambucano, esse sim legítima vocação. Tão frágil! Tão criticamente tísico, preparadinho para empunhar a "insopitável" espada da dor. Tão desnutrido, que era até amigo do rei. 
No conjunto, um amanuense e dois diplomatas. Já que é assim, juntemos logo um moraes também diplomata e um mendes escrivão, que é pra completar o time dos funcionários públicos. 
Ô gentinha abominável. Fazendo poesia às custas do contribuinte. 
Olha, dona. Não tenho vocação pra trabalhar 24 horas por dia. E, aproveitando este momento de sinceridade, não tenho vocação nenhuma. 
E não tô a fim de cumprir plantão. Sendo um desleixado — sequer sei por onde diabos anda minha lira! 
E tu, nojenta, concreta e abstrata, por que vens me atanazar com teu bafo virulento se sabes que tenho estômago fraco? 
E por que me deixas te agarrar o paquidérmico busto de Apolo só para que me escapes por entre os dedos? 
Escuta, cretina! Não sou automático feito elevador em que podes 

embarcar profunda 
subir sem pátria 
descer morta 
e desembarcar na Barra Funda
como se fosse prosa.


É hoje


Belo dia, acorda cansado. Cansado como nunca. Extremo. Definitivo. De dizer chega. De não querer se mexer. De não poder viver mais um segundo. E decidido. Cansado e decidido como nunca.
De hoje não passa. Já esperou demais.
Está decidido dum outro jeito. Um estado natural de decisão. Diferente das outras vezes em que tinha de ficar se convencendo de que é o melhor para ele. Agora é pra valer. 
E estranho. Um estado decidido tão forte, que domina o cansaço. Pensa na própria cabeça e vê uma imagem engraçada: o cansaço extremo sendo abafado pela decisão suprema. É assim que se sente. O velho cansaço que sempre teve, que parece ter nascido com ele, finalmente vencido por algo mais forte. Predominante. Algo que agora tem nome.
Não vai durar muito, pensa c'um um pensamentozinho desanimado. É um pensamentozinho experimental, um ataque-surpresa contra aquela tentativa de decisão. Todo dia é assim. Basta um pouquinho de negatividade para a vontade sumir. Hoje não haverá de ser diferente.
Está num transe. Tem início a batalha. Decisão suprema versus pensamentozinhos negativistas. Está preparado. Já esperava. Pois todos os dias a mesma batalha se trava dentro de sua cabeça. Só que hoje é diferente. Nunca sentiu tamanha convicção. Os solertes pensamentozinhos vão virar pó. É questão de tempo.
Aguarda. A batalha vai se desenrolando, ele só assistindo. Até que... Sim, é hoje! Exulta. Finalmente venceu!
É hoje que dá um jeito na vida. Muda tudo. Faz o mundo girar ao contrário. Inverte a direção das ruas. Acaba com os reclames da tevê. Vira terrorista.
Sai. Toma o ônibus. Perambula pela cidade. Qual vai ser seu primeiro atentado?
Experimenta. Compra um passarinho. Manda enfiar numa gaiola para viagem. Leva o bichinho para casa. Põe a gaiola na mesa da cozinha e abre. Introduz a mão, encaçapa o passarinho entre os dedos, puxa o braço para fora. Depois desse ato heroico não terá mais volta. Só os realmente decididos são capazes de tal façanha. Está prestes a abrir a mão para soltar a ave  quando se dá conta de que o bichinho morreu. Talvez tenha comprimido os dedos além do planejado. Vai até a lata de lixo, abre a tampa e joga.
Então tem outra ideia.
Dirige-se a um petichope, pede o cachorrinho mais lindo e fofinho que esteja à venda. O atendente mostra um pudolzinho branco com pompons nas patas. É esse. Leva o bicho pra casa, despeja meio litro de leite numa tigela, deita-se na cama. É hoje. Agora não tem mais volta.

