Vidas de mentira

Tá, sei que o título desta postagem lembra aqueles dramalhões B estrelados por Leslie Nielsen décadas antes de o cara virar superstar de comédias C.

Mas não tenho vontade nenhuma de falar de cinema, para mim absolutamente dispensável, salvante Bergman.

Outro dia vi algures um verso de Mário Quintana assim:

Não coma a vida com garfo e faca. Lambuze-se.

Claro, li algum Quintana há décadas e, claro de novo, a poesia de Quintana recende a puerilidade à primeira leitura.

Quintana é o sujeito "dotado" do poder da palavra que os de mente simples adoram admirar e amar. Sua poesia se inclui num braço armado da poética disposto à luz do dia ao pronto acesso dos anêmicos líricos necessitados de proteína metafísica.

Claro pela terceira vez, anemia, comer, garfo e faca, tudo a ver.

Mas lambuzar-se?

O consumidor de Quintana não tem peito para lambuzar-se de vida. Quando muito, contenta-se em chupar o dedo.

Meu domingo foi maça

Para David Foster Wallace, um cara de quem eu provavelmente seria amigo, dando alguns descontos

Diálogo lido acidentalmente num portal da cidade de San Diego, Califórnia:

Assisti um pouco de futebol nuns botecos em Tijuana (pombas, como é que o Denver ainda está ganhando???), depois comi uma garota de bar em meu hotel. Tracei uns tacos duca numas bancas na rua, então descolei uma garota de programa e dei outra boa transada. Peguei um cochilo enquanto a mina me fazia uma massagem e aí resolvi arrumar outra para uma transa a três. E vocês aí, otários, como foi o domingo de vocês?


Resposta duma otária:

Acordei às 5:30, saí para uma caminhada de 2 horas e 1/2 com meu melhor amigo. Aí eu e esse amigo fomos para a casa da minha mãe para fazer o café-da-manhã dela, com presunto e omelete de queijo com ovo caipira. Depois voltamos para casa e tomamos um banho juntos. Fizemos amor por uma hora. Aí ele lavou o meu carro e o dele. Tomamos chá de cidra quente e transamos de novo.

Pois é, meu domingo foi maça também.

O fazedor brasileño

Anos, anos, anos
Longos, longos lustros
Buscando um tesouro
Fossilizado em sangue
No meio da praça

Na lua, no céu
E na rua
Nas grutas das putas
Sob véus e chapéus

Fintado qual touro
De frágil força bruta

Sem olhos em Heliópolis

Sob o doce e promissor lema de que o bem triunfa e sempre triunfará, velejamos impávidos extáticos, olhos fechados para as ratazanas no lixo à nossa porta, a monstruosa guerra civil invisível que mata dezenas a cada dia nas Margens Plácidas, nos deixando a todos escandalizados, quebrando a falta de assunto no suave gorjeio de zés de copo na mão nos bilhões de botequins e marias fascinadas com o novo vestido de tafetá da heroína da novela sob o crepúsculo atômico, period. (Pombas, não há como negar, Trópico de Capricórnio é um tremendo dum livro, embora em baixa entre sagazes intelectuais explicadores.) 

Toda escrita que não seja demolidora é supérflua. Daí a permanente sensação de déjà-vu, de encheção de linguiça em quase tudo que se escreve. E o bálsamo único do poema. E de uma ou outra ficção. Crítica, quase nenhuma. A crítica em geral passa um quê de juízo final e inveja latente meio patético. Pera lá, inveja não, que o crítico às vezes escreve melhor que o criticado. Uma sensação de que estão metendo o bedelho na vida alheia que o próprio métier não permite. O "artista" pode meter o bedelho em que quiser, obviamente. Por isso às vezes chega a artista – metendo a colher no angu que deveria ter ficado intocado in the first place. Então vem o "estudioso comentador apontando" o artista para a plebe feito delator invejoso aproveitador. A vocação parasitária é indisfarçável. Mesmo em Eliot, dublê de escritor e crítico. 

