Tultedin


Rapsodia stretto

O Maurício, aquele professor do 157 que nunca conversava com ninguém, se matou. Quando volto à tarde vejo uma viatura do IML na porta do prédio. Quando descemos no térreo, digo ao Jovair, o porteiro, que tem alguma coisa podre no nosso andar. O elevador chega, entramos. Nesse momento, sinto.
Tem algo podre por aqui, a Neuza diz, também tapando o nariz.
Levanto o olhar pra ela e fungo experimentando e digo que não.
Não está sentindo esse fedor horrível, a Bete pergunta, tapando o nariz e o buço.
Digo oi, baixo os olhos, uma luz cor de gelo vem vindo dos vitrôs tentando me cegar. A Neuza e a Bete estão esperando o elevador. Desligo a tevê, jogo o controle no sofá, saio. Agora que ela disse que vai embora, quero.
Ela só fala em ipod, mp3, blogue, coisas que não sei direito o que sejam nem quero saber. Quando dei por mim era tarde. Até que veio a história do noticiário. No início a Roberta ficou procurando meu calcanhar, vi que estava meio encafifada. Nunca esqueço de baixar o assento da privada, mijo meticulosamente pra não respingar urina na borda do vaso, lavo a louça, me abstenho de emitir convicções, não teimo. Com mulheres, redobro a guarda. Não dou muito espaço para que impliquem comigo. Foi uma das deixas que ela aproveitou. Não sei usar essa terminologia nova ligada aos avanços tecnológicos destes tempos do demônio. Noticiário, a Roberta corrigiu outro dia quando eu mencionei jornal.
Entro, vou direto para a sala, fecho as cortinas, não gosto de luz, procuro o controle, não acho, acendo a luz, acho, apago a luz, me jogo na poltrona, aperto o ON, está passando um jornal.
Se já temos na cara essa parafernália, boca, nariz, olhos, sobrancelhas, queixo, um dispositivo a mais não ia fazer falta, digo, diferença. As funções deviam ter órgãos separados apropriados. Essa dicotomia me deixa confuso. Por onde entra a comida e saem as palavras. Boca é um órgão sujo. Me dá nojo. Nunca olho boca de mulher. Ela ri, pensando que estou mirando a boca. Quando nos encontramos no elevador demoro o olhar no rosto dela procurando enxergar um buço. A Bete do 156 é portuga.
Ou travão, como querem os portugueses. É o freio. Eu não sou covarde, grito por dentro desesperado.
As mulheres, as mulheres bonitas de tetas suculentas e pernas lambíveis mordiscáveis não toleram covardes. Aconteceu "inúmeras", digo, inúmeras. Quando vejo, sei que tudo está perdido. É sim, vi nos olhos da Roberta.
Não é não. Quem vê deve achar que é covardia. O freio me trava, engulo em seco, baixo o olhar. Desisti, aceitei, não reluto mais. Na adolescência quebrava a cabeça tentando entender. Simplesmente tenho dentro de mim um freio que me pára. Nada a ver com medo de humilhação ou necessidade de parecer macho. Não sei pedir. Podia ter batido a palma da mão esticada na ponta dos dedos da outra mão, pedindo tempo.
Nem dos truques que tive de aprender ao longo dos meus anos pra sobreviver nesta terra de bananas e galinhas. Nem das aspas. Não, não vou mais abusar das reticências. de... Estátua, depois de quase três meses, estava me acostumando, nem me passava mais pela cabeça a idéia de voltar à noite, a noite paulistana, pra caçar uma nova fêmea que fosse com a minha cara de pato e a minha solidão de pato e a minha consciência de pato e as minhas contradições de pato e as minhas patologias de pato e o meu ar de... Fiquei pasmo, totalmente pasmo, não reagi, não respondi, não pisquei.
Ia dizer enigmático, veja só, a tevê está fazendo de mim um autoindulgente preguiçoso, estraguei, deixa pra lá. Porra, um mistério só pode ser... mais... Não tem mistério mais... O fim do túnel entre as pernas, não. Decote foi feito. Se olhar decote adentro dá barato, upskirt dá mais. Tetas há que a fuça da dona estraga e desbanca. E muito próximas da cara. Sempre dependem do decote. Não, tetas não são páreo. Nada é mais poético, afrodisíaco e animalizador. Perna de mulher merece um século de pesquisa e dissertações à parte. A Neuza tem as pernas mais femininas que estes meus olhos arrebentados de se ofuscar no escuro já viram. Já tentei me pôr na situação, não teve jeito. A Neuza, vizinha gostosa do 152 que não sabe mais como se autoconvidar para uma transa e que não como porque ela é a cara da minha mãe. O zelador. O porteiro da noite. O entregador de pizza me deixa deprê. A faxineira me deixa deprê quando diz até amanhã no fim do dia depois de passar a tarde pendurada do lado de fora da vidraça pendurada no 15º andar pendurada no pára-peito pendurada pra chamar a atenção dos trans lá embaixo. Tenho todas as características. Se eu fosse um bicho, seria pato. Full duck. Yessir, pato. Pato cheio pros shrinks. Não sei ver ninguém partir. Desde que nasci vivo sonhando que alguém vai me deixar. Foi sonho, bilolô. Roberta disse que vai me deixar
