Via Sergio Endrigo

Sil,
Será que se te desse um beijo, você se transformaria de novo na princesa que conheci?
Ou não é assim que as coisas funcionam no mundo “real”?
Correríamos o risco de nos transformar a nós dois em inesperados entes?
Não era assim que as coisas funcionavam entre nós?
Lembra a noite que te disse,
Por que é que, para me aproximar de você, tenho de me distanciar tanto de mim?
Eis-me novamente aqui às voltas com minha solidão.
E sempre que digo que estou às voltas com o que quer que seja, me lembro que meu mundo parou há tanto tempo, nem lembro quando.
Foi talvez numa época – que não sei bem se houve de fato – em que costumava dizer coisas como “era assim que as coisas funcionavam”.
Pareço recordar que naqueles tempos as coisas eram tangíveis e havia, sim, algo mágico nelas e no mundo e nas pessoas e tudo e todos funcionavam – ou a mim ao menos assim parecia – e eu não precisava recorrer à mágica nem a qualquer outro truque mental para que o meu girasse...
... nas voltas que meu mundo já não dá.
Você certamente dirá que exagero – o mundo de ninguém deixa de dar voltas.
E certamente acrescentará: estamos todos juntos neste planeta, afinal, e a ninguém é facultado o direito de se excluir da destinação humana.
E, pela enésima, ficarei mudo.
Pois não saberei o que responder.
Mas, aqui dentro de mim, continuarei certo de que não, meu mundo já não dá voltas.
E cada um de nós terá então provado ao outro sua visão.
Você, a de que a vida pertence aos pragmáticos.
Eu, a de que você está certa.
Mas o que eu queria provar mesmo é que não sei, nem quero saber, a diferença entre minha poesia e minha prosa.

Tamagochi

Sô,
Chega de amor
Não tenho mais cura
Não tenho mais dor
Vem, me dá tuas botinadas
Me chuta, espezinha
Destroça,  acarinha
Me chama de suicida
Tô exausto, entediado,
Desencantado, sem saída
Me deixa aqui pairando cirurgicamente entre a vida e a morte no único lugar que me serve

Me deixa aqui sonhando
Que deus
Nasceu
Em comemoração me deu esse botãozinho
Botão que posso desligar amanhã cedinho
Num aperto suave, descomplicado, indolor
Depois que me deres teu todo teu amor

Chama o Altair quando me for
O Téo, o Jofre, Cacá, Nicanor
Traz cada um dos homens teus
Vamos enfim festejar deus

Que trabalho hediondo ter de te dar atenção
Escutar, fazer de conta que gosto e ouço
Preparar a cabeça e o corpo para o coito
Fingir que sinto prazer, negociar minhas carícias
Gemer no tempo certo, balbuciar as asneiras escrotas
Que adoras ouvir, papagaices tão repisadas que se viessem dos alto-falantes do aeroporto de Congonhas me dariam mais tesão, não esmorecer na hora agá, espargir cinco gotículas leitosas, fazer cara de gratificação, de gratidão, de, ó mãe, respeito

Sô,
Me deixa aqui no fim do meu dia
A salvo dos vizinhos e do carteiro
Liga pro motoqueiro, cancela o pedido
(Não quero mais saber se ele cuspia na nossa pizza de atum)
Os bebuns dos butecos nas proximidades
Quero me preparar, não consigo
Adeus, minha querida
Adeus abulia. Anomia. Distopia
Vou seguir o cheiro de melancia

A outra válvula da nossa vida

Morri no dia 9 de maio. Era noite. Voltava do trabalho para casa e bati de frente. Nunca consegui saber a marca do outro veículo. Nem a cor. Aquele dia tinha a cabeça cheia de problemas do escritório, gente me enchendo o saco, contas que não batiam, decisões que tinha de tomar não sabia como, fatos que queria esquecer mas que insistiam em desfilar doentiamente diante dos meus olhos, tarefas, milhões de tarefas que começara e que nunca terminava, seres de todos os tamanhos e cores e tipos pululando dentro do meu cérebro qual sapos humanos, entradas que devia tomar e não tomava, retornos que passavam sem que me desse conta, placas com dizeres que não compreendia, saídas para Tóquio, Ontário, Noviorque. No fundo, sabia. Minha experiência estava dando errado. Mas é a minha experiência, pai. Quero gritar. Tem de fazer sentido. Ou então não quero deixar vestígios. Não persistir. Há pessoas que escrevem diários. Registram o que fazem, locais onde passam, pessoas com quem falam, acidentes que sofrem, o calor das mãos que apertam, mágicas com que deliram. Informam-se a si mesmas de suas experiências. E de sua certeza na ciência. E sua crença na natureza. E sua compreensão da física. E por que são importantes. (Não só para si mas para os outros.) Não precisam duma guerra mundial para se perceberem ou perceberem o mundo. Aquela noite me deixei ofuscar pelas luzes queimadas do meu passado, as figuras que me perseguiam finalmente me agarraram. Não quis resistir. Deixei-me recrutar pelas forças do mundo, esse exército de peritos em viver. Confie em mim, papai pedia, pedia, pedia. Simplesmente confie em mim. Quando cresci me dei conta de que não estava disposto. Tenho de praticar, pai. Não posso fugir. As Máquinas são extremamente velozes e estão demasiadamente perto – Máquinas que já me avaliaram e pesquisaram e se apossaram de mim, tomaram minhas medidas, determinaram as cores do meu mundo e o palco dos meus dias, Máquinas que fazem parte do meu organismo e estudam minhas dúvidas e calculam minhas respostas e geram meus obstáculos e impedem meu avanço e me livram do meu colapso. Matematicamente. Tantos equívocos poderiam ter dado randomicamente certo, o acúmulo de todas minhas feiúras poderia ter resultado em minha beleza e a soma de todos meus problemas químicos acidentais poderia ter desabrochado num avanço científico. Mas agora chega. Bato de frente c’um veículo que vem em sentido contrário, síntese dos meus princípios. Só posso dizer que tinha espantosa paixão pela vida. Que os computadores eram meu maior interesse. Que desejaria ter estudado astrofísica, para chegar à nossa origem, ao biguebangue. Que, sim, queria ter ido mais fundo. Ao útero milleriano. Sim, queria ter sido absoluto. E professor de geografia só para comer a deliciosinha Marinha do quarto ano. E que tive um pai que me amou. E, acima de tudo, me quis. Uó.

