Metafísicos adultérios

A poesia mais elevada é aquela que atinge a profundeza do antipoético.

Escrever é botar uma escada no meio da sala, subir uns degraus, desenroscar a lâmpada, descer, sentar-se no sofá e ficar no escuro até que a luz própria se acenda. Pode levar minutos ou anos. O importante é não ter medo do escuro nem da espera nem do desespero que em geral a acompanha. Escrever não é fabricar uma maquininha de entretenimento para alimentar a imaginação morta e corrupta dos que se condenam a crer em mentiras sedutoras.

Hoje de manhãzinha enquanto um Nescafé eu fazia minha cabeça fez uma poesia e o café saiu fraquinho.

De que é que os escritores tanto escrevem, afinal de contas? Muitos, da vida. Alguns, da morte. Outros, de nada -- o mais fascinante de todos os assuntos.

Me desculpem os estruturalistas mas você pode até entender a poesia -- o difícil é entender o poeta. Da poesia, você sabe o que quer; do poeta, nem ele.

Há dois tipos de pessoas neste mundo: as que perdem guarda-chuvas e as que acham. E que continuam assim divididas mesmo quando não chove.

Ivaneide esguichou na pia do banheiro todo o conteúdo do colírio de dona Paula, encheu de ácido sulfúrico, botou de volta no lugar e pediu a conta.

Ao meu companheiro imaginário Cortázar
Nos mudamos. Em uma semana ela foi embora. Depois de um ano saí eu. E deixamos nossa casa vazia ocupada.

Tentando me enganar? Sou viciado em enganos. 
Nos enganamos imaginando que somos capazes de evitar enganos. A única forma de se livrar de enganos é cultivá-los como se cultiva uma floreira de ervas daninhas.

Não me sigam. Também estou perdido

Pois que te sigo porque estás perdido
Te obedeço em tua falta de senso
Me enumei da tarde de domingo
Naturalmente, jamais houve uma Era da Razão
Que me desse o bálsamo de me dissolver no breu da noite
Para abraçar minha loucura

Fui ensinado que o pensamento não passa de um bom-senso
Menos que abstrato
Há toda lógica na covardia
De viver a morte
Por afogamento semanal nos dois copos rasos de cerveja
Do rito da pizza da muzzarela mórbida e repelente
Assassina do frescor dos cheiros nunca sentidos

Chuvisco

d'uma fria noitinha de julho caída no meio de 15 de fevereiro


pensamento quebrado
boia de cacos sob as nuvens
a reluzir o que é uma existência
arrebanhada em quebra-cabeças impossível

números do bilhete que ontem você
comprou
para enfim nos redimir
sopa de grão-de-bico

(me furto a
explorar a potencialidade do mais poético
dos cereais)

a esperar por mim
toda tarde depois do futebol
na vilinha do Roberto

poça de cacos ondula sem cessar
sob o chuvisco que farfalha lá fora
molha os ouvidos nascidos moucos
dá voz aos cadáveres ruminantes
e libera os vagalumes mnemônicos
que formam não meu cemitério mas
o monolito abstrato que roubei para
o abandono

enfeita um a um com a fita rosa
em torno do diploma que minha irmã
ganhou no terceiro ano, a melhor
aluna da escola num grotesco lacinho final
capturado eternamente
por quem nunca entendeu
a serventia dos enfeites

Aula de um cínico

 À tarde desço à adega. Examino
 os numerosos tonéis de vinho. Cada qual
 de distinto sabor, procedência, idade, buquê
 cor, corpo e travo. Todas as tardes (todas as
 tardes invariavelmente; a única em que faltei
  foi aquela em que morreu meu pai), desço e apanho
um cálice grande o bastante para me embriagar
 e despejo um dedo de cada um dos tonéis que
 guardo na adega. Então sozinho brindo não
 à vida, não à morte, não à própria tarde.
 Apenas levo o cálice aos lábios e engulo
 disciplinad
amente
a
taça
duma

golfada
pois
não
 sei
 sorver
 senão duma vez

Neste mundo de iPods, violinos elétricos, britadeiras...

...só me ocorre perguntar: por que nos carros ingleses o porta-luvas fica do lado esquerdo?

Camus tinha nojo de sentimentos. Eu entendo. Também tenho. De mostrá-los. De que possam me compreender. De que possam saber de mim mais do que sei.

Mas se não sei nada.

Vejo agora que passei toda minha vida tentando não me compreender.

É repulsa difícil de explicar.

Você de certo poderá compreender por quê. Você que passou a vida toda pensando que compreende algo.

Não, não é nada disso.

Ninguém pode ter nojo dos próprios sentimentos. Nojo é sentimento.

E Camus era um aprendiz de aprendiz perto de Freud.

Sigismundo interpretaria cristalinamente que ter nojo do que se sente significa simplesmente que você não teve seus sentimentos aceitos na época certa.

Mas Camus é mais artista. Meursault é mais fácil de aquilatar.

Basta?

Eu mataria por causa da luz do sol.

Eu mataria por qualquer motivo, se o motivo me fosse bastante.

E os tenho. Às dezenas.

Sim, dezenas bastam. Algumas poucas. Menos de cem. Nesta era de incógnitos prefixos gregos para quantidades intergalácticas.

Mesmo nesta era de -

Do que mesmo é esta era?

Mas que interessa?

Não sou desta era.

Se sou, não quero ser.

Entreouvido no balcão do meu buteco

Pessoa:
Ah! A angústia, a raiva vil, o desespero de não poder confessar num tom de grito, num último grito austero meu coração a sangrar!

