Sábado
à noite mais uma vez e eis-me aqui desanimado(o), cansado(o), entediado(o) e de
saco(a)-cheio(o) no meu covil por conta
desta soniferíssima experiência digital em que nada de interessante acontece.
Devia estar lendo, claro. Digo, lendo em papel, a única leitura digna do nome.
Mas me viciei em perambular pela rede ciscando vermezinhos, fiapos de pele, pedras falsas, restos autênticos. Ando pensando em escrever algo como Como
levar perigosamente sua vida digital. Mas é sábado à noite e já corri todos os riscos digitais que podia
correr em minha insossa existência, inclusive a digital. Foram anos de estripulias e pude concluir
que riscos que tais não valem a pena. Conheci muitas pessoas que no fim se
reveleram apenas espantalhos reais travestidos de bonecos virtuais que fizeram aumentar
perigosamente meu sentimento de solidão. E comprovaram, a mim, que não há vida
digital minimamente gratificante possível.
A menos que você seja daquele tipo que todos conhecemos — aquele que já nasce de
casca grossa e uma moldura onde resplandece um baita sorriso com todos os dentes já pespegada na cara. Mais ou menos como os habitantes de Los Angeles. Sábado à
noite não é tempo de agito por aqui? Que falta fazem aqueles bailinhos na casa do ...aldo.
Sábado doido pra arrebentar
Não
quero saber a hora, não quero que me respondam, não quero querer.
Sou
um cara que evita falar qualquer coisa só pra marcar ponto, entende,
Aristobaldo da Fonseca Guimarães, vulgo pernudinho?
(Olhe,
digo isso com candura e sinceridade; na minha vida já arrumei tanta encrenca
com minha franqueza, que não sei se o problema está na inépcia das minhas palavras
ou naqueles que não me entendem. Tudo que desconfio é que a nova versão 3.42 da
raça humana, essa gente que vive online trocando figurinhas e se entretendo com
joguinhos, está perdendo a capacidade de intelecção.)
É
noite de sábado, mais um vez, e não estou com disposição de falar dos meus velhos
trastes psicomentais. Minha língua emperrou de novo e meus dedos, tenho de
fazer um esforço fantástico para mexê-los. Se estivesse um tiquinho mais
animado, falaria de assuntos nobres como poesia, papéis literários, a renúncia a
viver para escrever. Este último tema é absolutamente "sensível" para
mim e me deixa perturbado. O problema é que na maioria das vezes (?) só me
permito me perturbar pelas minhas próprias perplexidades.
Pessimismo
é outro "princípio" que me deixa confuso. Me acho meio pessimista (os
que convivem comigo me acham totalmente pessimista), mas em geral não sei
separar em mim esse pessimismo que a maioria acha ruim e equívoco e que para
mim é um dos estados mais naturais da espécie, e esta minha imperiosa necessidade
de ser realista me faz olhar o mundo e as coisas e as pessoas e as borboletas
do que jeito que provavelmente são e não do jeito que os que estão no mundo querem
que eu os veja.
Sábado, um instante qualquer entre as 11:38 e as 22:41
Para o poeta
as palavras são a terra > a semente >> o adubo >>> a colheita >>> a massa
a fome
Ai que cibernética solidão
Sábado entre várias brochantes blogadas
procura-se
poesia
sonsa, leda,
besta, fria
mesma
agora, ontem,
amanhã,
a mesma
noite
que me
delete
do coração
todos
os momentos
dos meus olhos,
todas as fotos
todos os rostos
do meu rosto
que é o mesmo
de todos
da memória
o mesmo riso
da mesma boca
que um dia
me prometeu
alegria
Blogando 0047
Quando estou indo desmaiar
Adoro escrever teu nome
Nem quero soletrar direito
Não quero ser bem-vindo
Quero ser maldito
Mais que querer, sou
Não adianta insistir
Estou desmaiando?
Não, desmaiar é bobagem
Preciso cuidar da minha reputação
Cansei que me vejam como alucinado
Não quero que me vejam como coisa nenhuma
Uau, até que estou conseguindo digitar direitinho
Sou uma peste
ACHTUNG!
Gamo o idioma e a literatura alemães
Tchibung
Blogando 0046
Parado
Na esquina
Da avenida
Só peço ao
Meu deus
Cujo Deus
Se Esqueceu
De o criar
Que não me vicie em felicidade.
Na esquina
Da avenida
Só peço ao
Meu deus
Cujo Deus
Se Esqueceu
De o criar
Que não me vicie em felicidade.
Alberto
Fui incoerente, não fui?
Cara, tenho nojo de quem dá lição e não vou lhe
dar.
Simplesmente veja os dois contextos em que eu
disse uma e outra coisa...
...e veja se faz sentido.