Fui buscar o título que caberia aqui

Você percebe que as pessoas ouvem quando elas estão longe, como se pudesse ver o som viajar.

Cavoucando cando ando

Nascemos impacientes com a demora da morte

Ele voltou III



Não há contenção quando precisa tocar no assunto preferido: Bucetas. Bucetas cabeludas, bucetas desnudas, bucetões gorduchos, butetículas ensimesmadas. Fala Delas amiúde. Compulsão oral, obsessão do tempo inteiro feito uma sucuri mitológica a se perder no infinito nito ito deste mundinho bucetífero em que haverá de terminar ressequido e finalmente destituído de sua verve sobre o concreto infecundo num canto escuro duma pracinha municipal que um dia prometeu resplandecer em jardim.
Uma Fantasminha interna Embucetada evoca a Bucetinha mais mimosa que já existiu neste planeta ao longo de cem milhões de anos. Da qual não pronunciará palavra. Às vezes passa meses e até anos sem vontade de Dedar a Perinha Celestial. E olha que Elazona deu mais que cadela internada no Cil em canio municipal. Não é por aí contudo e sim, golpe baixo, com a pulsante Bucetoninha Cabeluda Túrgida Beiçudinha infantil de suas fantasias primevas oniricazudas. A Brochura tenha sido talvez desencadeada aquela noite em que, bêbado feito malabarista, desmaiou nos braços da Mesma. Talvez não. Certas Bucetáceas têm esse dom. O que interessa é que ele fez a travessia do tempo sonhando a maior parte, quer dizer, quase, isto é, beco sem saída, sorry, acontece.
A Fantasminha interna lamenta não ser afeita a pintolins. Alega, equivocadamente, apressada qual uma doninha de casa prestes a deixar a cria no portão da escola e retornar quanto antes para o braços de músculos tesos e bem-definidos do Raimundão, faxineiro recém contratado pelo condomínio expert em ressuscitar bucetas classe-média à beira do mofo eterno, que pistolinos ensejam muito mais metáforas, comparações, metonímias e alegorias. Engano. Grandes escritores fantasmagóricos não podem virar falófilos por força das circunstâncias, esquecer sua missão no mundo por calculismo ignóbil. Explorar a Origem de Todos os Males é deste fado mote e tapeação gentil. Não estaria sendo nem um pouco sincero assim não fosse.


Tudo

A aml tem de tomar uma atitude. Neste exato momento ele está em algum lugar lá fora cometendo das suas. Até quando vamos permanecer inertes enquanto ele vai disseminando a cultura guarany pelas mais remotas plaguas deste país, levando makakitos a comer cada dia mais pizza e a brochar cada dia mais retumbantes e nossas mulheres a se atirar hipnotizadas nos braços dos nossos vizinhos, patrões, empregados, frentistas e, sobretudo, entregadores, sem falar dos faxineiros? Há que fazer algo a respeito imediatamente. Nosso maior erro foi ter vacilado quando ele afirmou com todas as letras que seu romance abordaria principalmente o órgão genital feminino. Se o tivéssemos eliminado então, impedindo que publicasse o livro, que suas idéias forasteiras permeassem o imaginário dos nacionais, teríamos evitado a tragédia. Avisamos, ninguém nos quis dar ouvidos. Eis o resultado. Agora queremos saber: até quano vamos ficar assistino de braços cruzados?


