A walk down Sunset Strip

Pouco antes de se matar, frei Tito escreveu que o rio de sua infância tinha secado.

(Frei Tito foi selvagemente torturado pelo delegado Fleury e outros cães militares durante a ditadura.)

Primo Levi disse em É isto um homem? que o pior momento era pouco antes de acordar — nada fantasticamente, entrar na vigília, para ele, significava ingressar num pesadelo.

(Se tivesse podido entrevistá-lo, lhe teria perguntado como era seu sono. No livro, fala de tudo menos disso.)

Para mim o momento mais duro é quando desperto dum sonho (esteja dormindo, esteja acordado).

Desde o primeiro, sempre fui um rio Amazonas desembocando no meio do Saara a setenta graus. Assistindo impotente ao extermínio de toda a fauna e de toda a flora com que sonhava há um segundo.

Não ria

Você está num buraco que por aí chamam Brasil.

Apenas chore.



Mundo

Sem filtro, sem gelo, por favor

Para o cabeça-fria
é descobrir que
tem um câncer

para o crente,
descobrir que
a piada é
deus

para o fiel,
que é traído

para o lógico,
que não existe
explicação

para o poeta,
que sua cruz
é a poesia

Para viver é preciso ter um corpo

Ó vida
que insiste 
em ter teu
caminho
próprio

enquanto
insisto em
ter meu
próprio 
caminho

Odeio metafísica

Estava há uns anos sentado numa mesa imunda desses botecos imundos que existem em cada esquina do meu Brasil varonil, a bebericar quietinho minha cerva sem gelo e meu copo contendo reconfortante abundância de Teacher's aguado. Diante de mim estava uma sirigaita dessas a que todos estamos condenados na juventude ou na meia-idade, falando pelos cotovelos e outras partes do corpo.
A fulana queria me convencer de que deus existe, que astrologia tem fundamento, todos devemos buscar o autoconhecimento, o asneirol clássico.
De repente, vendo que eu desligara meu receptor mental, a dona saracoteia:
— Me responde, então: que é que tamos fazendo no mundo afinau au au?
Sim. A fulana queria discutir metafísica.
— De onde viemos? Aonde vamos? — tasca a título de emenda.
— Que horas são? — pergunto ao dono do boteco que assiste gordamente tevê atrás do balcão.
A sirigaita me fuzila cum olhar fuzilante, exigindo uma resposta.
Não existia a facebook. Não existiam uma porrada de outras coisas. Eu nem imaginava que um dia criaria uma postagem sobre aquele episódio. Ou que viria a ser o satisfeito proprietário dum blog. Não imaginava uma porrada de outras coisas

Love me

Tenho a impressão
de que percebi
cedinho que

nunca aprenderia
a viver de
olhos fechados

a cantar de
olhos fechados
a amar de olhos
fechados, a
viver de olhos
abertos




Para Antonin Artaud e só

Se quer encontrar a palavra pesada que podia lastrear nossas vidinhas aéreas se quiséssemos, você não a encontrará em blogs indigentes tramados para juntar um grupinho de diletantes — ou nem isso — em torno do convescote de insetos rastejando em torno de seus euzinhos esfaimados de substância.

Se ousássemos.

A maioria de nós nasce para ser um covarde que se deixa alegremente escravizar pelo primeiro que erga a voz e imponha seu respeito digno das baratas.

Você é o serzinho do em torno.

Em torno do Facebook, em torno da tevê, em torno da lâmpada incandescente, em torno do sol a dançar a dança da chuva.

Foi preciso que fossem a Paris e me trouxessem Pour en finir avec le jugement de dieu para que eu finalmente encontrasse meu antípoda siamês Antonin Artaud.

Não tenho receio de confessar que sempre receei encarar Artaud de frente. Não tenho, nem proclamo, nem nunca proclamei ter esse tipo de coragem. Sou e sempre haverei de ser filho de meu pai, ó verve que é minha e de mais ninguém e ninguém haverá de ma roubar!

ce qui est grave
est que nous savons
qu'après l'ordre
de ce monde
il y en a un autre.

Quel est-il?
Nous ne le savons pas.

