Enquanto me embalo

Não consegui dormir — tinha uma onomatopéia debaixo do meu travesseiro.

Enquanto me esqueço


Ser Deus deve ser meio chato, não acha?
Capaz de tudo, sem limite pra nada, só estalar os dedos e tá na mão.
Mas o pior deve ser a solidão do Cara.
Já pensou?
Sem mulher, sem amigos, ninguém pra dividir as tristezas, as preocupações...
Acho que preferia ser o diabo.


Blogando algo, okay, confesso

Numa tarde saí c'um amigo pra beber, quando olhei vi que era o Leminski.

Lem e eu não nos perguntávamos. Deixávamos perguntas para a poesia. E que.

Descemos a avenida, olhei de lado e vi Lem fazendo um poema com o nome dela.

Não quero fazer poema nenhum da minha parte, respondi telepaticamente.

Fomos prosseguindo sem parar nas esquinas e a avenida era infindável como as avenidas aquelas.

Me ocorreu querer saber que música pipocava na cabeça dele, não é a mesma respondeu c'um trejeito do pé esquerdo, o dedão da mão direita enganchado no cinturão tipo caubói dos tempos da jovem guarda.

Tenho de colocar na mesa que estou escutando Bridge over troubled waters e ele, com o olhar de raposa aflita, não me pede confirmação para o que sente.

Finalmente entramos no buteco, eu de frente pra rua, ele de costas, peço uma brama, bem gelada ele emenda como nunca emendou porra nenhuma nem nesta nem em nenhuma outra vida que nunca vivemos em  nenhum outro canto em nenhum outro cometa desta imensa merda de universo.

They asked me how I knew my true love was true. Esse bolinho de bacalhau tá quente?

A úlcera tá me matando, preciso comer uma tranqueira pelo menos a cada três horas.

Lem morreu na minha frente, o dono do buteco queria chamar um'ambulância, não deixei. 

O gole da brama dura eternamente nos meus lábios, coço uma coceirinha na nuca, é tão cedo ainda, que é que vou fazer das quinze horas que me restam pela frente?

