Pouco antes de se matar, frei Tito escreveu que o rio de sua infância tinha secado.
(Frei Tito foi selvagemente torturado pelo delegado Fleury e outros cães militares durante a ditadura.)
Primo Levi disse em É isto um homem? que o pior momento era pouco antes de acordar — nada fantasticamente, entrar na vigília, para ele, significava ingressar num pesadelo.
(Se tivesse podido entrevistá-lo, lhe teria perguntado como era seu sono. No livro, fala de tudo menos disso.)
Para mim o momento mais duro é quando desperto dum sonho (esteja dormindo, esteja acordado).
Desde o primeiro, sempre fui um rio Amazonas desembocando no meio do Saara a setenta graus. Assistindo impotente ao extermínio de toda a fauna e de toda a flora com que sonhava há um segundo.
Sem filtro, sem gelo, por favor
Para o cabeça-fria
é descobrir que
tem um câncer
para o crente,
descobrir que
a piada é
deus
para o fiel,
que é traído
para o lógico,
que não existe
explicação
para o poeta,
que sua cruz
é a poesia
é descobrir que
tem um câncer
para o crente,
descobrir que
a piada é
deus
para o fiel,
que é traído
para o lógico,
que não existe
explicação
para o poeta,
que sua cruz
é a poesia
Para viver é preciso ter um corpo
Ó vida
que insiste
em ter teu
caminho
próprio
enquanto
insisto em
ter meu
próprio
caminho
que insiste
em ter teu
caminho
próprio
enquanto
insisto em
ter meu
próprio
caminho
Odeio metafísica
Estava há uns
anos sentado numa mesa imunda desses botecos imundos que existem em cada
esquina do meu Brasil varonil, a bebericar quietinho minha cerva sem gelo e meu
copo contendo reconfortante abundância de Teacher's aguado. Diante de mim
estava uma sirigaita dessas a que todos estamos condenados na juventude ou na
meia-idade, falando pelos cotovelos e outras partes do corpo.
A fulana queria
me convencer de que deus existe, que astrologia tem fundamento, todos devemos
buscar o autoconhecimento, o asneirol clássico.
De repente,
vendo que eu desligara meu receptor mental, a dona saracoteia:
— Me responde,
então: que é que tamos fazendo no mundo afinau au au?
Sim. A fulana
queria discutir metafísica.
— De onde
viemos? Aonde vamos? — tasca a título de emenda.
— Que horas
são? — pergunto ao dono do boteco que assiste gordamente tevê atrás do balcão.
A sirigaita me
fuzila cum olhar fuzilante, exigindo uma resposta.
Não existia a
facebook. Não existiam uma porrada de outras coisas. Eu nem imaginava que um
dia criaria uma postagem sobre aquele episódio. Ou que viria a ser o satisfeito
proprietário dum blog. Não imaginava uma porrada de outras coisas
Love me
Tenho a impressão
de que percebi
cedinho que
nunca aprenderia
a viver de
olhos fechados
a cantar de
olhos fechados
a amar de olhos
fechados, a
viver de olhos
abertos
de que percebi
cedinho que
nunca aprenderia
a viver de
olhos fechados
a cantar de
olhos fechados
a amar de olhos
fechados, a
viver de olhos
abertos
Para Antonin Artaud e só
Se quer encontrar a palavra pesada que podia lastrear nossas vidinhas aéreas se quiséssemos, você não a encontrará em blogs indigentes tramados para juntar um grupinho de diletantes — ou nem isso — em torno do convescote de insetos rastejando em torno de seus euzinhos esfaimados de substância.
Se ousássemos.
A maioria de nós nasce para ser um covarde que se deixa alegremente escravizar pelo primeiro que erga a voz e imponha seu respeito digno das baratas.
Você é o serzinho do em torno.
Em torno do Facebook, em torno da tevê, em torno da lâmpada incandescente, em torno do sol a dançar a dança da chuva.
Foi preciso que fossem a Paris e me trouxessem Pour en finir avec le jugement de dieu para que eu finalmente encontrasse meu antípoda siamês Antonin Artaud.