Umbro

Manchete de hoje na Folha de São Paulo:
Foi achado hoje às 20:27 o corpo do pretenso poeta (nome omitido em nome do lirismo) à avenida (endereço omitido em nome da fantasia). Segundo o cabo Josimar, da PM de SP, primeiro policial a chegar à cena do evento, o cadáver foi encontrado em estado de graça virado estátua boquiaberta petrificada diante do monitor do computador. Osvaldino, investigador da perícia técnica, instado a emitir um parecer pelo delegado de plantão Diógenes (segundo o cabo Josimar, nada a ver com aquele da lanterna mitológica que dedicou a vida a encontrar um homem honesto), afirmou que no momento do estertor último o suposto poeta parecia digitar uma linha em seu computador (por sinal, bem antiquado, notou Osvaldino sem que ninguém lhe pedisse um parecer a respeito).
O senhor está insinuando que o morto estava criando um poema quando bateu as botas? indaga uma jovem que empunhava um microfone comprido e cabeçudo, suscitando uma miríade de ideias indesejadas nas cabeças maliciosas dos homens presentes.
Não, minha cara, não estou insinuando. Estou afirmando. Em minha opinião, o último ato deste que agora jaz em estado de rigor mortis diante de vossos olhos foi escrever – ou tentar, se me permitem um mínimo de acurácia linguística – um verso em seu pecê.
O senhor já tem elementos para determinar o tema ou para quem se destinava tal verso? questionou Éric Decouty, correspondente do Libération, que passava férias no Brasil e só por acaso tomara conhecimento do triste acontecimento.
Nada mais a declarar! interrompe com seu vozeirão de arauto de cemitério e sua habitual brusquidão, quiçá mesmo com algum tom de raiva e desdém, o delegado Diógenes, sem se dignar a explicar a razão do azedume.
Aparentemente intimidados – incluindo o correspondente do periódico francês –, os jornalistas ampliam a roda que faziam em torno do corpo. Menos Osvaldino, que continua parado no meio da sala, polegar e indicador pressionando o queixo, em pose de intensa introspecção.
Engraçado, exclama de repente, mais para si mesmo que para os presentes. Nosso levantamento preliminar parece demonstrar que esse sujeito aí – e assim dizendo Osvaldino aponta o dedão para o morto estirado a seus pés – não estava no Facebook!
Um burburinho toma conta do ambiente. Escutam-se ohs! ahs! nossas! em diversos diapasões de vozes femininas e masculinas.
O senhor tem certeza disso? ousa uma mocinha com aparência de piranha em cujo crachá é possível ler REVISTA VEJA.
Como disse, detalhou paciente Osvaldino, tudo ainda é preliminar. Mas não encontramos nenhum vestígio de perfil pertencente ao defunto.
O alvoroço cresce. Todos falam ao mesmo tempo com todos. O caso parece de fato sui generis.
Com licença, seu técnico – adianta-se um repórter com expressão vivaz e voz firme porém álacre. – Retomando o tema do verso que o infeliz escrevia na hora da morte, o senhor por acaso conseguiu estabelecer alguma relação entre o óbito e o tal verso? Seria, por acaso, um alexandrino dissimulado em forma de redondilha?
Olha, não disponho ainda de evidência material ou mesmo substancial. Mas estou absolutamente convicto. Tá na cara que ele se empolgou em demasia e seu frágil coração de poeta não suportou a sobrecarga de emoção, entende?
-- Mas ele era mesmo poeta? -- quer saber a zinha da revista, estudando desconfiada e com olhar perscrutador o falecido cuja boca permanecia escancarada como se ele houvesse tentado dizer algo, chamar alguém, pedir socorro um segundo antes do instante derradeiro.
— É óbvio que não. Osvaldino cospe uma grossa catarrada de nojo no carpete do escritório do finado. — Ainda é cedo para afirmar categoricamente, mas para mim não passava de mais um pilantra metido a vate, incapaz até de manter uma conta no Facebook. Hoje em dia tá assim ó ó ó ó ó de sujeitos desse tipo perdidos em alfurjas e cacimbas nesse mundão afora. Vejam, as rugas do rosto sofrido desse homem falam por si. Estamos diante dum solitário, sem vida própria, sem mulher, sem amigos, um fulaninho mórbido e infeliz cuja única companhia eram os fantasmas do passado que tinham invadido sua alma atormentada qual inquilinos sorrateiros. Seja como for, este é o primeiro caso de um pseudopoeta mal-amado morto bem no meio dum verso de que tenho notícia. Foi emoção demais, pobre diabo.
— Também pudera — o repórter francês cresce os olhão pra tela do computador, que ainda está ligado. — Que versinho mais...
— Shhhh! — Osvaldino cruza os próprios lábios com um dedo indicador rijo. — Não admitimos comentários boçais na cena do crime.
Ato contínuo, o técnico, num gesto brusco, arranca o copo que ainda jaz entre os dedos do vate recém-extinto, leva-o perto do narigão e cheira.
— Hmmm, genuíno balla12. Carinha não era nenhum fernando-pessoa mas tinha bom-gosto. Vai um golinho aí?
Sem esperar a resposta dos jornalistas, Osvaldino engole o uísque dum só trago.

