More frightened than hurt

Estou (parado) (cabisbaixo) (inerme) diante duma ladeira.
Nem curta, nem. Comprida.
(Mas que perdulários foram os irmãos Campos.)

Na cabeça, uma casa nova.
Sem dormitórios.
Quero morar sem dormir.
Ficar sem temer.
Morrer sem viver.

Primeiro passo.
Na cabeça, versos contendo história dos.
Versos contendo tempo dos.
Versos contendo mágoas.

Chego ao topo da ladeira.
(Que instantânea chegada. Tão diferente da partida.)
(Não, não há finalmentes.
Se nunca houve, por que haveria de haver agora?)
Me volto, preparado para descer.
Ó mãe, como espero que seja esta a última vez.

Na cabeça não há versos.
(Mentira. Há, sim. Versos contendo a totalidade.)
Vou olhando as pedras da calçada.
Antecipando o poema que preciso escrever.

Nas voltas do meu coração

O tempo é a nossa única dimensão interessante e que conta. Não tem presente ou passado. Quem tem é a história. Futuro não existe, é uma abstração. O mundo ainda não acabou, fato, não significa que não acabará daqui a 3 segundos ou 10 minutos. Taí algo que a ciência não tem como "comprovar".

Einstein disse, entre outras definições, que tempo é o que o relógio mede. As descobertas do rapaz levaram à teoria quântica em que fenômenos que regem nossas vidinhas ocorrem não se sabe em que grau sob a lei do indeterminismo em que tudo é uma questão de probabilidades, i.e., acidental, i.e., se a melindrosa leitora não captou a implicação medonha, somos serezinhos brotados do lodo mais ou menos ao acaso, nossas vidinhas não são governadas por desígnios divinos, vamos padecendo aos trancos nos barrancos deste vale de lágrimas velho de guerra sem a mínima idéia de onde saímos, onde estamos e aonde iremos, quem somos e outras duvidazinhas que fazem dos nossos coraçõezinhos bombinhas-relógio decoradas com lacinhos vermelhos de chumbo e fel.

Os estudiosos quânticos puseram/põem na mesa enigmas como os pósitrons, elétrons que se movem para trás no tempo, e os táquions, demonstrados matematicamente, partículas mais rápidas que a luz que talvez possam subverter a ordem temporal que conhecemos, nossa noção de sucessividade, o modo como vemos as coisas ocorrendo no tempo, e outras belezinhas mais ou menos básicas para a nossa frágil mentezinha amanteigada. O pessoal, parece, descobriu que a seta do tempo pode ser invertida, qual naquela bela novelinha de Martin Amis, Time's Arrow. A máquina do tempo provavelmente será questão de, ã, tempo. Tem até um físico americano, John Wheeler, que disse haver fenômenos em que eventos ocorridos agora podem afetar o curso de eventos já ocorridos, quac.

Tudo isso é deveras intrigante, larirá-lirari. Desde Aristóteles a rapaziada vem peleando para espetar uma etiqueta no peito do bicho e partir para outras questões secundárias aguardando na fila das verdades científicas que viram de ponta-cabeça a cada seis meses. Não importa o que se descubra daqui em diante, não vai dar tempo de salvar nosso lindo ex-bucólico planetinha. A menos que defacto inventem a máquina que nos levará rumo ao futuro passado, quem sabe. Até lá, Marx, el gran sacador, reduzido a chefe de torcida organizada por direitistas/esquerdistas boçais engalfinhados na imorredoura bobageira ideológica, por culpa do "pragmático" Engels, me parece ainda insuperável em que o que conta é a história, o resto é detalhe, como definiriam certos confusos jornalistas. O cara teve a sorte de viver a efervescência da Revolução Industrial, que, contrariando meus princípios linguísticos, não posso deixar de pôr em caps. Kant, oquêi, é a rosa inebriantemente perfumada da Revolução, arauto que oficializou a maratona definitiva da humanidade, sob o tiro de largada de Newton, na corrida do conhecimento e do progresso e da autodestruição. O jogo-da-amarelinha quântico é cativante, urdido e tramado pelo mesmo tipo de cientistas que fizeram da Terra o lixão da Via Láctea. O patético disso tudo é que os cabras agora têm pela frente a missão de desinventar a porcariada que nos trouxe a este cul-de-sac. Mas parece que deus não aceita devoluções. Nada vai nos tirar desse encrenca. A fantasia da alienação está à venda em milhões de tamanhos e cores. Um deles/delas serve direitinho na ciência. Entre religiosos assumidamente irracionalistas e cientistas sonambulamente irracionalistas, fico co's primeiros. São menos perigosos.

Pra variar, a última palavra é dos poetas, pessoalzinho que não entende a vida nem tem a pretensão de:

Carrol:

Alice sighed wearily. 'I think you might do something better with the time,' she said, 'than waste it in asking riddles that have no answers.'