O escritor tem de ter uma marreta na mão e lascar marretadas a torto e a direito. No cravo, na ferradura e na orelha do distinto público. "Critério" é coisa de verme de biblioteca. (O verme inglês é melhor que o nosso rato.) O escritor-artífice venerável exigido pela crítica é sacal, um chato que escreve para acadêmicos terem assunto no suplemento literário. A poesia de Haroldo de Campos é soniferamente artificial, constituída duma cacetada de citações hipereruditas – que, salta aos olhos, foram suadamente escarafunchadas num lixão de tratados. Li e reli e não entendi. Talvez o brother Augusto queira lançar um dicionário para elucidar o feito. Não fala de mim ou do que sinto inconscientemente ou à flor da pele. Leio nos jornais que Campos e Umberto Eco eram amigos. Provavelmente se merecem. Que O nome da rosa tenha estourado nas livrarias do mundo todo é sintomático desta época. Um amontoado de referências cultas que ninguém entendeu, ninguém leu, mas todo mundo amou. Tentei e só me interessei pela, com perdão da palavra, trama dos assassinatos. Que a poesia concreta, feita para brandir teorias, como se a nossa cabeça se importasse com conceitos e não com os terríveis sentimentos de vida, morte, paixão e ódio que, sabemos, são os decisivos, não tem, esclerosada. Sherlock Holmes é melhor. E mais honesto. 


Pitadinha de paixão

Ela, do Sumarezinho,
ele, da Aclimação.
Ela, doce Mariazinha,
Ele, crédulo João.
Era tarde, tardezinha,
Tarde quente de verão,
Ele, triste, tão sozinho,
ela, só empolgação.
Ela era miudinha,
Ele, baita cavalão.
A garota, uma gracinha,
ele, puta beberrão,
até rude e mesquinho,
sem nenhuma inspiração.
Ela ria de mansinho,
Ele tinha vozeirão.
Ela, rosa sem espinho,
ele, vida sem razão.
Ela, pura, um anjinho,
ele, puro brincalhão,
ela, meiga peruazinha,
ele, tímido pavão.
Ela abria as asinhas
e voava sem noção.
Ele, sempre saidinho,
dava mais pra gavião.
Belo dia, um dos vizinhos
lhe falou de supetão:
“Que te falta é campainha,
já tá quase quarentão!”
Contristado, o pobrezinho
sopesou a situação.
Já não era rapazinho,
encarecia de afeição,
de meiguice, de carinho,
cafuné e diversão.
Noutro dia, de tardinha,
pesaroso, caidão,
foi até o Belenzinho,
Sacomã, Vila Carrão,
Vila Nova Cachoeirinha,
e parou num bandejão,
pediu logo caipirinha,
muito gelo com limão,
depois uma cavalinho
pra ajudar na digestão,
e uma pinga com farinha,
e salada de agrião,
“Manda outra geladinha,
pra esquecer a recessão!
Bota uma tatuzinho
pra encarar o barracão!”
Tropicando um bocadinho,
fez sinal pra lotação
e sentou encolhidinho,
bruta dor no coração.
Nisso viu a Mariazinha,
Na Ipiranga/São João.
Ficou logo caidinho
E desceu todo alegrão.
Se achegou e, apressadinho,
logo foi tascando a mão.
Ao que a doce jovenzinha
mumunhou um palavrão.
Ele, cara de santinho,
Implorou-lhe seu perdão.
Ao que ela fez beicinho:
“Cê merece um bofetão!”
Mas, olhando o coitadinho,
‘té que dava um programão.
Com discreta tossezinha
ele fez uma inspeção:
“Que garota, que gatinha,
bom, de rosto é um canhão,
mas o resto, que corpinho,
meu, é um baita dum avião!
Deixa ver, eu adivinho,
Cê nasceu escorpião!”
Ela disse, “seu bobinho,
Eu não caio nessa não!”
E assim, de bocadinho,
foi crescendo a afeição.
Ela, tórrida andorinha,
ele, lúbrico falcão.
Ofertou o seu dedinho,
ele deu logo um chupão.
Ela riu toda galinha,
Ele riu feito um pagão,
ela, qual uma santinha,
ele, zonzo de paixão:
“Você vai ser a rainha
deste humilde bobalhão.
Vai mandar lá na cozinha,
enquanto eu luto pelo pão.
Vai ser a fada-madrinha,
pilotando o meu fogão.
E à noite, coladinhos,
vamos ver televisão
e fazer logo um sobrinho
pro Edmilson, meu irmão”.
“Ah meu fofo, meu fofinho,
chega dessa embromação!
Vamo lá pro meu cantinho
começar a malhação!
Já tô toda molhadinha,
mais não agüento de tesão!
Vou-lhe dar tudo, tudinho,
Vou te pôr muito doidão!”
Então os dois, abraçadinhos,
Se aboletaram no busão,
indo pro Sumarezinho,
via a Consolação.
Ansiosos, os pombinhos
Mal chegaram no portão
se lamberam tesudinhos,
se entregaram à esfregação,
depois foram pro quartinho
se atiraram no colchão.
Sem lembrar da camisinha,
encetaram a pegação,
ele, dando risadinha,
era só depravação,
ela rindo safadinha,
muda de antecipação.
Ele, “minha Mariazinha!”
Ela, “ai meu furacão!”
Explodiram em mil carinhos,
permutando beliscão.
Ela, quase peladinha,
só de blusa de algodão.
E minúscula calcinha
que se foi dum só puxão.
Ele: “vem, minha rolinha!”
“Estraçalha, cachorrão!
Me mordisca, me espezinha,
me devora, comilão!”
Ele então, afiadinho,
Encetou a beijação.
De repente, um gritinho:
que era aquilo na sua mão?
Pomba nada, nem rolinha!
Porra, que enganação!
A ardente passarinha
Era um camaleão