Não sei, tenho certeza


Vivi todas estas décadas e, porra, não sei nada. Ninguém aprende ao longo da vida, também não aprendi. Há uma diferença — eles nascem sabendo, eu sou de outra espécie.
Moleque, naqueles tempos mágicos em que você me conheceu, gostava de cultivar a autoignorância e desprezo por aqueles com quem vivia, pelas coisinhas simples e práticas do dia-a-dia que me dão nos nervos porque não herdei a capacidade de dominá-las e das quais desisti há décadas. Dentre tudo que não sei, não sei se minhas desistências foram um erro. Por não ter o conhecimento nato, cedo aprendi que o resto teria de ser suficiente para mim.
Nesta data, sempre mudo de assombro — que faz parte de mim tanto quanto estas minhas mãos desajeitadas, este meu narigão italiano, esta minha voz mole e sonolenta —, vejo que mudei apenas por fora, que ao longo do tempo não faço senão coletar adjetivos desfavoráveis como o são meus dias vindouros que aprendi a esperar aflito, como se os ventos que me levam até eles soprassem ao contrário de mim.
Eis-me. Molecão de meia-idade, gordo, lerdo, rabugento e feio e macambúzio — mil graus mais macambúzio do que naquele quatorze do doze em que nasci. Há muito deixei de sonhar com a infância que não tive. A nostalgia do que não existiu é um automartírio de que pretendo um dia me livrar — embora saiba, com mais certeza do que seria benéfico, que não haverá tempo.
Idade quase provecta, eterno rebelde furibundo finalmente domado pelos cabelos grisalhos e a barriga que, desobedecendo às minhas rígidas leis particulares, denuncia traidora minha degenerescência, minado dia após a dia pelo estômago demasiadamente sensível aos truques que me recusei a aprender, pelo menos sei, apesar de tudo que não sei, que devia ao menos saber mentir.
Exaurido de assombro, lembro duma época surreal em que, pequeno, via todo mundo de baixo. Um dia, pensava então, um dia este mal haverá de passar e deixarei de lado essas afliçõezinhas que me atormentam e poderei dizer que sou feliz, talvez quando me tornar um homem grande e forte, e sendo grande e forte, virar então um homem corajoso e sensato.
Embora não tenha aprendido porra nenhuma em minha vida e embora seja desfalcado daquela sabedoria congênita que me distingue da norma da raça, embora isso e outras faltas mais, sei cada vez menos à medida que meu tempo passa e envelheço, ganhando acidez e azedume qual vinho fadado à passagem fatídica ao vinagre. Naquele quatorze do doze eu certamente sabia que tinha meu futuro à frente — pois este é conhecimento básico imprescindível até mesmo para o mais reles dos seres humanos. Aquele mesmo futuro hoje está às minhas costas. Não guardo por ele interesse algum. O fascínio virou desencanto.
Em cada uma das minhas fases biológicas, lembro claramente do que lamentei não saber. Primeiro lastimei não saber jogar bola mesmo que fosse no nível sofrível dos pernas-de-pau. Depois lastimei não ser crânio ou socialmente talentoso o bastante para me tornar um dos xodós dos professores. E lastimei não ser belo para atrair as princezinhas por quem me apaixonava todos os dias e lastimei não saber fazer sucesso e, mesmo sem saber, lastimei preferir me camuflar na treva da solidão.
Das minhas frustrações, não saber fazer poesia sempre foi e ainda é uma das mais dolorosas. Das fantasias que vesti, a de poeta foi, é, a que vesti, visto, com mais esperanças. Apesar de nada que não sei, sei que nunca convenci senão a mim mesmo.
Se fosse poeta, chegaria ao fim deste poema e, sem ter dito tudo que disse, saberia fugir do desfecho previsível.
Apesar de tudo que não sei — e sei que o que sei não me vale de nada —, nesta data e em cada dia que me resta devo dizer que não aprendi senão a ser grato. Sob meu assombro constante, procuro, vejo você ao meu lado. Hoje, sei bem, aprendi a ser grato.


Esperando a ausência

Na noite da minha ausência quero ser espartano. Quero assistir a um filme de Rock Hudson, quero passar esta noite num cabaré de Berlim e esquecer, nesta noite em que deixo de ser e estar.

Me permitam uma boutade esta noite: já que vou tirar férias permanentes, descerei a via Anchieta e embarcarei no transatlântico construído por meu pai para mim. Me aguarda a colossal embarcação ao largo do porto de Santos. Zarparei diretamente, mas não para o rochedo Cila. No caminho não mais vencerei o redemoinho Caríbdes.
Na noite da minha ausência quero fazer um brinde — eu que agora me ausento de tanto querer sorver —, um modesto brinde, à população do meu planeta. Finalmente chegou a noite em que temos algo em comum e me sinto humano.
Na noite da minha ausência quero encostar meu rifle à parede da sala e fazer de conta que já não o vejo nem escuto lá fora os famintos coiotes que me obrigaram a desperdiçar minha vida, toda minha vida, sonhando alvejá-los.
Nesta noite da minha ausência me passam pela mente todos os pensamentos que já pensei e cada um deles dura eternamente e cada um deles me faz sonhar e lembrar e esperar, e em cada um deles preciso que me conduzam pela mão e me digam e me mostrem: eis o caminho que já não comporta dilemas! Eis o caminho em que só te resta imobilizar teus pés para que te levem daqui.
Na noite da minha ausência, alguns poucos minutos antes da minha ausência, não quero ver a casa do meu maior inimigo consumida em chamas, pois já não tenho inimigos. Não quero levar comigo ninguém, nada. Não quero que preguem em minha porta uma branca placa de latão esmaltada com dizeres em azul-marinho, “aqui esteve um homem comum”.
Pois quero que minha porta apodreça e já não serei um homem comum. Nesta noite agarro-me à lógica que me guiou em cada um dos meus dias. Nesta noite não quero a lua, não quero virar nome de rua, não quero meu rosto lembrado num porta-retratos na sala.


