Blogando 0097

Preciso ser honesto pelo menos comigo mesmo, porra.

Blogando 0054


Começando a bebericar agora. Eis uma das poucas delícias da minha vida.
Filho mais velho vindo pra jantar. Eis uma das poucas delícias da minha vida.
Vou fritar umas bistecas no fogão a lenha. Eis uma das poucas delícias da minha vida.
Tenho de tomar cuidado, o ar do sertão pode ser fatal para um coraçõezinho romântico qual o meu. Vive entupidinho de sonhos. É uma tristeza.
O crepúsculo vem baixando.
Esta tarde estava lendo um jornal do planeta Gliese 581, apenas 20 anos-luz distante de nós.
(Nós? Nós quem? Seremos a mesma família no que tange a dimensões intergaláticas? Me sinto tão só.)
Gosto de ler as notícias do Gliese 581 de vez em quando, só para variar.
O pessoal lá tem problemas diferentes dos nossos. Mas que, aparentemente, os deixa tão ou mais angustiados do que os nossos nos deixam a nós.
Por exemplo, o povo lá reclama demais dos excessos de sentimentos bons. De boas perspectivas no futuro. Chegam a se angustiar com a falta de angústia. Queriam mais "variedade".
Muitos dos machos gliesianos protestam que são felizes demais no casamento. Que coisas assim não deviam ser assim.
Pior: quando seus filhos fazem algo errado, basta lhes mostrar o certo – uma única vez – e os fedelhos saem pelo planeta Gliese 581 a aplicar os ensinamentos paternos. Sim. Não contestam. Não negaceiam. Não batem o pé.
E por aí vai.
É por essas e outras razões que gosto de ler os jornais do Gliese 581.
Não, não é um método que arrumei para me conformar com a nossa vidinha de merda no planeta Terra.
Sei que não nasci para ser conformado.
Simples.
Se um habitante do Gliese 581 estiver me lendo neste momento, espero...
Não, não espero nada.
Cansei de esperar.
Não sou de esperar.
O problema todo se resume em esperar.

