A raspa do tacho


Tem gente que nunca procura.
(É possível ver na cara deles.)
É, sei lá, como não esperar nunca

Vou navegando sem GPS. Prestes a quebrar a barreira da razão.

Les sous-entendus sont souvent à l'origine des malentendus.

Quando flanar até o céu
quero estar num sono
profundo
E não esquece minha comissão

(Puts,
todo esse tempo
a seta tava pifada
só agora
me dei conta.
Sai detrás que
vou fugir de marcha à ré.)

– Quem é?
– O monstro.
– Qual é a tua?
– Vim te comer
– Sirva-se. Qual parte você prefere?
– Se não se importa, vou começar por dentro

Mulheres há
sem encanto algum
que não podem
almejar senão
que uma alma
caridosa as
chame cadelas

Impressões a partir dum balcão de bar



Rondeau andantino grazioso

Ando meio duro, outro dia tive de aceitar um texto acadêmico pra traduzir para o inglês. É "versão", explicou a "autora".
Fileira interminável de verbos derivados de substantivos, "potencializar" sendo o mais manero.
O que se produz de palavreado inútil em nossas faculdades daria uma grande tese.
Há anos venho me prometendo obrar uma caricatura devastadora e hilária para expor esses monstrengos textuais. Qualquer dia desses acordo cantando e crio ânimo.
Talvez seja tarefa demasiado árdua pra este meu coraçãozinho que nos últimos tempos deu de ameaçar parar a cada três sístoles. Se e quando, será uma detonação extática.
Detonar, esse sim é verbo de verdade. E que, como qualquer outra gíria relativamente produtiva, faltava no vernáculo. Pode perceber. Quando um, com perdão da palavra, neologismo se espalha por corações e mentes feito "o" dengue hemorrágico no desgoverno Lula, é sinal de que veio preencher uma, ugh, lacuna.
E há tanta coisa em nossa cruel realidade brasílica conspurcada pela nova ética lulopetista que está a pedir uma detonação.
No meu dia-a-dia, falando sozinho ─ sou um lobo da estepe, não tenho ninguém com quem conversar, afora um ou outro weirdo que frequenta o boteco do Lacerda ─, é uma das que mais uso. Quero detonar tudo. O que não quero é porque já foi detonado.
Eu mesmo venho me detonando. Há longo, longo tempo.
Quer expressãozinha mais reconfortante que com-certeza?
Hoje me espanta que o pessoal pudesse responder perguntas antigamente sem um ready-made com-certeza pra tacar na bucha. Gosh, não tem vade mecum mais vicário. Resolveu o problema de comunicação de noventa por cento dos brasileiros.
E, Christ, o gerundismo. Fico cada dia mais deliciado. Os profes pasquales da vida já torraram o saco com sua lenga-lenga antigerundista, tá na hora de fecharem a matraca. Estamos vivendo, não estamos? A vida vai fluindo, não vai? A mesma teoria do com-certeza se aplica aqui. Feito uma luva. Vou estar detonando a língua! Genuína literatura coletiva! O povão estando unido no mais feérico poema gerundista jamais urdido.
Alguém precisa macaquear os françois em sua inventividade linguística e deslinguiçar um romance de novecentas páginas todinho feito de gerúndios para estar escrevendo um livrinho arretado para estar fazendo sucesso nas escolinhas de letras do meu sertão derivando.
Em mãos competentes estaria gerando uma obrinha-prima, com certeza.
O gerundismo é tão assobertante, que ninguém escapa. Já vi muito mestre da USP deslizando altaneiro num ando indo da vida. Até eu tem dia ando baixando a guarda e incorrendo extasiado num periodozinho composto de três verbinhos interligados pelo mais nefando ativismo em venerando estado latejando.
E a facilidade com que o povo do Berção assimilaram... o gerúndio em suas atividades domésticas e comerciais é, como diria o Gianotti, sintomática, praticamente telegênica.
Não há volta.
O jeito é ir introjetando o bicho e incorporando sem filtro todas as novidades saxônicas trazidas pelos ventos soprando lá do norte.
Meio Berção anda escrevendo semiinglês sem saber, e não estou falando do gerundismo. Metade do que os personagens das telenovelas ficam mumunhando é pastiche dos diálogos de roliúde.
Os intelectualizados... esses são os primeiros a envenear o vernáculo com os mais "bizarros" estrangeirismos. O gerundismo é apenas sinal de que já estamos todos pensando em inglês.
Ou tentando. Eis outra tese acadêmica que pretendo desenvolver se um dia tiver saco pra. E é a nossa mais incontornável sina. Em cinquenta anos, se o planeta etcétera e tal, a última flor do Láscio idem.
Espero "realmente" ter tempo de desenvolver minha tese. No mínimo os semiliteratos que pululam em nossas "faculdades" irão aprender o que escrever is all about.