III

Alguns anos depois não pôde resistir e rendeu-se a este poema pensando nela:

Queremos morrer antes
Muito antes, amor, e
Se quiseres, se deixares,
Esperar morto que as
Asas desabrochem e as unhas
Parem de crescer e os pensamentos
Se purifiquem e então se  possa ressuscitar
Sombra e pairar atrás de ti, te
Guardando anjo do anjo, até a
Hora da tua partida para que venhas
Te juntar a si e a si libertar


I

Quando Giraldi publicou EEUSEUTEUROM-EUPIROCOORFEUDOEUMEUEUE, Plinio Santos, presidente da academiamakakitadeletras, convocou os imortais para sessão extraordinária imediata. Os acadêmicos em peso expressaram desejo de comparecer — o único problema foi o horário: 3:15 da manhã.
Como é sobejamente sabido, o nascimento do mais jovem membro da aml remonta ao século xix, sendo 122 anos a idade média dos imortais. Portanto, tirá-los de suas camas às três da matina e obrigá-los a se lomover até o velho prédio no Castelo, construído em 1922 pelo governo francês em homenagem ao centenário da independência do Brasil e no ano seguinte doado pelos sapos à aml, seria tarefa razoavelmente difícil. As enfermeiras não estavam logrando arrancar os preclaros anciãos de suas máscaras de oxigênio.
— Diga que a aposentadoria deles está em risco — recomendou a secretária do presidente a cada uma delas.
Tiro e, ui, queda. Em poucos minutos a primeira limo parou diante do velho prédio estilo Tudor da avenida Presidente Wilson e o primeiro imortal foi trazido ao grande salão de reuniões em sua cadeira de rodas dourada com ornamentos em prata e estanho.


II

A porta do passageiro se escancara. Dois estranhos entram.
Putz. Como foi deixar a porta destrancada?
Homens de terno e gravata escuros. Cisudos e distintos. Um senta atrás. Outro ao lado.
— Segue — o do lado diz.
— Que cazzo?
Ergue um braço na direção do homem. O sujeito afasta uma das abas do paletó, a coronha madrepérola da pistola reluz incomodamente. O detrás pressiona um troço pontudo duro contra seu fígado.
— Segue. Devagar. Sem frescura.
Ensaia outra reclamação. A dureza no fígado machuca. Acelera devagarinho.
Desce a Augusta, passa pela Colômbia, atravessa a Europa.
— Entra na Faria Lima — o do lado ordena.
Passa pelo Iguatemi, dá vontade de descer e traçar um sanduíche de peito de peru c’um suco de melancia e salsão. Para no farol da Rebouças. Um peême postado na esquina anota multas no talão. O sujeito detrás cutuca seguidamente o cano em seu fígado. O do lado enfia a mão sob o paletó. Considera as opções: buzinar, arrancar fritando os pneus, saltar do carro. Todas as três.
— Não vale a pena. Acredite — o do lado diz.

Enfim

Mario Quintana disse, não sei se em verso ou meramente em proclamação planejada à posteridade, o seguinte: a vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.
Li sentindo os lábios se preparando para um sorrizinho sábio. Esses mestres são pródigos em nos comover com seus dísticos edulcorados.
Um dia papai me comprou uma coleção, quinze livrões azulados de que ainda guardo meia dúzia na estante da sala, um, meu preferido, li anos a fio, ainda hoje me atrevo, desconfortado, a abri-lo numa página ao acaso, é assim que gosto de ler, acidentalmente como tudo que é significativo nesta vida, tive uma infância e pré-adolescência aninhadas na perplexidade e quando escrevo as palavras que brotam dos meus dedos produzem esse milagre de me lembrar que a seiva intratável que corria em mim aqueles tempos continua a determinar as escassas impressões que consigo extrair do mundo, mas que não permito que se transformem em LEMAS que esmagariam meus sentimentos qual o tacão dum soldado nazista sobre a boneca de louça da judiazinha do Gueto de Varsóvia num desses estúpidos filmes que Spielberg fabrica para arrancar gotas salgadas das glândulas lacrimais da freguesia.
A presidenta na cerimônia inaugural vocifera juras e ultimatos, o jornalista elenca as mazelas dos partidos, o crítico tripudia das pretensões da romancista, o blogueiro tenta convencer seu minguado público de que vale a pena perder três minutos na leitura de seu último post, o atendente atrás do balcão me explica em minuciosos detalhes como cada um de nós deve se comportar e que tipos de pensamentos deve evitar para ser inevitavelmente feliz.

Vago aceno de adeus

Pra que solenidade?
Vamos sentir apenas 
Confrontando entre nós
O que sentimos em comum
Aceitando que não somos superhumanos
Com o dom de fazer que cada
Sentimento comum seja
Exatamente o mesmo

