Certos erros

Estava à tarde olhando o mar da minha janela
Que não dá para o mar
Nem para nenhum outro lugar
Pois não tenho janela
E mesmo que tivesse
Nunca olharia através dela
E então compreendi
Que compreender não queria
Não é este nem outro o dia
De te dizer: tudo foi delírio
Os acordes que escutei eram antimúsica
Meu hino enquanto se aproxima do fim este planeta:
És MINHA
E sabes o que é o melhor? O melhor é que
És minha mesmo contra a vontade. Podes
Me ignorar, me esquecer, me abafar
Espezinhar, ridicularizar, estrangular
Mas não te matar em mim
Tenho meus sonhos teus, todos os pensamentos
Que te dediquei
Minhas lembranças tuas são minhas
E sabes o que podes fazer a respeito?
Nada
Em mim me tens, me controlas
Me queres, me amas
Em mim te quero e te amo
És minha boneca, meu sonho, meu delírio, meu tema, minha palavra. Sou, e serei até quando me cansar — e, olha, não haverei de me cansar jamais —, o Guardador das Tuas Miragens. Conservo, adubo, cultivo tuas miragens nas águas paradisíacas de miragens e no purgatório de tuas miragens mortas
Apreciando o mar esta tarde desta janela
Não quero nem preciso que consintas
Não quero nem preciso da tua história ou do teu mundo
Tenho-te inteira em mim e
Com o que tenho em mim te amo como preciso
Não  como esperas ou queres
Amo tua imagem que nunca vi
Que se reflete em meus olhos
Escuto tua voz que nunca escutei e sussurra as mentiras que preciso escutar
Aperto tuas mãos que nunca toquei e me fazem a carícia que preciso sentir
E escrevo milhares de palavras que nunca vais ler
Sou o teu que não é teu
Meu amor por ti é meu e, presta atenção
Não há nada que possas fazer para nos separar

Ele voltou IX


Nem oito anos e já estávamos de saco cheio de tudo, convicto de que a experiência humana é um erro, não sabíamos em relação a que, claro, nunca tínhamos vivido antes para saber, mas tremendo dum erro e já não podendo mais ouvir as exortações dos curandeiros da capacidade humana em ser feliz decidimos que não precisava mais provas de que tudo acabava aqui, já um cara tenso, Porra, a tensão dos nossos oito anos, gurizinho sofrido e quando escutava alguém dizer que fulano ou sicrano estava com úlcera e sofreu enfarte e derrame, inda tão novo, conclusão: não há como escapar.
Não há como escapar.

