Quem somos eu


Este é um relato sobre acontecimentos verídicos e, para desgosto dos críticos literários, está escrito na primeira pessoa, ora do singular, ora do plural. A razão de tal variância – ou melhor, inconstância – você perceberá em breve.
Em suma, eu somos nós.
Sendo um ser subdivido, me habitam múltiplos homens — ou várias personae, agora me mostrando chique ao nível da crítica especializada.
Como todo homem repartido numa penca de subseres, sou, que me perdoem os unívocos, multiforme.
Neste momento – neste exato momento – uma parte de mim está na sala enquanto outra está no banheiro. Uma, no quarto. Outra, no quintal. E outra — que, espero, não seja a última —, subindo a escada. E, em subindo a escada, eis que cruza com ainda outra, que a desce.
O mais interessante de tudo isso é que cada uma delas anda às voltas consigo mesma, dona de seus próprios problemas. Cada uma é alegre proprietária de sua própria personalidade. No mais das vezes empenhada numa autocaça circular.
O que me tem permitido segurar relativamente as pontas é que moro numa casa de poucos cômodos: são apenas dois quartos, uma sala, uma cozinha e um banheiro. Você que está aí fora, porém, não tem a mais ínfima ideia de quão imenso e labiríntico esse espaço exíguo pode se tornar às vezes.
Dependendo de nós.
Como disse, neste momento estamos divididos pelos diversos cômodos, mas nem sempre minha distribuição de mim pela casa é assim tão homogênea. Quando queda ser, até que sigo em frente (tudo bem, “em frente” é apenas força de expressão) numa boa (idem). Mas se nos dá na telha de nos enfiarmos todos juntos no quarto ou nos trancarmos todos duma só vez no banheiro, aí a coisa é bem capaz de pegar, no delicioso jargão da molecada destes fervorosos tempos de domínio total da informação, afirmativa esta ominosa sob qualquer um dos seus sentidos dúbios.
Então, tudo muda de figura.
Aliás, já que falamos em queda e em escada, um dos maiores perigos que corro no dia-a-dia é quando me encontro no meio da mesma, um de mim descendo, outro de mim subindo. Só não capotei até hoje por milagre. Ainda haverá de acontecer, tenho certeza. Você aí que me lê na certa está estranhando esta minha torcida contra mim mesmo. Ainda não viu nada, creia. Querer me empurrar escada abaixo como se derrubasse um ladrão que invade a casa no meio da noite é, das minhas fraquezas, das mais benignas.
Em geral os subseres que me habitam se espalham pela casa de modo bastante aleatório. 
Veja bem: aleatório, não descontrolado.
Minhas subdivisões até logram um certo grau de harmonia entre si – pelo menos em benefício da vizinhança, que, no meu caso infelizmente se constitui de gente conservadora e, portanto, implicante. Não gosto nem de lembrar daquela vez em que eu e meus pedaços bebemos além da conta. Como somos todos, ou quase todos, sôfregos, num instante caímos na algazarra. Meu sub-eu número 3 (ou será o 7? esses dois vivem embaralhados em minha cabeça), que é o mais chegadinho numa bagunça, para variar misturou vodka com absinto e num segundo instante lá estamos na delegacia, sob queixa do Jorge, morador aqui da frente.
“Sabe, doutor”, choramingou o tonto ao delegado, “sou esteticista e preciso dormir pelo menos dez horas por noite. E tem de ser um sono bem tranquilo, senão sou capaz de detonar a fuça duma cliente na manhã seguinte.”
E, apontando o narigão varicoso pro meu lado, completou:
“Depois que esse sujeito se mudou lá na rua, o que não temos mais é tranquilidade!”
Com os maus-bofes próprios dos polícias, o delegado se virou na minha direção, franziu mais ainda o cenho que já estava corrugado feito uma telha de amianto e ladrou:
“Da próxima vez o senhor vai passar a noite na carceragem. Esteja avisado!”
Bem, vocês podem deduzir o que eu e minhas frações pensamos naquele momento. “Imaginem todos nós juntos a noite inteira numa cela!”. Nos arrepiamos do dedão do pé ao último fio de cabelo.
Horrorizados com a perspectiva de virarmos carne moída nas garras duma gangue petista no xilindró, voltamos para casa e fomos direto para o quarto. Apagamos a luz, nos deitamos e ficamos lá no escuro, de olhos estatelados para o vazio. (Foi assim mesmo, sem fazer xixi nem tirar os sapatos. E caímos num estado catatônico tão profundo, que se passaram quase três dias até que o número 5, em geral o menos impressionável de nós, começou aos poucos a superar aquele transe mórbido e nos chacoalhar aos outros.)
