Como dar uma caixinha ao bloguero

Não sabemos se você sabe, mas o bloguero não ganha lhufas pelos lindos textos que posta regularmente neste blog. Antes de reclamar sobre esta página de mendicância descarada, olhe para aquele melancólico, meigo e barbado rostinho estampado na página principal. Sendo um marmanjão à-toa e pinguço sem-vergonha, tem muitas contas a pagar no fim de cada mês. Principalmente no buteco na esquina perto de onde mora. Onde passa longos dias e efêmeras noites.

Seu turno diurno (com perdão da rima) em sua mesa do buteco se inicia lá pelas 10, 11 da matina, em geral cuma kaipiroska com muito limão e apenas uns 3 dedos de vodka, que é pra assentar o estômago. E, claro, uma garrafa (enfatizamos: garrafa, pois o gajo não tolera latinhas) de Brahma (também não aceita outras marcas). Depois de almoçar um ou dois baurus sem queijo e com muita cebola e tomate ressecados depois de um mês no refrigerador asqueroso do buteco, segue nessa dieta etílica até as 17 horas, i.e, o happy-hour, que indica o término do diurno e começa o do turno noturno. Então passa para uns copinhos de steinhäger ultragelado entremeados de Balla, de preferência 12 (a critério do Lacerda, dono do buteco, que pode ou não pôr na conta dependendo do humor com que acordou no dia). E assim prossegue o bloguero em seu turno da noite, até perder os sentidos e desabar o cabeção na mesa. (É por isso que sempre mantém copos e garrafas bem afastados do raio de ação de sua testa.)

Imaginamos que a esta altura você deva estar se perguntando: e daí, que é que eu tenho a ver com isso?

Bem, talvez você não tenha mesmo nada a ver com os hábitos alcoólicos do rapaz. Mas saiba que é entre um gole e outro que ele vai rabiscando as bobagens que depois sua doce amiga, amante, lavadeira e digitadora Soninha passa no computador e sobe para o blog.

Imaginamos também que você esteja pensando, Ah, até eu queria ter um "trabalho" como esse!

Mas é aí que o prezado leitor se engana.

Veja, reconhecemos que o bloguero bebe por prazer, compulsão e desgosto de viver, como todo manguaceiro que se preze. Mas esses não são os únicos motivos. Na verdade, o coitado é incapaz de verter uma linha que seja se estiver de cara. Ou seja, se não beber, não escreve. E se não escreve, o blog já era.

E não é só. Sua lide na mesa no canto mais sombrio do buteco não se resume a manipular folhas de rascunho e copos. O que prejudica no duro seu fígado que a voluptuosa, incessante ingestão dessa variedade insana de destilados e fermentados é a presença de dezenas de outros bebuns ao seu redor e o indefectível, nauseabundo aparelho de tevê de plasma com que donos de bar por todo o País pretendem estimular o consumo de seus fregueses. Cá pra nós: se você acha fácil escrever um blog totalmente bêbado ao lado de 20 outros paus-d'água sob os berros histéricos do Ratinho, então jogamos a toalha. Você é mão-de-vaca acima da concepção humana.

Mas sabe o que é pior? Não, você não sabe. O pior é que dias há em que o pobre-diabo ainda é obrigado a escutar reclamações de seus bissextos leitores. Pode? Falando sério, não seria o caso de perguntarmos o que é que eles querem dum miserável mourejando sob tão crueis condições de insalubridade?

Seja sincero: você sonegaria uma gorjetinha a um bastardo que se esfola assim com o exclusivo, o solitário propósito de lhe proporcionar DE GRAÇA esta gratificante experiência estética online só batida pela orkut?

Pois, veja de novo, este blog é um verdadeiro tudo-em-um. Aqui o freguês encontra poesia de seleta bisonhice e prosa claudicante sem equivalente no mercado. Tudo muito afetado e pedante, com abundante, pitoresca, constrangedora adjetivação e infindável penca de supérfluos advérbios. Como se ainda fosse pouco, o exigente navegante pode desfrutar de variada coleção de taras, manias e neuroses, incluindo um dono de buteco que violenta a própria filha desde os 7 anos de idade (dela) e que atualmente, aos tenros 17, virou namoradinha do protagonista-autor depois que este levou um pé bem dado de sua esposa Sílvia por quem ainda morre e sempre morrerá de amores e mama sofregamente suas biritas para tentar esquecer, protagonista-autor que nos fins de semana está empregado no açougue de uns de seus amigos homossexuais porém não efeminados onde dá risíveis cantadas em senhoras de terceira idade em busca de contrafilé com pouco sebo.

Se mesmo assim você ainda estiver insatisfeito com os serviços aqui ofertados, que tal enviar um email à gerência do buteco explicando a situação em vez de simplesmente dar as costas pra nunca mais voltar?

Em vista do acima exposto, duvidamos que o estimado leitor seja incapaz de morrer cuns trocados para que o pobre-diabo leve adiante este inglório blog. Vamos lá, é impossível que você não tenha um ou dois reais no fundo de algum bolso ou daquele trambolho que sua mulher carrega pra cima e pra baixo à guisa de bolsa, ou mesmo umas moedinhas sobradas da feira da patroa. Se a situação estiver de fato grave, sugerimos que não hesite em passar ligeiramente a mão no cofrinho das crianças. Afinal não vai fazer falta, vai? Em último caso, aceitamos cartão de crédito. Ou contate a gerência para informar-se sobre outras formas de pagamento.

Bem, caríssimo leitor, isso é tudo. Agradecemos a paciência com que nos brindou até aqui. E não se esqueça: um bloguero duro hoje pode ser um motoboy ou servente frustrado amanhã. Além do mais, visto sermos o maior país católico do mundo, sempre é bom fazer uma média com o Big Guy que mora lá em cima além das nuvens. Como você sabe, Ele recompensa os que sabem demonstrar gratidão.

Até a próxima e gratos pela preferência.

