Prezado leitor ou iwxxxx8

It's easier to ask for forgiveness than permission
"Considero corrupto um animal, um indivíduo, uma espécie, quando despreza seus sentidos, quando faz uma opção ao que lhe é prejudicial." 

Prezado leitor, me pergunto: devo lhe pedir perdão? Ora bolas, mal chego e já me faço de besta. Bem que tentei começar com o pé direito. Você vai me achar um panaca. Eu e minha humildade fingida. Pro seu governo, sou um cara prudente.
Prudente, mas não irônico.
Tudo que lhe peço é: não vá depois dizer que não avisei.
Não sei começar com o pé direito, está claro. Mas, está igualmente claro, curto entrar de sola.
Como todo brasileiro sensato, sou fã de Machado e Graciliano. 
Mas, ao contrário de Graciliano e Machado, detesto ironia. E qualquer outra figura retórica. Se tenho algo a dizer ─ algo que valha a pena dizer, não essas coceiras na língua que acomete a maioria dos cidadãos, impedindo-os de manter silêncio ─, digo na lata. 
Como você seguramente sabe, hoje em dia não é moleza ler os dois mestres. Vivemos sob o império do estilo leve e solto do Verissimo. Texto que não provoque ao menos uma risadinha não vale. Se nos arrancar umas gargalhadas do fundo da garganta, melhor. Se tiver um papagaio no meio, melhor ainda.
Além da ironia e outros babados, também guardo distância de reticências e exclamações. 
Você certamente já conhece aquele episódio narrado no livro escrito por Ricardo Ramos, filho do Graça, em que ele pergunta ao pai por que este não usava reticências e exclamações. Resposta: “Reticências, porque é melhor dizer do que deixar em suspenso. Exclamações, porque não sou idiota para ficar me espantando à toa.”
Bom, se é pra vir com tiradas, que sejam magistrais.
Isto posto, retomo minha pergunta: devo lhe pedir perdão? 
Muita gente por aí mata, trucida, tortura, dá choque, fura, sangra e mesmo assim nunca pede perdão ─ e nem vê motivo para tanto. Será pior?
E tem gente ─ olha que às vezes é bacana de ar distinto, até com diploma na parede ─ que fala bobagens a dar com o pau, asneiras a mais não poder, abacaxi, pepino e abobrinha suficiente para encher todo um Mercedão do CEASA. E tampouco pede.
E não esqueçamos aqueles sujeitos às seis e meia da tarde na linha amarela do metrô que dão cotovelada, cutucam, empurram, pisam nos calos dos outros sem que lhes ocorra pelo menos cochichar um “Desculp'aí, mermão”, como faria qualquer pessoa civilizada.
Por que então ─ quem perguntará agora será você ─, por que então um autor haveria de fazê-lo se, pelo menos ao que parece, nem cometeu um crime?
Vai ver, o autor, homem honesto, de endereço conhecido, sabe que todo texto que escreve acaba desandando mais hora, menos hora e está tentando salvar o pobre leitor do desastre. Ou talvez seja um cara mau ─ um cara mau mas precavido. (Quem sabe a precaução ainda tenha seus méritos, mesmo nos bicudos tempos que correm.)
Preclaro, você na certa já percebeu, hoje não é meu dia. Em geral ─ meus companheiros de boteco são testemunhas ─ circunlóquios me dão náusea. No mais das vezes sou franco quase à grosseria. Você sabe. Ou deveria saber. A bem da verdade, acho que nasci assim. 
Nunca entendi direito por que a maioria das pessoas deita falação para dizer as coisinhas mais chinfrins. Parecem até equipadas com um logômetro, faturando pelo número de palavras proferidas.
Sei que não é o seu caso, mas o leigo ─ se é que posso chamar assim os que não têm muita familiaridade com este tipo de coisa ─, geralmente não atina com o poder da palavra. Ela, a palavra, é das armas mais poderosas que existem. Só que uns tagarelas por aí agem como se a pobre não valesse um vintém. São uns perdulários. Muitos até se orgulham da própria tagarelice. Falam pelos cotovelos e, se você bobear, pelos joelhos e por outras partes menos nobres do corpo. Gastam teclado à vontade. Esbanjam. Falar não paga imposto, por isso mandam ver na logorreia. Tudo nesta vida, porém, se você me permite uma observação original, tem um preço. Teclar também. Preço que, dependendo do falastrão, em geral é exorbitante mesmo.
A meu favor, leal e atento amigo, deponho que, desde quando usava calças curtas sou adepto da economia vocabular. Se a economia é boa para as finanças e saudável para o bolso e benéfica para a saúde do Brasil, então é igualmente boa, saudável e benéfica para a expressão das ideias. Por isso me encafifam esses parlapatões e parlapatonas que consomem duzentas e oitenta palavras por minuto para dizer uma porcariazinha de nada.
Por que será, me indago amiúde, por que será que certas pessoas são incapazes de expressar seus pensamentos sucintamente? A começar pelos debates comezinhos do nosso dia-a-dia. No mais das vezes um simples “é” ou “não é” bastaria para manifestarmos nosso mau humor ou anunciarmos uma desgraça. Uma mera silabazinha que quase não nos enrola a língua, não agride os oceanos nem a atmosfera com milhões de decibéis supérfluos, não gera mal-entendidos e, o mais importante, não atazana a paciência do interlocutor ─ no presente caso, você mesmo, meu compreensivo amigo.
Sem querer soar repetitivo, me cabe acrescentar que desde a tenra idade defendo fervorosamente o monossílabo. Sou o que um autor mais pernóstico classificaria de um sujeito monossilábico. (Se o distinto quiser espalhar para os amigos que agora já conhece um sujeito assim, esteja à vontade.) Para mim, poucos ─ pouquíssimos ─ tópicos merecem mais do que um seco e eficaz “oquêi”, “tá”, “legal”, “putz”, “argh”, “catso”, “merda”, “eu disse que sim, porra!” ou outra interjeição mais expressiva.
Isso não significa que eu defenda a tese de que deveríamos comprimir o vernáculo a uma tábua de doze vocábulos. Nada disso. Admito que nem sempre é possível dispensar um chato simplesmente vociferando um mero “sim” ou “não” quando tal chato nos dirige uma pergunta idiota ou um comentário igualmente chato. De fato, situações mais complexas há na vida que requerem tratamento especial.
Uma discussão sobre Proust, por exemplo.
Evidentemente, ninguém pensaria em abordar a obra do genial francês ─ exceto os concretistas, talvez ─ empregando apenas uma dúzia de palavrinhas. O prezado haverá de concordar que a coisa ficaria meio... escalafobética. Deficitária. Confusa, provavelmente. Pobre, certamente. Talvez nem mesmo um ás da literatura feito eu fosse capaz de encontrar o tempo perdido usando de tanta parcimônia. Se levássemos a economia vocabular a esse extremo, quiçá o grande sertão de Rosa se revelasse nada mais que uma chacrinha ordinária na periferia de Belô. E as crônicas, então? Nem é bom falar.
Seguindo essa linha de raciocínio, o segredo da comunicação eficiente é racionalizar o uso da palavra. Peguemos ainda o exemplo do nosso aplicado Proust. Em No caminho de Swan o rapaz estende a expressão do seu grande amor pela mãe por nada mais, nada menos que 299 páginas e 599 parágrafos. Ora, para dizer o mínimo (que é, aliás, a finalidade precípua desta crônica), trata-se dum flagrante desperdício sob qualquer padrão de medida que queiramos adotar. Eu, no lugar de Marcel, simplesmente diria: “Ó, quão fervorosa e estupefacientemente eu amava minha genitora!”, caprichando no intensivo e tascando um advérbio arretado, que era para não deixar dúvidas. Fatura liquidada.
Tem mais: por mim, a Recherche, com sua imensidão impenetrável, não iria além de nove páginas e nove parágrafos ─ tamanho que considero suficiente para procurarmos não apenas o tempo, mas também qualquer outra coisa que viéssemos a perder. A única diferença ─ no caso, salutar diferença ─ é que metade do mundo não estaria hoje enfurnada em salas de aula, salões acadêmicos, cafés parisienses e botecos uspianos a se interrogar, com olhares perdidos em algum lugar no meio do teto, por que o carinha teve de torrar milhares de páginas para repetir praticamente a mesma coisa em cada uma delas. Isso sem mencionar as toneladas de papel que já se imprimiram ─ e se haverão de imprimir até o fim dos nossos dias ─ sobre o tema. E cumpre lembrar ainda os sabe-se lá quantos mil empregos que se criaram em universidades e na imprensa mundo afora para discutir aquele turbilhão de pensamentos, impressões e instantâneos se autoaniquilando, sobrepondo, contorcendo, envolvendo num ritmo e numa intensidade de deixar qualquer um, ufa! sem fôlego.
Em vista da situação acima descrita, prezado amigo, e como forma de dar minha modesta contribuição para a solução do problema, venho propor um singelo porém instrutivo joguinho para você se divertir nas noites em que acabar a força e não tiver novela. Chamemos a brincadeira de “Vamos meter a tesoura em algumas das grandes obras literárias perpetradas pelo irrequieto espírito humano” . Topa?
Por falta de material é que não passaremos apuros. Abundam na literatura universal exemplos de palavrório sem fim. A primeira vítima da nossa tesourinha assanhada seria, obviamente, a própria Recherche. (Mas, por ora, vamos esquecê-la, para não parecermos obcecados e corrermos o risco de sugerir a algum maluco por aí a ideia de aplicar uns cortes metalinguisticamente nesta própria crônica.)
Outro livro de candidatura natural poderia ser o Ulisses, de Joyce, mas aí não teria graça, pois essa não precisa nem recortar ─ basta tacar fogo e assunto encerrado.
Se me permite uma sugestão, cúmplice leitor, que é que você acha de começarmos por Doutor Fausto, do nosso perplexamente prolixo gênio germânico Thomas Mann? Veja, o catatau consiste de parcas 992 páginas que, se reorganizadas e redistribuídas as sentenças, me soam praticamente idênticas.
Mãos à obra, pois.
Para este primeiro exercício de tesouraria, e com o fito de não desalentar meu valente amigo que me honra com sua leitura deste singelo exercício literário, sugiro que você inicie o expurgo da seguinte forma: depois de tomar em suas mãos o obeso volume do Doutor (o dito não deve pesar mais de 15 quilos), separe toda aquela lengalenga sobre música que Mann desencavou de suas longas conversas com o filósofo Adorno ─ logo quem ─ quando ambos moraram na Califórnia e tose sem dó nem piedade. A seguir, faça o mesmo com qualquer parágrafo que cheire, mesmo que remotamente, a discussão filosófica. Você vai ver que em duas ou três tesouradas, da maçaroca sobrará apenas a capa e o frontispício.
