Eureka

WhatsApp, a maior revolução socialista do século 21.

Dá vontade de deitar todo um tratado ou não dá?

Mein Dieu

O PC do B comemorou a vitória mentirosa de Maduro c'uma nota: “Vitória retumbante do povo venezuelano”.

Manuela d’Ávila, provável candidata do partido à Presidência da República em outubro vindouro, deve estar exultante.

Cuspe.

Como pode haver espaço para tamanha hipocrisia na cabeça dum cristão?

Manuela, vá passar um ano naquele shangrilá terreno e volte para nos contar a experiência. Só não vale ir como dignatária estrangeira, com direito a favores inalcançáveis ao venezuelano médio e a salamaleques bolivarianos.

E, em sua razzia básica pelas plagas do nosso vizinho comunista, não se esqueça de levar a filhota. A tadinha haverá de retornar doidinha pra botar as mãos em itens de alto luxo como sabonete, papel higiênico e pasta de dente.

Todos vírgula


Em geral não comento sobre as opiniões alheias, cada qual que ache o que quiser, inclusive sobre o que escrevo, meu texto não está em código hebraico nem sou o Homem que Falava Javanês. Ao contrário de muita gente na internet por aí que fala pelos cotovelos sem muita preocupação com a própria inteligibilidade, escrevo não para que me compreendam mas para compreender meu mundo. Não me presto a reverenciar irracionalmente ídolos ou totens, sejam quais forem. Estou no mundo para pensar. Não sei agir nem viver de outro jeito.
Sou averso ao espírito de rebanho dos que seguem o comando do batedor cegamente, o pensamento em bloco me dá urtiga, vacas sagradas e tabus me dão engulhos. Qualquer um, seja aqui, seja em outro país, pode iniciar uma nova seita – basta começar a pregar feito um visionário. É fácil, pois 98,34% das pessoas está em busca d'um pai. para mim, pai só o meu, e mesmo assim hoje pondero e crivo grama a grama a “sabedoria” que ele me deixou.
Evito repetir bobamente tolices que escuto por aí. Meus princípios e opiniões, quem os desenvolve sou eu mesmo. Não delego essa tarefa a terceiros. Me sirvo de “pensadores” apenas para ampliar meu conhecimento e confirmar/afastar minhas próprias idéias. Na minha cabeça e no meu destino mando eu. Por isso sou um cara responsável. Quando digo alguma coisa pode ter certeza de que é uma opinião amadurecida, desenvolvida no tonel dos meus anos. Dia a dia luto para fugir da predestinação. Os nossos pensamentos, cada um deles, não nos pertencem -- são inculcados dentro de nós a partir do dia em que nascemos. Vivemos sob a égide da herdade. Vamos pegando o bastão que nossos ascentrais nos deixam e passando adiante. É simples assim. Você pode dar a isso o nome de “cultura”. A cultura é inescapável. Mas pensar criticamente sobre essa nossa herdade, isso é possível. Para mim, é básico, hoje faz parte do meu sistema nervoso, do meu sangue.
Não me escondo atrás de “pensadores” para formar minha opinião. Minhas idéias se baseiam sobretudo na minha própria experiência. Olho o mundo em minha volta e analiso. Não cito autores que nunca li, como tem gente por aí que vive citando pensadores obscuros, demonstrando que não passam duns frívolos. Olho em volta no meu mundo e, quando está ao meu alcance intelectual, tiro minhas conclusões. Senão, sigo matutando. Maturando. Envelhecendo. Assimilando meu próprio desenvolvimento. Não uso fantasias. Nem desempenho papéis como se fosse personagem de novela. Acho graça quando vejo gente que faz plástica ou pinta os cabelos. Fazer isso é se negar a si mesmo. Cada uma das minhas rugas é prova de que estou vivo, de que sou um ser que evolui. Quem quer ficar com cara de bebê a vida inteira não passa disso, dum bebê.
É por isso que minha cabecinha é constituída principalmente de dúvidas. Só os tolos têm certeza absoluta de tudo. O mundo, putz, o mundo é milhões de vezes mais complexo, enigmático, obscuro do que essa divisão primária de esquerda / direita. Esse tipo de conceito existe porque 97,28% das pessoas têm essa necessidade insaciável de verdades definitivas. Crer em esquerda / direita não é uma concepção política, mas uma redução espantosamente elementar da realidade. Quem pensa o mundo em termos de esquerda / direita não vê o mundo como ele é, e sim como gostaria que fosse. Não passa dum delírio. Nesse sentido, assume dentro de nós a mesma função catártica que a religião. Esse tipo de pensamento binário nos remete de volta ao homem das cavernas. Quando vinha a tempestade, trazendo consigo seus terríveis raios e trovões, o carinha, estupefato, incapaz de compreender aquilo em sua magnitude, automaticamente creditou o fenômeno a seres incorpóreos, sem forma e sem rosto, aos quais deu o nome genérico de “deuses”. A partir daí, sempre que se via aterrorizado pelo ribombar horrendo, ele se lembrava de chamar os “deuses” e vupt! O milagre da redenção se fazia. Com a dualidade esquerda / direita é mais ou menos a mesma coisa. Quando se vê incapaz de compreender um acontecimento qualquer, carinha não pensa duas vezes -- tacha no bicho a pecha de esquerda ou direita e estamos conversados. É um processo puramente mecânico. Um processo que ocorre por si mesmo. Autônomo. Ocorre  sem que a vítima se aperceba. Mas, acima de tudo, é um processo confortável. Nos poupa do aborrecimento de ter de pensar. 98,71% dos seres humanos não gosta de pensar. Isso faz parte da distribuição natural dos papéis sociais. Mas já é outra história. Fica para outra ocasião.
E o mesmo processo reducionista ocorre quando carinha se vê diante de alguém sem ideologia política. Para carinha, alguém desse tipo é, mais que improvável, impossível. Carinha, sendo intolerante por natureza, não admite que existam pessoas que não se encaixem nos moldes tradicionais da cultura. Para o carinha de pensamento binário, quem não é esquerdista é direitista e vice-versa. A concepção dual não admite que possam existir outros tipos de concepções. É ela, a Concepção Dual, que manda no pedaço. Afinal, para que complicar, se podemos reduzir este nosso fantástico mundo e os miraculosos seres que o habitam a duas meras palavrinhas?
Vivemos sob a luz da mentira. Tudo bem, faz parte da nossa “natureza”. Mas me recuso a viver em estado de genuflexão.
Agora, não vá pensando que posto o que costumo postar sob o mesmo princípio da omissão que os cagões por aí usam para se omitir de tudo que vale a pena nas suas vidinhas de inseto. Ou seja, ESCREVO PARA NÃO ME OMITIR.
Sei, parece óbvio. Mas parece óbvio AGORA. Antes não parecia. Pelo menos não da forma como funciona o medo com que os cagões fazem ou deixam de fazer o que quer que seja. Inclusive, como dizia aquela minha tia que morreu de tanta Cibalena, responder ao que não entende ou não tem peito de confrontar cum debochezinho de neném.
Amém.

Make Banânia Great Again!

Caracas, caras, vocês precisam, reitero, eleger o Youtube como fonte exclusiva de informação.

Esqueçam o New York Times, o, ugh, Washington Post, a, eca, CNN. Esqueçam, acima de tudo, o Estadão, o Vejão, a IstoÉ, O Globo, a Época. Esqueçam, principalmente, especialmente, sobretudo, mais que tudo, a FSP, covil onde viceja o maior número de lulistas da face da Terra, pululando nos interstícios das matérias da redação, a deixar rastros da mais fétida gosma por entre um artigo e outro de stalinistas inveterados como Saflate e André Singer e demagogos nauseabundos qual Gregório Duvivier. 

(Tem uma história comovente sobre o Saflate, de que fui testemunha ocular, por coincidência estava na Cidade Universitária aquele dia vendo uma palestra dum dos meus rebentos. Bottomline, Safla foi espetacularmente flagrado pela esposa botando chifre na dita num dos escurinhos da Escola de Filô. Barraco total. Qualquer dia entro com mais detalhes, acho.)

No Youtube são, literalmente, milhares de vídeos testificando a paixão do americano médio por seu presidente. É, o americano médio, o carinha que labuta pelo menos oito horas diárias pra fazer aquela colossal engrenagem girar, o matuto feliz da vida por sua anonimidade na dita América Profunda, o zé-mané do grotão que fatura 120 mil dólares por ano pra encarapitar na parede da sala uma tevê de cem polegadas e enfiar na garagem duas daquelas horrorosas pickups suficientes pra dar conta da linha Paissandu-Santo Amaro no horário do rush, gentalha a cuja opinião a mídia esquerdista não deu lhufas durante as eleições e viu seu sonho de eleger a imunda Hillary desmanchar-se in the air. Hillary seria, pros nossos padrões de torpeza política, uma mistura de Dilma e Maluf, com todas as implicações imagináveis. Como ministra do Exterior, enviou e recebeu 30 mil emails usando um servidor particular, o que é patentemente ilegal, e até hoje não deu satisfações disso à Justiça. Também durante seu emprego como chefe da Diplomacia americana, faturou centenas de milhões de dólares através da Fundação que criou ao lado do maridão comedor de estagiárias da White House.