Fardo físico-químico, injunções holandesas, sei lá



Un poco meno andante

Eram 11, onze e pouco?
A notívaga pequena
isabela
abandonada pela mãe
foi ao chópin
e voltou
estrangulada pela madrasta
e o pai, habituado a todas
as noites se desfazer
dos sacos de lixo lixeira
abaixo, achou por bem
defenestrá-la
duma vez por todas.

No avançado da noite
deus, já na cama,
preocupado com os terremotos
e enchentes e desabrigados
de amanhã, acabou cochilando
e pegou no sono e não
sonhou. Deus não sonha -
quando muito, tem pesadelos.

Desprovida das asinhas que
o senhor e os que acreditam no
senhor lhe prometeram,
a menina despencou, sem
nenhuma testemunha que
rezasse pela abolição da
lei da gravidade.
E colidiu contra a
terra dura sob a
macia, quase suave
grama do jardim do
edifício london.

Para espanto da nação,
porém ém ém ém,
isabela não
morreu.
Socorrida por
investigadores,
delegados, promotores,
advogados, vizinhos,
jornalistas,
transeuntes,
telespectadores e
a população em geral,
foi deitada num
sofá das casas
bahia e sem
entrada e sem
saída e sem
mais nada
vai sendo justiçada
pela bocarra medonha
da mídia diante dos
olhos marejados do
distinto, perplexo público
enquanto
falece em
intermináveis,
suaves prestações
e o próximo
bloco
não
chega,
não chega, não
chega


Tentativa de fuga solitária para o centro da cidade com olhos presos no chão e lembranças pulsantes como se não me pertencessem


Obbligato
Gott, me deu saudade daquela dor
Hoje à tarde virei definitivamente um monstro
Ou estou morto

Grand pause
Mas não a ponto de passar pela favela aqui perto e, olhando-a, saber que estou testemunhando o começo ou o fim de algo.
Não sei exatamente de quê.
Mas sei que é algo grandioso.
Em breve ─ tampouco sei quando ─, tudo será diferente.

Tarantella?
Pois quando ela me deixou me senti um misto de órfão, monstro e astronauta. Qual um fastio absoluto de finalmente ter passado por todas as experiências que um homem pode passar.
(Grande pausa. For god's sake.)
"Ela", eu disse? Pai, me referia a você.

Cheio de imensa canção


Senza cedere
Há uns anos escrevi a um dos meus filhos começando assim:
Todas as noites em que eu vaguei, por dentro cheio de imensa canção...
Nos dias idos em que era rei, pós-adolescência, auge prematuro da existência qual um aborto engendrado por deus, vagava horas zumbi pelas ruas emitindo acordes mentais, morcego sonâmbulo me guiando pelos ecos reverberando nos muros da cidade enlouquecendo de dores e sons.
Era feliz e, ó graça, sabia. Hoje olho à minha volta e me pergunto de que me serve esta pseudolucidez a que me agarro feito náufrago prestes a despencar no abismo de Tártaro. 
Os produtos da pretensa ludidez não valem nada. Sobretudo a música.
Música é um estado interno. Música é estar encharcado de sons, sons que fazem parte de você como sua cabeça ou seu coração. 
Nesse estado a música brota feito uma mina d'água, sem que você saiba de onde, sem que você queira saber. 
Nesse estado você cantarola mentalmente algo que lembra Beethoven, Roberto Carlos, Xitãozinho, acordes inefáveis, teus acordes oníricos, tua música primeva. 
É essa a música que interessa.

Extraordinária linguaruda


Sejamos crianças
Com a manha das crianças, decifremos estes nossos biquinhos infantis
Ai que pena
Ficamos amiguinhos, mesmo assim não tenho o mais leve pendor para violar teus criptográficos lábios
Ai que vontade preguiçosa de querer carinho
Desarma os beiços
Aborta o desipnotizador estalido que pode me levar a atônita surdez
Ou será essa tua pompa bucal apenas efeito da farofa abocanhada no almoço apressado?


