Cuidado com os fanáticos

O problema não são os evidentes.
Desses, você mantém distância e está resolvido.
Membros de torcidas, adeptos partidários, fãs às centenas de milhares num show de rock, leões-de-chácara de grandes políticos, são, mais que manjados, casos perdidos.
Os fanáticos que requerem cuidado são os dissimulados.
Os que no dia a dia afetam feições bem-compostas.
Os pretensamente equilibrados.
Os exímios na arte de controlar as rugas da testa, a tensão dos lábios, a cintilação do olhar.
Os que aparentam sensatez.
Pior: a alardeiam aos quatro ventos.
Você pode farejar a sensatez desse tipo de fanático a quilômetros de distância.
Nenhum ser humano pode ser tão sensato assim.
Desperta desconfiança no ato.
E teu primeiro pensamento sobre o sujeito é: preciso ter cuidado com esse sensato.
O cara fala manso, num jeitinho meigo, vozinha quase intimista.
Como se te conhecesse desde a infância.
Pior: como se simplesmente te conhecesse.
Pois, além de sensato, o gajo é sabichão.
Eis o motivo dessa sensatez a transbordar pelos olhos.
A sensatez do sujeito é apenas um pretexto.
O objetivo final, ou melhor, quase final, é mostrar que se trata dum cara sábio.
O final sendo o mesmo de todos os sujeitos dessa laia: ser admirado.
Ser amado.
Para ter poder.
Poder sobre os outros.
Sobre você.
Agora a porca da tua tia Maria torceu o rabo, não foi?
Pra que é que alguém ia querer mandar em você, não é mesmo?
Pois é, sempre tive essa mesma dúvida.
Desde que ganhei consciência das coisas – que não é lá extremamente profunda, admito –, tenho ficado de olho nesse tipo de gente e me feito exatamente a mesma pergunta.
Nunca me entrou na cabeça essa necessidade que certas pessoas têm de manipular os que vivem à sua volta.
Uma época cheguei até a justificar, pensando, bem, deve ter algo a ver com o instinto de sobrevivência.
Então me tranquilizei.
Mas aí comecei a reconsiderar: mas esses caras precisam sobreviver tanto assim?
Não podem simplesmente ir levando como os outros bilhões de zés-ninguém que abarrotam o planeta?
Então, como se dizia até o mês passado, caiu a ficha.
Claro.
Claríssimo.
O poderoso tem essa compulsão a se diferenciar da malta.
Até aí, eu também.
Não tolero que me confundam, não só com a malta, mas com quem quer que seja.
E não suporto que me misturem. Não nasci pra servir de salada.
Mas isso não significa que precise mandar em alguém.
A propósito, não sei mandar.
Não gosto de mandar.
Nem gosto que mandem em mim.
Será que sou assim tão sui generis?
Uma avis rara?
Ou apenas um inepto para sobreviver?
Pode ser.
Tendo até a achar que sou, sim.
E sabe quanto isso me preocupa?
Lhufas.
Neres.
Necas.
Isto é, me preocupa no ponto em que um sensato malandro possa me passar a perna.
Passar a perna é a especialidade dessa espécie de sensato.
Como poucos, engana com seus pequenos macetes, seus truquezinhos vagabundos.
Vagabundos, sim, mas que a maioria dos cordeiros aí fora insiste em tomar por sinais de sensatez.
O fanático sensato domina como ninguém a linguagem do corpo para seus fins inconfessos.
Já na juventude aprendeu a usar a ingenuidade dos não fanáticos.
É um craque na manipulação das emoções humanas.
Um az na arte de identificar no mundo ventos que podem soprar a seu favor.
Um gênio cuja única genialidade foi sacar logo de cara que o mundo é dos espertos. O mundo é dos que não têm pudor de lançar mão de todo tipo de clichê para fascinar os incautos.

É muito difícil não ser fanático.
Fanático sensato, mais ainda.
Sensato fanático, tanto quanto.
Tem de ser mentiroso.
Pior: gostar de ser mentiroso.
Mentir não apenas por necessidade.
Mentir por prazer.
Prazer de tirar proveito.
De preferência, indevido.
Ser adepto de cultos.
Sobretudo o culto ao egoísmo.
Ao fôdasse o resto.
Fôdasse o mundo.
E o melhor de tudo:
Sempre adorável aos olhos dos tolos.

