Ninguém acaba c'o Brasil


Literalidades


(resumo da história brasileira recente)

Getúlio, empunhando a pistola e mirando contra o peito:
— Acabo com meu coração e com o Brasil. Pá...!

Juscelino, vendo que Getúlio não lograra seu intento:
— Acabo com o Brasil, mas construo uma cidade futurista e inóspita no meio do nada, trago umas fabricazinhas de carro pro país que é pra caipirada se divertir e deixo uma dívida impagável pros brasileiros até a milésima geração...

Jânio, vendo que Juscelino não lograra seu intento:
— Acrescento uns bilhõezinhos à dívida deixada pelo Juscelino, acabo com o biquini, com a linguagem chula, com a estabilidade republicana, com o Brasil e com esta garrafa de excelente malte escocês e depois vou ser presidente da Vila Maria.

Jango, vendo que Jânio não lograra seu intento:
— Acrescento uns bilhõezinhos à dívida deixada pelo Jânio, acabo com os setores agrário, bancário, fiscal, educacional e eleitoral e depois com o Brasil.

Governos milicos, vendo que Jango não lograra seu intento:
— Fazemos a maior dívida externa do planeta só para aumentar a dívida deixada por Juscelino, Jânio e Jango e acabamos com a democracia e com o Brasil e com quem quer que queira nos impedir de acabar com o Brasil.

Sarney, vendo que os milicos não lograram seu intento:
— Agora que já acabei com o Maranhão, aumento uns bilhõezinhos na dívida deixada por meus antecessores, vou tentar acabar com o Brasil. Se não conseguir, vou escrever uns garranchos aí pra entrar na academia brasileira de tetras. Assim, pelo menos acabo com o que sobrou da literatura brasileira.

Collor, vendo que Sarney não lograra seu intento:
— Aumento a dívida brasileira enquanto ando de jetski, piloto caça, passo aquilo roxo na minha cunhada e nos brasileiros, dou uma cheirada na farinha, inscrevo a Zélia na história, acabo com a poupança, com o Brasil, com os brasileiros e com qualquer coisa que se mova.

— Itamar, vendo que Collor não lograra seu intento:
Vou pondo mais uns bilhãozinho na dívida do País e me engraçando com moça sem calcinha, acabando com o Brasil e depois acabo numa embaixada qualquer aí.

FHC, vendo que Itamar não lograra seu intento:
— Esqueço o que escrevi mas não esqueço de aumentar a dívida do povo brasileiro, engravido umas jornalistas fascinadas pelo poder e acabo com as empresas públicas, com a lâmpada elétrica e com o Brasil, fico conhecendo cada aeroporto desse mundão e ainda ganho uma comenda de honoris causa na Universidade da Martinica.

Lula, vendo que FHC não lograra seu intento:
— Provo aos ricaços que pode deixá que o petê vai quadruplicar a dívida deixada pelo FH, dou uma grana preta pra Rede Globo  me promover e não falir, compro um aviãzinho pra conhecê esse mundão afora, deixo a Marisa fazê um canteiro no Palácio, enrico meus rebento, dou aquela graninha pros Odebrecht, construo porto em Cuba e estrada na Venezuela e no Peru e na Bolívia e numa penca de países da África, acabo com a esperança nas esquerdas, acabo com o Brasil e, se o Trump bobear, o Toffoli acaba me pondo na Casa Branca.

Presidenta Dilma, vendo que Lula não lograra seu intento:
— Ói que incremento a dívida deixada pelo presidente Lula e garanto o respeito ao ET de Varginha, saúdo a maior conquista do Brasil, a mandioca, homenageio a bola, símbolo da nossa evolução das mulheres sapiens, digo que quem ganhar ou quem perder nem quem ganhar nem quem perder, vai ganhar ou perder, vai todo mundo perder, estoco aí uns quinze caminhão de vento pra alimentar a Eletrobrás, gasto uns bilhão num trem-bala que num sai do papel, e aí não coloco uma meta, vou é deixar uma meta aberta e quando a gente atingir a meta, nóis dobra a meta, tá sabendo?