Também tenho direito à catarse

Solidão é liberdade.
A importância da liberdade é relativa. Faz diferença quando você se sente estrangulado. A ponto de desmaiar.
Não duvido ser capaz de desmaiar por outro cedo ou tarde. Sei que vou me espantar mesmo assim.
Levei tempo demais para assumir que tenho essa necessidade de atingir extremos. Uns três-quartos de toda minha interminável vida. Podia ter começado a praticar mais cedo. Hoje sei que tudo é questão de prática. Antes me achava demasiado puro para macular minha inocência.
Os de-bem-coa-vida anunciam aos mil ventos que você pode esticar uns cinco anos na existência se não fumar. E mais sete se não beber. E outros seis meses se engolir verdura todo dia no almoço. Faço as contas em retrospectiva. Devo ter vivido uns três dias inteiros a cada tragada que dei num cigarro. Somando, deve dar aí uns 180 anos. E a cada trago num balla12 provavelmente vivi uns quinze dias. Doze, a cada gole numa kaipiroska. Trinta e dois a cada uma daquelas golfadas de Cavalinho da hora do almoço até a manhã seguinte na rua detrás de casa entre os 13 e os 17. Total geral, sou mais longevo que Matusalém. E tem o agravante da intensidade. Só aí posso multiplicar por quatro. Sem falar que a cada cigarro tragado e a cada gole bebericado ia me desdobrando em sei lá quantos outros eus e outros nós e outros eles. (E, sendo um cavaleiro, pouparei meus quase dois leitores da especulação de quanto avancei perpetrando a única lida a que jamais dei, e ainda dou, alguma importância – o farejo de bucetinhas de raparigas em flor ao cair da tarde.)
Posso assim concluir que “já” ultrapassei a marca dos mil anos faz tempo. Com outro agravante – me sinto inusitadamente novo pra minha idade.
Melhor ainda – sou atemporal. Um tico mais de sorte podia ter caído nas mãos de pais leitores de Nietzsche, aprendido a cuspir na cara da humanidade aos tenros dez anos ao invés de me submeter à “experiência” de tolerar a cagação de regras dum punhado de profes orgulhosos da própria mediocridade que me ensinaram a contento a grande lição de desprezar as estrelas para me concentrar no tremular das minhas frágeis pernas.
Pelo menos duas pessoas “já” me disseram que viverão mais de 100 anos. Em ambos os casos, estávamos num papo casual e fiz que não dei importância. Não, a importância de viver mais de 100 anos não é relativa.
Passado o trauma, me pus a pensar. Que é que leva alguém a almejar a viver mais de 100 anos? Excesso de hollywood? Overdose daqueles filmecos de inspiração fantástica que brincam com a noção da imortalidade? Haverá na mente humana algo mais imbecil que a aspiração à imortalidade? Que é que leva alguém a se entregar a uma fantasia pueril ao mesmo tempo em que deixa deploravelmente de lado a experiência do momento? E as implicações dessa longevidade futurista, cristo redentor, de que já falei outrora e não estou disposto a me repetir?
Os poetas todos cantam e cantaram o império do momento – um  segundo, ou uma fração dele, em que você se rebela e com um reles meneio da mão afasta para longe as toneladas de ensinamentos e “experiências” alheias que tentaram lhe entuchar na cachola e abre a boca e as narinas em busca do que é e do que é seu, só seu e de mais ninguém.
É um momento terrivelmente solitário.
Requer um tipo de coragem que não nos ensinaram a ter nesta nossa cultura católica refratária à individualidade.
Esta nossa cultura católica em que tudo é milagre.
E sob a qual eles operam o grande milagre de se olhar no espelho e não se enxergar.

Ele voltou II

Cabo conectado. Acorda com o zumbido, o relógio eletrônico de plástico apitando sete e meia. Levanta, os pés dão um passo e para, indeciso se continua ou volta para a cama. Pelas frestas da persiana sente o brilho do sol. O corpo fica instantaneamente inquieto, o sono se dissipa. Estamos no verão, tenta-se pensar. Os olhos olham o livro de 230 páginas que deixou no criadomudo antes de dormir ontem. Apanhamos, abre-se ao acaso. Página 115.
Tereza dorme ao lado e acorda.
— Ligue o computador e envie os emails.
Ela liga e mexe o mouse e o protetor de tela desenvolvido por Giraldi, pulverizando randomicamente citações de grandes escritores na tela sob efeitos plásticos belos, fiction is obliged to stick to possibilities. Truth isn't, caracteres verdourados em fundo negro, desvanece. A caixa postal de Gardini está carregada, diz, os desenvolvedores não pensaram nisso.
É Foda quando você quer enviar um email a clientes registrados.
 Alguns têm conteúdo ao mesmo tempo orgânico e fotoelétrico. Sabe o que isso quer dizer? Que podem converter impulsos elétricos em luz e vice-versa. Uóxito. O investidor imagina o potencial daquilo.
— Tenta de novo.
— Semana passada enviamos emails a todo mundo que está em nossa mailing list e anunciamos a disponibilidade dos nossos serviços e agora vejo que todos eles voltaram quase imediatamente.
— O provedor apresentou algumas dezenas de razões técnicas, de natureza variada, entre elas  conta inexistente, acesso ip do país negado, nome do hospedeiro ou domínio não encontrado, destinatário inválido, aparentemente este email não foi solicitado, esta mensagem tem cara de spam, mensagem recusada por restrições ao conteúdo, não existe caixa postal com este nome, não listado no Domino Directory.


