Ugh ou sorriso engolido em seco

Aquele vizinho gostava de escutar música erudita. Não porque fosse erudito ele mesmo. Estava mais pra diletante. Esnobe não era. Quer dizer, era. Mas não muito.
O problema é que os vizinhos daquele vizinho não sabiam que tinham um vizinho diletante, muito menos que o mesmo — ninguém mais senão o próprio — se amarrava em música erudita.
Para aquele vizinho, escutar, digamos, um concerto de Brandenburgo, um noturno ou uma mazurca, uma sonata ou mesmo uma abertura operística ou uma ária — não esquecendo um trecho de Tristão e Isolda ou uma fuga de Haydn —, mais do que um prosaico ato de fruição estética, era uma verdadeira cerimônia cosmológica, ritual sagrado que às vezes incluía requintes como uísque importado em copo raso de cristal com gelo de água também importada, um livro de Rilke ou outro gênio germânico à mão (ou pelo menos ao alcance dos olhos, só para sentir-se seguro e mesmo para mostrar aos espíritos alemães que ele não estava para brincadeira).
Naquela manhã de domingo, aquele vizinho, como fazia todas as manhãs de domingo, saiu para o jardim e deu início aos preparativos de mais uma sessão de "contato com a arte superior", como gostava de pensar. Selecionou meia dúzia de cedês de sua estupenda coleção da chamada música clássica e depositou-os cuidadosamente ao lado das caixas quadrifônicas. Abriu o porta-gelo e deixou cair exatamente três pedras dentro do copo, divertindo-se com o suave tilintar produzido pelo encontro com o cristal. Com um sorriso indefinível nos lábios, apanhou a garrafa do escocês legítimo, desatarraxou a tampa, aproximou o bico da garrafa das narinas para sentir o buquê, apanhou o copo, elevando-o à frente dos olhos embevecidos, lado a lado com a garrafa, e mediu-os como que imaginando um concurso de beleza entre Dionísio e Baco. Quando pareceu dar-se por satisfeito, emborcou esta última, zelosamente despejando sobre o gelo três metódicos dedos de "chá de malte", como gostava de chamar o elixir.
Assim munido, copo na mão direita, livro na esquerda, rumou para o centro do gramado. Depositou os valiosos apetrechos sobre uma mesinha de madeira e instalou-se confortavelmente em sua cadeira preferida. Fechou os olhos e prestou atenção nos sons do jardim.
Não, não era um jardim. Era um pedaço encantado do mundo, especialmente desenhado para os que são sensíveis, com leves pinceladas de rosas, petúnias, gladíolos e tulipas multicores aqui e ali, hibiscos, alamandas e lágrimas-de-cristo de todas as cores, pitangueiras, amoreiras e limoeiros de todos os cheiros — cada elemento formando um todo mágico de perfumes e recantos que, por sua vez, escondiam um pequeno universo de maviosa harmonia. De tão belo, o jardim amiúde era objeto de inveja dos seus vizinhos, que sequer tinham um jardim, muito menos um paradisíaco feito o seu.
Em estado de graça com o chilrear dos pássaros e o farfalhar das folhas, abriu os olhos, mas continuou sem enxergar, pois as coisas lá fora não existiam. Seu mundo agora era uma fonte que brotava de dentro, deixando-o alheio, arrebatado até a raiz dos cabelos (que, por força da idade, já escasseavam no alto da cabeça).
Aprumou-se elegantemente na cadeira — pois, sabia, mesmo embevecido cumpria manter a compostura. Como sempre, sentiu orgulho do modo como sempre soubera combinar senso artístico e disciplina. "Enfim pronto", pensaria se estivesse em poder dos próprios sentidos. Mas, também como sempre, não estava. Foi capaz apenas de abrir o dedo indicador da mão direita e aproximá-lo da tecla play do toca-cedê. Pousou a ponta do dedo no aparelho, fruiu pela enésima vez o enlevo do pré-êxtase... de repente, em alguma das casas nas proximidades, explodiu um acorde de guitarra elétrica. E xitãozinhoexororó imperou triunfante.

Quando nem onde

Vou subindo a avenida
Contra o vento soprando
De outras esquinas quebradas
No passado

Com que então Neil
Armstrong foi até a Lua
E voltou à Terra sem
Conhecer o lado escuro
do nosso satélite

Subindo a avenida, posso
Dizer que entendo Neil
Armstrong e para entender
Neil Armstrong não tive
De ir tão longe

Subindo a avenida
Subindo a avenida é
Tudo que sou
Sem olhar os que
Descem
Nem cogitar pelos
que vão na calçada
Oposta

Me lembro vagamente
dos que vão ao outro
Lado do mundo
Ao outro lado do rio
E me reconforto que
Não pretendo ir sequer
Ao outro lado de mim

Onde estão todos?

Não se angustie.


Todos estão onde todos estão.

(Que é que você acha de eu encerrar esta postagem exatamente aqui? Se o fizesse, você ficaria sem entendê-la mas eu, em contrapartida, faria alta literatura, embora para consumo estritamente pessoal, e, de minha parte, estaríamos conversados e, de sua parte, seu olhar buscaria rapidamente uma base, mas, você sabe, um escritor, grande ou pequeno, não deve se preocupar com a parte alheia. Na literatura, o problema do leitor sempre será do leitor.)

Naquela minha épica era de garoto solitário, todos estavam no salãozinho de reuniões do conjunto de casas e eu estava somewhere alhures somehow conversando comigo mesmo tentando abraçar essa imensa solidão que nunca coube em mim e encostar os dedos das duas mãos do outro lado, negociar, ver se ela, por uns momentos que fosse, podia me aceitar como digno de misericórdia, me dar uma trégua assim de colher de chá, que mal podia haver? eu não era tão ruim que não merecesse uns minutinhos de alívio, mesmo na farta escuridão da rua, longe do salãozinho de reuniões onde todos sempre estavam e não poderiam estar senão ali.

Todos continuam onde sempre estiveram e ainda assim continuo me surpreendendo que todos sejam e tudo seja assim.

Eu também.

Meus braços continuam enlaçados na ampla pança deste mostrengo da minha solidão e continuo a tentar que as pontas dos meus dedinhos se encostem do outro lado.

Posso, como sempre, ouvir seu coração palpitar. Sentir seu cheiro de suor. Ouvir seu hálito entrando e saindo por sobre meus cabelos.

Fomos feitos um para o outro.

Eu, para a minha solidão. Minha solidão para...

Oh não.