Quando por fim despertamos, fizemos um “uuuuuufaaaaa...!” bem do fundo do peito e juramos uns aos outros que faríamos todo o possível para evitar que tão terrível experiência se repetisse.
Estávamos nesse estado de lenta mas estável recuperação do torpor doentio em que caíramos quando ouvimos um berro lá (ou aqui, não estou bem certo) de dentro.
“Isso não pode ficar assim!”
Alarmados com o súbito grito, os que acordávamos despertamos de vez; os que estávamos prontos para dormir perdemos o sono; e os que nos ocupávamos de diversas outras atividades cessamos incontinenti nossos afazeres.
Identificamos de imediato o autor do rugido e para a direção dele nos voltamos. Por deter uma das classificações mais altas da turma, o número 46 tinha o pavio curto. A exaltação era sua constante. Não raro, se aproximava perigosamente do radicalismo.
“Que é que não pode ficar assim?”, quis saber o número 23.
A maioria, que até aquele momento ainda era simples auditório, de pronto antecipou um bate-boca.
“Qui-qué-qui-num-podi-ficá-assim?”, o 46 remedou, provocando no grupo um misto de risinhos de deboche e sibilos efervescentes pedindo moderação.
“O que não pode ficar assim, seu energúmeno, é esse vizinho reclamão safado dar queixa de nós. Isso-qui-num-podi-ficá-assim! Anta!”
Outra reação titubeante da plateia.
“E o que o senhor sugere que façamos?”, interveio o número 2, que, como está patente, primava pela formalidade.
“Você ainda pergunta, seu engomadinho de merda! O que sugiro é irmos até a casa do vagabundo agora mesmo e acabarmos com a raça dele. Eis o que sugiro!”
Duas ou três vozes fizeram menção de apoiar a impulsiva sugestão do Quarenta e Seis. A maioria permaneceu como estava, ou seja, indecisa.
“Tô com o Quarenta e Seis!”, compareceu o número 54, igualmente radical, mas um tanto mais lerdo. “Vamos tacar fogo na casa dele! Melhor ainda! Vamos tacar fogo nele! Fazer churrasquinho do filho da puta!”
“Quarenta e Seis! Cinquenta e Quatro! Por acaso não escutaram a advertência do delegado?”. Era o número 32 decidindo se manifestar.
“O melhor é esquecermos essa coisa toda”, ponderou o 23, que do 46 tinha a metade da ousadia mas o dobro do juízo.
“Seus cagões!”, escarneceu o 46. “Quando é que vamos virar homens e tomar nossas vidas em nossas próprias mãos, ao invés de permitir que terceiros nos conduzam para onde bem entendem? Já estou de saco cheio! Uns aqui têm tanto pavor do escuro, que até se deitam sem descarregar a bexiga, vejam se tem cabimento!”
“Tô com o Quarenta e Seis e não abro!”, coadjuvou o 54. Em seguida, sacudindo os dois punhos crispados acima da cabeça, jogou gasolina na fogueira: “Vamos deixar que um vizinho baitola nos diga o que fazer?”
Lançando olhares de desafio aos que estavam à sua volta, o 54 interpelava: “Hein? Digam! Ou pelo menos uma vez vamos tomar uma atitude?”
Aqui e ali se escutou uma fungada mais densa, um arquejar de ar contido por lábios tesos de quem reluta em desabafar.
Então se ergueu novamente a voz cristalina do 23:
“Já se esqueceram de que o próprio ministro da Justiça chamou nossas prisões de medievais?”
“Bah!”, cuspiu o 46, arreganhando o narigão numa careta. “Quem dá bola para o que um petista sem-vergonha diz? Ele próprio devia estar lá dentro!”
O comentário cortante inflamou a galera, puxando alguma unanimidade para o lado do insuflador.
“Buh! Fora petista safado!”, apuparam.
“E ‘medieval’ não passa dum eufemismo!”, ajuntou o 54. “Nossos presídios são uma... são um...” Aparentemente o adjetivo lhe escapava.
“Uma merda!”, sugeriu um.
“Uma porcaria!”, soprou outro.
“As condições dos presídios precisam melhorar pacas para chegarem a medievais!”, ditou um terceiro.