Chega de nostalgia

Tenho essa coisa com a vida difícil de definir. Tem hora, me enche desde a cabeça até a boca e olho soberbo pro mundo, nada pode me atingir, tem hora, o mundo olha pra mim questionando que raios estou fazendo aqui e a língua morre dentro da minha boca. O avanço e o refluxo do mar tarde da noite na praia, podiam me traduzir se eu tivesse alguma afinidade com a natureza. Você sabe onde vou terminar, claro. Não será por falta de aviso. A quem? O leiteiro da década de cinquenta que entregava nossos litros de leite em frascos de vidro insciente de que Doris Day e Rock Hudson explicaram a metade posterior do século, alheios aos xodós da crítica institucionalizada. Saio e vou até a esquina e essa coisa que tenho com a vida vem me acolher e me assombrar. Um dia lhe dei o nome de "individualidade", pensando que as palavras podem tudo. Papai me disse que viver requer alguma dose de sacrifício, remedando a novela da Tupi. Tentei olhar fundo nos olhos dele, vi que não podia, ele viu que não podia e deixamos pra outra ocasião que nunca chegou e tudo se abriu num horizonte de inconcebível largura e desistimos cada qual à nossa maneira e decidimos fingir que daí em diante sabemos a verdade das coisas, a verdade do mundo, qualquer verdade que a realidade sensível queira nos impingir.


Saudade do dom-dom que não tive

Os caras resolveram ir na casa do espanhol brincar de autorama e eu e o Reinaldo resolvemos zanzar um pouco pelo centro, talvez achássemos algo mais interessante pra fazer. Passamos em frente à casa da Leonor, que estava no portão olhando pra cima e pra baixo esperando que um conhecido desse as caras. Sonhei com você, exclamou quando me viu. Fiz que não era comigo e continuei em frente e o Reinaldo disse que uma mulher que dissesse aquilo pra ele agarrava na hora. Vamos na rua atrás do colégio, decidi e o Reinaldo me seguiu. Encontramos o Paraná arregaçado num banco, curvado pra frente, cabeça abaixada entre as pernas. E aí? perguntamos. Experimenta essa, ele abriu a palma da mão e mostrou um frasquinho com comprimidos. O Reinaldo esticou o braço para pegar, fiz que não. Olhei pro cara que estava mais próximo e perguntei, qualé? e ele disse, hoje à noite vai rolar lá no salão da CASCS, fiz que sim, vamo nessa, falei pro Reinaldo. Rumamos pra galeria, entramos na loja de disco, tava tocando Credence, fica aí que já venho, disse pro Reinaldo e me mandei, subindo a MC, entrei no Capri, o Roberto taí? O garçom fez que não, perguntei se me dava uma vodka, ele não respondeu, foi no outro balcão e voltou cum copo cheio que engoli dum só gole e saí na calçada e me encostei na parede e fiquei olhando o trânsito. O Heitor, irmão do Roberto, chegou, apertou minha mão, perguntou se queria tomar um negócio, quero, disse, fomos pro balcão e o garçom serviu duas vodkas pra nós dois, que engoli dum só gole e o Heitor, vendo minha sede, mandou repetir a dose algumas vezes e o Roberto chegou e repetimos o congraçamento e eu disse, tô ficando bêbado, acho melhor ir pra casa e fui e deitei e dormi e quando acordei estava com cinquenta e lá vai cacetada.

Diga, que mais posso dizer?

Vou vendo todo mundo em volta tirando seus sentimentos mais nobres da última gaveta do guarda-roupas
Sob o carnaval fora de época promovido pelas fuzarcas desvairadas dos Casebres Piauí, Muquifos Goiás,
Envergam seus mais distintos e embolorados estados de alma e,
Sob a mais falsa das nevascas de flocos de neve fake,
Desejam de todo coração que eu seja um homem feliz nesta noite feliz
Desejo a todos
Jesus
Salve o espírito naftalino

(aposto que o verdadeiro poeta Fabricio Carpinejar desejará a todos sinceras condolências)