Para não perder o embalo, posso sugerir similar procedimento para outras obras-primas de língua alemã como A montanha mágica e Os Buddenbrooks, do mesmo Mann, O Homem sem qualidades, de Musil, e O castelo, de Kafka.
Dentre outros efeitos benéficos, este joguinho garante um baita dum rejuvenescimento. Posso mesmo assegurar que, participando da brincadeira, você descobriria uma razão para essa insípida (porém não tão incolor e inodora quanto seria desejável) existência que desde o berço vem levando sem saber direito em que direção. Duvida? Pois então calcule quantas árvores seriam salvas na Amazônia se nossas obras literárias se limitassem a, digamos, duas ou três páginas. Quem sabe não deflagraríamos a esperada revolução redentora que viria mudar radicalmente essa nossa mania de enxergar na natureza uma provedora infinita, visão que ─ como você sabe ─ tem dizimado os recursos do nosso miserável planetinha? Como já deve ter ouvido falar, muito breve tal incúria nos deixará a todos num mato sem cachorro, sem ar, sem água, sem televisão e sem o próprio mato.
Quem diria? De críticos da literatura a revolucionários. Pioneiros. Visionários! O mundo nos reverenciaria. Seríamos tidos como os herois que deram o primeiro passo rumo à salvação planetária. Me diga de todo coração: seria a glória ou não seria?
E como foi que tudo começou? Tudo começou, pasme de novo, com um pedido de desculpas por um crime ─ ou melhor, um paracrime ─ que talvez nem venha a ser cometido.
De que crime estou falando? ─ você, cético como sempre, exigirá saber, recriminando, no azedume que lhe é peculiar, o autor indefeso com implicâncias como: “Até agora só vi uma tremenda embromação. Não vi sangue, não ouvi gritos, não vi arma, não vi corpo. Afinal, de que crime estamos falando?”
Ao meu sôfrego, impaciente irmão de letras, peço aguente apenas mais uns parágrafos. Logo darei as explicações necessárias. (Afinal tenho de lhe entregar tudo mastigadinho mesmo. Hoje em dia ninguém mais quer tirar conclusões sozinho.)
Vamos lá, então.
O cronista começa abordando as circunstâncias do crime apenas de leve.
“Quais circunstâncias?” ─ de novo você, curioso que é, pode querer saber. “Ainda não vi circunstância nenhuma, porra!”
Calma, companheiro. Não percamos as estribeiras.
As circunstâncias a que me refiro ainda estão por acontecer.
O cronista, se quiser se dar bem na escrita e na vida, não pode ter pressa, meter os pés pelas mãos, desandar a cometer crimes como se fosse tirar o pai da forca, terminando por perder o crivo crítico e fazendo uso desses indesejáveis ditos populares mais batidos que bife de cochão duro, chão de ferreiro, atabaque em escola de samba, clara quando vira neve, milk-shake ou fusca meia-cinco. Ora, as circunstâncias a que me refiro devem ser apresentadas devagarinho ─ como se o mundo ainda tivesse mil anos pela frente.
Não dava para cometer o crime sem circunstâncias? ─ o amigo poderia de novo perguntar. Ao que eu, paciente que sou, responderia que... Bem, olha, não, não dava não. Crime sem circunstância não tem como.
Por que não? ─ o insistente amiguinho bateria o pé, naturalmente não por curiosidade, e sim pelo mais absoluto e completo espírito de porco.
Diante de tamanha turrice, eu podia fingir que não escutei e tocar em frente, quando mais não fosse para evitar que o crime que ainda não foi cometido venha de fato a se converter em boletim de ocorrência. Sendo, porém, um paracronista responsável e ponderado, não posso me furtar a lhe dar uma satisfação.
Seguinte, prezado: crime sem circunstância é como goiabada sem queijo. Ou morango sem chantili. É igual a mulher de tetinhas petiticas. Além disso, que é que o Luís Ignácio, o saudoso Cara-de-Cavalo, o Fernandinho Beiramar, o Marcola, patronos brasileiros do crime, iam dizer duma coisa dessas? Hein?
Bem, como ia dizendo antes de ser tão rudemente interrompido, as circunstâncias em questão vão-se descrevendo de mansinho, quase pedindo licença. No caso em pauta, diferem dum poema ou um romance, em que muitas vezes entram de chofre, prenunciando a catástrofe como se fora ópera de Wagner. Ou se desnudando inteirinha de supetão em apenas três ou quatro palavrinhas introdutórias para que depois se desenrole o tema principal elemento por elemento, como se fora sinfonia de Beethoven.
Por ir se descortinando assim devagarzinho, como quem não quer nada, o crime ainda não cometido não pode ser solene. Requer leveza. Impõe agilidade. E a vítima tem de ser fácil de matar. Com toda certeza o cadáver não será um paquiderme de 180 quilos impossível de erguer, arrastar, enfiar no portamalas e desovar nas quebradas de Campo Limpo.
Às vezes ─ veja só como são as coisas ─ pode acontecer que nem haja necessidade de assassinato. Afinal, algumas pessoas têm nojo de sangue. Quando digo nojo, é repugnância no duro, doentia, daquelas de dar síncope. E, caso não haja um assassinato envolvido, podemos até preterir dum cadáver. Digo, obviamente teria de haver alguém morto, mas esse alguém não apareceria na história necessariamente. Quanto à arma do crime, bem, a arma do crime podia ser qualquer coisa, menos revólver. Nem espingarda, pistola, escopeta, metralhadora, etc. Como você certamente sabe, sou um carinha sensível, quase melindroso. Detesto estardalhaço.
No que dependesse de mim, a arma bem que podia ser uma faca. Ou, na falta dela, um canivete. Mas nada daqueles suíços, de mil e uma utilidades. Queremos matar, não lixar as unhas. Um canivete curtinho. Comprimento não é documento. Se estivermos especialmente animados com nossa sanha assassina e desejarmos carregar na dramaticidade, podemos partir logo para uma peixeira, espetada... Não, espetada, não, inserida, inserida no bucho do desgraçado bem devagarinho. Afinal não estamos com pressa. O importante é que o processo conduza o autor (e, espera-se, a vítima) passo a passo por um caminho em que do chão reluzam apenas pedregulhos coloridos e rochedos agourentos, se houver, fiquem longe da vista atrás de colinas floridas e espinhos, se houver, permaneçam ocultos por sob a relva verdejante.
Não é, note bem, atentíssimo camarada, tarefa à-toa. Para se dizer um cronista-criminalista autêntico, o cabra há de ser chegador. Para tanto, requerem-se três qualidades: 1) bom papo, 2) saber suar a camisa e 3) ter samba no pé. Todas imprescindíveis. Se lhe faltar umazinha sequer, o pobre na certa vai deixar a peixeira cair sem saber onde. E agora, como é que irá furar o bestalhão? Ainda se estivesse em Hollywood, se uma bazuca lhe surgisse miraculosamente nas mãos, se os fuzileiros navais viessem assim do nada em seu socorro... E agora, repito? Eis que o cronista e o desgramado se acham tête-à-tête. Mãos vazias. Olho no olho. Para piorar as coisas, o pobre não luta kung-fu. Eu, de minha parte, mal consigo erguer o pé mais de dez centímetros do chão. A última ginástica que fiz foi na aula de educação física, quando ainda estava no ginásio. Que fazer? (Não sei por que, o carão bigodudo do Lênin me vem à mente sempre que me faço essa pergunta.) Para piorar ainda mais as coisas ─ como se fora possível, ora essa ─, o infeliz olha para trás e se vê num beco sem saída. (Ou cul-de-sac, para os mais sofisticadinhos.) Provavelmente será trucidado no mano-a-mano. O bandido, de vítima, vai se convertendo em seu algoz. A trama vai adquirindo um peso incômodo. Virando fardo. Degringolando. Você, exigente amigo, começa a torcer esse seu narigão abelhudo. Até que, de repente, sem pestanejar, deixa o pobre cronista falando sozinho feito anta atarantada, às voltas com a dissimulação do próprio crime, a ocultação do cadáver, a invenção dum álibi convincente, etc.
Acima de tudo, o cronista tem de saber enrolar. Sim senhor, exatamente como estou fazendo aqui. Se você se lembra, iniciei este futuro/pretenso crime conjeturando se devia ou não pedir desculpas pelo mesmo logo de cara. Ora, teremos ambos de convir que um intróito capenga desses, para chegar a péssimo, teria de melhorar pra burro. Daí, que foi que aconteceu? Aconteceu, meu prezado amigo, que você já está quase... Bem, você já leu cinco páginas e nem se deu conta. Se isso não é técnica narrativa, então desisto.
Viu só como a coisa se dá? A mais pura e anestésica tapeação. Se me permite a audácia, embromação da fina, burla de profissional a se desenrolar num palavreado furtivo para quase atingir o transcendente. Nada a ver com a transparência tão propalada hoje em dia a torto e direito. Não seria demais acrescentar que não doeu nadinha, doeu? Me lembra até aquelas injeções de cálcio que nos meus tempos de infante mamãe costumava aplicar nas minhas então rechonchudas nádegas, tão indolores, que eu chegava a pedir repeteco. Quem sabe hoje não é você que vai me solicitar a mesma coisa só para fazer passar mais depressa esse tempo que não passa? Pois é, capitão. O mundo dá voltas que a própria astrofísica desconhece.
Tem outra: como você de certo percebeu, até agora não proferi uma só palavra quanto à minha preferência sexual. Nem sobre minhas experiências na cama. Nem me referi a astros de novela. Ou ao big-brother. Mais: não fiz trocadilhos execráveis. Mais ainda: não disse um só palavrão. Sobretudo ─ ó glória suprema! ─ cheguei até aqui sem fazer uma confidência que fosse! É pra me inchar de orgulho ou não é?
Você certamente sabe aonde quero chegar. Me refiro, obviamente, a esse pessoalzinho sem papas na língua que hoje em dia infesta a internet e os sites de relacionamento, carinhas sempre perdidos de amores, isentos de pudores, uma rapaziada chã, desbocada. Nutro certa antipatia por essa gente que mal começa a teclar e plá, plá! se derrete todo, entrega o jogo, escancara o coração, chora as pitangas, lamenta as dores de corno ─ confessa, enfim.