Finalmente um advérbio no título

Sou um sujeito cismado. O que dá no mesmo que supersticioso. Minhas definições sofrem de imprecisão. Definir, que quer que seja, não é comigo. No Aurélio, no Houaiss me admira a exatidão nanométrica com que os caras estabelecem o sem-fim de significados que usamos para nos situar neste mundinho volátil em que somos precários inquilinos trocando impressões sobre o tempo e o céu e a nuvens e contando vantagem como se fôssemos proprietários. (Você pode dizer que não se usa indistintamente precisão e exatidão; diga.) Fico num estado de êxtase com os vocábulos domadinhos, disciplinadamente organizados em lista infindável, cada qual guardando, apenas para os olhos do leitor atento, um manancial de acepções insuspeitas formando um gigantesco poema em ordem alfabética. Definições precisas e/ou exatas são um bálsamo para a confusão mental em que vivo. Quase um antítodo. Angustia ser confuso. Tem hora o caos dentro da minha cabeça me põe assoberbado, minando toda minha energia. Por isso vivo cansado. Por isso engulo um copo atrás do outro, sôfrego qual um ralo sedento dum licor que o lave da própria podridão. (Ralos não sorvem Balla 12.) Por isso fumo três maços todo santo dia desde meus doze anos, Free box, ocasionalmente Marlboro. (Dolorosas, amargas lembranças me evoca o Marlboro.) Por isso escrevo, não tão bem quanto gostaria, mas com a mesma voracidade com que faço todo o resto. (Escrevo principalmente para impressionar mulheres. Já impressionei algumas, mas não favoravelmente como era meu intuito inicial.) O que tem faltado entre essas minhas dimensões de intensidade vital é um pouco de sexo. Ultimamente ando meio devagar nesse quesito. Para dizer a verdade, faz anos que não como uma mulher. Estou completamente abstêmio qual um explorador do Ártico. E tampouco tenho compensado o jejum na base da masturbação. Para falar a verdade mais uma vez, devo anunciar que sou onanista. Não dos mais fervorosos. No primário (bom, agora você já pode computar mais ou menos minha idade), no primário tinha um colega, Geraldo ou Ivã, não me lembro, que quebrava todos os recordes: dez diárias e subindo. Hiperlibido. A esta altura Geraldo ou Ivã deve ter despirocado. Ou ficado manco. Provavelmente ainda é virgem, poor guy. Em geral bato uma de manhã, outra após o almoço, uma terceira à noitinha e a derradeira já na cama, antes de pregar o olho. Bem, não sei se “bater” é o termo apropriado. Como já disse, sou brocha. Tento bater três por dia, mas a gozada jamais se consuma. E onanista é meio pesado, acho. Não me considero sequer viciado. No meu projeto, vou tocar punheta enquanto não chegar a hora de transar novamente com uma mulher. Digo, a minha mulher. Ou melhor: o meu projeto de mulher. Pois que tenho um. Não, não me peça para explicitar. Eu mesmo não sei direito.

Hanging it on the bathroom door

Plath me pega no colo, me emascula, seu sonho mais primevo e não exteriorizado. Tudo é literatura, nada é culpa da cultura e da sociedade.

Plath me alfabetiza. Me ensina minha língua doente dessa hiperatividade paralizante. Me guarda e acalenta minhas explicações. Me conduz pela desviagem. Me inverte em mim.

Não nasci para a caça. Longe de mim as estratégias e os planos e os sistemas. Plath me engravida de mim. Plath me aborta. Plath me dá à luz e cuida de mim como seu filho único e predileto e seus olhos prometem que ela estará ao meu lado por séculos, mesmo depois que ambos morrermos.

Plath tira um seio angelical do sutiã azul e me abastece em plenitude como se eu estivesse prestes a partir para Júpiter. Plath me poupa da injunção dos relacionamentos e da inevitabilidade das pessoas, me assegura que não há necessidade de lutar com minhas emoções.

Plath empobrece meu vocabulário a uma palavra. Sou único e uno. Plath me isola do mundo exterior.

Plath aniquila meus instintos. Sou o que quero ser. Não tenho predecessores. Minha raça começa comigo. No meu Gênesis, eu sou Adão, Plath é Eva. No meu Gênesis, não deixaremos prole. Sou/somos um raio que estala inusitado e inimitável no céu escuro, para nunca mais.

Sou um para Plath, Plath é um para mim. A noção de multiplicidade morreu e não posso mais compreendê-la. Não há sentido no plural. Sou um só ser, amo um só ser. Meu mundo está pintado duma só cor, cuja cor não conheço, cujo nome não me ocorre.

Plath me cura da minha saúde. É minha sombra, sou sua sombra. Aceno quando acena, acena quando aceno. Estou mudo como sua sombra.

Plath me ensina como só o tempo pode ensinar e me desensina o que tempo me ensinou. Em breve (quando?) não haverá mais começo e não haverá mais fim.

Plath me despoja dos meus sentidos. Me livra da química. Me imuniza da física. Me lava da fome dos desejos.

Então Plath-agulha vai me injetando coragem, sou o ser-furo por que ingressa e ingresso, até o ponto em que a falta de coragem deixa de figurar em meu horizonte mental.

Plath não me recompensa. Não me alimenta. Apenas volta sua cabeça loira para lá neste mundo sem alegria nem tristeza nem razões para medo e me conta a mais bela história do mundo em sua voz que não posso escutar.

Manifesto à comunidade Literatura da Orkut

O manifesto na íntegra está no seguinte endereço:

Manifesto à comunidade Literatura


P.S. - Por meses o blog vinha recebendo de 8 a 20 acessos por dia. Desde ontem, mais de 70 diários. O pessoal se amarra mesmo é numa boa futrica. Literatura é pormenor.


Updates do day after:

O fake Ludwig, dizendo-se indiferente ao manifesto, mudou seu nome para Dimitri e sua foto para a de um futebolista eslavo. Como os eslavos estavam entre as raças "inferiores" a ser eliminadas da face da Terra por Hitler, o fake Ludwig parece querer assim redimir-se. Poor little Ludwig não acerta uma.

A fulana que, junto com o fake Ludwig, tramou a proscrição do Jorge se mostra a cada minuto mais perto dum ataque apoplético no fórum da comunidade. Quer me obrigar de todo jeito a reconhecer que não foi ela. Como sei que foi e não dou pelota, ela sobe pelas paredes. Sua cabeleira deve estar ficando cada dia mais oxigenada. Chegou pisando firme, se dizendo disposta a "sacudir" o marasmo da comunidade enquanto ia distribuindo os infames "beijinhos" demagógicos que todo mundo e seu tio dá a todo mundo e sua tia na orkut. Com o episódio, a fulana apenas revelou -- sem querer, diga-se -- que é absolutamente autoritária e sente ganas de trucidar quem ouse ficar atravessado em seu caminho. Provavelmente nunca leu a neurótica profissional e feminista canina Fernanda Young, mas seria leitora ideal das mascerações raivosas de Young. A freudiana inveja do pinto parece não ter cura. A fulana também se mostrou a Rainha do Print. Dificilmente haverá maior mau-caráter do que os que "documentam" diálogos em fóruns para eventual aplicação futura. Não é a primeira vez que vejo isso acontecer. A orkut é o paraíso dos cafajestes. O Jorge escreveu dois palavrões num tópico e foi sordidamente "documentado" pelos prints da fulana.