Marcela Temer, vendo que Getúlio, Juscelino, Jânio, Jango, milicos, Sarney, Collor, Itamar, FHC, Lula e Dilma LOGRARAM seu intento:

— Putz, Michel! Acabaro c’o Brasil!



É só uma questão de ser sozinho

Eis um textículo que escrevi em 2012. Muitos deles valem valem presença em qualquer coletânea literária mas este é soberbo pelo tamanho reduzido, pelas implicações, pelas evocações insaciadas. A humildade que vá à merda. Escrevo para poucos.

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Ela abriu seu caderno (escolar?), me mostrando um texto escrito à mão.
Não sei se era um poema. Embora estivesse em forma de versos.
Uns oito ou dez versos.
Que li instantaneamente.
Terminava de repente.
Sem um desfecho.
Sem terminar.
Prometendo uma promessa que não poderia ser cumprida.
Abrindo uma ferida sem possibilidade de cura.
Preciso dum fim, pensei.
Preciso de mais, gemi.
Então, tomando o caderno das minhas mãos, ela se dispôs a procurar o restante.
E enquanto inspecionava página por página, em quase frenesi, meus olhos espionavam, em algum lugar lá fora, cenas que se criavam aleatórias com a finalidade de me consolar.
E enquanto ela buscava o desfecho de que eu precisava, meus olhos viajavam sonhadores por um mundo que não conheci.
"Não está aqui", ela disse, decepcionada.
"Onde poderá estar? Não posso ficar em suspenso assim."
"Pode estar em qualquer lugar".
E ela se foi, não necessariamente embora, se foi simplesmente, apenas se foi.
E me dei conta de que estava perdido como nunca estive antes.
E, com o laivo de lucidez que ainda me sobrava, segui pela rua tentando me orientar.
É por aqui em algum lugar, lembro que pensei.
Sim. Devo estar perto.
Minha casa fica daqueles lados, atrás desse morro.
Ou então é por ali, depois daquela curva.
Pois escuto minha música ao longe. Sinal de que estou no caminho certo.
Minha música, não a compõem abelhas venenosamente frustradas por não poder fazer mel.
Minha música, não a compõem anjos que se suicidam, incapazes de perpetrar minha ascenção.
Não a compõem entes, espíritos, crianças, ratos ou vermes estarrecidos ante a repentina percepção da própria inutilidade.

Se aceitar ser...

Se aceitar ser musa
minha, me comprometo a
aspirar só à imortalidade
do meu querer
reconhecendo que em breve
serei esquecido
me conformando com 
a sua ficção

Deitado insone sem saída, 
garanto nunca exigir seus
pensamentos nem registrar
meus toscos versos
em teu louvor em vão

Deixarei os sonhos meus
se desprendendo, faíscas 
incandescentes, brotando 
bolhinhas de sabão, ascendendo
ao teto a explodir em branca 
espuma seca que derramará sua 
névoa no véu da minha noite

Prometo enfim condenar-me a 
renunciar por todo o sempre ao 
teu cheiro e à tua boca, ao teu 
olhar e tuas palavras e nunca 
te chamar e nunca me queixar
Apenas suspirar

Memórias Livres do Cárcere Químico, Enfim VII

[Your Name Here] está cansada de criaturas sem imaginação que a chamam de anjo, eu sei.

Pois, sendo-o desde o nascimento, chegou a este mundo trazendo já a experiência divina, a sabedoria dos que vêm do paraíso. 

Como assim, você poderá estranhar, chegou a este mundo? Quer dizer que há outros? Que mundos são esses? Onde ficam?

[Your Name Here] fica entediada quando lhe fazem tantas perguntas tolas. Não vê motivo para respondê-las. Sempre soube, desde o início, que marmanjos pobres de imaginação cairiam a seus pés e, assoberbados de beleza, balbuciariam trocadilhos pueris, dariam risinhos constrangidos.

