Vila nova, digo, vida nova na vila XXII

continuação de...

Dez e doze da matina, outra jornada insípida, tarefas repetitivas qual a dum chinês montando luzinhas de Natal, passando pano úmido nas mesinhas de tampo de pinho envernizado, varrendo pedaços de queijo e atum e cebola e restos de molhos de tomate, atendendo telefonemas de neandertais que não sabem dar sequer boa-noite e têm preguiça de abrir a boca para pronunciar as palavras e empregam um tom de voz áspero e insolente e autoritário como se eu fosse capacho deles e não sabem direito o que querem e se atrapalham com o pedido e se confundem e cancelam e não sabem se vão pagar em dinheiro ou com cartão de débito ou de crédito e não sabem o endereço onde moram e não sabem o andar do prédio onde moram e não sabem o número do apartamento e não sabem o número do telefone e quando chego com a pizza o endereço não existe, porco dio.
Outra jornada insípida no aguardo daquele telefonema que nunca vem...
Me dirijo à porta, abro, apanho a vassoura. Só então olho para o balcão do caixa.
Levo um susto!
Meu primeiro pensamento é assalto! Tem um estranho atrás da registradora.
— Você é o pizzaiolo? — quer saber.
— Sou. E o senhor...?
— O novo proprietário. Prazer, Ari. — Ele estende a mão direita na minha direção.
Meu queixo cai, obviamente. Não sei se fecho a boca ou aperto a mão estendida.
— Como assim? Desde quando? Cadê la signorina Gioacchina?
— Neste momento deve estar em...
— Ela vendeu a casa?
— Vendeu.
O chão parece bidu. Puxo uma cadeira, desabo sentado, a cadeira geme.
— Assim... — Minha voz morre na faringe. Tento de novo. — Assim tão de repente?
— Já estávamos em negociação há um mês. Ela não lhe contou?
Cubro o rosto com as duas mãos. Não, não me contou. Como pôde?
— Não deixou nem um recado para mim?
— Infelizmente, não. Lamento.
— E onde o senhor entra nesta história? Gih nunca me disse que tinha família ou conhecidos.
Ari dá a volta no balcão, faz um sorrisinho simpático, me dá um tapinha animador no ombro.
— Não se preocupe. Vai ser melhor assim. A signorina Gioacchina andava meio devagar ultimamente, a casa malcuidada, perdendo freguesia... Vamos dobrar o faturamento em três meses, você vai ver.
Me levanto da cadeira, ainda segurando o cabo da vassoura. Que entrego ao Ari. Que a apanha no reflexo, sem entender.
— Me desculpe, mas preciso caminhar. Não posso ficar aqui.
— Espere! Não tome nenhuma decisão precipitada. Em breve esquecerá a signorina. Garanto!
Dou meia-volta, saio da pizzaria, paro na calçada, estudo a rua de ambos os lados, não enxergo nada, não escuto som algum.
Estou em choque.
Minhas pernas se movem rua abaixo indiferentes ao meu comando. Parecem não pertencer ao meu sistema nervoso simpático.
Estou caminhando, atravessando ruas, esbarrando em quem vem no sentido oposto, dando encontrão em postes e árvores.
De repente minhas pernas estacam. Se voltam para a esquerda. É um buteco. As pernas entram. Se detêm diante duma mesa no fundo do salão. Uma das minhas mãos puxa uma cadeira, me sento.
Uma garota se aproxima.
— Oi! O que vai ser?
— Um steinhäger — minha voz pede.
Ela se afasta. Retorna em seguida. Põe a bebida na mesa. Se afasta.
Uma das minhas mãos apanha o copo, leva aos lábios, que sorvem o líquido dum só jato.
A garota aparece outra vez.
— Outro?
Minha cabeça faz que sim.
Mesmo ritual.
De novo.
De novo.
Outra vez.
Então desperto do transe. Olho em volta. Estou num bar. Numa mesa num canto obscuro. Atento para alguns detalhes. Já estive aqui algumas vezes. É o buteco do Lacerda, famoso nas redondezas.
A garota se aproxima novamente.
— Mais um?