O reizinho da palmatória

Spiccato

(Especialmente para minha cara amiga Rose Colaneri)



Vejo em anúncio no estadão que J. Jota de Moraes está dando um curso de oito aulas sobre o meu Ludwig que todas as tardes freqüentava a estalagem em Bonn em que o estalajadeiro atrás do balcão era a cara do demo, deus na portaria de leão-de-chácara só deixava cabra macho adentrar o recinto onde Ludwig entornava rios de vinho tinto envenenados do chumbo desprendido do cristal das taças que lhe causou a surdez sob a qual compôs a Nona e os quartetos inefáveis no fim da vida. O big boss do paraíso, com sua infinita e divina dor-de-cotovelo, de certo nunca perdoou Ludwig por ser um dos cobras da música ao lado de Bach e Amadeus, trio esperança que ocupa boa parte duma novelinha que pretendo trazer a público se este meu coração cansado de sofrer não entupir de sebo antes. Quem já ouviu sons e fúria do mundo sabe do que estou falando. Quac, a dor de ensurdecer com toda aquela música minando por dentro aos borbotões, não deve ter sido batatinha. J-J saberia se fosse artista ao invés de se obrigar apenas a sonhar com que passa na alma de um.

J-J batizou seu curso de Beethoven, o mais universal dos compositores da música clássica, titulozinho dejavu mais previsível que pulo de pipoca típico do encimadomurismo acadêmico. Professor não pode dar deixa de que tem visão pessoal de quem/que quer que seja e quando decide escorregar do muro vai de fininho na ponta dos pés que é para não pisar nos calos da comunidade acadêmica coaxando galharda na sala do corpo docente, síndrome do nivelo por baixo que é para a bugrada fingir que entende.

Nos meus idos de colegial na esquina da Paulista com a Angélica, Jota-Jota, então professor sei lá do que, um dia numa prova me botou na primeira carteira porque na semana anterior eu tinha feito um paper tão estupidamente genial sobre Rosa, que J-J julgou que eu tivesse chupado de alguém, embora eu só houvesse me limitado, jovencito quase púbere que era, a imitar o estilo banana-com-purpurina do fero Alfredo Bosi, avis-rara que gorjeia bonito na gaiola acadêmica. De marra, esculhambei a prova e J-J me deu um bezinho chinfrim digno dos vagaos que viviam puxando fumo pelos becos do Pacaembu, gente que acha que Rosa é nome de livro de Gertrude Stein. J-J, dobrando a esquina a mancar arrastando sua bengalinha sob pretexto de gota mas que obviamente era só para botar banca de intelectual enquanto na classe rezingava olímpico sobre Mallarmé e quejandos, passou tão compenetrado no resultado da loteria do coup de dés, que conseguiu não me notar no meio da manada. A intelligentsia de olhos grudados no céu não enxerga o poste pela frente.