Natal

Vinte e cinco de dezembro. Manhãzinha-zinha-zinha. Estou deitado, fingindo que durmo. Finjo a mim mesmo ou não sei pra quem. Sei que me engano. Passamos uma cacetada do nosso tempo nos iludindo, sobretudo nas coisinhas mais idiotas e com as quais a encenação é ainda mais eficaz porque, sendo uma besteirinha, não nos deixaríamos enganar.
Vinte-e-cinco-do-doze. A data pisca de longe nas folhinhas, neon básico, dos que não curtimos o Natal fingimos não ter importância mas sabemos estar apenas fingindo, em nossa simplória circularidade pessoniana.
Espírito natalino. É inevitável ler ou escutar ou pensar nessa expressão, só para em seguida sentir algo dolorido algures no estômago. Pior que o Natal são as explicações que uns quinze dias antes começam a pipocar de todos os lados, na tentativa de enquadrar o antinatalino, esse ser esdrúxulo e desajeitado que não cabe mais em lugar nenhum. Nos jornais, indefectíveis reportagens sugerindo alternativas aos incapazes de confraternizar com o(s) próximo(s) e que nos últimos anos vêm me dando uma sensação de deslocamento gauche cada vez maior. Piores que essas só as reportagens sobre como fugir do Carnaval. Ninguém foge do Carnaval neste país – nem que você se enterre numa mina de chumbo abandonada a 500 metros de profundidade no meio da Amazônia. O desgraçado gruda na tua medula feito doença incurável e você, melancólico duma alegria insoluvelmente perdida n’algum escaninho do passado, fica lá olhando os carnavalescos e se perguntando quem é que está doente nessa história.
Mas o Natal é mais contagioso. Toda criança classe-média família-cristã está inoculada do vírus e não há vacina que cure. Se tem algo na tua vida que você pode chamar de “experiência” é ele. À medida que vamos crescendo e dando tino das palavras até chegar aquele dia em que todos, sem exceção, chegamos em que paramos, como por milagre, de cismar com as altas pilhas de sons de significado enigmático e os aceitamos, já em forma de conceito, dentro de nós como caroços que somos – e seremos daí em diante – obrigados a engolir, a associação de Natal e “experiência” é também cada vez mais natural e também chega o dia, tão infalível quanto o da morte, em que você deixa de estranhar todo aquele afã no fim do ano.
Provavelmente é o que de mais genial e eficiente inventaram para enganar as crianças. O logro pela sedução. É inebriante feito um licor fantástico que te tira da pasmaceira angustiante do dia-a-dia, te abrindo possibilidades mágicas. Depois dum interminável ano em que não houve uma só chance de fugir da perseguição implacável da realidade, finalmente vem chegando mansa e alvissareira a época do ano em que me permitem realizar meus sonhos, esses entes inalcançáveis que vivem pairando em cima da minha cabeça feito virgens angelicais suplicando para ser defloradas.
E tem aquela dobradinha. Natal-barra-Ano-Novo. Par Perfeito. Tão perfeito, que são um só. Fecho de Ouro. A não ser que você tenha levado bomba na escola – e aí não há magia que te afaste das torturantes labaredas do Diabo –, o Natal – especialmente Papai Noel – é a prova de que, sim, a felicidade existe. A vida, afinal, não se resume à renúncia mais apática do que estoica mas inescapável aos rarefeitos prazeres em conta-gotas a que temos iniquamente direito. O sujeito que pôs o Natal perto do fim do ano não o fez ingênua ou arbitrariamente. Foi sacada de mestre. O pai dos marqueteiros modernos.
De repente – uma longa e dolorosa repentinidade –, a razão. E vinda por um caminho tortuoso e sombrio que daí por diante também parecerá não só natural mas também rímica: a decepção. E ambas, R&D, passam a fazer outro par perfeito na tua existência – amargo mas perfeito. E você acaba se acostumando – sempre que tem a chance de espiar dentro do mecanismo vago e invisível (mas que sabe existir) das coisas, você fecha os olhos e espreme os lábios, decepcionado, esperando a seca/instrutiva bofetada da realidade. E também aos poucos aprende que espiar dentro desse mecanismo angustiante não é prerrogativa – é danação. Até que chega o dia em que deixa de ter consciência do mecanismo. Sim, é quando – na pitoresca linguagem dos explicadores do mundo – você o “incorpora”. No meu caso, não incorporei – engoli. E desceu. Na marra, fazendo um nó nauseante na garganta. E se instalou algures em meu estômago.
Quanto aos diferentes dissabores que vão se juntando dentro da nossa cabeça em pares perfeitos, que por sua vez passam a formar fila – e dependendo do freguês, várias ou inúmeras delas –, cada um de nós tem os seus, cada um de nós, rico ou pobre, forte ou fraco, amarelo ou vermelho, nos versos ordinários e fáceis daquela toadinha que virou mais um intolerável hino natalino e que alguém na vizinhança escuta no último volume e berra a pulmões cheios no que se tornou o flagelo dos tempos modernos, o mais bestial fruto nascido do coito das civilizações ocidental e oriental: o caraoquê. O autor da toadinha, aquele ex-beatle que “cantava pela paz” e que, escutando alguém às suas costas chamar “Mr Lennon”, se voltando e recebendo seis balaços incandescentes nas vísceras, deve ter prontamente associado aquele momento fatídico a outra canção que compusera anos antes, “Happiness is a warm gun”. Yes it is, Mr Lennon. God, se isso não é um Par Perfeito, então não sei o que é. E foi uma morte heroica para quem pretendeu ser sub-herói numa era de sub-heróis pífios. Nós modernos e nossos mitos de meia tigela. No frigir dos ovos de tartaruga a apodrecer nas praias de Ilha Bela, não tem importância alguma para ninguém. Mas serviu para passar o tempo da moçada da minha geração e me dar assunto para mais um parágrafo.
E você, pia leitora (se me permite uma despretensiosa citaçãozinha a Machado), não vai deixar o “dissabores” aí acima passar batido, claro. Como você sabe, sou obsessivo, cioso e perfeccionista, e não cometeria termo tão grosseiramente fora de moda. Meus erros, quando os perpetro, não são tão evidentes e em geral consigo dissimulá-los – satisfatoriamente ou de modo que não causem muito dano – de mim mesmo e dos outros. Em minha experiência objetiva ou não nunca tive dissabores na vida (pois, como fator adicional de complicação, os dissabores, quando ocorrem, são raros e atingem nada menos que a vida e não uma outra dimensão mais modesta do que somos, se tornando tão indissolúveis quanto as parelhas de que falávamos bem lá trás). Acabrunhado, abro meu aurélio eletrônico e procuro um substituto à altura para “dissabor”. Mas os sinônimos disponíveis – “contrariedade, aborrecimento, desprazer, amolação” – tampouco dão conta de refletir minhas aflições. Nenhum suficientemente coloquial. Ao contrário, cada um deles é palavra que só existe em dicionário, vegetando qual fungo sob a proteção e na sombra dos outros milhares de vocábulos inúteis, todos sem aplicação possível no cotidiano. E se eu insistisse em usá-los, leitora castíssima, você certamente diria que meu texto recende a bolor. 
Além de serem nativos dos dicionários, esses termos moribundos acham-se amiúde também em autores antigos, obviamente. Quando estamos em perseguição da “realidade”, nada mais frustrante que um almeida-garrett e seu vocabulário soterrado sob a poeira do tempo e o dióxido de carbono dos automóveis e o alarido dos programas de auditório na tevê. Ainda ontem dei com um romance dele na internet, comecei a ler e já no segundo parágrafo senti falta de ar. Tudo bem que o rapaz não foi lá grande coisa nem no seu próprio tempo, mas a sensação de asfixia aflige também os gênios. Até Machado – se você não for apenas um pesquisador ou professor lendo o homem por dever de ofício – tem trechos rançosos.
Quem está atrás da dona Realidade – meu caso quase o tempo todo –, há de evitar enxergá-la por retratos em branco-e-preto, que apenas mostrarão a velha senhora de espartilho e merinaque se aprontando para vestir a saia-balão, ao lado dum mancebo de nome remoto e pitoresco ostentando bastos bigodes e espessas suíças. Na certa vai querer um quadro menos obsoleto. O que é igualmente difícil de achar.