Pra mim faz.
Mas, olha, fazer sentido prum poeta não quer
dizer nada.
Aliás, fazer sentido não quer dizer porra
nenhuma pra ninguém, em se tratando de literatura.
Você até pode dar seus primeiros passos poéticos
mandando o sentido pro caralho.
Se quiser.
Quer ser poeta?
Então não se fie na opinião de ninguém.
Nem na minha.
Não espere reconhecimento.
Não fique aí parado feito tonto esperando um
docinho.
Um afago.
Um elogio.
Quer ser poeta?
Então seja poeta.
Primeiro...
...aprenda a sentir.
Pra sentir...
...aprenda a sentir.
Pra sentir...
...aprenda a se livrar das besteiras que te
enfiaram na cachola desde o dia que você nasceu.
Aprenda, acima de tudo, a sentir...
...a dor...
...que é sua...
...só sua...
...sua...
...sua...
Eu estou tentando ser poeta há 40 anos.
E vejo
hoje que tenho mil toneladas a aprender.
A cada manhã.
A cada tarde.
A cada lusco-fusco usco co o.
E desaprender.
Dsprender.
Aprnder.
Prndr.
ndr.
r.
Preciso aprender a aceitar o que sinto.
Preciso desaprender o que me entucharam na
cabeça.
Tem lógica?
Se tiver, então tô falando merda.
Mas uma coisa tenho por certo nessa salada
milenar:
Seguinte:
Três pontos
Não deixe que teorias e teóricos queiram te
ensinar o que você sente ou deve sentir.
A poesia e a literatura em geral tem raríssimos
criadores.
E palpiteiros a dar com o pau.
Não há poeta igual a outro.
Não há escritor igual a outro.
Cada verso é uma declaração de independência.
Uma declaração de guerra.
Um manifesto por um mundo carmim de sangue.
Blogando 0045
Sabia.
Não deu outra.
Um “poeta” tinha de “tratar”
da distopia ocorrida último domingo na trágica Santa Maria no estado do Rio
Grande do Sul.
E tal poeta só podia ser
um gaúcho, obviamente. Afinal, é a área
dele. Ele tem ascendência natural
sobre as tragédias de sua terra.
Previsivelmente, o canto de dor pelo funesto episódio da danceteria Kiss (Jesus, terá o “poeta” recorrido ao previsível
trocadilho?) coube a Fabrício Carpinejar. O poeta na hora certa no lugar certo.
Sem saída (jesus!),
começo a ler o canto de morte. Meus olhos correm por dois ou três versos e
imediatamente buscam ar (jesus!) no branco da parede à minha frente.
Carpinejar teve coragem!
(Se há um ponto de exclamação legítimo no mundo, é este.)
Incluiu em sua elegia
fúnebre todas as imagens grotescas que se poderia esperar dum poeta como ele. Só espero que Veríssimo não o
siga.
Carpinejar veio açodado
tomar parte do imenso açougue humano transformado pela mídia e pelos poderosos
no Maior Espetáculo do Fim de Semana. Com seu panegírico fora de lugar,
juntou-se às lágrimas de crocodilo de Dilma Rousseff, aos esgares canastreiros do
governador Tarso Genro, ao picadeiro rocambolesco armado pelo ministro da
Saúde.
Soube dessa imensa
infelicidade quando cheguei na casa da minha irmã domingo pouco antes do almoço.
Entrei na sala, a tevê estava ligada, dei com a notícia, escutei minha própria
voz exclamar “puta que pariu!”. Senti os olhos molhados. Eis a total reação espontânea
que algo assim merece. Eis a única poesia que se pode prestar às vítimas da
infâmia, da incúria dos nossos homens “públicos”.
Hoje abro o site da
revista Veja para descobrir que o gran necrófilo Luiz Datena, que revolve a
carniça humana todas as tardes na tevê com seu enorme bico de abutre de
Prometeu, foi legitimado - e, pior, emulado – como poeta pelo poeta Fabrício Carpinejar.
Sobre este episódio sem
adjetivos tudo que a canalha política e os poetas maiores podem fazer é o
silêncio.
Blogando 0044
Tudo que espero é
Tudo que quero
Amanhã cedinho
O mundo vai acabar
Sem horário certo
Nem lugar anunciado
Esmagado sob o peso
Dum poema meu
Tudo que quero
Amanhã cedinho
O mundo vai acabar
Sem horário certo
Nem lugar anunciado
Esmagado sob o peso
Dum poema meu
Blogando 0043 sobre o Detonador de Ilusões
Amanhã, se tudo estiver bem como esteve hoje e como esteve ontem, vou explicar por que sou o Detonador de Ilusões e como há décadas observo as pessoas se afastarem como se eu fosse leproso.