Olho para ela pela primeira vez. É bonita. A filha do Lacerda. Vive c’um sujeito que mora mais ou menos um quarteirão rua acima. Dizem que o cara é meio maluco. A menina tem vários namorados e ele não se importa. Maluco clínico, na certa. Ela está em pé diante de mim, ao alcance dos meus braços. Por meio segundo luto contra a compulsão de abraçá-la, trazer seu corpo para mim, sentá-la entre minhas pernas.
Meu olhar se paralisa em seu rosto. Está sorrindo. O sorriso mais sensual que já divisei nos lábios duma mulher. Sacudo a cabeça. Não posso me apaixonar. Não agora. Não de novo.
— Sim, por favor.
Sorvo desesperançoso e infeliz o steinhäger gelado feito o coração das mulheres bonitas. Passeio os olhos pelo salão. Está vazio, salvo por um sujeito sentado quatro ou cinco mesas de mim. Quando estou para prosseguir em meu exame do ambiente, algo me chama atenção naquele vulto. Tenho a impressão de que é familiar. Estreito as pálpebras, perscrutando. sim, conheço.
É o querubim. Querubim Demóstenes.
Não posso reprimir uma reação de asco. Levo atabalhoado o copo aos lábios, engulo o stein duma só golfada, torcendo para o álcool me ajudar a digerir um áspero desagrado. Aspirava tão-somente a me devotar ao meu copinho com o sacro néctar à base de trigo e de zimbro e submetido a um processo triplo de destilação e que — sim, estava ciente — é apreciado apenas por uma minoria. Eu e meu stein era tudo que almejava, neste dia e em todos os outros que já vivi e ainda viverei. Queria ficar sozinho, cozinhando meus rancores, lamuriando o abandono da Gih, matutando em estado de doce letargia — que podia raiar a catatonia — sobre os caminhos alvissareiros e os descaminhos decepcionados que este meu frágil coração vem percorrendo desde que me dei por gente. Mecanicamente qual um robô aturdido, faço um gesto largo e premente na direção da garota do balcão, suplicando outro. Um confronto com o Demóstenes era a última coisa que eu podia querer nesta jornada sombria povoada dos meus assíduos e mais fantasmagóricos ectoplasmas.
Alguém entra no buteco. É o Lacerda. Profissional como sempre, ele vem em minha direção. Passa pelo querubim sem tomar conhecimento dele, como se não o visse.
Olá! Seja bem-vindo. Olha meu copo. A temperatura do stein está no ponto certo? Está sendo bem-atendido? Dá dois tapinhas em minhas costas. Bom revê-lo!
Ele se manda sem me dar chance de responder as perguntas, pelo que fico grato. Estou sem ânimo para jogar conversa fora.
A menina no balcão, sagaz, se dá conta da minha aflição, se apressa para me atender. Dou outra talagada, emendando c'um sinal de mais um. O que mais aprecio no Lacerda e sua filha é que eles contêm o espanto ante a eventual voracidade etílica do freguês, ao contrário de outros donos de bar e balconistas por aí que repetem “Mais um?” com ar entre abobado e condenatório.
O impacto do álcool no sangue me enche de coragem e então ergo os olhos para o miserável do querubim. É mister esclarecer que nem o Lacerda nem a garota têm culpa no episódio. Não era possível bloquear a entrada do desgraçado. Qual um réptil traiçoeiro, ele se esgueira por atalhos insuspeitos dissimulados entre as caixas de cerveja e o lúgubre e acidentado corredor que vai dar no banheiro imundo do buteco.
Vejo que o réptil também toma stein, acompanhado de chops e batatas fritas — comprovadamente um autêntico jeca que não sabe calibrar as nuances do verdadeiro paladar nem as sutilezas do epicurismo. (Ressalvando que as fritas do Lacerda – ou melhor, de sua patroa, que toma conta da cozinha da casa –, também não são de jogar fora.) Olho para ele e desvio o olhar, tentando fingir que não notei sua infame presença. Tarde demais. Sou um desastre no que respeita a disfarces. Isso deve estar claro a esta altura.
O Demóstenes ergue a tulipa em minha direção, oferecendo um brinde. Cínico. Sempre que cruzo com ele pelas quebradas da vida imploro para me deixar em paz. Sempre que cruza comigo ele faz de conta que somos amigos inseparáveis. Esclareço que nossa aversão é mútua. Pelas escorregadias chispas que lhe saltam das pupilas quando nos olhamos, provavelmente me detesta mais do que eu a ele. O que nos diferencia é que trabalha como vendedor. E é dos bons. E como todo bom vendedor, evita que sentimentos interpessoais tumultuem o relacionamento profissional.