A moçada, fugindo do prolixo, caiu matando na esqualidez como estilo da época. Claro, tem todo aquele plá de dicotomia forma-fundo, lemas tomados a cru de peculiaridades americanas exóticas como “menos é mais”, o escambau, plá sobre que a esta hora da manhã não me apetece discursar. Pode-se dizer que a rapaziada light hoje em dia esteja escrevendo lean tentando alcançar o clean, ou vice-versa (não sei). E – para usar uma palavrinha que outro dia li novamente em Machado e me encantei – salvante cobras como Dalton Trevisan, muitos dos que estão brotando aqui e ali c’uma forma que eles mesmos batizaram de “despojada”, se dizendo – ou sendo apontados pela mídia incansavelmente deslumbrada – minimalistas, se mostrando horrorizados com a prolixidade arcaica, ressequindo a gordura para chegar além do osso, enxugando o excesso para atingir o nada, bien, muitos destes são apenas semiliteratos.
A falta de técnica pode ser uma técnica em si. (O que, claro, é logicamente impossível e passa a ser uma técnica in its own right, gerando automaticamente um claro-escuro infinito.) Bom é o texto que não denuncia a própria técnica. Quando lemos alguém de talento, em geral nos comovemos ou reagimos de qualquer outra forma que o miserável quer que reajamos, nos lixando para a técnica que ele usou para nos engambelar. In other words, não damos a mínima para a forma. Essa coisa de forma-conteúdo é papo-furado de professor de letras que precisa justificar o salário. Mas é também aí que flagramos os excessos do nego talentoso, mesmo quando ele é genialérrimo. Digo isso pensando em certos trechos da busca perdida de Proust em que ele carregou a mão naquela torrente ao mesmo tempo doce e comovente e densa e extasiante de pensamentos inexauríveis. Mas não admira. Eu, se tivesse nos dedos dez por cento daquele controle infernal da memória, da cabeça, do coração e das palavras, não deixaria por menos. Abusaria ainda mais. E provavelmente entornaria o caldo.
Tem, claro, toda aquela lengalenga de que difícil é ser simples. Só. Nosotros que não somos gênios, fiquemos no feijão-com-arroz, maneirando no sal, evitando a pimenta, nos contentando em escolher as palavras com razoável precisão e parcimônia, o que, como sabe qualquer um que alguma vez escreveu algo na vida, já é uma bela duma proeza. E, claro, sair da difícil arte de escolher palavras rumo à própria dificuldade de escrever não requer mais que um passo. Que, como bom perfeccionista, gostaria de não me furtar a dar. Mas a que me furto mesmo assim, pois, como você há de lembrar, é de manhãzinha, ainda estou na cama e meu sono já vai passando.
E você, dona leitora, na certa percebeu também que me perdi completamente do meu assunto original, me enrolando numa maçaroca danada, me aventurando temerariamente em filosofices e até em teoria literária, tema de que, como você deve ter sacado, não manjo lhufas. A, caprichosa cabecinha oca. Vive me aprontando vexames. Meu plano original era desancar Papai Noel, lamentar o declínio da tradição, condenar o consumismo exacerbado de hoje em dia, essas coisas de que todo escritor deve “abordar” nessa época do ano. Quando dei por mim, estava descendo o ferro no Proust, de cuja busca, confesso, li não mais que uns trechinhos, pulando aqui e ali à procura de algo que me dissesse pessoalmente respeito.
Por isso, acho que vou ficando por aqui. Como sou sujeito impulsivo e às vezes desregrado, preciso me conter, senão logo terei outra recaída, falando do que desconheço. Além disso, estou prestes a abrir os olhos – e depois que abro os olhos, fico uns bons minutinhos sem pensar em nada. E como o vizinho fã de Mr Lennon resolveu desligar a vitrola e ir fazer algo útil na vida, vou deixar para outra ocasião o Natal, o espírito natalino, a nossa índole irrequieta que oscila do nazareno ao nazismo em questão de segundos. Se você não se importa. 
E já não era sem tempo. Percebo apreensivo que estou retornando ao meu estado normal de acidez fatigante, como já deve estar patente. Acontece todas as manhãs. Da cabeça a acidez desce para o estômago. O sono vai sumindo n’algum canto aqui dentro, talvez chupado por um ralo interno do qual não tenho ciência, e dando lugar a uns incomodozinhos. Com o passar dos anos aprendi um truquezinho para me livrar da indisposição matinal – ingerir em jejum uma caninha pura e sem gelo. Antes que a sóbria leitora se espante com tão explícito pendor etílico mal o sol abriu os olhos, me apresso a esclarecer que, sem uma cachacinha logo cedo, fico um pouco rabugento. Um tiquinho de nada, mas fico. Nada de alarmante, porém. Outra agora, só na hora do almoço – que, aliás, já está chegando. Faço esse sacrifício pelos outros, naturalmente. Você sabe o quanto é duro aguentar a rabugice alheia. Pior que isso, só aguentar a própria. E não vou esconder que alguns parentes já testemunharam que fico até simpático quando entorno umas e outras num desses casamentos que acontecem de dez em dez anos na família. E, ao contrário do que você pode ter concluído, soberba leitorinha, tampouco sou beberrão. Não é apenas nos citados casamentos que encho a lata, admito. Mas em geral sou um cara comedido.
Bem, como estava dizendo, vou ficando por aqui. Antes, porém, só queria esclarecer que essa acidez a que me referi, passo a maior parte do tempo tentando me safar da miserável. Ela me esmaga os pensamentos, fazendo deles uma massa homogênea e informe e grudenta e inútil e...
A, com licença, estão tocando a campainha. Justo quando ia finalmente me despedir. Sacudo a cabeça. De leeeve. Leeeeeeve. Beeem leeeeeeve. A campainha toca. Já vai, porra, grito por dentro, com preguiça de acionar a voz (que em geral só ponho em uso no período da tarde). Odeio gente que não espera pelo menos um minuto inteiro antes de enfiar o dedo na maldita pela segunda vez.
Depois da irritação, o espanto. De novo ce esqueceu de arrancar a campainha do portão! me recrimino, soltando uns palavrões interiores contra minha própria mãezinha. É sempre assim. Toda vez que apertam a campainha, juro que agora chega, vou acabar é já com essa tortura. Depois, sei lá por que, acabo esquecendo. Até quando ce vai ficar se tapeando? me faço pela milésima vez a pergunta que me recuso a responder.
A campainha toca a terceira vez. Já estou diante da porta, olhos espremidos, bufando, rangendo os dentes. Devido ao treino que tenho feito todas as manhãs, em alguns segundos me acalmo. Faço uns trejeitos até apagar do rosto a expressão assassina. Abro a porta. Um velhote no portão me vê e estende o braço. Abre a mão.
Que é? pergunto sem abrir a boca, sacudindo a cabeça num gesto seco. Ele fecha os dedos dentro do punho e torna a abri-los. Esmola? pergunto, agora com a boca. Ele faz que sim.
É natal, digo a mim mesmo enquanto volto ao quarto, tentando conter a gana de enxotar o inoportuno com um palavrão. Apanho uma moeda no bolso das calças, visto as calças, volto para a porta. O velhote continua de braço estendido.
Saio para o dia, protegendo os olhos da luz do sol, na cabeça martelando é natal, é natal. O velhote, olhinhos opacos cintilando. No alto da cabeça, um gorro imundo e ensebado. Cabelo e barba brancos, pardos de sujeira. Às costas, um saco gorduroso qual o gorro.
- Quer uma xícara de leite? – pergunto e me assombro. A pergunta saiu da minha boca? Ainda estou dormindo, acho.
Faz que sim com a cabeça. Abro o portão, entra, passa por mim. Indico a porta com o braço. Se põe em movimento, passinhos miúdos e pressurosos e prudentes.
Entra na sala, entro atrás, digo para sentar no sofá, senta. Vou para a cozinha, abro a geladeira, apanho a caixa de leite, ponho leite numa xícara, adiciono café, açúcar, mexo, esquento no micro, volto para a sala.
Estendo a xícara. Apanha e sorve, me olhando maravilhado e humilde.
Sento na poltrona e fico olhando. Desvia o olhar para a tevê, assistindo como se estivesse passando algum programa.
Acaba o leite, fica lá parado olhando a tevê. Quer mais? Faz que sim.
Volto para a cozinha, etc. Acaba a segunda xícara. Quer mais? Não. Quer comer? Sim.
Levo ele para a cozinha, faço sentar. Abro a geladeira e tiro manteiga, queijo, iogurte, sei lá mais o quê. Pego pão, bolacha, doce de goiaba. Apesar de desdentado, come tudo depressa e com facilidade.
Sento diante dele na mesa. Como o senhor chama?
Noel, diz.
É brincadeira?
Faz que não.
Noel Ferreira Silva.
Trouxe um presente para mim? debocho, inerme.
Faz que sim.
Sorry, paciente leitora. Não consegui resistir. No fundo sou um jeca, não nego. Até os mais insensíveis e cínicos feito eu tem suas recaídas. Afinal até hoje não esqueci aquele triciclo vermelho e branco que estava no meio da sala quando acordei e pulei da cama e saí correndo do quarto para ver se meu presente estava lá.
Quem deu? perguntei.
Papai Noel, meu pai disse.
É nada. Papai Noel não existe.
Foi, sim.
Acreditei.
Tenho culpa se a porra da cena ficou grudada algures em meu coração?