No dia da votação as pesquisas davam como certa a vitória de Ms. Clinton, num vexame jornalístico suficientemente momentoso para recobrir de glórias o nosso repulsivo DataFolha. Astros e estrelas de Hollywood, outro bastião do esquerdismo obsoleto, estatelaram os olhos vagos de pasmo. Mas que escumalha é essa que vota num direitista empedernido? quedou boquiaberta uma precocemente esclerosada Maryl Streep. Um desorientado Alec Baldwin saiu pelos quatro cantos do mundo televisivo a fazer caricaturas bisonhas de Trump. Os hosts dos talkshows, sem exceção, caíram em catatonia de estupefação ante a nova realidade absolutamente nova para todos eles. George Clooney, gravado numa daquelas solenidades que esse tipo de gente gosta de frequentar troçando da possibilidade de vitória de Trump, fell off the horse e viu-se obrigado a um low-profile básico.  Roberto DeNiro botou a compostura de lado, proferiu um elenco de palavrões contra a honra e a inteligênca do novo presidente, concluindo que "agora estamos numa crise com esse idiota, que nunca deveria ter chegado ao cargo a que chegou", olvidando distraidamente que o tal idiota foi eleito pela maioria dos eleitores de seu país sob o sistema eleitoral em funcionamento em seu país, numa vibrante demonstração de espírito democrático.

Bottomline again, o hillbillie, o caipira americano nutre desprezo cada dia maior pela mídia em geral e especialmente pela imprensa progressista que martela incansavelmente fórmulas e chavões em sua programação na tentativa vã de fazer a cabeça da escumalha atrevida.

E a grande piada foi a rasteira dada pelo próprio topetudo na mídia esquerdista, passando a usá-la em benefício próprio à revelia desta quando começou a acusar a CNN de fake news, provavelmente no mais genial golpe eleitoral jamais praticado por um candidato across the world. Especialistas hoje calculam que as mídias televisivas e sociais entregaram por baixo 2 bilhões de dólares em propaganda ao diabo loiro, sem saber hehehe. Quando se deram conta e começaram a cortar a exposição do cara em seus programas, o homem já estava eleito. Melhor que esse só o meu Mito Bolso.

Enquanto vão tentando se refazer do trauma abarrotando talkshows de experts tão palavrosos quanto nossos preclaros cientistas sociais que de cientistas têm só o nome, mídias progressistas, canastraços hollywoodianos e o Partido Democrata procuram empurrar a "agenda" (outro terminho besta que já está aterrissando no repertório dos ditos "cientistas") da imigração. Os gênios querem pelo menos duas coisas: legalizar cada um dos undocumented hoje vivendo nos EUA e, pasme-se, escancarar as fronteiras americanas para sabe-se lá quantos milhões de cucarachas que neste momento estão cerrando fila em caravanas emigratórias rumo ao México desde toda a América Central. O objetivo dessa internação de cambulhada não é nada ingênuo. Uma vez internalizados e legalizados, os novos cidadãos formariam um contingente, calcula-se por baixo, de trinta milhões de eleitores dos Democratas. Tenho cá pra mim que os sujeitos andaram estudando o nosso salutar Bolsa Família e resolveram levar a boa ideia de criar o maior curral eleitoral do planeta para as plagas lá deles. É sinhozinho Lulla fazendo escola, eita nóis.


A namorada do Gregório II


Este texto publiquei a primeira vez em março de 2016. Meus textos que resultam assim como este me dão uma puta inveja, a non chalance, a insolência, a soberba, o infinito desprezo pelos idólatras e por quem assiste a copa do mundo e por quem espera que eu escreva assado ou assim.
Vocês vão notar abaixo um parágrafo iniciado com "Umas pessoas havia de cujas almas apenas uma porta (...)".  É um dos motivos que me levou a republicar este texto. Tal parágrafo é um dos grandes achados e perdidos da minha literatura. Digno de Tolstoi. Outro motivo foi tê-lo escrito, como tantos outros, e outras, bêbado. Outro foi que em vários pontos entro num tipo de cio estético. Outro foi que muitos outros parágrafos têm relação, vi hoje à tarde, com o textítulo mixuruca que publiquei ontem à noite. Outro foi que este texto tinha um alvo especial, com que gastei munição além do desejável ao longo dum tempo longo além do prudente, que aqui acerto várias vezes no coração.
Se o seu corretor apontar "textículo" como ortograficamente errado, relaxe — você está em mãos igualmente erradas.

A namorada do Gregório II


Uma das coisas que me deixam encasquetado é citação de poetão.
Desde meus 10 aninhos me amarro no barbão do Walt Whitman. Papai era tão glabro quanto Roland Barthes segundos antes de virar carne moída sob as rodas daquele furgão de lavanderia. Deliro testemunhando um françois alienado de suas teorias estapafúrdias enquanto é massacrado pela verdade do mundo.
Eu mesmo um dia serei atropelado, estou certo. Não por um carro de combate vendido pelo Putin ao zé dirceu no grande levante das massas contra a inteligência e a sensatez mas prosaicamente por um Jeep coreano desgovernado sob as patas de unhas pintadas duma mãe com pressa de deixar a pirralha mimadinha na escola onde professores mambembes ensinam crianças alheias como levar no rabo fazendo de conta estão bebericando champanhe ao lado do príncipe Carlos numa barca deslizando suavemente pelo Sena neste mais longo dia do verão parisiense.
Será mesmo verdade que vocês hoje aí fora são mais de 7 bilhões de bípedes dizendo exatamente a mesma coisa em múltiplos idiomas enquanto teclam os mesmos botões e recostam no mesmo sofá enquanto tentam sufocar a mesma repulsa e aspiram pelo mesmo destino?
Custa-me saber.

Como todos vocês sabem, sou um frustrado, neurótico, priápico, agnóstico e com a perna esquerda ligeiramente mais comprida que a outra, como todo escritor que se preze.
Desde a mais precoce idade sonho em abafar nos salões literários da minha terra, quando minha terra ainda tinha salões literários. Hoje me conformo em sonhar em abafar neste blog pelo menos.
Venho escrevendo por aqui há exatamente seis anos e ninguém e sua vizinha dá a mínima.
Assombrado com a falta de feedback, matutei uns 2 segundos e concluí que foi porque nenhum de vocês entendeu a jogada. Então explico: minha intenção era fazer piadinhas com, por exemplo, essa mania do google em nos corrigir quando digitamos um termo de busca e não obtemos nenhum hit. Como também sabem, o google tem esse horrendo costume de achar que fazemos todos parte dum colossal rebanho humano de jegues. Ao que parece não passa na cabeça do Larry que pode haver no meio da manada um ou outro indivíduo, dotado da respectiva carga de pessoalidade, características únicas, idiossincrasias e escova de dente cor-de-rosa.
Como já expliquei em dezenas de postagens, meu maior sonho é me tornar um escritor bem-sucedido e paparicado nas comunidades virtuais, quem sabe até virar uma referência da literatura universal atual. Sei que vocês debocharão, fazendo aquele gesto típico de desmunhecar derrisoriamente. Mas, em que pese que sim, haverão de admitir que se trata duma pretensão legítima. Afinal nós escritores vivemos botando banca de sabidos, eruditos, criadores e o cacete mas o que buscamos no duro é que nos olhem com admiração e até mesmo uns laivos de inveja. Eu pessoalmente gostaria muito de sair incógnito pelas ruas aqui no meu bairro só pra 5 minutos depois ter um bando de fãs me perseguindo, estendendo bloquinhos de coleção de autógrafos em minha direção e suplicando um segundo deste meu penetrante olhar de gavião ensandecido.


Agora, imagine-se cuma Contigo nas mãos, a fotonovela (lembra?) se chama A preferida do padre que nasceu um século antes da internet.
Imagine ainda que minha vodka está no fim mas não tanto.
E, Gott, imagine que nossas vidinhas não têm nada a ver com que nossos cerebrozinhos imaginam.
Sou um constante adolescente
Suplicando que os adultos e o mundo que os adultos manejam
Me deixem entrar pelo menos alguns minutos (pois alguns minutos seriam suficientes) e então a fugacidade que planejei para mim e minhas coisas (minha vidinha inclusa) me bastaria.


Como todo intelectual digno do nome, Gore Vidal extravasava dos clichês em que os mais estúpidos e menos inconformados em geral se escondem para não pensar com verdadeira independência. O esporte preferido de GV era enfurecer direitistas e esquerdistas, doidivanas e reaças, héteros e ateus (sic) ao bel prazer, sem passar telegrama nem recibo. Um sujeito como GV aparece neste planeta só a cada meio século, para sorte dos diversos matizes de patrulheiros. Não temos um GV no Brasil desde... desde o século 16, acho.


Vejo daqui de dentro e de baixo do que me restou de órfão emotivo a sôfrega corrida dos expositores de currículos por estamparem em suas paredes caiadas de restos de latas de tinta látex as infaustas glórias que seus papai e mamãe sonharam para eles durante aquele sofrido coito no, como gostam de optar os clichês de Holliwood, banco traseiro do Buick e que, pra nós aqui abaixo da democraia do Chávez, se dá quando muito encima da pilha de caixas de cervejas no fundo do buteco imundo nas cercanias da V. Madalena.
Estou chegando à bebedeira e deliberando por permanecer por aqui mesmo. A grande questão que nos recusamos a encarar é se tudo não passa duma grande perda de tempo. Sem falar nessa mania de tomar banho todo santo dia como se fôramos baiacus. Daonde virá essa necessidade de contato com os elementos? Faz 5 milhões de anos que deixamos a vida aquática. Ai que falta de ar. Não seria mais aconselhável ficar numa poltrona bem seca, nas mãos um livreco igualmente seco, ruminando o gosto amargo destes dias e noites que não passam? Pelo jeito só consigo arrancar de vocês alguma info digna de registro quando dou umas estocadinhas no meio do nervo letárgico. Não vão reclamar depois.
Estou escutando Angel do Hendrix. Auge.
Spurt.
Deus, onde estás que não me escutas?
Preciso duma epifania.
Vejam. Fazer literatice não é tão foda afinal. A há à farta por aí em blogs de pessoas sérias e compenetradas das miçangas da vida.
Esta preguiça me mata.
Merda, por que as mulheres têm de ser tão pragmáticas? Só pensam em procriar.