Leão

Vem cá
Diz a verdade
Onde é que a torca borce o barro bem lá no fundinho?
Tudo bem, faz de conta que é um jogo infantil, temos de ser honestos um com o outro.
Te digo tudo que sou
Te digo tudo que sinto
Só que, veja, faço isso desde que nasci
Tudo bem, você não se tocou
Até hoje acha que faço farol
(Estou vacinado.)
Hoje chegou tua vez.
Vamos lá.
Não é tão difícil quanto parece.
Vou te dar umas dicas.
No começo parece o fim. Mas depois vai ver que não dói.
Melhor. Infinitamente.
A dor se substitui pela euforia num jato.
Schhhhhp.
Não tenha medo.
O mundo novo não é o inferno.
E não é o céu.
Você apenas não o conhece.
E sabe o que é o melhor de tudo nesse mundo que não conheço que conheço desde que nasci?
É que não foi feito para conhecer.
Ou desconhecer.
Não o desbravamos.
Não o exploramos.
O habitamos quando nosso desejo
(ou sonho?)
Coincide com o dele
Ou descoincide
O dele com o seu
E um raio explode na tua cabeça
Que não é tão difícil quanto parece
Desfranze a testa
Desintensifica os lábios
Veja, não há mais pontuação
Lembra aquela vez quando num delírio imaginou que o mundo podia ser amistoso e as coisas do mundo podiam ser as tuas coisas?
Peraí, não precisa mudar de nome.
Não precisa fazer plástica.
Está tudo certo, e sempre estará.
Apesar de que o mundo diz
O mundo é o teu lugar.






Um aí no terremoto

Minhas mãos não são minhas
Se te agarram, não sou eu
Meus olhos não são meus
Se te olham, espiam
É minha a maciez da Terra Nova da tua barriga contra a minha enquanto giramos noite adentro sem rodopiar.
É meu o perfume do teu cabelo a penetrar meu nariz enquanto sonho que quem te abraça é uma sombra.
Por uma fração de segundo franzo a testa.
É minha esta canção dos Beatles. 
Por ela, nasci.
Cresci.
Te encontrei.
Morri.


Poema fugitivo

Este mundo louco é dominado pelos loucos e você se espanta que insensatos sejam donos da razão e previdentes, mestres da emoção?
Não há maior liberdade que poder andar até a esquina.
Dar repentinamente meia-volta ciente de que os olhares da CIA me acompanham.
Que pretende esse sujeito mudando assim?
Minha liberdade pôde medrar por décadas dentro de mim
Feito o cancro na pétala de rosa sem que nada nem ninguém a obrigasse a observar regras.
Hoje me sinto com direito a me proclamar enfim
Um indivíduo.
Quando já não posso mais ser único.
Aos quinze, podia ter feito a tatuagem duma buceta no antebraço e o símbolo da vitória de Churchill na testa e assim pedido definitiva benção aos senhores do mundo.


Homenagem à maçã que não caiu na minha cabeça

A palavra lavra cravra
Meu chegado Mario Chamie
Me tem seu escravo cravo eslavo
Depois de todas odes longas
Excretadas dos meus dedos
Meses vezes vezes meses
Venho sonhando acordado delirando no sonho com a alforria
Mas a palavra lavra lavra
Misericordioso
Escravizador