É domingo, estou salvo


Ao contrário dos gênios, dos lógicos, dos racionais e dos bobos, não sei explicar a maioria das coisas.
Primeiro, explicar certas coisas me dá nojo.
Terceiro, me enrosco encantadoramente com as palavras.
(Veja, se enroscar com as palavras não é necessariamente ruim – ou bom.)
Se der mole, elas viram fiapos pontiagudos como quando você quebra um bambu seco e depois desavisadamente – como quase tudo que fazemos, ao contrário da crença popular segundo a qual a raça tem bom domínio sobre seus atos, o que, como é fácil constatar após breves anos de vida, faz parte do rol das Grandes Mentiras Que Nos Contam --, nos machucamos com algo que até pouco antes nos parecia suave. E inofensivo.
É por isso que nos últimos dias venho me retraindo um pingo ingo go o.
Estou sem ânimo de causar dor com estas eternas palavras desastradas, canhestras ao mesmo tempo em que me esforço para que não me causem, como diria um embrião híbrido de Alceu Amoroso Lima e Jânio Quadros tivessem os pais deles conhecido numa outra situação ou as mães deles, por cruel obra do Maluf, caído nas garras do dr. Roger Abdelmassih, embora tal possibilidade seja não possibilidade mas apenas uma desvairada conjetura e no plano conjetural tudo se pode afirmar – e se o conjeturador for deveras ousado, como poucos de nós ousaria ser – (será que boto vírgula aqui?) (boto sim), mesmo uma visão tresloucada em que retrocederíamos não cem horas ou milhões de séculos mas nada mais, nada menos àquele miraculoso segundo que se seguiu ao Big Bingo e, fôssemos dotados da capacidade de apreciar o jogo a partir da arquibancada ao invés de encarnarmos a bola em si (Martin Heidegger na certa invejaria essa teoria), simplesmente xingaríamos a mãe do Juiz (que seguramente era desprovido do mais ínfimo senso de Falta de Juízo Inicial) e eis que teríamos alterado a distribuição das moléculas, enzimas e levedos de cerveja para, touché! engendrar um mundo ideal isento de tsunamis, usinas nucleares, lulas, kassabs, beijinhos de afeto e carinho e, sobretudo, redes sociais, tendo como única e total preocupação em nossas pobres cacholas o café-com-leite e pãozinho com Qualy que ingerimos no início desta não tão bela manhã quase outonal que prenuncia um, brbrbrbr, gélido, um infernal verão.
Sou um cara problemático ático tico ico co. Que não pede perdão pela cacofonias que cria de propósito ou inadvertidamente.
Mas ter problemas não me impede de dizer o que penso.
Ou de fazer ataques pessoais.
Classificar de bobos e cafonas muitos dos blogs que vejo na rede.
Só não sugiro que os blogueiros se tratem. Pois, como é obvíssississimo, quem escreve, não importa se bem ou mal, precisa não de tratamento e sim de intensa contínua leitura e prática e prática e prática.
Hoje sou o feliz proprietário de inúmeros convites a me tratar. É assoberbante a facilidade com que fulanos mandam sicranos se tratar nos variados fóruns vicejando na internet. Se abrisse uma barraquinha digital na rede, enricava em dois meses. O que não falta é neurótico acusando outros de maníacos.
Quando me mandavam me tratar, pensava comigo mesmo e o Claudião que é frentista no posto aqui na esquina: mas me tratar de que, afinal?
Sou super-homem e super-homens, mesmo cheios de problemas, não morrem, não sofrem, não vomitam, não tiram caca do nariz. Nós super-homens levamos uma vida fictícia. Nós super-homens escritores, mais ainda. Mas veja (de novo), escrevo, ou posso escrever, sobre qualquer coisa, menos sob e sobre o efeito da criptonita. Não posso fazer dos gibis minha referência “literária”.
Outra chatice de que super-homens estão livres são os ataques pessoais. Não os aceitamos. E não os fazemos. Pois já nascemos sabendo que a vida fica mais gostosa de viver assim. E também sabemos que, em termos de importância literária, nada suplanta a honestidade das opiniões. E não há nada que me dê mais paz que digitar corretamente e preservar a boa ortografia.
Certa errada gente diz – e pensa – não o ser. Digo, não ser problemática.
Você acha que tem cabimento uma coisa dessas?
E pior: ainda se acham normais! (Essa também merece um pontão de exclamaçãozão ão ão.)
Nós super-homens somos super-homens exatamente porque o somos. Problemáticos, esquisitos, maníacos, facilidade para cair em depressão e/ou estados psicóticos. Vivemos enfiados nos mais aprazíveis culs-de-sac que deus já inventou. Se bobear, entramos no mais puro e absoluto estado catatônico e não há segundo movimento da Sonata ao luar do Ludwig que nos tire dele. (Dio, dio, dio, como ando enumerador ultimamente.)
Sei que você está se perguntando:
Como você sabe que é de fato super-homem?
Afinal, não voa, não tem visão de raio xis, tem uma audição hiperssensível mas tudo que escuta são os eternos achincalhes de mamãe no eterno fundo de quintal onde não cansa de reprisar sua vidinha, há anos não consegue erguer o aparelho de telefone a cada chamada recebida, até que o telefone nunca mais tocou e hoje faz parte do teu museu interditado com tua arqueologia mofada.
Resposta:
Bem, sei que sou super-homem (e veja pela terceira vez, não estou dizendo que sou o único) porque toda minha existência se limita a uma contínua tentativa de reconhecer minha própria humanidade.
Deu pra entender por que sei que sou um dos super-homens do mundo?
Preciso ser humano.
Inaugurar minha natureza.
Catalogar minhas passagens.
Catalogar minhas idas.
Catalogar  meus retornos.
Catalogar  meus triunfos.
Catalogar  meus embaraços.
A começar pela ideia de que viver é uma “provocação”. (Sei, as aspas aqui são atípicas para quem é o que sou hoje – mas ando tão atípico.)
Minha essência é provocativa.
Preciso ser um provocador.
A provocação é minha natureza.
Não posso me conformar em provocar apenas literariamente.
A controvérsia é meu sangue.
Me recuso a ser resumido por uma lista de supermercado.
Listas são, ora, listas.
Preciso que cada azulejo na calçada que piso e repiso dia a dia dia após dia após dia após dia após dia após dia após dia após dia após dia após dia após dia após dia após dia após dia após dia após dia após dia após dia após dia após dia após dia após dia após dia após dia após dia após dia após dia após dia após dia após dia após dia após dia após dia após dia após dia após dia após dia após dia após dia após dia após dia após dia após dia após dia após dia após dia após dia após dia após dia após dia após dia após dia após dia após dia após dia após dia após dia após dia após dia após dia após dia suscite em mim um poder de evocação.