(Aliás, Jorge imediatamente se arrependeu do destempero e apagou as postagens com os palavrões. Daí virou "covarde que não sabe usar o que no meio das pernas". Pois é, arrependimento virou coisa de viado. Ante os hipócritas, neguinho é obrigado a fingir o que os farsantes esperam que ele faça. Aliás de novo, a fulana fez print apenas dos tópicos que continham os palavrões do Jorge. Muito conveniente, não é? Os insultos selvagens que ela dirigiu ao Jorge foram convenientemente omitidos do print. Lição clara para os demais membros da comunidade: cuidado, o que vocês falam inocentemente no fórum pode estar sendo arquivado pela KGB das Loiras de Araque. Talvez suas "fichas" já estejam no banco de dados do DOPS orkutiense  Gente baixa é um perigo.)

Os prints foram então passados ao fake Ludwig, que por sua vez entregou as "provas" ao sr. Jocelino Freitas, que por sua vez executou sua sentença de tiranete. Pasme-se: toda essa nojeira ocorreu no fórum duma comunidade denominada Literatura.

Depois dum extenso período de minha expectativa, a ficha do membro comunitário José Geraldo finalmente caiu. José Geraldo é mencionado no meu manifesto não explicitamente mas apenas como integrante do bloco dos mestres-escola que não param de riscar bacharelescamente giz no quadro-negro e do bloco dos membros artificialmente indiferentes ao que seus pares escrevem. Depois de fingir desconhecer meu blog -- que ficou em destaque no fórum por nada menos que 4 meses --, José Geraldo finalmente cedeu à tentação e me atacou, comentando com outros membros que sou um "frustrado e temperamental". Tell me something I don't know, Zé. Quem lê uma linha do que escrevo em meu blog saca no ato mil sentimentos conturbados, entre eles frustração e emotividade, o que, imagino, seja comum a milhões de outros poetas. (Desconfio que até de bilhões de outros seres humanos. Ainda bem que os super-homens qual você estão acima dessa carniça. Como é fácil jogar onda em fóruns na internet.) O que mais salta aos olhos no que escrevo são paixão, compaixão, solidão, perplexidade. Mas o crítico literário José Geraldo optou por apontar duas "máculas" no meu caráter. O que só comprova aquilo que eu disse de tipos como ele em meu manifesto.

E a comunidade Literatura da Orkut parece estar voltando lentamente aos velhos eixos e às velhas imensas engrenagens de que fala o sempre esquecido Herman Hesse, impassível ante o absurdo, insensível à vida, imperturbável como microcosmos da glacial letargia com que brasileiros e brasileiras marcham carnavalescamente rumo ao abatedouro. Osquindô. Mas não era pra sacudir? Então sacudi, uai.

Enquanto isso o planeta vai seguindo sua imutável rota rumo ao nada. Até cruzar com um frio, desabitado asteroide, mandando literalmente cada uma das nossas veleidades pro espaço.


Update do aftermath: 

 O Albertinho revelou a identidade verdadeira do fake Ludwig que agora se autodenomina Dmitri que antes era/é Dr. Robert, etc. É um sujeito chamado Wesley Souza de Oliveira, habitante da pobre Diadema. Assim que Tin desmascarou o tal de Wesley, este correu para apagar seu perfil verdadeiro, em nova demonstração de coragem e tirocínio.

Mas antes do desmascaramento, o tal de Wesley havia chamado Tin de bichona, no que foi secundado pela aloprada aguada fulana de tal. Ambos formam a ora famosa e infame Dupla do Esquadrão do Print.

E qual foi o resultado dos insultos contra Tin?

Bidu. Tin foi banido da comunidade, ao mau passo que os agressores continuam lampeiros da vida a promover sua fuzarca. De novo é o tiranete moderador Jocelino Freitas dando mostras de ser justo e imparcial, penalizando a vítima. Parece estar cada vez mais evidente a parceria nefasta entre a Dupla do Esquadrão do Print, especializada em emboscar incautos, e o sr. Jocelino Freitas, aparentemente feliz proprietário de insaciável sanha banidora.

Assim caminha a porca existência no Berção, espargindo microcosmos de insanidade por todos os rincões, frestas e ninhos. Mas não há que se espantar. Afinal sabemos que a luta por um lugar ao sol é essencialmente política e traz à tona o que cada ser humano boçal tem de mais nojento dentro de si.


Update do update

O Manifesto consolida cada dia mais sua vocação para campeão de audiência. Porra gente, leiam o que escrevo. Exijo ser reconhecido por meus dotes de escriba, não como o Nelson Rubens das Letras. Nem tudo nesta vida é fuxico, farejação nas peripécias das celebridades e fuçação na merda excretada pelo próximo, sô.


Update final - 11/12/2010

Hoje tive a honra de ser banido da comunidade Literatura da orkut que de literatura tem só o nome.

Postei um tópico convulsivamente erótico e, naturalmente, escandalizei os Senhores de Santana que dão as cartas naquele arremedo de fórum.

Minha primeira reação foi postar este novo tópico:

NÃO ACREDITO, APAGARAM MEU TÓPICO!

Algum jumento com espírito censorial apagou um texto erótico que postei hoje.

Estou assombrado, perplexo, desconcertado, espantado.

O sujeito com vocação para calar bocas tem que ser muito burro pra suprimir criações alheias só porque se escandaliza com elas.

Seu censor de merda, você é um tiranete escroto absolutamente ignorante dos princípios que regem a liberdade de expressão e portanto a literatura.

Seu cretino, vc nunca ouvi falar de H. Hilst, nunca leu as cartas pornográficas que Joyce enviou à esposa?

Você deveria é controlar o mar de boçalidade que lava dia após dia este fórum em que só os medíocres e os puxa-sacos e os guardiães de ideias medievais têm vez.

Mais uma vez esta bosta de comu faz opção pela imbecilidade.


Mas à medida que digitava minha revolta foi crescendo e crescendo e terminei por encasquetar mais umas doze postagens eivadas de indignação, colocando os moderadores daquele covil de nulidades no lugar que merecem: o esgoto.

Hoje abri a orkut e deparei com o óbvio: meu banimento. E a deleção das dezenas de tópicos que já postara antes.

Os torquemadas optaram por excluir o arruaceiro. Sim, me ligo num bafafá. Faz parte nata da minha personalidade como eu mesmo e como escritor. Quando faço exame de sangue para medir meu ácido úrico e meus hormônios, a primeira constatação do laboratório é: inconformismo extremado. Quando levo os resultados ao meu estimado dr. H, não peço remédio para essa enfermidade -- que para mim é uma virtude --, pois sei que não tem cura.

Penso no papel do escritor -- se é que existe um -- e a primeira associação mental que faço quase que mecanicamente é com o inconformista. Escrever para mim é antes de tudo rebeldia. Eu mesmo não tenho bem certeza contra quê. Mas sou rebelde desde que nasci. Tampouco sei se é por isso que escrevo. Mas sei que escrevo para, entre outras coisas, tentar me entender na medida que sou capaz de me entender.