Meu escritor particular

Tenho um escritor particular. Que me escreve todos os dias. E quando está sem sono — o que parece ocorrer com frequência —, me escreve todas as noites.
Às vezes, mais raramente, me faz poesia. Outras, bilhetinhos simplesmente.
Mas, seja em prosa, seja em verso, nem sempre entendo o que me diz.
Não, não. Ele não é complicado. Nem seus versos, obscuros. Nem suas digressões, metafísicas. Ou eruditas. Ou cripticamente filosóficas qual às dum Wittgenstein.
É que meu escritor particular não me faz rir. Nem chorar. Nem me deixa indiferente.
(Pensando bem, depois que começou a me escrever, rio menos. (Minto — nem rio mais. Agora me limito a abrir um meio sorriso, um sorrisinho pacificado, um sorrisinho de efeito duradouro.))
(Chorar, acho também que nunca mais chorei depois que ele passou a me escrever. Agora apenas lembro, divago e emudeço. Mesmo quando me vem essa dorzinha em algum lugar de mim de agora ou de mim de algum ponto no passado que me angustia quando me deito no escuro e fico de olhos abertos sei lá quanto tempo. (Dia desses a luz do sol começou a iluminar meu quarto e levei um susto me dando conta de que passara a noite inteira simplesmente olhando o escuro.))
Mesmo assim as palavras do meu escritor particular em geral mantêm meu sono através da noite. E sustentam minha ansiosa vigília ao longo do dia.
(À noite mal aguento esperar o dia; de dia mal suporto a demora da noite.)
Ele escreve palavras de significados que nem me importo muito em apreender. Algumas, juro, nunca vi. Mas, depois que as leio, não parece fazer diferença. Consultar um dicionário dificilmente me ajudaria. Quando as leio tudo que me interessa é essa impressão de que foram escritas só para mim. Acho que é por isso que fazem sentido mesmo soando estranhas. Mais que tudo, aprendi a perceber que as palavras dele têm um ritmo. É correr o olhar pelas linhas e sentir que meus olhos podiam sair dançando por uma avenida inusitada, em cujo destino mal vejo a hora de chegar numa viagem que espero nunca acabar. A princípio tudo parece desconhecido, só para no segundo parágrafo as palavras que jamais li soarem familiares como minha língua materna. No terceiro eis que deparo com a história da minha vida, a descrição dos meus sentimentos, a explicação das minhas aflições.
Suas palavras, mesmo incapazes de acrescentar um átimo de beleza verdadeira à esterilidade do meu mundo, ao menos transfiguram a feiura que me cerca e disfarçam minha desesperança, e a cada nova manhã por alguns minutos posso sonhar que sou capaz de renovar a vida (a minha própria, a dos outros, a do mundo) e por esses minutos fugazes poder acreditar que cada momento vale a pena ser vivido e cada mentira deve ser desmascarada e cada falso enigma, desvendado do avesso.
As palavras dele são, sobretudo, capazes de quebrar este desencantado encanto que me emudece.
Elas vicejam num jardim, esperando que ele comece a colheita. Não me iludo que as colha só para mim, mas elas mesmas vêm me ensinando que meu velho sentimento de posse já não tem razão de ser. Sei que ele é o escritor particular de todos que souberam permitir que fosse. E a cada manhã aprendi a aguardar um buquê formado de verbos, substantivos, adjetivos que, ao revelarem o perfume que ocultaram de mim até hoje, me deixam enfim avistar o mar encapelado que se revolta dentro de mim ao invés de se diluírem na atmosfera ao redor do meu planeta como ocorreu nos longos anos em que me deixei trancafiar em um porão qual a donzela austríaca por décadas feita amante prisioneira do próprio pai.
Depois que meu escritor particular passou a me escrever, decidi que não preciso mais ter cuidado. Aprendi que já não preciso duvidar do que vivi no passado, do que testemunhei contra minha vontade, das garrafas de champanha e dos frascos de remédio que sempre se quebram para virar navalhas.
Mas por que razão meu escritor particular me escreve tanto afinal? você talvez queira saber.
A primeira vez também me encafifei. E mal pude pregar os olhos aquela noite, me atormentando com a pergunta.
Por que, afinal?
Não tenho nada de especial. Não tenho nem sequer uma beleza, um charme digno de nota. Nem uma inteligência notável. Nem uma sensibilidade que chame a atenção dos outros.
E a angústia que não me deixou dormir aquela noite foi em vão.
Na manhã seguinte meu escritor particular respondeu a minha — e, imagino, a sua — pergunta assim sem mais nem menos, como se uma voz divina lha tivesse sussurrado no ouvido.
E a resposta dele foi assim:
Há muitos, muitos anos venho coletando palavras úteis e inúteis. Palavras que ato e desato, estilhaço e torno a juntar com saliva, nostalgia e descaso, palavras que encontro e perco. Busco-as nos dicionários e nas gramáticas e as amontoo dum jeito que é só meu e não sei se é por isso que raramente façam sentido. Apenas formam um retrato incompleto do que sou, do que vejo, do que espero, refletindo desordenadas o caos vespertino em que me afogo.
Quase todas as manhãs me pergunto, escrever para quê?
Se ninguém tenho a quem escrever?
Se escrever é uma das mais supérfluas atividades humanas?
Se escrever para ninguém é o que me cabe?
E mesmo assim vou escrever para você enquanto meus dedos tiverem vida.