A disciplinada Beth Brait, brava mestra de literatura que um dia teve a pretensão de me ensinar a escrever, me levava a pão de ló vendo que eu era o aluno certo no lugar errado. Brait se deixou tomar por certo desencanto quando viu que eu não suportava a aula dela senão sob efeito de meia garrafa de cavalinho, que então eu curtia engolir branca, quente, saneadora, purificante. Quero dizer à professora que, quando comecei jornalismo na Usp, a coisa degringolou de vez, fui obrigado a dobrar as doses cada dia mais aperreado sob a chatice das técnicas pedagógicas.

Brait e Moraes eram membros graduados do fã-clube de los hermanos Campos. Ninguém maior de idade pode levar los hermanos a sério. Ma che so io, a indústria acadêmica é das mais rentáveis do sistema solar, afinal tem professor que proclama ler e entender o campeão do obscurantismo Derrida pra depois dar palestra a trocentas pilas a cabeça, outros vivem a escarafunchar universidades francesas e italianas à procura de novos picaretas que possam "descobrir" e trazer para o circuito de palestras e seminários no berção e de quebra traduzir a obra do gajo para uma dessas editoras semifalidas que só publicam autores de papos-cabeça. Hélas, quão pesada é a cruz que nós poetas frustrados temos de carregar até perceber que a safada é feita do mais volátil vento que sopra ainda não descobri de onde.

J-J cobra 180 paus por seu curso para o público em geral, em que, deduzo, me incluo, pois que sou um dos mais públicos e gerais mamíferos ludwigueanos que sempre terminam sem nenhuma teta pra mamar, seja estatal ou privada. Até pagaria se J-J tivesse algo a me dizer sobre o meu olímpico Lud van que, je sais, me escuta de algures no inferno, que eu não soubesse. 

Belo, brioso Byron

Chega de liberalidade
Estão suspensos todos
os benefícios
Nada será fácil, prático
como antes

A partir de agora
20:48 de 28/11/2011
o passaporte para entrar
em meu mundo será
a poesia

NOTA:
poesia no duro
a poesia minha
a única que sei
a única que me sabe
a única que me entende
a que entendo única

A partir de agora
perdem a validade
quaisquer senhas
de clarices,
pessoas,
bandeiras,
carlos

(Por prazo indeterminado
aceitarei Emily e Sylvia
minhas inversas musas
a quem me entrego
em
meus pecaminosos
e inefáveis ménages à
trois.)

O mundo só terá passagem
bem como os cerebrados
espantalhos que o habitam

se o homem que sou
for reconhecido
se o coração que tenho
for escutado
se as palavras que digo
forem inscritas no meu
céu pela esquadrilha da
fumaça nesta
cruel noite de fim de
novembro

Quero ser carrasco

Se abrisse vaga pra carrasco neste país, eu seria o primeiro da fila.

Depois de empregado, chegava pro meu chefe e dizia: "Chefe, não precisa me pagar salário. Guarda pra ajudar a Europa financiar seu déficit."

Se um dia abrisse uma vaguinha dessas, eu seria o carrasco-mor. 

Como todos sabem, funcionário público gosta é de moleza. Carrasco, eu seria diferente. Levantava às 4 da matina, pegava no batente às 4:30, suava a camisa até o anoitecer, só meia horinha pros requisitos fisiológicos.

Carrasco, eu teria uma quota. Executava uns 50 vagabundos por dia. Seria o funcionário público mais esforçado do mundo – uns dos poucos. Um dos únicos. Um dos raros.

Eu daria um verdugo bem criativo, podes crer. Inventava uma cacetada de métodos. Dependendo do caso, até deixava o freguês escolher a forma de partir para a outra vida.