É com pesar que vejo a molecada a dar nos dentes sob a ideologia liberalizante em voga. O recato parece ser algum pecadilho barra-pesada. “Contar”, “abrir”, “entregar” são os verbos da hora. Tem uns até que, imitando nossos irmãos da América, “dividem”. O gurizinho enfezado e a mocinha tãtãtã dando bobeira por aí não sabem o que devem ou não guardar para si mesmos. Não se preservam, pobrezitos. Aceitam cegamente o princípio que rege esta medonha época que vivemos, qual seja: falar tudo que lhes passa na cabeça e um bocadinho mais. Afinal, justificam-se pra que raios existe a liberdade de expressão?
Dói até a alma constatar como essa rapaziada é isenta da dimensão introspectiva. Meninas e meninos de hoje parecem não cultivar vida interior. Sequer lhes ocorre tal possibilidade. Alguns mais radicais nutrem uma espécie de ojeriza ao pessoal. A mim me parecem não livros abertos, mas nervos expostos. Não lhes ocorre que muitos dos nossos pensamentos e impressões melhor ficariam se continuassem guardadinhos no recato da alma. Tudo em suas cabecinhas ocas não passa dum lixo volátil que evapora em dois segundos para ser reciclado pelo moinho da fala ou do teclado, não importando que sejam visões preciosas dum artista ou ideias instantâneas dum pseudomístico analfabeto espertalhão.
Não é sem uma pontinha incômoda no lado esquerdo do peito, meu caro, que diagnostico: essa garotada se deixou escravizar pelo impulso desembuchante. Estão condenados a congregar-se qual bando, partilhar, buscar no outro um espelho reafirmativo. O pior dessa desgraceira é que “dar a mensagem”, “passar o recado” vira um, com perdão da originalidade, círculo vicioso. Mal o enfezado internáutico gurizinho se põe a confessar seus mais irrelevantes segredos, vupt! a internáutica tãtãtã mocinha cabeça de vento sente na língua a comichão confessional. Pronto: está lançada a ciranda diabólica.
Eta ferro, confessar para que os outros também confessem! Confessar! Confessar! Confessar!
Confissões, nós homens experientes e sensatos sabemos, devem ser deixadas para os que ocultam segredos ─ sejam de si mesmos ou de outrem. E ter segredos hoje em dia parece ser anátema. Para a garotada, segredo é sinônimo de limite. Quem é bobo de querer limites hoje em dia? Na cabecinha da petizada, a Era da Informação derrubou todas as fronteiras ─ não admite inibições, é refratária a pudores, prescinde de recatos. Mais que tudo, lhes trouxe uma liberdade que só é digna do nome se vivida irrestritamente.
Nos funestos tempos que correm, há que implodir a pessoalidade, eliminar as distâncias, as diferenças que nos isolam uns dos outros. As personalidades parecem escorregar por uma vala socioneurótica, caindo num fosso de narcisismo onde decantam e logo a seguir se dissipam na atmosfera coletiva para amalgamar numa imensa massa amorfa e sem rosto. Em contrapartida, aqueles que teriam efetivamente de confessar ─ presidentes, ministros, senadores, deputados e bacanões em geral que mereciam ser pendurados no pau de arara para dizer onde botam a grana que nos roubam ─, esses, claro, fazem boca de siri. 
Mas contenhamos o entusiasmo espinafrório e nos contentemos com o nosso solerte crime não perpetrado ─ ainda.
Como dizíamos, o cronista tem como maior desafio encontrar um bom motivo para cometer o cujo. Não raro, o miserável se embanana todo com o único e solerte propósito de mostrar ao leitor que, sendo sagaz, sabe como ninguém escapar duma enrascada. Não sei se você notou, perspicaz amigo, exatamente o que estamos fazendo aqui. Vamos tascando umas pistazinhas só por provocação. Portanto, chegou a sua vez de confessar: você está ou não está fazendo troça do nosso mistério? Vamos lá, abra o coração: esta nossa trama ─ ou a falta de uma? ─ já está lhe dando enjoo, não está não? 
Certamente, desde aquele primeiro parágrafo lá em cima, você vem mantendo o pezão atrás, remoendo azedumes como “ih, esse vai ser um osso duro de roer!” ou “meu, por que esse sujeito não desiste logo, antes de dar vexame?”
Honestamente: você imaginou ou não imaginou que não seríamos capazes de chegar à terceira ou quarta vítima sem naufragar numa viscosa, nauseabunda xaropada?
Com certeza sua cabeça vem sofrendo ataques de pensamentos vagos como “que papo estranho”, “segura que lá vem gafe”, “este pretexto de crime não passa duma fraude, o cara vai bolar as trocas, e quando se vir num beco sem saída será rude, esnobe, cabotino, histrião, autoritário, tudo que um cronista moderno não deve ser”.
Bem, meu caro, previno-o, antes de mais nada, que compreendo perfeitamente sua solidária aflição e lhe agradeço por se preocupar com as atribulações do nosso ofício. Porém, se me permite uma breve análise psicoliterária, essa sua impressão inicial é simplesmente fruto dum mito, que vem sendo solertemente inculcado no seio da população por certos cronistas peetistas, finados ou não, e alguns outros que se autodenominam socialistas e comunistas.
Explico.
Tudo começou muitos anos atrás, quando os supracitados senhores desenvolveram um plano para revitalizar a importante ideologia de classes, sustentáculo do espírito revolucionário e razão mesma de ser de cada socialista. Como é do conhecimento de todos, a dita ideologia vinha perdendo popularidade, sobretudo a partir dum determinado momento na história em que certos representantes graúdos do peetismo nacional começaram a se matar uns aos outros. As razões dos homicídios de muitos homens e mulheres dessa estranha facção política ainda hoje se acham envoltas em mistério. Mas, aqui entre nós, prezado amigo, embora não disponhamos de nenhuma informação privilegiada sobre o caso, temos cá nossas desconfianças. Algo no fundo do nosso íntimo nos diz que os cabras cometeram os assassinatos por causa de sua mofina obsessão socialista de vestir cada indigente deste país com uma boa Zorba forradinha de verde.
Confesso que a princípio não tínhamos a menor intenção de enfocar este tema. Primeiro, porque esse negócio de enfocar não é conosco. Quem gosta de passatempos desse tipo é máquina fotográfica e professor de Sociologia daqueles lados do Butantã. (Não, não nos referimos ao famoso serpentário, e sim àquela universidade que consome um bom bocado dos impostos que os paulistas pagam sem saber direito o que recebem em troca.) Segundo, porque não pretendíamos enfocar nem este tema nem qualquer outro e, se pudéssemos, estaríamos agora em Las Vegas, sentados a uma mesa de poker entre duas blondies platinadas, uma de macacão dourado, outra de vestido prateado-verdejante, tendo à nossa frente um Chivas com Perrier e uma pequena montanha de fichas, em valor equivalente a algumas centenas de milhares de dólares desfalcados ao Tesouro Nacional, tal como sempre fizeram e fazem nossos honrados políticos e congêneres.
Agora que o deixamos intrigado, inocente leitor, só nos resta seguir em frente e revelar o resto da história, pois, como já dissemos alhures, somos cronistas responsáveis, cientes de que devemos cumprir os compromissos assumidos. En passant, aproveitaremos para lhe contar o que há por trás da gravíssima crise que a política em geral e o peetismo em particular vem atravessando neste nosso iletrado Berção.
Após os misteriosos homicídios a que nos referimos acima, começou a correr no métier internáutico um boato deveras esdrúxulo, que ocasionalmente alguém num jornal proclama estar convicto de que não passa disso ─ boato ─, para logo outro alguém redarguir numa entrevista que tudo ocorreu de fato.
A celeuma se instalou há anos e a cada dia que passa a coisa só faz crescer em controvérsia.
A parada é mais ou menos a seguinte.
Segundo consta, um dia os bambas do peetê se reuniram secretamente. Tudo que se refere à suposta reunião é cercado de incerteza. Em geral acredita-se que tal reunião se realizou há alguns anos, não se sabe ao certo quando. Uns defendem que foi há quatro. Outros advogam categoricamente que foi há seis. Quanto a nós, ficamos com o do meio, pois, mesmo não sendo peetistas, aprendemos com os sindicalistas que quem gosta de extremos é pinguim.
Para alguns, o colóquio dos socialistas-barões se deu numa aldeiazinha de Minas, cujo nome, como não poderia deixar de ser, ainda hoje é mantido sob o mais rigoroso sigilo. Para outros, foi não um colóquio e sim convenção, e teria ocorrido em plena Brasília. Para outros ainda, a coisa toda não passou dum mero encontro casual num botequim qualquer de Ipanema durante o qual os participantes decidiram agendar uma assembleia em que traçariam os destinos da economia nacional, mas depois de algumas horas estavam todos tortos de caipirinha e assim tal assembleia jamais teve lugar.
Quanto a quem tomou parte da dita-cuja, tudo é ainda mais obscuro. Uns dizem que foram oito grão peetistas, outros, três, outros ainda, doze (o que por certo é um exagero, pois nenhum país do mundo possui tamanho número de zorbistas-verdes entre a elite política, seja qual for o ângulo em que o estilista olhe).
Entretanto, tem-se por relativamente certo que, se encontro houve, todos os participantes estavam encapuçados à la Ku-Klux-Klan e cada um deles tinha, sob o capuz, um pregador de roupa aplicado ao nariz para disfarçar a voz. Quem vislumbrou o evento jura que a impressão que calava mais fundo era a do apocalipse. Cruz-credo, que medo.
A única certeza definitiva que se tem hoje é que a prosa se desenrolou em torno duma grande mesa redonda em cujo centro havia uma travessa repleta de damascos e carambolas dos mais variados tamanhos e cores, e delicadas jarrinhas de chá-mate, bem a gosto dos peetistas mineiros. Para os cariocas, prepararam-se grandes porções de batatinhas fritas tostadinhas ao ponto e sequinhas em papel-toalha, acompanhadas de salaminho com limão, sempre fartamente regados com cerva geladérrima. Para os gaúchos, evidentemente, bastaram algumas cuias de chimarrão. E para os paulistas foram servidos pastéis de carne e palmito, que tanto bardudinhos quanto glabros fizeram descer com boas talagadas de caninha.
Embora conheçamos a década em que a reunião ocorreu, bem como os estados de origem dos participantes e o cardápio variado e pitoresco, o tema do evento, que é o que nos interessa aqui, até hoje prossegue submerso sob a mais espessa bruma e estaria irremediavelmente soterrado sob as cinzas do olvido não fosse uma dessas fantásticas coincidências que pelo menos uma vez acontecem na vida de cada um de nós.