Encontro casual

para Joana D'Gleyse


Meus olhos se arregalam. Aperto as pálpebras teimoso, fingindo estar com sono. Os olhos se estatelam de novo.
Nem preciso olhar o relógio. É mais cedo do que o costume. O corpo pede mais algumas horas de repouso. Mas a cabeça diz não, imperativa. Não adianta discutir com ela. O jeito é levantar.
Vou ao banheiro. Fecho a porta. Mijo. Dou uns passinhos trôpegos até o lavatório. Como de costume, não olho o espelho. Me ver no espelho é sempre uma experiência desagradável. Preciso me controlar para não dizer nauseabunda. Lavo parcimoniosamente o rosto, minha boca se abre num grande bocejo enquanto me enxugo.
Saio do banheiro para a cozinha. O diabo está sentado à mesa, na penumbra.
— E aí — digo, acendendo a luz e erguendo as sobrancelhas à guisa de bom-dia.
Ele só dá de ombros e, sem responder meu cumprimento, pede:
— Poderia deixar a luz apagada?
Apago a luz. Vou para a mesa, puxo uma cadeira e sento diante dele.
— Como é que vão as coisas? — Tomo cuidado para soar cordial.
— Male e male. — Ele encolhe os ombros de novo.
— Muito trabalho ultimamente? — Apoio os cotovelos na mesa e seguro o queixo com uma das mãos, cansado. Vai ser outro dia daqueles, tenho certeza.
— Trabalho não me falta — Ele me fita.
Sustento o olhar dele, ele desvia os olhos. Está constrangido, sem saber se deve demonstrar o constrangimento.
Tamborilo os dedos na mesa e cantarolo, tentando indicar que não percebo o embaraço dele. Não sei lidar bem com o mal-estar alheio. Grudo os olhos nos ladrilhos da parede à minha frente, como se estivesse vendo algo interessante.
O vitrô da cozinha começa a se iluminar pelo lado de fora.
— Está amanhecendo — digo.
— Pois é. — Ele dá de ombros mais uma vez.
Me ocorre que ainda não tomei café.
— O senhor aceitaria alguma coisa? Leite? Um pão com manteiga? — Procuro um tom de voz animado, torcendo para não soar falso ou formal demais. Sempre tenho a sensação de que faço cara de energúmeno nessas ocasiões.
— Um cafezinho está bom. — Ele dá um risinho e emenda: — Pode me chamar de você.
Levanto da mesa, abro o armário, apanho o vidro de café instantâneo, fervo a água, preparo uma xicarazinha.
— Açúcar ou adoçante? — pergunto, sem me virar para ele.
— Adoçante, por favor. Cinco gotas.
Pingo as cinco gotas na xícara dele e sirvo.
— Você não vai tomar nada? — ele pergunta.
— Vou. Mas não café. Prefiro um copo de vinho, se não se importa.
— Fique à vontade. — Os lábios grossos dele se entreabrem no que deve ser um sorriso.
Apanho no armário uma garrafa de vinho tinto, encho um copo grande, entufo de açúcar até a metade. Dou umas mexidas vigorosas com uma colher, levo à boca e tomo num gole sôfrego. O vinho me escorre pelos cantos da boca, pelo pescoço, empapa a gola da camiseta. Sinto a onda alcoólica se espalhando pelo sangue, tomando conta do cérebro. Olho para ele de soslaio. Ele está sorvendo o café aos pouquinhos, lábios abrochados. Me olhando de soslaio.
Volto à cadeira, sento. Me recosto, cruzo os braços, esperando.
Ele continua a sorver o café. Tem uma expressão de gozo no rosto grande e corado.
— Estava ótimo! — Ele aspira o último gole e estala a língua.
Faço que sim com a cabeça e simulo um sorrisinho de agradecimento. Desvio os olhos novamente para os ladrilhos.
Agora quem começa a tamborilar os dedos na mesa é ele. As unhas longas e fortes produzem um matraqueado estridente que vai me deixando alarmado. Ele se dá conta da minha ansiedade e interrompe subitamente o movimento dos dedos. Esconde as mãos sob a mesa.
Num rompante, já sem paciência, pergunto áspero:
— Você vem sempre por aqui?
— Você sabe que sim. — Ele inclina a cabeça e abaixa o olhar.
— Passou a noite...? — Não ouso completar a pergunta.
— Um-um — ele faz com a garganta, sem abrir os lábios.
Ficamos ambos em silêncio, cabeças baixas, meditando fingidamente.
— Agora preciso ir. — Ele se levanta, atento à minha reação.
— Está bem. — Encolho os ombros.
— Poderia fechar os olhos?
Atendendo ao pedido, começo a cerrar vagarosamente as pálpebras. Espero uns dez segundos. Quando reabro os olhos ele não está mais aqui.