Escrever movido pelo inconformismo é para mim tão natural, que me assombro com a existência de escritores conformados. Um L.F. Verissimo, por exemplo. Detentor duma bonomia bovina e inabalável pachorra, V. vai comentando os desmazelos dos políticos, a impossibilidade dos relacionamentos, os absurdos da vida como se saboreasse tenros bolinhos de chuva numa noite invernal do Sul. V. expõe as tragédias a seus leitores em voz macia e um sorrisinho meio irônico. Sua plateia de diletantes tem os ouvidos sensíveis e poderia se assustar com o som e fúria sem significado da existência.

Tendo optado por degredar um encrenqueiro como eu, a moderação da comunidade "Literatura" abre braços e pernas para sumidades como o finório homófobo de Diadema, dedo-duro profissional que diuturnamente denuncia aos moderadores quaisquer membros que ousem levantar a voz contra as hílares bobagens que escreve, um filhote de nazista e sem-caráter que se oculta atrás de dezenas de perfis fakes e que nutre predileção por perseguir quem lhe olhe atravessado. A moderação opta também por premiar uma tal Tati de Curitiba, loira aguadíssima e fascistinha que não admite ser contrariada em suas postagens histéricas e que se notabilizou por fazer prints dos diálogos mantidos no fórum com outros membros para em seguida passá-los ao finório homófobo de Diadema que por sua energúmena vez os encaminha aos "moderadores" que por sua pusilânime vez executa a ordem de ostracismo contra a vítima que caiu na emboscada.

Bem, foram uns quatro meses de convivência diária com ratos, camundongos e ratazanas. Não há quase ninguém que preste naquele ninho de vermes semiiletrados devotados a espezinhar a obra sagrada de grandes escritores, babando diariamente as mais inacreditáveis aboborinhas pseudos, decretando post após post a impertinência dum Schopenhauer (sic) ou a superficialidade dum Hemingway (sic!).

E least & last, não posso esquecer a Tia da Candinha, que me acompanhou ao longo da empreitada, como sempre bisbilhotera, espiona e temerosa de mostrar a cara mas sem dar um pio sobre minha identidade secreta. O único porenzinho em sua louvável atuação foi ter se tornado puxa-saco da loira barraqueira mestra do print, já próximo à reta final. Pois é, só os bravos resistem.

E aquele abraço para as lesmas que tomam sol de manhã à noite naquele fórum de araque. A liberdade de expressão é ali emporcalhada a mais não poder mas as lesmas seguem firme em seu autismo enquanto falam monumentais porcarias sobre o que não sabem.

Como disse, tenho a honra de ser banido do canil de insanos. Voltei ao meu papel de pária, do qual não procuro me livrar e tudo que logro é padecer quando tento. Pus novamente um pé no barco não furado dos que se recusam a tomar parte do baile no hospício. Certo, não sou nenhum grande autor. E a pecha de maldito que críticos literários afixam a certos escritores não passa de cafonice. Até aí todo escritor digno do nome é e tem de ser maldito. Posso não ser grande, posso não ser sequer escritor, mas não embarco no coro dos alegres de papo pro ar incessantemente cantando a graça recebida da insensatez.


Update final II

Criei outro perfil, entrei na comunidade Literatura e o sr. Jocelino Freitas me expulsou uma segunda vez.
O sr. Jocelino Freitas, xerifinho ridículo daquela comunidade que se autoproclama escritor e poeta, é um déspota repulsivo.

É primavera

Que me contas? pergunta Drummond.

Caro Carlos, o que me espanta é que até a mais despretensiosa erva daninha do meu jardim também recebeu a nova.

Se há uma verdadeira loucura

Nos abraçamos, me soldo a Soninha. Sem revolta ou repugnância. Quero apenas prolongar este instante até que tudo acabe.

Solto os braços, me afasto. Olho a parede. Espero que Soninha tenha sumido do universo quando meus olhos  voltarem para ela.

Não dou a mínima para mim mesmo. Não dou a mínima para os meus pensamentos. Sou meu único inimigo, preciso desenvolver armas eficazes para me combater.

Cala a boca, voz interna. Suspende teus ataques. Me desescraviza do Grande Sentido. Se posso andar e então parar, morder o lábio até tirar sangue e então cuspir, por que não me foi concedido o dom de reprimir a incessante operação do meu cérebro?

Encho os pulmões de ar, prendo a respiração, deixo de existir por um segundo. Que delícia seria ter uma existência que funcionasse como o nosso sistema nervoso simpático, entrando em ação nos bons momentos, dormindo nos maus.

Sim, é um caso para ioga. Talvez um simples laxante.

Você é um irracionalista, me acuso.

Mas não é esta uma das grandes questões humanas? me defendo.

Esqueça. Você é apenas um mutante feito milhões de outros, sem utilidade para nada, rumando para lugar nenhum.

Me abraça, suave Soninha. Não quero estar tão perto.

Não quero estar tão certo.

Fugitivo aprisionado


A manhã se partiu ao meio.
Exatamente ao meio?
Ainda não se sabe.
Podem ser várias as causas de tal quebra.
Um ganido de cachorro lá longe. Um roncar de avião lá em cima. Um requerimento inalienável de satisfação ou expiação aqui dentro.
Uma vez bipartida a manhã, várias situações podem ocorrer.
A ruptura é categórica e não se ousa contestá-la e nesse caso também abrem-se várias alternativas.
Ela, manhã, entra para o respectivo Escaninho Histórico das Experiências, diluindo-se às demais e alimentando a voracidade de todas as rupturas.
Ou cada uma de suas metades pode também fender-se em duas e deflagrar um efeito geométrico de infinitos fragmentos.
Ou não.
Ou, santa mãe, as duas metades originais voltam a unir-se por uma emenda suave, quase imperceptível.
Ou um remendão. 
Ou, simplesmente, a xícara do café despenca de repente, espatifando-se em incontáveis caquinhos no chão da cozinha no meio da manhã.