Não tenho receio de confessar que sempre receei encarar Artaud de frente. Não tenho, nem proclamo, nem nunca proclamei ter esse tipo de coragem. Sou e sempre haverei de ser filho de meu pai, ó verve que é minha e de mais ninguém e ninguém haverá de ma roubar!
ce qui est grave
est que nous savons
qu'après l'ordre
de ce monde
il y en a un autre.
Quel est-il?
Nous ne le savons pas.
Se ousássemos.
A maioria de nós nasce para ser um covarde que se deixa alegremente escravizar pelo primeiro que erga a voz e imponha seu respeito digno das baratas.
Você é o serzinho do em torno.
Em torno do Facebook, em torno da tevê, em torno da lâmpada incandescente, em torno do sol a dançar a dança da chuva.
Foi preciso que fossem a Paris e me trouxessem Pour en finir avec le jugement de dieu para que eu finalmente encontrasse meu antípoda siamês Antonin Artaud.
Não tenho receio de confessar que sempre receei encarar Artaud de frente. Não tenho, nem proclamo, nem nunca proclamei ter esse tipo de coragem. Sou e sempre haverei de ser filho de meu pai, ó verve que é minha e de mais ninguém e ninguém haverá de ma roubar!
ce qui est grave
est que nous savons
qu'après l'ordre
de ce monde
il y en a un autre.
Quel est-il?
Nous ne le savons pas.
Umbro
Manchete de
hoje na Folha de São Paulo:
Foi achado hoje
às 20:27 o corpo do pretenso poeta (nome omitido em nome do lirismo) à avenida
(endereço omitido em nome da fantasia). Segundo o cabo Josimar, da PM de SP, primeiro
policial a chegar à cena do evento, o cadáver foi encontrado em estado de graça
virado estátua boquiaberta petrificada diante do monitor do computador. Osvaldino,
investigador da perícia técnica, instado a emitir um parecer pelo delegado de
plantão Diógenes (segundo o cabo Josimar, nada a ver com aquele da lanterna
mitológica que dedicou a vida a encontrar um homem honesto), afirmou que no
momento do estertor último o suposto poeta parecia digitar uma linha
em seu computador (por sinal, bem antiquado, notou Osvaldino sem que ninguém
lhe pedisse um parecer a respeito).
O senhor está insinuando
que o morto estava criando um poema quando bateu as botas? indaga uma jovem
que empunhava um microfone comprido e cabeçudo, suscitando uma miríade de
ideias indesejadas nas cabeças maliciosas dos homens presentes.
Não, minha
cara, não estou insinuando. Estou afirmando. Em minha opinião, o último ato
deste que agora jaz em estado de rigor mortis diante de vossos olhos foi escrever
– ou tentar, se me permitem um mínimo de acurácia linguística – um verso em seu
pecê.
O senhor já tem
elementos para determinar o tema ou para quem se destinava tal verso? questionou
Éric Decouty, correspondente do Libération, que passava férias no Brasil e só
por acaso tomara conhecimento do triste acontecimento.
Nada mais a
declarar! interrompe com seu vozeirão de arauto de cemitério e sua habitual
brusquidão, quiçá mesmo com algum tom de raiva e desdém, o delegado Diógenes,
sem se dignar a explicar a razão do azedume.
Aparentemente
intimidados – incluindo o correspondente do periódico francês –, os jornalistas
ampliam a roda que faziam em torno do corpo. Menos Osvaldino, que continua parado no meio da sala, polegar e indicador pressionando o queixo, em pose de
intensa introspecção.
Engraçado,
exclama de repente, mais para si mesmo que para os presentes. Nosso
levantamento preliminar parece demonstrar que esse sujeito aí – e assim dizendo
Osvaldino aponta o dedão para o morto estirado a seus pés – não estava no
Facebook!
Um burburinho
toma conta do ambiente. Escutam-se ohs! ahs! nossas! em diversos diapasões de
vozes femininas e masculinas.
O senhor tem
certeza disso? ousa uma mocinha com aparência de piranha em
cujo crachá é possível ler REVISTA VEJA.