Qual é o problema, Porra? desviamos dos insanos que dirigem automóveis na nossa affelandrepublik, seria assim em outros lugares? A maior prova da incivilidade do janaílson é o trânsito, são todos darwinistas, Fôdasse o outro que quem tem direito nesta Porra somos nós, sai da frente desgraçado senão te passo por cima, conosco tem erro não, deu bobeira atropelo mesmo, quer atravessar a rua, madame? ouse lambisgoia, chegar em casa é um eterno espanto, incólume, sem morrer, sem matar, o carro também inteiro, que raça, e ter de engolir os fascistões, aonde vamos agora? qual é o maior problema de todos hoje? é o formidável ilimitado poder das grandes empresas, que os affeländer janaílsones chamam "corporações". Os olhos olham o retrovisor e os olhos veem um maníaco esbravejando contra mim, os olhos olham mais para trás e os olhos veem que deixei que nos chupassem o sangue. E quatro-quintos dos que têm o sangue chupado não sabem, milhões torrados em benefícios extras para executivos e toda força ao marketing e cometem toda sorte de indulgência, extravagâncias, mas não investem a mais minúscula quantia no que realmente importa, informação, gastando "muito" pouco em detetives porque executivos dão ênfase a tolices que só servem para lhes inchar o ego. Dediquei noventa e cinco por cento do nosso tempo para chegar aonde estamos, me fodi com fé e coragem, gastei o que tinha e o que não tinha, plantei as sementes certas para colher esta autodisciplina marcial que hoje é o que nos garante arrozfeijão, protegendo o caule, negociando sob mau tempo, lidando com tempestades e consertando seus estragos, agora somos obrigado a recomeçar tudo de novo, os conceitos que nos regem a todos hoje são ditados pelas corporações que logram disseminar a idéia de que todos lhes devem oferecer tudo e a elas cabe retribuir quase nada, escutandoo essa palavrinha calhorda competitividade há anos, mutreta de biguemaquianos protestantes darwinistas organizados convictos do poder humano que fizeram picadinho da nossa confortável pachorrenta cultura niilista da indolência com princípios como qualidade de produção e atendimento de prazos e preços baixos. Pra começo de conversa, dizem, você tem de estar assentado nesse tripé. Metáforas, metáforas, dos Filhosdaputa mutreteiros, quando ouvi essa coisa a primeira vez não sabia que esperavam que eu fosse sobrenatural, ingênuo, pensamos, seria capaz de suplantar nossa preguiça macaquita e que no fim ganharia um prêmio adicional por isso, um pedaço da torta de maçã, a como devia ser deliciosa aquela torta de maçã com cheiro de Buceta chique que os loiros saudáveis saltitantes biguemaqueanos exibiam em seus filmes com cara de quem vai comer a torta e depois a Bucetinha asséptica aromática da housewifinha anglicana, cuzinho nem pensar. Hoje sabe-se que decorar a odisséia homérica de trás para a frente e depois recitar as páginas amarelas de tókio na ponta da língua seria mais fácil. Pressiono até o fundo o pedal do acelerador, as mãos fecham os olhos alguns instantes, quando tento levantar as pálpebras não podemos, parece que não vamos conseguir reabri-los, só temos noção de estar zonzamente louco, precisamos saber quanto tempo conseguiria dirigir sem enxergar no trânsito de foragidos do hospício, finalmente, por milagre, a mente acha, nossos olhos se escancaram, caralho, penseiquefôsseofim. Parece que estamos ficando sem energia e a ideia não sabe se podemos abrir mais um pouco o gás. Temos medo de explodir. Isso tudo claro não é razão para ser pessimista. Hoje em dia não ganhar quase nada pelo seu trabalho, não importa quão penoso, provavelmente é mais saudável do que estar completamente desempregado como se você caísse em buraco sem fundo dia após dia e os sabichões que recomendam que todos nos devemos dedicar plenamente à nossa "carreira" agora só podem sugerir que nos internemos no charcô, na década de cinquenta, sessenta, setenta, oitenta e noventa a vedábliu ajudou a fazer a história com os carros e caminhões que fabricou e quando vieram para affelandrepublik nos anos cinquenta estavam se arriscando mas hoje não é mais o caso, dizem. Estamos construindo uma planta completa com sistema viário, infraestrutura, drenagem, rede elétrica, rede de água e esgotos, praticamente todo investimento necessário, tudo com grana dos sandrinílsones, queria ver esse servilismo condenado e a petulância gringa esmagada sob gemidos impregnados de revolta, entregar o chão sagrado virgem em sangue a uma companhia estrangeira que veio nos ensinar a "competir", desesperados bovinos fritsílsones baixando os olhos humilhados e, servis, decidem que não importa se lhes dá um punhado de empregos. Biguemaquianos aparentemente gostam de pensar que há curioso contraponto entre as maravilhas que engendram e as bugigangas que nós tão desajeitadamente tentamos construir. Abrindo nossos braços a eles estaríamos assegurando preciosa oportunidade de pôr fim a séculos de selvageria. Nos olham lá do alto e parecem deixar transparecer que fizeram tudo que puderam, tal como fizeram na coréia e vietnã mas que no fundo não dão a mínima, que importa? Todavia nunca perdem a oportunidade de nos deixar claro que são nossa única esperança de estancar o emaranhando processo de instabilidade a que estaríamos condenados e que seríamos sábios se reconhecêssemos que nossa renúncia e subjugação à inexorável grandeza e poder deles seria o melhor a fazer não apenas para nós mas também para todos os outros povos de terceira categoria batendo a cabeça por aí. Confrontação seria inútil e estão sendo amáveis o bastante para nos deixar fazer o trabalho deles para eles em nosso país e assim aprendendo com eles até um dia quem sabe conseguir de alguma maneira alcançar a disciplina e a organização com que solucionam os problemas do gênero humano na Terra, idéias que passeiam preguiçosamente nas mentes da pessoas da nossa geração e algumas outras mais que os olhos veem feito uma mancha bem no meio do tapete da sala, que no faz sentir vergonha quando aparece uma visita, com moleques cuja única aspiração é ser consumidores mas ao contrário de como éramos em nosso tempo ignoram sua história e seu lugar e se conectam no distante que não tem nada que ver com eles e sonham em ser homens sem rosto sem pais e sem filhos sob hirsutíssima camada de balangandãs, o doloroso é que não temos saída, temos nosso destino decidido paragraph period. Tudo estaria bem se pudéssemos nos isolar na floresta amazônica, vestir fantasias de silvícolas, com tudo de bom e ruim que isso implica, não podemos suportar as angústias que nos foram impostas pela racionalidade anglo-saxã e seu tirocínio inconformista e objetividade anglicista, não nascemos para ter responsabilidade individual, a ética só é boa quando não praticada, o papa é nosso rei, o padre, nossa piada, o peru assado não cabe na nossa lusitana salada mameluca de acarajé com pizza de gorgonzola, porra como tem pizzaria na nossa affelandrepublik. Taco novamente o pé no acelerador mas agora com o cuidado de não fechar os olhos. Paro no portão principal da vedábliu, informo ao guarda que carlos mendes está à nossa espera, ele volta à sala da segurança, telefona, faz que sim, anota a placa do Miata numa ficha e levanta a porteira para eu sair da senzala e entrar no século atual. Pelas lentes manchadas de suor dos nossos óculos os olhos olham carlos mendes, ianquíssimo cravo na lapela, fixando um olhar paternal no nosso rosto no departamento jurídico da vedábliu. Carlos mendes é um rapaz de cara brejeira, exalando ao mesmo tempo infantilidade e a confiança de quem nunca age por impulso. Autocontrole biguemaquiano. Esses filhosdaputa aprendem rapidinho as táticas, a indumentária, os trejeitos e as atitudes do predador, pensamos. O cerebralismo do oeste deve ter sido instilado nele e nunca mais o deixou, fosse qual fosse a razão. Queria te esfregar algumas verdades nessa cara de bebê sem vergonha., o corpo fica tentado a dizer assim que nos aproximo. Ia ser engraçado ver a reação dele. Já esteve aqui antes? ele pergunta, algo de insolência nos olhos vazios de quem não se dispõe a assumir a culpa pelos próprios pecados. Privilégio de patrão. As instalações do departamento jurídico da vedábliu não são um ambiente agradável para as visitas, não é fácil um sujeito como eu sentir-se à vontade neste lugar. E mendes não facilita a comunicação. Os olhos olham em volta para tentar suavizar aquele olhar besta fixo em nossa cara. Em vão. numa mesa próxima está um sujeito em cuja mesa há uma plaqueta escrita "Jaime Breda, subgerente", cara de quem parece incapaz de falar mais de duas palavras por dia. E há também um paraguayo de rosto anguloso hostil e olhar frio e inamistoso, que um neurocirurgião certamente gostaria de tirar um eletroencefalograma do sujeito para poder mostrar a seus colegas em simpósios médicos. Senta aí, mendes ladra. Seu mendes... tartamudeio e paro. Diga. Não temos tempo de sobra, você sabe. Você sabe, você sabe. Porra. Nunguento mais esses cacoetes linguísticos do oeste. Bem... seu mendes, estávamos pensando se a gente podíamos deixar para outro dia, porque… Nooope. Ele corta estridente. Fez-se um acordo e você vai cumprir. E... eu pensamos que… Não. Temos mais que fazer além de ficar aqui escutando choradeira. A mente acha que nos arrependi. Eu só… Se não está disposto a fazer isso, cumpro nossa ameaça. A não. Estamos satisfeito com nosso acordo. Só… Afinal, vamos só curtir um pouco. Não é pedir muito. Quem sabe depois te arranjo uma oportunidade de trabalhar com a vedábliu. A, seria muito importante para mim. Não parece. E não vai doer muito. Você vai ver. A mente acha que não vai doer nada. mumunho, a voz sumindo na garganta. Não queria dar uma impressão errada. Estamos satisfeito com o acordo. Positivamente. Não fale como se a alegria fosse um sentimento atípico, okay? O segredo da vida é saber desfrutar da tristeza. Encolho os ombros para mostrar que tinha entendido e aceitado e dizemos okay. Bye-bye. Ele estala os dedos num gesto rude de dispensa.