Em tom sempre acautelado, o 23 não se deixou intimidar:
“Lembrem-se: nossos presídios são imensas máquinas de triturar sanidades. Os que entram só saem mortos ou loucos.”
“Cala essa caçarola imunda, seu maricas duma figa!”
Vendo o espeloteado 54 prestes a saltar na garganta do ajuizado 23, percebi que era hora de intervir. O problema de toda democracia é que vira baderna rapidinho se não há um pulso forte que garanta o livre exercício da palavra.
“Chega!” Espalmei as duas mãos à frente do peito, pedindo silêncio. O tom da minha voz era calculado nem para soar autoritário, nem para deixar dúvidas quanto à minha ascendência sobre a maioria. Era em ocasiões como essa que estimava até que ponto podia exercer autoridade sem arriscar demasiadamente minha liderança. Sim, eu sabia, como sei ainda hoje, que o dia fatídico haveria de chegar em que o comando fatalmente passaria para as mãos dos mais dominadores como o 54 e o 46. Ou então morreria gradualmente, em silêncio, por simples omissão ou por renúncia deliberada à luta pela sobrevivência, nos corações de vários de nós que desde muito cedo nos deixáramos adormecer nos braços da depressão. Um dia eu bradaria “Chega!” e poucos me dariam ouvidos. Ou talvez nenhum. Então seria o fim. Embora fosse este meu primeiro pensamento ao acordar de manhã cedo e minha última angústia antes de pegar no sono no breu da noite, sabia que era inútil tentar me antecipar aos acontecimentos antes de ver chegada a hora.
Para meu alívio, pararam. Um a um foram se recompondo e se voltando para me fitar.
“Vocês já sabem o que fazer!”
“Sim! Sabemos!”, aquiesceu um à direita.
“Votação por aclamação!”, lembrou outro à esquerda.
“Quem é a favor de acabar com a raça do Jorge, levante o braço!”
Como imaginava, apenas os de número superior a quarenta foram favoráveis a essa medida extremista.
“Dois, registre na ata. Vinte e oito votos a favor da primeira moção.”
Me dirigi novamente ao grupo para a segunda moção:
“Quem é favor dum belo esculacho e não se fala mais nisso, erga o braço!”
Trinta e cinco braços apoiaram o esculacho.
“Agora, quem é a favor de não olhar mais na cara do miserável, manifeste-se!”
Contados os braços levantados para a última moção, instruí:
“Dois, registre aí. Sete votos favoráveis à última proposta. Portanto, senhores, está decidido. Não olhamos mais na cara do vizinho fedido. Assunto encerrado”.
“E o Três, como é que fica?”, quis saber o número 4.
“Não era o Nove?”
Bem, fosse qual fosse, me esquecera completamente do baderneiro que começara a confusão toda.
“Reunião extraordinária!”, convoquei instantaneamente.
“Que tal se fizéssemos a reunião na sala?”, sugeriu o número 11, um dos mais sensatos da assembleia.
“Boa ideia!”, ri. “A banheira é meio apertada pra essas coisas. Vamos lá, pessoal. Todos para a sala. Se arrumem aí no sofá do jeito que der. E se enxuguem antes de sentar!”
A reunião extraordinária correu em atmosfera de tranquilidade. Todos se comportaram cordialmente, algo que não acontecia fazia tempos. Até os acima dos 40 pareciam calmos. Provavelmente fora efeito da desavença ocorrida poucos minutos antes. Esses meus sub-eus viviam me surpreendendo.
Durante a reunião extraordinária tomamos uma decisão solene, qual seja: se perdesse a compostura novamente, o número 3 iria sozinho para o xadrez e sozinho haveria de tolerar as consequências morais e físicas da estadia no cárcere. Só para acrescentar um pingo de crueldade ao comunicado, o número 6 sugeriu que o pobre levasse consigo o exemplar de De Profundis que há décadas anda esquecido nas profundezas da nossa grande biblioteca encaixotada em mil caixas de sabão em pó no fundo do porão.
Desnecessário acrescentar que, depois dessa ameaça, o número 8 nunca mais saiu da linha.
Igualmente desnecessário seria salientar que nossas reuniões extraordinárias se realizavam exatamente como indica o adjetivo: extraordinariamente. Mas, ante a potencialidade sempre explosiva das nossas interrelações, será sempre importante, e útil, manter tal perspectiva em primeiro plano.
