O que vi atrás do teu bilhete


Estranha.
Fica à vontade.
Estamos entre amigos. 
Estou acostumado.
Também estás, eu sei.
Embora estranhes.
És estranho.
Um dos mais estranhos que já vi.
Sou estranho.
O mais estranho que conheço.
(Embora não me conheça quase nadinha.)


Se nos déssemos as mãos, teríamos um choque de frio, talvez frieza.
Se nos olhássemos nos olhos, desviaríamos instantaneamente nosso olhar.
Se escutássemos a voz um do outro, teríamos um sobressalto.


(De minha parte, um quase insuportável desconforto.
Fico aqui a imaginar como seria tua voz.
Rouca? For Christ, não!
Anasalada?
Morna, sólida, impessoal?
Sonolenta?
Ah sim, que seja sonolenta!)


Estou ilusoriamente acostumado.
E se nos revelarmos estranhos o bastante, nos abraçaremos apertado e sairemos dançando noite adentro.


Me oferece uma bebida.
Um jantar.
Não me pergunta nada.


Nesta noite em que mergulhamos cegos, mudos e surdos, preciso que sejamos estranhos, estranhos ao longo das horas, estranhos até o fim da vida.


Impossível, eu sei.
Mas posso te ensinar um segredo.
Quando chegar a hora, durmamos nos braços um do outro.


Então sonharemos que não somos estranhos.
No sonho, terei te encontrado.
No sonho, terás me encontrado.
Sem enganos.
Sem procura.
Teremos, veja, até mesmo uma data certa: hoje.
Este vinte de maio de dois mil e doze.
Ao invés de noite, será uma tarde.
Não estranha.

Especulação

Não perdam meu novo continho em http://sites.google.com/site/wilvaccari/a-especulacao

Hahãn (limpando a garganta)



Sou meu filho.
E um dia haverei de sair para nunca mais voltar.
Veja, trata-se apenas duma fuga da dor e portanto aceitável.
Se for ele, serei eu.
Daqui deste ponto onde estou divergem linhas que são retas.
Darei o primeiro passo sabendo que não me será concedida a prerrogativa de pesquisar os arredores, não estarei de braços abertos em pose de sacrifício e então me.dividirei.para.atender.à.meia.dúzia.de.dedos.indicadores
Há uma placa à frente que diz: "Entre aqui para chegar ao fim do mundo e encostar a mão no céu". 
Em seguida meu imaculado nome.
E uma tábua com uma única lei:
Gire ao contrário do mundo, voltado para dentro, pobre e sem nunca almejar à sobrevivência, bracejando por debaixo das superfícies aversas à virgindade enquanto rodopia livremente preso a uma corrente de ferro.
Foi assim então que lancei um último olhar para os lados aonde seguia o caminho e dei meia-volta para confrontar as linhas divergentes.
Por aqui me aguarda minha revolução. Por ali, meia dúzia de virtudes. Mais para o lado, o deserto intransponivelmente abrasador além do qual reside minha salvação.
Se optar por este lado, poderei criar asas e voar para longe onde vivem pássaros acossados pela demasia da realidade e caçados por espantalhos sem arte nem emoções.
Por aqui batizarei minha inocência com o caldo passado de mão em mão e sacrificarei meu espírito enquanto caminho por entre prédios que engolem homens e mulheres.
Aqui, uma fábrica de bonecas. Ali, uma de utensílios domésticos. No meio, uma fileira de automóveis luzidios.
Não.
Seguirei avante.
Certo, terei de perpetrar algumas mudanças, sobretudo em minha cabeça.
Talvez pelo caminho encontre uma tenda de fantasias e compre uma máscara de porcelana e repetirei "não! não! não!" na fuça da realidade e renascerei.
E esquecerei.