Quarenta e um

DEFINITIVAMENTE, não entendo internautas. Não entendo membros de redes sociais. Não entendo blogueiros. Não entendo blogueiros que se pensam e pretendem se mostrar sensíveis, poetas, portadores de visões especialíssimas do mundo.
Não entendo qual lógica seguem. Sei que não é a minha e é tudo que sei e saber algo que não é não é saber muito.
Espero que minha última frase acima os confunda.
Se pudesse, os atrairia para a beira dum precipício, ficaria esperando que tivessem então um insight do mundo sensível perdido.
Não entendo, entre mil outras coisas, uma gente de índole literária aliterária E antiliterária. Gente de ideologia literária que não toma conhecimento da base, do fundo, da partida e do fim: a palavra.
Não entendo gente literária cuja palavra tem sua ortografia violentada, seu lugar ignorado, sua ordem trocada, seu significado desprezado, sua sacralidade aviltada.
Não entendo gente literária em que a complexidade da sensibilidade artística é contrabandeada pelo fascínio da conectividade que pede urgente uma teclada mecânica como resposta mecânica a uma postagem mecânica cujo conteúdo introspectivo, reflexivo é nulo.
Não entendo gente literária em que uma postagem de boa vizinhança é enviada apenas para suscitar outra postagem de agradecimento e a seguinte para provocar uma outra numa circularidade que se autoalimenta do impulso clicatório, gerando no pobre internauta uma eterna ansiedade pela próxima réplica.
Não entendo gente literária digital em que o digital é tudo e o literário é nada.
Não entendo gente literária que adora escritores e poetas por sua fama e não por suas obras e ideias, na mais decepcionanante rendição ao mais grotesco culto à celebridade dos fofoqueiros da tevê.
DEFINITIVAMENTE, não entendo internautas literatos e sua estranha concepção de que literatura é só mais uma desculpa para concretizar a "experiência" digital.
Os internautas fazem, certamente, parte do mundo da palavra abolida. São ágrafos sob o domínio de uma hipnose eletrônica.
Literatura é palavra e palavra é pensamento. As microsofts ainda não inventaram um sucedâneo.

Alberto Segundo

Fui incoerente, não fui?
Cara, tenho nojo de quem dá lição e não vou lhe dar.
Simplesmente veja os dois contextos em que eu disse uma e outra coisa...
...e veja se faz sentido.
Pra mim faz.
Mas, olha, fazer sentido prum poeta não quer dizer nada.
Aliás, fazer sentido não quer dizer porra nenhuma pra ninguém, em se tratando de literatura.
Você até pode dar seus primeiros passos poéticos mandando o sentido pro caralho.
Se quiser.
Quer ser poeta?
Então não se fie na opinião de ninguém.
Nem na minha.
Não espere reconhecimento.
Não fique aí parado feito tonto esperando um docinho.
Um afago.
Um elogio.
Quer ser poeta?
Então seja poeta.
Primeiro...
...aprenda a sentir.
Pra sentir...
...aprenda a sentir.
Pra sentir...
...aprenda a se livrar das besteiras que te enfiaram na cachola desde o dia que você nasceu.
Aprenda, acima de tudo, a sentir...
...a dor...
...que é sua...
...só sua...
...sua...
...sua...
Eu estou tentando ser poeta há 40 anos.
 E vejo hoje que tenho mil toneladas a aprender.
A cada manhã.
A cada tarde.
A cada lusco-fusco usco co o.
E desaprender.
Dsprender.
Aprnder.
Prndr.
ndr.
r.
Preciso aprender a aceitar o que sinto.
Preciso desaprender o que me entucharam na cabeça.
Tem lógica?
Se tiver, então tô falando merda.
Mas uma coisa tenho por certo nessa salada milenar:
Seguinte:
Três pontos
Não deixe que teorias e teóricos queiram te ensinar o que você sente ou deve sentir.
A poesia e a literatura em geral tem raríssimos criadores.
E palpiteiros a dar com o pau.
Não há poeta igual a outro.
Não há escritor igual a outro.
Cada verso é uma declaração de independência.
Uma declaração de guerra.
Um manifesto por um mundo carmim de sangue.