Umas pessoas havia de cujas almas apenas uma porta de imbuia e dois metros me apartavam. Quão longa, intransponível era essa distância. Hoje sei que posso fingir que não e sim. Tinha em algum lugar algum conceito de completude vazia que me bastava. Não era fingimento, veja. Passei a fingir anos depois quando aceitei a hegemonia do mundo. Foram longos anos. No início pensava que sairia ileso. Hoje nem imagino quantos monstruosos danos tive de aceitar na negociação.


Me disseram que psicólogos e psicólogas pesquisam o google antes de aceitar marcar a entrevista inicial com um potencial paciente / cliente, sei lá.
Deu pra sacar?
Se você andou aprontando além do aceitável por aí, pode pendurar as chuteiras.
De minha parte, eu não seria aceito nem no Charcot, na via Anchieta onde já fiz tratamento, como sabem os que leem atentamente meus escritinhos.
Anyway, não corro tal perigo. Já tive provas cabais de que não há terapia na literatura humanista que dê conta do meu ser.
Eu sou foda. Os internos zanzando pelo pátio do Charcot são foda.
Amanhã, se não estiver derrubado como estou hoje, tentarei lhes contar por que é que a literatura não cabe em pequenos blogs formigando de crianças que sonham em escrever o grande romance do século 21 num banco do McDonalds.


Já fui acusado de sofrer os efeitos do tempo dezenas de vezes. O mais patético: por gente que se arma de ares literários com seus narizinhos empinados querendo posar de gostosões.
Obviamente os mentecaptos jamais leram uma linha sequer de quem quer que seja que tenha algo a dizer sobre a natureza humana na literatura mundial. De certo jamais leram Shakespeare. A obra do Bill, eivada de centenas de personagens anciãos, daria nesses energúmenos torcedura de nariz.
Imagine um Rubem Fonseca que, por um sonho de inverno, viesse postar num desses fórus entupidos de teens. Seria escorraçado pelos intolerantes menores de idade que não fazem a mínima ideia das maiores injunções da vida e, inocentes, se pensam capazes de impor a ditadura da juventude sobre todos os seres.
Então imagine cada um dos maiores escritores da humanidade e a idade em que morreram e imagine, ao lado de cada um deles, um bostinha adolescente lhe ensinando que suas datas de validade já eram.
Por essa e muitas outras adolescentes cheios de empáfia me dão nos nervos. Não toleram que um sujeito como eu possa se expor da forma inconsequente como me exponho. Provavelmente eu os assuste.
Pois, porra, que sentido há em fazer literatura e opinar sobre a literatura e sobre os homens e mulheres que a fazem sem assumir sua pessoalidade?
Pois, em meio à fulanização proporcionada pela internet, a individualidade hoje em dia vale ouro.


Judiciário coisa e tal, identidade pública na rede, risco de se envolver em quiproquós, risco de afetar o currículo e a carreira, perigo de manchar a reputação, quem sabe daqui uns anos levantam lá o teu prontuário, você se portou “inadequadamente”, frio na barrigona que começa a intumescer de cerva, a fuzarca internáutica afinal não vale tanto a pena assim, não é? Melhor voltar para a minha moita, hehehe....


Sempre que vejo um escritor ou poeta pedindo opiniões alheias me ocorrem As cartas trocadas entre Rilke e o jovem poeta Kappus. Esgoto o que penso a respeito em De anjos, ratos e outras pragas.
N'As cartas você encontrará tudo de que precisa para escrever.
Ou melhor, não encontrará nada.
Como escritor/poeta, você tem de conformar com sua solidão. E desistir das milhões de convenções sociais que brotam ao seu redor a cada segundo. Senão, deixará de ser você e passará a ser todos.
Não seja todos.
Não seja eles.
Seja você.
Não é moleza ser você.
São oito bilhões de fulanos, sicranos e beltranos lá fora contra um só você. A briga é desigual. Você não terá chance se não se assumir como um ser especial e único, sem molde, averso à linha de montagem, disposto ao próximo passo apenas se o caminho for seu e de mais ninguém.
Escritores e poetas são antípodas de carimbadores constantemente afoitos para distribuir suas etiquetas, regras e normas.
Não vou dizer que é preciso ter coragem.
É preciso ter coragem.
Eu, particularmente, estou ainda vivo porque não a tive.
Lamento cada dia desde então.
Se você se acha predestinado a virar uma estrela com brilho próprio e não apenas reflexo do Sol, talvez um dia precise se incendiar.


Sei, machos bocejantes dão sono em suas fêmeas. You had it coming.
As mulheres tão precisadas dum paulão em suas vidinhas insossas.
Quem não?
Eis um dos segredos dela, vida.
Certa feita, 13 aninhos, fiquei esperando.
E ali na fila pude enxergar sua tecitura.
E silenciei, até pra mim mesmo — era vida demais para um ser irresoluto de querer viver.
Quer que te agradeça? Obrigado. Mudou alguma coisa?
As partículas que me compõem são só minhas e a elas devo minha atualização.
Spit.
Por que meu uísque é tão perfumado?
Acho que acabei de compreender a alma russa.
Se vomitar durante a madrugada, ofertarei meu vômito a vocês.


Pego aleatoriamente um livro da obra completa de Borges em minha estante e abro aleatoriamente numa página qualquer e leio aleatoriamente um parágrafo e me assombro e me professo pela enésima vez agradecido e reconhecido da existência de homens como Borges que nos elevam um tico que seja da mediocridade e não é um sociólogo numa entrevista em que deixa demonstrado que a palavra não é seu forte que vai abalar 1 mm que seja o que aprendi até hoje sobre homens pequenos e grandes homens.


Estou procurando alguém capaz de discutir criação literária e artística cum mínimo de competência que não seja inapto para ir além de citações previsíveis dos medalhões do mundo ou das piadinhas sórdidas ou do protocolar confortável.


Vou dar uma dica, gasto grande parte do meu tempo atacando as pobres ovelhinhas indefesas eternamente a proteger suas bucetinhas virgens dos monstruosos cacetões que rondam a noite lá fora à procura dum cabacinho inermemente doentio, acordem antes que seja tarde, já é tarde, será tão difícil de enxergar? vomitando minha verve aqui pruns covardes acossados atrás da porta da calhorda da Elis e do vivaldino do Chico escritor parisiense, ontem à noite mamãe voltou do além pra me puxar a orelha, nenê! (me chamava de nenê a carcamana, sei, tá explicado, caralho, que exaustão dos vermes nascidos para apascentar galinhas, paixão paixão paixão me redima me abduza toque o acorde inicial da minha vida estou a ninar quantos surdos existem neste planeta? eis a conta incalculável.


Boa escrita, cúspite! que significa isso? não se deseja isso nem mesmo a quem se pretende escritor. Little Rose, quando casada com Philip Roth, ao sair para a feira onde ia comprar as castanhas de caju de que Roth é aficionado ainda hoje, nunca dizia “Phil, boa escritura!” (pois é assim que se deveria dizer isso se isso pudesse ser dito a qualquer escritor que fosse, quer fosse pretenso ou já realizado), pois Little Rose sabia que correria o risco de levar uma maquinada de escrever no meio da fuça (Roth escrevia e sempre escreveu com máquina de escrever antes de se aposentar, são pitorescos esses geniozinhos literários). Você desejar a um escritor — e quando digo escritor me refiro a um bom escritor — o que quer que seja — seja um prosaico “bom passeio”, ou um cafonérrimo “boa escritura” — é desconhecer de cabo a rabo do oiapoque à marilena chauí what writing is all about.


Parafraseando Clemanceau  e seu “a guerra é séria demais para ser deixada aos militares”
Parafraseando Delfim e seu “a economia é séria demais para ser deixada aos economistas”
Parafraseando Nietzsche e seu “a música de Wagner é séria demais para ser apresentada no casseta e planeta”
Devo dizer que sou sério demais para ter sido criado por uma mulher como mamãe.


Não visitem meu blog literário porra nenhuma.
Não quero, nunca quis, a proximidade de apaixonadinhos vocacionados para edulcorar a aspereza do meu mundo, de libélulas prostitutas sempre prontas a eletrizar o cadaverismo de seus papais e mamães diante do aparelho de TV na noite de sábado torcendo para que o cemitério de domingo nunca se consume e todas essas nossas experiências não tenham passado dum pesadelo do qual acordaremos quando morrermos, que lixo este universo em que nasci.


Pra mim a razão sempre foi, desde meus tempos de 40 cm de altura, que nossas famílias são mais ou menos especiais. Ia alegar outro fundamento mas acho melhor deixar pra depois. Não vejo lá estreita ligação entre uma família e outra. Nesta primeira etapa da investigação devemos nos ater aos elementos internos 3 pontinhos.


Puta que pariu, tem noite parece que minha genialidade não tem fronteiras, dá até medo. Fico pensando, aonde é que vai parar meu dieu? Pode não ter fim. Não sou um tipo de ser humano lá muito autoexploratório como soem ser os grandes artistas. Já passei por momentos particularmente terríveis em que tive a clara impressão de que me seria impossível retornar. Não, nada a ver com Nietzsche e seu ponto (único) do não retorno. O próprio Frederico não retornou. Chegou ao cúmulo de ter nojo de Wagner, pra mim prova incontestável da sua não retornabilidade. Hélas, tudo é questão de coragem, acho. A maioria dos bovinos pelos rebanhos no mundo no máximo ousa comprar um carrão arretado ou ler um pensadorzão porque ler  pensadorzão é chique e amaina os ataques agudos à consciência de que somos um bando de animais selvagens querendo comer o rabo do próximo e da próxima e dar o nosso próprio à próxima ou ao distante. Tudo é uma grande merda.