Pensamento errático na rua Arruda Alvim



É cafona essa gente por aí que se denomina "Zé Poeta", "Maria Poetiza", "Jukinha dos Doces Versos", "Belinha das Belas Letras".
É cafona quem posta "Ai que lindinho este meu versinho", "Assinado: Joãozinho da Silvinha".
Poeta, embora poeta, também faz parte do mundo. Caga, mija e vomita como qualquer outro bípede erectus. Portanto, pode ser falso ou legítimo como qualquer nota de dólar ou uísque paraguayo.
O mero versejar não faz do versejador um poeta.
Tenho cá pra mim que poeta legítimo (ou, for that matter, qualquer um que se expresse em qualquer forma literária) não pode se autopromover como se fora um agente publicitário de si mesmo, se confundindo com uma caixa de sabão em pó. Para isso existem Omo e paulos-coelhos.
Sim, não pode.
É questão de pudor.
O distinto público apreciador da poesia (e da literatura em geral), digo, da genuína poesia e literatura, não quer ser tratado como consumidor de frases bem ajambradas e bonitinhas maceradas para deleite instantâneo e olvido imediato.
Se seu verso for um scotch digno do nome, o apreciador o identificará e saboreará sem que você precise anexar a ele, verso, um bordão propogandístico com o nome do produtor embaixo em neon pink.
Não há nada mais estranho à palavra que a embalagem.
Poesia não é jingle.
Poesia não é truque.
Antes de qualquer coisa, decida-se se quer servir à palavra ou simplesmente virar celebridade.

O arrepio das praças


A dor de nascer
não está ao alcance
dos que precisam de razões

Quem quiser comercializar
Jogue no balcão que
A dor de descobrir
que sua existência
é o troco do amor
que jamais será retribuído
por teu canto ou teu verso
nem, ó Lohengrin, um cálice
do teu sangue

Ó Deus dos Solitários
enojado dos que te buscam!

Escuto teu sussurro de escárnio
Te ofereço em troca as estrelinhas
Dos meus olhinhos
Brilhantes que enxergam
Dentro de mim e de ti
Dentro de ti e de mim
Ó

Acaricia meus cabelos
Libera teu urro que divisa
A passagem da besta
Rumo a estes dois corpos
Que se abraçam

Estou livre!
Por um minuto
Estou livre!

Hei de bater neste momento
Ferreiro obstinado do tempo
Detentor do engenho que
Construímos juntos
Durante o nosso amor
Cultivado ao extermínio




Retorno intempestivo

Meus vizinhos sãos uns amores
Exibem só alegria
Ocultam todas as dores

Acenam de entusiasmo quando me veem
Rostinhos iluminados por sorrisos tão largos
Que fico emocionado

Isto na minha volta
Saberão eles que quando parti
Pouco antes
Poderia ter sido a última vez?

Fecho a porta com todo silêncio possível
Esvazio o ar preso nos pulmões
E recosto na parede
Sentindo a testa gelada coberta de suor

Inoculem meu farto coraçãozinho
Com o vírus desta mentira verdadeira
Que teima em me poupar
Inda não foi desta vez que os enganei


Você quer dizer "Allegretto Molto de João Sebastião"

Não lembro mais do dia dos meus anos. Diga, isto é sinal de amadurecimento, demência crônica ou realismo?

Sempre pulei.

Quando fiz 14 mamãe chamou a parentada, alguns amigos da família, uns vizinhos, umas figuras estranhas que na hora não identifiquei mas cuja origem e propósitos na festa de aniversário penso vir desvendando ao longo das décadas.

Mamãe comprou um bolo na padaria em frente (que depois se revelou estragado, para azar do português que não soube como responder quando confrontado com a flagorosa evidência. Constatei então que, senhores dominantes dos mares no século 16, os lusitanos ou não davam pelota para bolos estragados ou ainda dominavam a técnica de impedir a deterioração da massa, mesmo com a geladeira desligada sob os quase 35 graus dos trópicos).

Então mamãe enfiou uma velinha de 1 e outra de 4 na cobertura e alguém apagou a luz e, antes que ela puxasse as palmas para dominar a festa, pedi: deixa que eu acendo.

Matrona, ela torceu o nariz. Pretendia, como sempre,  o comando cabal. Mas como era meu aniversário, aquiesceu.