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Lendo a FSP agora pouco, o Haddad liberou cento e sessenta milhão pra nova “arena” do curíntia. Pena que não conseguiu aprovar o aumento do iPTu, podia dar até um bi pro timão do coração dos paulistanos. O Haddad sabe que a copa é o que interessa, o resto não tem pressa, como dizia Goethe.
Mais. O Neymar disse uma coisa muito séria: “Não deixe escapar quem você ama”. Na hora me pareceu até que tava falando diretamente comigo. Como será que o Neymar soube que deixei quem amo escapar por entre estes meus dedos lânguidos e longos e lendários qual perereca ia ia luzidia?
Tava triste, me contristei mais. I mean, angustiado. Apreensivo. Alvoroçado. Não: nauseado. Melhor: agoniado. Ansioso. Incalculavelmente. Sim! Esperançoso. Tudo junto. Você já sentiu salada dessas num átimo (...)? (É o que os nascituros sentem, tenho certeza. Depois vamos aprendendo a negar o que vemos e experienciamos, até nos tornarmos adultos mentirosos e mistificadores), não só naquele momento tenebroso pelo que todos passamos quando duvidamos de que estar vivos é uma dádiva, seja em pesadelo, seja sob uma dessas tragédias a que estamos expostos, todos. Estou dizendo, uma constante. Puta merda, preciso abrir um parágrafo bem agora, esse comecinho parecia promissor, tenho essa dificuldade em lidar com o êxito, coisa de carcamano, o italiano é o ser mais fracassista do mundo, tema prum post futuro, me amarro em descer o sarrafo nos devoradores de massa com molho em abundância, nogentti, odeio meu nazzo pícolo e la neve del Chilimangiaro.
Por falar em coisas boas, acabei entrando numa roubada, como gostava de dizer meu bisavô, lo carcamano massimo, morto e estinto no inizio do ano.
Foi mais ou menos assim.
Como estão cientes, ando mais preocupado com o transcorrer do tempo do que o Einstein elaborando a relatividade das teorias. Vem me atazanando a aproximação do Natal. Como lhes contei outro dia, outro dia resolvi ir ter com esse sujeito que passa o dia e a noite numa mesa no canto mais sombrio do salão aqui do Bar Lacerda. Já tinham me contado que ele é poeta, então fui lá ver se podia encomendar um poema. Este ano decidi inovar. Chega de quinquilharia pra Cibele. (Como já lhes disse, estou noivo da Cibele há dezesseis anos.) Quero lhe dar alguma coisa diferente neste Natal. E o que pode ser mais diferente que um poema?
Sem problema, ele diz, aparentemente rimando sem querer. (O que, note-se, seria um sinal de alerta, não fosse eu tão distraído.)
Quanto fica? pergunto.
Pra você que é freguês do Lacerda faz anos, cinco perna.
Cinco mil? me assusto. Não é muita coisa? Sou assalariado, você sabe.
Cinquentinha, meu querido. Metade agora, metade na entrega.
Assim fizemos, assim ficou combinado. Me entregaria ontem, com tempo hábil para uma eventual revisão, correção, reelaboração.
Não sei, pode ser impressão, mas parece estar me evitando desde então e tô começando a desconfiar que me meti numa fria, como perorava minha bisavola que morreu semana passada numa festa rave perto de Guarulhos.
Até que consegui o encurralá-lo numa ida ao banheiro do Bar.
E aí? Quando vai entregar?
Depois.
Depois quando? O Natal tá aí. – Minha voz saiu esganiçada qual a dum castrati de Bach. – Se o poema não tiver pronto então, serei obrigado a presentear minha noiva c’uma assinatura da tevê a cabo. Não que vá ficar decepcionada. É fanática pela telinha. Deita no sofá e fica lá hipnotizada assistindo às imagens que desfilam indefinidamente sem formar uma narrativa que faça sentido sentimental ou intelectual, atiçando o sentido da visão e enganando o telespectador que olhar as coisas na superfície pode o aproximá-lo d'alguma significação verdadeira da vida.
O sujeito me olhou decididamente intrigado e depois duns segundos exalou com ruído áspero (ou aspereza ruidosa) todo o ar dos seus pulmões apodrecidos sob várias dezenas de marlboros todo santo dia. (Pude até sentir a aca transida de fumo.) Tava com o peito aprisionado de ansiedade, pauvre. Me surpreendi vendo que poeta sofre tanto. (Também, vai entender um coitado que se dedica a cultivar palavras numa floreira imaginária como se foram cebolinhas verdes num cantinho de horta. Era tão mais fácil e simples e seguro vender carro usado ou descolar um trampo num banco qualquer.)
Mas o tranquilizei-o: claro que nunca serei franco com a Cibele a esse ponto. Meu docinho de leite com mel na certa me daria uma daquelas descomposturas em que é craque, sabe como é, unhonas afiadas de mulher que sabe o que quer, hoje somos todos tão ciosos da nossa individualidade, nos confinamos em nosso mundinho protegidos por uma cerca elétrica em que os que tentam nos alcançar são eletrocutados enquanto fazemos de conta que somos os reis do relacionamento nos faces da vida.
Outro olhar inquieto do meu intercolutor, digo, você entendeu. Inquieto e ao mesmo tempo esquivo. Saquei, é daqueles que evitam olhar a gente nos olhos. Será assim com todo mundo? Esse é pró do sofrimento.
Ah meu amigo, se fosse sir Galahad raptava minha Cibele, a puxava ela pra sela do meu Rocinante sem rima, a levava-a pra masmorra do meu castelo onde seria mais livre do que imagina seu tenro cérebro de donzela lampeira.
Ato seguido desvio a cabeça na direção da rua para NÃO ver a reação do poeta ao meu ditirambo. Não gosto quando reagem idiossincraticamente ao meu jeito de ser e dizer.
Bem, esta é a situação no momento. Depois que cobrei o poema, o poeta tomou doril, me deixando entregue a um desassossego mais e mais agudo à medida que meu relógio rolex paraguaio conta as horas, os minutos, os segundos rumo ao Natal fatídico.
Quando me acho nesse estado de amofinação, a única saída é me empanturrar d'alguma guloseima ou quitute. Em casos mais extremos, que, como já lhes contei, são a regra e não exceções em minha atribulada existência, tenho de recorrer até a acepipes para tentar arrefecer o desalento.
Tão logo tive a ideia de remediar meu desânimo com três kg de glicose, a vitrine de delícias da dona Juçara, distinta esposa do Lacerda, lotou minhas pupilas feito ônibus da linha Pinheiros-Santo Amaro às seis da tarde duma sexta-feira pré-feriadão da Proclamação.
Rosquinha de leite! escuto minha própria voz fora de mim, exclamando como se pertencesse ao tio do Graciliano.
Nisso, o Luizinho, entregador do Bar, estaciona sua bice caloi sessenta e sete (modelo para moças, ainda desprovida do cano que conecta o selim ao guidão para que as distintas não precisassem erguer as pernas e a saia ao sentar) na calçada diante da porta do salão e me pede para vigiar seu meio de transporte enquanto vai prestar contas das entregas a dona Juçara, que toma conta do caixa.
E quem entra atrás do Luizinho (embora não parecesse que viessem juntos)? Bidu. 
Ele encosta a barriga dilatada no balcão (não fosse a pança, seria o retrato do Charlton Heston antes de subir em sua biga em Ben Hur. Vi o filme aos seis anos, nunca mais superei o êxtase da corrida de bigas. Depois fiquei sabendo que um ator morreu durante a filmagem da cena. A cinematografia atual feita à base de computador não chega na unha do dedinho, bem como a literatura de hoje atrelada à internet e o inferno da tevê. Ano passado vi umas cenas de King Kong com a indefinível e gostosérrima Naomi Watts, fiquei bobo com a pretensiosidade técnica e a indigência estética e artística, tudo feito a golpes de mouse e software. No próximo em 2020 vão dar um jeito de estuprar a donzela e esta atingir um orgasmo kingkonguiense).