Nunca abanaram o rabo pra mim.
Sou um frustrado.
Sabia que “alguém” eliminou o ruído produzido pelas engrenagens do mundo quando engrenam? Ou desengrenam?
Craaaakkk (será predestinação?)
Imagina o preço de tal intervenção?
Essa bosta está prestes a implodir.
Meu demônio angelical me visitou ontem à noite e quis saber, onde desejas passar o instante da implosão?
Quer dizer que ainda não aconteceu? I asked back.
A onomatopeia da desengrenagem do mundo é dad daddy, eu sou vertical, disse Sylvia Plath quando lhe perguntei se queria me levar consigo.


Conversa fiada. Depois da novela A tempestade vem o programaBonanza (lembra? Little Joe, Ross, Robert).


Minha benóvola Xuquita bateu as asas que não tinha e nunca teve e voou. Teria sido assim e teria sido tão simples se a partida tivesse ocorrido dentro do planejado. Mas sou uma anta e nada nunca haverá de sair conforme o planejado. Pois sou um imbecil abilolado eternamente às voltas com os entes etéreos que me habitam e CULPA! CULPA! CULPA! não previ o que estava ali acontecendo na minha própria fuça. Minha santa Xuquita começou a botar os intestinos para fora e, eternamente aloprado, me limitei a olhar e liguei, liguei e liguei e não encontrei o miserável do meu vet e recorri à internet e localizei uma fariseia que procrastinou o sofrimento da minha amada por um loonnngo dia em que me prostrei abestalhado a testemunhar sua dor. Não posso acreditar que aconteceu mais uma vez, não quero ter um entezinho destes ever more, bah, que patético aqui choramingando pra desconhecidos esfomeado de compaixão, suplicando aos inexistentes deuses que pelo menos uma vez me permitam a graça da crença, jesus, não é assim, meu querido, mantenhamos a compostura das aparências, minha Xuca se ergue no meu céu batendo as asas que lhe dei e fôdasse, tá certo agora? que vidinha de vermes é esta que vamos levando, cuspe!


Sou o demônio filho da puta sob 60º graus de febre sifilítica e efeito de 482 garrafas de uísque de terceira que escreveu isto: Um escritor sem assunto na esperança de que um dia alguém cum mínimo de sensibilidade literária e indiferente ao aprendizado de suas professorinhas mortas de intactabilidade dos cabaços de ouro do papai, que mundo asqueroso esse dos diletantezinhos líricos horrorizadinhos com a falibilidade desta bosta de raça, seus indolentes sob o luz fedida deste sol doentio, fôdanse todos e a cabeleleira da tia alzira.


Sabe, um dia fui apaixonado por uma menina chamada Marina.
Não lembro direito minha idade. (Note o tom altivo e vagabundo do New Criticism.)
Puta merda, não me lembro nem da Marina.
Não vá cair da cadeira de tanto rir. É foda, eu sei. Porém também sinto saudade do beijo que nunca lhe dei. Pobre Nelson, a branquinha não caiu bem na carreira dele.
Lá se vão mais de 50 anos e então não tinha a mais ínfima desconfiança de que estaria aqui na internet, quase 11 da noite, a rememorar a vaga e oblíqua figura de Marina.
Oblíqua? Não, não conjeturava então que tais tipos de adjetivos pudessem vir boiando na crista da enxurrada que acabou de varrer a rua aqui em frente.
Ma, quero lhe dizer que estou aqui, que não mudei, sou ainda eu mesmo e não, não aprendi ainda a lição dos sentidos da vida que a nossa fessora quis me ensinar.
Já imaginou quantos paus d’água se afogaram enxurradas afora antes do advento da internet?
Tô tentando ouvir Bach mas tudo que consigo é Hendrix. Quero fazer parte duma Cruzada, empunhar um daqueles espadões de 30 kg que os brutos brandiam diante dos pescocinhos dos mulças. Quero me alistar na Luftwaffe, pilotar um Tiger de 40 toneladas rumo ao Institulo Lula.
Me poupe.


U know, eu não saberia mais viver sem este meu púlpito digital. Amiúde vejo-me assarapantado a pentear os fartos, hirsutos fios de cabelo da minha imaginação pensando, porra, como é que sobrevivi quase 50 anos sem a divina dádiva dos blogs?
Antes da internet eu sabia que o mundo era infestado de patetas masoquistas, mas só a internet pôde me presentear com tão vastas evidências. Vai ter idiota assim em Júpiter.
É por essas e outras que às vezes até me arrependo de rogar mais celeridade ao encontro com a dona Ceifadeira.
Quem diria, sou um espancador nato e não sabia.


Não entendo poeta que não bebe, não entendo poeta que chegue aos 80, entendo que ele não tenha feito poesia sobre o filho esquizofrênico morto há tempos; acho que estou começando a entender a poesia e a terei dominado no último instante, deitado (espero que não no hospital, espero que não recoberto por lençol macio recendendo a vida, pronto pra viagem), e pedirei que todos (todos? nem nessa hora serei sincero? não há nem haverá mais ninguém  ao meu lado e estarei conformado, talvez satisfeito, que me basto) se retirem para que eu e ELA possamos conversar a sós; ELA terá mil coisas a me contar, mas e eu? é provável que esteja então terrivelmente tímido como sempre fui, zeloso que estranhos desconfiem dos meus assuntos, possam puxar algum ponto dum fiozinho de que não me tenha dado conta; e falaria de que afinal? que é que se fala numa hora dessas a alguém desses? então saberei e evitarei ser frívolo como sempre sou e conhecerei o sossego que tantos e tantas me mostraram existir e nunca fui capaz de comprovar por mim mesmo e não estarei mais sozinho.


Você aí com esse narigão torcido olhando agora pra tela pensando what the fuck, será que deus não deixou nenhuma migalha pra mim?
A casta superior anda uma tristeza, nem na época do Adolf a coisa tava tão braba. Até recentemente a gente ainda podia descolar umas moedinhas perdidas nas proximidades da catraca do busão, do guichê do metrô, esses locais onde o vulgo costuma deixar o suor de seu trabalho em troca das misérias que nasceu pra engolir em suas vidinhas de lombriguinhas otimistas e assanhadas.
São 5 e caceta da matina e eis-me aqui com estes meus dedinhos irriquietos a restrugir mais um textículo eivado de engabelo e intrujice que assim que você acordar pra ler aí pelas 10 já terá se magnificado numa sonata insinuante que na certa enfeitiçará seu tio Nestor e os fantasmas que vicejam em sua consciência.
Fica decretado que este pedacinho do inferno digital se prestar-se-á como depósito de pensamentos grandes e profundos e forrobodós mentais que qualquer mané a se deixar apanhar pela rede nas madrugadas equivocadas movido pelas turbulências de seu travesso coraçãozinho tal como este desorientado guarda semovente metafísico que ora vos estarrece de pompa e beleza poderá servir-se deste nosso abrasível rincão esgotífero para elucubrar as mais antalógicas sacadas sobre os gênios que pululam neste planeta ou já se foram ralo adentro.


Humanidade,  cagada divina
Sirvam-se, senhoras e senhoritas
Registro mais recente: noite passada, por volta da dez e trinta, confesso que entrei neste blog para deixar mais um registro desta minha infeliz existência mas me abstive, pelo que dou graças por ter-me desencontrado em meu labirinto.



Já que ninguém se interessou e nem sua manicure entendeu minha piada sobre o ménage entre Lya Luft, Mia Couto e Andrea Matarazzo, com suaves participações e figurações de Cássia Kiss e Deborah Kerr, serei obrigado a contar um recente episódio que sofri envolvendo o pseudoescritor Luiz Inácio de Loyola Brandão certa feita quando ele foi convidado a servir de paraninfo (notem como evitei “convidado para paraninfo” e vejam como é que se escreve) em Américo Braziliense, terra natal de mamãe mas não é isso que vim testemunhar nesta ocasião e sim que acabei de chegar dum passeio com minha notável Zezeí, maldito amálgama de dobermann com chiuaua, quando me dei conta sem querer que o entregador de carne estava entregando num prédio aqui da vizinhança e o entregador de água estava entregando num outro prédio aqui da vizinhança e o entregador de pizza não estava entregando em nenhum prédio aqui da vizinhança porque são apenas 10 da matina e aparentemente ninguém aqui da vizinhança come pizza a esta altura da manhã e o entregador de correspondências estava entregando e o entregador de coca-cola e o entregador de gás e o entregador de jornal e o entregador de farinha e o entregador de panfletinhos do novo buteco que abriu ali na esquina quando me dei conta sem querer que entre tantos entregadores faltava o entregador.

Memórias do cárcere químico XVII

A diferença básica entre o esquerdista típico e o resto da humanidade é sua incapacidade de ver-se como indivíduo. 

O esquerdista pensa antes no grupo social em que está inserido e só depois se enxerga como pessoa. Isso é fácil de constatar quando se pensa nos gays, nas feministas, nos "justiceiros sociais" (termo em voga nos EUA e que deverá entrar para o nosso repertório sociológico em breve) e nos progressistas em geral.

(O pensador canadense Jorban B. Peterson recomenda aos pais que sempre sondem seus filhos que cursem o ensino básico para ver se eles estão incluindo em seu vocabulário cinco palavras, gênero, diversidade, inclusividade, privilégio (branco), e, acima de tudo, igualdade. "Nunca permita que os professores falem a seus filhos sobre igualdade. Se estiverem falando, significa que seus filhos estão sendo doutrinados, não educados".)

O predomínio do grupo sobre o indivíduo viria a originar nos, onde mais? EUA a praga do Politicamente Correto  e outros códigos de fala e conduta destinados a homogenizar a atuação de cada membro dentro de cada grupo e protegê-lo de ataques desferidos por direitistas e sua pessoalidade fedorenta cheia de farpas e espinhos e idiossincrasias pegajosas e nojentas.