Um sopro no escuro

É um sujeito que não está pra brincadeira.
Não topa firula. Detesta rodeio. Com ele não tem etc.
Não brinca.
Não apenas por ser triste.
Não brinca porque não sabe.
Por não saber brincar, por não querer brincar, não vai muito com brincalhões.
Chegou onde está – e ter chegado onde está não foi batatinha – sem  espírito lúdico, não é agora que vai começar.
Quando se dirigem a ele a primeira coisa que pensa é, será que esse aí tá brincando?
Em geral acredita que sim.
Então a segunda coisa que pensa é, se tá brincando, tá brincando de quê?
E a terceira coisa que pensa é, se tá brincando, tá brincando por quê?
Naturalmente, um sujeito que não topa brincadeira não vê sentido em brincar.
Não, não é por considerar perda de tempo. É mais. É pior. Não sabe nem explicar por que – ou simplesmente não tem paciência.
Em geral, quando se pergunta se estão brincando ou por que estão brincando, não está de fato a fim de saber. Para que um sujeito que não topa brincadeira ia querer saber uma coisa dessas?
Até que um dia, um dia qualquer, com nada de especial nem diferente, achou que alguém estava brincando com ele mas, ao invés de sua cabeça menosprezar a intenção do outro à insignificância como sempre fazia, dessa vez ela, cabeça, ficou meio cismada.
E se aprendesse a brincar?
Então perguntou àquele alguém, poderia lhe ensinar?
Quem sabe lhe mostrasse que brincar é gostoso?
Está certo, não brinca. Mas está aberto a experiências. Novas ou velhas.
E, dependendo do caso, pode se abrir a pessoas. Velhas ou novas.
Não tem prevenção contra nada nem contra ninguém.
É o sujeito mais despreconceituoso que conhece.
Pouquíssimas coisas para ele são proibidas, impossíveis, impraticáveis. Embora não seja afeito a brincadeira.
Olha, se lhe der na telha, é capaz de encanar cuma ideia inusitada e ir em frente até ver essa ideia concretizada.
Ou morrer tentando.
De repente pode querer ser médico, vencendo o pavor que tem de sangue e sair por aí furando os outros. Cutucando feridas.
Feridas em seu pior estágio.
Sem nem dar a mínima para quem seja o dono ou a dona da ferida.
Olha, pode até ser dele mesmo.
E tem mais.
Embora não tope brincadeira, ninguém duvide: é bem capaz de brincar de médico.
Chegar no consultório da doutora gemendo, ai dra., acordei cum buraco bem aqui ó.
Aqui? – a dra. lhe aperta o abdômen com as pontas dos dedos das duas mãos.
Ui! – ele não contém um gritinho.
Dói? – ela cochicha em sua vozinha meiga e sensual (ao mesmo tempo).
Sim, doutora – ele faz uma careta de dor fingida. -- Não, agora é mais em baixo...
Aqui? – ela apalpa, aproximando perigosamente o rostinho de anjo da carona cabeluda do cara que não tolera brincadeira.
Suas bocas param poucos centímetros uma da outra.
De repente, ela diagnostica:
São gases.
Aaaaai – ele solta um gemido, lamentando a prisão de ventre e o sonho perdido.