Tal coincidência se deu assim.
Um belo dia, um desses homens esquisitos que ficam trocando aqueles formidáveis berros uns com os outros no salão de pregões da bolsa de Nova York dirigiu-se a um antiquário inglês da Sexta Avenida (antiquário esse que sumiu do mapa depois dos ataques do onze de setembro) em busca dum criado-mudo chinês.
─ May I help you, sir? ─ atendeu obsequiosamente o antiquário ao homem esquisito que trocava formidáveis berros com outros esquisitos no salão de pregões da bolsa de Nova York.
─ Well, may be so ─ redarguiu o operador da bolsa. (Ou teria sido o homem esquisito? Bem, você certamente entendeu. E já que estamos abrindo estes parênteses, aproveito para ressalvar que a partir daqui iremos providencialmente traduzir o diálogo que ambos travaram a seguir ─ ou pelo menos aquilo que não soubermos escrever em inglês ─ para que o prezado companheiro não ache pernóstica demais esta cronicazinha sobre o crime quase, mas quase cometido mesmo.) E explicou: ─ Meu simpático senhor, estou procurando um criado-mudo chinês que combine com a sapateira peruana do meu quarto. O senhor por acaso teria? Pode ser indiano ou canadense, no problem.
─ Naturalmente, my dear ─ assentiu o antiquário em sua proverbial fidalguia britânica. ─ Queira me acompanhar, will you.
Assim dizendo, o dono da loja acenou para o esquisito freguês, indicando-lhe o caminho. De repente, porém, o homem estacou, voltando-se para o outro e levando a mão em concha ao pé da orelha direita.
─ Listen up! ─ arregalou os olhos e escancarou a boca. ─ Será rugido de avião? Ainda ontem um Boeing passou bem entre as duas torres gêmeas. Por um milagre não houve um terrível acidente!
O esquisito operador da bolsa se deteve incontinenti e, erguendo as sobrancelhas apreensivo, apurou os ouvidos. Em seguida, esticou o pescoço para o alto, como que procurando se aproximar das nuvens no céu. Depois de alguns segundos nessa posição, meneou ligeiramente a cabeça:
─ No sir! Não escuto rugido algum. Provavelmente foi uma moto com o escapamento aberto que passou na Sexta. ─ Mal proferiu essa resposta, o freguês esquisito abriu um sorrisinho quase imperceptível, pensando “Um Boeing entre as torres gêmeas! Esses britânicos inventam cada uma.”
─ Posso lhe sugerir este aqui? ─ O dono da loja apontou para uma peça enfiada a um canto, não dando bola para o sorrisinho de escárnio do homem esquisito. Por certo, era um comerciante acostumado, deveras acostumado, a operadores da Stock Exchange.
O freguês, saindo de seu devaneio étnico, olhou para o móvel indicado pelo antiquário. Tratava-se dum objeto estranho, muito estranho, medindo 15 polegadas de comprimento por 4 pés de largura, decorado com caracteres exóticos enfileirados em duas colunas, mais ou menos em tamanho A3. 
─ What is that? ─ quis saber, apontando o objeto estranho com o dedo médio, num indefinido gesto ambíguo de sentido vago. Ele tentou ler os caracteres exóticos, que pareciam pertencer a uma língua estrambótica inidentificável.
─ I haven't the slightest idea ─ respondeu o antiquário, shrugging e erguendo os olhos para o teto como se buscasse detectar o ronco de aviões suspeitos.
O homem esquisito, encafifado, permaneceu ali parado, mão direita no queixo, estudando, refletindo, ponderando e coçando a cabeça com a outra mão. Levava todo jeito de estar sob poder da mais aflitiva das dúvidas.
Passados uns 45 minutos, o homem esquisito finalmente exclamou:
─ Okay! How much is the damage? ─ metendo a mão no bolso do colete e tirando um cartão Dinner's.
Assim se consumou a operação comercial.
O que o homem esquisito não revelara ao comerciante foi que planejava comprar o objeto estranho para instalá-lo na entrada de sua townhouse no up-state e com ele remover a neve e a lama que se grudavam às botas nos dias de inverno.
Dito e feito.
Na primeira neve de novembro, porém, concluiu que o objeto estranho não era apropriado para o fim pretendido e, com pena de jogar a tralha no lixo e assim perder os 19,99 dólares que investira, começou a carregá-lo pendurado no pescoço atado a uma longa corrente de prata.
Meses depois da compra, achava-se o homem esquisito passeando com a esposa igualmente esquisita e as duas filhas (uma das quais, Mary-Ann, era lésbica, a outra, cujo nome não sabemos, indecisa) pelo circuito das igrejas de Minas, quando um nativo cambaleante, trôpego e visivelmente biritado bateu acidentalmente os olhos no objeto estranho pendurado no pescoço do turista e se pôs a bradar, apontando:
─ A ata! A ata!
O homem esquisito, a esposa e as duas filhas se entreolharam atônitos, confusos e aturdidos. Sem entender a gesticulação do nativo, se perguntavam, mudos, se haviam cometido algum deslize e se “a ata” seria o feminino de “o ato” em espanhol.
Acontece que, por mais uma dessas fantásticas coincidências da vida, naquele exato momento o homem esquisito, a esposa, Mary-Ann e a outra filha passavan diante da Barbearia do Silva, o que, como veremos a seguir, mostrou-se particularmente funesto para aquela desafortunada família.
Eram 13 horas e alguns minutos duma ensolarada e tépida tarde de Minas Gerais, horário que o barbeiro Silva costumava reservar para a sesta. Ocorre que justo no dia anterior Silva tomara importante decisão, que viria mudar radicalmente seus hábitos: não mais observaria suas sestas, que, desde que se conhecia por mineiro, eram o que de mais sagrado havia em sua existência.
Não fora nada fácil tomar decisão de tal envergadura. Mas, por um desses caprichos que só o destino é capaz de engendrar, duas semanas antes dirigira-se à residência do doutor Gouveia, digníssimo juiz de paz da cidade e, em tosando a juba do homem, acidentalmente bateu o olhar num trecho da revista Playboy que o doutor tinha aberta no colo.
No mesmo instante o barbeiro Silva desviou os olhos da revista para fixá-los na costeleta de Gouveia, que era onde estava sua tesoura naquele momento. Tinha por norma jamais bisbilhotar as leituras de seus fregueses ─ ou, mais precisamente, clientes. O próprio doutor Gouveia alardeava a quem quisesse ouvir que dava preferência a Silva por já ter testemunhado em inúmeras ocasiões sua discrição e confiabilidade. Por mais de uma vez sentara-se na cadeira para fazer cabelo e barba tendo nas mãos uma revistinha de sacanagem e, controlando o olhar do barbeiro através do espelho, constatara que o prestador de serviços capilares jamais deu sequer uma espiadela nas suequinhas que, na revista, perpetravam inimagináveis estripulias.
Havia, porém, um pequeno detalhe a que o doutor Gouveia nunca prestara atenção. Silva, sempre que dava por findo seu serviço, alegava estar com o intestino solto e corria ao banheiro, trancando-se ali por longos minutos. Seja como for, especular sobre o que Silva fazia no banheiro da casa do juiz de paz seria demais da conta. Posso ser muita coisa, mas leviano, não.
Como dizíamos, Silva então tentou desviar o olhar da Playboy... mas era tarde demais. Aquele pequeno trecho perdido no meio da página já fora não só captado por seu olhar de lince treinado em identificar a mais fina das penugens mas também registrado por seu possante cérebro que, com os anos de barbearia, desenvolvera tremenda agilidade de apreender toda e qualquer informação transmitida por seus sentidos de mineiro em permanente estado de alerta.
Assim, Silva pôde ler, quase que num vislumbre, ao lado da foto na qual uma soberba loiraça arregaçava as... pernas diante do nariz do doutor Gouveia, a seguinte notícia:
É bom, muito bom dormir após o almoço. O sono restaura as energias, agudizando a vigília vespertina.
Em recente pesquisa conduzida pela Universidade de Belo Horizonte, os cientistas determinaram que, durante o dia, o corpo experiencia baixa temperatura em duas ocasiões: por volta das 23h e às 12h. Essa prática saudável favorece a chegada do sono.
Os doutores belo-horizontinos afirmaram que não é senão por mera coincidência que sentimos sono após o almoço, dado que a sonolência é fisiológica. Todavia, comidas calóricas tais como torresminho, arroz carretero e ovos de ganso, sucedidos por gordas fatias de goiabada com queijo local, facilitam a queda da temperatura corpórea.
Os cientistas disseram ainda que os que sofrem de insônia não devem executar a sesta, caso contrário podem ter o sono noturno prejudicado. Segundo eles, essa milenar prática pode ser benéfica, desde que o mineiro em questão esteja habituado, o que aparentemente é o caso de toda a população daquele Estado.
“O principal” afirmou o dr. Sigismundo Correia, neurologista que chefiou a investigação et al., “é tirar uma sestinha diária. Se você dorme mal à noite e tenta compensar de dia o sono perdido, então o melhor é procurar resolver a insônia noturna.”
Para o dr. Sigismundo, a duração do cochilo pós-almoço vai do metabolismo do freguês. “Olha, tem gente que tira uma soneca de 15 minutos, outros, de 30 ou até 50. Os mineiros, em média, apagam umas 3 horas, o que em certa medida explica por que aquele Estado se desenvolve tão depressa.”
Segundo antropólogos consultados pela Playboy, as dramáticas mudanças econômicas ocorridas nas últimas décadas afetaram amplamente os hábitos culturais das populações em todo o mundo. O costume da sesta, outrora quase sagrado para os brasileiros, hoje está praticamente extinto. Exceto, evidentemente, para os habitantes setentrionais da nossa querida Região Sudeste.
Já para o sr. Richard Ampard (que, infelizmente, não sabemos nem de quem se trata nem por que é citado neste artigo de Playboy), Marx tinha razão ao dizer que o capitalismo não prevê que as pessoas possam dormir à tarde. “Time is money”, costumava rezingar o barbudão em seu estapafúrdio idioma teutônico. O pior é que com as distâncias de hoje em dia, o pessoal não tem como almoçar em casa. Ainda se fossem todos como certas pessoas que só precisam encostar a cabeça para cair no sono onde quer que estejam...”