Tudo bem

O rei não está bem. Ensaia uns passos indecisos pelo vasto salão monárquico. Senta no trono ornado em ouro, prata, platina e formidáveis pedras de topázio e safira. Enfadado a ponto do vômito, torna a levantar e bufa, impaciente. Contorce a carranca em medonhas caretas, não está claro se de dor ou tédio.
Tenta focar na mira de alça da cabeça alguma palavra ou semipensamento que lhe traga um alívio. Começa contando mentalmente quantos feudos abrange seu reino. Feudo Um, Feudo Dois... Antes de chegar ao Três, desiste, enfastiado sob o impulso de tascar na parede a cabeçorra coroada.
Olha em volta. Nada avista com que possa disfarçar o mortal fastio. Se concentra, procurando distrair-se mentalmente. Tenta enumerar os encantos de cada donzela que já deitou em sua cama. A bela Dolores tem um rostinho tão doce, a erudita Mafalda sabe contar uma história das mil e uma noites como ninguém, a Ermelinda... a Ermelinda... Antes de achar algo de bom na Ermelinda, o pobre monarca solta os braços de tédio e desiste.
Retoma os passinhos aflitos pelos aposentos reais. Faz um esforço para estudar os ricos painéis que ostentam os brasões reais bordados em fios dourados e platinados que há séculos jazem pendurados nas paredes. Caminha, parando ante uma das grandes janelas do quarto. Estende a vista até o horizonte onde se perdem os limites do seu reino. O cérebro se recusa a registrar o que seus olhos fitam. Retoma as passadas, batendo os pés até onde os guardas estão postados em suas posições de estátuas, experimenta mirar de perto a cara dum deles para ver se acha algo interessante.
Novo perambular circulatório pelos aposentos. Detém-se diante duma das altas paredes erigidas em pedras que mandou trazer de longínquas terras em tempos em que corria o mundo conhecido a invadir outros impérios e trucidar seus inimigos. Tem gana de dar com a testa numa das pedras.
Será que adiantaria? se pergunta, examinando com os dedos a dureza do paredão à altura dos olhos. Bem, não custa tentar. Afasta a cabeça alguns centímetros e pá! Atinge a dureza da pedra com a têmpora.
– Ui! – geme estridente.
Esfrega com as duas mãos a testa machucada.
– Chamou, majestade? – um dos guardas acode, receoso de que o monarca tenha se ferido gravemente.
Crispando as pálpebras de irritação, o monarca ordena ao guarda no tom mais azedo que este já ouvira em sua vida:
– Ide chamar o Sábio Real, anta de armadura!
O guarda obedece incontinenti.
Nem bem se passam três segundos e um ancião trôpego e corcunda, mas com ar digno, adentra o salão monárquico. É o Sábio Real.
O Sábio Real é um homúnculo pitoresco. No cocuruto brilha uma calvice que se pronuncia por uma cabeleira de pelos ralos que desce por seus ombros e costas até os glúteos, estendendo-se pelos lados e lhe cobrindo parte do rosto. Os cabelos, além de finos e longos, são absolutamente brancos. O Sábio Real traja um manto de pano pesado tão alvo quanto os fios que se espicham das laterais de sua cabeça. A ampla túnica se esparrama até o chão, ocultando-lhe os pés. Na mão direita arrasta penosamente uma bengala de ébano.
– Mandou-me chamar, alteza? – O velhote estaca diante do rei e faz a mais reverente das mesuras, dobrando exageradamente a corcunda para deixar claro que devota absoluta subserviência ao dono do pedaço. Roçando os longos cabelos no chão, aponta a careca lustrosa na direção do monarca.
– Sábio Real! – o rei vocifera, armando a horrenda das caretas na direção da calva luzidia do recém-chegado. – Preciso da vossa ajuda.
– Servi-vos é meu mister, majestade! – O ancião dobra ainda mais o lombo, por pouco não esfregando o narigão no piso granítico.
– Tenho o peito oprimido por uma dúvida, meu caro sabe-tudo!
Surpreso ante tão repentina e aberta confissão do monarca, o homenzinho afunda o pescoço entre os ombros de modo que a cabeleira lhe esconda ainda mais a cara.
Sem fazer caso do espanto do outro, Sua Majestade prossegue:
– Não suportarei mais um dia nesta angústia que me corrói a alma. – Falando assim, o rei ruma para o trono e, virando as ancas na direção do assento, larga teatralmente o corpanzil, sentando-se em espalhafatoso gesto de lassidão e autoindulgência.
– E qual é essa dúvida que tanto atormenta Vossa Alteza?
– Aí é que está, Realíssimo Sabichão! – O monarca encolhe desamparadamente as espáduas, afetando o desamparo do mais humilde dos vassalos do reino. – Aí é que está, meu querido. Eu não sei!
– Não sabe exatamente o que, majestade? – O Sábio Real estreita as pálpebras na direção do rei e pisca seguidamente, querendo expressar que quem está em dúvida agora é ele.