Teria desde morte sumária (quem sabe um tirinho na nuca ou uma foiçada da garganta) até uns rituaizinhos mais sofistiquês, pra cabra tipo masô.

Porém, nem todos os condenados, todavia, receberiam a solução final, entretanto. Por exemplo, pra esses abjetos que recebem altos cargos públicos e se dedicam a meter as mãozonas na grana dos nossos impostos, pra esses caras a morte nunca teria fim. Ou então duraria uns dois anos. Eu inventava o método mais vagaroso de execução de todo este nosso xangrilá em vias de extinção sob nuvens de dióxido de carbono.

E todo político ladrão também receberia tratamento igual. Ou pior. Ainda não me decidi.

Até agora só me decidi que quero, preciso ser carrasco.

Os esquerdinhas gostam de debochar de arroubos deste tipo. Dizem que o defensores da pena de morte só a defendem porque não são eles que puxam o gatilho, ligam a tomada, abrem o cadafalso, desferem a machadada.

Eu puxo! Eu ligo! Eu abro! Eu desfiro! Com o maior prazer. Eu boto a mão na massa! Boto a mão, o pé e o que tiver ao meu alcance. 

Na tevê o “ministro” se esbalda de rir. Está em seu habitat. Ri das acusações. Faz pilhéria. Tira uma da cara dos cidadãos que trabalham seis meses todo ano para sustentar a ele e a sua família de ladrões e a seus jagunços ladrões e a seus pares ladrões e a sua mãe ladrona. É um folgazão. O rei na barrigona de cerveja e banha de porco. Não se avexa em exibir o carão consternado para as câmaras. Quase às lágrimas, se diz injustiçado. Evoca a justiça divina. Acena, crispa os punhos, morde os beiços, forja todos os ésgares da vitimização esperados duma alta autoridade.

O Grande Safado não perde a chance de faturar em cima do evento. Sem dó nem piedade, abusa dos chavões, se mostra traumatizado, choraminga, zune, zumbe, urra, baba. De lambuja, aproveita o teatro macabro para encher a própria bola. Como tantos outros canalhas que vieram antes e que ainda virão.

O plenário está em polvorosa. Deputados e senadores lançam os punhos fechados para o ar, ganindo suas toscas bravatas, arregaçando as mangas de seus ternos Gucci de três mil dólares e sapatos Prada de dois. O grande mediador que preside a sessão resolve pedir calma. Destoando da comoção histérica que se alastra pela “Casa”, chama os outros à razão. Não podemos nos precipitar.

Sim, do sr. "presidente" do Grande Ato de Desagravo se espera que demonstre equilíbrio e sensatez. É perfeitamente compreensível. No berção impávido tudo é compreensível. Não vamos botar o Grande Safado em cana só por causa do ocorrido. Afinal, é apenas mais um saque desarmado ao Tesouro. Que assistiremos no jornacional enquanto comemos pizza de muzzarela.


Mas, porém, contudo, senhores congressistas, se um dia quiserem parar de falar e de fazer merda e resolverem instituir o Ministério das Execuções Sumárias, podem me chamar.


Serei o Carrascão-chefe, a seu dispor. A seu inteiro dispor.

Escrever

Tem coisas que escrevi que penso, pronto, posso enfim descansar, era isto que eu queria dizer, fim de papo.

Tem coisas que me dão efêmera sensação de saciedade, me vejo apto, com direito adquirido, a pleitear minha aposentadoria metafísica, da qual nasci depositário.

Tem outras, a, essas outras, que me dão vontade de morrer, provas documentais da minha vocação malsã para a vagabundice brasílica, vermezinho abortado entre o trópico de capricórnio e o equador.

Não mereço porra nenhuma nesta vida. Mereço, sim, mereço as humilhações que tive de engolir, os queixumes exalados das profundezas primitivas dum bêbado em fim de noite no balcão dum botequim imundo numa quebrada do cais, tão perto do porto, tão perdido no inferno, ao apenas poeticamente alcance da solução que nasceu e vingou dentro de mim.