Enquanto viajo



Escutando I am the walrus. Não escuto há uns... ãn... doze anos? Notou a interrogação? Sou eu falando igualzinho os ianques em seus filminhos do reino encantado. Os ianques do reino encantado onde hambúrgueres com coca-cola nascem na beira da calçada e crescem ao pé das árvores falam assim afirmando perguntando. Cada língua tem suas peculiaridades, a deles é essa, uma das. Sempre tão assertivos, não pronunciam assertivamente. Outro dia revi aquele... peraí, vou lembrar... o título original é Carnage... ah, Deus da carnificina, com Kate Winslet, Christoph Waltz, Jodie Foster e John C. Reilly. Todos eles nos acostumaram a vê-los em thrillers e bang-bangs. Dirigidos por um dos maiores diretores vivos, o tal Polanski. Winslet me decepcionou, pensei que fosse bem mais capaz, não chegou nem na metade. Foster, o previsível, barulhenta, ranheta, histérica, certo, características exigidas pelo personagem, mas deu pra ver que era ela atrás da pose, uma no meio das dezenas de milhares de atores chinfrins saídos da tela. Reilly também decepcionante, só funciona em thrillers que não requerem profundidade dramática ou será mesmo todo aquele pateta mostrado por P.? Deixei Waltz por último, claro, por ser o melhor.  Apesar de falar inglês bem pacas, Waltz se denuncia na sonoridade. Não fala perguntando como os nativos. O alemão por trás dos enunciados é claramente perceptível. Ninguém é capaz de falar outro idioma que não seja o seu como um nativo. Escrever, há os que escrevem até melhor, qual Nabokov e Conrad. Apesar dos pesares, os europeus ainda logram um poder magnético que não vejo em nenhum ator americano. Hollywood tem seu preço. A glamurização idem. E a bastardização. E as montanhas de grana. Há cacoetes de que os caras não se livram numa boa. Há muito tempo cheguei a ver algo substancial em... como chama mesmo...? ...aquela loirona nariguda... considerada a maior atriz do pedaço... Ah, Meryl Strip, cheguei a ver algo em Meryl. Quer dizer, I mean, você fica viciado em alguma coisa e acaba se envergando. Assisto uma cacetada de thrillers mas nada que me desvirtue meu poderosíssimo poder crítico. Eis a essência da alma americana. Cinema é entretenimento, period, não venham com frescuras. Para quem quer frescuras, eles têm a melhor poesia contemporânea. Os americanófobos nem imaginam, claro. Ninguém supera a literatura dos caras. E não é de hoje. Vêm prevalecendo há pelo menos seis décadas. Sim, tem a ver com a democracia, a liberdade, o hambúrguer com fritas ao alcance da mão, a geleia geral, o cinema como sublimação do cotidiano. Entrementes, nosso cineminha macunaímico vai de Globo e seu Jabor, sempre tão emperiquitado em suas crônicas, faz boca de siri. Eis uma das razões do nosso eterno pequenismo. Os ianques não têm vacas sagradas. Tudo é criticável. Não há tabus que não estejam sujeitos a uma boa sessão de esculacho, sem que a plateia desmaie escandalizada como sói ocorrer na mãe gentil. É tudo questão de mercado. Os há para todos os gostos. Na vitrine você pode encontrar desde T.S. Eliot até Oprah Winfrey. E sempre os recordistas em todas as searas, de um dos maiores poetas-críticos do século 20 à negra mais nababescamente triliardária da história. Na área que me interessa, eles têm mil bons poetas para cada chinfrim nosso. Nos romances, dá até vergonha contar. Na ciência, finjamos que não estamos aqui. Oui madame, tudo fruto da liberdade sem fim, da liberdade sem limites nem qualificativos. O americanozinho médio aprende cedinho a ser homem/mulher responsável pelas próprias opiniões e pelos próprios atos. Não olha em volta à procura dum bode expiatório quando depara cum dedo acusador na fuça. A energia de vida que brota desse preceito é, sem exagero, fenomenal. Não há nada que seja mais revolucionário. O indivíduo se encarrega da faxina. Aprende cedo a aplicar um olhar saneador sobre a realidade. Se eu não fizer, ninguém fará. Se eu não cuidar de mim, ninguém cuidará. Não há política assistencialista dos obamas da vida que substitua o empuxo oxigenante que nasce dessa postura vital. Bolsas-esmola até que podem ser necessárias por uns tempos, mas. Salvante a propaganda ufanista dos desgovernos lulopetistas que se proclamam salvacionistas, escuto aqui e ali comentários à boca pequena sobre como essas bolsas e esses vale isso e vale aquilo estão solapando a já débil força de vontade do nosso povão varonil. Dizem que as meninas passaram a parir mais depressa para entrar no bolsa-família e os marmanjos a beber mais cachaça, abastecidos pela nova fonte de renda. Mas esse papo é de somenos frente ao descarrego da liberdade. Queria ver Chico Buarque vivendo em Cuba se sujeitando às mesmas normas políticas que o cubano comum, proibido de dizer o que pensa sobre o que quer que seja onde quer que seja quando quer que seja, obrigado dia após dia a engolir as bobagens pueris estampadas no Granma, amputado dos acontecimentos do mundo, castrado de sua expressão artística. Não duraria uma semana, naturalmente. Escutando I am the walrus. Não escuto há uns... ãn... doze anos? Notou a interrogação? Sou eu falando igualzinho os ianques em seus filminhos do reino encantado. I am he as you are he as you are me and we are all together… See how they fly… I'm crying. Quando escutei a primeira vez quase levantei do sofá pensando, porra, o cara tá falando de mim! I'm crying! I'm crying porque eu sou ele e você é ele e você é eu e nós somos tudo junto, hoje entendo, na época escrevi nós somos todos juntos, bruta diferença, hoje entendo, o ele e o você que sou não é ele ou o você e sim os eus que todos somos, jesus! e imaginar que se passaram décadas com o mundo todo tentando me convencer de que deveria ser de outra forma e eu seria inviável se não fosse e inviável sou e inviável a ser continuarei, a seu dispor, madame, ah as delícias da infinita liberdade de ser o que sempre quis ser e dizer o que sempre quis dizer, não, não é fácil como soa, você sabe, o bom da liberdade é que não  há fórmulas, não se aprende na escola nem em seminários, só se é sendo, jesus, depois dessa só me resta continuar escutando sou a baleia enquanto sorvo minha própria vida no golinhos do meu uisquinho que nem balla mais é e I don't care.


Enquanto me perco

Pode ficar com o carro, pode ficar com a casa.

Pode ficar com os móveis, o computador, o som e o disco do Pixinguinha.

Só me deixe um pedaço do céu, o vento e uma esquina que eu possa dobrar no fim da rua.


0528 e blogando

A primeira vez que descobri que as teclas do piano são ligadas pela água foi ao escutar o segundo movimento da Sonata ao luar.

Era ora benta, era ora pinga, era ora sangue.

Aquela primeira vez não teve dia, não teve data.

Por isso (me deixa ser claro só esta vez, jesus), agora, sempre que escuto a teclas dum piano, não tenho mais hora e passo a ser um homem sem tempo.

Igualzinho a Proust, mas sem a necessidade de escrever ou reler a Busca.

Não quero buscar nada, apenas encontrar.

Enquanto rego o jardim

O major Albernaz me agarra pelos cabelos pela milésima vez e exige:

— Diga! Que é que você faria se fosse o super-homem?