Marx prossegue explicando que antes do capitalismo os humanos ficavam em casa após o almoço para se resguardar do calor e do sol. Com isso, descansavam um pouco. Hoje tudo mudou e é outra a relação com a saúde. Há a cultura da praia e da exposição do corpo. As pessoas aproveitam o tempo que sobra para ir à academia e fazer exercícios ao ar livre.”
Roberto Albergaria, doutor em antropologia pela Ufba (Universidade Federal da Bahia), diz que a criação de shoppings facilitou a extinção da sesta. Diferente das lojas de rua, o centro comercial não fecha às 12h para almoço.
“Por que a sesta acabou? É mais um tributo que pagamos à civilização e a essa maluquice que chamamos progresso. O progresso torna a vida mais agitada, mas traz, como consequência, o estresse.” 
Bom, encurtando a história, logo descobriu-se que aquele objeto estranho pendurado no pescoço do esquisito turista era nada mais, nada menos que a ata da polêmica reunião dos peetistas mineiros, cariocas e gaúchos. Ato contínuo, chamaram um perito da ABL, que elaborou o seguinte laudo técnico a respeito do objeto que já não era mais tão estranho:
“Certifico que examinei o artefato a mim apresentado e que o mesmo contém 'Os Dez Mandamentos da Crônica'. Pontifico ainda que não há assinatura nem indicação de autoria. Cumpre notar que os dizeres acham-se numa esdrúxula ordem, digamos, cronológica e que, em resumo, consistem do seguinte:
Os dez mandamentos da crônica
sexto ─ toda crônica deve ser pitoresca;
primeiro ─ o leitor da crônica é sacro, intocável, a essência da essência do cronista, razão última do seu ser;
nono ─ toda crônica deve ser divertida;
sétimo ─ toda crônica deve ser ligeira;
décimo ─ o cronista não pressuporá que, com um papo franco e direto, o leitor não ficará com o pé atrás. Ou com a pulga atrás da orelha. Ou com qualquer outro dito popular cabível nesta situação.
quarto ─ toda crônica deve ser leve sem ser leviana;
quinto ─ o cronista jamais pedirá perdão ao leitor;
terceiro ─ o cronista não faltará ao respeito com o leitor;
oitavo ─ o cronista não tripudiará, não escarnecerá, não será ferino, mordaz, inconsequente, doidivanas;
segundo ─ o cronista não negligenciará o óbvio ululante.
Mandamento único ─ está na cara que estes dez mandamentos têm por alvo sobretudo piadas de português e de papagaios contadas com plumas literárias e efeitos linguísticos especiais, do que se podem tirar duas conclusões precípuas: nem toda piada de português/papagaio é crônica e nem toda crônica é piada de português/papagaio e, o mais importante, nem toda crônica é necessariamente piada.” 
Fim dos dez mandamentos.
Bem, como você pode ver, adorado leitor, se fôssemos analisar esta nossa pobre... ã... crônica sob a luz do quinto mandamento, seríamos obrigados a jogá-la no lixo, o que seguramente seria uma enorme perda no contexto do cenário literário nacional. Por isso gostaríamos de lhe pedir que ature só mais um pouco este infindável suplício em que nos esforçamos ao máximo para narrar o crime quase, mas quase cometido mesmo, embora estejamos cientes de que seus nervos a esta altura já se achem em vias de virar farofa. 
Assim, apelando à sua obsequiosa sapiência, reconhecemos, mesmo por obrigação de ofício, que sabemos que você sabe muitas coisas, embora não saibamos se no seu caso estamos ou não diante dum verdadeiro sabichão. Leitores há mais sabidos que o próprio autor, o que, à primeira vista, pode parecer paradoxal. Outros chegam a ser rudes, mal-educados e arrogantes, principalmente quando percebem nas entrelinhas que o crime quase, mas quase cometido mesmo está em fase de transição, com perdão do trocadilho infame, de crônica para aguda.
Nesse... ã... sentido, temos a alegar a nosso favor que esse é, sem sombra de dúvidas, o maior mal que aflige os profissionais da escrita. Trata-se duma praga que destrói carreiras, desmancha casamentos, aborta cursos superiores, ceifa vidas, entope ralos e corrompe arquivos. Recentemente, um renomado instituto estatístico com sede em Sampa e filiais por todo o Brasil e Fernando de Noronha, inclusive, levou a cabo uma pesquisa envolvendo nada menos que dez mil, cento e trinta e nove escritores pátrios. Esse formidável número seguramente faz de tal levantamento o mais sólido e consistente dessa natureza e envergadura jamais conduzido por estas plagas.
De acordo com os resultados obtidos pelo prestigiado instituto, 95,43 por cento dos nossos coleguinhas de letras elegeram a atroz falta de que dizer como o mais terrível hiato criativo por que podemos passar nós profissionais da escrita. Os demais 12,6 por cento responderam que, embora fossem efetivamente escritores e tirassem seu ganha-pão da literatura, nunca tinham redigido mais que duas ou três palavras que formassem sentido e, portanto, não sabiam que dizer sobre o tema.
Em que pese sólida e consistente e objetivasse escritores em geral, a referida pesquisa teve seu universo restrito a romancistas, contistas, ensaístas, dramaturgos, prosadores, gramáticos, trovadores, oradores, escriturários e escrivões. Infelizmente ─ como você por certo notou, leitor perspicaz que é ─, os cronistas ficaram fora da lista.
Por que, ora bolas? é a pergunta que você sem dúvida está se fazendo, procurando conter a revolta e a indignação. Sim! ajuntamos de nossa parte: por que os cronistas não foram incluídos na pesquisa?
(Antes de prosseguirmos, porém, pedimos licença para efetuar o upgrade do narrador, elevando-o da primeira pessoa do plural, majestática, para a primeira pessoa do singular, mais condizente com o espírito da nossa época. Só um instante, por favor... click... ou melhor, clique... claque... creque... Pronto.)
Voltemos à nossa crônica de título poético sobre a famigerado crime quase, mas quase cometido mesmo.
Como ia dizendo, prezadíssimo companheiro de horas amargas, confesso que, ao tomar conhecimento dos resultados da pesquisa pelos jornais, também fiquei pasmo com essa discriminação. Assim, pondo em uso este ralo talento reflexivo que sobrou do embate entre os DNAs de meu pai e de minha mãe, matutei durante alguns longos segundos. Oito, na verdade. (Contados no relógio digital que ganhei da patroa no meu aniversário.)
Matutei, mas não consegui chegar a conclusão alguma. (Na verdade, cheguei a várias, mas descartei todas quando vi que nenhuma era suficientemente boa para explicar o fenômeno.)
Exaurido do esforço, tive uma ideia brilhante: por que não procurar a resposta diretamente com os autores da pesquisa? Afinal, ninguém melhor que eles para me explicar a razão de terem excluído os cronistas daquele estudo.
Ato contínuo, e entusiasmado com a queda que a natureza me deu para escapar de enrascadas aparentemente sem solução, saí do apartamento e peguei o elevador (pois moro no segundo andar dum velho prédio da avenida Angélica e não gosto de fazer esforço físico).
Quando me vi na calçada, tomei os rumos do Vamo Cair Na Rede, simpático e acolhedor cibercafé que fica aqui ao lado, em frente à praça Buenos Aires, a apenas trinta e oito passos do prédio. Assim que abri a porta do Vamo Cair, olhei em volta pelo salão cheio de mesas e computadores, procurando a Aurora.
Mas que Aurora é essa?, você haverá de perguntar, pois, sendo exigente, não gosta quando um autor vai citando um personagem sem antes apresentá-lo formalmente, como é praxe em crônicas que se prezem.
Aí vai a apresentação, pois.
A Aurora era a gerente do Vamo Cair. Cá para nós, uma baita trabalhadora. Primava pela eficiência, pontualidade e profissionalismo. Quando eu calhava de encontrar os proprietários do Vamo Cair tomando cerveja no boteco do Lalau aqui do lado, nunca deixava de comentar que eles haviam tirado a sorte grande por terem encontrado a Aurora através dum anúncio classificado da Vejinha. (Pois é, tem gente que lê essa coisa. O mundo tá perdido.) Apenas omitia que, além de ser uma das mulheres mais gostosas que já tinha visto em toda minha vida, ela estava dando para mim. E com serviço completo, se é que você, astucioso leitor, me entende.
Enquanto examinava o salão em busca da doce Aurora, me perguntava por que cargas d'água até hoje eu tinha essa maldita dificuldade em encontrar algo interessante para contar aos meus leitores. Como já lhe contei anteriormente e hei de contar-lhe ad eternum, trata-se de um mal que afeta todo cronista indefectivelmente, atormentando mesmo os mais talentosos (o que, obviamente, não é o meu caso). Já vi casos por aí que me deram até pena.
Passava para bater um papo com Aurora sempre que não tinha que fazer. Ah, lá estava ela, nos fundos do salão, sentada diante dum monitor de 40 polegadas, para variar jogando Need For Speed. Me aproximei por trás da mesa e fiquei parado, sem me anunciar. O contador do jogo marcava quase quarenta mil pontos.
Permaneci vários minutos postado atrás de Aurora, entre maravilhado com a sua habilidade para fugir de obstáculos e ludibriar seus oponentes e ainda ensimesmado ─ para não dizer acabrunhado ─ com o assunto ─ ou a falta dele ─ desta empolgante e iridiscente cronicazinha.
Sempre com os olhos colados na tela do computador, lembrei de certa vez em que fui dar no apartamento dum desses cronistas de fino trato que pululam na imprensa nacional. (Bem, prezado, “fui dar” neste caso é mero recurso estilístico, acho.)
Na época eu era apenas um rapagão, ainda engatinhando na tortuosa e esburacada estrada da escritura artística, e vivia antenado em qualquer um de quem eu pudesse extrair uma liçãozinha por mais modesta que fosse. Sentia que precisava dum empurrão inicial em minha incipiente carreira. Provavelmente foi nesse contexto que travei conhecimento com o bandido, a quem chamarei, apenas para fins de simplificação, de o Grande Cronista.
Embora a névoa do passado ainda borre os fatos e feitos daquela distante manhã em que o figuraço das letras me levou à sua residência, trago ainda viva ─ vivíssima, diga-se ─ na lembrança uma coisa estranha, muito estranha. 