Perguntas há que não se fazem. Para estas, respostas são inúteis. Como sei? Por [Your Name Here] não tenho o direito de confessar.

Memórias Livres do Cárcere Químico, Enfim VI

Tenho umas ideias, só rezo pra não resvalar pro bacharelismo mestre-escola.

A introspecção (introspeção? maldita reforma) na narrativa é tendência nascida com o poderoso avanço tecnológico do século 19, ao mesmo tempo em que novas teorias sobre o papel do homem (e, às vezes, da mulher também) no planeta botavam do avesso as visões em voga. As principais (teorias) foram o darwinismo e o marxismo, que produziram epilépticas (ou...?) convulsões na cultura em geral e na arte em particular. Com o primeiro o homem (e a mulher...) se distanciou ainda mais de deus. Com o segundo começou a sacar que nem tudo que painho perorava na Casa Grande era lei.

Não por coincidência, começaram a perder sentido então o figurativismo nas artes plásticas (que adiantava concorrer com as câmaras fotográficas?) e as longas, hiperdetalhistas descrições do mundo externo. Por isso hoje em dia os retratos realistas emboloram na feirinha de artesanato da Praça da República. Por isso também é tão difícil ler, por exemplo, Germinal, de Zola, que levava dois dias pra explicar que Ethienne estava doente de tanto aspirar pó de carvão lá no fundo da mina, ou Educação Sentimental, de Flaubert, em que o gorducho escritor gastava 8 ps. para descrever o vestido da sra. Arnoux, por quem Frédéric Moreau caiu de quatro.

Como era de esperar, as proezas da técnica acabaram por parir um mundinho besta, vazio e sem-graça em seu materialismo tacanho. Deus foi perdendo ibope, a religiosidade virou questão "de foro pessoal" (essa é ótima), o espiritualismo foi pro saco. Com a perda do mundo, grande parte dos artistas (escritores inclusos) deram de buscar sentidos dentro da própria cachola e falar sozinhos feito bobos. 

Foi nesse contexto, hehehe, que surgiram cabras como, entre uma cacetada de outros, Hemingway, por cuja idolatria etílica alimento especial idolatria. O cachaceiro Ernest, dono do mais prodigioso fígado da literatura mundial, se recusou a filosofar pras paredes e zarpou Europa afora em busca do heroísmo perdido, metendo o peito na Primeira Guerra, vociferando por mais sangue e mais Asti no copo nas praças de touros espanholas e desenvolvendo seu fantástico "estilo da omissão", em que usava ausências para criar uma sensação de profundidade. Entre um conto e outro e um gole e outro, Hem tirava sua Luger e destroçava cabeças de galinhas, como diz Salinger sobre o encontro que ambos tiveram. Só que a crítica daquele tempo dava muito mais bola pra Fitzgerald e então Hemingway tirou uma do tamanho do piu-piu de Fitz em Paris é uma festa. Ainda hoje tem gente que torce o nariz pra Hem. Okay, desafio esses críticos a escreverem com um décimo do talento do homem. Resumindo, os dois e vários de seus contemporâneos acabaram por estabelecer e consagrar o heroísmo do ordinário.

Bem, então apareceram os estruturalistas, que acabaram com a farra de misturar vida e obra, até serem massacrados pelo genialérrimo grego Castoriadis. Mas aí o mal já estava feito. Inteleca francês é uma praga.