— Já disse, major. Mas vou lhe dizer uma outra vez. Se fosse o super-homem, eu combateria os criminosos. Se fosse o super-homem, eu deteria locomotivas desgovernadas. Se fosse o super-homem, salvaria navios do naufrágio. Impediria acidentes automobilísticos. Devolveria crianças perdidas na praia ou em parques de diversão para suas mães.

— Quer dizer que, se fosse super-homem, não tentaria concretizar nenhum dos seus desejos secretos, por mais inócuo que fosse?

— Não, major! Nunca! Juro pela minha mãe. Juro pelo que o senhor quiser. Nunca! Nenhum!

Blogando 0100

Pausa, você já mordeu o nó do dedo indicador, o nó superior que fica entre o dedo e o punho, ao mesmo tempo baixando os olhos por causa da lei da gravidade — Ó VIRGEM SANTA MÃE !!! — os ouvidos atordoados com aquele marulhar típico da vontade de estar em todos os lugares, o interior da cabeça rumorejando como se teu cérebro tivesse caído no mar, assim, simplesmente de emoção, uma emoção que não quer conhecer o controle, o freio do pensamento...?

No big new deal

Tudo se resume a viver trancafiado nesta jaula, mesmo escutando Bach, olhos sempre grudados nos olhos da pantera.

No big deal

Quer apostar quanto que, se te der a chave do grilhão, você vai atirá-la pela janela?

Blogando 0078 - o retorno


Existe um lugar onde estarei bem, por incrível que possa parecer.
É um lugar em que estarei bem... se estiver fazendo o que gosto de fazer.
É um lugar em que estarei bem se estiver escrevendo.
Se estiver escrevendo como gosto de escrever.
E como gosto de escrever, afinal?
Gosto de escrever num transe.
Gosto de escrever assim, em catarse, palavras diretamente conectadas às emoções, passando o mais longe que eu conseguir do filtro racionalizante. Qual o transe de Pessoa escrevendo “O guardador de rebanhos”. Um estado mediúnico em que as palavras brotam de dentro de você mas não são suas e quando as lê é como se fossem de outro, atípicas no seu vocabulário, estranhas na sua boca.
E percebe que você é mais você quando é outro.
Gosto de escrever do jeito que gosto.
E qual é o jeito que gosto, afinal?
É escrever do jeito que gosto.
Sem obediência às regras da gramática. Sem obediência às regras da lógica. Sem obediência aos meus próprios critérios.
Repetindo exaustivamente palavras e períodos.
Assombrando o fantasma da professora Ivone que tantos anos tentou socar dentro de mim um decálogo de normas do estilo grande demais para esta minha cabeça aversa a tudo que me é estranho.
Professora Ivone, assim é que eu gosto.
Não, não pare a aula, não feche a escola, não convoque o diretor, o secretário da Educação.
Não, não quero trocar de lugar. Continuemos assim: eu, sempre aprendiz, a senhora, eterna sabichona.
Assim é que gosto.
Assim é que sei.
Assim é que preciso.
Eis meus três verbos preferidos.
Preferidos, não. Básicos.
Que na época da professora Ivone não sabia conjugar.
Ah, que rebelião esta, que nunca termina.
Tudo por causa de três verbinhos vagabundos. Básicos.
Cujos significados já devia saber antes de ir para a escola.
Já devia saber aos três aninhos.
Será que a molecadinha de hoje em dia os sabe?
Eles são tão espertos. É o que todos dizem.
Atento para eles na rua sempre que posso.
Sei que levam dentro deles uma resposta que talvez seja a minha.
Sim. Concordo.
São terrivelmente espertos. Vivazes. Falantes. Têm aqueles olhares inquiridores  diabólicos. Me olham como se eu tivesse acabado de descer duma nave espacial. Quero retribuir o olhar mas tenho medo. Pois já sabem os significados dos meus verbos básicos que até hoje não aprendi.
Que não haverei de aprender.
Qual uma goiaba madura que se estatela no chão para apodrecer ao pé da árvore, passei da época.
Não!
Ainda não sucumbi!
Ainda não me entreguei.
Qual a goiaba, estou carregado de sementes. Trago em mim a sina da reprodução como todos os seres que brotaram neste planeta. Muitas haverão de completar o ciclo, germinar, cair em seus respectivos transes.
Assim é que gosto e amanhã levarei a todos até o pasto das hienas.

Blogando 0078

Como se um godzilla tivesse pisado sobre a casa e a esmagado por inteiro
como se o maior dos furacões tivesse varrido a cidade para o alto mar
como se o planeta tivesse caído num inconcebível liquidificador
e eu num canto, só olhando, a escutar Smoke gets in your eyes
entende...


... doutora?