Eu e minhas subdivisões chegamos a um acordo tácito há muito tempo: só nos reuniríamos para deliberar sobre uma determinada matéria quando a subdivisão envolvida se mostrasse incapaz de matar a bola no peito e mandar o passe redondinho para o ataque. (Peço desculpas pela símile futebolística – quem fala é o número 11, o cara se amarra numa pelada nas manhãs de sábado.)
“Não é símile, tonto! É analogia”, me corrigiu o número 10, que desde o pré-primário sempre foi o primeirão da classe. Embora CDF, nunca deixou de amealhar resultados profícuos na seara feminina.
“É mais ou menos como ocorre na área empresarial”, ergueu a voz e espichou o pescoço o número 17, que em determinada oportunidade de sua vidinha errante fizera um curso de administração por correspondência no Instituto Universal Brasileiro.  Para quem não se lembra, o IUB era aquele que anunciava religiosamente em cada edição dos gibis do Tio Patinhas, Pato Donalds, Mickey e outros da Editora Abril. Quando se “formou” pelo IUB, o número 17 mandou emoldurar, em acrílico espelhado com adereços em formato de mimosas estrelinhas azuis, o “certificado de conclusão” do seu curso de administração e durante anos o manteve pendurado na parede da sala bem diante da porta, de modo a ser prontamente avistado pelas visitas. Mas como nenhum de nós jamais recebeu — nem pretende receber, diga-se — uma única visita, pode-se concluir que o mundo nunca saberá que o número 17 é administrador de empresas com direito a diploma e tudo mais.
Outra vez que veio a demandar a atenção coletiva do grupo foi há cerca de três anos.
Aquela manhã acordei com os lençóis e a fronha do travesseiro mais encharcados de suor que o habitual. Como sempre faço ao despertar, não abri os olhos de imediato, pois morro de medo de que ainda esteja escuro lá fora. Se estiver, será depressão imediata. Desde meus mais remotos dias infantis a escuridão provoca, não sei precisamente onde aqui no fundo, nem exatamente em qual dos meus subindivíduos, uma sensação desatinada de angústia. Às vezes, quando estou distraído, tenho uns vislumbres interiores, que me iluminam por dentro qual uma sequência impiedosa de raios que vão largando nervuras incandescentes ao longo de seus rastros. Durante esses vislumbres fico com a clara impressão de que a malignidade do escuro tem algo a ver com o pavor da morte. Mas quando os vislumbres se dissipam, rio de mim mesmo, tanto no singular quanto no plural – se há algo de que não tenho medo é a morte. Pelo contrário, a venero. A cultuo, a cultivo feito um botão de flor negra que, estou certo, exalará o mais inebriante dos perfumes quando finalmente se abrir. Só para mim. Para a encenação final do meu espetáculo.
Cauteloso, fui entreabrindo nanometricamente uma das pálpebras, com todos meus sentidos prontos para detectar a escuridão absoluta, embora tendo acabado de acordar, eles, os sentidos, ainda estavam meio entorpecidos. Mas devo dizer que se trata dum costume que com o tempo e a repetição se tornou uma habilidade.
Relativamente aliviado, percebi que a manhã já nascia lá fora e permiti que ambos os olhos se abrissem por inteiro.
Agora, os lençóis e a fronha: por que estariam mais úmidos do que habitualmente?
Convoquei meus sub-eus fazendo uma chamada breve. E quando digo “breve” é isso mesmo – levou apenas dois segundos. É que ando cada dia mais impaciente e irritado com esse monte de gente dentro de mim. Tem hora sinto gana de construir um minicampo de Auschwitz em algum lugar do coração ou do cérebro. Decididamente não tenho vocação para Pessoa.
“Vejam a situação em que acordei hoje”, comecei, me dirigindo a todos.
Um fio de murmúrios pareceu correr de boca em boca. Senti os dedos das mãos se comprimirem no travesseiro.
“Mau sinal!”, alguém bradou. Ainda apático de sono, não consegui identificar o infame.
“Quem disse isso?”
Aguardei uns segundos.
“Quem disse isso?”, repeti, agora mais enérgico.
“Se me permite, só pode ser cisma”.
Girei o pescoço tentando captar de onde viera a comentário.
“Aqui! Número Quatorze.”
“Cisma? Que cisma, Quatorze? Não temos nenhuma cisma desde que perdemos a conta do nosso aniversário. Adiante-se”.