Bernhard:
Quando olhamos para as pessoas só vemos mutilados, por fora ou por dentro, disse-nos uma vez o Glenn, ou mutilados por dentro e por fora, não há senão gente assim, pensava eu. Quanto mais tempo olhamos para alguém tanto mais mutilado nos parece, porque é mais mutilado ainda do que nós podemos admitir, mas é essa a realidade. O mundo está cheio de mutilados. Andamos na rua e só encontramos mutilados.

Celan:
Leite negro da aurora nós o bebemos ao crepúsculo, nós o bebemos ao meio-dia e pela manhã nós o bebemos à noite, bebemos e bebemos, cavamos uma sepultura nos ares lá não se fica apertado, um homem mora na casa brinca com as serpentes escreve, escreve quando escurece na Alemanha teus cabelos de ouro Margarete, ele escreve isso aparece diante da casa e as estrelas cintilam ele - chama sua matilha, chama seus judeus manda cavarem na terra uma sepultura, ele nos ordena ponham-se a tocar agora para a dança

Pavese:
Virá a morte e terá os teus olhos, esta morte que nos acompanha da manhã à noite, insone, surda, como um velho remorso ou um vício absurdo.

Reach out to me

Dona Aranha passou a noite inteira paradinha à espera do pernilongo.
Até que, VUPT!
A lagartixa a engoliu.

Amaldiçoado Juninho que não me deixa

A aranha estendia ora uma, ora outra perna. Quantas pernas tem uma aranha? Não sei contar. São tantas. Me dá vontade de chorar. Quem me dera ter paciência para contar as pernas duma aranha, esperando que a noite acabe e volte a esperar.

A aranha deixava seu canto escuro na parede, atrás da caixa de força, e vinha bailar diante dos meus olhos. Por que bailas, dona aranha? Não sabes que a dança me deixa tonto? Queres troçar de mim? Ou não queres nada?

A aranha não respondia. Só bailava, daqui ali, dali aqui, de manhã cedo, logo depois do almoço, na tardezinha que lá fora engendrava um lusco-fusco.

Quando tudo começou, pensei que seria capaz de não tomar conhecimento. Agora rio. Como sou idiota. Por acaso há algo neste mundo que eu não queira saber? Sou o mais curioso dos curiosos das aranhas e de qualquer outro bicho que exista neste mundo.

Então fingi. Ó santa mãe, como fingi. Olhava para o outro lado. Fazia que não era comigo. Saía, esperando que ela não estivesse mais lá quando eu voltasse. Fechava os olhos, tornava a abrir. Até rezar rezei.

A aranha não me dava paz.

Hoje cedo cheguei, vi a aranha bailando na parede, minha parede, à minha frente, decidi acabar com a brincadeira. Taquei-lhe um, dois, três jatos decididos de Raid. (Na embalagem está escrito "Mata Moscas e Mosquitos", assim, em maiúsculas e minúsculas. Aranhas não estão incluídas. Talvez não deva matar aranhas.)

Agora a aranha jaz morta na minha parede, miseravelmente pendurada na teia que todas as manhãs armava e rearmava. As mil pernas estão recolhidas. Às vezes uma ou outra se estende e se recolhe num espamo, balançando a teia.

Me diz uma coisa, dona aranha. Armavas tua teia para apanhar insetos ou não havia insetos apropriados à tua teia?

(Esquece a pergunta. Não quero saber. Nem da tua teia nem de nada.)

(E estás morta. Não me interessam respostas de aranhas mortas.)

Se eu fosse o Veríssimo, poderia dar a esta história uma conclusão de fábula, introduzindo nela um distraído pernilongo que acabava enredado na teia da aranha morta. Seria um fim intrigante. Imagine você quantas "morais" poderíamos extrair duma coisa dessas.

Mas não sou o Veríssimo. Não gosto da ligeireza esperta do Veríssimo. Na minha história não apareceu pernilongo nenhum. A aranha simplesmente ficou lá pendurada a troco de nada.

O prêmio

Não estou em minha floresta
onde está a caverna onde me
abrigo na noite clara sem
tempestade nem mistério e as
árvores que não nasceram
onde subo buscando refúgio
durante o dia que não nasce.

Meu couro não tem listras
ou nódoas que confundam
o olhar não assustado
da minha caça e o olhar
não ávido do meu predador
se recobre de lâmpadas
chinesas, atraindo sobre
mim o olhar desinteressado
daquele que me deseja, o
olhar compreensivo daquele
a quem anseio
ao invés de confundir-me no
meio da clara noite no seio
da floresta em que não
persigo meu predador
sem a benção de morrer
nem fujo da minha caça
sem a chance de matar

Diálogo entreouvido no playground dum parque público

 Mamãe, então chega uma hora que não dá mais?

 Sim, filhinho. Chega.

 Sempre, mamãe?

 Sempre.

 E que hora é essa?

 Ninguém sabe, tesouro.

 Ninguém, ninguém? Nem papai? Nem papai do céu?

 Não, querido. Agora brinque.

 Mamãe, a minha hora de não dar mais também vai chegar?

 Vai, meu amor.

 Quando?

 Ninguém sabe, anjo.

Ninguém manda em mim

Ainda não estou preparado para usar pontos de exclamação.

Antipostagem

Me avisei, não poste.
Não diga, peça, reze.
Não escute nem cante, seja pelas ondas sonoras ou mentalmente.

Não.

Mas não durma.
Não sucumba ou morra.

Só desista.