Como disse,
detalhou paciente Osvaldino, tudo ainda é preliminar. Mas não encontramos
nenhum vestígio de perfil pertencente ao defunto.
O alvoroço cresce.
Todos falam ao mesmo tempo com todos. O caso parece de fato
sui generis.
Com licença,
seu técnico – adianta-se um repórter com expressão vivaz e voz firme porém álacre.
– Retomando o tema do verso que o infeliz escrevia na hora da morte, o senhor
por acaso conseguiu estabelecer alguma relação entre o óbito e o tal verso? Seria, por acaso, um alexandrino dissimulado em forma de redondilha?
Olha, não disponho ainda de evidência material ou mesmo substancial. Mas estou absolutamente convicto. Tá na
cara que ele se empolgou em demasia e seu frágil coração de poeta não suportou
a sobrecarga de emoção, entende?
-- Mas ele era
mesmo poeta? -- quer saber a zinha da revista, estudando desconfiada e com olhar
perscrutador o falecido cuja boca permanecia escancarada como se ele houvesse
tentado dizer algo, chamar alguém, pedir socorro um segundo antes do instante
derradeiro.
— É óbvio que não.
Osvaldino cospe uma grossa catarrada de nojo no carpete do escritório do
finado. — Ainda é cedo para afirmar categoricamente, mas para mim não passava
de mais um pilantra metido a vate, incapaz até de manter uma conta no Facebook.
Hoje em dia tá assim ó ó ó ó ó de sujeitos desse tipo perdidos em alfurjas e
cacimbas nesse mundão afora. Vejam, as rugas do rosto sofrido desse homem falam
por si. Estamos diante dum solitário, sem vida própria, sem mulher, sem amigos,
um fulaninho mórbido e infeliz cuja única companhia eram os fantasmas do
passado que tinham invadido sua alma atormentada qual inquilinos sorrateiros.
Seja como for, este é o primeiro caso de um pseudopoeta mal-amado morto bem no
meio dum verso de que tenho notícia. Foi emoção demais, pobre diabo.
— Também pudera
— o repórter francês cresce os olhão pra tela do computador, que ainda está
ligado. — Que versinho mais...
— Shhhh! —
Osvaldino cruza os próprios lábios com um dedo indicador rijo. — Não admitimos
comentários boçais na cena do crime.
Ato contínuo, o
técnico, num gesto brusco, arranca o copo que ainda jaz entre os dedos do
vate recém-extinto, leva-o perto do narigão e cheira.
— Hmmm, genuíno
balla12. Carinha não era nenhum fernando-pessoa mas tinha bom-gosto. Vai um
golinho aí?
Sem esperar a
resposta dos jornalistas, Osvaldino engole o uísque dum só trago.
Um sopro no escuro
É um sujeito
que não está pra brincadeira.
Não topa firula.
Detesta rodeio. Com ele não tem etc.
Não brinca.
Não apenas por
ser triste.
Não brinca
porque não sabe.
Por não saber brincar,
por não querer brincar, não vai muito com brincalhões.
Chegou onde está
– e ter chegado onde está não foi batatinha – sem espírito lúdico, não é agora que vai começar.
Quando se
dirigem a ele a primeira coisa que pensa é, será que esse aí tá brincando?
Em geral
acredita que sim.
Então a segunda
coisa que pensa é, se tá brincando, tá brincando de quê?
E a terceira
coisa que pensa é, se tá brincando, tá brincando por quê?
Naturalmente,
um sujeito que não topa brincadeira não vê sentido em brincar.
Não, não é por
considerar perda de tempo. É mais. É pior. Não sabe nem explicar por que – ou simplesmente
não tem paciência.
Em geral,
quando se pergunta se estão brincando ou por que estão brincando, não está de
fato a fim de saber. Para que um sujeito que não topa brincadeira ia querer
saber uma coisa dessas?
Até que um dia,
um dia qualquer, com nada de especial nem diferente, achou que alguém estava
brincando com ele mas, ao invés de sua cabeça menosprezar a intenção do outro à insignificância como
sempre fazia, dessa vez ela, cabeça, ficou meio cismada.
E se aprendesse
a brincar?
Então perguntou
àquele alguém, poderia lhe ensinar?