– Ora, vossa múmia escalafobética! — A voz do soberano é um rugido bestial, suas pupilas, dois dardos ferozes e frios dum excelso para quem acabar com a vida alheia requer um simples estalar de dedos para a guarda. – Pois acabei de dizer, tonto? Não sei qual é a dúvida que me atormenta!
– Entendo, Alteza... – O Sábio Real, mesmo sem entender porra nenhuma, inclina submissamente o pescoço em noventa graus, não apenas demonstrando respeito, mas também ocultando ao cruel patrão o risinho zombeteiro que se lhe instalara nos lábios ante o patético padecimento do homem mais poderoso da Terra. Se o chefe desconfiasse que estava fazendo mofa dele, num piscar de olhos remelentos de sono (pois acabava de acordar quando fora intempestivamente acordado pela guarda), ver-se-ia na companhia dos terríveis jacarés que habitam o temível fosso em torno do palácio, repleto de incontáveis ossadas de sábios reais insolentes e outros servos atrevidos.
(As feras, embora estejam sempre de papo cheio porque todo dia algum vassalo tem a infelicidade de incorrer na ira do Rei, jamais rejeitam um quitute humano, ainda mais sendo de carne magra e de baixa caloria como é o caso do nosso longevo sabe-tudo real.)
– Entendo perfeitamente, Alteza – O velhote se entrega a nova mesura, ainda mais envergada, ainda mais abjeta, pintando no rosto uma expressão de funda e amarga dúvida.
– Em vossa prudente e sensata opinião, que devo fazer para remover tamanha náusea do meu exaurido coração? – O Rei se ergue do trono, pondo-se novamente a circular a esmo pelo salão monárquico.
Depois de perambular feito um fantasma por alguns minutos, sacode a cabeça como que espantando um transe maldito e marcha enfurecido até o velhote. Esticando um o dedo em riste na cara do servo, late como qual um horrendo mastim:
– Ordeno que vós, como Sábio Real e Intelectual Mor do Reino, encontreis uma solução para esta dúvida que vem carcomendo solertes as entranhas reais! Não sei até quando serei capaz de suportar tão cruel padecimento. Meu reinado está em perigo. Ide e estudai cuidadosamente vossos prolixos e obscuros alfarrábios onde se preservam todas as formidáveis verdades da vida. Quando voltardes, trazei a solução para esta inclemente dúvida que aflige meu desacorçoado espírito!
O sábio dobra-se num demorado genuflexo, empertiga-se e aquiesce:
– Assim farei, majestade.
E se afasta de costas, olhar pregado no chão, enquanto um atroz pensamento lhe fustiga a mente: Tô fudido!
Dirigindo-se a seu estúdio, vai arrastando pelo piso do aposento, sob infernal estridor, a grande e pesada escada que lhe permite acesso às seções mais altas das velhas estantes de orvalho. A cada vez que trepa, desce de volta c’um enorme, um pesado, um empoeirado volume debaixo do braço, que vai depositando sobre sua escrivaninha numa imponente pilha. Várias horas se passam nessa atividade, até que se vê forçado a sentar-se. Então, atira-se ao estudo. Lê e matuta, matura e lê por horas a fio, ocasionalmente abanando a cabeça num misto de angústia, aflição, agonia, exaustão, enfado, desalento, picardia, incúria e outros dezoito sinônimos não tão sinonímicos assim, sem achar uma resposta.
Quando o dia começa a chegar, já sem forças, recosta-se na cadeira, pálido, lábios secos, se antevendo no papo dos esfaimados e dentuços répteis do fosso negro.
Decorridas outras vagarosas e tiquetaqueantes horas, o esgotado Sábio sai do quarto e dirige-se à cantina do castelo, que funciona all-round-the-clock, disposto a traçar uns gins para ver se estimula os neurônios que perambulam cansados nas profundidades de sua alva, calva e cabeluda cabeça.
Nem bem adentra o boteco real, avista o Bobo da Corte, que se acha emperequetado num tamborete diante do balcão, com seu jeitão insolente e lampeiro a contar picardias e cantar gracejos a um pequeno porém inspirador grupo de belas, coquetes cortesetes [i.e., groupies que não saem da corte, à espera duma boquinha na burocracia real].
Acabrunhado, cabisbaixo, pesaroso e hesitante, conclama o Bobo da Corte a um canto. Procurando apagar os traços mais fundos de dramaticidade nos vincos das rugas, recosta-se na parede e põe-se a desfiar um vívido relato de seu medonho problema àquele cuja ocupação é entreter o chefão.
– Simples! – ri o Bobo folgazão, antes mesmo que o Sábio termine sua história. – Diz ao Rei que basta tirar um dos símbolos da monarquia do corpo por dia. Kartoffel! Quando se livrar do último, estará curado!
Ante a abracadabrante sugestão do Bobo da Corte, a máscara de infortúnio do Sábio careca cabeludo se acende qual aquele seu antigo isqueiro a fluido que deixava um fedor de lamparina no ar do Palácio e que dava a maior bandera pros Guardas do Rei a dormitar na ala do castelo ao lado da sua.