continua em Ele voltou X

Ele voltou VIII

continuação de Ele voltou VII

ou Para que serve um nossossanchopança? again

Se dem algo na vida de gue a mende não gosta é a boca, a língua e os lábios Joobarem Buceta. Não zignifiga gue nunga Joobaram. Doda boga já Joobou Buceta belo menos uma vez na vida. Menos a do babai. Guano era moleque mandava ver. Algumas, não dodas. Zó as mais gabeludas. Dem Umas gue os bêlos gomezam guase no umbigo, descem recobrindo a Brobriamende Dita e ze esbalham belas goxas um dantinho ou um dantão, debendendo do bedigri da vreguesa. Ezas eram as gue mais gostava — o Jojotão vicava razoavelmende encoberto, gonveniendemende ocultano zua verdadeira Natureza. Um dia deixei escabar na derabia, bazei oito zezões dendo de escudar gue nozo maior medo era zer invaginado. Gue guano nascemos… bem, bode zer. E daí, Uóxito?
Orabolas, ze a gachola dum macho neurótico dá recheada deze dibo de delírio, imagina as neuras duma vêmea em relazão ao Binto. Deve zer azustador, Uóxito.
Não me abraz. Bra gomezo de gonversa dem aguela ligazão berigosa gom as entranhas — údero, ovário, drombas, gavidade beritoneal, bexiga, vórnix, gérvix, uretra… guano era grianza vicava horas me abismano gom uma ilustrazões gue havia na britanniga de babai. Dudo latim, vesiga urinaria, uterus, labium minus, labium majus. Vermelho-carmesim heminolento. O gorbo viga berturbado (somos imbrezionável), gomezamos a bensar, Borra gomo médico gonsegue zaber de dudo izo e ainda zentir desão? Você dodo engaranhado gomendo a dona e de rebende de gruza a gabeza a imagem dum útero gor dagueles vígados à venda no balcão do azougue.
Noza brimeira Buceta, da noza brima Vátima do Baraná,  joobamos gom gosto. Valamos br’ela caeh de guatro, busemos o linguón bra vora — gueria vicar gom a gara do bluto — e lambi-lhe a Xoxotinha detrás. A Buceta ze acha berigosamende bróxima do ânus. Bor izo, abroveitamos bara lamber dambém o Rabicó da noza vitimazinha baranaense, no gue nos emborcalhamos dodo, baba escorrendo belas bernas dela, resultano gue logo ghegou a hora do dá logo eza buceta agui. A gaibirinha emitiu alguns gemidos dolorosos, mais guano gomemos Atrás do gue guano livramo-na bara dodo o zembre do gabazo. No dia zeguinte vimos guão benosas bodem zer as gonsequências duma boa Enrabada — não bodíamos zequer rozar a Rola dolorida. Eta Vatimazinha de asterisco arisco. Deu marido hoje deve esdar zofrendo um vocado, Alicaterrabodecatraca.
Tem dambém o vormado. Ainda não gonsegui decidir ze é eze o vator brincibal. Às vezes a mende acha gue zim, outras gue não. É borque nozas imbrezões a resbeito da abarência bucetal mudam à medida gue o dembo baza e vamos gonhecendo outras Xoxotas belo mundo. Zó de ver uma de labium majus mais garnudo dá ao nozo gorbo água na boca, demos de me gonter bara não deixar gue a língua vique ganinamende bendurada até o bico do gueixo. Ezas mais gordinhas você gomeza a beijar, mordiscar, debois vai lambendo e ao mesmo dembo abrindo os grandes lábios, zebarano-os gom a gonsciência viva de gue eles existem exatamende bara izo, vruto recôndito bara zer devorado, bara gue você os abra devagar, até vicar efetivamende desudo e introduzir doda a língua gomo ze vora um binto, debois os dedos, a mão, o bunho ze estiver a vim de estrazalhar, Uóxito. Mas um dos maiores broblemas de hoje em dia é o glitóris — eza Borra gue algumas mulheres inventaram nosanozezenta e gue zó zerve bara me atazanar a baciência. É gue no meio da esfregazão, mão bra gima e bra baixo, bintoladas de aguecimento, esbetadelas zemiconsciendemende estudadas, de rebende você ze distrai gom um dedo ou a bonta da língua no dito gujo e a abestada grunhe aaaah. Bem no bonto. uuuuuuuuh. Dá uma esmerilhada aí. No gomezo gaía na armadilha, Uóxito, e me bunha baciendemende a bulir aguele bromontoriozinho gom remota vocazão de bênis, bazava uma eternidade, vicava louco guerendo bergundar vaiounãovai eza Borra aí, às vezes o desgrazado não esbozava a mínima reazão, debois de duas horas gaía de lado rendido de gansazo, outras vezes ele ia vicano esbevitado, esbevitado até gue… nada. A azanhada nunga atingia o orgasmo mas imblorava maisu mbo ucom aisu mbou gui nh osó. Uma Borra, Uóxito. Vróid dinha razão, eza Merda dalvez zeja mesmo um binto atrofiado gue definitivamende não zerve bara gozar, dez entre dez mulheres não dêm orgasmo, as gue dêm estão de zacaneano, zeja gual vor o motivo gue elas dêm bara de zacanear.
Agora, levamos um baita dum zusto guano os olhos veem uma Buceta belada. O valo desfalece e não dem gomo reanimá-lo. Bererega garega é uma visão dantesca, Uóxito. Bara não der de "abordar" outros gambos gientíficos e acabar berbetrano um dratado em vez duma gonfizão —, envermeiras, médicos, agombanhantes glínicos brofizionais, etc., eza gende brovavelmende nada vê de anormal numa Buceta destituída de bêlos — azim gomo não estranha uma barriga aberta em gima duma mesa de necróbsia ou um grânio zendo destambado gom uma zerra elétriga bara uma girurgia neurológica.