Não, não vi


Literalidades

Estou confortavelmente sentado em minha poltrona na varanda. Já está pela metade esta aprazível manhã de outono, a menos ameaçadora das estações. Nas mãos — um tanto trêmulas, devo notar — tenho um pequeno livro com algumas das pitorescas fábulas de Oscar Wilde. Acho-me exatamente no trecho em que a lagartixa esverdeada, a borboleta e a margarida perguntam-se por que chora o estudante.
Nisso pousa um bem-te-vi na balaustrada, entre as várias espécies de samambaias cyatheaceae, dicksoniaceae e polypodiaceae que, pendentes de ganchos com fios dourados e vermelhos, adornam cada canto do meu jardim.
A ave faz um pequeno rebuliço entre as folhas, querendo chamar minha atenção. Reluto em olhar para o bem-te-vi, pois a linha em que estou na fábula não é outra senão aquela em que a lagartixa faz troça das lágrimas do estudante e seu motivo banal.
— Bem-te-vi! — ele entoa implacável, como se fosse dotado dum timing estratégico.
Exalo o ar dos pulmões, irritado com a interrupção. Fecho o livro de supetão, produzindo um estampido abafado e calando o glorioso diálogo entre o estudante, a lagartixa, a borbola e a margarida.
— Bem que viu o que, meu amigo? — Ergo os olhos para ele e bufo novamente. — As árvores, os sabiás, o telhado, as nuvens? Que foi que você viu?
— Bem-te-vi! — repete o bestinha, revirando mimicamente os olhos atônitos, semi-girando o pescoço para ampliar o campo de visão feito um radar acelerado, inspecionando-me desconfiado com aquele olharzinho lateral.
— Fale duma vez que foi que você viu! — Aperto os lábios, impaciente. — A poluição do ar? As ratazanas que tomaram conta do forro da casa? Os meninos da vizinhança fazendo troca-troca? A Soninha ali da esquina pagando um boquete para o namorado? Que foi que você viu, sua antinha alada?
— Bem-te-vi! Bem-te-vi! — sapeca o miserável em resposta, armando, sacudindo e recolhendo as asas, auscultando os arredores com alarme ainda mais agudo. — Bem-te-vi! Bem-te-vi!
— Pelo amor dos oculistas, viu o quê? — vocifero, deixando definitivamente o fleuma com que em geral enfrento problemas imprevistos. Espalmo as duas mãos na direção do solerte e reitero: — Doentes abandonados nas portas dos hospitais? Cadáveres insepultos nas quebradas da cidade? Presos pendurados em paus-de-arara nas delegacias? Políticos despachando dólares para as ilhas Caimã? Desembucha logo, maldição matutina!
— Bem-te-vi! Bem-te-vi! Bem-te-vi! Bem-te-vi!
Atiro de lado o livro e me ponho em pé. Dou três passos duros e ameaçadores na direção do infame. O pássaro estufa o peito, entreabre as asas em menção de alerta, mas não foge. Paro e cerro os punhos, fulo.
— Bem-te-vi! Bem-te-vi! Bem-te-vi! Bem-te-vi! Bem-te-vi! Bem-te-vi! Bem-te-vi! Bem-te-vi! — ele desafia.
Tampo os ouvidos procurando evitar a toada medonha. Explodo:
— Viu o que, demônio? Um furacão chegando? A terra se abrindo? A tempestade definitiva? O fim do mundo?
— Bem-te-vi! Bem-te-vi! Bem-te-vi! Bem-te-vi! Bem-te-vi! Bem-te-vi! Bem-te-vi! Bem-te-vi! Bem-te-vi! Bem-te-vi! Bem-te-vi! Bem-te-vi! Bem-te-vi! Bem-te-vi! Bem-te-vi! Bem-te-vi!
Atordoado com o cântico ensandecido e ainda com a fábula de Wilde escorrendo pelos poucos neurônios que me restam depois de todos esses anos de especulações vãs, olho em torno do jardim buscando um espinho. Decepcionado, lembro tardiamente que não cultivo — jamais cultivei — rosas.
— Bem-te-vi!
— Espera, que já te ensino — murmuro não para ele mas para mim mesmo, já alucinado pelo assobio que me estremece a alma e me encharca a camisa de suor e me gela o estômago. Dou meia volta e entro em casa, deixando o atazanado a martelar o hino infernal.
— Bem-te-vi!
Volto alguns minutos depois, trazendo a caixinha aveludada que ganhei de meu pai ainda na infância. Retiro cuidadosamente a tampa e pinço, entre o polegar e o indicador, o alfinete de ouro. Para experimentar a eficácia da ponta do alfinete, lanceto ligeiramente a ponta de um dedo da outra mão e um furinho se abre. Ui! Uma gotícula de sangue brota da pele e pinga no piso de cerâmica da varanda.
— Bem-te-vi!
— Agora sei o que você viu — digo mansinho, me aproximando.
Num gesto rápido e certeiro — fruto do treino de longos anos acaçapando pernilongos no ar —, minha mão esquerda dá um bote e engolfa o atarantado. Meu punho se fecha firme em torno dele. Esse não me escapa.
Ele vira o bico para a entrada da varanda, de modo a fixar o olho direito em mim. Estranhamente, não se debate na tentativa de escapar.
Com o alfinete ainda pinçado entre os dedos, aproximo as duas mãos e espeto. Primeiro, o direito. Depois, o esquerdo. Ele não resiste. Lanço o braço no ar e abro o punho. Ele tenta um voo rasteiro, até colidir com o muro onde vicejam meus brincos-de-princesa