Quem sabe lhe mostrasse
que brincar é gostoso?
Está certo, não
brinca. Mas está aberto a experiências. Novas ou velhas.
E, dependendo
do caso, pode se abrir a pessoas. Velhas ou novas.
Não tem prevenção
contra nada nem contra ninguém.
É o sujeito mais
despreconceituoso que conhece.
Pouquíssimas
coisas para ele são proibidas, impossíveis, impraticáveis. Embora não seja afeito
a brincadeira.
Olha, se lhe
der na telha, é capaz de encanar cuma ideia inusitada e ir em frente até ver
essa ideia concretizada.
Ou morrer
tentando.
De repente pode
querer ser médico, vencendo o pavor que tem de sangue e sair por aí furando os
outros. Cutucando feridas.
Feridas em seu
pior estágio.
Sem nem dar a mínima
para quem seja o dono ou a dona da ferida.
Olha, pode até
ser dele mesmo.
E tem mais.
Embora não tope
brincadeira, ninguém duvide: é bem capaz de brincar de médico.
Chegar no
consultório da doutora gemendo, ai dra., acordei cum buraco bem aqui ó.
Aqui? – a dra. lhe
aperta o abdômen com as pontas dos dedos das duas mãos.
Ui! – ele não
contém um gritinho.
Dói? – ela cochicha
em sua vozinha meiga e sensual (ao mesmo tempo).
Sim, doutora – ele
faz uma careta de dor fingida. -- Não, agora é mais em baixo...
Aqui? – ela apalpa,
aproximando perigosamente o rostinho de anjo da carona cabeluda do cara que não
tolera brincadeira.
Suas bocas
param poucos centímetros uma da outra.
De repente, ela
diagnostica:
São gases.
Aaaaai – ele solta
um gemido, lamentando a prisão de ventre e o sonho perdido.
Tudo bem, pode dizer que foi o destino
Tinha de
acontecer.
Ligo pra ele em
Sanca pra lhe desejar feliz aniversário, ele diz que se lembra de Daniele
vendendo rifa da escola em frente de casa enquanto escutava Sexie Sadie dos
Beatles vindo a todo volume da casa. Faz tanto tempo que não nos vemos, fora
aquela tarde indo pra sede daquela empresa de seguros em algum ermo de Sampa,
que passamos encalacrados no trânsito. Combinamos nos encontrar amanhã para uma
bebida na Rio Grande do Sul e caímos na gargalhada. Ele está sem trabalho há
anos e não tem um centavo sobrando. Penso em lhe sugerir que envie currículos para
algumas empresas, mas desisto e ao invés do absurdo da ideia pergunto se tem
visto o Evandro. A última vez foi na festa naquela casa perto do bosque. Lembro
que também fui mas desisti de entrar na hora agá quando alguém me chamou para
outro lance. Um amigo e era verão. E havia um monte de
gente em volta. A música (Allman Brothers, Jefferson Airplane, Quicksilver
Messenger Service) estava na última. De fora pude enxergar os barris de chops e
a fumaça da erva flutuava pela rua. Espera, pedi. Antes preciso ir o banheiro. A
caminho do banheiro um montão de gente, rapazes, garotas, casais, casais. “Vem
por aqui”, alguém disse. E fui. Lembro que fiz xixi e quando saí sentei na
grama diante da casa perto do bosque e tirei caneta e papel da minha bolsa
tiracolo e escrevi um poema dos meus poemas bobos para ele.
(Amanhã vou
falar das sombras.)
Da série "Novos contos para crianças", III
A criação
Deus fez o
mundo em dois segundos, vomitou seis meses e vem descansando desde então, todos
vocês sabem. O que quase todos desconhecem é que Deus teve um filho, Deusinho.
(Alguns dizem que teve também outro, chamado Cristo, mas Sua paternidade nesse
caso ainda é polêmica.)
Deusinho, ao
que tudo indica, não estava nos planos divinos (desgraça que afeta nove entre
dez de nós pobres mortais, não é mesmo?).