Roberta disse que vai me deixar. Foi sonho, bilolô. Desde que nasci vivo sonhando que alguém vai me deixar. Não sei ver ninguém partir. Pato cheio pros shrinks. Yessir, pato. Full duck. Se eu fosse um bicho, seria pato. Tenho todas as características. A faxineira me deixa deprê quando diz até amanhã no fim do dia depois de passar a tarde pendurada do lado de fora da vidraça pendurada no 15º andar pendurada no pára-peito pendurada pra chamar a atenção dos trans lá embaixo. O entregador de pizza me deixa deprê. O porteiro da noite. O zelador. A Neuza, vizinha gostosa do 152 que não sabe mais como se autoconvidar para uma transa e que não como porque ela é a cara da minha mãe. Já tentei me pôr na situação, não teve jeito. A Neuza tem as pernas mais femininas que estes meus olhos arrebentados de se ofuscar no escuro já viram. Perna de mulher merece um século de pesquisa e dissertações à parte. Nada é mais poético, afrodisíaco e animalizador. Não, tetas não são páreo. Sempre dependem do decote. E muito próximas da cara. Tetas há que a fuça da dona estraga e desbanca. Se olhar decote adentro dá barato, upskirt dá mais. Decote foi feito. O fim do túnel entre as pernas, não. Não tem mistério mais... mais... porra, um mistério só pode ser... Ia dizer enigmático, veja só, a tevê está fazendo de mim um autoindulgente preguiçoso, estraguei, deixa pra lá.
Fiquei pasmo, totalmente pasmo, não reagi, não respondi, não pisquei. Estátua, depois de quase três meses, estava me acostumando, nem me passava mais pela cabeça a idéia de voltar à noite, a noite paulistana, pra caçar uma nova fêmea que fosse com a minha cara de pato e a minha solidão de pato e a minha consciência de pato e as minhas contradições de pato e as minhas patologias de pato e o meu ar de... de... Não, não vou mais abusar das reticências. Nem das aspas. Nem dos truques que tive de aprender ao longo dos meus anos pra sobreviver nesta terra de bananas e galinhas.
Podia ter batido a palma da mão esticada na ponta dos dedos da outra mão, pedindo tempo. Não sei pedir. Nada a ver com medo de humilhação ou necessidade de parecer macho. Simplesmente tenho dentro de mim um freio que me pára. Na adolescência quebrava a cabeça tentando entender. Desisti, aceitei, não reluto mais. O freio me trava, engulo em seco, baixo o olhar. Quem vê deve achar que é covardia. Não é não.
É sim, vi nos olhos da Roberta. Quando vejo, sei que tudo está perdido. Aconteceu "inúmeras", digo, inúmeras. As mulheres, as mulheres bonitas de tetas suculentas e pernas lambíveis mordiscáveis não toleram covardes.
Eu não sou covarde, grito por dentro desesperado. É o freio. Ou travão, como querem os portugueses.
A Bete do 156 é portuga. Quando nos encontramos no elevador demoro o olhar no rosto dela procurando enxergar um buço. Ela ri, pensando que estou mirando a boca. Nunca olho boca de mulher. Me dá nojo. Boca é um órgão sujo. Por onde entra a comida e saem as palavras. Essa dicotomia me deixa confuso. As funções deviam ter órgãos separados apropriados. Se já temos na cara essa parafernália, boca, nariz, olhos, sobrancelhas, queixo, um dispositivo a mais não ia fazer falta, digo, diferença.
Entro, vou direto para a sala, fecho as cortinas, não gosto de luz, procuro o controle, não acho, acendo a luz, acho, apago a luz, me jogo na poltrona, aperto o ON, está passando um jornal.
Noticiário, a Roberta corrigiu outro dia quando eu mencionei jornal. Não sei usar essa terminologia nova ligada aos avanços tecnológicos destes tempos do demônio. Foi uma das deixas que ela aproveitou. Não dou muito espaço para que impliquem comigo. Com mulheres, redobro a guarda. Nunca esqueço de baixar o assento da privada, mijo meticulosamente pra não respingar urina na borda do vaso, lavo a louça, me abstenho de emitir convicções, não teimo. No início a Roberta ficou procurando meu calcanhar, vi que estava meio encafifada. Até que veio a história do noticiário. Quando dei por mim era tarde. Ela só fala em ipod, mp3, blogue, coisas que não sei direito o que sejam nem quero saber.
Agora que ela disse que vai embora, quero. Desligo a tevê, jogo o controle no sofá, saio. A Neuza e a Bete estão esperando o elevador. Digo oi, baixo os olhos, uma luz cor de gelo vem vindo dos vitrôs tentando me cegar.
Não está sentindo esse fedor horrível, a Bete pergunta, tapando o nariz e o buço.
Levanto o olhar pra ela e fungo experimentando e digo que não.
Tem algo podre por aqui, a Neuza diz, também tapando o nariz.
Nesse momento, sinto. O elevador chega, entramos. Quando descemos no térreo, digo ao Jovair, o porteiro, que tem alguma coisa podre no nosso andar. Quando volto à tarde vejo uma viatura do IML na porta do prédio. O Maurício, aquele professor do 157 que nunca conversava com ninguém, se matou. 