Nem dodo mundo é hibersensível, iunou, Uóxito. Zembre gue ze nos vemos diante duma dezas desnudadas exblicamos à dona da Mesma — gom delicadeza e dato bara não veri-la e, obviamende, antes de virar as gostas bara zair do guarto abós desistir da drebada — olha menina, os bêlos bubianos voram veitos bara esconder eza goisa Bizarra gue vocês mulheres drazem entre as bernas. Vazer barba no ventre é um atentado à natureza, zembre me lembra de exberiência de laboratório,  as atrocidades do anjodamorte em auchuvits, o driunfo da barbárie, zabe-se lá. Ze voze gientista ia desenvolver uma beruga bara gasos gomo o zeu. Gue da, Uóxito? Você até boderia escolher a gor, loira, ruiva, o gacete. Não, não ghore. É zó um gomentário gentil. Dome agui este gheque, gombre uma blusa ou um biquinininho ali no ghóbin. Bombas, hoje em dia a gende não bode mais dizer o gue bensa. O gheque é bredatado guinze dias. Mas vora izo você dem um gorbinho jóia. Dorso, uma graza. Me lembra os gregos. Não, não estamos me referindo ao onazisdajacqueline. É, ghamava aristóteles mas não era vilosófico. Demos uma brima ghamada aristotele, vêsebode. Os bais bensaram gue era igual a gisele graziele michele. Não, benzinho, você não dem defeito vísico nenhum. Olha, é zó uma maniazinha besta noza. Não, não vamos gondar a ninguém. Vaz de gonta gue nunga aconteceu. Nunga de valaram ezas goisas antes? É, zembre dem a brimeira vez. Não, não dá bra dedar zó atrás. É gue zomos gheio de vricotes, iunou, debois de ver uma garequinha gomo você brochamos drês dias. Olha, dagui a um mês já gresceu de novo — ainda bem gue dem gonserto hahahá. Imagina ze não voltaze nunga mais. Olha, você vale ouro, liga não. Aliás a bartir de agora vamos de ghamar de minhameninadouro. Gostou? zembre gue a gende ze encontrar vamos valar azim. Não, nunga mais docamos no azunto, bode vicar dranquila. Bem, estamos gom um bouco de breza, dalvez já denha ghegado a hora de ir. Demos de dar aulas de guímiga bara viver, iunou. Aliás deneuve voi bara izo gue viemos agui. Além de dedar, é glaro. Nem um bouco excitante. Na verdade é bem aborrecido. O gue zalva zão as aulas barticulares. Não, já valamos, não vamos gondar às zuas golegas. Olha, ze alguém vicar zabendo lá na vaculdade não vomos nós. Ou dalvez zim. Afinal gual o broblema de dodo mundo zaber gue você rasba a Buceta? Hoje em dia gada um vaz o gue lhe dá na delha. Bem, dalvez gomende gom algum outro brovezor. Zó a dídulo de ilustrazão em alguma gonversa brofizional, iunou. Zim, brometo gue bezo a ele bara não esbalhar. Exijo balavra de honra. O brovezor de história é discreto, dem erro não. Aliás voi ele guem nos gontou zobre você, gue era garinhosa e generosa. Zó não nos avisou zobre a valta de belugem. Viu? Nem gomentou. Ze diveze dito nem deria vindo. A, eza gonversa zobre o aluno do derceiro ano der esbalhado gue você gosta de dar mais Atrás do gue na vrende… bem, ouvimos algo a resbeito mas não busemos grédito. Dem muito boato naguela escola. Não, não zabemos guem está bor drás deza outra vofoca. Bem, zó bode zer o diretor do debartamento de bsicologia. O zujeito é um biguemaute. Grava e rebroduz dudo o gue escuta gomo ze voze um doca-fitas. Dem razão, este nozo babo está garregado de zignificados exbrezivos. O guê? Gostaria de levar algumas balmadas bara abrender a zer mais educada? Me barece um danto drástico… bensamos gue já estiveze dudo esclarecido. Bem, ze é dão imbortante bara a zua vormazão… zeu vuturo… não, é melhor deixar a luz acesa… a juventude gonfusa. Zim, zomos deu zenhor gom boderes absolutos zobre deu gorbo. Esta é noza gorte e dudo e dodos existendes dentro dela me bertencem. Está gombreendendo agora? Viu gomo dinha razão? Bromete gue nunga mais zerá valsa gom deus zemelhantes? Reconhece gue belar a Xoxota é exberiência inútil? Na união zoviétiga mulheres gue gometiam eza heresia eram violentadas bor gavalos buro-sangue griados esbecialmende bara eza vunzão. Gonsta der zido eze um dos bilares gue zustentaram aguele imbério bor guinhentos anos. Não, zó mulheres abaixo dos guarenta. Dome mais este bor não acredidar em mim. E este bor vingir gue está abrendendo. Na durquia mulheres zafadas azim zão atiradas à arena de hibobótamos e benetradas bor agueles gigantescos e bontiagudos abêndices gorníferos. Não, é abenas Reflexo — não está endurecendo não. Há evidências embíricas de gue o abetite zexual é mais dransbirazão do gue insbirazão. Zembre é bozível dar uma boa vungada bara recobrar o ânimo. Nem dudo é alegria na vida. Ainda nutro gerto geticismo a resbeito.
Uóxito, gomo ezas goisas dão drabalho. Guem manda interferir no equilíbrio da vida gontrariano a ordem natural das goisas? A bunizão bara eze dibo de gonduta darda mas não valha. E é zembre zaudável avisar os jovens zobre os riscos a gue estão exbostos — zabe-se lá o gue a minhameninadouro boderia vazer ze ghegaze aos zetenta anos zem nunga zer alertada dezas goisas.