Tenho pavor de catálogos telefônicos, resultados de vestibular, listas brancas, listas negras, listas dos livros que o Zé, o Evandro, a Cibele e a Nancy  levariam para suas ilhas desertas.
Tenho uma lista de meus poetas preferidos.
Ah, que lista mais infindável, essa.
Venderia de bom grado minh’alma a Mefistófoles pelo tempo, a paciência de lê-los um a um verso a verso palavra por palavra até o último ponto final.
Vou escolher um poeta em minha lista. Aleatoriamente.
Ana Cristina César.
Tenho algumas dezenas de poemas de César em meu disco rígido.
Quero mais.
Preciso de mais. Mais. Mais. Mais. Mais. Mais. Mais. Mais. Mais. Mais. Mais. Mais. Mais. Mais. Mais. Mais. Mais. Mais. Mais. Mais. Mais. Mais. Mais. Mais. Mais. Mais. Mais. Mais. Mais. Mais. Mais. Mais. Mais. Mais. Mais. Mais. Mais. Mais. Mais. Mais. Mais. Mais. Mais. Mais. Mais. Mais. Mais. Mais. Mais. Mais. Mais. Mais. Mais. Mais. Mais. Mais. Mais. Mais. Mais. Mais. Mais. Mais. Mais. Mais. Mais. Mais. Mais. Mais. Mais. Mais. Mais.
Então dou uma razzia pela rede.
Não acho nenhum que não tivesse lido.
Mas trombo com um blog que fala da “magia da poesia”.
Sacou?
Não?
Vou ter de explicar?
No problem.
O blogueiro quer que vejamos algo extra-humano numa poeta que lutava segundo a segundo à procura duma raiz da qual pudesse brotar da mais absolutamente pura humanidade, entende tende ende de?
Não tenho a pretensão de falar por Ana Cristina César, poeta que é poeta diz em seus próprios versos tudo que veio ao mundo dizer, mas se há algo que a poesia dela não tem é... magia! Não essa “magia” cafona que os fãs consumistas de poesia mágica pretendem enxergar em qualquer texto que se apresente no formato de versos.
Está tudo errado.
A poesia de César é uma batalha ferocíssima por encontrar o humano detrás dos espantalhos e das fachadas que o mundo (?) nos ensina a enxergar, fazendo de nós cultuadores delirantes.
De quebra, nenhum poeta digno do nome escreve para nos elevar a um plano mágico e assim nos roubar o que temos de mais doloroso e complexo – nossa dimensão humana. E tudo que nossa dimensão humana representa, simboliza, significa e encoxa nas pernas roliças da Adália, a mina que trabalha no caixa da bombonière aqui na esquina do outro lado da praça contra o muro de tijolos descascados atrás da casa da minha suave vizinha Suzana.
E após o título “A Magia da Poesia”, assim, com as iniciais em maiúsculas num arremedo da cultura documentística americana, seguem-se centenas de comentários de leitores aspargindo louvores de todos os odores imagináveis ao blog. O blogueiro, naturalmente, expert que é no ofício do dente por dente olho por olho, não perde a oportunidade de agradecer penhorado os elogios, um a um, mais preocupado em praticar public relations (qualé mermão? sou poeta mas não sou trouxa) que em fechar os olhos e contar até mil antes de se aventurar em mais uma fraude poética de cada dia.
A grande maioria dos blogs “literários” está recheada de puerilidades ilegíveis. Há uns anos tinha a pachorra de os visitar, mesmo sabedor de antemão que raríssimos se salvavam. É demasiado dura minha opinião? Sim, não é. Neste país de povo eternamente infantilizado é proibido dizer o que se pensa. A franqueza ofende os pruridos dos pretensos literatos alienados em seus mundinhos de crianças desafetas dos desafios do mundo real.
A “literatura” na vitrine de grande parte dos blogs “literários” em geral é um repositório de confissões sentimentais que expõem a falta de intimidade do blogueiro(a) com a experiência poética.
A experiência poética é sublime (mas não mágica). Se for do tipo religioso, você pode até dizer que é divina. Extraordinária (mas não mágica). Magnífica (mas não mágica). Deslumbrante (mas não mágica). E fabulosa. E colossal. E chocante. E terrível. E medonha. E poética. E mágica (mas não a magia que descortina diante dos nossos olhos uma aurora resplandecente de cujo centro brotam raios ultravioletas que nos queimam a retina).
No mais das vezes esses blogs se limitam a depoimentos absolutamente pessoais, e constrangedores, que parecem servir a um propósito escapista de quem não distingue entre literatura e onanismo emocional, confundindo o fazer poético com o rendez-vous obsceno, e doentiamente frustrante, da fuzarca facebookiana. Os verdadeiros poetas não estão nas redes sociais, creiam. A verdadeira poesia requer um tiquinho mais de legitimidade e discernimento e coragem de desemperrar esse olhar que sabe-se lá há quantas décadas ficou travado num quadro retratando uma aurora tropical e hoje se recusa a se voltar para dentro sem enviar aos nossos intestinos um sinal para que borremos as calças. Coragem de morder o nervo.
Coragem.
Quem acha que antes de qualquer outra coisa nossa obrigação é exercer a urbanidade e distribuir simpatia e, se for incapaz (quem, eu?),  se angustiar com a impressão que seus maus bofes podem causar em sua imagem “pública”, que procure a primeira-dama do estado. Ou alguém de sua laia. Gente assim não falta no mundo. Ao contrário de poetas de verdade.
Os blogueiros boas-praças podiam ao menos deixar a poesia para os poetas.
Ou seja.
Pararem de chamar de poesia o que está a trocentos mil anos-luz da poética.
Você acha que a poesia é sagrada?
Não, evidentemente.
Para o poeta.
Mas que raios?
Mas que merda?
Há críticos de poesia que dizem que a poesia nada tem de sagrada.
Uma das diferenças da poesia com o mundo lá fora é que não existe sindicato de poetas.
Sim, eu sei, já tentaram.
Na URSS.
Em Itabira.
Pasárgada.
Mas, jesus, não dá.
Um poeta que testemunhe o atropelamento de outro poeta na esquina aqui de casa que dobra a segunda à esquerda na praça, esqueça, não vai sair correndo para acudir o companheiro de profissão. Quando muito – e se é que será capaz de notar o acidente –, fará um poemazinho mixuruca para celebrar a ocasião.
Pois, bidu – para o poeta tudo na vida é uma ocasião.
Menos as festanças e os desfiles e as cerimônias que os prosaicos vivem criando para comemorar suas sem-gracices.
Poetas têm alergia de ocasiões.
O resto, você pode deduzir.