O arauto


Literalidades


O rapaz entra no boteco, mal olha para o balconista vai logo exigindo:
— Me dá uma pinga aí. E depressa. Pois sou poeta!
O homem atrás do balcão, lavando alguns copos na pia, enxagua as mãos e seca-as num pano encardido. Solta o pano, olha enviesado para o rapaz e contrafeito retruca:
— Tem semancol não? Não se vai falando assim sem mais nem menos “sou poeta”. Tremenda falta de pudor, seu. Vê aquele sujeito ali? — ele aponta um tipo tomando cerveja no balcão, ar nem solerte nem indiferente nem prazeroso. — Esse não é poeta. Nem por isso chega dizendo “devagar, pois não sou poeta”. Questão de sensibilidade. Você, sendo poeta, devia saber disso.
— Eu sei — diz o rapaz. — É que às vezes me esqueço.
O balconista meneia a cabeça num gesto de censura e o rapaz emenda:
— A, é verdade. Não devia me esquecer. Nem me lembrar. É que sou poeta.
O outro faz novamente não com a cabeça, agora com mais vigor:
— Não diga que é poeta. Já falei. Está vendo aquele ali? — ele indica outro sujeito ao balcão, este tomando um cafezinho. — Ao contrário do outro, esse aí é poeta. Não, não está escrito na testa nem se distingue pelo jeito de se recostar no balcão. Vê-se, simplesmente. Não me pergunte como sei. Só posso dizer que sei. É algo indefinível, você sabe. Você sabe, não?
— Acho que sei.
— Sabe, sim. Reconhecer um poeta é tão difícil quanto reconhecer a poesia. Às vezes, mais. O mundo está cheio de exemplos. Veja o Drummond. Quem, olhando aquele homúnculo a primeira vez e não sabendo tratar-se do Drummond, diria que era poeta? Poucos. A maioria pensaria estar diante de um funcionário público (o que era fato), dentista ou caixeiro viajante (pois, você também sabe, na época do Drummond existiam caixeiros viajantes. Mas também não me pergunte que fim deram, pois aí já é especular demais da conta). E o Oswald de Andrade, que profissão você lhe daria só de olhar?
— Açougueiro.
— Isso aí. Vejo que temos bastante em comum, embora eu seja balconista de bar e você, poeta. E o Mário de Andrade, tinha cara de quê?
— Esse é fácil — o rapaz se anima. — Professor de música.
— O que também é fato, claro. Murilo Mendes?
— Padre.
— Bandeira?
— Empresário.
— Vinícius?
— Dono de padaria.
— Êpa. Essa doeu. Pessoa?
— Esse tava na cara que era poeta.
— É. Também acho. Mas…
— E a minha pinga? Sai ou não sai?
— Já vai — o balconista ergue uma das mãos, pedindo paciência. — Às vezes poetas também precisam esperar, como nós mortais.
O rapaz, que a essa altura já tinha sentado num tamborete, apóia um cotovelo no balcão e com o punho cerrado e ar resignado, segura a cabeça. O balconista prossegue: 
— Bem, onde estávamos? A! Falávamos daquele sujeito ali bebericando cafezinho. É poeta, mas sabe que isso não lhe dá o direito de vir exigindo isso ou aquilo, pois sou aquil'outro. Chega humildezinho, compenetrado, atento a algo que lhe passa dentro d'alma. Eu, do meu lado, fico na minha, assuntando, esperando enquanto a poeira cósmica abaixa dentro dele. De repente, ainda distraído, ele, com simplicidade, pede, um cafezinho, por favor. Para mim, basta. Sei que estou diante de um. Com o tempo aprendi a reconhecer. Hoje vejo de longe. Até de costas. É só um botar os pés aí na porta, já penso, olha outro aí. Então sirvo e fico aqui no meu canto, observando