'If you knew Time as well as I do,' said the Hatter, 'you wouldn't talk about wasting it. It's him.'

'I don't know what you mean,' said Alice.

'Of course you don't!' the Hatter said, tossing his head contemptuously. 'I dare say you never even spoke to Time!'


Eliot, em Burnt Norton:

Time past and time future
Allow but a little consciousness.
To be conscious is not to be in time.
 

Clareza da água sanitária

Não gosto nem nunca gostei de visitas. Só gosta quem acha que perdeu algo por aí no mundo. Já sei: quem não gosta de visitas não quer deixar rastros, não é? Será esta conclusão válida? Mesmo que não, ou pensem que não, peço que entendam.

Preciso confessar, tenho saudade daqueles tempos em que aceitava a existência alheia e brincava no pátio da escola e na vilinha do Roberto. O Roberto era gordo qual anta e tinha cara de delibóide, digo, debilóide. Nunca mais tive news dele. Nunca mais vi mais gordo. O baleia me detestava. Por que será?

Quem não gosta de visitas passa aos outros uma impressão de ser inconfiável. Isso sempre me deixou triste. Pois sou. E não quero que confiem em mim. E querer isso é para mim um avanço espetacular. Quero ter amigos. Amigos que me deem uma opinião sobre um livro que estou escrevendo. Amigos que me respondam. Sou sincero. Cansei de brigar. Com tudo e todos.

Hoje não consegui dormir. Fiquei lá deitado, esperando. Esperando o quê? Um convite. Aquele que enjeitei a primeira vez. Me perguntava se ainda estaria de pé.

Agora que fiz esta confissão tô me sentindo leve. Saiu um chumbo do meu peito. Ufa, como foi que pude respirar até hoje? Sabendo que há tantos visitantes potenciais no mundo aí fora, gente ávida por me conhecer de perto, presenciar meus movimentos, saber o que me leva a fazer o que faço.

Sei quão dura é a vida sem plateia. Todo esse tempo vivendo pra ninguém em solidão abissal.

Temos de viver por algo. Ou alguém que se disponha a testemunhar a infernal inventividade dos que existem para criar.

O fim está começando



Devemos lamber a urina, mijar o mel
Não, não é isso que devemos dizer
Pois, loucos, não devemos agir como tal

Devemos lamber o mel, mijar a urina
Enlevar nossos corações com o canto da chuva
Para que nosso sono seja livre de sobressaltos,
pesadelos e, se quisermos ser felizes, sonhos

Devemos observar a suprema lei de Darwin
E nos conformar com nosso papel de espiões

Devemos nos precaver, armando nossos olhos com perspicácia felina
Calçando nossas mãos e nossos pés com garras de vampiro
Ocultando nossas caretas com a máscara do chimpanzé
Disfarçando nossa voz com o falsete do ventríloco
(que, operador de milagres, fala, veja só, fala pela mais insondável das cavernas: o ventre)

Devemos olhar o céu e, fingindo afundar neste mar de mistério que nos rodeia que de mistério não tem nada, perguntar às paredes o que fazem os astros parados lá em cima, que é que os pássaros tanto alardeiam, aonde vão as nuvens, de onde vem o vento e outras perguntas inúteis
Mas, não sendo loucos, evitamos inquirir por que não nos foi dada a graça de ter asas
(a resposta seria tão decepcionantemente simples: porque, a despeito da vocação para as alturas que as professoras tentam nos impingir desde a primeira aula, não queremos voar)

Assim, devemos desempenhar as funções que nos cabem
(de preferência, sem duvidar muito dos verdadeiros propósitos das funções que nos cabem; pois devemos ter pena dos condenados à metafísica)

Mais que tudo, devemos nos sentar na sala e, sem o suplício da procura, fingir que estamos insuportavelmente acompanhados da nossa doce dama chamada solidão


O que me separa do mundo

Espera.
O tempo.
O dia começa.
O dia acaba.
Um só momento.
Há tempo.
Duradouro.
Entre
O dia
Entre
O dia
Um só momento.
Acaba o dia.
Começa o dia.
O tempo.
Espera.

Vale morrer, cabe viver

Quer dizer então que ela era carente?


Sim, senhor.

"Sim senhor" e mais nada? Podia elaborar um pouco mais?

Elaborar? Como assim, senhor?

Se estender, dar detalhes, dizer o que realmente acha que houve. Aliás, que é que acha realmente que houve?

Bom... Eu... Ãhn...

Pode falar. Tudo ficará entre nós. Além de ser carente, que outros problemas a moça tinha, em sua opinião?

Bom... Ãhn... Bem, além de carente, acho que ela era muito insegura.