Contra a contracorrente

In tempo d'un menuetto

Caras do contra feito eu somos olhados como se devêssemos estar num zoo. Eu particularmente gosto. Suscitamos algo instintivo quase ideológico. Não é moleza. Requer estômago. Literatura à parte, é por que curto Bernhard, Dostô e poetas gauches defacto daqueles que Drummond pretendia ser e não foi. O zé-ninguém que não me entende simplesmente torce o nariz e segue em frente. (Torcer o nariz é o que tem salvado a humanidade até aqui.) O zé-ninguém que me saca um pouco provavelmente sente algo de pânico. Estamos atravessando os píncaros da autoindulgência hedonista. Estou cercado de bon-vivants grotescos. A maioria de vocês quando muito experimenta um bocadinho de enviesamento ao passar em brancas nuvens pela adolescência. O Grande Hiato. Parênteses a que não se dá importância. Salvo-conduto para loucuras soft. Desde que não raiem a aberração. Meus parênteses começaram quando nasci e terminarão quando eu morrer. Na adolescência minhas nuvens foram só mais negras do que são o resto do meu tempo. Lembro que meu céu era baixo. Tanto, que me sentia vivendo agachado. A cabeça sempre enfiada na negridão acima dos meus ombros. Meu mundo é pequeno. Pequeno, não ─ apertado. Ainda. Não espero mais que não seja. Aprendi a morar na minha própria lata. É parte de mim qual minha roupa, essas havaianas que nunca tiro. (Sinto que estou chegando lá.) (Talvez mais umas cem palavras.) (Não posso me distrair agora.) Aquela história de viver na cabeça da minha mãe aí embaixo é verídica. Fiquei chateado de ter de parar de descrever o que é morar na cabeça da mãe. Podia prosseguir indefinidamente. Era uma oportunidade de esclarecer algumas coisas, sinto, não apenas de catarse, palavrinha de que não sei se gosto ou me enoja. Nos últimos tempos venho percebendo que escrever é meio psicanalítico. Isso, sim, é nojento. Gosto de mim neurótico como sou. Não se trata só de questão de costume. Os analistas têm razão com a balela de sentir-se confortável consigo mesmo. Vocês não sentem incômodo sequer na adolescência, que dirá etc. Uma época invejava. Vocês são um caso sério. Totens ao redor do qual rodo minha ciranda. Às vezes me vejo aí no meio. Não sei se quando me vejo é porque me sinto mais deslocado. Estava tentando evitar deslocamento. Estranhamento, cruzes, nem pensar, me dá arrepio. Já disse mil vezes, como diz a Soninha, quem disse que custa repetir, quem escreve escreve pra se repetir numa autoafirmação infinita, talvez sempre incrédulo de saber ser o que de fato é, em estado permanente de auto-rebelião. (Nariz achatado contra a parede, síndrome de Fortunato, a natureza não me concedeu a dádiva da marcha à ré.)
(Fiz uma pausa pra recarregar forças, perdi o fio, vou ter de pegar no tranco.)
Dou um passeio pelos blogs presunçosamente literários por aí, mau-gosto a granel. Tem uns blogueiros que se autodenominam poetas, assim: mariazinha poeta da silva, zezinho poeta de sousa. (Será que o tranco foi mais pesado que o necessário? Queira deus que sim.) (Veja como é fácil escrever aqueles seriados americanos dolorosamente previsíveis, o incessante levanta-a-bola-que-eu-chuto, ou então fulano faz a mais solene das declarações só pra ser sumariamente desmentido pela próxima gag, e a claque, assim até eu.) Experimento perturbador mal-estar quando saco a fórmula por trás da poesia dum cara. Aprendi a avaliar a "qualidade" dum poeta pelo tempo que levo pra sacar a fórmula. Ou, vá lá, dum escritor, seja qual for, mesmo "geniais". Na poesia é mais fácil. Mais rápido. Há os em que a dita salta aos olhos. (Recaída no velho maneirismo depois duma fase de refrescamento, acho que não tenho como escapar. Quero mesmo escapar? Duvido de tudo que escrevo, duvido de tudo que penso que sou.) Os que só fazem dissimular que usam sua fórmula, esses são os de dissimulação mais brilhosa. A perseguição gato-e-rato em que o sujeito não vai além de tentar esconder o que não pode ser mostrado. O "estranhamento" é o primeiro sinal de alerta. Há alternativa aos truques em que você é enfiado num buraco num ponto qualquer entre o inédito e o inaudito e o alheio e o desconhecido para assim ser "arrebatado" e daí passar por uma "experiência" esclarecedora? O poeta quer que você se veja pelo lado de fora. A premissa (nunca pensei que um dia fosse escrever essa palavra com todas as letras) é que buscamos o tempo todo o autoconhecimento ou, para os menos pretensiosos, um tico de conhecimento do mundo em que vivemos e, se possível, de nós mesmos. Os estudantes de letras dão de barato que o caminho é a experimentação estética. De tanto tomarem o ônibus pra faculdade e desejarem comprar um carrinho pra exibir pros amigos e levar a namorada à praia e ao chópin e abandonarem a pobreza em que todos nascemos pra atingir a liberdade do fausto monetário, acabam pensando que existimos pra tomar um rumo na vida. Eu mesmo me emocionei quando moleque li The Road Not Taken, de Robert Frost. (By the way, decorei o poeminha na primeira, embora essa gente que decora poemas e desanda a recitar pra impressionar meninas me dê engulhos, você já reparou quanta gente sabe de cor uma tonelada de versos de Camões? eu já.). Bobby depara com duas estradas e não sabe pela qual se decidir, poor guy. Cada vez que leio tiro uma conclusão, num aparente jogo de espelhos com o próprio poema, jogo que funciona porque deliberado. Parece que você sempre tomará a errada, não importa pela qual opte. Para Frost, o único jeito seria tomar ambas. Sendo um dos poemas mais conhecidos da literatura americana, quase mesmo popular, mostra que meio mundo e seu tio curte sua sina de andarilho. Vagar, divagar, somos dom quixotes, On the Road de Kerouac, que fantástica epopeia literária, fiquei anos fascinado com o vagamundo, misterioso Dean Moriarty. Nunca entendi direito aquele poema-clichê da pedra no caminho de Drummond. É premissa demais pro meu gosto. Se fosse eu, nunca toparia com a desgraça. Não tomaria o caminho in the first place. Não sairia de casa. Não saio de casa. Nunca. Não saio de mim. Fazer o que lá fora? Tá cheio de monstros, fantasmas, ninfas, sátiros, duendes e outros serzinhos da minha mitologia particular. Afora lullas, dilmas, FHs, aécios e meu vizinho Smash, estranho rapaz que habita meu lado esquerdo, a filha do médico que mora do direito e que toda manhã traz seu poodle pra cagar ao pé da primavera que temos na porta de casa, o caipira aposentado da geême que mora em frente que passou a vida apertando parafuso (o tolinho Chaplin pensou que ninguém no mundo poderia se contentar em passar a vida apertando parafusos, artistas não sabem nada) e guarda três carros do ano na garagem e me olha de cima como se tivesse me demonstrado algo profundamente básico na nossa coexistência de vizinhos que mal se toleram.
Agora lembrei. Quando tive a ideia de começar a escrever esta gororoba estava pensando no Quintana. E disse pra mim mesmo, é agora. É agora que baixo o sarrafo no cara. Sempre tenho gana de esculhambar o Quintana quando penso nele. O poeta bom-mocista. O poeta-gracinha. Galã do panteão. Tão simpático. Tão otimista. Perseverante. Afirmativo. Empático. Sempre algo bom a nos dizer. É ler e se identificar. Impossível não querer levar pra casa, botar em cima da penteadeira qual um ursinho de pelúcia. Metade da vida mendigando uma boquinha na academia geriátrica de letras, que lhe respondeu cuma banana atrás da outra. Não sei ler a poesia dele sem imaginá-lo de pires na mão atrás de sarneys e generais de pijama e críticos medievais por um voto. Poetas não podem nutrir esse tipo de vaidade mundana. Poetas não são gente. Poetas têm de levar ferro, têm de sentar ferro, não podem ser homenageados, condecorados, citados, idolatrados, conhecidos, imitados. Amanhã vou tentar enquadrar Quintana de novo. Espero não estar tão complacente quanto estou hoje.