discreto. Sei que ele sabe que observo, pois, claro, é poeta e, ao que consta, poetas sabem tudo. Mas tem outra coisa que me admira nesses sujeitos. O estoicismo. Pombas! penso comigo (e você, poeta, não importa se bom ou não, há de concordar que só posso pensar comigo e com mais ninguém), o sujeito tem uma sensibilidade de outro planeta, sofre todas as dores deste mundo e de outros que possam existir por aí, vive cada segundo a se indagar, testando a si e aos outros, especulando desconfiado de todas as verdades que já deveriam ser certezas mas que só se tornam mais dúbias a cada dia, matutando uma ideazinha constante que de repente aflora aqui e ali no inefável teatro da cabeça lírica, torcendo para que a ideazinha venha de mãos dadas com a palavra certa, a palavra justa, quase implorando aos céus só mais esta palavrinha, senhor, para que formem um par indissolúvel que reluza feito a peróla rara na aurífera corrente da afinidade, tão espetacular afinidade que as testemunhas (pois sempre as há) desse encontro do pensamento com a palavra certa, extasiadas, comovidas, buscam dentro de si uma forma para definir a magia mas nada logram senão elogios arrebatados como puxa! quanta harmonia. Como pode alguém ter idéia tão singular e expressá-la com tamanha propriedade? O mais interessante, porém, é que esses pensamentos não se geram assim tão cristalinamente e aí! aí está o segredo! O desprevenido leitor põe os olhos no versinho ali no papel, entre distraído e impaciente, irresoluto se vai se meter ou não na empreitada de ler o poema até o fim, mas se já chegou até ali é porque está carente dum pouco de poesia, não sabe por que mas está (a, quanta gente está), e meio a contragosto vai avançando, querendo saltar alguns versos mas intimado a querer ler, afinal precisa dum bálsamo, precisa se revoltar, se conformar, não sabe o quê mas está necessitado... De repente, se o que tem diante de si é de fato poesia, se as ideazinhas do poeta estão de fato casadas em comunhão de bens com as palavras, o sujeito começa a beber cada uma delas como se fosse a pinga que lhe vai redimir todos os sofrimentos. Por falar nisso, tome lá a sua. — O balconista apanha uma garrafa de 51, entorna-a sobre um copo e pacientemente deixa gotejar uma dose de cachaça, sob o olhar sôfrego do rapaz. — Da próxima vez, já sabe: a palavra justa. Tenho horror ao supérfluo. Além do mais, todos os que chegam pedindo uma pinga feito você são poetas. Eu sei. Não precisa anunciar.



Casa cidade


Entre minha cidade,
A cidade que é minha,
E a cidade vizinha
Há outra

Cidade em que entre uma 
Rua e outra há outra e
Entre uma casa e outra
Há outra casa que é 
Minha à casa vizinha.


Beleza em extinção

Poucas bobagens são mais patentes que a discussão sobre o aquecimento do planeta.

Progressistas lamentam o lento, inexorável fim da Terra, conservadores batem o pé (ou será a pata?) que é balela. Esquerdistas dizem que a destruição resulta do capitalismo selvagem, direitistas clamam que tudo não passa de mais uma batalha ideológica.

Debate inócuo, por supuesto.

O armagedão virá cedo ou bidu, para mim não importa quando. O que me interessa é a destruição possível e passível de ser vista e sentida no curso da minha vida, overdose de testemunho para este espécime deveras fraco, indigno da raça.