Huhum. Que mais?

Calada. Sim! Muito calada. Quase não abria a boca.

Sei. Prossiga.

E solitária. Não tinha amigos. E estava sempre com a cabeça baixa. E nunca olhava a gente nos olhos. Quem puxasse conversa só recebia um hã, sim, não. O senhor sabe, essas pessoas monossilábicas. E sempre mirando o chão, como se procurasse uma moeda perdida. E parecia não ter vontade própria. Topava tudo que a gente inventava. E nunca tinha voz pra nada. Tudo sempre bom. E triste. Parecia desamparada. Nas vezes raras em que mostrava o olhar, víamos que estava assim meio aflita, sabe? Inquieta, como se não pudesse baixar a guarda.

E você acha que foi por isso?

Bom, sei que vai parecer estranho. O senhor pode até não acreditar. Mas não, não acho.

Então o que é que foi?

Foi o destino. Sei que o senhor vai rir. Mas foi o destino.

Escola de cínicos I

Era trabalhador.


Disciplinado. 


Metódico e diligente. 


Às vezes quase taciturno.

Um dia, concentrado no trabalho, de repente, sem saber por que,
SORRIU.

Depois, um risinho
gemido manso, frouxo
a princípio, logo virou
risada, depois
gargalhada
visceral, descontrolada, debochada
besta.

O sujeito que era
trabalhador
disciplinado,
metódico
e
diligente
às vezes quase taciturno
procurou se conter, mas a graça brotava
crua
brava
escrachada
mais brado
que alívio
trava
destrancada
cravo
esvaziante do
cofre sem chave
arrancada
de dentro com poder infernal.

E logo lhe
sacudia
o
peito
depois ele todo.

Dos olhinhos estreitos e risonhos nasciam lágrimas doloridas,
da boca escancarada, prestes a esgarçar, pendia a língua
inchada, escorria a baba mole.

O sujeito que era trabalha-
dor, discipli-
nado, metó-
dico e dilig-
ente,
às vezes quase taciturno,
morreu assim
vítima dum risinho bobo.





Casa cidade

Entre a cidade,
Cidade que é minha,
E a cidade vizinha
Há outra

Rua entre uma rua 
E a rua que é minha,
Há outra
Casa entre minha casa 
E a casa de outro
Há outra
casa vizinha.

Destinatário não encontrado

Para a poesia
cada momento é uma desculpa
toda musa, uma vítima
uma dor de dente, angústia metafísica

Se você caiu presa da sanha dum poeta,
se enxergou seu retrato desfigurado
num verso indigno dum pateta,
não se zangue, não se revolte

Ele de certo está mais
decepcionado e atônito
que você.

Nada de mútuas transgressões, Sô

Vou fingir que não vejo.
Vou fingir que não farejo.
Vou fingir que não sinto.

Não sou bom fingidor.
Ainda não aprendi a fingir.
Começo a acreditar que nunca aprenderei.
Há algo no fingimento que me escapa.
Vejo os fingidores, os reconheço, identifico suas manhas, seus olhares, esgares, trejeitos.
Mas imitá-los é tarefa além da minha capacidade.

Então vou concluindo que fingir é, como se diz, dom.
Dom nato.
Você sabe ou você não sabe.
Não tem meio termo.

Já os estudei.
Ainda os estudo.
Fingem com tanta naturalidade, mãe.
Que nem me parece fingimento.
E se digo que fingem, eles negam.
"Estou sendo sincero!" batem o pé.

Então compreendo.
(Mas esqueço.)
(Amanhã compreenderei de novo.)
É uma sinceridade fingida.
É um fingimento sincero.


E vou fingindo que não vejo.
E vou fingindo que não farejo.
E vou fingindo que não finjo.

Me ensimesmando de mim mesmo

Este nesta foto não sou eu.
Lembro de tudo.
Quando tirei.
A roupa que usava.
A atmosfera do dia.
(Desta nós seres que nos chamamos humanos sempre temos ciência.)
Até um ou outro pensamento que vagou aqui dentro.
(Como não lembraria? Meus pensamentos são sempre os mesmos.
Os seus também não são?)

Mas esta cara nesta foto não é minha.
Que brilho é este neste olhar?
Que riscos são estes nesta boca?
Que está insinuando este esboço de sorriso maroto?

Meu sorriso nunca é maroto.
Meu sorriso nunca é coisa alguma.
Sequer sorrio.
Sorriria de quê?
De mim mesmo?

Esquina da Caramuru com a Coronel Lisboa

Te amando
caminhei de olhos
fechados
sob o sol inclemente
que a farta alegria
atenuava.

Agora no frio escuro
do meu quarto
não mais
exploro os
veios de ouro.

Volto a ser o
apanhador de
brilhantes fugidios.