– Isso aí! – se inspirou meio alegre, pensando ter encontrado a solução.  – O cervo da floresta! Como não pensei nisso antes?
Acontece entretanto que a evocação do seu velho acendedor de cigarros que ganhara de presente de aniversário de sua ex-cunhada Nandinha lembrara o vetusto Consultor Imperial de que já eram quase 9 da matina e ele ainda estava de cara.
– Ai meu edi! Como é que fui me passar? –  se admoestou, enfiando a mão dentro do robe e fuçando num bolso interno. – Celular sem crédito, pendrive, a caneta pra anotar os caprichos do Rei, o bloquinho pra anotar os caprichos do Rei... – Assim vai cochichando e apalpando os bagúio escondido no forro no bolso sabe-se lá desde que século.
Quando acha o que procurava, sua cara se ilumina de novo (agora igual a um isqueiro Bic novinho em folha). Escarafunchado entre os dedos indicador e médio tem uma bomba do tamanho dum bijou, carga suficiente pra barato numa roda de 30.
Batendo os farol na bagana rica, o Bobo da Corte e seu bando de Gatinhas Cortesãs correm a armar um bonde em volta do matusalém.
– Alfuém fem um vósvoro aeh? – eflui o Arcano, já com o bagúio entochado na bocona sem dente.
Mil palitos faíscam no ponto nasal dele e o Escolástico Freak, abrochando os beiços feito personagem baitolante de Machado, lasca um chupão federal na Base Lunar, consumindo o baculejo até o talo e além.
O Bobalhão e suas Bobetes largam uma puta duma vaia pra cima do Macróbio, chiando que nem aquele bico de bomba de calibrar rodas de carroça no Estábulo Real.
– Qualé ensandecido? –  trua uma das Biscas no meio da biquera, a que ganhou o Primeiro Concurso de Ornintorrica daquelas priscas eras. – Tô cum cara de kátia karaio?
– Calmaí! piço emergente – estabelece o Honorável Senil, tacando um sabonete de leve na capô de fusca da lambisgóia. – Inda tem muito beck pra bolar.
Mal libera o dito, o Longevo ouve algo ou alguém saracoteando em cima de seu ombro esquerdo.
– Tu não! – cuspe ao fim da bengala, conretorcendo a fuça.
Encarapetado (sic) em seu ombro está ninguém menos que o Grilo Perorante da Quinta Monarquia! A presença do Seboso Inseto só pode significar que ele, Matusalém Monárquico, já se acha na última fase pré-desbundada final sem rima contudo.
–  Que quererdes de mim, ó Leprechaun dos Pobres?
– Cricri! – replica o meia-solástico clone do corvo poetiano.
– Por acaso guardais uma resposta ao Enigma que me atormenta a alma, desaracorçoa o espírito e cura coceira no ouvido?
– Cricri! Cricri! – guincha o Perorante, aparentemente sem dominar a voz dos animais.
– Desembucha, miniatura de praga! – cacatroa o Entrado em Anos, que pelo visto conhece de cor o patois do Monótono Estridulante.
– Cricri cricri cricri cricri... – redargue monocordiamente o Ortóptero (agora tivemos de olhar no Aurélio, não somos médico), disposto a exibir sua fartura vocabular.
– Hahaha, agora entendi! –entende o Sábio Real, abrindo um obsceno riso banguela a expor as gengivas murchas e vazias como o plenário do congresso monárquico em tarde de segunda.
No dia seguinte requerem o Sábio e o Bobo uma audiência especial ao secretariado do rei, no que são atendidos no ato.
Diante do Cara, anunciam a descoberta da cura para o endomórfico existencialista siricutico real.
O Chefão se ergue no trono, ávido pela notícia. Finalmente se livrará do angu?
– O papo – começa o Sábio, simulando a compenetração dum Wittengeitein –, o papo é pular amarelinha! descarregando o petardo sem ousar erguer os olhos. Pensou em tudo: em caso de xabu, foi  o Bobo da Corte que tramou.
– Para isso, Alteza – acorre o Bobo Alegre –, precisamos trocar nossos trajes.
– Trocar trajes? – desconfia o Bacanão. – Que estardes a dizerdes?
– Simples, Milór! Eu visto o vosso, Vossa Alteza veste o meu. É kartoffel! Mas temos de efetuar a troca privadamente, sem testemunho dos lacaios.
Desconfiado mas desesperado, o Homem topa. Se protegendo atrás do trono, se desveste e entrega ao Bobalhão, o manto real, o cetro, as capas e, por fim, a coroa.
O outro, por sua vez, lhe passa a vestimenta ordinária própria dos que servem de tonto na corte.
Ato contínuo, o Boboca que de boboca não tem nada bate palmas três vezes, convocando a guarda.
– Chamou, Majestade.
– Prendam esse canalha! – ordena o bobo-rei.
O queixo do rei-bobo despenca até o peito, de tamanha perplexidade. Quer protestar, mas os guardas o prendem pelos braços e o arrastam para fora.
– Trancai-no na masmorra e atirai fora a chave até que morra de fome! – profere a ordem final.