Nada além do mundo, ninguém além de mim

Resolvi partir. De repente. De repente como sempre faço. Desconcerto, sei. Me perco na longa noite escura. Quem me vê talvez tome por fricote, confunda com charme. Até uns tempos atrás podia ser. Mas sabe o que é engraçado nisso? O engraçado é que o charme que eu fazia era para mim mesmo. Isso de certo ninguém vai entender. Não parece razoável. Charme e outras coisas só se faz para os outros. Acho que faz parte da nossa ritualística. Nossa, não -- deles. Nesta Fração de Segundo Internacional da minha ex-mulher Sílvia quero a mãe que ocupe a cozinha. Hoje, me pondo no lugar dela, tento me enxergar desempenhando meu próprio papel. E não me enxergo atuando para uma plateia. Tantas perguntas, não é? Às vezes ouço um murmúrio vindo lá debaixo onde ficam as cadeiras. Mas não há nada lá quando olho. Estou absolutamente sozinho. E para quem você vai atuar quando está sozinho? Para você mesmo. Parece complicado. Mas não é. Você atua -- uma cena, duas, talvez a peça inteira --, corre para a primeira fila, senta e aplaude. Mas no meu caso nunca me aplaudo. Isso deve estar óbvio para quem me vê. No curto dia claro me perco. Há horas em que me vaio. Mas na maior parte das vezes me limito a silenciar -- fico lá imóvel estátua, semblante severo, olhar perspicaz de crítico magnânimo assistindo ao meu vulto no centro do palco, por minha vez desempenhando meu papel de espectador a outro de mim que está sentado na segunda fila. E na terceira. E na quarta. E o gás exaure requentando o arroz-feijão eterno descongelando as memórias do freezer refogando doces dores no fogão. Complicado, sei. E é. Não foi à toa que ela cansou. E há algo extremamente errado nesta minha conversa de autoteatro -- vou falando, assim como quem não quer nada, como se todos nós seres da espécie humana fôssemos aferroados pelo dilema da autoencenação. Até podemos. Mas não é condição própria da raça que angustie muita gente. A maioria está preocupada apenas em ser feliz. O que -- hoje admito -- não é pouca coisa. Na sala Sílvia era a amiga que a mim se irmanava, carimbando burocrática as atribuições cotidianas, treinando meus dedos nos desenhos do meu alfabeto para escrever à mulher que preciso encontrar. Posso parecer meio idiota -- ou leviano -- fazendo pouco assim da felicidade. Não faço, acredite. Hoje não. Até ontem, naturalmente. Vou ficando cada dia mais e mais sem respostas. Além de assistir à minha própria encenação, me amarrava em ficar de fora do grande drama humano, tirando uma da cara dos pequenos homens e mulheres e suas pequenas tragédias pessoais e suas efêmeras alegrias de quem se contenta com quase nada e sua cega obediência religiosa aos mitos em que foram ensinados a acreditar e suas patéticas crenças em tudo aquilo que desconhecem e sua previsível e tirânica devoção ao bem-estar e sua esterilizada necessidade de senso estético.

Quando penso me perco, quando me perco me perco, me perco quando me lembro, me perco quando me esqueço. Ela me perdia na minha cama,  porca sem pudor de se emporcalhar, soprando em meus ouvidos revigorantes imundices, me torturando às lambidas até a rendição, me purificando de sua sujeira, me rebatismando com o nome que não sei e sempre esperei ter.

Ela não me entende. Já imaginou uma vida sem perguntas? Como esta ou qualquer outra? Vida assim valeria a pena viver, não valeria? Mas eu a entendo. Naquele instante, não. Agora, sim. Pois agora consegui enfim descansar. Depois de meses. Estou relaxado. Parece até o prenúncio de uma dor maior.

Me perco quando me olhas com teu olhar macio enquanto me tocas com tuas mãos frias.

Há tanto tempo não me sentia assim aliviado. Às vezes parece que tenho esperança. Mas não vou falar da minha desesperança. Hoje não. Hoje vou deixar minha desesperança lá fora da porta na chuva com o meu pessimismo, sob a tempestade com meu romantismo exacerbado, nas trevas com meu culto ao mórbido, na minha loucura fingida, nas minhas, sei lá, neuroses.

Com Sìlvia eu era capaz de achar os caminhos dentro de casa sem me perder.

Então, pela enésima vez, montei Meu Grande Palco das Dores Pífias. E subi à ribalta e estufei o peito e enchi a boca e em tropicantes versos declamei meu drama enquanto a Sílvia teria bastado um pedreiro, encanador, jardineiro, pintor, serralheiro, azulejista, carpinteiro ou eletricista.

Quando ela se foi descortinei o brutal panorama da dor. Todas as outras, a.S e d.S., foram, vejo agora, apenas treino. Sou simplesmente um neurótico, não tenho o direito de me fazer passar por artista. Ou "sensível", se "artista" soar pesado demais. Esse foi meu maior erro. Querer passar por artista almejando às regalias próprias daqueles que fazem arte. Em minha defesa, diria que estava apenas tentando obter um salvo-conduto. Diria. Mas não vou dizer. Não quero me defender. Entre outras razões, porque sou indefensável. Meus crimes são tão medonhos, que sequer constam dos códigos legais. Ah, lá ia eu de novo me fazendo de especial. Não, não cometi crime medonho algum. Minha única falta, que tampouco parece grave, é ser mentiroso. Sou um reles mentiroso, desses que há aos milhares em qualquer esquina do centro, aos milhões em qualquer grande cidade, aos bilhões que neste exato momento estão em seus cubículos mundo afora diante de seus computadores encenando covardes e solitários suas fantasias neuróticas por ser incapazes de tomar ações práticas. E por ser parte desse rebanho -- o que me doi admitir -- jamais cheguei tão perto assim duma verdadeira confidência, pois todas as fraquezas que jamais admiti em mim mesmo admiti apenas para me fazer forte -- por ser parte desse rebanho, não mereço foro privilegiado.

Me perco quando passo diante de sua casa, esperando ouvir sua voz me chamar.

Escrevendo assim para ninguém, sei que ela está me lendo, mesmo assim não consigo ser mais direto do que estou sendo. Depois de tudo que fiz, acabaram-se meus recursos. Ela cansou das minhas idas e vindas. Queria lhe dizer que não sei ser de outro jeito. Porque subo caindo, volto indo, choro rindo. Sou tudo ao mesmo tempo, quero tudo ao mesmo tempo, faço tudo ao mesmo tempo. As coisas acontecem rápido demais aqui dentro. Não sou fácil. Nem me esforço muito para ser. Bem, depois de tudo, até que estou me. Você provavelmente está percebendo. Não está? Estou fazendo tudo que posso. É pouco, sei. Na prática praticamente nada. Não é desculpa para mais um jogo com as palavras. As palavras são meu cárcere e minha treva e a lamparina bruxuleante que vez ou outra sou capaz de acender no breu da minha noite.

Então resolvi partir. Que dia foi? Um, desses. Antes de ontem? Boto um pé fora da porta, bato, tranco, pela janela ela me vê indo. Rio por dentro, fico imaginando o que ela estará pensando, quero adivinhar o que estará sentindo. Pois, você sabe, ela é um enigma. Reservada qual interior escuro de boate para os meus olhos de criança. Sou ao contrário. Você também sabe, me expus por inteiro ao longo desse tempo que parecia não ter fim. Provavelmente não deixei nada de fora dos relatórios sentimentais que fiz a ela. Como se me martirizasse num pau-de-arara, lhe confessei cada um dos meus sonhos e cada uma das minhas vergonhas. Imprudente, supliquei que concretizasse comigo minhas loucuras.

Vou sabendo seu nome completo, profissão, um ou outro da família, suas enxaquecas e tpms, a idade, a naturalidade, que fez três abortos, que, descendente confessa dos peixes, tem uma afinidade quase atávica com a água, que olha a vida com a crença simples de que a uma ação sempre cabe uma reação, que ria das minhas esquisitices c'uma risada franca e cristalina que me acabrunhava, que é sincera (não, mais que sincera: honesta. Duma honestidade que me perturbava, de tão aguda), que é precavida.