Não estou bem certo por que compareci ao apartamento (ou “estúdio”, como ele pedia que chamasse) do Grande Cronista naquela ocasião particular, apenas me recordo vagamente de que ele prometeu me mostrar o trabalho que desenvolvia à época. Me secando com um olhar perturbadoramente intrusivo, pediu que eu fosse bonzinho e subisse com ele, mencionando por alto umas dicas sobre técnicas estilísticas e que tais. “In loco”, ressaltou, crescendo os olhões para cima de mim. Da minha parte, devo esclarecer que, em tais situações, prefiro tomar lições “in situ”. Obviamente, me abstive de confessar essa minha idiossincrasia a tão honorável senhor.
Enquanto esperávamos o elevador, ele prometeu me dar (ou me “ofertar”, segundo suas palavras precisas) uma de suas grandes crônicas, enfatizando que, se quisesse, eu poderia publicá-la em meu próprio nome, desde que eu fosse suficientemente bonzinho. “Eu vou ser. Eu vou ser!”, respondi sôfrego, mal vendo a hora de botar as mãos naquele que certamente seria meu primeiro grande texto. “Estou feito!”, exultava por dentro, pois as crônicas do Grande Cronista eram estupendamente bem construídas, dotadas dum poder de síntese e duma criatividade de causar inveja em Sabino, Rubem Braga, Mendes Campos e outros menos ranqueados. Diários, revistas semanais, incluindo Vejinha, e editoras disputavam ferozmente a produção literária do sujeito.
Bem, passados todos esses anos, só posso dizer que todo o episódio ainda está envolto numa densa e estranha neblina mnemônica, com início e fim perturbadoramente diluídos. E se fui ou não suficientemente bonzinho, também não me recordo. O que me lembro é que o Grande Cronista sentou-se num sofazinho cinza, sem braços, pés recobertos por drapês verde-terra rendados em barbante amarelo-maçã, e estendeu um braço em minha direção, convidando para que eu fosse me sentar ao seu lado. Eu estava folheando o último livro dele, que acabara de ser lançado pela Companhia das Letras havia apenas três dias e já ocupava o primeiro lugar entre os mais vendidos.
Atendendo ao seu chamado, pus o livro de volta na estante, dei de ombros e fui me instalar no sofazinho cinza sem braços. Assim que me acomodei, ele tomou minhas mãos entre as suas e disse com suavidade, em seu estilo telegráfico, seco e enxuto que todos nós escritores novatos aprendêramos a amar:
─ Olha. O que vou lhe dizer agora é importante. Extremamente importante. Preste muita atenção.
Ávido feito uma criança diante dum... pirulito inesperado, paralisei o diafragma e os músculos intercostais, que, como você certamente sabe, são os responsáveis, juntamente com outros músculos acessórios, pela respiração. Mirei os olhos dele. Finalmente chegara a hora da minha tão almejada iniciação literária. Sôfrego, expectante, cerrei as pálpebras e me lembrei de que estava com o ar ainda preso nos pulmões. Exalei.
─ Está me escutando? ─ ele me apertou firme e languidamente as mãos.
─ Estou. Estou!
─ Haja o que houver... Está me entendendo?
─ Sim. Haja o que houver! 
─ Haja o que houver, nunca escreva sobre o que não vem ao caso. Ouviu?
─ Sim. Ouvi!
─ Vá sempre ao que interessa! Não se perca pelo crime quase, mas quase cometido mesmo. Está me escutando?
─ Eu... eu... ─ tentei responder, mas as palavras se me esmilinguiram na garganta, deixando minha mente vazia e desolada e fria feito uma câmara frigorífica em período de entressafra durante um surto de febre aftosa. Concentrei todos meus pensamentos, reuni todas as minhas forças numa torturada tentativa de corresponder às expectativas do Grande Cronista. Em vão. 
─ Eu... eu... ─ insisti, ainda lutando em meio à forte e densa névoa que, tomando conta da minha consciência, pairou sobre a maior parte das horas daquele dia memorável.
Nesse instante devo ter entrado em estado delirante, pois minha única memória daquela cena são palavras e frases soltas, provavelmente proferidas pelo Grande Cronista em sua preleção, coisas como “vislumbre um belo motivo para uma crônica nos mais prosaicos fatos do cotidiano... cuidado com a hora fatídica! sempre chega uma hora fatídica! não seja mais um profissional da palavra a sofrer desse terrível mal...” 
Então os delírios deram lugar à mais negra escuridão que já se abateu sobre meu cérebro. Desmaiei. Dentre as poucas lembranças que tenho desse episódio está uma das mais perturbadoras: nos dias seguintes uma dorzinha chata andou me incomodando na região do escapamento e da bomba ejetora, se é que você, esperto leitor, me permite duas singelas metáforas automobilísticas.
Enquanto isso, no Need For Speed, Aurora atingia o quinto bairro em parcos três minutos, provavelmente batendo um novo recorde. A luzinha verde rutilava no lado esquerdo inferior da tela, se deslocando insidiosa e célere em direção ao próximo bairro, enquanto que o ponteiro do velocímetro no lado direito inferior raramente escapava da zona vermelha, oscilando entre 120 e 130 milhas por hora, com a RPM ─ uau! ─ nunca abaixo de nove mil rotações.
─ Fulminante! ─ exclamei.
Ela teve um sobressalto e olhou por sobre o ombro.
─ Ninguém me iguala há dois anos ─ sorriu orgulhosa, dentes uniformes e brancos, sorriso límpido e simples formando duas covinhas nas bochechas coradas.
Dei uma piscadela com o olho esquerdo, ela abriu ainda mais o sorriso e apontou os lados dos banheiros com as sobrancelhas. Em seguida, se pôs em pé e rumou naquela direção.
Segui atrás, olhos fixos na bundinha arredondada, as mãos quase tocando a cinturinha esguia de que só podia vislumbrar a pele sob o bustiê rosa funcionando feito chamariz. Ela abriu a porta que tinha uma tabuleta escrito “Elas” e entrou. Segui atrás. Quando me viu dentro do banheiro das mulheres, ela empurrou a porta dum dos boxes (ou sei lá como se chamam os banheiros dentro de banheiros) e entrou. Segui atrás, ejetor já semiarmado no terceiro estágio.
Quando entrei, Aurora tinha baixado a tampa do vaso e a limpava com uma bola de papel higiênico. Em seguida, sem descer as calças, ela sentou-se na tampa, me puxou pela cintura e começou a abrir minha braguilha.
Era assim sempre que eu ia ao cibercafé. Já se tornara rotina. Mesmo um ritual, que, para mim, ia ficando cada vez mais necessário. Era minha forma de descarregar a tensão que se acumulava em meu âmago durante minhas tensas e tolas lides literárias repletas de ausências e vazios. E, para Aurora, constituía uma escapadela das responsabilidades gerenciais do cibercafé, que, segundo ela, a estafavam sobremaneira. “A gestão da rede às vezes me dá falta de ar”, costumava comentar comigo ainda com meu pau entre os lábios, arfando, olhos semicerrados, narinas dilatadas de potranca no cio, segundos antes de eu dar mais uma das minhas gozadas monumentais. Nesse exato momento Aurora, com toda a força de que parecia dispor, apertava ao mesmo tempo a base do meu pau com o indicador e o polegar e minhas duas bolas com o médio, o anular e o mindinho, intensificando meu orgasmo e lhe enchendo a boca de minha gosmenta e tépida esporra. 
Algumas semanas antes Aurora havia me confidenciado que estava se viciando em engolir meu “leite”, como gostava de denominar minha secreção orgástica. “Não sei se consigo viver mais sem uma boa talagada desse teu santo sêmen”, dissera lambendo os lábios, chupando a língua, me olhando um olhar estranhamente vazio. “Você vai vir todos os dias, não vai?”, perguntou, voz fremente de sofrimento. “Tudo bem. Não se preocupe”, eu fiz um gesto tranquilizador com as mãos, lhe dirigindo um sorriso cordial e compreensivo.
Apesar da minha boa vontade, porém, dias houve em que eu me deixava arrebatar irrecorrivelmente em minhas peripécias literárias e acabava ou me esquecendo de comparecer ao cibercafé ou fatigado a ponto de não ter forças para cumprir minha promessa, atormentado pelo remorso. Outras vezes, simplesmente ficava lá jogado no sofá da sala, fitando o teto, não dando a mínima para a promessa nem para mais nada, me entregando a um estado de torpor autoindulgente, infrutífero, obscuro e ligeiramente barroco-musical.
Depois de algumas dessas minhas mancadas, Aurora sugeriu que eu coletasse o sêmen num desses frascos de coleta de urina em casa mesmo e guardasse na geladeira, levando a ela na primeira oportunidade.
Como a tarefa não fosse me custar praticamente nada além duma rápida e mecânica punheta ─ e quando digo rápida, não é força de expressão, pois tenho uma capacidade espantosa de libidinosidade, focando os pensamentos num teatrinho mental que consistia de referências a situações e personagens reais, sobretudo quando dotadas dum bom e pródigo par de tetas de mamilos escuros e amplos e espevitados e duma bela, rechonchuda e abastada bunda, desde que o esforço de concentração fosse tal que me permitisse dirimir por completo algumas dolorosamente perturbadoras imagens de mamãe que por vezes teimavam em se imiscuir acusatoriamente pelo meu assoberbante mise-en-scène erótico. Em tais ocasiões lograva atingir o orgasmo em apenas 48 segundos, o que seguramente era o bastante para me classificar entre os primeiros em qualquer concurso de supermasturbação de qualquer parte do mundo, mesmo do Japão ─, acedi de pronto, tranquilizando Aurora mais uma vez.
Foi assim que nesse dia me despedi dela e deixei o cibercafé. Já precavido contra minha própria distração, que muitas vezes tem me colocado nos mais vexaminosos embaraços, tomei de imediato o rumo da farmácia para comprar os necessários frascos, cantarolando mentalmente os botões da blusa que você usava iá iá assistiam tudo não diziam nada, como sempre ─ ou quase sempre ─ faço quando me ponho a perambular pelas sujas e barulhentas ruas de Higienópolis nos fins de tarde, em busca de motivos ou desculpas de inspiração.
No caminho tive de passar em frente à padaria, não tinha jeito, seria impossível desviar, a menos que desse a volta em todo o quarteirão, o que não estava nos meus planos, claro, eram onze e meia, um sol a pino incinerando a cidade a mais de trinta e cinco graus à sombra.
Parei na beira da calçada e estudei o tráfego, fazendo menção de atravessar a rua, esperando não ser notado.
Em vão. Jorge enchia um copo de cerveja diante duma fileira de garrafas vazias. Mesmo voltado para dentro, barrigão descomunal encostado na beira do balcão, ele não perdia nada do que acontecia na rua, pois não desgrudava o olho do espelho que encimava o engradado de pães nos fundos da padaria. Não tive perdão. Jorge saiu à porta e soltou um berro:
─ Vai fugindo não! Vem cá, neném!