Ao me ver, ele se volta rapidamente para a parede, fazendo que não me viu. (Especialidade do brasileiro que, quando não tem escapatória, abre um sorrisão pro nosso lado como se fôssemos cristo retornando da catacumba depois do sabbath.) Vai me desculpar mas tenho compromissos, penso, apertando os passos na direção do safado. O Natal taí, não posso facilitar.
E aí?
E aí?
Como vai indo a encomenda?
Hã?
O poema?
Tô no terceiro verso.
Inibo uma reação espontânea, optando por tergiversar. Manjo esses tipos. Fui vendedor de macarrão no circuito dos mercadinhos da Grande SP. Ganhei menção honrosa de vendedor do ano em 1978. Já levei muito japa dono de mercearia pra zona no fim do ano como prêmio pela preferência.
Diz os dois primeiros.
Não posso. Estão “sub lirica”.
O primeiro, então. Preciso duma garantia.
Sorry. Dá zica.
Entendo o ponto de vista do cara, não sei exatamente por quê. De repente me dá esse insight perturbador e total do que pode envolver a feitura dum poema. Tá certo. Não tô comprando assinatura da Veja, porra!
Ergo um dedo pra balconista. É a Soninha, toda dengosa e o cacete, peço um suco de melão. Me disseram que a Soninha tá dando pro poeta. Tão novinha, credo. O cara é quase sessentão. E barrigudo. E um tremendo dum pinguço.
O de sempre. Sem açúcar.
Uma vodka. Ele aproveita a oportunidade.
É por minha conta, ofereço, disposto a lhe fazer um agrado pra ver se desencanta.
Agradece cum relampejo de submissão no olhar.
Anotando meu pedido, a Soninha dá um sorrisinho pro lado dele.
Tá comendo, é? – não resisto à espicaçada.
Ele fica vermelho. (Ou se ruboriza, como dizia o primo em segundo grau do Monteiro Lobato.)
Sei qual é a desses zés-manés que se arrumam com balconistas e recepcionistas e empregadinhas em geral. Não têm peito pra encarar mulheres numa relação aberta, emocionalmente gratificante, de seu próprio nível e sua própria cultura, com quem possam dividir perspectivas e anseios sem a competitividade do mundo animal. Precisam se fingir superiores. Se sentem mais confortáveis com retirantes e comerciárias, marginais que aos olhos da classe média não têm condições de postular a papéis socialmente atraentes au au.
Soninha vem lá de trás do salão de jogos onde, dizem, habitam umas figuras barra-pesada. Vem esbanjando brejeirice pelos dentes e sedução pelos olhos.
Vem trazendo o pedido.
Brigadinho, fofa, se derrete o poeta, avançando a mão sôfrega para a bandeja, levando o copo à boca e sorvendo a vodka num só trago.
Pronto pra próxima.
Pego meu suco de melão e beberico. O poeta me olha de canto. Na certa me achando um marciano. Deve ter tomado o último suco há vinte anos, quando ainda havia alguém em sua vida que cuidasse dele. Engole a vodka e se posta de novo meio voltado pra parede, numa atitude entre ambígua e antipática.
Mais uma? incentivo.
Ele encolhe os ombros, fingindo indiferença.
Faço um sinal de vitória pra Soninha.
Agora quem olha de canto sou eu, infeliz. Sou fudido mas não além do ponto do não retorno de Nietzsche. É um sujeito inteligente, salta aos olhos. Podia ter um emprego público qualquer como tanto safado incompetente que descola uma boquinha imunda no funcionalismo. Preferiu o fogo fátuo do sonho. Ou o descompromisso suicida da vagabundice.
Soninha se reaproxima, duplicamos nossos pedidos.
Como vão as coisas? tento puxar conversa.
Ele encolhe os ombros, sem se dar o trabalho de corresponder ao meu sinal de civilidade. Ou de dissimular a má vontade. Me lembra uma época na juventude em que aspirava a ser um “independente social”. Dou graças aos céus por não ter con-seguido.
Chegam a vodka e o suco. Ele fecha os olhos e emborca o copo na boca e abre os olhos e exala. Parece relaxar. Finjo que presto atenção em algo na rua, não quero dar a impressão de que estou cuidando. De que posso intimidá-lo.
De repente desata uma sangria. Sai uma fala atropelada. Olho o rosto sem conseguir esconder que estou surpreso e ao mesmo divertido com a mudança repentina de comportamento. É fantástico o efeito do álcool no espírito dos homens.
Vai falando sem se preocupar em fazer nexo, uma barreira se rompendo por dentro, liberando matéria represada há anos. A expressão reservada cede lugar a uma careta atormentada. Os assuntos vão mudando sem aviso a intervalos de poucos segundos, saltando de acontecimentos da infância, a livros que leu ou está lendo, textos e poemas que escreveu ou está escrevendo, amadas que o deixaram por sujeitos pragmáticos ou prósperos, o apego ao álcool, a amargura de ter optado pela solidão, o papel vital da literatura em sua vida...
No momento estou vivendo o mito de Psiquê.
Como assim? pisco os olhos. Me desculpe, sou uma negação em mitologia grega.
Como de certo já ouviu falar, Psiquê significa alma em grego. E borboleta. Então pode deduzir que estou falando de transição.
Sei, faço que sim com a cabeça, estimulando que prossiga, receando perder a oportunidade de vê-lo se abrir.
Psiquê é uma bela princesa. Tão bela, que ninguém se apresenta como seu pretendente. Tudo que fazem é adorá-la. Seu pai, o rei de Mileto, vive a se perguntar se a filha um dia encontrará um marido. A angústia da dúvida é tanta, que um dia resolve consultar o Oráculo de Delfos. Como você também deve saber, todos que consultam o Oráculo de Delfos são obrigados a seguir o conselho recebido. Por isso, só os que estiverem de fato resolvidos a seguir o conselho dado pelo Oráculo devem se atrever a pedi-lo.
Hum-hum, incentivo.
O Oráculo recomenda então que o rei abandone a filha no topo d'uma montanha, onde haverá de ter um encontro com seu destino — e este será nada menos que um noivo não humano. Com a sorte lançada, só resta ao rei preparar Psiquê para sua desfortuna. E assim ele faz. Manda que vistam a filha como para o próprio funeral e a abandonem no mais alto penhasco do reino, os prantos da moça se misturam às lamúrias e aos lamentos de toda corte e de todos os súditos.
O que o rei não desconfia, porém, é que, depois de ser deixada à própria sorte, Psiquê acaba rumando para um vale encantado onde encontrará uma casa e verá atendidas suas necessidades. Na primeira noite seu misterioso noivo entra pela janela, a ama e, ao raiar do sol, parte sem que Psiquê jamais consiga vê-lo. E assim acontece noite  após noite.
Hum-hum...
Psiquê tem irmãs mais velhas, que, a julgando morta, visitam o penhasco para externar seu luto. Ao tomar conhecimento disso, Psiquê suplica ao noivo que a deixe ver as irmãs. O noivo tenta resistir, argumentando que não seria conveniente. Ante a insistência de Psiquê, porém, finalmente cede, desde que ela se comprometa a não revelar o segredo que existe entre ambos. E acrescenta: “Você está grávida. Se guardar o segredo, a criança será um deus. Se o revelar, será um mortal.” Dizendo assim, ele torna a partir, permitindo a vinda das irmãs.
Estas visitam Psiquê em duas ocasiões e durante suas conversas acabam sugerindo que Psiquê desposou um monstro. Psiquê fica aterrorizada com a ideia. “Oh, meu Deus, talvez tenham razão. Que devo fazer?” E as irmãs a instruem: “Esconda uma lamparina e uma faca sob o cesto ao lado da cama. Depois que seu noivo vier e fizer amor e adormecer, pegue a lamparina e ilumine o rosto dele. Se for mesmo um monstro, corte-lhe a cabeça com a faca!”