Tudo bem, pode dizer que foi o destino

Tinha de acontecer.
Ligo pra ele em Sanca pra lhe desejar feliz aniversário, ele diz que se lembra de Daniele vendendo rifa da escola em frente de casa enquanto escutava Sexie Sadie dos Beatles vindo a todo volume da casa. Faz tanto tempo que não nos vemos, fora aquela tarde indo pra sede daquela empresa de seguros em algum ermo de Sampa, que passamos encalacrados no trânsito. Combinamos nos encontrar amanhã para uma bebida na Rio Grande do Sul e caímos na gargalhada. Ele está sem trabalho há anos e não tem um centavo sobrando. Penso em lhe sugerir que envie currículos para algumas empresas, mas desisto e ao invés do absurdo da ideia pergunto se tem visto o Evandro. A última vez foi na festa naquela casa perto do bosque. Lembro que também fui mas desisti de entrar na hora agá quando alguém me chamou para outro lance.   Um amigo e era verão. E havia um monte de gente em volta. A música (Allman Brothers, Jefferson Airplane, Quicksilver Messenger Service) estava na última. De fora pude enxergar os barris de chops e a fumaça da erva flutuava pela rua. Espera, pedi. Antes preciso ir o banheiro. A caminho do banheiro um montão de gente, rapazes, garotas, casais, casais. “Vem por aqui”, alguém disse. E fui. Lembro que fiz xixi e quando saí sentei na grama diante da casa perto do bosque e tirei caneta e papel da minha bolsa tiracolo e escrevi um poema dos meus poemas bobos para ele.


(Amanhã vou falar das sombras.)

Da série "Novos contos para crianças", III


A criação

Deus fez o mundo em dois segundos, vomitou seis meses e vem descansando desde então, todos vocês sabem. O que quase todos desconhecem é que Deus teve um filho, Deusinho. (Alguns dizem que teve também outro, chamado Cristo, mas Sua paternidade nesse caso ainda é polêmica.)
Deusinho, ao que tudo indica, não estava nos planos divinos (desgraça que afeta nove entre dez de nós pobres mortais, não é mesmo?).
Consta que, a princípio, o Maioral pretendia apenas implementar uma explosão ciclópica. Vocês manjam: aplicar uma chacoalhada em todas as coisas pra quebrar o tédio (que, no caso d'Ele, era deveras abissal).
Afinal, naquela época o universo era um nada só: nada da mesma cor, nada do mesmo gosto e nada do mesmo cheiro. Nem o Gajo, com seu infinito Saco pra aturar qualquer encrenca que surgisse, tinha paciência de aguentar tamanha pasmaceira.
E assim Deus, vocês também sabem, fez.
Numa data e hora que ainda hoje é desconhecida, Ele pressionou o polegar contra o indicador da mão esquerda — pois, obviamente, o Gostosão era canhoto  e deu um  com perdão da palavra  puta dum estalo. Um estalo seco e, claro, metálico.
Bum! nada foi para os ares  ares que àquela época ainda não existiam, mas isso é assunto para outra ocasião.
Os cientistas, muito tempo depois, batizaram essa explosão com o nome de Big Bang. Se fôssemos nós, daríamos chamaríamos bem diferente, não é mesmo, meus leitorzinhos? Mas o que está batizado, batizado fica. (A menos que os nossos valorosos vereadores um dia resolvam mudar o nome de Big Bang pelo do presidente da câmara ou merda que o valha.)
Certamente vocês vão perguntar  já que são tão espertinhos  de onde o Grande Sabichão foi tirar essa ideia porraloca de criar o mundo a partir duma explosão. Não seria muito mais simples ter inventado uma grande, uma enorme, uma colossal buceta que começaria então a ejetar gente à medida do necessário? Pois é, eu também acho. Mas, cá pra nós, tenho uma teoria para explicar esse aparente nonsense divino. É que, com a explosão, nós seres humanos já nasceríamos surdos e cegos e com os nervos em frangalhos. E se essa foi de fato a intenção d'Ele, temos de reconhecer que o Cara obteve o efeito desejado.
E o Deusinho? Como é que entra nessa história?
Bom, a origem do Filhinho do Patrão ainda é controversa. Alguns historiadores dizem  ou melhor, afirmam  que Deus exagerou no entusiasmo na hora em que triscou os dedões. Aparentemente, o estalo, atingindo decibéis imprevistos até mesmo para o Crânio, resultou em várias  ainda não se sabe quantas ao certo  com o perdão da palavra  Cagadas. Isso mesmo, com cê maiúsculo. E uma dessas Cagadas, especula-se, foi a geração indesejada dos indesejados Adão e Eva.
Bem, a primeira conclusão que podemos tirar desse início da criação é que nosso futuro não seria nada promissor. Parece que era isso mesmo o que o Chefe pretendia.