Eza era noza zituazão zexual até gue gonhecemos o nozozanchobanza. Hoje guem jooba nozas mulheres bor nós é ele.

continua em Ele voltou IX

Ele voltou VII


Finalmente: como conhecemos nossossanchopança

Rego o jardim em frente da casa e um carro para relinchando os  pneus, sai um homem aflito, nos olha desesperado, suplica, será que podemos usar seu banheiro? Estamos pra cagar na calça. Sem hesitar corro para a porta da frente dizendo venha venha, o conduzimos ao banheiro térreo e voltamos ao jardim. Logo ele sai da casa, não sabe como agradecer, Porra, você tem um coração de ouro, quem abre sua casa assim para um desconhecido cagar só pode ser especial, desse dia em diante ele vem deixando que seu sentimento de amizade em relação a mim fique cada dia mais forte, este aqui é amigo, vive dizendo às pessoas mas sem explicar as circunstâncias em que nos conhecemos, fazemos qualquer coisa por ele, diz, alguns olham de lado, desconfiados, acham que há homossexualismo nessa relação, só pessoas apaixonadas conseguem manter laços tão fortes, que achem, não ligamos, às vezes nos sentimos sufocado, nossossanchopança exagera, a ideia não sabe bem o que vê em mim, eu mesmo desconfio às vezes, não de homossexualismo, que seja, e daí? mas às vezes temos esse receio a ideia não sabe de que, aonde vai parar essa amizade, Porra onze e meia. Precisamos me apressar, Giraldi está esperando.

As pernas entram em casa, esperando dar cum monte de bosta no meio da sala. Nada. Ele cagou no banheiro.

ón

Não falo da tua boca.
Mas podia. Podia falar por todo tempo em que se mantivesse muda.
Está tua boca abrochada para o mais fervoroso dos beijos?
Está essa tua boca preparada para reconsiderar?
Ou está apenas pronta para repetir o que eu e o mundo já escutamos?
Diga o que não quer ouvir e falarei.
O silêncio é minha espera.
Fomos homem e mulher um para o outro.
Até nos divorciamos sem nos casar.
Diga o que quer escutar e não direi.
Que estou apaixonado.
E você não dirá que é exagero.
Tantas incontáveis vezes me apaixonei por uma desconhecida.
Por uma mulher invisível. Por uma que não existia.
Uma mulher que imaginou que eu fosse apenas mais um macho cumprindo seu papel.
Morto antes de falar do plácido rosto de mulher próxima e distante, a fêmea acolhedora e hostil, pragmática e sonhadora.
Românticos e seus romances impossíveis.
Se encontram de repente na rua, se reconhecem.
Trocam um beijo.
Se mordem os lábios.
E se abandonam sem dizer nada.