Blogando 0052


Sou um poeta
que mente 
que sente 
e contente
desmente 
que consente
e pressente
quando vai

engasgar


Sou um 
poeta que
tinge
cinge
infringe
e finge 
que o orgasmo
atinge só
pra forjar
uma rima

Mais informações na minha certidão de nascimento

Blogando 3294

Hoje acordei feliz... sonhei que meu carro tinha 16 válvulas.

Sábado's end

You know, durante anos fui apaixonado pela lâmpada queimada que já não iluminava tua cozinha.

Sábado à noite, finalmente

E os anjos se mataram antes de virarem diabos.

Sábado ainda vai me meter numa encrenca federal


É noite de sábado e só me resta falar do meu eterno bode expiatório – o sr. Verissimo. Não se preocupem, vou pegar leve, Verissimo acabou de sair duma enorme barafunda pessoal e merece arrego. Mas não posso deixar de afirmar alto, bom som que Verissimo é a primeira-dama da literatura nacional. Com a relevância que toda primeira-dama tem. (Sai pra lá, Tolstoi. Agora taux ocupado.)
Há mais de uma década que Verissimo virou um angu malcozido lentamente esquecido no banho-maria já frio no fogão. E eu que tenho culpa?
Sempre que vejo a cara bonachona, pachorrenta, satisfeita, ligeirissimamente irônica na coluna do Caderno 2 do Estadão ao lado daquelas suas ilustrações de cunho próprio que parecem sugerir que há uma genialidade oculta sob o preprimarismo do traço, me pergunto por que raios um cara inteligente e talentoso desses não se aposenta, não, não  para aproveitar a velhice depois de toda uma vida dedicada à literatura, mas sim para deixar de sustentar a classe média à base de ração pseudoliterária.
Sempre que alguém menciona Verissimo me dá uma gana danada de abrir um talho num pulso com a gilete que herdei de papai, de encher uma canequinha de sangue, de mergulhar nela um pincel e pichar num muro no centro da cidade sei lá o que quero pichar onde quer que seja.
Well, 23:27 horas deste esplendoroso (ai que adjetivos me doem)  sábado e eu aqui ainda achando que não disse tudo que queria dizer.
Você já?
Já disse?
(Acabei de descer a avenida sob a luz do crepúsculo que se fez de outonal neste verão legitimamente meu, depois te conto.)
Believe me, não acredito.
Sim, sou eu aqui nesta noite de sábado persistindo em fazer poesia online. Haverá algo mais impossível? Não, não haverá.
Algum gênio cibernético podia inventar um escalabuláfio e dizimar instantaneamente todos os internautas do mundo e vou sorrindo descontente.
Olho e quero ficar cego. Penso e não acredito.
Pergunta: que raios de solidão é esta (esta)?
Seremos capazes de superá-la como até hoje vimos superando aquela outra, a antiga, a dos seres abençoados com a solidão humana, natural, digerível dos que nasceram num planeta que um dia foi previsível?
Okay, alguém que me leia fará chacota deste meu lamento e continuarei sorrindo por mais uns minutos.
Eis tudo que imbecis cibernéticos podem fazer, nesta geração de digitais umbilicais que não imaginam quem foi Keats.
Fôdanse os imbecis.