Tem coisas que escrevi que não devia ter escrito ─ apenas emudecido.

Dorido Primo e neandertais mil

Forte


A única liberdade atingível é acordar de manhã e ficar na cama. Quis dizer "tangível", acho. Liberdade porque nos vemos livres do jugo dos instintos sob o sono. Se durante a virgília, digo, vigília tivéssemos o mesmo grau de autoconsciência que temos quando dormimos, a civilização não duraria 2 dias. Bem que os presidentes podiam promover o Dia Mundial do LSD. Cada um de nós pobres viventes tomaria uma overdose de ácido e sairia por aí desprovido das travas civilizadas, botando pra fora tudo que nos desse na telha. Seria um fim à altura para essa nossa infausta epopéia pelo cosmos. 

Para Primo Levi em Ist das ein Mensch? o pior momento do dia era a hora de acordar, quando ele sacava, assombrado e mortificado, que Auschwitz NÃO era um pesadelo. Gulp, me arrepia pensar. Confrontado com padecimentos insuportáveis que tais me pergunto por que fui salvo, habituado que estou à minha sina católica de padecer no paraíso, embora às vezes me caia sobre a cabeça o relâmpago da certeza de que ninguém sofre/sofreu tanto quanto papai aqui. Tudo fica imensamente mais tenebroso quando você fecha o livro, a cada linha se perguntando o que levou aqueles milhares de italianos a fazer fila na estação ainda em Roma e, sem dar um pio, entrar no trem da morte convictos de que rumavam para o abatedouro e viajar quatro dias em pé atochados em vagões de gado, em cada solavanco das rodas nos trilhos um sinal ominoso da proximidade cada vez maior do fim e como aquelas atrocidades foram possíveis e como aqueles diabos sobreviveram a 20 horas de trabalho-escravo/dia sob 10 graus abaixo de zero, comendo uma batata de manhã e outra à tarde, quando você fecha o livro e o mundo sujo em que vivemos fica tão cristalinamente claro, nada mudou, nada vai mudar nunca, você é ou algoz ou vítima, não há inocentes, não adianta entrar no chóping e fingir que não está vendo, às vezes um indigente escapa da reserva dos selvagens e apaga um de nós só pra nos lembrar de que não, nossa vidinha besta não é um filme.

Quando acordo de manhã entregando minha consciência à negociação entre as trevas da morte e as garras unhudas da luz do sol me espicaçando os olhos, quando acordo de manhã entendo primitivos qual Lula, finalmente entendo. Poderosos desvairados como esse e tantos outros vivem no mundo da lua porque podem se dar o luxo de falar toda e qualquer besteira com que seu fígado podre lhes envenena o cérebro de pardal. Ah, dádiva da oralidade sem peias. Só os muitos poderosos e poetas podem botar pra quebrar. A poetas não se dá/nunca se deu/nunca se dará a mínima, poetas são entes quiméricos patéticos assimétricos, desde que Homero desenhou o primeiro alfa em papiro para encetar o sítio de Tróia e a odisséia de Ulisses sofrendo no lombo chicotadas líricas para deleite de meia dúzia de doutos diletantes que se ufanam de armazenar na estantes da sala algumas verdades sobre o mundo que, por verdades, não nos ensinam como passar ao largo do redemoinho Caribdes.

Adolf veio para provar que civilização não é antídoto para os bárbaros que nos espreitam dia e noite, comendo com olhos assanhados nossas mulheres e nossas filhas, aguardando a noitinha pra botar as patas em nossos carrões de trocentas pilas. Pra quem tá a fim de enxegar alguma coisa que não esteja nos livros, Lula veio mais uma vez provar que a boçalidade sem fim é tudo que nos resta. Talvez tudo que nos caiba. A cada meio século surge no pedaço algum teórico pontificando sobre o "papel" do homem no mundo. Reich, depois de décadas estudando a alma humana, aparentemente desencantado de teorias e cientificismos e já beirando o desvario, obrou Escuta Zé Ninguém, livrinho de autoajuda meio constrangedor em que ele afunda em racionalizações e conselhos vazios sobre como o homem médio poderia se libertar de seus medos bobos, se quisesse. Em sua cegueira libertária, Reich não enxergou a possibilidade dos zés-ninguém no poder. Tivemos um e temos outra bem agora no Planalto. Afinal, cada um de nós é o homem que se sente bem em ser massa de que falou Ortega y Gasset. 