A princesa do poema

Quando desço
Pela rua vou descendo
Cabisbaixo
Do meu jeito predileto
Sem minhocas na cabeça
Como o treino me ensinou
Nem reflexos na mi'a cara
Por questão de abulia
De repente
Uma surpresa
Essa dona vem
Subindo e
Como era de esperar
Desancora-me de mim
Pregando em suas coxas
Em seus seios
Em seus lábios
Meu olhar
Não é uma dona assim sem mais nem menos. Mais que mulher, uma fada; mais que fada, a mãe que eu buscava; se me quisesse, a desposava; se me aceitasse na cama, me daria a filha que não tive.
Michelangelo renunciaria à escultura se visse essas pernas.
As minhas ficam pesadas, não posso, vai dar na vista. Tenho nojo desses sujeitos olhudos que giram o pescoço para apreciar pelos fundos o balanceio hipnótico duma fêmea.
Ela vai passando, prendo a respiração. Não quero aspirar seu perfume. Se não for perfumada, pior. Não posso cheirar a secreção primitiva de suas glândulas.
No meu mundo 
De repentes
De repente
El’ergue a saia
El’abaixa a calcinha
Fica de cócoras e
Apreciando o trânsito
À sua frente
Obra um monte bem
No meio da calçada
E s’ergue e s’arruma
E s’apruma
E segue rua acima
Primeiro pensei em dar a este poema o título O poema da cagona. Outra alternativa que ponderei foi O poema da princesa.
Então me ocorreu que preciso lavar a cortina do quarto. E também dar uma satisfação às comadres da frente que vivem se perguntando por que nunca saio de casa.
O problema do Brasil é que, no vernáculo, Jesus rima com cruz.