Ideia fixa

Descendo hoje para o escritório vim matutando se devia fazer disto um poema ou não. Tenho horror a poemas. A palavra é pesada, sei. Mas tenho. Tinha, no primário e depois no ginásio. Os culpados são professores iletrados e preguiçosos da Mãe Gentil em tríplice aliança com os parnasianos e seus sonetões embalsamados, de que todos tomamos doses elefantais na infância e cujas qualidades (e defeitos) só pude vir a apreciar adulto, naquela idade em que a maioria de nós já angariou experiência de vida suficiente para obter autoconfiança razoável e finalmente consegue superar traumas psíquicos e poéticos. (Obviamente me refiro à maioria “normal”, não a gênios que não se encaixam em classes e categorias qual Rimbaud e quejandos. O que me intriga em Rimbaud é se ele logrou a beleza de sua poesia mesmo sem vivência ou se logrou a vivência necessária muito antes de nós pasquácios.)
Sempre tive dificuldade em aceitar naturalmente a solenidade do poema, a pomposidade afetada dos bilacs da vida, a artificialidade do parem-tudo-agora-vou-falar-de-sentimentos-nobres, a especialidade do momento sublime. Certo, só tarde descobri que o maior problema da poesia é ter de transformar sentimentos em palavras. É aí que a coisa, no pitoresco jargão da petizada apolínea de hoje, pega. Come to think of it, esse é o problema de toda literatura. Vai ver é por isso que se cometem atrocidades literárias às toneladas hoje e sempre e em todas as línguas. Vai ver também é por isso que críticos, certos deles, até que têm alguma utilidade. E não refiro a bons ou maus em particular. Alguém precisa inventar a literatura sem palavras.
Gombrowicz já disse, acho, tudo a respeito em Contra los poetas . É um textículo de quatro páginas, que mesmo poetas podem ler entre um alexandrino e outro. Quando você quiser detonar um vate qualquer por quem tenha particular ojeriza, os argumentos estão todos lá no textinho de Gombro, como gosta de chamar Mirisola, que qualquer dia ganhará um capítulo só dele neste meu blogue de blagues malsãs.
Afora porretadas homéricas e algumas sacadas aristotélicas (Gombro não parece fazer distinção entre poesia essa e aquela, boa e ruim, tipo a e tipo b, usando apenas termos genéricos), o que deve interessar especialmente ao leitor não literato (a quem, imagino, sempre me dirijo (tinha resolvido nunca mais usar parênteses, tive essa recaída hoje, a nefasta reforma ortográfica que vem sendo cozinhada por alguns dos imprestáveis de brasília devia proscrever essas aberrações)) é o trecho em que se mostra assombrado quando verifica que muitos dos que se dizem admiradores da poesia sequer a leem. Isso é, acho, interessante porque você pode comprovar aí mesmo em sua casa, consultório ou oficina, não precisa de tecnologia de ponta nem mestrado na uninove: basta olhar no espelho e se perguntar “afinal, li mesmo Psicografia  e achei do balakobako ou na verdade tudo que conheço é aquele o poeta é um fingidor que já virou clichê? Viu como foi fácil? Daí a importância de pensadores como Gombro e iconoclastas afins.
Por qué no me gusta la poesía pura? Por las mismas razones por las cuales no me gusta el azúcar “puro”. El azúcar encanta cuando lo tomamos junto con el café pero nadie se comería un plato de azúcar: sería ya demasiado. Es el exceso lo que cansa en la poesía: exceso de la poesía, exceso de palabras poéticas, exceso de metáforas, exceso de nobleza, exceso de depuración y de condensación que asemejan los versos a un producto químico.
A afetação talvez seja o que mais (me) incomoda na poesia. O poeta afetado (quase todos?) logo no título peculiar revela que vem chegando cheio de segundas intenções, nenhuma delas confessável. Okay, um dos propósitos da literatura é enganar ─ a leitura é um acordo tácito em que o autor se compromete a inventar situações mais ou menos legíveis (e, se for bom, deleitáveis) e o leitor se compromete a engolir de livre e espontânea vontade tais invencionices. Isso na ficção. Como poesia não é, ou pelo menos não é considerada, o poeta afetado parece estar violando por princípio uma regra. Não há poesia sem sinceridade. (Tampouco literatura. Mas na poesia é mais patente.) O problema é que carinha simplesmente não consegue se conter. A maioria dos poetas sofre de incontinência verbal. O cara se acostumou a escrever, ou versejar, e nesse acostumamento, que em geral leva anos ou décadas, adquiriu posturas e desenvolveu técnicas e descobriu como forjar truques. (Um dos mais manjados é o adjetivo inaudito. Esse exercício você também pode praticar aí em sua casa. Pegue um poema qualquer na rede, de preferência de algum poeta enaltecido pela crítica, e, pumba! lá está, um ou vários substantivos qualificados por um adjetivozinho arretado e estrambótico, em geral destinado a criar um climazinho de, com perdão da palavra, estranhamento. Batata.) A inspiração vira preterível. Em alguns casos carinha até aprende a suprimi-la. Inspiração, quando autêntica, perturba. Tem hora que é intratável, você não consegue senão se prostrar agoniado, esperando que a maldita vá embora. Isso, e aquilo, me ocorreu mais claramente ainda há pouco, quando eu estava num site literário clicando aleatoriamente numa página de poemas de bilac. No mais das vezes um amontoado artificioso de técnicas vazias. E o fato de que era parnaso não justifica. Muitos dos românticos são sacais. Simbolistas, mais ainda. Concretistas, hors concours. E o pequeno exército de sicofantas sempre prontos a louvar os poetões com suas frasonas feitas. No mesmo site, fulano perpetra uma biografiazinha de Bilac iniciando assim: Um dos mais notáveis poetas brasileiros, prosador exímio e orador primoroso (...) apesar do auspicioso futuro que todos lhe auguravam, desistiu do curso médico (...) voltou ao Rio estreando, com grande êxito, na imprensa literária. A irradiação do seu nome foi rápida, e fulgurou com a publicação de Poesias.” Ugh, esse tirava dez na prova de redação, viciou-se em deliciar a professorinha.
Poucos gostam de literatura, pouquíssimos, de poesia. Quase todos acham que deviam gostar, só que não imaginam por quê. Sobretudo na poesia, em geral buscam as razões erradas. Na sacada de Gombro, as razões erradas são exceso de la poesía, exceso de palabras poéticas, exceso de metáforas, exceso de nobleza, exceso de depuración y de condensación que asemejan los versos a un producto químico.
O sistema, palavrão medonho, educacional é culpado. Aos oito anos a fessora me meteu o Tronco do ipê goela abaixo, que, já disse alhures, engoli e regurgitei. Fim do século vinte, modernismo já de bengala e fralda geriátrica, nós fumando no banheiro da escola, alguns, eu não, bebendo escondido, muitos em três ou quatro anos estaríamos nos iniciando em anfetaminas, Nacional Kid às segundas na Record, todos nos perguntando quase alucinados as perguntas que todo moleque se faz a si e a colegas, i.e., será que mulher gosta de sexo ou só faz pra agradar o marido?, será que um dia alguma mulher vai me querer? será que conseguirei ver uma bucetinha ao vivo ou morrerei tentando? e questões terrivelmente angustiantes do gênero, e a anta me vem com Alencar e aquele colossalmente aburrido ideário romântico. Mas, como diria Rosa, isso é estória.

Nos EUA todo mundo e seu scanner lê porque escritores publicam, entre outras, para vender livros, o que requer que as vítimas tenham pelo menos prazer de ler. Aqui os caras não são escritores mas eternos candidatos ao nobel, “artistas”, beletristas sempre pensando em como contentar críticos e ganhar um encômio em algum caderno literário pra mostrar ao vizinho e citar no currículo que vai apresentar pr'aquela vaga de professor de letras em alguma subuniversidade do sertão aí. E mesmo que escrevessem pra vender, venderiam a quem? Os únicos que defacto leem, ou imagino que leiam, são os críticos e outros profissionais do ramo. Dá-lhe, Gombro: Libros como “La muerte de Virgilio” de Hermann Broch o aun el celebrado “Ulises” de Joyce resultan imposibles de leer por ser demasiado “artísticos”. Todo allí es perfecto, profundo, grandioso, elevado, y, al mismo tiempo, nada nos interesa porque sus autores no lo han escrito para nosotros sino para el Dios del Arte.