Uma coisa posso afirmar que aprendi — as pessoas não toleram que se lhes destruam as ilusões.
E àquele desprovido delas, ilusões, tratam como o mais maligno dos cancros.
As ilusões são nosso alimento.
E nosso veneno.
Uma coisa posso afirmar que aprendi — as pessoas não toleram que se lhes destruam as ilusões.
E àquele desprovido delas, ilusões, tratam como o mais maligno dos cancros.
As ilusões são nosso alimento.
E nosso veneno.
Blogando 0042
Fico pensando se Ludwig, já surdo, esmerilhando seu diabólico piano, deixava uns olhares escapar na direção da sua plateia, se perguntando, será que esses imbecis sabem que estou surdo?
Faz alguma diferença?
Os quartetos que Ludwig criou no fim da vida são definitivamente obra dum surdo. Um surdo genial. Um gênio surdo.
Se tivesse leitores, eu lhes perguntaria, será que não enxergam que estou deprimido? Deprimido ao nível intolerável?
Minhas postagens recentes são obra dum escritor envenenado pelo que se convencionou denominar depressão.
Vejam, senhoras e senhores, vejam quão rarefeito é o nexo das minhas palavras, quão vago é o sentido das minhas frases, quão abstrato é o sentimento que penso estar pespegando na fachada do meu blog com o mais sólido prego imaginário que posso conceber e cujo significado se dilui de alguma forma em algum lugar dentro de mim qual a mais fudigia das alucinações mnemônicas da minha existência uterina.
E escuto os quartetos de Ludwig e escrevo e lá fora é noite e a noite haverá de passar e amanhã tudo será o mesmo.
Faz alguma diferença?
Os quartetos que Ludwig criou no fim da vida são definitivamente obra dum surdo. Um surdo genial. Um gênio surdo.
Se tivesse leitores, eu lhes perguntaria, será que não enxergam que estou deprimido? Deprimido ao nível intolerável?
Minhas postagens recentes são obra dum escritor envenenado pelo que se convencionou denominar depressão.
Vejam, senhoras e senhores, vejam quão rarefeito é o nexo das minhas palavras, quão vago é o sentido das minhas frases, quão abstrato é o sentimento que penso estar pespegando na fachada do meu blog com o mais sólido prego imaginário que posso conceber e cujo significado se dilui de alguma forma em algum lugar dentro de mim qual a mais fudigia das alucinações mnemônicas da minha existência uterina.
E escuto os quartetos de Ludwig e escrevo e lá fora é noite e a noite haverá de passar e amanhã tudo será o mesmo.
Blogando 0041
DEFINITIVAMENTE, não entendo internautas. Não entendo
membros de redes sociais. Não entendo blogueiros. Não entendo blogueiros que se
pensam e pretendem se mostrar sensíveis, poetas, portadores de visões
especialíssimas do mundo.
Não entendo qual lógica seguem. Sei que não é a minha e é
tudo que sei e saber algo que não é não é saber muito.
Espero que minha última frase acima os confunda.
Se pudesse, os atrairia para a beira dum precipício, ficaria
esperando que tivessem então um insight do mundo sensível perdido.
Não entendo, entre mil outras coisas, uma gente de índole
literária aliterária E antiliterária. Gente de ideologia literária que não toma
conhecimento da base, do fundo, da partida e do fim: a palavra.
Não entendo gente literária cuja palavra tem sua ortografia
violentada, seu lugar ignorado, sua ordem trocada, seu significado desprezado,
sua sacralidade aviltada.
Não entendo gente literária em que a complexidade da
sensibilidade artística é contrabandeada pelo fascínio da conectividade que
pede urgente uma teclada mecânica como resposta mecânica a uma postagem
mecânica cujo conteúdo introspectivo, reflexivo é nulo.
Não entendo gente literária em que uma postagem de boa
vizinhança é enviada apenas para suscitar outra postagem de agradecimento e a
seguinte para provocar uma outra numa circularidade que se autoalimenta do
impulso clicatório, gerando no pobre internauta uma eterna ansiedade pela
próxima réplica.
Não entendo gente literária digital em que o digital é tudo
e o literário é nada.
Não entendo gente literária que adora escritores e poetas
por sua fama e não por suas obras e ideias, na mais decepcionanante rendição ao
mais grotesco culto à celebridade dos fofoqueiros da tevê.
DEFINITIVAMENTE, não entendo internautas literatos e sua
estranha concepção de que literatura é só mais uma desculpa para concretizar a
"experiência" digital.
Os internautas fazem, certamente, parte do mundo da palavra
abolida. São ágrafos sob o domínio de uma hipnose eletrônica.
Literatura é palavra e palavra é pensamento. As microsofts
ainda não inventaram um sucedâneo.
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