Estilhaçando

Fortissimo

Detesto a mansidão dos pensamentos lógicos, a retidão das linhas mortas, a ordem das palavras dormidas no formol do previsto. Eu quero é trotar na mula manca, afoguear-lhe o rabo cum rojão de deus, açoitar-lhe o lombo com meu látego de elétricas letras e, no uso das minhas atribuições legais, entortar este meu espinhaço-pelourinho. 

Não confio em quem se veste mal

ritenuto

Assim:
Hoje estou naqueles dias e peço que meus quase três leitores não reparem na bagunça e enquanto vou segurando o copo de Balla entre os dentes e digitando com igualmente três dedos tentarei controlar meu ímpeto de fazer um tratado. Ao contrário da maioria esmagada dos blogueiros, tendo a encaudalar meus textículos em enxurradas de verão prenhas de lama e excreções e suores e saliva e se não mantiver tenência dos dedos acabo obrando um espelho em ponta-cabeça de Bartleby. (By the way, por que espelhos nunca ficam de ponta-cabeça?)
Como o tema desta pastagem é quem se veste mal, podemos também mencionar en passant os que escrevem demais e escrever demais quase sempre significa escrever mal no mais das vezes, embora a copiosidade na escrita possa ser uma técnica estilística dependendo do teclado. E não vou desmanchar de cara o barato das possíveis impressões que meus quase três leitores terão sobre o tema. Não gosto de mudar opiniões alheias, só as minhas.
Cutucando direto o assunto, vocês sabem que nossa habilidade na vestimenta não chega a ser propriamente uma arte. Mas porém requer algum talento todavia.
Tenho pra mim que vestir-se com elegância guarda alguma relação com grana, berço e background. Mas não na proporção que o senso-comum poderia esperar. Em nome da simplicidade (que também se aplica, no caso), digamos que requer um tino para o, ugh, aplomb e umas pitadas de ousadia ou mesmo frieza.
Ilustremos logo o assunto para que esses conceitos não fiquem rodopiando a esmo e alguém possa pensar que o pobre blogueiro já está ébrio quando o sino da matriz aqui perto ainda nem soou seis da matina.
(E essa menção à matriz veio bem a calhar, pois a pessoa que escolhi para estrelar minha ilustração é exatamente uma das minhas vizinhas que não perde a missa nem que o padre faça strip-tease no altar.)
(Epa, me ocorreu a possibilidade de que talvez seja exatamente por isso.)
Essa senhora — que, mais uma vez para fins de simplicidade, batizaremos Maria — todo mês torra grana afrodescendentíssima em roupas chiquérrimas e penduricalhos os mais escalafobétikos, levando todo o jeito de ter fugido duma peça do Tchekov. Quando por azar a avisto de longe a caminho da padaria ou pechinchando um pastel de pizza na banca do japonês atravesso a rua ou me escondo atrás duns caixotes de laranja pra não ter de entabular aquele smalltalk sociológico a que todos nós vizinhos de nossos vizinhos estamos condenados na vida.
Quando não é possível apelar para um desvio providencial, simplesmente viro a cara pro outro lado, fingindo um enorme interesse na tinta descascada dum muro na rua.
Tudo bem, um marmanjo com seus quase um e noventa de altura e sete arrobas de peso e barba grisalha e gorro preto sebento e juba igualmente grisalha roçando os ombros corre risco de parecer ridículo com esse truquezinho infantil, mas, sei lá, tem dia que meu papel de homem civilizado simplesmente não desce pelo meu esôfago.
(Por falar em crianças, Maria é casada mas nunca pariu. Terá a ver? Sorry, vizinha — tinha de sair um dia.)
Conheço uns sujeitos aí que são mais duros que pau de tarado mas nem por isso fazem vexame no quesito indumentária. Calça e camisa batidos, às vezes mesmo puídos, mas limpinhos — denotando consciências e caráteres igualmente limpinhos.
Ressabiam-me pessoas que se vestem mal. Em minhas andanças e lambanças cibernéticas, andei conhecendo in persona um ou outro internauta pelas quebradas da rede. Alguns até achava legais de papo a distância, gente esperançosa, até inebriada com a existência. (Alguns tinham até mesmo um propósito na vida.) Porém, quando nos encontramos ao vivo, decepção. Roupas malajambradas de cima abaixo. Nem consegui levar adiante o relacionamento virtual.
Não sei bem o que acontece, gente malvestida faz soar um alarme dentro desta minha cabecinha de vento. Fico achando que a dona não bate bem dos pinos. Uns francamente, considero autênticos cafajestes só por causa dum sapatinho mais esdrúxulo, uma meiazinha num tom escandalosamente claro, uma saia um centímetro acima ou abaixo da medida certa.
E também tem muito pouco a ver com beleza física. Pode ser até pior. Pessoas há que, quando paradas e mudas, são verdadeiros apolos e afrodites. Mas contudo causam consternação mal começam a se mexer. Semideuses não deveriam abrir a boca. Ou rir. Você já reparou como certas pessoas bonitas viram quase espantalhos quando riem? Eu já.
Não vou exagerar a ponto de exigir que todas as marias, vizinhas ou não, sejam uma Audrey Hepburn ou todos os joões um Cary Grant ou James Stewart. Ainda me sobra um tico de senso de realidade. Mas faz mister um mínimo de apuro com a vestimenta, mesmo que seja um conjuntinho de tergal comprado nas Pernambucanas.
Ou será que elegância é de fato um talento nato que nem um shopping tour pela Champs Elysées é capaz de compensar?