Incendiei os dois pavis e veio o estrondeante parabéns-a-você-nesta-data-querida-muitas-felicidades-muitos-anos-de-vida-é-pique-pique-pique.

Acenderam a luz.

As velinhas estavam trocadas. Fazendo um 41. Todo mundo riu menos eu. Me pareceu tão lógico e natural, apenas mais um insight em mais um dia meu formado apenas de insights que para os outros nunca prestaram para nada e para mim é o que têm (sic) me salvado so far.

Qual Pessoa, hoje não comemoro nem 14 nem 41.

Qual sei lá quem, não penso em inverter minhas velas apagadas há décadas. O aniversário que eu queria ter guardado mesmo era/foi o dia em que tudo perdeu o sentido. De que só me dei conta sei lá quantos anos depois quando já era impossível saber.

Naquela data eu teria dado uma festa.

E, se me perguntassem, teria pedido um tiro de presente.

Não acho que teriam coragem de mo dar. É muito mais fácil, seguro, são matar um pobre coitado à base de festas de aniversário.

Me diga: terei tido sorte ou azar até aqui?

Um tiro é demasiadamente traumático. E libertador, se pegar bem no alvo.

Orelhas sempre alertas


Sejamos desonestos:
Pessoas há que me dão vontade de beber.
Pessoas há que me dão vontade de morrer.
Pessoas há que não me dão vontade de nada.
Pessoas há -- ah inalcançável, inatingível delícia -- que me dão vontade de amar.


Você espera que eu minta, bien sûr.


Sou um mentiroso que não sabe mentir.
Minto: sei.
Mas sou um mentiroso incapaz de mentir.
Não sei.
Não posso.
Tento. Naturalmente.
O resultado é tão grotesco.


Parecer grotesco é tão vergonhoso.


Okay, as pessoas em geral não dão a mínima
pareçam ou deixem de parecer.
Grotescas, patéticas, festivas, insensatas.
Fôdasse.
Ou melhor: sorry, nada há a foder aqui.


As pessoas almejam ardorosamente a ser.
O que quer que seja.


Entre ser e não ser, você acha que lhe seria aceitável ser um mendigo da rua Martins Fontes se não pudesse ser outra coisa mais digna, menos dolorosa, menos insuportável de ser?


Há pessoas que me dão vontade de beber.
Pessoas há que me dão vontade de morrer.


Que vontade será que dou em alguém que passa por mim na calçada?
Sei que sim.
Sei que dou.
Não sou, não posso ser o único ser vivo que não desperta absolutamente nada 
Entre seus semelhantes.

Sob nova direção


Repentina bomba atômica íntima
Paredes se esfarelam rumo ao fundo
Erupções familiares, calhaus do naufrágio, âncoras aéreas
Macia, doce, gosmenta soçobração
E horror
A isso tinha tanto apego?
Escombros
Me agacho, manuseio os fragmentos estilhaçados
Valeria a pena uma triagem?
I don’t think so, mon ami
Tudo supérfluo
Estas obcessõezinhas aqui
Pego na ponta dos dedos, faço cara de arqueólogo, ajeito o monóculo imaginário, viro, reviro, atiro longe
Estes ressentimentos! Que perda de tempo
(Para que mais tempo sem saber o que fazer de mim?)
Engraçado me ver arrastando entre a porcariada, levando  avante a tralha aqui dentro até agora
Fabulosa jamanta sobrecarregada de fezes e chumbo deslizando tonta sobre uma rodinha de triciclo
Veja estes amores não correspondidos da adolescência
Doce, amarga bobagem pela qual perdi mil noites de bom sono
E estas esperançazinhas reluzindo no meio do entulho feito brilhantes
É este meu tesouro?
É por isto que vicejam dentro de mim cânceres, enfartes, cirroses, úlceras em promessa à Grande Recompensa amanhã, ano que vem, nos próximos dez quilômetros lá adiante?
O cogumelo restaurador lança absoluta luz sobre meu abafado íntimo