Breve incursão pelo inferno

Ao contrário do meu dulcíssimo Rimbaud, não preciso afundar na barbárie da Abissínia para passar estimulante estadia no inferno. Basta uma esticada até o “laboratório” de análises clínicas aqui na esquina para fazer um eletro. Arthur não carecia de estímulo não autóctone. Nasceu alucinado, e morreu. Adolescente-terror, prodígio na sala de aula, encerrou a carreira poética aos tenros vinte, num dos mais enigmáticos casos de aposentadoria artística precoce ever. Ganhou mesmo de bacharéis uspianos que nem atingem os 45 e penduram a chuteira prosopopéica, renunciando inclusive a ensinar a seus futuros exegetas sabáticos cabeça-limpa o que teria levado o doidivanas Arthur a trocar uma confortável cadeira estofada na academia francesa de letras por surreal carreira de contrabandista de armas na África. Flaubert preconizava, “seja regular e ordeiro em sua vida para poder ser violento e original em sua arte”. Arthur não quis seguir o conselho. Eu, sim. Afinal, sou um burguesinho xarope e maricas. Tenho horror ao desconforto. E virar cacho dum poetão mais velho tal como Rimbaud com Verlaine não é exatamente meu projeto profissional.
Um ato prosaico como tirar o carro da garagem revela-se proeza cinematográfica. Brasileiros e brasileiras dobram a 180 por hora a curva antes de casa e, ao me avistar tentando uma reles marcha à ré para me juntar a eles no trânsito selvagem, carcam o pé no acelerador antes que eu tenha tempo de completar a manobra. Sou obrigado a voltar à garagem e ficar outra meia-hora olhando aflito por sobre o ombro, à espera duma pausa miraculosa no torrente de bestas desembestadas.
Depois duma eternidade canso por fim. Fecho bem os olhos, engato ré e acelero. Seja o que o big boss quiser. Escuto pneus rinchando, outros guinchando, outros bramindo numa sucessão de freadas bruscas. Fôdasse. Causar uma batida agora seria o menor dos suplícios. Vou recuando torcendo para que meu algoz seja um Scania R114 de 500 tons, assim viro paçoca instantânea sem tempo nem para meu derradeiro versinho. Ufa, miraculosamente íntegro. O big boss nunca me dá ouvidos, fedepê. Os selvagens começam a se afastar, me fuzilando com carrancas de que nem Olivier interpretando Macbeth seria capaz. As mulheres são as mais ferozes. O mundo governado por mulheres não duraria uma semana. Para chegar a essa conclusão científica é só observar o trânsito dez minutos. 
Roberto Damatta dizia no livro aquele que a calçada é onde a espécie brasílica se socializa. Errado. É o asfalto. As escolas de sociologia, antropologia e congêneres podem baixar as portas. Uma excursão pelo inferno do nosso trânsito é suficiente para um mergulho intelecto-masoquista na nossa civilização. Está tudo lá: a presunção neurótica de eu tenho direito a tudo, você a nada; a selvageria decorrente do “desapego” às leis, a indisciplina, a arrogância, a bestialidade, a lei do mais forte, a entropia. E tem gente que olha Lulla, congresso, juízes, “instituições” do país e se espanta. Go figure.

Tendo concluído a integração ao tráfego com relativamente poucos traumas irreversíveis, boto primeira e lá vou eu. Será um km e meio de tortura até o prédio da clínica. Tudo por um eletro. Já sei. Vou chegar morto e assim prescindir do trânsito, estacionamento, manobrista, “atendente” do estacionamento, fichas isso e aquilo, calvário de meio quarteirão até o prédio aturando esses olharezinhos intrusivos com que brasileiros e brasileiras vindo em sentido contrário na calçada têm mania de querer escarafunchar a tua alma, porteiro, mostrar id ─ me tomam por Osama? Osama tá por fora ─, tapar o nariz para pular dentro do elevador carregado de ar viciado de puns e outras excreções da espécie, morrendo de medo de que chegou a minha vez de ficar preso, a cada andar me vendo na pele do Fortunato ─ gosh, que nome o Edgar foi dar pro rapaz! ─ de Cask of Amontillado.

Décimo-quinto, deo gratia. Saio e entro na “recepção”, caos sulfúrico. “Atendentes” cafuzas louras fake marchando para cima e para baixo socando com fervor suas ferraduras de 15 cm de altura contra o piso imitação de granito para produzir estampidos secos e duros que fariam inveja aos SS de Herr Adolf. Me aproximo hesitante ─ sou um rapazinho tímido, u know ─ do balcão, sem me atrever a erguer os olhos para a “atendente”, não quero nem de longe dar a impressão de que sou um rasputin intimidante. (Sou, mas agora não vem ao caso.)


A “atendente” está berrando ao telefone, ao lado de outras oito ou nove berrando ao telefone ou zanzando em todas as direções com cara de perdidas num aquário, me levando à loucura com suas ferraduras-fashion, se esforçando ao inefável para não tomar conhecimento de mim e de outros coitados que vão entrando à cambulhada. Juntas formam uma algaravia embevecedora que me transporta dejavuisticamente ao instante em que furei a bolsa de mamãe depois de quinze meses de luta e entrei de sola no mundo. A “atendente” ─ mistura do Charles Bronson com Mike Tyson de peruca amarelo-ouro ─ finge não me ver parado feito um mané diante do narigão dela, prossegue histérica ao telefone, me fazendo ter pena do miserável do outro lado da linha que deve estar amaldiçoando tanto quanto eu planos de saúde e a medicina moderna e laboratórios clínicos. Passados quarenta minutos, a loirinha mike-bronson resolve bater o telefone e me dirigir um olharzinho insolente, hostil, debochado e compassivo, numa infeliz combinação de sentimentos poucas vezes vivenciada por algum ser humano neste mundo. Estendo respeitoso, quase hesitante, o pedido do exame emitido pelo dr. Hélcio, um santo, e começo a tirar dos bolsos os documentos e cartões que charlie-tyson me “solicita” com candura e elegância. 
A essa altura estou suplicando internamente que um infarte ─ aquele cuja prevenção, ou tentativa de, me trouxe a este inferno in the first place ─ me poupe do martírio. Em vão. Venho tentando desenvolver uma técnica de enfartar reflexamente a “estímulos” externos ─ que, como todos sabem, abundam Berção afora.
Duas horas e lá vai pedrada depois outra cafuza, essa mais viking que as demais, invoca sonoramente meu nome, me arrancando do meu inútil exercício suicida. Com um policialesco aceno do focinho, a deusdede nórdico-maranhense me convoca a entrar na salinha do eletro. Me manda tirar a camisa e deitar na maca de barriga para cima. Obediente que sou, me ponho industriosamente a delirar que é chegada a hora do transplante.
Na tevê onipresente cenas inacreditáveis de hospitais dos “sus”. Corredores atulhados de mulambeiros jogados em colchonetes no chão, frascos de soro mantidos no alto por parentes e apiedados. Não sou de fazer perguntas, mas esta é irrecorrível: por que não se revoltam ante a distopia? Sempre que sou obrigado a aguardar meia hora num muquifo desdenhosamente camuflado de laboratório clínico me sinto transbordar de humilhação. Mesmo ter de esperar quinze minutos meu dr. Hélcio, particular, chega às raias do insuportável. Nessas horas desando a alimentar a imaginação com pás das pedras, minério de dor e sangue que compõem o suplício diário do povão tentado me ver no lugar deles. Impossível, laririlarará. O Etienne de Zola era um carinha cordato. Os desgraçados não se revoltam. Um ou outro se limita a descolar um ferro e arrancar os trocados que nós classes-médias capados juntamos ao ponto do enfarte, às vezes nos mandando para o Hades quando decidimos que não é justo dar nossa grana pr'um favelado indócil que não conhece o princípio do merecimento. A grana dos nossos impostos vai indo quase todinha para a casta enclausurada nos sistemas “públicos”. Casta composta de políticos, funcionários públicos, senhores cartoriais e ONIs (Outros Nababos Inindentificáveis), aparelhadores peetistas, tucanos, dirceuistas, quercistas, sarneiistas e escambauistas. Mansinhos, aguardamos meio impacientes nossa vez no abatedouro. 