 O email continua. A demissão do Neves foi um balde dágua fria nas pretensões da empresa, pois lançou toda a diretoria na escuridão. Neves era o único que havia acompanhado a pesquisa do começo ao fim. O cara tem mãos mágicas, nas  palavras dum dos pesquisadores. Era uma verdadeira dádiva para a Dorusa, um presente de Deus. Mas os cretinos jogaram fora. O que ele fez? Associou-se ao nosso amigo G, levou toda a papelada que tinha juntado para o laboratório dele. No dia 10/5 deram início à nova pesquisa. A Dorusa, claro, conseguiu levantar uma boa quantidade de informações antes que Neves e G pudessem deter a invasão, mas o cerne das descobertas ficou intacto, o que é igualmente claro — os biguemaqueanos não são páreo para os nossos dois crânios. De qualquer forma a Dorusa logrou alguns tentos e amealhou provas suficientes para pelo menos abrir um processo contra Neves por roubo de documentos altamente confidenciais. Além dos métodos invasivos contrataram um investigador para seguir o cara, até que puderam traçar uma ligação entre ambos. A mente acha porém que isso não é motivo para preocupação.
O investidor clica no botão Responder e começa a digitar.
Pergunta 01: por que Gardini admitiu ter surrupiado os documentos se até então ninguém sequer havia desconfiado dele?
Pergunta 02: as conclusões do trabalho dele de absolutamente nada serviriam sem os dados complementares desenvolvidos por G e que nunca saíram do laboratório de G. Como a Dorusa fez a conexão?
Pergunta 03: Os resultados obtidos por Gardini eram de interesse para todo mundo e trariam prosperidade a toda a indústria de software. Quando tentaram fazer engenharia reversa nos protótipos dele, os técnicos da Dorusa sabiam — e muito bem — que o sistema de G detectaria a invasão. Com isso a Dorusa entornou o caldo e a Porra degringolou e a corda quebrou do lado dela mesma. Por quê?
Pergunta 04: Com uma distribuição gratuita e sem cadastramento o programa atingiria cada um dos computadores existentes no mundo. Por que a Dorusa se recusou a aceitar?



Desmontando estrelas do nosso céu. Seria bom começar por G. Éramos felizes quando nos reuníamos em família, essas coisas simples. Saímos da estrada no km 25. Precisamos de novas doutrinas, dizemos. Essa área não é diferente de qualquer outra. Ninguém está mais interessado em suas  motivações depois que elas se tornaram públicas. Sim, faz sentido, ele diz.
Gardini fora isentado de responsabilidade. Afinal a participação dele se limitara ao desenvolvimento das inovações no terreno da química orgânica e sua integração com o computador de Giraldi.
— Vamos parar e tomar uma cerveja — ele diz.
Dirijo mais alguns quilômetros até encontrar um posto de gasolina no km 25. Estaciono, descemos, esticamos os braços para o alto, relaxamos. As pernas entram na lanchonete, pocilga macaquita salvessalve. Sentamos em duas banquetas que são um desafio às leis da física, diante dum balcão que é uma cusparada na cara da higiene. O atendente leva vários minutos para girar o pescoço em nossa direção. Quando o faz finge que não nos vê e prossegue em sua lida de encadir ainda mais o ambiente em que vive esfregando um pano imundo no chão. O nossossanchopança dá um assobio e o rapaz por fim decide vir até nós, insolente, desafiador.
— Uma brama.
— Está em falta.
— Ai que drama.
— É a alta.
— Então serve umescol.
— Servi a última indagorinha.
—  Triste terra do futebol.
— Esta aqui também é boazinha.
Se abaixa, abre a porta do balcão, e quando se levanta tem uma garrafa na mão.
— Não conhecemos essa marca — o nossossanchopança diz.
— Carece conhecer não. É boa igual às outras.
—  Parece falsificada. Veja aqui, o nome e o endereço da fábrica estão apagados.
— É a mais vendida em noviorque — o balconista diz.
O nossossanchopança põe-se em guarda. Confiança nunca foi seu forte.
— Este rótulo tem algo de errado.
— Você está sendo paranóico demais — dizemos.
— Uma das poucas qualidades que temos é a capacidade de aprender com a história. Veja este emblema. O que faz a fachada duma universidade num rótulo de cerveja?
Os olhos olham. É de fato o prédio principal da universidade de Oxford. Fora lá que Giraldi apresentara pela primeira vez sua série de estudos sobre a conversão de cristais orgânicos em componentes eletrônicos.
— Vão tomar a cerveja ou não? — o atendente pergunta.
Rápido feito um felino, o nossossanchopança atira as duas mãos sobre os braços do rapaz e o imobiliza.
— Vamos. E você também vai.
O sujeito começa a sedebatertentandoescapar.
— Qual é? Tá maluco?
Apanhamos a garrafa, depois um abridor, extraio a tampa. O nossossanchopança sujeita os dois braços do rapaz às costas. Estendo a mão para o rosto do sujeito e prenso seu nariz  entre nosso polegar e a falange do indicador para que ele não possa respirar. Ele é forçado a abrir a boca e o nossossanchopança lhe enfia o gargalo da garrafa até a garganta. Quando tenta soltar-se o atendente acaba engolfando uma grande quantidade do líquido. O nossossanchopança então deixa ele se desvencilhar. O rapaz leva a mão à garganta e cai de joelhos. Nos olha resfolegante, lágrimas escorrendo pelo rosto.
— É, tá em falta — o nossossanchopança diz.
— Ai que drama — dizemos.
O rapaz cai morto. Filho da puta dum paraguayo.
O nossossanchopança tira sua máquina fotográfica do bolso da calça, mira o defunto e cliqueclica. Apanha garrafa de cerveja e fotografa também. De outro bolso retira um frasco para exame de urina e coleta uma amostra da cerveja.
— Isso fará bem ao ego de Giraldi.

— Que mais quer que eu invente? — Giraldi pergunta.
— Uma milquepílula. Para capacitar a mulher a produzir leite e a gente poder mamar enquanto fode.
— Pensamos que fosse pedir uma uísquedrágea.