Quando ergue a tulipa à altura do rosto gordo e corado noto que o chops não tem um milímetro de colarinho. Logro, porém, refrear um esgar de nojo, malgrado meus pobres talentos de ator. E, sendo um sujeito que preza acima de tudo a civilidade, retribuo o gesto. Foi a deixa que ele esperava para se levantar, apanhando e acomodando habilmente o stein, a tulipa e a travessa de fritas nas mãozorras, e vir para meu lado com sua patética e carnavalesca ginga de querubim safado.
— Posso me sentar? — pergunta, sentando-se sem esperar minha resposta. Um perfeito cafajeste.
Em que pese o ato consumado, faço que sim com a cabeça. Como sujeito cultivado, não vou me desfazer das boas-maneiras por causa d'um primário qual o Demóstenes.
— O chefe me contou a situação — vai dizendo, esticando os dedões para cima das fritas e pinçando um punhado delas. As batatas estavam recobertas por uma camada de — sem exagero, posso garantir —, pelo menos meio centímetro de sal. Pelo jeito, o salafrário não sofre de males nefríticos. Eu, se ingerisse metade daquele areal de cloreto de sódio, certamente teria de passar por uma hemodiálise meia hora depois.
Forjo minha máscara apalermada — no que sou craque, modéstia à parte — e finjo que não escutei. Sabedor de que eu estava apenas representando — o que deve estar mais que patente —, ele pigarreia, um pigarro seco qual granalha lulliana, e repete num tom desagradavelmente ardido:
— O chefe me contou a situação.
— Nem precisava me dizer — dou de ombros. — Seu chefe espalha tudo. Carinha mais fofoqueiro.
O Demóstenes se debruça ligeiramente para meu lado e cochicha, fazendo ar de mistério:
— Quer dizer que você quer reconquistar a “mina”, hein? O chefe se colocou à disposição. Você sabe, com ele não tem erro. Vem cá, há quanto tempo trabalho com o cara? Nem preciso dizer, preciso? Pois é. Nunca falhou. Nem uma vezinha. Vai ser bom assim na puta-que-pariu.
(Devo registrar que a partir deste exato instante uma vozinha longínqua se põe a chamar insistente meu nome, rezando uma arenga pastosa de que consigo distinguir apenas uma ou outra palavra como “cuidado!”, “não caia...”. Tem um tom urgente e aflito. Devo ainda acrescentar que além de eternamente apaixonado, sou também eternamente imprudente, às vezes até insensato, e por isso não dou a mínima. Desligo o receptor interno que uso para captar sinais de emergência. Às vezes, durante a longa conversa com o querubim, me dou conta de que a vozinha não se cala um segundo sequer.)
Me sentindo ligeiramente mais intrépido sob as ondas de energia etílica, solto o ar dos pulmões com estardalhaço. Pelos cantos dos olhos percebo que com isso chamo a atenção do Lacerda e sua filha. Odeio a deselegância com que o safado e seu chefe costumam se referir por “mina” às deusas por quem me apaixono. Mas exigir civilidade seria perda de tempo e desperdício de paciência. Gente dessa laia não tem escrúpulos, que dirá educação.
Fito bem os olhos dele e espremo os lábios, desanimado com as perspectivas da negociação. Já entreguei tudo aos dois. Só me sobrou esta minha inefável infelicidade de amargar mais um amor não correspondido.
Sorvo um gole do stein. Então lanço um olhar duro ao meu interlocutor e protesto:
— Da última vez, paguei e ele não prestou o serviço prometido. Foi um golpe sujo... — Mal profiro a frase idiota, sinto um aperto no estômago, me dando subitamente conta de quão ingênuo sou por negociar com pilantras.
O Demóstenes apanha a tulipa e aspira ruidosamente todo o chops, estalando espalhafatoso a linguona de serpente que mal lhe cabe dentro da boca. Outra vez Lacerda e a garota olham em nossa direção, agora com cara de repulsa.
— É que houveram uns imprevistos...