É a mais efêmera das luzes, por isso aproveito para olhar cada montinho de matéria sentimental – ou seria psicológica? – mal empilhados por todo lado
Aguardam meu sinal para desmoronar

Desmorona, ona, ona
Desmorona, ‘té cair
Desmorona, madrugada
Não deixai meu bem dormir

Ruína, dai a graça de mim
Isto sou eu
(Que amontoado de tolices sou.)
Wait a minute
(É tudo que peço.)
E estes testemunhos do passado
Era com eles que ia desenvolver meu projeto de ser?
Era eu minha arma secreta
Mãe de todas as bombas – não me faltai nesta hora, brava, prática tecnologia internáutica –, refazei-me


Com um pouquinho de sorte


A determinada hora da tarde, dizem
a algumas quadras, aqui pertinho,
na rua detrás
se você tiver um pouquinho de sorte,
um pouquinho exato de sorte,
ao passar, logo depois de dobrar a
esquina,
mas tem de ser antes do crepúsculo
brutal

É o que dizem

Se tiver força de vontade
se tiver cautela
fulminando os pensamentos
errados
finalmente se entregando
por uma piscadela
as dorem que dóem param e
quem sabe – também dizem –
a falta de ar

Diga quem é você


Se puder.

Então você tem um blogue. E, mal vendo a hora de botar pra fora as ideias que colidem desengonçadas dentro de sua cabeça, escreve em seu bloque diuturnamente.
Talvez tão diuturnamente, que escrever em seu blogue se tornou sua razão de viver?
Se for este o caso, espero que você seja como aqueles grandes escritores para quem escrever continuamente é tão essencial quanto respirar oxigênio.
É?
Não?
Então, me diga, por que você escreve em seu blogue com tamanha assiduidade?
Não, isso não. Não me diga que dispende diariamente todo esse esforço apenas para entreter o diminuto público que acompanha periodicamente suas postagens.
Quer dizer, "entreter" é força de expressão.
Espero não ter soado leviano recorrendo a verbo tão... tão descompromissado.
Pois estou certo de que seus leitores acorrem a seu blogue com a mesma fome de literatura com que você vai loucamente digitando parágrafos atrás de parágrafos na ânsia de registrar o que sente.

Afinal, é por isso que todos os que escrevemos escrevemos, não é?

Mencionei "literatura".
Não foi por querer.
A literatura me mete medo.
É palavra sacra. Mais que incluir, cobrir, abranger, engloba.

(Naqueles distantíssimos anos escolares, não dava lhufas e corria para o quintal jogar bola. Hoje não me atrevo a pronunciar seu nome.)

Você não vai me dizer quem é, bem sei.
Por que diria?
Ainda mais nesta abismal rede em que somos tudo e nada, sujeitos e objetos, algozes e vítimas.
E, mesmo que quisesse dizer, não saberia o quê.

Quem sou eu?
Sou um blogueiro sem identidade.
Como assim, sem identidade? você aí poderia perguntar.

Ao que eu responderia: bom, é uma história longa e triste e deprimente e inacreditável.
Que por ora não tenho nem ânimo nem coragem de contar.

Sei pouco de mim e, quanto ao resto de mim, menos ainda.
Meu nome, não sei.
Meu endereço, não sei.
Não sei nada.
Sou um blogueiro. Disto estou bem certo.
Como  blogueiro , curiosamente,
Ajo como blogueiro.
Escrevo qual blogueiro.
Expresso meus sentimentos feito blogueiro.

Que é que se poderia esperar dum blogueiro?
E, embora  blogueiro, há certos dias em que me acometem dúvidas existenciais.

E então fico em dúvida:
Serei mesmo um blogueiro?
Ou não passo dum pobre solitário?

Depois do vendaval


 

Teu couro lona
Tua mulher vazio
Tua cria crime
Teu sangue água
Tuas mãos garras
Teus olhos espias
Tua boca caçapa
Teus ouvidos alarmes
Teus pés instrumentos
Tuas pernas estandartes

Teus braços cordas

Tua cabeça tamborim
Teu coração bomba-relógio
Teus dias panorama
Tuas estrelas traidoras