De mim, repito, sabe tudo. Menos minhas virtudes, pois essas não as tenho. Mas, você há de reconhecer, nunca escondi meus defeitos. Será esta então uma virtude? (Não, não quero ter virtudes. Preciso preservar esta minha fama de famigerado.) E claro nunca escondi meus defeitos porque são inescondíveis. Então acho que não sou tão bobo quanto pretendo parecer. Ao longo da minha vida, me decidi a iluminar meus defeitos por não ter como ocultá-los. Terá tudo se resumido a um estratagema? Inexistente deus, fazei que não. Não posso estar encalacrado a esse ponto. Estou farto dos meus truques. Por isso, entre outras razões, resolvi partir. Estou no meio do caminho, acho. É tudo tão estranho. Penso estar numa cidade-fantasma. Vou indo como no poema espanhol, o caminho se faz à medida que avanço.

De tudo que não sei, só uma coisa é certa -- espero sabendo que minhas chances acabaram. Talvez nem ao menos isso saiba. Por certo não quero. Em breve me cansarei mortalmente de ir voltando. Já se foi um ano inteiro? Para mim, absolutamente nada. Estou a esperar desde que nasci. E o dia em que a espera já não fizer mais sentido será o dia em que morrerei.

Em vista do acima exposto, envio um poema para Sílvia.

Um ano é uma eternidade

Naquelas tardes ainda era possível amar sem temer que já não havia esperança
E as perdi, aquelas tardes, como quem perde a chave de casa
Me lembro que avançava seguro de mim
Indiferente à minha ingenuidade
Os que pensam saber são tão arrogantes!
Não havia saída então ou não haverá hoje?

Clico enviar. Me planto diante do computador, cruzo os braços, espero. Um email de resposta é um motivo razoável para esperar, não é?

YOU'VE GOT MAIL! YOU'VE GOT MAIL!

Como vai? Olha, tem dia sinto saudades daquelas loucuras... Bj.

Assim, com reticências. O mais sórdido, o mais desumano, o mais ambíguo sinal de pontuação. E a preguiça dos nativos da internet de mandar um beijo por extenso.

Treplico:

Pseudopoeta mudando, acima do peso, poltrão, desleixado, doentio, instável, desempregado, molenga, sociopata (claro), pai de nº incerto de filhos, avesso a qualquer atividade física, repentinamente disposto a chutar o pau da própria barraca, oferece-se para trabalho por empreitada, biscate ou diária. Faço serviços de solda, instalação de luminárias e refletores, sensor de presenças, calhas florescentes, limpeza de caixa d’água, terreno, troco chuveiros, todos os serviços elétricos, troca da fiação geral, disjuntores, chuveiros, tomadas, interruptores, campainha, instalo quadros e cortinas, conserto ventiladores de teto, instalo ar condicionado, executo manutenção de cerca elétrica e portão eletrônico, conserto portas, janelas, armários de cozinha e móveis em geral, trabalho com todas as marcas de pinturas em geral (paredes, pisos e azulejos), faço pequenos carretos, aceito como parte de pagamento algo que você tenha (pode ser ferramentas, máquinas, vitrines, qualquer coisa que me interesse), financio em até 10 vezes no cartão, aceito serviços para fazer em casa, onde eu possa repassar, aceito doação de aparelhos pifados como TV, som, vídeo, livros, portão, bomba de poço, alto-falante, retiro no local, aceito serviços de entrega e vendas, posso trabalhar buscando e levando idosos e doentes, enfim estou pronto para qualquer tipo de serviço dentro da lei e ao terminar posso imitar o Gianni Morandi:

Se non avessi più te meglio morire perché questo silenzio che nasce intorno a me se manchi tu, mi fai sentire solo come un fiume che va verso la fine.

Aforismos revisitados

O inferno são as outras

Simone de Bovoá

O valor de mil palavras



Me-mando incontinenti quando entro num blog literário e dou de cara com fotos. Não confio em quem escora suas postagens em cartões-postais estetizantes.

Mas não pude resistir à propensão ilustratória quando vi esta do Maycon Cleverson Santos da Silva e bela companhia.

Maycon Cleverson Santos da Silva mora em Fontoura Xavier, no interior do RS. No dia 6/10/10 Maycon Cleverson Santos da Silva acertou a Mega-Sena acumulada. Maycon Cleverson Santos da Silva embolsou R$ 119.142.000,00.

Na foto acima podemos ver Maycon Cleverson Santos da Silva e algumas amiguinhas. Não sei se Maycon Cleverson Santos da Silva conquistou essas amiguinhas assim que faturou a sorte grande. Seja como for, dizem que a foto foi tirada 15 minutos depois que Maycon Cleverson Santos da Silva recebeu o prêmio numa agência da Caixa Econômica em Porto Alegre.

Segundo consta, a moça de blusa vermelha afirmou que estava de olho em Maycon Cleverson Santos da Silva fazia tempo. Se postava na janela esperando Maycon Cleverson Santos da Silva passar a caminho do trabalho, pois sempre achou Maycon Cleverson Santos da Silva um gato. Maycon Cleverson Santos da Silva trabalhava em um frigorífico. Não sei se Maycon Cleverson Santos da Silva pediu demissão depois de botar a mão na bolada.

E rumores correm que a loirinha toda de preto passara o ano todinho a escrever a Maycon Cleverson Santos da Silva bilhetinhos encharcados de ofertas lascivas de emporcalhadas orgias. A mencionada loirinha, porém, alegou que nunca enviou tais bilhetinhos a Maycon Cleverson Santos da Silva, pois, segundo suas próprias palavras, sendo extremamente tímida, não teve coragem suficiente. De qualquer forma, Maycon Cleverson Santos da Silva seria incapaz de responder, visto ser analfabeto de pai, mãe e tia.

E, por fim, dizem que a terceira amiguinha, aquela de umbigo de fora, estava, no dia anterior ao anúncio do prêmio, se preparando para ir ao barraco onde Maycon Cleverson Santos da Silva morava, pois tinha decidido que Maycon Cleverson Santos da Silva era o homem de sua vida e ia lhe pedir a mãozona em casamento. Acontece, segundo ela mesma, que, já a caminho do citado barraco, parou num botequim ansiosa por iniciar os festejos do casório, acabou bebendo além da conta, desmaiou e, ao acordar, viu-se numa cama, pelada, ao lado dum mané também pelado que, conforme descobriu depois, era o dono do boteco.

Confissão dum torturado

Fiquei largado lá minha mesa, cigarro entre os dedos, copo intocado à frente, olhando o nada. Tinha ciência dos vultos circulando ao redor longínquos como personagens dum desenho animado, emitindo fonemas numa língua sem sentido. Não havia nenhum pensamento na minha cabeça. Pressa no meu coração. Propósito na minha existência.