Dei um google nas espécies recém extintas e em vias de extinção, em anos, sei lá, décadas, séculos, sobrarão apenas cachorros e gatos e olhe lá. Não tem pra ninguém, de grandes mamíferos, baleia azul, rinocerontes, jacarés, elefantes, gorilas, tigres, leões, a pequenos, macacos, lêmures, lobos, raposas, gazelas, morcegos, e cobras, lagartos e corujas, albatrozes, falcões,e tudo que é ave e tudo que é molusco e tudo que é peixe e tudo que é anfíbio, e tudo que é inseto e tudo que é réptil, e tudo que é crustáceo, o extermínio é geral, democrático, irrecorrível. 

E como imaginar um mundo sem a grande, a linda, a fabulosa Floresta Amazônica? E mares e oceanos sem corais nem floras, movendo ao redor do globo uma borra espumosa, melequenta, fedida de que nem sequer o sal será capaz de se livrar?

Que a espécie humana talvez seja a última a soçobrar mas soçobrará inelutavelmente, não precisa grande inteligência para deduzir.

Que imensa merda que a temperatura vai subindo ou descendo. "Pensadores" como Pondé e seus guias práticos para pensar o mundo talvez tenham a lamentar apenas o fim dos zoos pelo mundo. Até gosto do Pondé. O único probleminha é que, para um filósofo que se quer esperto, ele limita o patos humano ao simples reconhecimento da animalidade que trazemos aqui no fundo. Quem dera.

Vou correndo regar minha samambaia.


Outro cafezinho envenenado

Deito, durmo.

Para a vida passar rápido.
Quanto tempo leva a noite?
Nada, se você dorme.
Acordo e durmo.
Para a vida passar logo.
Quantas eternidades me cabe esperar?
A epopéia até o banheiro.

A mijada. (Quantos decalitros de urina carrego dentro de mim? Parece a primeira vez que mijo nesta vida.)

(Cocô, evito. Pois não existe a escatologia no mundo lírico. Preciso me concentrar no divino, na ascese, nas coisas que estão além. Quão além estão certas coisas.)

(E, quando não posso evitar, faço de madrugada enquanto o mundo está deitado. Que inveja dos que dormem.)

(Lavar o rosto, não lavo. Pra quê? Pra quem? Eis as perguntas que eu faria, se tivesse a quem fazê-las. Não há ninguém por aqui que me diga que estou com remela nos olhos.)

Do banheiro à cozinha, via-sacra. Não fizeram atalhos nesta casa? Malditos portugueses e sua cultura do atraso e os mil dias que levaram pra descobrir este país dos infernos.

Boto a caneca debaixo do filtro, por que esta água não desaba do alto qual tempestade em vez de pingar como se marcasse os anos na folhinha da parede? Um dedo d'água é tudo que espero. Virarei fóssil com esta caneca na mão? Serei exposto na Bienal das Artes?

Agora a fervura. Milagre, acendedor automático. Abençoados americanos que me poupam de esfregar dois pauzinhos. Se dependesse de mim, a humanidade não dominaria o fogo. Viveríamos todos na praia de Ipanema esperando a eterna passada daquela garota.

Libera tuas labaredas, boca dos infernos! Ferve duma vez, líquido teimoso! Incendeia o ar, as paredes, o telhado e as nuvens, extermina o tempo na tua fogueira, enevoa o dia em teu vapor.

Não posso acreditar -- serão borbulhas que ouço? A água está pronta? Tenho finalmente alguma coisa pronta na minha vida? Só acredito me queimando.

Próximo passo -- por que nos obrigam a andar? Seria tão bom se fôssemos todos parados --, próximo passo: ir até o armário, abrir a portinhola, apanhar o nescafé, desenroscar a tampa (prendendo a respiração pra não cheirar o pó), abrir a gaveta dos talheres, pinçar uma colherinha, extrair duas vezes, despejar, adoçar, mexer, experimentar, puta merda, quero apenas um cafezinho, não ir a Marte.