Manchete em pedrinhas de neon pink e roxo na minha cabeça

Adagio
Ampla faixa da praia está interditada.
Névoa espessa, quase sólida, abarca de Miramar quase até o Caiçara. (Sólida no duro, quem chega com o intuito de tomar sol ou um banho de mar bate a cara na névoa e ricocheteia.) 
Ali dentro nada se move. Ninguém se mexe. Não há vento. As pisadas na areia são as mesmas desde há 38 anos. As próprias ondas, imaginem, as próprias ondas parecem congeladas na mesma posição, sempre prestes a desabar umas sobre as outras, mas só isso – prestes, prestes, prestes.
Dentro da faixa não se mexe, não se fala, não se pensa, não se vive.
Embora nada aconteça de perto, de longe, de longe é possível enxergar duas figuras indistintas, de costas de quem olha de fora para dentro. As duas figurinhas estão entrando no mar. Estão de mãos dadas. Estão de roupa. Quer dizer, não vestem trajes de banho, e sim jeans e camisetas e tênis. Vai ver, é por isso que tudo parou. Onde já se viu? Uma entrada no mar de roupas, uma tão prosaica entrada no mar de roupas teria força para imobilizar tudo e todos desde o Caiçara até Miramar? A maioria das testemunhas tende a achar que não.
Só que não há testemunhas. Nunca houve. Testemunhas não existem. Mas, se existissem, nada seria diferente. Há no mundo e na vida não se sabe quantos bilhões de coisas que, mesmo se não existissem, o mundo e a vida e as bilhões de outras coisas restantes seriam exatamente iguais.
Não há nem houve testemunhas. Mas há envolvidos. Desses não se pode escapar. Tudo e todos estão envolvidos uns com os outros, entrelaçados numa trama inclemente de bifurcações e, ufa! irrespirável de colossal. 
(Se alguém aí souber como se livrar dos envolvidos, please, mande um email, carta, bata palmas, qualquer coisa.)
Um deles, dos envolvidos, chama a polícia. Todos têm vontade de cantar, mesmo assim alguém chama a polícia. (Paira sobre esta faixa da praia e sobre esta terra e sobre todas as outras a sina de que, quando se não se sabe que fazer a respeito de algo, chama-se a polícia e pronto. Talvez essa sina derive do mito segundo o qual tudo se resolve quando se pede socorro. 
Naquele tempo era assim, hoje em dia ainda é assim. Pede-se socorro por qualquer coisa, por mais trivial que seja. Embora uma ampla faixa de névoa quase sólida na praia nada tenha de trivial. Embora não atrapalhe a vida de ninguém, pois nunca ninguém jamais retornou pr'aquela faixa de praia nesses 38 anos. Sendo assim, ninguém notou a diferença. Se notasse, talvez ficasse encafifado com a Clara Alteração no Comportamento Mundial dos Mares. Mas hoje em dia ninguém se encafifa com coisa alguma, dado que de repente parecem estar todos anestesiados. Sempre estiveram? Sempre estiveram sem que outro alguém que não precisasse vir dum planeta longínquo tivesse sequer notado?)
Depois dum tempão, que pareceu durar séculos, o pedido de socorro é atendido. Uma viatura da peême finalmente chega. O policial ao volante é obrigado a frear bruscamente quando percebe que seria impossível adentrar a névoa quase sólida. Ao seu lado, o sargento fecha os olhos, certo de que não vai dar tempo. Ele rosna um palavrão entredentes.
Antes que os policiais tenham tempo de sair da viatura, um rapazola emerge de dentro da névoa quase sólida. Tem entre 12 e 15 anos, mas é um rapazola mesmo assim. 