De quebra, como não poderia deixar de ocorrer, o PC tem cerceado mais e mais a liberdade de expressão, tornando a comunicação entre as pessoas absurdamente complexa e até confusa e contribuindo para ressentimentos ideológicos. É cada vez mais comum, mesmo em situações triviais, o sujeito ter de levar em conta todas as possíveis implicações de seu pensamento antes de abrir a boca, o que não raro leva ao exercício da autocensura e à frustração.

(Enquanto isso vou esperando uma manifestação de apoio e solidariedade das feministas à ex-mulher daquele psicopata "juiz" dos direitos humanos que a torturava e estuprava em casa e a forçava a assistir na marra as sessões de direitos humanos que ele, psicopata, presidia. Não vai acontecer, claro. O cara é petista e portanto paira supremo acima da lógica.)

Cara, que jubiloso sentimento de liberdade sinto por não ser esquerdista. Credo.

Me orgulho das minhas virtudes e até de algumas características pessoais que no mercado são consideradas defeitos. Todo santo dia dou graças aos céus pelo que tenho de mais meu: minha individualidade, este ser único e exclusivo que sou dentre outros oito bilhões de mamíferos bípedes espalhados por este planeta em decomposição. Me orgulho pachorramente não de ser o que sou mas de ser quem sou. E de não ter de participar de clubinhos que queiram me aceitar ou não.


Mil, trezentos e quarenta, sob fastio, e dois

Certa ocasião, há longo longo longo tempo, pensei em criar uma comu de nome “Escrita coletiva”, por aí. Estávamos na saudosa era da orkut que não volta mais. Na época era frequentador assíduo duo uo da comu Literatura, o que só me causava desgosto. Cansei  de quebrar a cara por aquelas bandas. Nunca obtinha respostas às minhas postagens. Pessoalzinho só participava de tópicos absolutamente vulgares. Ou então surrados e óbvios além do inexprimível. Os que à primeira vista pareciam abrigar algum resquício de vida inteligente por um título mais ou menos provocativo na segunda linha revelavam uma pretensiosidade estéril, resvalando para o popularesco e o demagógico. Uns queriam tratar de Nietzsche, que obviamente nunca tinham lido, outros bradavam palavrões. Em muitos casos caíam no cambalacho do cabotinismo.
Um dia ofereci uma recompensa de 10 real pra quem me dissesse HONESTAMENTE (a meu juízo) por que os membros mais assíduos jamais comentavam minhas postagens. E fiz uma ressalva: não vale dizer que é porque sou briguento. No fundo onde não dá pé, nem é o caso, todos sabiam que sou boa-praça. Quando me meto em enrascada só estou me defendendo de ataques de ciúme que provoco a granel. Não sou briguento mas sou uma peste. Sei que meus quase três leitores haverão de torcer seus narigões pra esta declaração de foro íntimo. Mas quero exatamente mostrar que, em se tratando de escritores, não haveria como cercear a pessoalidade. E as idiossincrasias. E os caprichos. E a volubilidade. (Não conheço bom escritor não volúvel. Quer dizer, estou sendo volúvel – conheço sim mas não vem ao caso; se viesse, furaria minha lógica) E, vejam, algo assim seria só o começo da encrenca coletiva. Nada mais distante da literatura que a diplomacia, não é?
O segundo problema é que minha comuzinha Escrita coletiva não poderia ser pública, i.e., os membros teriam de passar por um crivo, comprovar que dominavam os rudimentos e que se escrevessem errado seria por querência, não involuntariamente. Mais complicação. A menos que optasse desde o início por proscrever comentários mais acerbos. Teria de ser algo diametralmente oposto a coisas como esse“Vamos escrever um poema coletivo” ou “Que merda você está lendo”que vira e mexe alguém ressuscitava na Literatura. O escangalho aí era equilibrar domínimo mínio, digo, domínio mínimo da palavra c’um grão de arroz que fosse de autocrítica. O pessoal curtia a Literatura exatamente por que aqui não precisava de nada, fosse disso ou de qualquer outra coisa. Proferissem a besteira que quisessem, ninguém daria lhufas. E, outra descoberta que fiz de lombo próprio, a moçada de hoje nem imagina o que seja autocrítica. E, pelas postagens na Literatura, não estão nem um tico dispostos a reconhecer valores ultrapassados como humildade e modéstia e autoridade pra defender pontos de vista, matéria-prima essencial para quem se acha escritor.
Quinto, esse longínquo, onírico, ultrapassado estado espírito-mental chamado solidão. Que raio é isso? Ninguém em malsã consciência pode admitir uma coisa dessas hoje em dia. Solidão, perguntam, não é uma doença que só ataca pervertidos, bandidos, loucos, depressivos, weirdos que não conseguem um jeito salutar de se descolar na vida?
Vocês podem achar que estou ironizando além da conta (excesso de ironia é contraproducente pra quem escreve), mas não é o que se vê por toda parte, com quem quer que se leve um lero?
Vivemos numa época absurdamente ahistórica. Soa inacreditável mas os guris pensam que nasceram ontem. (Sei que os ruim de ouvido vão pensar que errei a concordância. Duas vezes.) E, cara, poucas proezas parecem mais impossíveis que conversar com alguém que nasceu ontem. Eles pretendem prescindir da noção de causa e efeito que rege não só o universo como também suas vidinhas de mosquito. Sua única, assoberbante dimensão temporal é o presente. Que na cabecinha perfumada deles é eterno. (Filosoficamente, até é. Afinal o presente nunca passa. Mas eles não sabem.) Nesta paupérrima ditadura da imagem e da instantaneidade em que penamos, imaginam o passado como um filme que, graças, foi apenas uma ficção em que protagonistas e figurantes eram sofredores do planeta Y23K2. O menino cuca-fresca se horroriza (não muito claramente, claro) que já houve épocas sem internet, sem posto de gasolina, sem Carrefour. Como é que aquela gente podia se dar bem sem um celular que os atasse umbilicalmente ao resto da patota?
Certo, a esta altura você deve tá se perguntando que é que tudo isso tem a ver. Estalo de pe. Vieira, eu também. Vou tentar engatar a primeira de novo.
Ah sim, solidão. Bem lembrado. A solidão do artista.
A solidão pode ser secreta?
Por que temos vergonha de ser solitários? Por que identificam solidão e fracasso?
Portais de RELACIONAMENTO são um libelo antissolidão. Na orkut o gajo era julgado por estrelinhas: sexy, confiável, sei lá que mais. Sendo o número de amigos o critério de desempate. Não sei com anda o angu no facebook, mas na orkut via gente reclamando que mil amigos era muito pouco. Quantos seriam suficientes? Um perfil abarrotado de carinhas petrificadas qual naquelas fotinhos esmaltadas nos túmulos do cemitério. Cáspite, carregamos um necrotério inteiro em nossos perfis (pela enésima, essa palavrinha calhorda) e nem nos tocamos. Era com isso em mente que me perguntava se era com essa gente que imaginava partilhar experiências literárias. (Enquanto matutava a respeito, registrei em minhas anotações que aquele mesmo dia tinha visto em algum lugar na rede alguém perguntando a outro “Qual é seu ponto?” Em minha anotação, acrescentei: “Sugiro usarmos essa pergunta como critério de eliminação na nossa nova comu. Quem respondesse a sério seria sumariamente defenestrado.”)
Em seguida me perguntava, que esperar de pretendentes a escritor incapazes de reconhecer e de viver na solidão? Orkutianos, “A comunicação humana é um artifício cuja intenção é nos fazer esquecer a brutal falta de sentido de uma vida condenada à morte”.
A vida online é uma espetacular fantasia tornada realidade. Aqui podemos clicar amores, desclicar desafetos, confidenciar a quem está do outro lado do mundo, enquanto na vida real continuamos a virar a cara para o vizinho. (Quer dizer, estou falando de mim mas imagino que vocês também viram a cara pra alguém uma vez por dia pelo menos – não é assim que gente normal age?) Há muito pouca coisa de humano em conversar com alguém cujo nome, rosto e cheiro você desconhece.
A solidão, o escritor sabe que é seu dever experimentá-la. Vivenciá-la como experiência palpável e concreta, que lhe deixe ao menos uma lição ou mais. Sem medo, sem nojo, sem neuras. A solidão faz parte. Quer você saiba, ou admita pra você mesmo, ou não. A solidão é a instância, e única, em que temos a chance de aprender alguma coisa sobre nós mesmos, em primeira mão, sem intermediários ou gurus. Quem não tá a fim, que brinque de palavras cruzadas.
Quem acha que seu barato é escrever, tem de aceitá-la. Praticá-la como um exercício. Mas aceitá-la como natural, não como problema a ser resolvido com Prozac ou num consultório. Se, pra começar a brincadeira, você precisar iniciar o processo de aceitação imaginando que é um tipo de loucura, tudo bem. É o método que uso. O importante é nunca se achar em território estranho. Em MINHA solidão me conheço como a palma daquela coisa que todos conhecemos como a palma etc.
E foi assim que terminei por obrar um manifesto – este. E este seria a base da minha comu Escrita coletiva quando finalmente viesse a fundá-la.
E naquela anotação que mencionei acima, fiz mais este registro: “Ter sonhos e persegui-los não é sinal de que há alguma coisa errada com a gente. Nunca é cedo pra começar.”
Relendo isso hoje, não me reconheci, embora me lembre bem de o ter escrito. Me soou tão ingênuo. Algo presunçoso. E cafona.

mirante de onde cada um de nós se ilude como pode



Literalidades

Ao Alex
das criaturas deste vasto
mundo solitário em que
vivo, uma criatura, uma
das poucas, a quem finalmente
reconheço como digno de
receber uma criação,
por reles, por pobre,
por triste que seja.
Wil