Nada de pseudopoesia neste instante

Que interminável decepção ser adulto num jardim d'infância onde meninos e meninas se recusam a crescer.

A solidão da ratazana



scherzando

And far and high I see a patch of sky. PQP, esse versinho me faz chorar, sou um romântico clínico, não tenho cura.
É doença de que não se foge. Fugir pra onde? Sei de quem fujo. Sei quando fujo. Caracas, não sei pra onde fugir.
Não posso fugir de mim mesmo. And far and high I see a patch of sky me carimba no olho da mente o cenho sisudo de Philip Roth me recriminando por ser tão escrachada, tão despuradorada, tão lulamente infantil.
Você sabe...
— Vê se cala essa fuckin' mouth. Estou cansado desse choramingo interminável.
Desprendo o olhar da tela, giro o pescoço. Ninguém atrás de mim. Faço força, giro mais. Ali está ele. Philip Roth...
— Não diga "em pessoa", you bastard. Em qualquer idioma que seja.
— Não digo não senhor. Ainda sou dono, embora acabrunhado, dos parcos neurônios sãos que me sobraram.
Philip exala aquela austeridade de quem guarda dentro do crânio o cérebro mais poderoso de todos nós. De soslaio, tento estudar a expressão dele.
— Nunca, jamais me olhe de soslaio, hear me?
Meu olhar volta incontinenti para a tela. Uma onda de desconforto me varre a barriga, o peito, a cabeça, tenho certeza de que minha testa está porejando, que papel ridículo mein gott.
Aqueles olhos que se estreitam rutilantes de inteligência...
— Posso usar um "e no entanto"? — pergunto sem olhar para ele.
— Desta vez. Só desta. — Pela visão periférica percebo que ele cruza os braços enquanto fala.
...e no entanto enevoados da angústia de saber que ele também não tem pra onde fugir...
— Philip, como é que você prosseguiria daqui? — A possibilidade de despertar um deus do olimpo não me intimida. Sou poltrão, poltrão refinado, poltrão profissional, poltrão sem tirar nem pôr, sou um poltrão abjeto safado mas não vou perder a oportunidade. Mesmo sabendo que pode ser a última.
Ele se limita a continuar perscrutando, ainda de braços cruzados. Prossigo.
...acabou se encurralando em si mesmo num dos cantos deste mundo sem cantos, os olhos tarados de dor e fome de apreender...
Ouço um farfalhar de roupa ao meu lado.
— Sai pra lá. Eu continuo. — Com o punho fechado, que, noto, é pintalgado de nódoas sépia, essas pintas que denunciam implacáveis a idade da vítima mais do que qualquer cabelo branco ou pés-de-galinha no canto externo dos olhos e que sempre me causam alguma repulsa de que estou vendo o que não devia estar vendo, com o punho fechado, como que para evitar fazer um contato mais íntimo comigo através da palma da mão, com o punho fechado ele empurra imperativo meu ombro me obrigando a sair da cadeira. Por um segundo me passa pela cabeça uma vaga idéia de resistir, sou homem ou ratazana, engulo em seco, é só por um segundo.
— Pode sentar — ofereço, disfarçando a humilhação de abandonar meu cockpit sagrado de piloto-faxineiro das minhas mazelas. Percebo que ele fica desapontado. Esperava alguma reação. Sou uma ratazana.
— Não escrevo sentado, you know — ele faz um ar de profundo desagrado. O mundo o estorva, a vida o estorva, eu o estorvo.
Eu sei. Há anos Philip escreve em pé. Mandou adaptar seu computador e mesas na edícula de sua casa a que chega todos os dias às oito, sem hora para sair.
— Posso segurar o teclado e o monitor, se você quiser.
— Okay. Só não balance muito.
...escrutinando o que poucos ou nenhum de nós é capaz de enxergar. Se quisesse, ele poderia simplesmente debochar de todos nós, um deboche silencioso e amargo, um deboche olímpico a contragosto. You know, deboche é arma de tolos.
Inda há pouco eu via uma saída, a deixava quietinha guardada num dos meus porões imaginários, pensava que bastaria recorrer a ela quando chegasse a hora de fugir.
A hora é agora, porra.
Isso foi ainda há pouco, algumas horas, alguns anos, não lembro, percebo com lucidez dolorosamente aguda que era só um truque, um dos muitos que engendrei para me conduzir a mim mesmo a este beco sem saída.
THE END.
— Assim sem mais nem menos? — me espanto, i.e., admiro.
— Just like that.
Tendo recusado o papel de guardião das dores do holocausto, de patrono da incessante diáspora de sua gente, ele tem nos olhos um brilho particular. Não me furto às minhas responsabilidades.
— Não precisa dizer mais nada. — Ergo a palma da mão para ele, pedindo calma e contemplação. — Vou acabar Operation Shylock amanhã. Embora seja seu livro mais enrolado, você sabe. Não sabe?
Ele não está mais aqui. Saiu tão despercebido quanto como entrou.