Consta que, a
princípio, o Maioral pretendia apenas implementar uma explosão ciclópica. Vocês
manjam: aplicar uma chacoalhada em todas as coisas pra quebrar o tédio (que, no
caso d'Ele, era deveras abissal).
Afinal, naquela
época o universo era um nada só: nada da mesma cor, nada do mesmo gosto e nada
do mesmo cheiro. Nem o Gajo, com seu infinito Saco pra aturar qualquer encrenca
que surgisse, tinha paciência de aguentar tamanha pasmaceira.
E assim Deus,
vocês também sabem, fez.
Numa data e
hora que ainda hoje é desconhecida, Ele pressionou o polegar contra o indicador
da mão esquerda — pois, obviamente, o Gostosão era canhoto — e deu um — com
perdão da palavra — puta dum estalo. Um estalo seco e, claro, metálico.
Bum! nada foi
para os ares — ares que àquela época ainda não existiam, mas isso é assunto
para outra ocasião.
Os cientistas,
muito tempo depois, batizaram essa explosão com o nome de Big Bang. Se fôssemos
nós, daríamos chamaríamos bem diferente, não é mesmo, meus leitorzinhos? Mas o
que está batizado, batizado fica. (A menos que os nossos valorosos vereadores
um dia resolvam mudar o nome de Big Bang pelo do presidente da câmara ou merda
que o valha.)
Certamente
vocês vão perguntar — já que são tão espertinhos — de onde o Grande Sabichão
foi tirar essa ideia porraloca de criar o mundo a partir duma explosão. Não
seria muito mais simples ter inventado uma grande, uma enorme, uma colossal
buceta que começaria então a ejetar gente à medida do necessário? Pois é, eu
também acho. Mas, cá pra nós, tenho uma teoria para explicar esse aparente
nonsense divino. É que, com a explosão, nós seres humanos já nasceríamos surdos
e cegos e com os nervos em frangalhos. E se essa foi de fato a intenção d'Ele,
temos de reconhecer que o Cara obteve o efeito desejado.
E o Deusinho?
Como é que entra nessa história?
Bom, a origem
do Filhinho do Patrão ainda é controversa. Alguns historiadores dizem — ou
melhor, afirmam — que Deus exagerou no entusiasmo na hora em que triscou os
dedões. Aparentemente, o estalo, atingindo decibéis imprevistos até mesmo para
o Crânio, resultou em várias — ainda não se sabe quantas ao certo —— com o perdão
da palavra — Cagadas. Isso mesmo, com cê maiúsculo. E uma dessas Cagadas,
especula-se, foi a geração indesejada dos indesejados Adão e Eva.
Bem, a primeira
conclusão que podemos tirar desse início da criação é que nosso futuro não
seria nada promissor. Parece que era isso mesmo o que o Chefe pretendia.
Da nova série “Contos para crianças”, II
Zezinho tá de
saquinho cheio com a professorinha Érica. É muito blablablá demais. História disso,
capital daquilo, que dia o napo leão casou com a napa leona, quanto é uma dúzia
de laranja dividido pela classe, não suporta laranja, detesta fruta, o que
gosta mesmo é ficar no banheiro pensando na... professorinha Érica.
Zezinho precisa
dar um jeito. A situação não pode continuar assim. E o único jeito que
conseguiu pensar depois de muito matutar foi... sequestrar... a professorinha Érica.
Agora só
precisa dum plano. De preferência, bom.
Pesquisa no
google os tipos comuns de sequestro. O que rola mais é aquele em que o sujeito
tá saindo de casa ou da empresa e é interceptado, rendido e levado pela
quadrilha num carro roubado.
Zezinho torce o
narizinho. Ainda não sabe dirigir. Nem roubar carro. E se chamasse seu
coleguinha de classe Marquinho pra dar uma força? Ná. O Marquinho é o maior
cu-de-ferro da escola. Só toparia uma tal empreitada se depois fossem estudar
aritmética na casa dele. Até que podia, confabula Zezinho. Sempre vale a pena
ver a dona Vanda, mãe do tontinho. Às vezes passa horas no banheiro em rituais
litúrgicos tendo dona Vanda como deusa.