Acenei, tentando indicar que tinha um compromisso.
─ Só ela é mais macia que os lençóis da cama! Só ela inebria mais que a glória da fama! Por ela largo a Rosinha e qualquer outra dama. Zé, vê rapidinho mais uma brama!
Jorge proferiu a quadrinha aos brados, todos na rua pararam para escutar e riram. Desisti de atravessar a rua e tomei o rumo da padaria feito um menino obediente.
Jorge era poeta. Dos maus, como você pode ver, mas poeta mesmo assim.
─ Zé, sai mais um copo pro camarada aqui! ─ Jorge bradou em direção aos fundos da padaria onde Zé, no outro balcão, atendia os fregueses de pão e leite.
Ri na direção de Zé, procurando moldar no rosto uma expressão otimista e encorajadora. Ele fez que não me viu, fingindo garatujar na caderneta duma dona que comprava três broas de milho.
Só depois de alguns segundos foi que se dignou a atender o pedido de Jorge. Veio arrastando os pés para o nosso lado e, no caminho, apanhou um copo americano, que botou ao lado duma garrafa vazia de brama à nossa frente. Então dirigiu o olhar para o teto num gesto de resignação, antecipando o padecimento que estava para enfrentar. Inúmeras outras vezes tinha aturado as homéricas bobagens que eu e Jorge perpetrávamos durante nossas formidáveis bebedeiras, num ritual etílico que já adquirira fama em todo o bairro. 
─ É só um copo, juro! ─ exclamei, tentando consolá-lo.
Zé deu as costas e se afastou emburrado.
─ Sonhei que estava caindo naquele poço sem fundo que te falei ontem ─ Jorge choramingou no meu ouvido, enchendo ambos os copos.
─ Não me diga que a fonte criadora secou outra vez! ─ Fingi surpresa, olhando o movimento dos carros na rua.
Jorge perdia a inspiração de hora em hora. E, quando acontecia, chorava como se lhe tivessem tirado a mamadeira à base de malte e lúpulo.
─ Pode rir à vontade ─ ele deu de ombros, simulando indiferença. ─ Não ligo. ─ Ele completou o copo e engoliu a cerveja dum só gole.
─ Tive um dejavu hoje cedo ─ eu disse para tentar animá-lo, mas me arrependi em seguida, pois agora ele ia querer todos os detalhes e não me sentia com forças suficientes para inventar um dejavu que parecesse minimamente convincente.
─ Sério? Como é que foi? ─ Ele se entusiasmou, desenrugando as dobras do rosto para desfazer a máscara de choro. ─ Adoro dejavu. Faz três dias que não tenho um.
─ Nem queira saber ─ respondi desacorçoado.
─ O mesmo crime quase, mas quase cometido mesmo, de sempre?
─ Sem tirar nem pôr.
─ Pobrezito. Mas não desanime. Estou tendo um pressentimento.
Sempre a mesma conversa. Eu falava dos meus dejavus improdutivos, Jorge vinha com seus misteriosos pressentimentos.
─ Não adianta ─ retruquei. ─ Faz quase dois meses que não escrevo nada. Nem consigo mais ligar o computador. Acho que é o fim.
─ Que nada, chapinha! ─ Jorge estalou os dedos na direção de Zé, encomendando outra brama. ─ Você é um privilegiado dentro da raça humana. E cronista, o que é muito mais fácil. Se fosse poeta, aí sim estaria enrascado. Podia passar a vida toda perdido nos mil universos que carrega n'alma. Passava os dias destilando toda a infinita experiência humana gotícula a gotícula, percolando-a em seus próprios sentimentos, exudando a levedura poética invisível que só fermentará se o leitor se der o trabalho de munir-se duma bela tulipa que permita uma espuma branca e cremosa.
Às vezes eu detestava as metáforas etílicas de Jorge.
Zé, agora menos hostil, trouxe a nova cerva, abriu e depositou no balcão. Apanhei a garrafa sofregamente e entornei no copo, atabalhoado, derramando uma grande quantidade do líquido amarelo, espumante e gelado que se esparramou numa larga poça no balcão.
─ Porra, Zé! Desculpe. Foi sem querer.
Zé voltou, agora com um trapo. Enxugou a poça e tornou a se afastar, mas não pareceu aborrecido com o trabalho extra que eu lhe dera.
─ Sabe o que você precisa? ─ Jorge apanhou a garrafa e encheu o próprio copo.
─ Hã ─ eu disse a guisa de resposta, desinteressado.
─ Precisa dum microscópio. Mais: duma luneta. Inspiração na certa.
─ Já tentei. Não tem adiantado muita coisa nos últimos tempos. No começo até que deu um certo barato. Uma vez fiquei até enfeitiçado com os mundinhos invisíveis e insuspeitos que se alastram à nossa volta a todo instante, pensei que dali em diante seria capaz de enxergar a magia por onde olhasse, mas hoje sou um homem de olhar cansado. De tanto querer ser econômico, os oceanos que se encapelavam dentro de mim agora fluem a conta-gotas. Bem, acho que já vou andando. Tenho um compromisso.
Sorvi o restinho de cerveja no fundo do copo e dei um tapinha de despedida no ombro de Jorge. Ele retribuiu e voltou o barrigão para a rua, pondo-se a apreciar o movimento dos carros.
Retomei o rumo da farmácia, inebriado com a cerveja, camiseta encharcada de suor sob a caldeira que fervia na rua, matutando sobre meu beco sem saída. A figura poética que Jorge sugerira me situava como um antípoda, embora igualmente privilegiado. À medida que eu avançava, atravessando a rua, desviando das pessoas, tropeçando nas raízes e buracos da calçada, ia-se formando plausível em minha cabeça a imagem duma gota que repentinamente se agigantava, não sei se já preexistente, congelada anos ou décadas dentro de mim para pender feito caprichosa estalactite no teto mofado da minha cabeça, elevando-se às alturas e depois desabando em uma onda devastadoramente criadora, carregando tudo que encontrasse pela frente, deixando com isso o horizonte do leitor livre de seixos, calhaus e destroços das naufragadas canoas furadas em que às vezes você, leitor, embarca na vida pensando estar a bordo dum transatlântico para um cruzeiro Rio-São Paulo com escala em Belém, sem enxergar outras coisas senão a própria luz, eta ferro.
Quando botei os pés no degrau da farmácia e me aproximei do balcão, Nicinha, a balconista, deliciosa ninfeta que devia estar entrando na casa dos tenros dezessete aninhos ou deliciosas proximidades, veio sorridente e dengosa em minha direção, pulsando libidinosamente os lábios em movimentos faciais quase imperceptíveis para os demais fregueses, ensaiando um sorriso convidativo e obsceno que só ninfetinhas inexperientes de corpo mas herdeiras natas da safadeza são capazes de exibir.
Devo dizer que Nicinha antigamente não costumava dar muita bola para o meu lado e sempre me tratava como mais um freguês em busca de antiácido ou camisinha, ou mesmo com frieza calculada. Até que, certo dia ─ acho que faz uns dois meses ─ ela mudou radicalmente de atitude quando comentei ─ mais ou menos distraído, sem nenhuma intenção cabotina ─ que era escritor, não muito conhecido e nem um pouco reconhecido, mas escritor. E mais: naquele exato dia tinha acabado de fazer um conto em que uma cocotinha (ou sei lá que gíria se dava então a adolescentes lascivas nascidas para enfartar marmanjões tarados e mal-amados feito eu, vendo já assomar no horizonte a desanimadora sombra da meia-idade) quase fora assassinada pelo ex-namorado ciumento.
Enquanto meus olhos seguiam hipnotizados na aproximação de Nicinha, as toscas imagens em minha cabeça se convertiam em tuchos de algodão-doce que se derretiam antes que eu pudesse meter os dentes neles, virando fumaça e subindo para o céu em brancas e desenxabidas nuvens. O fato é, certos cronistas não são capazes de produzir senão ondas de ar que quando muito resultam em reles tufõezinhos aos quais ninguém dá muita bola. Estaria eu entre eles?
Nicinha estava cada vez mais perto, enquanto o crime quase, quase cometido ia crescendo, crescendo e crescendo, aparentemente transformando-se em sua própria razão de ser.
Chegamos, eu e Nicinha, no balcão ao mesmo tempo. De minha parte, me limitei a pousar parcimoniosamente ─ com elegância até ─ quatro dedos da mão direita sobre o tampo de vidro, exatamente encima dumas latinhas de creme facial. Nicinha riu fagueira da minha frustrada tentativa de nonchalance e se debruçou sobre o balcão apoiando o tronco nos cotovelos e abrindo o decote da camisetinha bege cinematograficamente na direção dos meus tristes olhos que não sabiam de que lado ficava o crepúsculo narrativo.
Mesmo sem saber exatamente que direção dar às minhas pobres pupilas, fiz uma inspeção geral no doce e impiedoso corpinho da menina e por um segundo me achei capaz de devorá-la numa só lambida e depois, ventre ninfetamente estufado e entupido, baba colorida de testosterona, gônadas finalmente amortecidas, mente entretida de sonhos felizes e prósperos, ficar meses hibernando como sói acontecer com alguns bichões gulosos de olhos maiores que a barriga a rastejar solertes por este nosso planeta que cruza a Via Láctea sem rumo.
A parte superior das tetinhas ainda em fase de desenvolvimento se arredondou sob o efeito da gravidade, dividindo-se pela bainha do sutiãzinho azul-turquesa ou rosa-choque, não me recordo bem agora. Vendo que eu estudava sonhadoramente os mistérios espetaculares do seu decotezinho, Nicinha remexeu os quadris, produzindo um ligeiro e tenebroso movimento elíptico no tecido da blusa. Gemi, acho.
Ciente da presença de outros fregueses e balconistas, logo me recuperei do transe.
─ Oi ─ pude murmurar.
Ela escancarou o sorriso, disposta a colocar todas as cartas sedutoras no balcão, digo, na mesa, digo... Sei lá.
Nesse momento me lembrei da razão da minha ida à farmácia e percebi que seria injusto comigo mesmo e com meu próprio futuro de galinha descarado se tacasse na bucha que fora ali comprar frascos para coleta de urina.
─ Quero duas dúzias de frascos para urina ─ Não sei como esse paupérrimo recurso de estilística, digno daqueles horrendos seriados americanos, me foi arrancado dos lábios. (Escuto ao longe a galhofa do riso enlatado da claque.) Minhas sobrancelhas saltaram feito molas. Perplexo, olhei Nicinha esperando que ela não tivesse escutado.