Bebê de meia idade

para D.

Sentado neste banco de praça, cabeça baixa, olhando o chão entre meus pés, avisto um pequeno pedregulho de cor indefinível, assimétrico e amorfo feito as lembranças que desfiam do meu cérebro como dum novelo de trapos e se desfazem na sombra tão logo se separam.

Eis algo que uma vez sequer foi visualizado por alguém neste mundo. Algo a que ninguém jamais prestou atenção. Ainda assim, independente de mim, independente de quem quer que seja, ele existe — como os trilhões de planetas desconhecidos que dizem existir além do céu.
Como para a maioria das pessoas, quase todos meus pensamentos são, para mim, inúteis. Não me ajudam a ficar rico, não me ensinam como usufruir das delícias de não ter patrão ou como me livrar dos que mandam em mim, não me trazem a liberdade de tomar decisões sem ser obrigado a considerar todas as implicações pecuniárias que me escravizam, não me ensinam o Caminho das Bucetas.
Como muitas pessoas que vivem neste mundo que nos cabe — mas que são em pequeno número frente ao conjunto de todas as pessoas neste mundo que herdamos e herdamos e herdamos —, devem-me. E aqui estou para cobrar minhas dívidas. 
Como muitas pessoas que tiveram o azar de nascer neste mundo, oculto dentro de mim um eu que às vezes é tão real, que quase mereceria um heterônimo. Mas é um eu do contra, ranzinza, sempre me contestando os pensamentos e me atrapalhando os passos e me boicotando as ideias. Tal qual a maioria das pessoas neste mundo que, feito caramujos, trazemos acorrentado às costas, eu bem que trocaria esse oculto eu sabotador por um sócio. 
Mas ei que, para minha sorte — que é tão grande, que custo a acreditar que, dentre todos, coube a mim tê-la —, há dias em que um sócio me aparece e carrega às costas a maior parte do meu mundo. E ainda cobra algumas das dívidas que me são devidas. E ainda trava por mim algumas das batalhas que, desafortunadamente, sou obrigado a enfrentar. 
Feito a maioria dos seres que habitam este malfadado lugar, sou vingativo e, se pudesse, torturaria um a um os inimigos que fiz ao longo da minha vida. Depois os atiraria no fundo dum poço para que sofressem a mais cruel das mortes possíveis e que nos cabe a todos — a morte à espera da salvação. E também feito a maioria, não estou satisfeito com minha própria cara, penso obsessivamente em corrigir meus defeitos — físicos e mentais. E, qual a maioria, meu maior sonho é escrever um livro sobre a dor humana — coisa aí dumas 790 páginas — mas que seja best-seller no mundo todo e me renda muitas noites de autógrafos em que me bajulem, me incensem, me lambam as solas dos sapatos, os homens supliquem a deferência do meu olhar, as mulheres se ofereçam nas mais tórridas promessas extraconjugais. 
Pequeno pedregulho entre meus pés, que vive à revelia de tudo e de todos, tenho o direito de ser feliz. 
Tenho o direito de ser feliz? Sentado neste banco perdido nesta praça perdida nesta São Paulo perdida no universo, tento me agarrar às poucas lembranças boas que ainda carrego, tento misturá-las dentro do tacho que em banho-maria fervento na cabeça, sová-las como se sova a massa do pão e fazer delas o que algumas pessoas, algumas poucas pessoas chamam “experiência”. Tudo em volta é uma estrutura da qual não faço parte, neste mundo cinético em que só eu não me movo.
Eis-me aqui parado com meu passado falso, a mão estática no ar temerosa de concluir o ato. Olho para cima na esperança de estar sendo observado por um gigante tal qual observo o pedregulho. Nauseado, me conformo — sou apenas um bebê de meia-idade.