E se convidasse
a professorinha Érica prum drinque? A ideia até parece boa. Onde seria? Bom,
tem aquela lanchonete na avenida por onde passa todos os dias a caminho da
escola. Sentariam numa daquelas mesinhas que ficam na calçada, ela pediria uma
garrafa de vodka ultragelada. Ao ouvir o pedido, Zezinho simularia carinha de
espanto e perguntaria, como quem não quer nada, “Uma garrafa inteira de cara, professorinha
Érica? Não seria melhor começar cuma kaipiroska de limão?” Ao que a professorinha
Érica o repreenderia com aquela habitual rabugice de mestra, “Quieto, menino! Quer
ficar de castigo no canto da parede?”
Zezinho então
daria de ombros e pediria um suco de goiaba, talvez melancia.
Agora viria a
pior parte. Sobre que conversariam? Desde pequenino é uma de suas maiores dúvidas.
O que conversar cuma mulher. Às vezes fica espiando casais de namorados
passeando pela calçada perto de casa, se perguntando que é que será que esses
dois falam tanto um pro outro. Outras vezes procura escutar uma das conversas entre
seus pais mas os dois nunca conversam, só ficam lá jogados no sofá da sala de
olhão grudado na tevê.
Por outro lado,
considerando que a professorinha Érica pediu uma garrafa inteira de vodka, quem
sabe ela não se encarrega de conduzir o papo? Mas tomara que não me venha com
aquela onda de cultura indígena quando Cabral descobriu o Brasil, como fez hoje
cedo na aula. Os índios naquela época eram politeístas, perorou diante da turma
de mulinhas mumificadas. Acreditavam em vários deuses...
Um brinde a nós!
Zezinho interromperia o arrazoado de sua preceptora, erguendo o copão de suco
de ameixa e fazendo tchin-tchin contra o copo de vodka vazio, se dando conta,
então, de que a professorinha Érica já enxugara até a última gota o litro de
smirrnoff.
Garçom, mais
uma! ela ergueria o braço na direção do caixa da lanchonete, fazendo “uma” com
o indicador em riste.
Puxa, fessora,
a senhora até que bebe legal...
Zezinho, vamo
deixar de papo furado, tá? Tô sabendo pra que me trouxe aqui!
O menino
arregala os olhinhos. Tá sabendo? Como? Puta merda, por que foi contar pro
Marquinho. Eu e minha língua comprida.
E tô sabendo
mais. Que desde o primeiro dia de aula você tem feito rituais pagãos em minha
homenagem no banheiro de sua casa. E da escola também! Não adianta negar.
Ele baixa os
olhos. Mil pensamentos passam por sua mentezinha de guri safado mas não lhe
ocorre sequer um “a” que lhe pareça apropriado argumentar.
Nisso sente
alguma coisa na virilha. Seus olhos, já baixados, veem que uma mão o acaricia. A
mão da professorinha Érica!
Vem cá, garoto.
Não precisa se envergonhar não. Você se acha mas é muito bobinho. Nem se deu
conta de que a aula de hoje cedo foi uma indireta minha...
De repente tudo
fica claro na cabecinha confusa de Zezinho. Ele se contém para não dar um tapa
na própria testa. É mesmo! Aquela história dos deuses, das deusas, das dríadas,
das ninfas e de todos aqueles entes etéreos e míticos que deslumbram sua imaginação
desde tempos imemoriais. Como pôde ser tão burrinho?
Podemos ir agora?
As sobrancelhas
dele saltam. Tudo que consegue notar são os olhões da professorinha Érica a arder
na direção dos seus.
Garçom, a
conta! ela ergue o braço com o dedão em riste mais uma vez. Num segundo mágico
estão na calçada.
Não vai abrir a
porta pra sua fofa?
Só então
Zezinho percebe o Chevette 87 amarelo ouro estacionado diante da lanchonete. O carro
parece saído dum lava-rápido, cheira a óleo e detergente.
Você dirige!
ela atira um molho de chaves nas mãos dele.
Aonde vamos? ele
quer saber assim que se instalam.
Homem que é
homem não faz uma pergunta desse tipo a uma dama.
E agora?
Dá a partida.