[sotto voce]


(schmack)


Hum


Durmo
Catapultado para onírico berço
Sou criança.
Meu mundo não vai, não volta, não para
Meu sonho me beija na bochecha
Que espetáculo vislumbro à minha frente e sorrio sabiamente


Criança
Que não foi
Escrita
Dita nem
Aprontada


Só amada

Descompressão


Perdendosi

Prestes a partir
Estou munido dos meus apetrechos dolorosamente diários
Num dos braços, nada
N’outro, tudo

Embarco e a nave alça voo
Com destino mais que certo
Da porta me dirijo ao meu lugar ao sol e
Minha nave se chama ave
Ah que louca falta de pousar os pés no meu planeta!
A porta foi deixada aberta
Salto
O sutiã azul-marinho que trago dobrado às costas se abre
As duas copas me sustentando miraculosamente no ar
É meu mergulho para a morte e ao mesmo tempo meu primeiro grito de liberdade, entende?
Em forte piano
Não creio em quem prega todo o dia o credo!
E minha nave se chama solidão

Untitled

Amabile

Eu procuro
você aí fora 
que não está perdido
seguindo teu caminho indiferente aos que procuram
existindo para espreitar
cachorros na calçada a subir e descer pelas ruas
atentos a cada interstício, eco e lampejo da cidade
e me submeto aos não
sujeitos às inundações e desmoronamentos e colapsos e trombadas dentro das nossas cabeças
que não procuram
por não precisarem encontrar
montinhos de cocô na calçada
a história que não os espreita nem permite
que nos encontremos

Esqueci


Cantilena


Antes de tudo, esqueça a teoria. Salvo se estiver a fim de fazer crítica literária.
Teoria é regar com ácido edificante regulador tuas sementes em vias de explodir. Teoria é racionalização. Ou o que quer que você tenha aí dentro a ponto de explodir.
Escrever e racionalizar são, seriam antagônicos se a vida fosse simétrica como pretendemos que seja.
Depois de décadas escrevendo, ou tentando, tenho uma teoria, acho. (Escrever é carcar o pé na merda da contradição.): escreva até doer. O dia que vir que tá doendo, doendo pra caralho, nesse dia provavelmente estará escrevendo. Escrevendo, o que, porra? Não importa o quê. Aquilo que tem aí dentro que precise ser escrito.
Todos temos aqui dentro algo a escrever, acho. A maioria nasce e morre sem saber disso, lililiralará. Estão todos ocupados demais vivendo. (Versinho que Lennon fez pro filho dele: Life is what happens to you when you're busy making other plans.)
Se você está cheio, escrever vai te esvaziar até você encher de novo.
Se está vazio, escrever vai te deixar cheio. Do que quer que precise ser enchido.
Aí acontece algo fantástico: você se enxerga no que escreve(u). Nesse dia também terá escrito.
Por que a gente escreve? Sei lá. Só os teóricos e críticos literários sabem. Escritores, digo, artistas não sabem. Por quê? Porque sabem.
Cada um escreve por sua razão. Por isso esse botãozinho que nos abre a porta de nós mesmos é tão duro de achar.
Escrevo por várias. Às vezes, porque preciso, com perdão do clichezão lavado. Outras, por causa da lei da inércia ─ os dedos calejados saem teclando sozinhos e pumba! tá escrito. (Essa "técnica" é ruim, lalarálariri, escrever mecanicamente é uma merda e não leva a nada, mas não tem saída quando o monstro da inspiração tá dormindo e você tem medo de acordar o desgraçado.)
Todo escritor precisa de algum limite, senão termina obrando aquele palavrório insosso e embananado que todos conhecemos. Ou, se tiver talento, a Busca do Tempo Etc.
Por isso e por aquilo, prezados e desprezados diletantes, não posso me despedir sem um manifesto antimodernista aos que, mesmo boiando na estratosfera, pisam no cocô tentando desviar da vida durante a desesperada volta pra casa:
Seus diletantes,
Vocês não entenderam lhufas. Ai, como é gostoso, como é gostoso embasbacar incautos, ver em suas bocas primeiro a espuma gosmenta da perplexidade, depois a secura gordurosa do nojo.
Eu sempre soube. Vocês são todos tão previsíveis. Mas a previsibilidade é o que vocês mais prezam, não é? Nada como o conforto íntimo de saber que o mundinho que vocês conhecem será o mesmo daqui a 1 minuto, 1 hora, amanhã, ano que vem, sempre. Não ocorrerá nenhuma surpresa, nem boa nem má. Tudo ao redor e o que vocês amam será eternamente igual e vocês mesmos continuarão nascendo múmias e milagre! morrendo múmias.