Um sábado na terça

Minha vida anda, cof-cof, errática. Vivo uns dias, outros não. Partes da noite, outras não. São, acho, os hormônios de fêmea de Sô compensando a ranhetice confessando rebolando o carnavau. Obro uns poemetos, acho do escambau, depois me soam bocós. Escrever é sempre uma salada de triunfo e desastre, se é que te interessa saber. Desculpa eu insistir para que se renda. Dia sim dia não vinha co’aquele não-espere-nada-de-mim preventivo. Não esperava nada fora uma verdade sumária, latente, visceral, de preferência sem esses teus filtros precavidos, teu discernimento de sobrevivente, o lencinho que nunca mais usou no cabelo. Que é que queria fazer de mim? Mais um babaca autêntico entre as dúzias brincando de roliúde? Se era isso, sorry, a única brincadeira que pude te oferecer foi a da minha solidão no pico do Kilimanjaro. Simplifiquemos: fui um vulto procurando se apossar dos teus sonhos. Então minha missão estaria cumprida. Imaginava ser possível. Ai quem me dera, saber teus sonhos. Quebrava o gelo, me enganava. Pedi umas vezes que me confidenciasse, unzinho que fosse. Me “confessasse”. Sei, você esperava alguém menos indecifrável. Tinha umas perguntas te dando coceira mas preferia morrer a fazê-las.
Tenha, peço, tenha cuidado com as palavras – não há ninguém mais escancarado no mercado. Todos os “autênticos” são vitrines em que fantoches expõem suas relíquias e arreganham os dentes tentando se mostrar fotogênicos. Como fazem em suas vidinhas de fantoches com seus lemas edificantes e suas grotescas classificações filosóficas e suas cafonérrimas declarações de amizade, ó deus. Te convidava pro meu círculo de amigos, se tivesse face, essa extensão eletrônica dos simulacros que todos encenamos lá fora. Escuta, e se não brincássemos mais de indecifráveis? E se parássemos com a conversa-fiada? Não sou, você sabe, nunca fui, você bem sabe, nunca fui de querer me vender, fingir pose de sujeito simpático disposto à confraternização. Estou atolado no que sinto. Ok, não tenho pressa.
Sempre que declarava meu amor por você ficava com a impressão amarga de que estava fazendo papel de bobo. E te pedia, diga, estou? Estou mesmo? Jogando pra cima da inimiga amada minha enxurrada juvenil de palavreado inflado de pretensão? Diga: fui ridículo demais da conta? Só um pouquinho? Daria, em sua opinião, daria pra continuar levando assim?
Diga, que preciso saber. Aquela sua atitude preventiva era defesa contra a sofreguidão com que procurava te atiçar? Ou a brincadeira se resumia a admitir que não tínhamos futuro e se não tínhamos futuro devíamos nos tratar como abstrações e não existir de fato um para o outro, quer quiséssemos ou não? Precisaríamos dum projeto, precisaríamos de metas, precisaríamos do bom-senso de delinear com exatidão os papéis bobos que aprendemos cada um a adotar para não vivermos 24 horas com os sentimentos à flor da pele?
Já falei demais. Pra variar. Aprendi que mais de três palavras pra você é tratado filosófico. Sorry, isso não tenho como mudar. Começo a escrever e pumba! paixão instantânea. Pelas palavras. Te deixava desconfiada. Qualé a desse sujeito? Será que já sacara que fingia escrever pra você quando na verdade escrevia pra mim mesmo? Sou um mentiroso. Você pegou logo no primeiro dia, não pegou? Quando ainda era um metidinho a poeta, distante, desconhecido, inofensivo, com que você podia brincar de poetices sem maiores comprometimentos como se estivéssemos num congresso de médicos que se tratam com a mais estrita profissionalidade e frieza? Qual era, afinal, qual era a origem daquela desconfiança? Nunca fui capaz de compreender e você se recusando a me explicar, se divertindo enquanto boiava na tua onda. Sempre teve preguiça de dar explicações. É recalcitrante. Quando se explica, se explica de má vontade, omitindo o que interessa, deselucidando. Orgulhosa demais para dar satisfações. A cada comunicado – pois se manifestava por comunicados, não se manifestava? Só faltava o papel timbrado e o carimbo na frente e no verso decassílabo.
Agora de repente essas perguntas todas, tentando me pegar de surpresa? Está tentando, o que duvido, tentando me flagrar de mau jeito? Numa situação vexatória? Naturalmente não. Pois tal curiosidade seria tua confissão e confessar é contra teus princípios. Ao passo que, só pra tua informação, sou todo confessional. Me confesso inúmeras vezes, de manhã à noite, do crepúsculo à alvorada. Meu confessor? Eu mesmo. Nós seres tantalizados temos dessas coisas – costumamos desempenhar papéis duplos, triplos, múltiplos, brincando ora de ser o que não somos, ora de não ser o que somos.
Essas tuas perguntas repentinas que me fazes, são todas impossíveis de responder.
Tenho aqui comigo um arremedo, um arremedo de resposta, que também duvido que vá aceitar – ou compreender. Dois pontos.
Quando penso em você, te vejo deitada.
Quando penso em você, vives na horizontal.
Ao teu lado, eu.
Dois seres paralelos ao planeta.
É por isso, acho, que tenho dificuldade em me botar em pé.
Ficar em pé pressupõe disposição para a vida, vontade de luta, gana de sobreviver.
Não é meu caso.
Me permite um oxímoro?
Vivo esperando a morte. Ou morro esperando a vida.
Meus olhos opacos buscam no escuro tua solene face de dríade quinhentista.
As caras por aí, em sua maioria, ah como são vulgares.
Teu rosto é – ainda – meu refúgio.
Está boa esta resposta?
Se disser que não, invento outra.
Adoro inventar respostas para perguntas que não sei responder.