Só tem tarada por estas bandas?


Allegramente

Meu distinto público vai, parece, de mal a pior, oquêi, longe de mim pretender que apenas acadêmicos improdutivos da região leste do reino encantado, digo, Cidade Universitária, zona que abrange todas aquelas escolas inúteis como História, Letras, Sociologia, Antropologia, Etnologia, Ciências Políticas, Psicologia, parafernália científica e o Berção cada dia mais atolado no pântano sob o despautério da professorzona M. Chauí e patronos que tais dos pensadores universitários deitados impávidos mamando vinte pilas mensais a cabeça, crânios da filosofia que emprestam sustentação intelectual a primitivos como Lula sonhando que este implantaria um estado antiburguês e que, empalmando a Presidência, dedicou-se de corpo e alma a ennababar-se a si, à família e aos chegados, provando pela enésima vez que ex-matutos oriundos do sertão querem é se dar bem emulando a burguesada que desde o nascimento lambem com olhos grávidos de inveja e, uma vez no poder, se deixam acometer de amnésia, condenando circularmente filhos e netos de sua gente ao "destino" miserável, Lula e seus nefandos arroubos leninistas de implantar desvairado um reinado papal com a providencial ajuda de tucanos e outros urubus, pombas, longe de mim querer que meu público se constitua apenas de bacharéis virgens endinheirados, pero, psiu, manerem na libido, abaixem o volume das fantasias, tudo bem que todos nos amarramos numa alucinação, houve época em que eu engolia um vidrão de xarope pra ter barato, deem só uma olhada nas expressões de busca que o google trouxe até este malfadado blogue em dias de aparente calmaria:

—  1984 paisagens de um admirável mundo novo de guerras e regimes totalitários
—  a guerra dos pintos molhados 
—  a incivilidade que grassa no Brasil
—  a letra da música o back está queimano
—  abril despedaçado
—  acessos de raiva
—  advogada apaixonada bate siririca no banheiro da record (esta é campeã de audiência, 5 meses na parada, vai ver essa advogada taradita é a responsável pela programação do dito "canal" de esgoto a tevê aberta?)
—  adriano espínola 
—  alcinha de sutiã
—  amostras de crochê para toalhas com linho
—  análise do poema pensamento de raposa de Ted Hughes
—  andar de madrugada é perigoso
—  antegozando
—  anúncio de gordinhas querendo sexo
—  aparador de sala
—  a pior cegueira é a de quem finge não ver 
—   - arca com oratório fica bonito na sala
—  arvore genealógica família Vaccari
—  as longas tranças dum careca 
—  balas surdas
—  bater punheta aumenta o crescimento dos pêlos (o circunflexo no ê é meu, como todos os demais acentos, aliás, afinal, a famigerada reforma hortográfica ainda não vingou)
—  benzedura para afastar suor do cabelo (gosh, me tomam por pajé)
—  bolacha dedo de nego 
—  brincadeiras para lobinhos
—  buceta cheia de porra
—  bucetas ardidas doidas por sexo
—  cachorro comendo cu - imagem
—  calcinha cagada 
—  câmera escondida flagra siririca
—  câmeras ocultas de vovôs com ninfetas
—  carcaça chevrolet bel air 1955 belo horizonte
—  causas de mãos secas e esfoladas fígado
—  começo do casamento
—  chupação
—  cidade pinto duro
—  closal (é "clozal", mas eu também errei)
—  comendo a secretária
—  como ensinar uma menina de 10 anos bater siririca
—  como envenenar humanos com formol instantaneamente
—  criancas prematuras
—  crise hiperglicêmica
—  crônica de millor fernandes (a vaguidão especifica) e interpretação do texto
—  crônica sobre filando cachaça
—  curso de filosofia por correspondência
—  dez anos cabacinho siririca
—   - drummond não sou escritor
—  eguinho 
—  ela me dava mole depois passou a ficar com a cara feia
—  em dias primaveris colherei flores pro meu jardim da saudade
—  empregada é flagrada por cam escondida batendo siririca
—  enrabada na escola
—  enrabada no ônibus
—  enrabada pelo carcereiro
—  enrabada pelo negão
—  enrabada pelo tio (parece que enrabação é mais uma preferência nacional, ao lado da anestesia lixo-televisiva e voto em trombadões de terno e gravata)
—  eu posso ver o prontuário do meu pai
—  fernandinha.com 
—   - formatação de uma carta comercial
—  fotografia de monjolo
—  fotonovelas sexuais
—  fotos de melissa angel
—  fotos de negros com picas monstruosas enrabando ninfetas
—  fotos de pênis emasculado
—  fotos de pessoas vítimas por pitibuls
—  fotos de picas enormes no cu (este pelo menos não pôs acento no cujo)
—  frases prontas românticas em francês 
—  garotões 
—  gordinhas and pintos
—  gordini brasileiro envenenado
—  historiasparacriancas
—  inveja como uma coisa boa
—  jornacional
—  lingua dos pássaros
—  literatura técnica automotiva
—  macunaímica é hiato
—  magia simpática com pombagira
—  mandou cortar penis
—  maniqueísmo dogmático (eu pensava que todo maniqueísmo fosse dogmático)
—  maniqueista
—  menina tocando siririca no banheiro
—  meninos bem dotado 
—  mesa de canto para sala de visita
—  mesa de doze lugares (pois é, a ideologia classe-média não morre nem no país das favelas)
—  morena bunduda
—  muitas bucetas
—  mulher azeda
—  náusea pela manhã com boca amarga e esôfago queimando
—  ninfeta fazendo xixi na roupa (Nabokov escatológico)
—   - ninfeta flagrada tocando siririca
—  olha só mulher do vizinho
—  oração da pomba gira para amarrar meu amor (minha predileta; Berção sem tirar nem pôr)
—  oratórios ou relicários artesanais
—  petichope
—  pintos descomunais ("de negão", omitiu-se; o fascínio com a suposta animalidade total dos negros a enlevar as fantasias dos brancos, carimbo vindo diretamente de roliúde)
—  pintos eretos 
—  planta de uma cidade ideal
—  pleiboi 
—  poesia com esquema rímico para mãe
—  punheta esquisita
—  qual o segredo para transar com meu patrão (tem gente pensando que o google é oráculo de delfos. Isso não é mais busca, é consulta sentimental. I wonder, que fim dará a humanidade dentro duns 20, 30 anos?)
—  requisitos para um texto eficiente
—  resumo colocador de pronomes monteiro lobato
—  samambaias saia baiana 
—   - se eu arranquei uma flor de girassol ela duraria mais na água ou na terra
—  se não mudamos não crescemos. se não crescemos não vivemos
—  senhoras mais taradas e pornografia
—  significado de sirigaita
—  siririca-no-banheiro
—  sonhei com estupro na família e aconteceu com minha prima
—  taradas enfiando obgetos na buceta (epa, pegamos um carcamano fetichista na rede)
—  testes de felicidade 
—  tesudinhos
—  tetas caídas
—  tirando o cabacinho da menina virgem (Jorge Amado fez escola ou se limitou a espelhar a alma do brasileiro médio?)
—  trailer de camponesas al sugo (cáspite!)
— trailer do patrão estuprando a empregada (descontar nossa infinda infelicidade de colonizados na senzala é a nossa sina)
—  transei com meu próprio irmão e foi bom
—  trinta tiros e não morreu atestado de óbito
—  trombeiteiro da manhã
—  umbanda jacarepagua 
—  vitaminas para sabia laranjeira 
—  versos ordinários
—  vovós taradas
—   
Ulalá, e tem gente que cospe quando ouve falar em Freud.
Eu queria ver a cara desses internautas quando descobrem que este não é o sítio mais apropriado pra buscarem sacanagem, respostas pra trabalhos de escola e idéias pra decorar a sala-de-estar. Tudo aqui é tão literário.
E parafraseando as milhares de mestrandas que vão sendo fabricadas pelas nossas faculdades para prestar concurso público de copeira, não sei por que o google vive trazendo priápicos ao meu querido blogue, sendo que não produzo senão textículos transbordantes de joá-de-vivre e patriotismo eivados do mais refinado espírito-de-porquismo.
 E não se esqueça: se a sua tara não constar da lista, reclame com a gerência.


Excursão matinal



Thème russe
  
Ela podia ter ido de carro. O importado conversível dormindo na garagem parecia que fora fabricado para ela. Seria estranho ver outra pessoa no volante.
Sim, podia. Podia muitas coisas. Mas não tantas quanto você possa imaginar. Ninguém tem essa liberdade de escolha infinita. Nos meus delírios, imagino, e então ela pode o que quiser. Só que vou pular essa parte. Não estou com a mínima vontade de falar dos meus delírios. Estou farto de delirar. Queria escapar desse túmulo emocional em que me enterrei vivo.
Ela podia ter pulado dentro do carro, arrancado c'um certo alarde nos pneus, fazendo o motorzão de oito cinlindros roncar e ao mesmo tempo gemer sob a continência dos 400 cavalos domados a golpes no acelerador. Em vez disso, ela simplesmente pôs uma sacola debaixo do braço, abriu o portão lateral e saiu para a rua.
A idéia, parece, era ir até a feira. Nada mais propício para essa missão que a propícia sacola de feira debaixo do braço. Ela, simplesmente de novo, deu uma volta no quarteirão, duas, três, a luz do sol aquecendo primeiro o rosto, depois os ombros, as costas, os seios...
E quando seu rosto começou a sorrir, ela voltou.
Eu podia acrescentar que assisti tudo, da partida ao retorno. E que fiquei imóvel, sob o sol, esperando o desenlace. Mas não vou. Cansei de acrescentar.

