Eu podia ser da Vinci

De braços erguidos.
Me entrego.
Faz de mim o que nunca quis que fizessem de mim.
Me maltrata. Me machuca. Me fura.
Esquece teus escrúpulos.
Teus escrúpulos são bobos. 
Podem sair pela culatra.
Poetas não estão entre as categorias mais confiáveis, segundo as pesquisas de opinião.
Fosse bombeiro ou marceneiro, até mesmo bancário...
LADRÃO!
E se fosse ladrão?
Assaltante com cara de bafo-de-onça, daqueles que não deixam dúvida de que estão dispostos a tudo...
E tacam na lata: A vida ou a bolsa!
Como poeta, sou pior.
Posso roubar tua alma.
Pior!
Posso me apoderar da tua paz de espírito!
Não diz que não a tem! Não acreditaria.
Não sob as bençãos dos deuses egípcios...
Não sob a perspectiva dum meio sorriso...
...ou essa parcimônia emotiva carregada do comedimento duma foto preto e branco em que a guardiã nutre o pudor de exibir a exuberância da própria beleza...
Estou de braços erguidos. Me entrego. Faz de mim o que sempre sonhaste em fazer do piadista que sou.
Tão ingenuamente tentado a te amedrontar com meus pífios poderes de sub-herói.
Quando a vítima aqui sou eu.

Durante um instante

Não gosto da palavra bizarro. Fico meio enojado de quem usa a palavra bizarro.

Em francês e em inglês, bizarro significa simplesmente "estranho".

Em português, "bizarro".

Todo dia vejo por aí um monte de gente usando a palavra bizarro com a maior facilidade.

De pronto me digo: poucas coisas merecem ser chamadas de bizarras.

(Cá pra nós: NADA merece ser chamado de bizarro.)

Pois nada no meu mundo é bizarro.

E se Aristótoles estava certo e se sou humano e se nada no meu mundo é bizarro, podemos concluir que nada para os humanos é bizarro.

Mas admitamos que haja alguma coisa bizarra ou algumas coisas bizarras neste nosso mundo.

Se houver, são raras, certo?

Na verdade, rariíííííssimas.

O que me enoja quando vejo essa palavra abusada a torto e direito é perceber instantaneamente que quem a usa tá é a fim de chocar.

Muita gente por aí se acha capaz de chocar.

Muita gente por aí não quer outra coisa senão chocar.

Então chegam logo botando um "bizarro" num texto e se dão por satisfeitas.

Então fico chocado.

Com tamanha ingenuidade.

Nesta era de abundância infernal de palavras...

Nesta era de abundância infernal de palavras ocas...

Elas, palavras ocas, são... ocas.

Imagine uma palavra oca.

Imaginou?

99,99 por cento, ocas.

Há por aí quem nunca se tenha dado conta dessa terrível realidade.

O que, para mim, é simplesmente bizarro.

Corrigindo Sartre, o inferno são as palavras.

Jesus, é muito palavrório.

Muito palavreado.

Falatório demais.

A era da informação total e absoluta logrou seu intento: acabar com a palavra, dizimar o significado.

Nos meteram numa câmara de tortura recheada de letrinhas.

Letrinhas de todas as cores, letrinhas de todos os tamanhos, letrinhas de todas as fontes.

Todas elas, cada uma delas insossa.

Insípida.

Inodora.

Bizarramente antibizarra.

Enquanto nada acontece

É impressionante que tenham inventado o cinema mudo antes do cinema cego.

Enquanto me entrevisto


— Se estivesse no corredor da morte, qual seria sua última refeição?

— Teus olhos.

Enquanto recapitulo

Jesus amado,

ser outro que não quem se aparente é sempre um consolo para quem não está realmente certo do que é

Enquanto (me) releio

Infelizmente sou apenas o que digo a mim mesmo que sou.

Enquanto blogueio


Não nasci para ser todo olhos 
Não nasci para ser todo ouvidos
Muito menos para a sedução fácil 
Dos joguetes de palavras
Dos joguetes do destino

Enquanto me ergo

Tudo que tenho de certo são minhas incertezas.

Enquanto

Recoberto de band-aids
Amparado por muletas
Agregado por reparos
Desmembrado e rejuntado
Desprovido de espelho
O velho espantalho só
Espanta a si mesmo

Enquanto me volto


Estou lendo uma biografia sobre Chopin e os dezoito anos que viveu em Paris.
Fico sabendo que Frederico era tido pelos sofisticadérrimos parisienses como a personificação do charme. A elegância em pessoa. Um oportunista. Um esnobe. Um sujeito inescrupuloso que usava as pessoas para seus propósitos pessoais. E Chopin mudava de humor sem mais nem menos, subindo pelas paredes sem dar aos que estavam em volta qualquer indício sobre a mudança repentina. E tinha o pavio perigosamente curto. E sua arrogância e seu egoísmo pareciam não conhecer limites.
Wilhelm von Lenz, um dos mais talentosos pupilos do pianista e compositor polaco, dizia que ele se portava qual um “soberano”. O compositor Berlioz escreveu que “Chopin sempre fica alheio. Uma vez por ano desce das nuvens para permitir que o escutem nos salões da Casa de Pleyel. O resto do ano, salvo se for um príncipe, ministro ou embaixador, não se pode sequer sonhar com a alegria de escutá-lo”.
Chopin quase não dava concertos por detestar quer a crítica jornalística, quer qualquer outro tipo de crítica. Se dedicava compulsivamente a competir com outros pianistas e compositores e não fazia questão de dissimular a inveja que nutria de Liszt, seu fã. Quanto a Berlioz, que sequer era pianista mas era crítico musical, conseguia manter algo de amizade, embora considerasse sua música “estranha”. Certa vez, quando jantou com Mme. Juste Olivier em companhia de sua amada George Sanders, a senhora notou que Chopin era “um homem de inteligência e talento, charmoso... mas coração, isso ele não tem”.
Bem, se Frederico já figurava como um dos grandes no meu panteão particular, saber que socialmente era esse monstrinho de antipatia e não tinha complacência com seus puxa-sacos só me fez admirá-lo ainda mais.
Estou tão farto de gente que vive para fazer marketing pessoal e nunca se vexa de pendurar um sorrisinho bajulatório no canto da bocarra escancarada e fazer deste mundo um interminável desfile de mediocridade e insipidez.
Os homens e as mulheres de verdade parece que morreram em algum ponto do século passado.

Enquanto fecho os olhos

Toda bravura do mundo no coração
Toda paúra do mundo no estômago
Sabe quando você não quer ver
E tapar os olhos não adianta?

Feito um chaveiro internado numa casa de repouso por inviabilizar as fechaduras do bairro


Suspenso no sol o balanço
Num lado,
À areia da praia, noutro,
De impossibilidades penso
Vai,
As lendas do mundo deixando
Vem, sem o concerto das coisas,
Deixando do mundo as calmarias
Desenclinando
A chave dos alarmes.