Não tem a mais ínfima
ideia do que fazer.
Procura raciocinar
enquanto engata a primeira e acelera. Tem aquele hotelzinho na rua atrás da
escola. Abana a cabeça. Fuleiro demais, indigno duma dama. E aquele motel na saída
da cidade que sua irmã vai todo fim-de-semana com o namorado? Putz, muito
longe. E nem sabe onde fica. Na certa se perderia, faria papel de tonto.
De repente tem
um toque de gênio. Como não pensou nisso antes? Sim! O barraco do Agenor. Sabia
que os altos papos que levava com o sujeito que tem um carrinho de pipoca na
esquina da escola um dia viriam a calhar. E o melhor de tudo é que sabe onde
fica.
Zezinho gira o
volante do Chevette, dobra a primeira esquina. Depois de alguns minutos
estaciona, desliga o motor.
Chegamos. Evita
olhar para a professorinha Érica.
Desce, contorna
o carro, abre a porta para ela, a ajuda a sair, a toma pela mão.
Bate na porta
do barraco, aguarda. Ninguém atende. Experimenta a maçaneta, a porta se abre.
Cômodo único,
simples e limpinho. Ao fundo, uma cama de casal de colcha esmeradamente
arrumada. Caminha para a cama, puxando a professorinha Érica pela mão.
Enquanto senta-se
na beirada da cama e atrai o corpo dela para si, vai saboreando de antemão as
delícias que o aguardam.
Começará por
lhe tirar sua roupa, obviamente. A deitará no centro do colchão e então notará umas
cordinhas na cabeceira e nos pés da cama. Atará as mãos e os pés da professorinha
Érica e começará a cobri-la de beijinhos e varrê-la de mordidinhas e mordidelas
e lambidinhas e lambeções e belisquinhos e beliscões e a amar e lambuzar, sem
nunca tirar da cabeça que o melhor da história toda, o melhor da história toda é
que ela não poderá dar um pio, um mísero piozinho de galinha, de pintinha, de
patinha ou qualquer outro bicho de que vive a palrar feito papagaia na aula de
ciências e lhe permitirá apenas clamar por piedade, contendo aquela sua tagarelice
sem fim, aquelas lições que dá de boca cheia, e se limitará a débeis
gemidinhos, gemidinhos lânguidos de quem tenta reunir todas as forças para
resistir mas no fundo sabe que é e será inútil, pois, mesmo com o poder de
discernimento já embotado pela noção de que sua hora chegou, saberá que aceitar
o amor de Zezinho será apenas questão de tempo e que, em poucos segundos, estará
experimentando na plenitude o inusitado conceito da resignação ante um guri
cuja força poderosa e inclemente – como é óbvio, ó deus – está absolutamente
canalizada para a satisfação de seu intento bestial, a demonstração plena, cabal
de que ele está resolutamente decidido a saciar sua fome de amor e sua sede de
bíblica fornicação e que não se dará por exausto senão dali a infindáveis, longuíssimos
dias em que toda a antiga dimensão que nela ainda resistia das coisas e da vida
e do mundo se diluirá na sua memória como inexequível lembrança e a própria
memória de que uma vez já existiu de fato, concretamente, agora tão remota no
tempo e no espaço, se extinguirá sob o fogo selvagem deste menino-besta que a
ama e devora e inveja e acarinha e louva e condena e tortura, tomando apenas
brevíssimas pausas para apanhar a garrafa de vodka para deixá-la cada vez mais ébria
do que parece angariar mais energia para se deixar amar até desfalecer.
Antes, porém,
Zezinho se lembra de ligar o rádio. Para sua surpresa, está tocando J'e t'aime
moi non plus. A canção o faz lembrar da Cidinha. Cidinha senta na fila d frente. É a primeirona da turma. Seus pensamentos se voltam todos para ela. Sim,
agora vê. É por ela que está apaixonado. A musiquinha do Gainsbourg tem esse
dom. Faz Zezinho se apaixonar por quem estiver pensando na hora. Fosse a professora
Érica, ela diria que ele tem uma capacidade única de mudar seu objeto do amor
assim de repente.
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