Chega a fatídica hora: descer até o escritório.

Não, não se dá a largada simplesmente. Requer preparação. É uma maratona. Preciso me concentrar. São quase 30 metros.

Tem dia, logro hibernar antes de largar e venço a competição sonâmbulo. Nem sempre me é dada esta dádiva. Não mantenho boas relações com deus.

E, quando logro sonambular, vupt! já estou diante do monitor ao recobrar a consciência. Obrigado, deus! Deus lhe pague.

Mas de que me adianta ter atravessado o Rubicão literalmente num fechar e abrir de olhos, se agora tenho de aguardar o Windows inicializar? Bill, tende piedade de mim.

Aperto o maldito botãozinho que já está quase quebrado de tanta raiva com que aperto o maldito botãozinho. Por que os americanos não inventam um Nescawindows instantâneo?

Enquanto a luzinha não bruxuleia na tela, acendo um Marlboro, que se consome em 3 ou 4 sôfregas, impacientes, fulminantes baforadas. Fuço em minha Estante para Emergências, que mantenho ao lado do computador, apanho O jogador, o da vez. No desespero da manhã paralisada, só Dostô pra me acalmar. Leio umas 3 páginas e o hinozinho do Windows anuncia que o fantástico mundo cibernético está enfim ao alcance do meu mouse. Precisava quase 2 minutos pra isso?

Acho que finalmente estou chegando. Só falta executar o Opera, digitar o endereço do blog, entrar com o email e o password (não posso deixar meus dados sigilosos na memória do programa. Tá cheio de bisbilhoteiro por aí.)

Eis que a tela amarronzada se descortina diante dos meus fatigados olhos. Eis aqui minha carinha barbuda. Olha, até que sou bem apanhado.

Corro pra ver se tem comentário.

Ontem à noite eram 57 comentários. Agora são 56. Apagaram um. Por que essa gente é tão indecisa?

Não! Me enganei. São 58. Uma alma caridosa deixou um comentário. Deus lhe pague, meu bom samaritano.

Clico no ícone. Anda logo, seu Opera molenga.

Não precisa ser simpático. Ou autêntico. Tudo que peço é, só não diga que não sei escrever.

E não precisa mais de dez linhas. Umas quatro bastam. Ou duas. Ou mesmo uma. Sei que hoje em dia estão todos apressados. Não quero abusar da paciência dos navegantes.

Abro. É apenas um smiley.

Meus dedos se crispam, apertando o Dostô como se fora um crucifixo. Nessas horas, lamento não ser crente. Até ontem à noite, me achava um agnóstico.

Um smiley? Quero rir. Mas, como diz a Dilma, isso parece integralmente meio impossível.

O jeito é reler minha última postagem. Escrevi ontem e já cheira a bolor?

Bom, pelo menos fede. A maioria não me cheira nem fede. A maioria até que me constrange.

Me sinto tão mal-amado.

Rompe-tímpanos

Para Paulo Francis, Pavarotti não passava (puta porca madosca) dum asno barulhento. 

Pensando mal, se você escuta El adiós a la vida com o carcamano gigante, parece tudo haver, no dizer de dez entre dez analfabetos digitais. 

E, olha, Francis era uma autoridade, vivia perto da Broadway e conhecia tudo e todos literalmente ao vivo, provavelmente viu Maria Callas de perto, reconhecia o talento único, inigualável de Caruso.

Pavarotti tinha de concorrer com o rock, christ.

Sei que os adoradores de barulho atuais vão ficar surpresos. E obviamente praticamente nasceram semissurdos. São incapazes de captar as nuances dum tenor verdadeiro ou duma soprano na acepção da, ugh, palavra.

Que dirá da própria, my dear god?

Verônica

chega de poesia
sonsa, leda,
besta, fria
amanhã ao

mal raiar o dia
deletarei todos
meus posts
e do teu rosto

nas tuas fotos
e promessas
em tua boca
não haverá

mais alegria