será um foguete, será vindouro

segunda chuvosa
tempo paralítico
planeta manco
pensamento granítico
se desmancha no liquidificador
do coração parado
dedos mecânicos
a digitar enojados
adjetivos combalidos
cada qual a me prender
a respiração antes de
pipocar nesta minha
triste pobre
consciência

Um fauno, dríade alguma

O relojoeiro não perde a hora
O médico não adoece
À amada não passa pela cabeça
rejeitar o poeta
Na lógica dos meus sonhos

sara sara saracoteia saracoteador

tem hora, tem noite, tem milênio demoro demais pra extrair um pensamento lúcido, inteligível da minha cabeçorra asilo de loucuras e arrumar algo digno de dizer
estou sempre errado de que nunca estou bem certo
não estou estou certo de nada
não quero estar certo de nada
não quero ter certezas. nunca quis
óbvia, clara, evidente, lógica, naturalmente é fatal
darwin abominava os incertos
foda-se você, charles
me esfrangalha os nervos a convicção com que todo mundo anuncia suas certezas vãs.
foram bons alunos do mundo, aprenderam todas as lições da vida, agora podem enfim se dedicar pachorramente a me ensinar com quantas mentiras se faz uma verdade
me dão gana de suicídio pessoas que vivem a hastear bandeiras coloridas ruidosas estampando majestosas seus princípios espúrios patéticos porque imaginam piedosamente que a lei da física pela qual a natureza não tolera o vácuo pode aplicar-se vicariamente aos nossos sentimentos e às nossas ideias e às nossas incertezas que tais pessoas tão grotescamente querem converter em veredictos. (estou meio lusitano hoje. não significa que amanhã estarei ainda. para espanto dos racionalistas empedernidos.)
escutem duma vez por todas, porra: sou um poeta com aversão à poesia
não!
não me digam que há um paradoxo aí. me poupem de seus julgamentos ansiolíticos
sim, estou ciente — fariseus positivistas travestidos de humanistas precisam do benefício do alerta. precavidos, contornam cuidadosamente os paradoxos que encontram pelo caminho
não há nada de paradoxal num poeta averso à poesia
não há nada de paradoxal em nada
paradoxos não passam de ataques intolerados por nossa frágil cabecinha deseducada a aceitar a impermanência dos pensamentos sobre as coisas

Aguardando o apoteótico

Eles batem as patas nas mesas, exigindo que um poeta que há décadas se dispôs a explorar a escuridão que desde que nasceu viceja dentro dele de repente saia por aí a esbanjar entusiasmo cantando odes ao enlevo de existir
ELES QUEREM É ALEGRIA, CARA!
Neste, noutros, em todos os carnavais, ai de ti, eternamente confuso poeta
Quem mandou não caber na fantasia que te coube?

Provocar, atrair, convencer e desencaminhar

Há um momento supremo na longa escalada dum alpinista rumo ao topo:
a queda.
Como todo sedentário preguiçoso, autocentrado e cínico, também me admiram esses heróis das alturas. Eles não galgariam sequer três metros acima do nível do mar se não fossem equipados com disciplina, coragem e ultradesenvolvidas habilidades psíquicas e físicas. Todos os talentos que não tive o azar de herdar, pois papai também foi o feliz destituído de todos eles.
Sabe o que me entusiasma mesmo quando penso nesses superatletas?
O que me deixa excitado é pensar em como são imunes ao fascínio da morte.
Mesmo não escalando mesmo uma cadeira, sou obcecado pelo fim.
Penso em morrer desde que nasci.
Quanto mais vivo, mais não quero viver.
Como deve ser terno o termo.
Como deve ser ínfima a fronteira final.
Encerrar de vez o suplício de me carregar, e ao meu corpanzil entuchado de banha, pra cima, pra baixo, pra dentro, pra esquerda. Tal suplício é mais que suficiente, óbvio. Porque não sou um alpinista da vida ou escafandrista for that matter, não existem cumes aonde eu sonhe chegar, a altitude me deixa zonzo, as profundidades, eletricamente claustrofóbico.
Sempre quis morrer.
Pra acabar com a mesmice.
Pra simplesmente mudar de estado.
Pra saber como é.
Será qual um indeglutível caroço entalado na garganta que você engole mesmo assim?
Será que nossa sensorialidade permanece intacta por uns instantes, ao menos para que nos seja perceptível a transição?
Haverá transição?
É claro que essas perguntas não se aplicam à maioria de nós que hoje esticamos as canelas terrivelmente sedados...  para que elas, as perguntas, não nos ocorram.
Que nojenta raça de pixotes nos tornamos.
Mas não é isso que me interessa agora.
O que me interessa é, quero morrer pra saber.
Saber. Finalmente. Tão somente.
Saber o que as cartilhas escolares se recusam a nos ensinar e cujos saberes nunca pretendi saber de qualquer modo.
Saber a única coisa que neste momento faria diferença saber.
Passar de mansinho para onde quer que passamos na morte não me interessa.
Se vale a pena sentir a Última Dor, que a sinta.
Ser desligado incólume e inconsciente feito um rádio de que se removem as pilhas, no, thanks.
Quero a passagem do alpinista que de repente afrouxa os dedos que o mantêm frágil e espetacularmente vivo no paredão do rochedo e pensa “Minha sorte está em minhas mãos, concretamente” e fecha os olhos e relaxa os músculos e solta os pulmões, se entregando quase satisfeito, sem resistência, à força da gravidade da qual somos e fomos escravos desde nosso primeiro segundo neste planeta que flutua pelo espaço apenas pelo capricho da nossa imaginação.