Assim procedendo, Psiquê termina por descobrir que seu desconhecido noivo e amante é Eros, deus do amor e filho de Afrodite, deusa da beleza. Afrodite está furiosa por uma humana ter lhe roubado o privilégio de ser a única adorada pela imensa beleza de seus traços, a ponto de Afrodite sentir-se desprezada. Sequiosa por vingança, a deusa obriga o filho a lhe prometer que irá punir Psiquê. Para isso, ele deve ferir a noiva com flechadas. Psiquê, em consequência, se apaixonará pelo homem mais torpe e indigno existente no mundo.
Sem escapatória, Eros se compromete a realizar o desejo da mãe. Acontece, porém, o imprevisto: ao ver Psiquê sob a luz da lamparina ele é invadido pela paixão. Temeroso de revelar a verdade a Afrodite, mantém às escondidas o caso de amor com Psiquê.
Mas então ocorre outro terrível golpe do azar. Na noite em que Psiquê decide descobrir a verdadeira identidade de seu noivo erguendo a lamparina para lhe iluminar o rosto, uma gota de óleo espirra da lamparina e cai no ombro de Eros. Despertando, ele é tomado de raiva e a recrimina por destruir o idílio que estavam vivendo. Sendo deus e dotado de asas, Eros alça voo e parte, magoado.
Ao se ver abandonada, Psiquê se entrega ao desespero e corre em direção ao rio que corre próximo de sua casa, se jogando nas águas, disposta a dar um cabo à própria vida. O rio, todavia, a lança de volta para a terra. Então Psiquê inicia uma peregrinação a diversos templos de deusas, implorando a ajuda delas. Porém, estas se recusam a interceder com Afrodite a seu favor.
Ante o desespero da donzela, a deusa da beleza se dispõe a perdoá-la. Só que, para obter seu perdão, Psiquê terá de cumprir quatro tarefas.
A primeira é classificar todas as sementes que estão amontoadas em uma sala. De início a reação de Psiquê é se entregar à angústia. Como poderá se desincumbir de tão impossível missão? se pergunta, sentada entre as sementes. De repente seus olhos se maravilham com o que veem: uma legião de formigas começa a separar as sementes, uma a uma. E, quando nasce o dia, estão todas organizadas por tamanho e tipo.
Quando volta e vê que a donzela realizou a contento a tarefa estipulada, Afrodite se irrita e lhe passa a segunda: deve recolher um punhado de pelugem dourada dos carneiros que pastam sob o sol e trazê-lo para Afrodite. Sem grande esforço, Psiquê atende à ordem recebida.
A terceira tarefa é encher uma jarra de cristal com a água dum riacho que corre do rio Estige em direção ao mais alto penhasco. Além de o rio cruzar o mais inacessível lado da montanha, é ladeado por dragões-víboras que a ameaçam “Não se aproxime!” E Psiquê pensa: “Não serei capaz de vencer esta tarefa!”. Nisso surge no céu uma ave. É uma águia. A águia de Zeus, que apanha a jarra das mãos de Psiquê, a leva rumo ao rio e retorna, entregando-a na volta cheia d'água à moça.
Para a última tarefa, Afrodite ordena a Psiquê que vá ao submundo, encha uma caixa vazia com a pomada da beleza de Perséfone, a deusa do inferno, e a traga para ela. Psiquê se deixa desanimar, considerando que a única forma de ir ao submundo é pelas mãos da Morte. Assim, sobe na torre mais alta, preparada para se atirar. Mas, pouco antes do último gesto, a torre lhe ensina como se livrar da dificílima incumbência sem precisar recorrer ao suicídio.
No caminho de volta uma ideia ocupa obsessivamente seus pensamentos: seus infortúnios começaram antes de tudo em razão de seu amor por Eros. E ele não a quer. Para que volte a desejá-la, pensa Psiquê, ela precisa aumentar ainda mais sua beleza. Assim, abre a caixa. Só que não havia ali beleza alguma e sim esquecimento e o mais profundo dos sonos. E ela então adormece instantaneamente.
Ao ver que Psiquê sucumbiu a um sono tão intenso que parece estar morta, Eros vai ao seu encontro, despertando-a. Leva-a para o Olimpo e anuncia aos deuses e às deusas que está finalmente disposto a se casar com sua bela noiva. Quando a beija, Psiquê acorda e dá à luz.
É uma menina, que os pais batizam com o nome de Alegria.
Ele encerra a narrativa com o olhar absorto nos ladrilhos da parede.
Ainda entretido com o relato, não me dou conta de que chegou ao fim. Podia passar a noite a escutá-lo falando sobre o mito. Soninha passa pelo lado de dentro do balcão e pergunta se queremos outra rodada. Faço que não. O poeta faz que sim.
Soninha traz a vodka e olho para o meu copo de suco vazio e meio que me arrependo de não ser alcoólatra. Ou poeta. Ou ambos. Parece haver algo recompensador por trás desse mundo encantado e dos homens e mulheres que nem imagino por que resolvem se dedicar à busca do fogo-fátuo. Por um segundo vislumbro o grande vazio da minha vida, que dedico e dediquei à procura de algo ou alguém que cumpra por mim minhas “tarefas”. Pelo segundo seguinte lamento dolorosamente viver nesta época que não se cultivam mais mitos, apenas se urdem mentiras.
Você acha que este mundo que fizemos está errado além da recuperação?
Ele dá de ombros. Tá na cara que acha. Mas este mundo que fizemos não parece ser sua maior preocupação.
Fizemos é tão imensamente amplo. Certamente fiz minha parte. Sujeitos como ele fizeram?
Pra minha sincera alegria, ele está sob euforia etílica. Uma cintilação em suas pupilas atesta sua disposição de continuar. Não duvido que falaria até o fim dos tempos se pudesse preservar esse estado de sobre-excitação.
Ouso uma pergunta direta sobre o que acabou de narrar: como, em sua opinião, nos situamos dentro dele?
Que mitos vivemos hoje em dia?
Ele me olha sério, um olhar não cúmplice, uma seriedade perturbadora. Por um instante receio estar diante de apenas mais um ébrio que se imagina em contato c’um espírito do candomblé capaz de proezas divinas. Testemunhei esse olhar de predestinado fajuto em muitos butecos vida afora.
Já capitulava ao tédio quando ele acrescenta:
Esse é o mundo que habitamos. E esses somos nós. Crisálidas. Crisálidas dotadas de alma. Precisamos estar prontos para a transição — abandonar o conhecido, desenvolver nossa capacidade de amar. Simbolicamente, a lamparina de Psiquê representa a vontade que cada um de nós tem de enxergar nossa própria situação e de ver quem são de fato as pessoas com quem vivemos e aquelas com quem pretendemos estabelecer uma relação forte. E sua faca significa nossa capacidade de pôr um fim a uma relação indesejada, cortando os laços que nos prendem a ela.
Então, indiferente à minha presença, se pergunta, tudo poderia ser tão simples, não é mesmo?
Vendo minha decepção, sorri. Tentei esconder, vejo que foi em vão.
É o que fazemos o tempo todo, não? Temos medo que os outros vejam o que sentimos. E por isso mesmo temos medo de nós mesmos vermos o que sentimos.
Faço que sim.
Soninha vem reabastecer os copos. Ele confirma. Recuso.
Está todo mundo e seu cachorrinho de estimação preocupado em se poupar, continua. Todos debruçados sobre esse infernal tabuleiro de xadrez que se chama Facebook. Não há ninguém com coragem suficiente para abrir seu próprio caminho, embora todos se julguem com tamanho controle de seus destinos. É um controle fictício, que deriva do hábito de mexer o mouse e apertar as teclas. Só que comandar o mouse ou o teclado não é o mesmo que comandar os rumos da sua vida. 
Então me lembro dumas fantasias que desde a adolescência jaziam soterradas sob os caminhos que tomei pressionado pelo pragmatismo. Por um terceiro segundo sinto um frio no estômago, temendo que aquela angustiante indecisão juvenil volte a se apoderar de mim. Tento me esquivar rapidamente da pergunta óbvia, mas não dá tempo: quer dizer que todo esse tempo em que me imaginava adulto estava só me enganando?
Me recuso a responder. Sou, afinal, o diretor do meu próprio filme. Pelo menos essa capacidade discricionária de nos auto-enganar a natureza nos deu.