“Bem, chefe...”, o número quatorze deu um passo avante, obediente. Esse sempre foi um dos meus sub-eus mais cordatos. “Ontem à noite, estávamos lá no buteco do Lacerda eu, o Vinte e Três e o Meia-Dúzia tomando aquele steinhagerzinho com amendoim básico...”
“Meia-Dúzia é a mãe!”, uma voz indignada se elevou na outra ponta do bando. “É Seis pra você, seu filho da puta!”.
“Calados!”, cortei de pronto o motim antes que se alastrasse. “Olha o delegado!”
O murmúrio cessou instantaneamente.
“Quatorze, prossiga”.
“Então, chefe, como ia dizendo, estávamos lá no Lacerda mamando o nosso...”
“Isso você já disse, porra! Vá direto ao assunto, pelo amor do demo!”
Ressabiado, Quatorze limpou aquele catarrinho típico da garganta e prosseguiu:
“Aí o Vinte e Três comentou, assim como quem não quer nada, que tem andado cismado”.
“Vinte e Três!”, chamei, passando os olhos pelo grupo, inquirindo.
“Aqui, chefe”. Ele deu um passo avante.
“Tem andado cismado com o quê?”
Vinte e Três fez um arzinho contrariado. É um dos meus subs mais tímidos. Odeia se ver no centro de alguma discussão.
“Não é nada demais, não, chefe. O Quatorze é que tá exagerando”.
“Desembucha, antes que eu perca o pouco de paciência que já não tenho!” Quase pude escutar o sobressalto nas dezenas de corações à minha volta. Tem hora até eu me assusto comigo mesmo (ou alguém dentro de mim).
“Tem um gay entre nós!”
Novo fio de murmúrio, agora mais intenso, percorre o grupo. É patente o esforço geral para conter a emoção.
“Essa baita celeuma só por causa disso?” Faço ar de pouco-caso.
Os olhares se concentram em mim.
“Quer dizer que o senhor já sabia?” Dezenove pareceu incrédulo.
“Oito!”
“Pois não, meu querido...!”
“A plateia é toda sua”.
Os olhares se voltam para o número 8. Expectantes.
“Saí do armário há mais ou menos dois meses”, o recém-assumido explica, dando uma ligeira desmunhecada e requebrando o espinhaço. Para completar, jogou o quadril para um lado como se estivesse desfilando na Marquesa de Sapucaí.
Como se ainda fosse pouco, a emancipação homoerótica do número 8 coincidiu com outro acontecimento que também chocou a maioria: no dia seguinte demos pela falta do Dezessete.
Procuramos por vários dias, desesperados. Até que ficamos sabendo pelo Google que o número 17 – se bem se lembram, o 17 era aquele formado em administração pelo IUB – se tornara diretor da Petrobrás, com boas chances de terminar presidente.
Vocês certamente já perceberam que minha vida com meus agregados não é batatinha.
Estando em casa, até que me viro bem, apesar dos pesares.
A parada pesa é quando saio.
Em geral não tenho motivos nem razões para bater perna, afora “passear”, para imitar os de fala inglesa, minha mimosa Zezeí.
Como já contei aqui inúmeras vezes, Zezeí é produto genético dum cruzamento da raça fox com a dos chiuauas. E já que vocês gostam tanto de imaginar coisas, imaginem essa também.
Tampouco acho necessário acrescentar que uma simples caminhada pode se revelar um genuíno calvário para um sujeito que, como eu, é recheado de outros sujeitos de convivência no mais das vezes difícil, ocasionalmente conflituosa e quase sempre hostil. E esses sujeitos se tornam ainda eriçados quando acompanhados duma praga canina que se recusa a andar na guia e atravessa a rua sem aviso prévio quando e onde lhe dá na veneta, nos levando a todos os eus e sub-eus aos píncaros da ira.
Mas como todas as coisas nesta vida, passear seu cãozinho de estimação pode ter suas vantagens. Sobretudo se você for um galinha inveterado feito, por exemplo, o número 4. Ou tiver vários galinhas empoleirados dentro do seu galinheiro metafísico só esperando a deixa para sair cacarejando por aí.
Todo mundo e seu advogado criminalista sabe que gente passeando seu cachorrinho é o que não falta nesta cidade execrada por Deus e adotada pelo Tinhoso. A maioria, infelizmente, é de aposentados, de ambas as raças, a masculina e a feminina. São velhotes e velhotas que, entre os dois tempos duma partida de futebol ou durante o intervalo duma telenovela, descem dos seus prédios arrastando os totós pelo pescoço. Uma vez na rua, trocam de papéis e se deixam puxar desdenhosos até a próxima esquina, de onde retornam após o Rex descarregar um montinho fedorento no portão de algum vizinho felizardo.