Aliás



Me vi alguns instantes atrás.
Hahahaha!
Não pense que estava preparado.
Já não lhe disse por infindáveis anos que nunca estamos?
A diferença, a resplandecente, a lunática diferença é que você dorme como se dormir fosse natural e acorda como se acordar fosse natural e levanta e começa a negociar seus sentimentos com o mundo como se negociar com o mundo fosse natural.
A diferença é que você atravessou a noite e os sonhos da noite e se preparou para o novo dia como se nada tivesse acontecido.
E se o novo dia fosse de fato novo, duvido que você aguentasse o tranco.
(pois só nós aguentamos, mesmo que morramos jovens.)
(pois morrer jovem não é uma preocupação daqueles que se veem seja alguns instantes atrás ou nunca, mas sabem quê.)
Por isso você não se viu, por isso não se vê, nem há poucos instantes nem nunca.
Mas, veja, você não ter se visto não significa que você não estava lá no fim da rua, atrás do portão à espera do que tem esperado desde que existe, no sofá com a cabeça entre as mãos tentando longinquamente imaginar por que raios é incapaz de se ver fora de você mesmo.
Me vi alguns instantes atrás.
Não, não estou me gabando.
Me ter visto ou deixado de me ver há pouco ou anos atrás não me faz superior.
Aliás (veja o título lá em cima), se nunca me ver trouxesse algum benefício, sim, ia querer ser cego de mim mesmo.
Pois, veja, quem vê a si mesmo é um coitado condenado a ver a si mesmo.
De repente pode se flagrar lá no fim da rua, atrás do portão à espera do que tem esperado desde que existe, no sofá com a cabeça entre as mãos tentando longinquamente imaginar por que raios é capaz de se ver fora de si mesmo.
Me ver me traz quase que um augúrio.
Não, nada a ver com grosserias místicas ou delírios metafísicos.
Minha capacidade de me ver é minha capacidade de me ver e não me importa que nome queiram dar à minha capacidade de me ver.

Quando me vejo me pareço tão interessante.
Desconfio até que tenho algo a me dizer.
Aquele segredo de que me esqueci aos quatro meses de idade a me revelar.
Quando me vejo, me vejo me vejo me vejo.
Fecho os olhos.
Aceno.
Corro para a sombra sob uma árvore na rua para não me ver.

Sim. Vim. Dum lugar muito feio


A poesia ─ certa poesia ─ é a forma mais honesta de expressão. Poesia, religião e psicanálise. Mais honesta porque aduba e rega as doidas contradições das nossas cabeças ao invés de tentar suprimi-las com ácido racionaliático saneador e pensamento pretensamente organizado. Não se gosta de poesia porque a poesia teima em não fazer parte do mundo teatral de personagens em constante estado letárgico que somos e encenamos dia após dia. Não queremos outra coisa senão cúmplices que nos ajudem a viver mais um dia de autoenganação e álibis que acobertem e expliquem nossa irrefreável tendência à mentira. Procuramos estabelecer pactos hipócritas com tudo e com todos. Nossas cabeças são habitadas por fantasmas e monstrengos indefiníveis e mais ou menos aterrorizantes e alarmantes, dependendo do freguês. Eles fazem parte dum lado escuro e endomorfo que não nos interessa ver. Quase nunca ousam aparecer ou levantar a voz, e, prestativos, cooperativos, americanamente afirmativos, só em sonhos dão algum sinal de que existem, e só muito esporadicamente, nos ajudando assim a preservar a pouca sanidade escapista que nos resta.
A poesia ─ a boa poesia ─ é viva, feita por vivos para vivos. Por isso é, entre outras, hermética, difícil, caótica e maluca. Ao contrário dos tratados elegantes e corretamente escritos de ensaístas bem-pensantes, construídos com todos os elementos formais preconizados pela retórica e pela semântica, cheios de um lado, do outro lado, paradoxalmente, que se depreende, há que destacar, argumento, ou da escorreita ficção dos best-sellers que segue receitas estetizantes dos manuais de redação e suas leis de escrita telegráfica, concisão, clareza e o escambau, que aprisionam o pensamento sob as formas totalitárias da ordem e da objetividade utilitarista, a poesia é desequilibrada, distorcida, agressiva, suja e feia. Daí, iluminativa.
Temos medo da feiúra porque nos vemos nela e porque ela está tão ominosamente próxima. E da sujeira porque, bingo, somos sujos. Por isso tomamos banho obsessivamente até nos sentirmos assépticos e podamos as árvores e as cercas-vivas para que não cresçam e ganhem as formas orgânicas dos nossos medos. A poesia mancha o carpete da sala, emporcalha os fundilhos das calças de linho, risca impiedosamente a cintilante pintura do carrão que morremos de enfarte para comprar e poder exibir aos nossos vizinhos.
Se maioria de nós gostássemos e soubéssemos sacar e soubéssemos para que serve a poesia, tecnologicamente estaríamos vivendo, sei lá, no século 10. Provavelmente não estaríamos nos degolando uns aos outros por complexo de inferioridade, inveja e cobiça sem fim nem tamanho.
Lacans, derridas e afins seriam de fato os gênios propalados por áulicos se conseguissem trazer o inconsciente à tona em, com perdão da palavra, discursos minimamente inteligíveis. Talvez o façam algures em seus livros. Mas trechos há que, honestamente, não valem o papel em que foram impressos. Talvez tenham mesmo feito contato com as profundezas do espírito, talvez tenham flagrado sentimentos em estado puro, pré-linguagem verbal, formados muito antes do nascimento das palavras, que torna grande parte deles, ninguém sabe quanto, inatingível pela consciência, mas querer que leiamos e compreendamos aquela logorréia labiríntica embananada com a desculpa de que, com perdão da palavra, reflete o inconsciente e, portanto, só pode ser obscuro quanto o é o inconsciente, não refresca nada. A palavra é convenção, lalarila-ri-rá, e, portanto, pouco afeita a tratar de, com perdão da palavra, conteúdos não convencionais. Dentro de cada um de nós rondam fantasmas indefiníveis e, portanto, inexprimíveis. Qualquer um pode escrever o que lhe der na telha e dizer que é o retrato da alma. Mas, na humilde opinião deste servo, não como cientistas. Como poetas, sim. E os grandes o fazem e já faziam antes, muito antes de tio Freud aparecer no pedaço.