Os ensimesmados

Somos os ensimesmados.
Tão ensimesmados, que, além de viver voltados para dentro, não fazemos conta de dar explicações supérfluas.
Não damos conta de muitas outras coisas. Pois somos os ensimesmados.
Vivemos tão embebidos de nós mesmos, que não damos importância às nossas redundâncias. E, tem hora, ficamos tão, mas tão ensimesmados, que ficamos martelando para nós mesmos que somos ensimesmados sem sequer perceber que estamos martelando seja lá o que for para nós mesmos ou para quem quer que seja.
No mundo, formamos um time.
O time dos... ensimesmados.
Você, obviamente, já deve estar rindo por dentro – e se não for dado ou dada a pudores, até mesmo por fora.
Que maravilha! você está se divertindo. Um time composto de membros que não tomam conhecimento uns dos outros.
Se pensou isso de fato, me regozijo. Pois acertou na mosca.
Vou avançando pela calçada. Cabisbaixo, como gosto de avançar pelas calçadas do mundo. Totalmente antenado nos meus próprios pensamentos. Completamente alheio ao que se passa à minha volta – sempre tomando o cuidado, claro, de verificar, a cada dois ou três minutos, quais diabruras Zezeí, minha mescla de dobermann e chiuauaua, anda aprontando pelo mundo. Se me certifico então de que nem ela nem nenhum transeunte corre maiores perigos do que é lícito correr nesta vida, prontamente reassumo meu auto-embebimento. Às vezes retomo o fio de onde parei antes da inspeção, outras simplesmente me entrego àquele a quem tenho me entregado desde que nasci sem precisar erguer os braços em sinal de rendição – eu mesmo.
Vou avançando pela calçada. Cabisbaixo, como gosto de avançar pelas calçadas do mundo. O treino de ensimesmado veterano me permite perceber, pelo rabo da orelha, que Zezeí me acompanha a distância segura uns três passos atrás.
De repente cruzo cum vulto. Prendo a respiração para não sentir seu cheiro. Nunca se sabe. Poucas coisas me dão mais repulsa que cheiro de estranhos na rua. Cheiro de certos conhecidos onde quer que seja é uma delas. Sigo em frente, o vulto segue em frente no sentido oposto.
Com base em minha reputação que bocas maledicentes andam enxovalhando pela cidade, você na certa está a imaginar que só me dei conta do vulto porque este pertencia a uma ninfa matinal recém saída do banho com sais de ervas e olivas gregas. Cujo aroma devastadoramente embriagador eu não deixaria de sentir mesmo se travasse as narinas cum pregador plástico.
Se foi isso que imaginou, lamento lhe informar que se enganou.
Continuo avançando pela calçada, cabisbaixo coisa e tal. Atrás de mim ou à minha frente, na mesma calçada ou na do outro lado da rua, os que me olham não notaram nada de anormal em minhas feições ou de diferente em meu andar.
Quero crer que você saiba a razão.
Dou mais uns trinta segundos, estaco como raramente tenho estacado, dou meia-volta.
Lá longe o dono do vulto, vejo sem surpresa, me imita. Não, não é imitação de papagaio e sim mero ritual  de quem não é afeito a rituais.
Ele imediatamente desfaz a meia-volta, retoma seu rumo.
Faço o mesmo.
Foram dois segundos, no máximo, três. Insuficientes para coletar informações mútuas. (Devia aqui dar graças a deus.)
Não sei se ele é apreciador dum gole ou outro ao longo da tarde, no crepúsculo do dia, ao cair da noitinha. Se for, talvez nos cruzemos por um buteco da vida. Se for, talvez troquemos impressões sobre isso e aquilo diante dum balcão a fervilhar dessas mariposas ávidas por experiências inusitadas que são os ébrios. (E às que entregam de bel prazer suas existências que, aos olhos dos que os olham lá da rua, parecem inúteis.)
Você está esperando um desfecho, bem sei.
Você é desses, você é dessas que esperam, e esperam desfechos.

Suculento cuspe

Minha palavra é a vida que passou


Minha palavra é o êxtase que não gozei
A ideia que não tive
A boca que não beijei

Na tarde de ecos e silêncios
Minha palavra é aquela que
Calei

Noite de junho ou setembro

Ela acenou, sorrindo. Fez “espera aí!” com um movimento da mão e um meneio dos lábios. Um minuto depois a porta da rua se abriu e meu último adeus parecia não caber em mim nem em minha vida e lembrei duma antiga foto de minha mãe na janela dum casebre muito humilde em que o rosto dela se destacava do fundo negro de onde em meus três ou quatro anos temia fosse sair uma espécie vaga de monstro que primeiro devoraria a ela e então a mim. Ela abriu o portão e desceu para a calçada e se pôs a descer a rua e segui atrás. Dobramos a esquina e ela pegou minha mão e me senti pequeno e inexperiente. Aquela tarde tínhamos decidido terminar, agora percebia que ela também não acreditara muito em nossa decisão mútua. Pela quarta, quinta vez ensaiávamos uma despedida. De minha parte, claro, omitia que era uma não opção. Omitia para ela e sobretudo para mim mesmo. Nunca tive coragem de parar e assumir que seria incapaz de viver sem ela. Se parasse teria me dado conta da absoluta impossibilidade. Seria como optar pelo vazio, o vácuo, o nada, a morte. Desde muito cedo me achava relativamente preparado para morrer mas nunca tinha me levado muito a sério. O calor da mão dela dentro da minha de repente expôs a verdade medonha e a secura em minha garganta soou um alarme – precisava duma cachaça. Pensei em puxá-la na direção dum buteco na esquina mas não me atrevi. Precisava ter coragem e ficar sóbrio. Dois estranhos passaram por nós e a encararam com insistência e depois me olharam com desprezo como a se perguntar o que é que uma garota tão bonita fazia com esse fracassado. Ela me puxou outra vez, agora na direção da outra esquina. Ficamos andando pela noite, sem rumo, sem finalidade. Às vezes ela fazia um comentário sobre os pais, os irmãos, a escola, eu assentia indiferente, incapaz de me interessar. Nunca fui de jogar conversa fora. Então perguntei se ia no baile na casa do Serginho sábado à noite. Ela respondeu que não sabia se a mãe ia deixar. Torci para que a mãe deixasse mas continuei mudo temendo mostrar o que sentia. Ela me abraçou, me empurrando contra um muro, e grudou a boca na minha. Ficamos lá parados entrelaçando nossas línguas ávidas, esperançosas, desiludidas.