Um mamão lava a outra

Silenciar: o meio mais prático e indolor e covarde de aceitar a injustiça.
A hipocrisia só se estabelece a dois, ou mais. É uma moeda de troca. Quando está sozinho, o hipócrita ilude apenas a si mesmo. A hipocrisia solitária é mais ou menos como dispor de dinheiro sem ter onde ou como gastá-lo. Torna-se assim meio que inútil. Um bom exemplo seria alguém a vagar num deserto, delirando c’uma garrafa de coca-cola gelada enquanto sente no bolso a carteira recheada de grana. É na presença de outro que o hipócrita efetivamente se realiza. Sem o outro não podem intercambiar a única coisa que têm em comum. E quanto mais hipócritas juntos houver, maior será o valor da hipocrisia. É nesse tipo de convenção que o hipócrita individual se congratula – conscientemente ou não – de ter investido a vida toda na arte da (dis)simulação. O que importa é enganar o senso de solidão.
O hipócrita procura sempre se afastar o máximo possível da verdade. Para ele a distância lhe parece tão natural, que muito cedo na vida ele perde a noção do que seja a verdade e qual seria seu propósito. Quando ainda conserva dentro de si algum resquício da verdade, o hipócrita ainda tenta aplicá-la em certas situações de seu dia-a-dia. Mas logo desiste – tais tentativas sempre resultam em dor, frustração e, horror dos horrores, conflitos interpessoais! O hipócrita acha que conflitos com outras pessoas são o fim do mundo e aos poucos – dependendo do caso, instantaneamente – decide que não vale a pena. É então que o hipócrita chega ao Grande Lema da Hipocrisia: pra que sofrer à toa se podemos todos ser relativamente felizes encenando uns pros outros? E o que ainda resta da verdade assim se esvai pelo ralo de sua consciência e da consciência de seus pares.
E dá-lhe convenção. É curioso como os hipócritas gostam de se reunir. Praticamente vivem para comunhar. É solenidade, festa de aniversário, casamento, enterro, um joguinho de dominó no buteco, um convescote no fim da tarde com colegas de trabalho. Até que nos últimos tempos lograram realizar a quintessência das convenções, a Mãe dos Congraçamentos. Bidu: as chamadas redes sociais, pracinhas de igreja de antanho multiplicadas por uma dimensão infinita onde bilhões de hipócritas se juntam para medir a hipocrisia uns dos outros.
E aqui recomeçamos o ciclo. A hipocrisia é uma moeda de troca. É uma espécie de paraíso em que as individualidades entram em suspenso para ceder lugar ao Grande Angu Coletivo. Após alguns exercícios de prática nessa modalidade, o aprendiz de hipócrita estará prontinho para se liquefazer como indivíduo em nome do bem comum. Daí a desenvolver o bom-senso é um passinho de bebê. É o bom-senso que distingue o hipócrita das demais classes de viventes.