Oh dear

Você não vai acreditar

Certa vez mergulhei no deserto

Acreditando cair no mar

aaaaaaaa

— AAAAAh. AAAAAAAAAh. AAh. AAAAAAAAAAA AAAAAAAAh. AAAAAAAAAA AAAAAAAAA AAA AAAAA AAAAAAAAAA AAAAAAAAAAAAAA AAAAAA AAA AAAAAAAAA AAAAAAAAA AAAAAAAAAAAAAA AAAAAAAAAAAA AAAA AAAAAA AAAAAAAA AAAAA AAAAAAAAAAAAAA AAAAAA AAAAA AAAAAAAAAAA AAAAAAAAAAAAAAAA AAAAAAAAAA AAAAAAA AAA AAAAAAAA AAAAAAAA AAAAAAAAA AAAAAAAA AAAAAAAAAAA AAAAAAAAAAA AAAAAAAAAAAAAA AAAAAAA AAAAAAAA AAAAAAAAAAAAAAAA AAA AAAAAAA AAAAAA AAAA AAAAAAA AAAAAAAAAAAA AAAAAAAA AAAAAAAAA AAAA AAAAAAAAAAAAAAAAAAA AAAAAAAAAAAAAAA AAAAA AAAAA AAAAAAAAA AAAAAAA AAAAAAAAAA AAAAAA AAAAAAAAAAAAAAA AAAAAAAAAAAAAA AAA AAAAAAAAAAAA AAAAAAAAAAAAAA AAAAAAAAAA AAAAAAAAAA AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA AAA AAAAAAAAA AAAAAAAA AAAAAAAAA AAAAAAA AAA AAAAAAAAAA AAAAAAAAAAAA AAAA AAAAA AAAAAAA AAAAA AAAAAAAAA AA AAAAAAA AAAAA A AAAA AAAAAAAA AAAAAAA AAAA AAAA AAAA AAAAAAA AAAAA AAAAAAAA AAAAAAA A  AAA AAAAAA AAAAAAAAAAA AAAAAA AAAAAAAAAAAAA A AAAAAAAAAAA AAAAA AAAAAAAA AAAAAAAAAAA A A AAAAAA AAAAA AAA AAAAAAAAAAAAAAAAA AAAAA AAAAAAAA AAAAAAAAAAA AAAA AAAA AAAAAAAAAAA AAAAAAAAA AAAAAAAAAAAAAAAA AAAAAAAAAAAAAAAA AAAAAAAAAAAAAAAAAAA AAAAAAAAAAAA AAAA AAAAAAAAA AAAAAAA AAAAAAAAAA AAAAAA AAAAAAAA AAAAA AAA AA AAAAAAAAAAAAAAA AAAAA AAAAAAAAAAAAAAAAA AAAAAAAAAAAAAAAAAA AAA AAAA AAAAAAA AAAAAAAAA AAAAAAA AAAAAAA AAA AAAAA A AA AA AAA AAAAAAAA AAAAAAAAAAA AAAA AAAA AAA A AAAAAAA AAAAAA AAA AAAAAA AAAAAAAAA AAAAA AAAA A AAAAAAA AAAAAAAAAAA AAAAAAAAA AAAAAAAAAAA A AA AAAAAAAAAAAA AAAAAA AAAAAAAA AAAAAA AAA AAAAA AAAA AA  AAAAAAAAA AAAAAAAA AAAAAAAAAA AAAAAAA AAAA AA AAAAAA AAAAAAAAA A AAA AAAAAA AAAAAAAAA AAAA AAAAAA AAAA AAAAAA AAAAAA A AAAAAA AAAAA AAAA AA AAAAAAAA AAAA AAAAAA  AAAAAA AAAAAAAA AAAAA AAAAA AAAAAAA AAAAA AA AAAAAAAAAAAA AAAA AAAAAAAAA AAAAAAAA AAAA AAAAAAA AAAAAAAA AAAAAA AAAAA  AA AAA AAAA AAAAA AAAAA AAAAAAA A A AAAAAA  AAAAAA AAAAA AAAAAA AAAAA AAAAAAA AAAAAAAAA AAAAAA AAAA AAAAA AAAAAAA AAAAAAAAA AAAAA AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA AAAAAAAAAAAA AAAAAAA AAAAA AAAA AAAAAAAAAA  AAAAAAAAAAA AAAAAA AAA AAAAAAAA AAAAAAA AAAAAAAAAA AAAAAAAAAAAAAA AAAA AAA AAAAAAAAAA AAAAAAAAAAAAA AAAAAAAA AAAAAAAAA AAAAA AAAAAAAA AAAAAAAA AAAAAAAAA  AAAAA AAAAAAAAAAAAA AAAAAAAA AAAAA AAAAAAAAA AAAAAAAAAAA AAAAA AAAAAAA AAAAAAAAA AAAAAAAAAAA AAAA AAAAAA AAAAAAAAAA AAAA AAAAAA AAAAAAAAAA AAAAAAAAAA AAA  AAAAAA AAAAAAAAAA AAAAAA AAA AAAAAAAAAAAAAA AAAA AAAAAAAAAAAAAAAAA AAAAAAAA AAAAAAAAAAAAA AAAAAAAA AAAA AAAAAA AAAAAAAAA AAAAAAAAA AAAAAAAAAAAAAAA AAAA  AAAAA AAAAAAAAA AAA AAAAAAAAAAAAAAAAAAAA AAAAAA AAA AAAAAAAAAAA AAAAAAA AAAAAAAAAAAA AAA AAAAAAAA AAAAAAAAAA AAAAA AAAA AAAAAAA AAAAAAAAAAAAAAAAA AAAAAA  AAAAAAA AAAAA AAAAAAAA AAAAAAAAAAA AAAAAAAAAAAA AAA AA AAAAAA A AAAAA AAAAAAAAAAAA AAAAAAAAAAAAAAAA AAAA AAAAAAAAAAAAA AAAAAA AAAAAAAAA AAAAAAAAA AAAAAAA  AAAA AAAAAA AAAA AAAAAAAA AAAAAAA AAAAAAA AAAAAAAAAAA AAA A AAAAA AAAAAAAAAAAAAAA AAAAAAAAAA AAAAA AAAAA AAAAAAA AAAAAAAAAAAAAAA AAAA AAAA AAAAAA AAAAAA AAA  AAA AAAAA AAAAAAAAAA AAAAA AAAA AAAAAA AAAAAAAAAA AAAAA AAAA AAAAA AAAAAA AAAA AAA AAAAAA A  AAAAAAAA AAA AAAAAAA AAA AAAA AAAAAA AAAAA AAAAAA AAAAAAAAAAAA AA AAA AAAAAAA AAAAAAAA AAAAAAAAAAA AA AAAAAA AAAAA A AAA AAA AAA AAAAAAAAAAAAAAA AAAAAA AAAAAAAAAAA AAA AAAAAAAAAA AAAAAAAAAA AAAAAAAAAA AAAAAAAAAAAA AAAA AAAAAA AAAAAA AAAAAAAAAAA AAAAAA AAAAAA