Tais senhores e senhoras são os campeões dos passeadores de cachorros.
A segunda posição é ocupada pelas donas de casa. A idade delas compreende uma faixa etária relativamente ampla, variando de, digamos, trinta e poucos a cinquenta e muitos. Em casos extremos, podem atingir, ou mesmo exceder os, ugh, sessenta. De qualquer modo, a idade efetiva dessas comadres tem pouca ou nenhuma relevância para os propósitos meus e de meus pares interiores, visto estarem todas já com o pé na porta da casa de repouso. Algumas, decididamente, já se recolheram ao dormitório e só não se deitam em suas camas e aceitam os respiradores por serem teimosas qual mulas. Mesmo as mais, digamos, “novas” já ergueram os braços e se renderam à autoridade do tempo, com perdão pela imagem imbecil.
Em terceiro lugar no campeonato dos que se entregam voluptuosamente ao empolgante mister de servir de guia a quadrúpedes que latem e mijam em qualquer volume que se lhes surja pela frente se incluem categorias várias. Vão desde desempregados que cruzam as ruas aflitos, sem olhar, sujeitos a um atropelamento e a passar o resto de suas vidas enfadonhas numa cadeira de rodas; sujeitos que só recentemente se deram conta de que os cães são criaturas adoráveis que podem até dar lições de vida a nós seres humanos mesquinhos; até casais que cedo perceberam que curtirem um ao outro enquanto exibem aos vizinhos seu espécime de bulldog inglês que custou a bagatela de sete mil reais é sempre mais prazeroso e catártico que desperdiçarem tempo e energia comprando bugigangas em shoppings, tal como fazia a geração passada.
E a quarta posição, finalmente, pertence àquelas por quem os sinos dobram – as gatinhas.
Ou melhor, a gatinha.
A gatinha é a graciosa, a maviosa, a nívea, a macia dona dum vira-lata que atende pelo singelo nome de Bóris e com quem nós e Zezeí cruzamos ocasionalmente durante uma excursão matinal.
“Que engraçado”, puxei conversa com ela a primeira vez que paramos juntos numa esquina para os nossos respectivos se cheirarem. “Meu melhor amigo também se chama Bóris”.
Ela riu com todos seus lindos dentes lácteos e perguntou como se chamava a bichinha espevitada que naquele momento arreganhava os caninos para o Bóris.
Eu disse e ela fez uma careta, que instantaneamente disfarçou.
“É horrível, eu sei. Pode rir”, ri.
“É mesmo!”, ela riu novamente, os dentões de marfim me ofuscando as pupilas. “Como pôde arrumar um nome tão sem-graça?”
“Foi doação”, o número 6 mentiu, ruminando por dentro minha própria falta de talento para nomes caninos. Zezeí! dio mio, sou uma anta! Mas nem por isso deixei a peteca cair: “E o Bóris, foi você que deu?”
“Vi na internet”, ela riu mais uma vez. “Tem um montão de sites com listas de nomes de cachorros. Quem batizou esta coitadinha devia ter feito o mesmo”.
Dizendo assim, ela se acocorou e abriu os braços para Zezeí, que não hesitou em se aconchegar, permitindo mesmo alguns afagos.
Me limitei a olhar, pasmo. Zezeí é o bicho mais arisco que já vi e nunca antes deixara que um estranho a tocasse. Pareceu até corrupção amorosa à primeira vista.
“Zezeí já deu cria?”, ela quis saber, sempre sorrindo.
“Ainda é virgem. E o Bóris. Já é pai?”
“Virgem também”. O sorriso dela se abriu, açambarcando o mundo, a vida e a rua. “Que acha de marcarmos um encontro romântico entre os dois?”
“Tá louca é queridinha? A minha fox chiuaua cachorrão não come não, nega! Te amarra num voyeur é fófi? Vai fazê a chuca, vai boquetera!”
Virei as costas e saí rebolando pela rua, indignadíssimo.
Cheguei em casa, bati a porta e me joguei no sofá. Mas que fubanga! exclamei, abraçando minha doce Zezeí. Perrenga filha duma égua!
Custei a me acalmar naquele que foi um dos mais tenebrosos dias da minha existência. O Oito me paga, prometi a mim mesmo. Ou sei lá a quem.