Só por cortesia


Enlouqueçamos

enlouqueçamos os que se querem sãos
nobres e bonitos e
felizes e sábios
e risonhos sob a máscara de Erasmo

a irradiar nos olhos o brilho sujo do lixo
que escondem em suas almas

lamento, meus caros, lamento meu amargor

é que neste horário fujo dos meus 
perspicazes carcereiros e por alguns instantes
esqueço que sou prisioneiro

E nesses fugazes instantes posso admitir
e me conformar de
que sinto o que sinto

Necessário narcísico arqueólogo


Sórdido eu?
Que isso, bondade sua.
Taí uma palavrinha que sempre me foi simpática.
E, dádiva, rima com mórbido.
Desde guri tento ser um cara sórdido mórbido.
(Mastiguemos: SM).
Hoje, 57 primaveras no lombo, me acho no meio do caminho.
Sinto que não viverei o bastante pra chegar a SM.
Não taux a fim de ultrapassar os 58.
E atingir o status de SM qual um Miller, um Genet, um Jô Soares (mastiguemos de novo: hehehe), requer não só vontade mas também talento.
Felizmente não tenho nenhum de ambos.
Mas, veja, embora não seja hoje um SM literário, sempre o fui pessoalmente. Eu, SM nato, e os não SM, temos e sempre tivemos um relacionamento conflituoso: eles têm nojo de mim, eu tenho nojo, asco, repulsa e repugnância deles.
Agora me referindo à poética, quero acrescentar que um poeta que se preze deve necessariamente ser um SM. E se não for de nascença, deve fazer um curso. Por intensivo que seja. Eu mesmo sou professor. E não cobro nada para ensinar.
Quero também dizer aos que pensam que a poesia se resume a flores e anjos que não confundam Quintana e Rilke. Rilke fez as Elegias de Duíno em que seus anjos são tão dominantes, mas não tem nada a ver com as gracinhas de Quintana et adjacências.
O mesmo princípio se aplica aos que batem o pé e não me aceitam como sou.
Muitos dos que pensam “gostar” de poesia se viciaram em quintanas e florbelas e até em meu amigo Leminski que às vezes reduzem a poética a um gracejo pueril, tanto quanto Verissimo reduziu a crônica a uma piada de papagaio.
Por isso esses preferem minha prosa à minha poesia.
Sinto muito: tal preferência apenas demonstra que não sabem o que é poesia.
Há por aí alguns que não consideram a poesia sagrada.
Que dizer então de poetas?
Poetas fazem cocô, arrotam, tiram caca do nariz da mesma forma PROFANA que os bípedes normais.
Mas, estando eu do lado de CÁ, tenho minhas dúvidas.
E esse tipo de dúvida é um dos affairs que fazem parte especial do menu poético.
Ouso mesmo defender que a poesia (e aqueles que a criam) devia ser ensinada nas escolas desde o 1º ano.
Mas não como fazê-la, pois fazedura de poesia não se ensina nem se aprende.
E sim como respeitá-la. E, dependendo, temê-la. E, dependendo mais ainda, glorificá-la aos píncaros de Vênus.
Porque, sabe, são tantas as vidas que se debatem numa gota de saliva trocada num beijo.
São tantas as possibilidades que se abrem neste meu copo de uísque.

A cor da tarde de domingo e o canibal das luzes




Antonio Maria fecha uma de suas crônicas assim:
"Só há uma vantagem na solidão: poder ir ao banheiro com a porta aberta. Mas isto é muito pouco, para quem não tem sequer a coragem de abrir a camisa e mostrar a ferida."


Nunca fui muito de banquete, mesmo que platônico.
Uma vez, daquelas vezes que aconteciam quando éramos crianças, fui a um.
Não me lembro de quase nada. Mas lembro cristalinamente que senti uma solidão brutal.
Ah, sim. Lembro de outra coisa: as centenas de pessoas à minha volta pareciam espantalhos que deus colocara ali só pra me enganar.
Você talvez possa imaginar meu dilema:
Ou me conformava com minha solidão.
Ou me conformava em banquetear com os seres empalhados.
Para meu assombro, saí vivo.
Para meu assombro, estou vivo ainda hoje.
Talvez eu tenha extraído uma lição daquilo: Nunca me empanturrar.
Do que quer que seja. Onde quer que seja — banquetes, churrascos, cervejadas, casamentos ou batizados.
Vou ficando mais e mais inepto a cada dia que passa.
Descobri que preciso apenas duma gota umedecendo a massa numa colheradinha de café.
Guardo esta mania infantil de sempre começar pela sobremesa.
Duro destino prum sujeito para quem sobremesas não existem.
Quero me converter num sugador de ossos.
Antônio Maria tem uma crônica chamada Canção de Homens e Mulheres Lamentáveis que começa assim:
"Esta noite... esta chuva... estas reticências. Sei lá."