Não sabia que ainda existissem rapazolas, pensa surpreso e surpreendentemente o sargento. É um pensamento vago mas que não deixa de ser pensamento. Surpreso porque jamais lhe passaria pela cabeça que de dentro daquela névoa estranha pudesse sair algo ou alguém. E surpreendentemente porque nem todo peême é dotado de fina argúcia perceptiva ou de capacidade de formular um subjuntivo em tão sutil harmonia com as normas do vernáculo quanto este sargento em vias de resolver o enigma da praia imóvel nesta insossa manhã de setembro.
O rapazola se aproxima da viatura. Tem numa das mãos um cesto de arame. O sargento nota que o cesto está cheio de siris. Refeito da surpresa inicial, agora ele não tem nada a estranhar, pois naquele tempo a praia abundava de siris e de outros bichos do mar.
– Você sabe o que está acontecendo aí dentro? – o sargento pergunta ao rapazola.
– Está acontecendo um montão de coisas. – O rapazola tem a língua presa, fala meio enrolada, como se a fala fosse um sentido do qual prescindiria facilmente se realmente pudesse. Ainda mais, é meio gago.
– Quem são aqueles dois que entraram no mar de roupa e tudo? – insiste a autoridade.
– Ainda não sei, sargento. – O rapazola tenta explicar com sua língua presa e gagueira e vontade quase invencível de falar só consigo mesmo.
O rapazola tem o olhar fixo em algum lugar no céu. O sargento se pergunta se haverá nas pupilas dele um brilho sonhador. O rapazola prossegue:
– Mas vou saber. Daqui a umas duas ou três semanas, vou saber. Pode ficar tranquilo. A única certeza por enquanto é que depois eles saíram da água. Não olharam pra ninguém em volta. Todo mundo ficou olhando pra eles. Aí entraram naquele prédio de três andares ali. – O rapazola indica uma direção com o dedo. – Subiram e quando a noite veio ele pôs the fool on the hill na vitrola e os dois dançaram a noite inteira, no meio do corredor.
– E ninguém ouviu? – O sargento se surpreende de novo. – Como é possível?
– Não me pergunte. – O rapazola dá de ombros.
O sargento fica desconfiado. O menino não quer falar. A gagueira, a língua presa, a gana de estar só consigo mesmo e muitas outras coisas mais de que o desconfiado sargento sequer desconfia.
No pequeno aglomerado de curiosos que se juntou em torno da viatura para assuntar, alguém tenta ligar o fatos. Sim, imaginam os curiosos, é possível ligar os fatos. Basta ter um pouco de vontade, porra. Um tiquinho de vontade! Será pedir muito? 
Day after day alone on a hill, the man with the foolish grin is keeping perfectly still, naquele tempo, com essa névoa miraculosa, esse gosto de sal do mar na pele, nos cabelos, nos olhos, a seda do teu babydoll no meu peito de rapazola, shampoo transcendental no teu cabelo liso, eu vivo pra este momento, god, eu espero este momento. Eu nasci pra este momento sem nenhuma outra finalidade, sem nenhuma outra função biológica, sem nenhuma outra pretensão filosófica, sem nenhuma outra vontade. Não tenho outra coisa, não sou outra coisa. Enquanto o disco girava na vitrola, fui me tornando um fóssil. The fool on the hill sees the sun going down. Fico girando em volta dele feito uma daquelas gaivotas sem pernas que naquela noite quente pairavam impensadas por sobre o telhado do prédio, sem pernas, impousáveis como nós dois naquela noite. 

Nuvens mudas

Eu te procuro
lá fora
no frio
mãos nos bolsos
ombros encolhidos
olhar fixo à frente
seguindo teu caminho
indiferente aos buracos
os montinhos de cocô dos cachorros na calçada
a história que te espreita de cada interstício, eco e
lampejo da cidade
as inundações e desmoronamentos e colapsos e
trombadas dentro da tua cabeça

Eu te procuro
parado aí onde estás
olhos fechados
punhos crispados
pensando o que pensas
temendo o que temes
lamentando o que lamentas
aí parado onde estás
esperando que te encontre
quando deixar de te procurar