Não precisava existir. Não precisava morrer.

Mesmo sem pensar, sabia que aquele rosto em meu rosto não era meu. Como não era minha aquela minha camisa azul xadrez. E não eram meus aqueles meus olhos olhando o nada. E não era mais minha a minha mesa onde fiquei largado por um segundo feito de séculos até ver minha espera finalmente abolida.

E, mesmo sem haver fim, a espera terminou.

Então abstive-me de aspirar a um sorriso, à compreensão, ao gole seguinte, a uma trepada.

E abstive-me, abstive-me, abstive-me.

Até me inundar do passado.

Enquanto pauso e suspiro

Soninha ronca feito marreca pulando na frigideira.

Não ligo muito. Não acordei ainda. E o meu radinho de pilha, que nunca silencia, está tocando um concerto de Haendel. Ouvir um sujeito como Haendel sonâmbulo é insuperável. Distingo claramente os violinos dos trompetes, as xifópagas fugas se imbricando, os acordes robustos e palpáveis, as frases vivas se enroscando e desenroscando qual minhocas na lata de óleo de milho que papai levava em suas pescarias com mamãe e a empregada.

Os violoncelos se enfurecem, umas vaguesas sobrevoam aos tropicões em meu cérebro pedindo que as registre no meu blog. Faço que sim. Mas é só uma promessa. Meus resíduos oníricos nunca se mantêm os mesmos. Às vezes viram pó e somem pela lixeira da alma, outras se aglomeram tomando um corpo demasiado grande para a minha consciência.

Toda manhã levo uma hora entre semiacordar e me semierguer na cama e me semilevantar e semivestir as calças e semienfiar os pés nos chinelos e semidescer para o escritório semissonâmbulo com fragmentos de ideias e palavras e frases primitivas e nomes de blogs semipipocando dentro da cabeça. Mais ou menos uma vez por mês, à noitinha, quando já cliquei à tripa-forra, me animo a assuntar num blog alheio. Raros são legíveis. Começam mal já no nome. Um deles chega ao cúmulo de trombetear-se "sonâmbulas sonecas", numa grotesca tentativa de fazer poesia com esse escorregadio estado mental comum a todos nós enquanto raia porcamente o trocadilhesco.

Rezam os críticos que trocadilhos são indesejáveis. Eu também.

A maioria inclui no título do blog cafonices como delírio, palavra isso e aquilo, letra aquilo e isso, glamur, profundo sei-lá-o-quê e por aí afora. Alguns almejam a fazer graça. Outros cometem a imprudência de se autointitularem "poéticos". Os autores desses blogs obviamente nunca leram Eliot e suas sentenças de morte à poesia excessivamente poética que não raro se afoga desamparada no brega. Tendo o parnasianismo deteriorado há pelo menos 150 anos, muitos "poetas" ainda confundem poesia com retórica. Palavras bombásticas, obsoletas, extravagantes ou meramente sentimentalóides podem até produzir algum efeito elegante ou efemeramente intrigante, mas de certo não são as mais apropriadas para expressar os nossos sentimentos. Acabam apenas traindo pretensão. But who cares? Blogs não passam de fetiche tecnológico e pouco têm a ver com poesia. Os verdadeiros poetas estão lá fora tentando viver apesar da vida. E, mais importante, ninguém lê blog literário. Escrevemos torcendo que uma alma caridosa nos leia, mas somos nossos únicos leitores. De minha parte escrevo unicamente por vício. Ao longo de quatro décadas devo ter escrito o equivalente a meia Recherche e sei que vai tudo embora comigo. Dizem que não levamos nada desta vida. Alguns levamos sim.

Mas antes que eu consiga dar um passo para fora do quarto Soninha geme e acorda e me vê na penumbra e sorri. Essa mania de sorrir antes de qualquer outra coisa me irrita ao delírio. Não entendo essas demonstrações mecânicas.

Você comprou as passagens para Buenos Aires?

Pronto, os semifragmentos de semiideias para o blog foram pro saco.

Digo que não tive tempo, vou comprar quando puder. Nunca, naturalmente. Se Borges não aturava os argentinos, por que eu haveria de?

E se fôssemos para o interior em vez da capital?

No interior eles têm tango? Se a gente não for, você me paga um curso de tango?

Se tiver curso de tango nesta cidade, pago.

Ela tira uma perna da cama e para, pensativa. Alguns segundos depois tira a segunda e para de novo. (Detesto esse para sem acento. Por que os acadêmicos e políticos têm de mexer na língua dos outros?)

Já vou indo. Tenho um cliente às onze. Minto, claro. Não tenho cliente nenhum há uns oito anos. Até.

Nenhuma beijoca?

Por que mulher gosta tanto de beijar? Deve ser papo de mãe. Sílvia, apesar da dureza e do feminismo, também gosta. Um beijinho frio e seco como o clima de Frankfurt. Sílvia agora só tem amantes, diz que não vai mais namorar ou casar. E só homens casados. Deve ser necessidade de aventura. Adora debochar dos ex-maridos fiéis que lhe caem nas garras chucros. Tem de lhes ensinar até o básico. Não sabem sentir prazer. Uns se recusam ao sexo anal. Sempre me pergunto por que comigo ela nunca quis sexo anal. Soninha curtia pacas, mais que eu. Sílvia agora arrumou um amante negro. Perguntei se estava satisfeita com o tamanho. Pode parecer boçal, eu sei. (Já me chamaram de escatológico. A classe média e suas fantasias de assepsia.) É mentira quando mulher diz que tamanho não é documento. Do meu ela se queixava.

Faço cara de arrependimento, vou até a cama e lhe aplico um selinho. Ela sorri como se ganhasse na loteria.

Dá pra você botar essa carta na caixa do correio? Ela aponta em cima da cômoda.

Tudo bem. Pego a carta, dobro e enfio no bolso sem ler ou perguntar para quem é. Saio prometendo a mim mesmo que vou arrumar o curso de tango nem que seja em São Paulo. O Serra fez uma estação do Metrô relativamente perto. Serra é do bem.

Só mais uma coisa. Você prefere esta blusa verde ou a amarela?

Meu ímpeto é dar de ombros. Não entendo essa preocupação das mulheres com o que vestem. Nunca, uma vez que fosse, pensei em escolher uma camisa pela cor.

Amarela.

Novo sorriso.

Hoje vou ver se pego aquela vaga.

Ah, boa sorte.