Da nova série “Contos para crianças”, II


Zezinho tá de saquinho cheio com a professorinha Érica. É muito blablablá demais. História disso, capital daquilo, que dia o napo leão casou com a napa leona, quanto é uma dúzia de laranja dividido pela classe, não suporta laranja, detesta fruta, o que gosta mesmo é ficar no banheiro pensando na... professorinha Érica.
Zezinho precisa dar um jeito. A situação não pode continuar assim. E o único jeito que conseguiu pensar depois de muito matutar foi... sequestrar... a professorinha Érica.
Agora só precisa dum plano. De preferência, bom.
Pesquisa no google os tipos comuns de sequestro. O que rola mais é aquele em que o sujeito tá saindo de casa ou da empresa e é interceptado, rendido e levado pela quadrilha num carro roubado.
Zezinho torce o narizinho. Ainda não sabe dirigir. Nem roubar carro. E se chamasse seu coleguinha de classe Marquinho pra dar uma força? Ná. O Marquinho é o maior cu-de-ferro da escola. Só toparia uma tal empreitada se depois fossem estudar aritmética na casa dele. Até que podia, confabula Zezinho. Sempre vale a pena ver a dona Vanda, mãe do tontinho. Às vezes passa horas no banheiro em rituais litúrgicos tendo dona Vanda como deusa.
E se convidasse a professorinha Érica prum drinque? A ideia até parece boa. Onde seria? Bom, tem aquela lanchonete na avenida por onde passa todos os dias a caminho da escola. Sentariam numa daquelas mesinhas que ficam na calçada, ela pediria uma garrafa de vodka ultragelada. Ao ouvir o pedido, Zezinho simularia carinha de espanto e perguntaria, como quem não quer nada, “Uma garrafa inteira de cara, professorinha Érica? Não seria melhor começar cuma kaipiroska de limão?” Ao que a professorinha Érica o repreenderia com aquela habitual rabugice de mestra, “Quieto, menino! Quer ficar de castigo no canto da parede?”
Zezinho então daria de ombros e pediria um suco de goiaba, talvez melancia.
Agora viria a pior parte. Sobre que conversariam? Desde pequenino é uma de suas maiores dúvidas. O que conversar cuma mulher. Às vezes fica espiando casais de namorados passeando pela calçada perto de casa, se perguntando que é que será que esses dois falam tanto um pro outro. Outras vezes procura escutar uma das conversas entre seus pais mas os dois nunca conversam, só ficam lá jogados no sofá da sala de olhão grudado na tevê.
Por outro lado, considerando que a professorinha Érica pediu uma garrafa inteira de vodka, quem sabe ela não se encarrega de conduzir o papo? Mas tomara que não me venha com aquela onda de cultura indígena quando Cabral descobriu o Brasil, como fez hoje cedo na aula. Os índios naquela época eram politeístas, perorou diante da turma de mulinhas mumificadas. Acreditavam em vários deuses...
Um brinde a nós! Zezinho interromperia o arrazoado de sua preceptora, erguendo o copão de suco de ameixa e fazendo tchin-tchin contra o copo de vodka vazio, se dando conta, então, de que a professorinha Érica já enxugara até a última gota o litro de smirrnoff.
Garçom, mais uma! ela ergueria o braço na direção do caixa da lanchonete, fazendo “uma” com o indicador em riste.
Puxa, fessora, a senhora até que bebe legal...
Zezinho, vamo deixar de papo furado, tá? Tô sabendo pra que me trouxe aqui!
O menino arregala os olhinhos. Tá sabendo? Como? Puta merda, por que foi contar pro Marquinho. Eu e minha língua comprida.
E tô sabendo mais. Que desde o primeiro dia de aula você tem feito rituais pagãos em minha homenagem no banheiro de sua casa. E da escola também! Não adianta negar.
Ele baixa os olhos. Mil pensamentos passam por sua mentezinha de guri safado mas não lhe ocorre sequer um “a” que lhe pareça apropriado argumentar.
Nisso sente alguma coisa na virilha. Seus olhos, já baixados, veem que uma mão o acaricia. A mão da professorinha Érica!
Vem cá, garoto. Não precisa se envergonhar não. Você se acha mas é muito bobinho. Nem se deu conta de que a aula de hoje cedo foi uma indireta minha...
De repente tudo fica claro na cabecinha confusa de Zezinho. Ele se contém para não dar um tapa na própria testa. É mesmo! Aquela história dos deuses, das deusas, das dríadas, das ninfas e de todos aqueles entes etéreos e míticos que deslumbram sua imaginação desde tempos imemoriais. Como pôde ser tão burrinho?
Podemos ir agora?