Fúria? Você não viu nada

Um tal de Paul Walker esticou a canela da perna direita e a bota do pé esquerdo ontem ou antes, acho. Jamais tomaria conhecimento de tão momentoso fato não fosse ocasionalmente obrigado a dar uma espiada no site do Estadão e da, ugh, Folha e da, blegh, Veja. Entro e bato o olho nesse tipo de “notícia” e me dá vontade de. Vocês já sabem, não preciso completar.
Passo batido por manchetes que tais mas meus olhos são mais rápidos que o mouse e apreendem que o tal de Walker andou fazendo uns filmes aí em que interpretava um piloto de carros ou congênere. Menos um imbecil no mundo, me regozijei. (Não precisa chiar, sei que o regozijo é pecado mas assistir ao padecimento alheio foi o que restou da minha capacidade de auferir prazer.) E uns dois bilhões de imbecis teriam de ir pro saco para que surtisse algum efeito significativo no mundo. Vocês sabem que o que não falta por aqui é sujeito dessa estirpe. E olha que ainda faltaria enumerar os idiotas, os babacas, os selvagens, os petistas, os cinéfilos, pois é.
Mas hoje todavia dei porém uma passada na, bluargh, Folha e este meu olhar de águia ébria em voo rasante e entusiasmado e contínuo das nuvens rumo ao rochedo Cila fisgou uma manchete a respeito. Qual seja: “A polícia de Los Angeles pediu aos fãs da saga “Velozes e Furiosos” que parem de cantar pneus diante do local em que ocorreu o acidente de carro que matou Paul Walker”.
Vocês sabem que logo aos dois aninhos comecei a desconfiar que este mundo pode ser qualquer coisa menos justo. E que a partir de então minha desconfiança só fez cristalizar, até que, ao três, já estava cabalmente convicto.
Isso nunca me impediu entretanto de cair em estarrecimento sempre que o mundo cuida de me agraciar com mais uma prova de que é a injustiça que lança os dados de nossas vidinhas de formiga.
Fãs de Walker estão fritando os pneus de seus possantes e dando cavalos de pau numa estrada lá de Los Angeles onde o pobrezito virou churrasco após uma colisão.
Se fosse deus por um dia, estabeleceria uma regra para casos que tais, qual seja: quem quer que tivesse seguidores, simpatizantes, adoradores ou simplesmente amantes (no sentido lato), levaria toda a turma junto pra onde quer que essa gente vai quando morre.
Não, não me xinguem ainda. Nem riam. Leiam de novo. Tem gente que sai de casa e vai cantar pneus onde seu ídolo encontrou aberta a porta de saída do mundo. Convenham, o mundo tá assim de gente, apesar das guerras cada ano mais cruéis e das epidemias cada mês mais devastadoras e das tevês cada dia mais emburrecedoras. Daqui a pouco haverá nada menos que dez bilhões de chinas só em Hong-Kong. Ou, pior, cem milhões de curintiano a disparar rojões no meu lindo céu de anil. Quando tal advento estiver se aproximando no horizonte, gente feito eu será obrigada a um harakiri básico. Vocês certamente não me trocariam por um presidente de torcida organizada (espero).
O Porsche vermelho em que Walker estava — no banco do carona — pegou uma árvore que se vingou botando fogo no bólido.
A notícia da, uegh, Folha é ilustrada por uma foto em que Walker está abraçado a Gisele Bundchen. A foto fez parte duma campanha publicitária.
Se fosse deus por um só dia, pois é.
Comecei a escrever este post absolutamente certo de que a preguiça mo impediria e então me veria livre para escrever o que gosto e o que posso. Ou a náusea. O nojo que não tenho como vencer neste novo mundinho emplastrado de golpes mercadológicos de sujeitinhos saltitantes incapazes de agir como indivíduos livres, eternamente ávidos por se mesclarem ao ectoplasma digital que vai se assenhorando do universo conhecido.
Há uns dias me lembrei de que minha mãe faria cem anos em treze de setembro. Não me senti diferente de quando faria noventa e nove. Se fosse dama da sociedade, alguém da família se encarregaria dum panegírico pomposo. Se fosse deus por um segundo, decretaria que todo ser que ama e é amado deveria levar seus amores junto.
Quando o poeta português Eduardo Pitta morrer qualquer dia desses, não, não vou ao local do óbito, provavelmente será em Portugal e nunca saio de casa, mas me comprometo a marcar condignamente o triste evento. Não, não vou planejar, não me dou bem com planos. Na hora apropriada decido. Desconfio que minhas exéquias serão apenas silenciosas. Se me sentir deveras saidinho, sou capaz de garatujar uns versos numa folha de sulfite e em seguida rasgar o papel com o máximo de estrépito possível na esperança de incomodar meus vizinhos cujas carcaças jazem e jazerão até o fim dos tempos diante de duas tevês de 500 polegadas.

Eu vi o tédio atravessar o tempo
atribulado da infância
e espelhar-se naquele rosto

disse Pitta.

Uma geração passa e outra geração nasce: mas a terra continua pura sempre. O sol também se levanta e o sol se põe e corre para o lugar onde se levantara.

citou Hemingway na epígrafe de The Sun Also Rises.
Antes de abandonar agoniado a página do jornal online, meus olhos de águia de mau agouro captam que “Fatia de bolo de Kate e William é leiloada por R$ 10 mil”.



Perde-se um homem

fosse doente
o poeta escrevia uns versos fuleiros
de meia em meia hora
pra sentir indiferença

e fosse impaciente
ia o poeta até o boteco, tomava umas e
fazia uns versinhos descabidos
pra esperar indiferença

e fosse louco saía ele
pra rua e uns versos insensatos
berrava pra se enlouquecer
de indiferença

e fosse
idiota voltava e voltava
e voltava a balbuciar
uns versinhos sem saída
pra louvar a indiferença

e não fosse o que é
se conformava angustiado
que com verso ou inverso
nada faz nenhuma diferença