Soninha viu uma placa no comitê da Dilma contratando moças. Entrou para perguntar, disseram que era para proselitismo. Duvido que um petista de bairro saiba o que é proselitismo. Chegou aqui, perguntou que raio era aquilo. Expliquei. Ela se animou. Soninha adora a Dilma. Esquerdistas têm uma visão profundamente pueril do mundo. Pediu para eu mostrar como se faz. Tentei. Não sou bom de fala e mímica. Minha voz anuncia de longe o meu enfado permanente (uma vez tentei dar aulas de inglês, mesmos os alunos mais esforçados caíam no sono em dez minutos), minha linguagem corporal deve parecer missa em latim. Mas Soninha é esperta e pegou no ato. Cinco minutos depois seguramente tinha esquecido o significado de proselitismo. Mas já era uma proselitista nata.

Então até, repito.

Bom trabalho.

Saio pela porta dos fundos e desço, chutando hibiscos fenecidos caídos no caminho de pedra mineira. Piso nestas pedras desde que nasci e cada vez que piso me pergunto de que profundezas de Minas terão vindo. Tenho tando dó do mundo.

Olho para a janela do quarto, está apagada. Soninha voltou a pegar no sono. Quanto entusiasmo para dormir tem essa menina. Se não tivéssemos 35 anos de diferença, dava uns tapas no Lacerda, fugia com ela, comprava um vestido de noiva e me casava na igreja, o maior desejo dela. Outra coisa que não entendo nos pobres, mas já me acostumei. Antes de conhecer Soninha eu vivia rindo de certos conceitos e de certas palavras useiras na mídia. "Fenômeno", por exemplo. É uma das mais repetidas entre "cientistas políticos" debatendo as eleições na imprensa. De minha parte, nunca presenciei um fenômeno, nem de longe. Certo poetas, como Ferreira Gullar, por exemplo, vivem exaltando a importância do absurdo em suas "obras". Para mim o absurdo não existe. Quando olho para fora e penso em mim, tudo me parece natural. Inclusive a loucura. Fenômenos são igualmente raríssimos na nossa vidinha besta. Na minha, exceto minha eufórica, amada Soninha.

Meto a chave na fechadura, preciso trancar sempre que saio, morro de medo que levem meu computador com a minha metade da Recherche e de que só faço backup uma vez por ano por preguiça.

Ah, minha preguiça. Poderia ficar dias escrevendo sobre ela não fosse ela própria. Essa sim é um "fenômeno". Custo tanto a pegar embalo. E escrever é tão excruciante. Me lembro do Rubem Fonseca toda vez que penso no assunto. Fonseca diz (ou dizia quando escrevia regularmente, não sei se ainda escreve) que escrever (certo, essa repetição irrita mas me acostumei de tanto ler Bernhard e não consigo adotar o costume lusitano de usar aqueles pronomes espantosamente oblíquos, embora tenha escrito em lusitano muito anos antes de (me) cansar) é questão de, mais que talento, muque. Todo mundo sabe que ele praticava halteres, não sei se apenas para escrever ou também pensando na saúde e longevidade. Taí outra coisa que não entendo: escritor halterofilista que preste. Meu ideal de poeta é Roberto Piva ("Eu só acredito em poeta experimental que tenha vida experimental, que não tenha medo de beber, tomar alucinógeno, amar."), apesar da pecha cafona de "maldito". Todo "bom" poeta é maldito em algum sentido. Mesmo os que na vida fazem(izeram) parte do mainstream. Meu ideal de poeta é Ana Cristina, Sylvia, Anne S. Ah, quanta coragem é preciso ter para renunciar à paz, ao sossego, à simplicidade, às fantasias "burguesas" pela poesia. Quem dera eu a tivesse. Mas não ia querer o cerebralismo estéril dum Haroldo ou a erudição dum Mário Faustino. Minha poesia, se fosse ungido, seria tão bruta e rudimentar, que qualquer idiota fosse capaz de entendê-la. Se poeta fosse, eu falaria do prazer de falar besteira a torto e direito. Exaltaria a sacralidade duma cambalhota na grama. Enumeraria as virtudes da falta de vocação para os afazeres utilitários ou para qualquer outra coisa, incluindo a poesia. Descreveria a sensação de lembrar quando mamãe me vestia com a roupa da missa me dando um beijinho de prêmio. Versejaria sobre a insuperável experiência de parar na esquina para ficar olhando o mundo passar à minha frente.

Mas me tornei este burguês de que cresci lendo Sartre debochar de. Acho que tenho límpidos na memória os vários momentos em que desisti da opção pela minha poesia bruta e brutal para me tornar um pusilânime esbanjando saúde a verter uma poesia enfermiça. A marginalidade mental não admite receitas de prozac. Meu ideal de poeta é Stela do Patrocínio. A marginalidade emocional não admite clemência por compaixão. Meu ideal de poeta é Orides Fontela.

Nós burgueses impenitentes não sabemos avançar para além do amante seguro, próprio para manejar e esconder. Ocasionalmente um ou outra comete uma gafe. Pode então ver seu casamento desmanchado, perdendo até mesmo metade dos malditos bens. Tudo depende da boa-vontade do cônjuge corneado. Ou da capacidade do cônjuge corneador em levantar os podres daquele para fazer uma barganha. Você larga o teu, eu largo o meu e voltamos a dormir na mesma cama como se nada tivesse acontecido em nome das crianças e do Peugeot novinho em folha. Os mais radicais ousam sonhar com a vida que não tiveram enquanto assistem um dramalhão hollywoodiano. Então enchem os olhos d'água e confessam para si mesmos que, sim, certos sentimentos, embora genuínos, são e serão ocultados em nome dos negócios.

Estou falando, em grande parte, de Sílvia, claro. Não mercadejei assim tão descaradamente meu "coração". Apenas me vendi mais caro. E, vendo o estado a que cheguei, e a que chegaria de qualquer outra forma, tomei na cabeça. Não é exagero explicar que mamãe ficaria de cara amarrada se me visse agora. Que bom que já se foi. Não suportava vê-la sofrer.

Mas burgueses renitentes não são a única raça que povoa este sombrio corpo celeste. Há os aspirantes a. Há os felizes. Pior: os ditosos. Há, ó minha amada pequenina Sônia, os eufóricos.

Soninha é um frasco vazio. Seu possível conteúdo depende de mim. É a primeira vez na minha vida que escrevo conteúdo sem aspas. Certas palavras são impronunciáveis.

Minha pequena cara, é teu este mundo. Quantos, quais de nós não nasceram para sobreviver? Você de certo é uma das eleitas. Vejo teu olhar deslizar pelas coisas que te rodeiam e vejo que estás em teu habitat, teu território. És a gaivota contra o céu da praia, a foca no mar da Patagônia, a boa bactéria na flora genital. Não deixa que sequer uma gota de mim te ocupe. Pois uma gotícula de mim poderá te envenenar. Estragar teu sorriso singelo. Empestar o puro ar que teu narizinho aspira. Perverter teus abençoados hormônios. Te expor à verdade do mundo.

[será que continuo amanhã? terei terminado? ou não era nada disso?]