As sobrancelhas dele saltam. Tudo que consegue notar são os olhões da professorinha Érica a arder na direção dos seus.
Garçom, a conta! ela ergue o braço com o dedão em riste mais uma vez. Num segundo mágico estão na calçada.
Não vai abrir a porta pra sua fofa?
Só então Zezinho percebe o Chevette 87 amarelo ouro estacionado diante da lanchonete. O carro parece saído dum lava-rápido, cheira a óleo e detergente.
Você dirige! ela atira um molho de chaves nas mãos dele.
Aonde vamos? ele quer saber assim que se instalam.
Homem que é homem não faz uma pergunta desse tipo a uma dama.
E agora?
Dá a partida.
Não tem a mais ínfima ideia do que fazer.
Procura raciocinar enquanto engata a primeira e acelera. Tem aquele hotelzinho na rua atrás da escola. Abana a cabeça. Fuleiro demais, indigno duma dama. E aquele motel na saída da cidade que sua irmã vai todo fim-de-semana com o namorado? Putz, muito longe. E nem sabe onde fica. Na certa se perderia, faria papel de tonto.
De repente tem um toque de gênio. Como não pensou nisso antes? Sim! O barraco do Agenor. Sabia que os altos papos que levava com o sujeito que tem um carrinho de pipoca na esquina da escola um dia viriam a calhar. E o melhor de tudo é que sabe onde fica.
Zezinho gira o volante do Chevette, dobra a primeira esquina. Depois de alguns minutos estaciona, desliga o motor.
Chegamos. Evita olhar para a professorinha Érica.
Desce, contorna o carro, abre a porta para ela, a ajuda a sair, a toma pela mão.
Bate na porta do barraco, aguarda. Ninguém atende. Experimenta a maçaneta, a porta se abre.
Cômodo único, simples e limpinho. Ao fundo, uma cama de casal de colcha esmeradamente arrumada. Caminha para a cama, puxando a professorinha Érica pela mão.
Enquanto senta-se na beirada da cama e atrai o corpo dela para si, vai saboreando de antemão as delícias que o aguardam.
Começará por lhe tirar sua roupa, obviamente. A deitará no centro do colchão e então notará umas cordinhas na cabeceira e nos pés da cama. Atará as mãos e os pés da professorinha Érica e começará a cobri-la de beijinhos e varrê-la de mordidinhas e mordidelas e lambidinhas e lambeções e belisquinhos e beliscões e a amar e lambuzar, sem nunca tirar da cabeça que o melhor da história toda, o melhor da história toda é que ela não poderá dar um pio, um mísero piozinho de galinha, de pintinha, de patinha ou qualquer outro bicho de que vive a palrar feito papagaia na aula de ciências e lhe permitirá apenas clamar por piedade, contendo aquela sua tagarelice sem fim, aquelas lições que dá de boca cheia, e se limitará a débeis gemidinhos, gemidinhos lânguidos de quem tenta reunir todas as forças para resistir mas no fundo sabe que é e será inútil, pois, mesmo com o poder de discernimento já embotado pela noção de que sua hora chegou, saberá que aceitar o amor de Zezinho será apenas questão de tempo e que, em poucos segundos, estará experimentando na plenitude o inusitado conceito da resignação ante um guri cuja força poderosa e inclemente – como é óbvio, ó deus – está absolutamente canalizada para a satisfação de seu intento bestial, a demonstração plena, cabal de que ele está resolutamente decidido a saciar sua fome de amor e sua sede de bíblica fornicação e que não se dará por exausto senão dali a infindáveis, longuíssimos dias em que toda a antiga dimensão que nela ainda resistia das coisas e da vida e do mundo se diluirá na sua memória como inexequível lembrança e a própria memória de que uma vez já existiu de fato, concretamente, agora tão remota no tempo e no espaço, se extinguirá sob o fogo selvagem deste menino-besta que a ama e devora e inveja e acarinha e louva e condena e tortura, tomando apenas brevíssimas pausas para apanhar a garrafa de vodka para deixá-la cada vez mais ébria do que parece angariar mais energia para se deixar amar até desfalecer.
Antes, porém, Zezinho se lembra de ligar o rádio. Para sua surpresa, está tocando J'e t'aime moi non plus. A canção o faz lembrar da Cidinha. Cidinha senta na fila d frente. É a primeirona da turma. Seus pensamentos se voltam todos para ela. Sim, agora vê. É por ela que está apaixonado. A musiquinha do Gainsbourg tem esse dom. Faz Zezinho se apaixonar por quem estiver pensando na hora. Fosse a professora Érica, ela diria que ele tem uma capacidade única de mudar seu objeto do amor assim de repente.