Aprendemos a identificar pessoas, fatos e outras coisinhas antes que palavras. O que não é nenhuma porcaria. É uma das nossas verdades. Um dos nossos erros. Um dos nossos defeitos. Um mau começo de vida.
Temos um bug de projeto. Não devíamos ser capazes de registrar impressões e sensações quando ainda somos desprovidos de palavras — que são o conteúdo tratável dos nossos pensamentos. Sem a intermediação das palavras, essas impressões e sensações ricocheteiam em nossa mente, resvalando para nossa alma ou qualquer outro nome que você queira dar ao que temos de desconhecido dentro de nós. Eu, pessoalmente, costumo pensar que depois que adquirimos consciência de nós e do mundo, começamos a conceber esse lugar como um buraco sem fundo para onde vão todos os mistérios aos quais, ainda cedo na idade consciente, renunciamos a desvendar e sobre os quais apenas poetas e loucos ousam especular.
Quando crescemos podemos dar a esse buraco negro vários nomes, sempre dependendo do freguês: uns chamam de deus, outros, de espiritualidade, outros, de ganhar grana, muita grana, outros, de comer todas as mulhas que lhe passarem pela frente, e assim vai. Eu, da minha parte, chamo de dor.
A maioria de nós não sabe o que é essa dor nem de onde vem — apenas dói, não sabemos onde nem por quê. Basta saber que dói. Talvez essa percepção de que temos algo errado aqui dentro faça parte do nosso projeto errado. Quem sabe? A maioria prefere deixar esse tipo de metafísica a cargo da religião e congêneres. É o tipo de dúvida que só serve para encher o saco e atrapalhar um pouco nossa longa e enfadonha viagem rumo ao nosso grande destino de seres completos e felizes. Para essa gente, não vale a pena perder tempo com dúvidas que não temos como resolver.
Será?
Psicanalistas e outros gurus menos cultuados dizem que damos uma sacada geral nos sinais, signos, identidades assim que nos esprememos útero afora. O zé, a maria, a gente média que popula este mundo, apenas olha e finge que não é com eles. Os mais sacadores franzem a testa e caem no berreiro, vislumbrando a furada olímpica em que acabaram de se meter. Quem é inteligente não deixa — não pode deixar — de ver no nascimento um bom motivo para chorar. Como disse, é um mau começo. É caso de se perguntar: e se eu não tivesse nascido?
Quem é do tipo geniozinho de cara também saca, com alguma precisão, mixarias como tendências, conceitos, perspectivas, conclusões. (No meu caso, se tirei alguma conclusão ao nascer, provavelmente foi a de que o longo resto da minha existência seria uma sucessão de, ai mãe, infortúnios.)
Emergindo das gosmentas profundezas uterinas, de súbito despencamos verdes, virgens e tenros no berço da maternidade, perdendo nosso sérico paraíso. Percebemos mas não refletimos, claro. Refletir exigiria vivência — conhecimento concreto — ao longo dum período considerável de tempo.
Certo, é muito cedo, sequer sabemos que não refletimos. Que assimilamos, porém, não há dúvida, e as impressões sobre o que vemos e sentimos vão depender em grande medida da nossa capacidade nata de reter aquilo pelo que passamos a partir da, uuuuu, fria fuga ao avesso, pela vulva materna, do cosmos para este mundo enigmático.
Cada situação específica pela qual passamos deixa em nós fragmentos, resíduos e vaguezas e imagens disformes mil que não temos como identificar. Nos menos propensos ao bem-estar, deixa cacos, que no mais das vezes são cortantes — letalmente cortantes. Em outros ainda deixa agulhas, espinhos e tudo que cause dor lancinante. Desses fragmentos e resíduos e cacos e agulhas e espinhos em geral caem partículas de vida que, de tão ínfimas, não enxergamos. São grãozinhos que se vão depositando lá no fundo, no nosso buraco escuro, e lá ficam guardadinhos. Insuspeitos. Intocados. E então começa a nascer aquele mirante a que se refere o título.
Quando tudo ainda está em formação em nós, embora não saibamos, estamos vivendo um processo de desenvolvimento. Dizem alguns estudiosos que esse processo nunca para. Ou seja: estamos em estado permanente de crescimento. Mudamos o tempo todo.
Para mim, isso é questionável. Tenho quase certeza de que não mudo há pelo menos 30 anos. Provavelmente ganhei experiência de vida nesse período. Isso é uma mudança, não é? É. Outra questão é saber se essa experiência me serve/serviu de alguma coisa. Mas essa outra questão não me importa agora. O que me importa é que o processo de desenvolvimento pelo qual cada um de nós passa um belo dia nos põe no topo duma montanha. Se formos espertos, nesse dia nos deixaremos inebriar pelas alturas. Se tivermos tendência, por mais ligeira que seja, ao suicídio, na certa nos deixaremos obcecar pela ideia de nos atirarmos encosta abaixo.
Começamos a galgar nossa montanha à medida que vamos deixando para trás, meio às cegas, os incontáveis acontecimentozinhos que se sucedem sem uma ordem muito lógica em nossas vidinhas de lesmas pretensamente pensantes. A maior parte desses acontecimentos vão para a nossa lixeira interna. Sem saber, podemos guardar adormecido aquele estranho dia quando ainda habitávamos o quarto escuro daquela fantasmagórica casa naquela distante cidade e que acabou por deixar uns grãozinhos que se juntaram aos do dia anterior, aos de antes de ontem, aos de antes de anteontem. E daquele pensamentozinho tolo que por alguma razão se enroscou num cantinho mais intrincado em nossa cabeça, constituindo outro grãozinho residual a se unir aos demais. E daquela noite, hoje esfumaçada na memória, em que alguém — ou da família ou da vizinhança, não importa — nos chamou a atenção por alguma característica particular e nos enchemos de amor ou nos transbordamos de ódio, e eis então outra particulazinha a se incorporar ao nosso montinho cada dia maior.
Talvez todo esse amor ou aquele ódio seja demasiado para o nosso débil músculo cardíaco que, por isso mesmo, só faz bater cada dia mais hesitante, até ficar com as artérias entupidas — para simplesmente constituir outro grãozinho acumulado.
A essa altura, como será fácil deduzir, nosso humilde montículo de escombros já mostra vocação para colina ou quem sabe um belo morro de fecundo e denso matagal povoado de bichos de sete cabeças, mulas sem cabeças e outros monstrinhos surreais. Se formos assaz acumuladores, em breve teremos erigido uma autêntica cordilheira, pela qual poderemos viajar legal se tivermos índole perambulatória.
Para fazer frente a essa acumulação que nos vai enchendo por dentro e nos colocando dia a dia num nível superior, mas não necessariamente melhor, a natureza, sempre sábia e provedora, obviamente nos dotou, a cada um de nós, duma peneira. É uma das poucas ferramentas de que podemos nos valer. Com ela procuramos, conscientemente ou não, filtrar uma a uma as partículas desprendidas dos eventos por que passamos, pensamentos que cruzam insondáveis nossas mentes, pessoas com quem deparamos e dores e sentimentos que experimentamos. Umas, pequeninas, passam sem maiores problemas, e, quando passam assim despercebidas, é como se não passassem, como se não existissem, como se não tivessem afetado a nossa melindrosa constituição psíquica. Quanto a outras partículas, maiorzinhas, maiorzinhas a ponto de poder ser chamadas caroços, o mesmo já não acontece. Essas, ou ficam encalacradas ou, enroscadas, passam, mas passam gerando alguma dor. Ou, dependendo da vítima, uma baita dor. Às vezes, intolerável.
Se você for felizardo, sua peneira será formada duma malha bem aberta e grossa. Assim, todos aqueles minúsculos grãozinhos vão se peneirando insentidos e você só vai se dar conta do barato quando, em vez do grãozinho habitual, cair na peneira um torrão de proporções inesperadamente avantajadas que em geral toma a forma da morte dum ente querido ou um câncer na bexiga. Para sorte de felizardos iguais a você, esses torrões só muito raramente na vida são retidos na malha. E se você for defacto sortudo, quem sabe não sinta nem mesmo esses caroções gigantes.
(Para meu eterno espanto, conheço gente que se diz/se mostra aliviada quando morre um irmão ou alguém amado ou que, ao ouvir do médico que está com câncer na bexiga, se regozija alegando que podia ser pior: olha, doutor, podia ser na medula. Ou no cérebro.)
Agora, se sua peneira, for não aberta e grossa mas bem fechadinha, estando menos para peneira e mais para coador dos sofrimentos etéreos, se limitando a percolar essas partículas micrométricas que nem mesmo Cristo teve capacidade de enxergar, bom, aí você será o que os mais poéticos em geral denominam sensível e o vulgo, infeliz.
Os elementos básicos de que somos formados incluem, além de fragmentos e resíduos e filtros, o que na maturidade costumamos considerar vagamente como nossas “ferramentas”.
Com o decorrer dos anos aprendemos que a natureza não seria inconsequente nem desastrada a ponto de não nos aquinhoar com algumas defesas contra ela própria — de modo que, quando pensamos que nos defendemos, estamos apenas encenando nosso pesado papel de heróis usando armas com que o próprio inimigo nos municiou.
Essa ilusão, obviamente, resulta do que guardamos em nossas débeis cacholinhas. O desígnio da natureza nesse caso particular não é senão nos manter vivos o máximo de tempo que nos permitir nossa ilusão de que um dia, quem sabe, poderemos ser felizes. Ela, a natureza, nos fez assim: seres prospectivos. Não vivemos nem o terror nem a impossibilidade do agora — nos limitamos a nos preservar para o futuro. Isso tem nome: esperança.