Pronto para agir em segundos


Ah quer dizer que minha vida está a meu cargo?
Não pode ser.
Sim, sei que é tarde para me espantar.
Gemer.
Reclamar.
Sim, desconfio que não encontrarei ninguém que se disponha a aceitar esta reclamação.
Sim, preciso de alguém que se encarregue da minha vida!
Não está patente que não estou à altura da tarefa?
Não, não entrarei em detalhes.
Não posso, não quero soar vil, mesquinho, pequeno.
Já não ficou patente o bastante que sou pequeno, mesquinho e vil sem que precise produzir provas contra mim mesmo?
Preciso de alguém grande, magnânimo e generoso que se incumba da minha vida!
Está certo.
Já disse que está certo!
Adultos que são adultos aceitam naturalmente tal incumbência.
Está certo, já disse!
Não cometerei a ingenuidade de perguntar por que seria essa incumbência tão natural.
Não, não sei por que, não imagino por quê.
Mas não sou tão estúpido assim.
Posso deduzir.
E então deduzo que as pessoas minimamente grandes, magnânimas, generosas e inteligentes são capazes de tomar suas vidas a seu próprio cargo e jamais deixariam de ser sagazes o bastante para não delegar tal missão a outrem.
Portanto, eis que tomo minha vida a meu cargo.
Como meu pai sempre recomendou.
Como minha mãe sempre exigiu.
Como meu cunhado que ficou rico e influente sempre esperou.
Não, não tema!
Você é adorável, meiga, linda.
Mas nem por isso vou lhe incumbir da minha vida.
Está provado: minha vida é minha e quem deve cuidar dela sou eu.
Está mais que provado.
Está tão provado, mas tão cabalmente provado, mas tão estupefacientemente provado, que tocar nesse assunto me dá essa irresistível moleza e me deixa as pernas bambas.
Chega de desperdício de palavras, de tempo, de paciência.
Minha vida está a meu cargo e não vou repetir de novo!
Sejamos adultos!
Sejamos objetivos!
Sejamos o que o mundo espera que sejamos!
Então, por meio deste manifesto...
...por meio deste instrumento...
...por meio desta confidência...
...declaro a quem de direito na forma da lei...
...a quem interessar possa, a quem esteja acostumado a dar nome aos bois...
...a quem não tem mais dúvidas de que deus ajuda a quem madruga...
...que, sim, os senhores entenderam perfeitamente:

esta minha vida, que, admito, parece tão frágil, tão dispensável, tão excessiva e redundante, está a meu cargo.

A raspa do tacho


Tem gente que nunca procura.
(É possível ver na cara deles.)
É, sei lá, como não esperar nunca

Vou navegando sem GPS. Prestes a quebrar a barreira da razão.

Les sous-entendus sont souvent à l'origine des malentendus.

Quando flanar até o céu
quero estar num sono
profundo
E não esquece minha comissão

(Puts,
todo esse tempo
a seta tava pifada
só agora
me dei conta.
Sai detrás que
vou fugir de marcha à ré.)

– Quem é?
– O monstro.
– Qual é a tua?
– Vim te comer
– Sirva-se. Qual parte você prefere?
– Se não se importa, vou começar por dentro

Mulheres há
sem encanto algum
que não podem
almejar senão
que uma alma
caridosa as
chame cadelas