Sábado, quem diria que é o dia mais esquisito da semana?


Sábado à noite mais uma vez e eis-me aqui desanimado(o), cansado(o), entediado(o) e de saco(a)-cheio(o) no meu covil por conta desta soniferíssima experiência digital em que nada de interessante acontece. Devia estar lendo, claro. Digo, lendo em papel, a única leitura digna do nome. Mas me viciei em perambular pela rede ciscando vermezinhos, fiapos de pele, pedras falsas, restos autênticos. Ando pensando em escrever algo como Como levar perigosamente sua vida digital. Mas é sábado à noite e já corri todos os riscos digitais que podia correr em minha insossa existência, inclusive a digital. Foram anos de estripulias e pude concluir que riscos que tais não valem a pena. Conheci muitas pessoas que no fim se reveleram apenas espantalhos reais travestidos de bonecos virtuais que fizeram aumentar perigosamente meu sentimento de solidão. E comprovaram, a mim, que não há vida digital minimamente gratificante  possível. A menos que você seja daquele tipo que todos conhecemos — aquele que já nasce de casca grossa e uma moldura onde resplandece um baita sorriso com todos os dentes já pespegada na cara. Mais ou menos como os habitantes de Los Angeles. Sábado à noite não é tempo de agito por aqui? Que falta fazem aqueles bailinhos na casa do ...aldo.

Sábado doido pra arrebentar


Não quero saber a hora, não quero que me respondam, não quero querer.
Sou um cara que evita falar qualquer coisa só pra marcar ponto, entende, Aristobaldo da Fonseca Guimarães, vulgo pernudinho?
(Olhe, digo isso com candura e sinceridade; na minha vida já arrumei tanta encrenca com minha franqueza, que não sei se o problema está na inépcia das minhas palavras ou naqueles que não me entendem. Tudo que desconfio é que a nova versão 3.42 da raça humana, essa gente que vive online trocando figurinhas e se entretendo com joguinhos, está perdendo a capacidade de intelecção.)
É noite de sábado, mais um vez, e não estou com disposição de falar dos meus velhos trastes psicomentais. Minha língua emperrou de novo e meus dedos, tenho de fazer um esforço fantástico para mexê-los. Se estivesse um tiquinho mais animado, falaria de assuntos nobres como poesia, papéis literários, a renúncia a viver para escrever. Este último tema é absolutamente "sensível" para mim e me deixa perturbado. O problema é que na maioria das vezes (?) só me permito me perturbar pelas minhas próprias perplexidades.
Pessimismo é outro "princípio" que me deixa confuso. Me acho meio pessimista (os que convivem comigo me acham totalmente pessimista), mas em geral não sei separar em mim esse pessimismo que a maioria acha ruim e equívoco e que para mim é um dos estados mais naturais da espécie, e esta minha imperiosa necessidade de ser realista me faz olhar o mundo e as coisas e as pessoas e as borboletas do que jeito que provavelmente são e não do jeito que os que estão no mundo querem que eu os veja.

Sábado, um instante qualquer entre as 11:38 e as 22:41


Para o poeta
as palavras são a terra > a semente >> o adubo >>> a colheita >>> a massa
a fome

Ai que cibernética solidão

Sábado entre várias brochantes blogadas


procura-se 
poesia
sonsa, leda,
besta, fria
mesma

agora, ontem,
amanhã, 
a mesma
noite

que me 
delete
do coração
todos
os momentos

dos meus olhos,
todas as fotos
todos os rostos
do meu rosto
que é o mesmo
de todos

da memória
o mesmo riso
da mesma boca
que um dia
me prometeu
alegria