De todas as ferramentas com que pensamos ter sido agraciados mais ou menos por alguma dádiva divina (temos essa incrível capacidade de, por alguma razão, nos acharmos eleitos de deus), a esperança é a que mais traiçoeiramente trabalha contra nós e a favor do nosso grande inimigo, a natureza. Do começo ao fim, do nosso primeiro ao nosso último minuto em cada dia, em cada um dos segundos dum minuto e dos minutos duma hora, resistimos porque somos seres esperançosos. O presente, não importa o que nos aconteça nem as certezas que sucumbem no fundo da nossa alma, não existe. A cada instante, cortamos nossos elos com o passado, aquelas burradas que ainda éramos suficientemente imaturos para cometer, aquelas pessoas de má fé de quem ainda não sabíamos nos precaver, e nos prometemos, com a toda a solenidade de que somos capazes, que de agora em diante, já experientes, sabedores — enfim sagazes — de que a ingenuidade faz parte daquele rol de ferramentas naturais que existem apenas para dar mais tempero à existência, e que existe apenas para que a vençamos e, em vencendo, nos convençamos de que somos corajosos e perspicazes e temos muitas outros predicados dos quais, autocomplacentemente, imaginamos ser dignos, pois bem, nos prometemos que de agora em diante não mais cairemos naquelas armadilhas em que só crianças, tolos assumidos e irresponsáveis têm direito a cair.
A esperança nos dá uma dimensão temporalmente evolutiva da existência. Quando olhamos para trás, percebemos que vimos avançando — e “avançar” é crucial — por etapas. E cada uma delas, as etapas, veio, graças aos céus, no seu devido tempo. Daí, trepados em nosso mirante lá no alto mas munidos da nossa visão de toupeiras viciadas em escuridão, concluímos que somos meio encantados. Ei! por que não? toupeiras agraciadas com dons divinos! (Poucos de nós ousam perguntar por que cargas d'água seríamos merecedores de favores de deus. A maioria toma esse tipo de dádiva for granted.)
A natureza, deus, nossa genialidade, o que quer que seja, permitiu que déssemos um passo por vez. Somos os privilegiados detentores do princípio da compensação: tendo chegado ao mundo absolutamente ingênuos mas — pela própria ingenuidade — absolutamente pios, e, à medida que cruzamos em cautelosa velocidade os percalços que a natureza sabiamente pôs à nossa frente apenas para adquirirmos experiência e nos aprimorarmos dia a dia, à medida que vai chegando a hora de dizer adeus a ele, mundo, vamos perdendo a vitalidade, a força, a vontade de querer fazer a pergunta que, agora, no fim da vida, sabemos, tínhamos na alma, mas ela, a esperança, nunca permitiu que fizéssemos: para quê?
Sim! deus, vida, pai, mãe ou quem quer que queira nos escutar: para que, afinal?
Tal qual nossos famigerados grãozinhos constitutivos, as perguntinhas inconvenientes vão se amontoando, amontoando escorregadias dentro de nós, feito umas folhas que de início são incorpóreas e diáfanas e branquinhas e puras e com a idade — nossa idade — passam a ganhar não só massa e consistência, mas também uns arabescos que são ora coloridos, ora acinzentados. Esses arabescos, não importa que matiz tenham, são sempre sem sentido e não parecem guardar uma resposta. O caminho à frente é, paradoxo dos paradoxos, inexistente e inexorável. Não podemos parar, não sabemos voltar (para onde voltaríamos?). Aos nossos olhinhos embotados de curiosidade pelos fenômenos da vida se descortina panoramicamente nosso eterno beco sem saída.
Um dia qualquer — um dia perdido no vale recoberto de névoa, aquele vale de onde partimos para galgar nossa montanha sagrada que é nosso passado, vale cuja profundidade já não conhecemos, cuja localização já não sabemos, cuja penumbra e ar turvo nos causam certo enjôo, esfacelando nossa curiosidade quanto ao que oculta sob as nuvens impenetráveis, embora saibamos dolorosamente bem que ele está lá, cada vez mais concreto, cada dia mais negro, cada noite mais insondável e, quanto mais negro fica, maior é a pressa com que queremos nos afastar dele e esquecer, pois bem, um dia qualquer percebemos, sem saber exatamente como, que a pilha de perguntas irrespondidas terminou por compor — a, finalmente! — uma montanha: a montanha sonhada das nossas experiências.
Embora seja mais alta que as nuvens e maior do que nossos olhos possam abarcar, subimos e descemos magicamente a montanha das nossas experiências a cada segundo quando nos damos por adultos — magicamente porque fomos nós que a criamos a partir do nada, por milagre, usando apenas nossa condição de filhos desse “algo maior” de que é feito o universo, que nos conformamos humildes a vencer com o que deus nos facultou. Afinal, temos a prova: vivenciamos o milagre do nosso próprio nascimento. Quem será tolo o bastante para negar que se trata dum milagre? Não importa se você é crente ou agnóstico ou poeta, basta olhar em volta para se convencer de que é testemunha ocular duma sucessão infindável de milagres. Você é um milagre. As invenções que somos obrigados a engendrar para subsistir nos afastam do que pensamos de fato e sufoca nosso pré-pensamento primitivo infantil.
Quem sabe nasçamos com uns conceitos já mais ou menos formados, embriões de pensamento, conscientes ou não — os explicadores, gente como Klein e Freud, nos apontaram algumas direções —, mas somos incapazes de materializá-lo porque ainda não temos palavras. Dentro de você está o conteúdo mas você não dispõe de meios de alcançá-lo ou de lidar com ele. Você sequer sabe que ele existe, pois esse conhecimento só lhe seria conferido pelas palavras. Por isso, elas, as palavras, pouco podem para iluminar mistérios alimentados pela nossa angústia, enigmas que inventamos simplesmente para lhes dar um nome e assim segregá-los em algum canto da cabeça para que não perturbem nosso dia-a-dia. Sobretudo, vivemos em nome da clareza. Você pode dar a seus enigmas nomes tais como metafísica, religião, deus, amor, vício, escravidão do prazer, o escambau. Para mim, é o mirante que nos coube acidentalmente a cada um de nós e do qual olhamos satisfeitos nosso horizonte pensando enxergá-lo e, pior, compreendê-lo.
Poderíamos talvez apreciar o horizonte que nos coube neste mundo se admitíssemos que estamos não em algum ponto nas alturas acima das nuvens ao nível de pássaros, aviões e anjos e sim numa masmorra escura em que nos trancamos e da qual somos o carcereiro.
Afinal, quem disse que nascemos para contemplar as lonjuras?
Ninguém, talvez. Ninguém nos disse que nascemos para espalhar a bondade ou fruir a beleza ou qualquer outro mito que a civilização nos entuchou nos miolos. Como bons fantasistas e especuladores que somos, deduzimos. É difícil aceitar que, como gostam de dizer os que se dizem religiosos, a “jornada” humana na Terra seja vã. Daí, concluímos forçosamente que estamos aqui por um desígnio. Mesmo que não seja divino — hoje em dia mais e mais pessoas desistem de crer na existência de deus, por uma cacetada de razões, que incluem desde a importância cada dia mais massacrante da tecnologia em nossas vidinhas até a obsolescência de conceitos tais como mérito, excelência, disciplina, hierarquia, autoridade e todos aqueles velhos valores que a molecada de hoje considera uma excrescência da vida em sociedade —, mas desígnio mesmo assim. Nos recusamos a admitir que a existência humana seja só isso. Pombas, tem de haver uma razão maior por trás dessa merda. Me responda, meu deus, mesmo que você não exista, afinal: para que tamanho desperdício de vidas? Acaba aqui? Vimos e vamos assim, a troco de nada?
Somos fracotes demais para confrontar de cara esse vazio. Cedo ou tarde temos de optar entre o boteco, o templo e uma obsessão neurótica qualquer. Raros são os capazes de tomar uma quarta via menos inócua ou destrutiva.
Na nossa infância, nas primeiras excursões pela consciência de nós mesmos, logo nos damos conta do quanto somos fracos. Sacamos praticamente de cara que não passamos de vermezinhos destituídos de defesas eficazes contra outros espécimes da raça, contra fenômenos da natureza, contra fantasmas egressos do lado escuro da mente. A percepção dessa fragilidade é por demais intolerável. E somos, sim, dotados de armas, embora tampouco saibamos disso. Nossa maior arma é nos enganar. Para cada fantasma que nos ataca tão solertemente, criamos um contrafantasma. Antes mesmo de saber se seríamos ou não capazes de botar o bicho para correr com nossas próprias forças — ou falta delas —, antes mesmo de saber se, afinal de contas, o fantasma existe de fato ou é apenas isso, uma quimera, antes mesmo de saber se, caso realmente exista, ele pode ser benéfico e não um monstro papudo determinado a nos fazer padecer duma dor inominável, antes mesmo de saber qualquer coisa, criamos nossas fantasiazinhas. As criamos quase que por precaução, pois somos seres essencialmente covardes. Viemos aqui mais para sobreviver do que para viver. Já nascemos sabendo que seremos caça, e alguém, algo lá fora, nosso caçador. A maioria de nós, guiada por essa noção de presa/predador, logo opta por ser um eterno fugitivo. A partir daí serão as fantasias e o instinto de sobrevivência que nos guiarão pelos nossos caminhos ou descaminhos.
Por isso somos mentirosos pela própria natureza. Cada uma das deformações que nós mesmos criamos e que em cada passo que damos ao longo da vida combateremos para que não se avultem a ponto de nos sufocar até por fim matar decorre da nossa condição de velhacos natos. Somos, cada um de nós, uns safados.
A hipocrisia está por trás de cada um dos nossos atos e de cada uma das desculpas que damos a nós mesmos e aos outros para cometê-los. Isso não deveria causar espanto algum — quando ficamos adultos, todos, cínicos ou não, admitimos em maior ou menor grau a hipocrisia que nos rege a todos. As pequeninas ações que temos de tomar no dia-a-dia — tais como medidas de higiene pessoal, alimentação, saúde e que tais —, nós as tomamos por razões biológicas. Agora, as grandes decisões que determinam o rumo das nossas vidinhas e que fazem a diferença entre o que somos e o que deixamos de ser, essas as tomamos com base em nossa hipocrisia. Simples assim.