─ Há quanto tempo não te vejo por aqui ─ O sorriso dela se espalhou pelo rosto, pela farmácia, pelo dia. (A claque gargalha.) 
─ É que andei meio perdido entre meu quarto e o banheiro ─ ri sem jeito, as palavras diluídas na ebulição dos pensamentos .
Ela aproximou a boquinha da minha orelha esquerda e cochichou um convite vermelho-carmesim de quente e conspiratório:
─ Quer experimentar aquele barato de novo?
Minha boca se encheu d'água com gosto de cerveja, fiquei inebriado de antegozo.
Como não respondi, ela passou suavemente os dedos em meu antebraço que jazia lasso aço asso no balcão e, com o rosto, indicou a saleta onde se aplicavam injeções e se tomavam pressões arteriais.
Olhei disfarçadamente em volta e, assobiando os botões da blusa como quem não quer nada, rumei para a saleta.
Nicinha entrou logo em seguida, trazendo uns frascos num saquinho de papel.
─ Setux, Tussiflex, Tilex ─ Ela olhou na minha direção arreganhando o nariz para fazer dengo. ─ Toma ─ Abriu a palma de uma das mãos enquanto me estendia um copo d'água com a outra.
Havia seis ou sete comprimidos. Enfiei tudo na boca, entornei a água boca adentro e engoli.
─ Quer cheirar um eterzinho? ─ Nicinha colocou um frasco de éter aberto diante do meu nariz.
Dei uma aspirada vagarosa e profunda. Fechei os olhos. Minha cabeça tombou para trás. Me recostei na cadeira. (A claque se mata de rir.)
Comecei a delirar que meu pinto estava começando a endurecer sob os sôfregos afagos de Aurora e que ia tomando consciência do que ocorria ao meu redor e exclamava mentalmente: porra, foi isso que vim fazer aqui! Olhei o teto, meio tantalizado, confuso, atônito, abismado, aturdido, quase perplexo. O que vim fazer aqui mesmo? Então fui me dando conta de que igualmente não sabia a resposta dessa angustiante pergunta. Pensei em dar meia volta, retornar ao apê, o espírito incomodado por uma dúvida vaga, questões atiradas ao vento poluído da avenida Angélica por entes incorpóreos, sem rosto, contraditoriamente sem voz.
Um descomunal ponto de interrogação tomou conta do meu cérebro.
Aos poucos comecei a voltar. Tinha de retomar meu assunto original (ou a falta dele). Não era mais possível levar aquela minha vida sem pé nem cabeça.
Cheguei em casa, corri para o computador. Ah, esse Windows leva uma eternidade para inicializar!
Abri o Outlook, me pus a digitar um e-mail.
A mãezinha, você não imagina como é difícil falar do que não existe. Ou do que não se sabe onde está. Ou do que não se sabe por quê. 
As figuras linguísticas marino-calcáreas que você usava quando eu era criança para falar de seus colegas poetas e romancistas não se aplicam aos cronistas, mãe. Ah, com que facilidade metaforizamos o trabalho desses sujeitos ─ quase não tive trabalho falando em gotas, oceanos, naufrágios. E seria igualmente fácil ter recorrido a rios e lagoas, só para ficar no reino das águas, ou ao mundo animal, com o devido zelo para não associarmos impropriamente poetas e romancistas a certos bichos, sobretudo certos poetas e romancistas.
Cliquei no botão “Enviar”. Agora minha consciência estava tranquila.
De repente, um beep. Fitei a tela, apreensivo. Nova mensagem. Remetente: “Mamãe”.
Abri, torcendo para que não fosse a resposta. Mas os céus mais um vez não me deram trela.
Coitadinho dele. Quer lançar mão dum caso exemplar que certamente facilitará sua compreensão do infortúnio que aflige cronistas em geral. Sempre sonhou ser um cronista distinto. Perceptivo. Mineiríssimo. Missivista.
A velha sabe ser dura quando quer. (Vamos lá claqueiros filhos da puta.)
Sinto que há mais alguém no quarto. Sinto esse alguém ir até a estante ─ que naturalmente está lotada de coletâneas de sapientíssimos cronistas ─ e apanhar um livro qualquer. Ao acaso. Um qualquer.
Exausto, me deito na cama. Embarco. (Ou desembarco?)
Quando acordo me vejo no sofazinho da sala, nas mãos dezenas de frascos de urina. Terá Nicinha me trazido? Desconfio que não. Ela é fraquinha demais. E indiferente. Não se daria sequer o trabalho de chamar uma ambulância mesmo que eu tivesse uma parada cardíaca.
Alguém ou algo respira ao meu lado. Me sobressalto. Não quero olhar, mas olho. Ah, é o Rex. Aliso a cabeça dele, sorrio desanimado.
Vejo na penumbra do quarto o vulto esmagador do assassino do crime quase, mas quase cometido mesmo. Começo a sufocar.
Sou um rapaz gentil e educado, ao contrário de certos cronistas por aí que não perdem a chance de dar chutes no leitor como se este fosse viralata. Não, digníssimo, você não é um desalmado hipócrita, um preguiçoso, um sádico a se divertir do martírio de pobres cronistas às voltas com o infame crime não perpetrado do qual não são culpados mas apenas vítimas.
Estendo o braço para a estante, apanho um livro qualquer do Sabino, abro numa página a esmo. Nessas horas os milagres da aleatoriedade sempre vem em meu socorro.
Já li essas crônicas mais duma vez, algumas sei de cor. Meus olhos pulam para um parágrafo a esmo. Palavrório. Provisório. Ilusório. Aleatório. Desventurados cronistas randômicos! Bendito neologismo que os programadores usam a torto e a direito no admirável, apoplético linguajar que vem introduzindo em nosso castigado vernáculo. Vamos lá: com fé e coragem, me ponho a ler randomicamente.
Sob suplício, vejo que a crônica trata de nada. Nadinha. Tudo no mesmo. Um paradoxal nada que é tudo. Não trata de outra coisa que não o crime quase cometido. Vou para a página do índice. Os temas: parar de fumar, tomar cerveja em casa com a mulher, a lástima de ficar sem empregada. De que mais preciso?
Mesmo ciente de que uma luzinha vermelha se acendeu dentro da minha acrômica cabeça, pondo-me prevenido e predisposto a atirar esta crônica à lata de lixo, mesmo assim, quando o vácuo me ocupa o espírito e pareço incapaz de verter uma só linhazinha que possa remotamente soar interessante, nessas horas sou obrigado a parar tudo e pedir tempo. Faço então o gesto característico dos coaches de basquete: espalmo uma das mãos na horizontal, formando um T com a outra na vertical. Sempre quis copiar essa pantomima, não posso perder a oportunidade.
Tempo.
Estou de saco cheio. Não quero mais tudo mastigado. Será que uma vez sequer você não pode entender as coisas sozinho, prezado leitor?
Os autores lhe paparicam demais. Você ficou enjoado. Eles vivem a lhe enaltecer a autoestima pronunciando asnices como “a, leitor, sei que és inteligente”, “a, leitor, quanta sagacidade a sua”, “meu prezado amigo, quão paciente és em ler estes garranchos desconexos”. E quem deu a partida nessa que se tornou verdadeira mania na literatura nacional? Ora, por acaso você, mesmo sendo tão espertinho coisa e tal, não sabe? Se não sabe, então pasme: quem veio com essa onda de puxassaquismo ignóbil foi o nosso patrono, o criador da ABL. Sim, senhor: ninguém mais, ninguém menos que Machado de Assis!
Quer provas? Então releia Dom Casmurro. (Digo “releia” porque você, sendo um leitor responsável, naturalmente já leu ─ oxalá, ainda na adolescência ─ aquela que é considerada pela crítica especializada a obra-prima do bruxo, ao lado de Brás Cubas.) A deferência do homem às vezes beira a subserviência mais escrachada. A adulação tem início já no parágrafo 130: “Eu, leitor amigo, aceito a teoria do meu velho Marcolini (...)”. E volta à carga no 190: “Não me tenhas por sacrilégio, leitora minha devota”. De novo, no 480: “Se isto vos parecer enfático, desgraçado leitor, (...) nunca pusestes as mãos adolescentes na jovem cabeça de uma ninfa...” E outra vez no 490: “Não mofes dos meus quinze anos, leitor precoce”. E mais uma no 610: “Por outro lado, leitor amigo, nota que eu queria desviar as suspeitas de cima de Capitu”. E pela enésima vez, agora no 700: “Abane a cabeça leitor (...) Chegue a deitar fora este livro, se o tédio já o não obrigou a isso antes tudo é possível”. 
Você bem sabe (não é tão esperto?) que tudo isso, além do mais deslavado crime quase, mas quase cometido mesmo, é a manifestação incontida de servilismo, repugnante e descarada puxassaquice que me enoja e deveria enojar também a você, que tem tamanho senso estético e bom-gosto. Citando ainda Machado e o referido Dom Casmurro: “(...) cousa que não era necessário dizer, mas há leitores tão obtusos, que nada entendem, se lhes não relata tudo e o resto. (...)”
Assim, não posso me furtar a perguntar aos escritores em geral: para que se humilhar diante do leitor qual capachos, seus cães bajuladores? Até quando vão encenar esse simulacro sem fim de elogiar apenas para realçar suas próprias qualidades e retrogressivamente se incharem de orgulho?
Abra os olhos, meu prezado amigo, sobretudo quando, sem razão aparente, lhe elevam a inteligência ou a paciência. O verdadeiro objetivo, como você bem sabe (pois é realmente sagaz), nada mais é que mostrar quanto somos isso ou deixamos de ser aquilo.
Sem querer abusar da sua infinita paciência, concluo afirmando que essas demonstrações de falsa modéstia são desígnios malignos com que os cronistas pretendem minar a boa causa da literatura.
Afinal, por que escrevo? 
Para dizer a verdade, não é da sua conta o por quê. Escrevo porque me dá na telha. E quer saber por que esta crônica se chama “Prezado leitor”? Pois então lhe explico: porque dou às minhas crônicas os títulos que me aprouverem. Se a tivesse batizado de “Ao leitor, verdadeira anta que me dá nos nervos”, a mim estaria igualmente satisfatório. Quem sabe a próxima se chamará assim? Você vai fazer o quê? Quer decidir no muque? Venha! Estou esperando. Ah, como espero.
(A claque ri.)