AAAAAAA AAAA AAAA AAAAAAAAAAAAAAAAAA AAAAAA AAAAAAA AAA AAAAAA AAA AAAAA AAAAAAAAA AAAAAA AAAAAA AAAAAAAAA AAAA AAAAAAAAA A AAAAA AAAAAA AAAAAAAAAAAA AAAAAAAA AAAAA AAAAAA AAAAA AAA AAAAA AAAAA AAAAAAAAAAA AAA AA  AAAAAAA AAAA AAAAAAAA AAAAAAAAA AAAAAAAAAA AAAAAAAAAAA AAA AAA AAAA AAAA AAAAA AAAAAAAAAAA AAAA AAAAAAA AAAAAAAAA AAAAAAAA AAAAAAAAAAA AAAAAAA AAAAAA AAAAAA A AAA AAAAA AA AAAAAAAAAAA AAA A AAAAA AA AAAAAAAAAA AAAA AAAAAAAAAAA AAAAAAAA AAA AAAAA AAAAA AAAAAA AAAA AAAAAAAA AAAAAAAAAAAAA AA AAAAAAA AA AAAA AAAAAAAAA AAAAAAAAAAAA AAAAAA AA A AAA AAA AAAAAAAA AAAAAAAAAAAA AAAA AAA AAAAAA AAAAA AAAAAAAAAA AAAAAAAA AAA AAAAA AAAAAAA AAAAAAAAA AAA AAAAAAAAAAAAA AAAAA AAA AAAAAA AAAAAAAAA AAAAAA A AAAA A AAAAA AAAAAA AAA AAA AA AAAA AAAAAA AAAAAAA A A AAA AAAA A AAA AAAAAA AAAAA AAA AA AAAAAA AAAA AAAA AAAA AA AAAAAAA AAA AAAA AAA AAAA AAAAA AAAAA AAA AA AAA AAAAAAAAAAAA AAAAAA AAAAA AAAAAA AAAAAAA AAAA AAAAAAAAAA A AAAAAAA AAAA AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA AAAAAAAA AAAA AAAA AAAAA AAAAAAA AAAAAAA AAAAAAAA AAAAA AAAAAAAAAA AAAAAAAA AAAAAA AAAA AAAAAAAAAA AAAAAAAA AAAAA AAAAA AA AAAA AAAAAAAAAA AAAAAAAAA AAAAA AA AAAAAA AAAAAAAAA AAAAA AAAAAA AAAA AAAA AAAAAA AA AAAAAAAAAA AAAAAAA AAAAAAA AAAA AAAAAA AAAA AAAA AAAAAA AAA AAA AAAAAAAA AAAAAA AAAAAA AAAAAAA AAAAAAAAAAAAAAA AAAAA AAAA AAAA AAAAAAAAAAAAAA AAAA AAAAAA A AAAAAA AAAAh. A. A. AA AAA AAAh a garganta teria gemido se A Rola tivesse logrado a mente tentando imaginar a cara da val em seu teatrinho onírico, seu teatrinho onírico merecia um livro à parte mas ficará pras nuvens que são o resultado de todos os pensamentos pensados mas irrealizados, essas merdas que tu tem dentro da cabeça vão pro espaço, ficam lá em cima girando sobre as cabeças dos nossos descendentes, coitados. E cachaça. Os olhos abrem sem querer abrir. Ela cessa a manipulação da Cabecinha da Rola, sempre um parênteses porque não parece falso como todo o resto que vivemos e fazemos. A alma saponácea precisa pelo menos um desses por dia, o equilíbrio do nosso corpo, já tentamos dois três mas a alma saponácea viu que era demais. Dia sim dia não era pouco. Um por dia basta. Sabe-se, tem insaciável por aí que queria logo cem duzentos. É o problema de hoje de ontem. Faltura de limite. Porra, val, que Katso esse equilíbrio inextinguível. Deixar de soar falso, não querer comprovar tudo empiricamente; rigor sem ser rotina. O que te mata é a rotina, val. Porra, val, tá tão claro agora. A prisão do previsível. Que preguiça. Eta Puta tendência a ser moralista. Querer que os outros sejam Funhanhados como a gente, a rotina só é necessária até certo ponto, a princípio você fica desnorteado, precisa ficar procurando razões para as coisas que pensa. A rotina faz isso automaticamente por você. Quando decide abandoná-la — pois que é algo que se abandona feito roupa velha que já não serve ou mulher que de repente perdeu os encantos e você um dia se pergunta, Porra, val. como é que fomos gostar disso? Depois que abandona precisa se persuadir das coisas, só isso, anote aí, não é mixaria, claro. Experimente [só] pra ver. Não é nenhum nada fácil não. O antes familiar fica estranhovagodistanteestranhovagodistante. Não feito porretada quando cheira. Não fica atordoado (a maior benção). Perder o controle dos pensamentos dá náusea ao nosso corpo. Confundir sentidos com sentimentos. Por outro lado, val