O que espanta é a facilidade com que aceitamos essa vocação para o simulacro. Olhando em volta, flagrando a competência com que cada um de nós representa um personagem e não quem pensamos ser, sabemos em maior ou menor que a nossa verdade — ó, suprema incoerência — é que somos todos mentirosos.
Pior: nascemos para inventar uma verdade.
Lá longe, naqueles anos verdes de margens plácidas e céu azul, sem nada de experiência que servisse de luz-guia no caminho escuro à frente, uma das primeiras luzinhas que vimos bruxulear nas cercanias com um mínimo de certeza é que a verdade é, paradoxalmente, uma luz cegante — se fitá-la diretamente, você não vai lucrar outra coisa senão a cegueira eterna, e esse ensinamento vem xifopagamente associado a uma apreensão que é quase certeza: meu chapa, você não vai ser trouxa a ponto de arriscar encarar de frente o facho de luz só para acabar irremediavelmente sem os olhos.
É curioso como a criança aceita tão desarmada, acriticamente, seu euzinho outro. E como todos à volta dela se divertissem com o que chamam “fantasia”, mas que é apenas a capacidade ainda intocada de se saber múltipla. Sim senhor, somos múltiplos, dúbios e falsos — pior: sorrateiros, fingidos e traiçoeiros —, e o somos até morrer. É a luta sangrenta pela subsistência que nos impõe essa insuportável e sufocante carapaça mentirosamente unívoca que nos tornamos à medida que lutamos para ser alguém e para ser caçador ao invés de caça.
Fazemos parte dum circo de palhaços inventivos contra nossa própria vontade em que a única proteção que pensamos ter é o picadeiro armado para encenar o nosso personagem. Ele nos dá segurança e compensação. No centro do picadeiro, sob a lona mistificadora, a grande plateia para quem damos nosso showzinho esforçado somos nós mesmos. Se prestássemos atenção — mas não prestamos, claro, pois a última coisa que desejamos é aprender uma boa lição — veríamos que cada uma das pessoas sentadas nas arquibancadas é apenas uma das nossas intermináveis faces.
Temos um talento invertido para a autoempulhação — talento que não nos é dado de graça, claro. O preço, embora tenha um conteúdo vago e escorregadio, na superfície da nossa consciência se traduz num nome alusivo e simples: mistério.
Agasalhamos escondidinho bem aqui dentro um mistério por não termos opção de recusá-lo. Dia a dia o acalentamos, alimentamos, mimamos como nosso euzinho interno secreto, a crescer e se desenvolver tanto quanto crescemos e nos desenvolvemos nós mesmos externamente e que igualmente cedo nos habituamos a ocultar para os outros e para nós mesmos, tolerando que nos habite invisível, silencioso e incorpóreo.
O hóspede, silencioso e incorpóreo que é, acaba por sumir da nossa consciência.
Me parece que, para a maioria de nós, ele fica quietinho no seu canto, não exigindo outros cuidados senão que o deixemos em paz, executando seu trabalhinho sujo de nos dominar e obedecer a seus caprichos e desmandos.
Há, porém, alguns de nós — poucos, mas há — em que, à medida que a experiência concreta vai ocupando o que dentro de nós pensávamos ser uma gruta vazia e, sendo vazia, nos iludíamos que bastaria deixar que se preenchesse das nossas observações do mundo, ele, o hóspede, cedo ou tarde dá sinais de que não se resignará a vegetar na gruta que agora, mais que obscura, começa a se tornar sombria.
Às vezes manifesta a intenção de se libertar. Quer ter vida autônoma, o infame! Quem sabe, se baixarmos a guarda, trocar de lugar com o nosso confortável e manjado eu consciente.
Se nosso hóspede existe de fato não tem muita importância prática. O que tem é a forma como ele escapole à nossa vigilância indolente e sobe à tona para usurpar a imagem que fazemos de nós mesmos.
Embora nenhum de nós goste de testemunhar a forma como nosso hóspede se manifesta nos outros, um dos fenômenos mais intrigantes da vida é a diversidade com que ele aflora nas diferentes pessoas.
Em meu caso particular, a altura em que estou em minhas andanças com ele, parece que consegui esclarecer uma dúvida — o que denominamos felicidade ou êxito ou paz de espírito é o grau de aceitação com que cada um de nós é capaz de coexistir com seu próprio hóspede misterioso.
Me parece que o verdadeiro sucesso no trato com ele talvez seja não importuná-lo. Quem sabe mais feliz seja aquele que nunca incomoda seu hóspede a ponto de este se ver ameaçado por seu dono e decida que chegou a hora de finalmente trocarem os papéis: agora você desce, vem habitar este subterrâneo forrado de limo gosmento em que vivi até hoje, e eu subo para tomar seu lugar nesse seu mundinho de faz-de-conta em que nada acontece e, quando acontece, não tem importância alguma nem na sua vida nem na minha.
O “cidadão normal” é a prova. Em que consiste essa prova exatamente? Consiste no fato de que o cidadão normal, o zé-ninguém, não vê nada demais em não ver “mistérios” na natureza — seja na sua própria ou na dos outros.
Ele sabe — mais, está convicto — que tudo se resume a aceitar as coisas como elas são. E aqui nosso personagem muda novamente de nome, passando de hóspede misterioso, sensasãozinha incômoda que nunca é serenamente aceita, a hóspede intocável.
Pois — deve estar bastante claro agora — o próprio nome “mistério” não vai bem com paz de espírito ou qualquer outro estado em que não nos vejamos obrigados a aceitar o desconforto como natural. Mistério clama por ser desvendado. Projeta uma suspeição permanente no caminho à nossa frente e um desconforto quanto aos passos que já demos. Você sabe, é mortificante ficar o tempo todo imaginando que você deu os passos que lhe cabiam dar na vida, mas não saber se foram os passos certos. Mistério evoca ignorância, trevas do desconhecido, e como tal requer que fiquemos em busca constante duma luz — senão cabal, uma que pelo menos sinalize para os outros que estamos aqui e que, afinal, não somos o bocozinho inútil que eles imaginam que somos.
O pior no nome “mistério” é admitirmos que mantemos em algum lugar algo sobre que não temos controle.
Aquilo com que escritores se veem às voltas quando pensam ter posto o dedo na ferida talvez seja que nomes dão a essa dimensão intangível e de que forma lidam com ela.
Freud parece ter deslindado boa parte dos becos sem saída em que fingimos viajar livres, mas a psicanálise pouco vale como ferramenta contra a dor para a humanidade em geral — para quem é tão inútil quanto a arte em solucionar por pouco que seja a insuportável catástrofe que é o vale de lágrimas de 90% dos viventes neste insolúvel planeta.
Até aqui, o conceito de deus é imbatível.
Deus salva porque não faz perguntas. É um ralo por onde escorrem todos os rios de fúria e ressentimento que não temos a capacidade de represar.
Nós seres humanos vivemos e matamos em nome do nosso mistério. Em geral respondemos a ele tentando sobressair à maioria dos viventes deste purgatório tão mal decorado e mobiliado em que tão penosamente nos arrastamos sem rumo, zonzos, implorando afeto, afeição, amor, comiseração, complacência ao primeiro que aparecer na nossa frente. Os mais felizardos logramos encontrar um pobre-diabo tão carente de afeto feito nós e terminamos por nos acasalar para que a espécie tenha seguimento. É a nossa sina biológica. Até mesmo ao mais feioso, asqueroso, sujo e torpe dos homens e mulheres deste planeta é dada a graça divina de encontrar seu par para desempenhar seu mister fisiológico. De minha parte, tive o privilégio de não nascer e/ou pretender ser homossexual. Já me bastam todos esses probleminhas que me atazanam ao ponto da doidice. Mas bichas e sapatos têm uma vantagem sobre nós héteros: a sina da procriação é um tormento — do qual não temos a mínima ideia de como escapar.
Fracotes que somos, não suportamos ser iguais ao irmão, ao vizinho, ao colega. Não suportamos que eles nos vejam tão débeis e indefesos quanto eles próprios são. Para ludibriar nossa autopercepção de fraqueza, nos imbuímos duma missão — que, para o ser humano “sensato” e “modesto” médio, se resume em ganhar grana. Quanto mais, melhor. Se ganharmos o suficiente para nos distanciarmos do irmão, vizinho ou colega, ótimo. Se ganharmos o bastante para humilhá-los, ensinando-os quem é que manda no pedaço, melhor ainda. Dentre esses, alguns há não tão modestos e sensatos que têm ganas de trucidar a concorrência. Dizem por aí que não deixa de ser uma opção.
Fora desse esquema manjado, há o poeta, ou artista, ou qualquer que seja o nome que se queira dar a quem não seja mentecapto e não dedique a vida e a morte a ganhar grana, comer a mulher do amigo ou se eleger político para roubar no atacado e trucidar em genocídios à la stálin e adolf.
Poeta é aquele que, por várias razões que vão além destas mal-traçadas, consegue manter seu hóspede imune aos ataques da consciência pragmática. Quando é um bom poeta — no sentido de que expressa o que deveras sente ao invés de remedar sacadas alheias —, o que acontece é que ele está baixando a guarda para aquele habitante interior que, exatamente por se ter preservado do contato infeccioso com o mundo concreto e da lida massacrante por grana, sexo, prestígio e quejandos, quando se manifesta, diz algo primordial, estonteantemente primordial, que a nós outros, que, embora já tenhamos estrangulado irremediavelmente nosso euzinho secreto, nos traga na voz da poesia ecos dum mundo que, sim, agora sabemos, vagamente mas sabemos, um dia habitamos e que reconhecemos como nosso ninho minimamente aconchegante neste manicômio desolador em que nos puseram totalmente contra nossa vontade.