por outra lada val pelo misterioso outro lado da tua Bunda, val, do escuro, do passado, dos mulçumanos sabe-se que é chato falar em religião, mas que fazer? Anote aí. A única filosofia do ser humano, a única realidade do ser humano, a única realidade é passar toda a vida, cada um dos dias, todo santo dia dizendo a si mesmo que precisa mudar. Mudar, val. Tá ouvindo nossa voz? Mudar. Seja do jeito que for, sair dessa vida, mesmo que pra dar um fim nesse maldito ruído dentro da cabeça, nesse cheiro de cocô no ar, nessa memória prodigiosa que não dá trégua. Você põe tudo na conta da natureza, val. O fato de não poder comer aquela vizinha de Tetas Suculentas que dá pra todo mundo menos pra você, o fato de não conseguir dormir direito e passar o dia caindo de sono feito zumbi. O fato de não ter quem te inveje. A Lista. Então você tem de mudar. A quilométrica fila dos teus dolorosos erros. Isso só se faz levando — ou dando — uma pancada emocional no teu torpor. Curto-circuito nos teus transistores enferrujados melecados duma gosma de tédio e mágoa, que te obriga a viver com o pé no freio, a mão na rédea, espiar as coisas em vez de vê-las, esse permanente apertamos no Cú. Não gostamos de misturar sentidos e sentimentos. Porra. Somos orgânicos. Mediocremente pequenos em nossa acidental combinação de silicone e carbono que nos obriga a especular. Sabe-se, a boca prometeu que não ia usar essa palavra. O que nos dá mesmo nos nervos é liberdade, o desgraçado que é livre mas fica falando na necessidade de libertar-se procurando sarna. Que culpa temos se as moléculas que nos couberam foram estas? É tudo pretexto pra encontrar uma desculpa pra continuar a ter esperança. Anote aí. Dez de maio. Dia do suicídio coletivo mundial. Talvez não seja este ano nem no próximo, mas será. Dez de maio. Data bonitinha, cheia de babados e implicações aritméticas cabalísticas. Os idiotas gostam disso. Porra, se há uma característica comum a todos nós é a homogeneidade. Tem uns bestalhões aí enaltecendo a intratabilidade da nossa natureza, pellegrinis falando baboseiras como diversidade mas somos todos iguais, feito pedras de cristal, umas brilham mais, outras, menos, umas mais translúcidas, outras, menos, mas cristais todas, mesmas propriedades, substâncias, podemos ser mais ou menos suscetíveis a eletricidade, fracasso, dor, mas isso não quer dizer nada em nossa natureza acidental. Vivo no nove de maio. Oito e meia. É tarde, precisamos ir. Tá escuro lá fora. As pernas vão sair a esmo, os olhos às cegas, as mãos a tatear, os pés tropeçando num pequeno obstáculo qualquer, o corpo caindo, a cabeça batendo e o corpo morrendo. Deixar-se atropelar, tomar um chá para que a cabeça perca a memória. Quem dera. Val, tudo é válido pra quem não se lembra. Cansamos de levar tudo a sério. Existir em estado de sugestão. Inovar pra repetir. Construir edifícios invisíveis. Esperar o fim iminente. Descobrir o que já sabe-se. Chega menina. Estamos cansado. Achar que algo tenha importância nesta Porra é coisa de imperialista. Afinal vamos perder a guerra tal como os romanos otomanos biguemaquianos. Precisamos sair. Nós e nossa meia dúzia de nós fingidos. Chega a boca disse. Temos de largar esse vício. Não espere nada de nós. Precisamos nos proteger. Mas vamos zanzar por aí neste paisão (embora a mente saiba que é o mesmo que ouvir uma orquestra sinfônica feita só de apitos).