— É a mãe! — Não me preocupo em conter a indignação, mesmo ciente dos melindres do Demóstenes e de que provavelmente se trata apenas duma provocação inócua. Não pretendo que se respeite a mesóclise, mas exijo um mínimo de correção. Se fosse presidente, mandava encanar todos os infiéis que detonam o vernáculo. Ser analfabeto não é, não pode ser desculpa para falar errado. Conspicuamente errado, digo.
Embora meio alto, me alarmo com a minha própria insolência. Levanto receoso os olhos para o querubim. Ele está sorrindo. Um sorriso debochado. E meneando pausada e lentamente a cabeçorra, fingindo desaprovação. Se quisesse... Nem é bom imaginar.
Apagando o sorriso da cara, ele abre bem as cinco garras roliças de uma das patas, pousa a palma por sobre a travessa, pinça meia porção de fritas com os dedões gordos e entucha tudo na bocarra escancarada, ao mesmo tempo em que arregala os olhos desvairados para o meu lado, pupilas vermelhas em combustão. Finjo a mais granítica serenidade, embora por dentro meus instintos de sobrevivência recomendem veementemente que devia me agachar debaixo da mesa. Se possível, bem longe dali. Ele sabe que tenho horror a demonstrações de boçalidade. Por isso mesmo, nessas horas, faz questão de me provocar. Um autêntico facínora, se me permitem uma opinião mais pessoal.
— Que imprevistos foram esses? — indago por fim, a voz espirrando do fundo da garganta aos salpicos. — Sempre a mesma conversa. Se vocês não são capazes de prever todos os riscos envolvidos na operação, incluindo possibilidades as mais remotas e improváveis, então, me desculpe a franqueza, não passam de incompetentes.
As pupilas dele crescem nos globos e se arroxeiam. E o rosto, se é que meus sentidos já degenerados pelos sucessivos steins me permitem diagnosticar com segurança, parece empalidecer. Só lembro de ter pensado algo como “É agora...!”
O Demóstenes engole em seco, tentando digerir o insulto. Engole uma segunda vez. E uma terceira. Então pigarreia de novo, sinalizando que tem algo importante a falar. Aparentemente escolhe bem as palavras antes de externá-las.
“Lá vem bomba!” penso, procurando me precaver. Ele abre os lábios grossos e obscenos e gira a cabeçorra para os lados do balcão.
— Lacerda, outra fritas! Agora, à portuguesa! — o vozeirão ribomba pelas paredes do buteco. Ouço copos e garrafas tinir nas prateleiras.
Estou diante d'um pro, não posso deixar de reconhecer. Business acima de tudo. O resto a gente se entende, se vocês toleram outra frase feita. Naquele instante sinto um quê de admiração pelo cara. Fugaz. Mas admiração sim-senhor. Não canso de me surpreender comigo mesmo.
— É que aquela dona era parada dura — ele ergue as mãos à altura do peito num gesto de quem se defende duma acusação. Tem a bocarra ainda estufada de batata, mesmo assim encaçapa entre os dedões a última meia dúzia de fritas e soca dentro dos lábios escancarados. Então termina por empurrar a gororoba com dois dedões e se põe a mastigar espalhafatosamente de boca aberta. Tenta falar, mas não logra senão tartamudear.
— Pelo amor de deus, digo, ao seu chefe, termine de comer primeiro! — Baixo a cabeça e desço o olhar para um ponto vago na mesa.
Quando reergo os olhos, vejo que ele está apenas se divertindo com meu moralismo classe-média. Mesmo assim resolve acatar. Deglute pacientemente o bolo de batata, vira um stein para ajudar na digestão, estala dois dedões na direção do Lacerda, pedindo nova rodada, solta um ressonante arroto que paralisa o vozerio do mundo por uns segundos e prossegue:
— Principalmente aquela dona... aquela última... como era mesmo? Van...? Kan...? — Imensos perdigotos verde-amarelados de batata são espargidos para todos os lados. O verde se deve à gosma râncida que, imagino, equivale à nossa saliva.
— Fran! — ajudo, numa tentativa de deter os fragmentos de batata projetados na direção da minha cara e antes que ele faça mais uma de suas gracinhas sem-graça.
— Isso! Mulherzinha mais pedante! Me diga, que foi que você viu naquela pernóstica? Sem falar em todo aquele esprit-de-corps punk! Também pudera. Qual era a proveniência da peça? USP, obviamente. Tudo que vem daquele antro de debilóides, daquele... — De repente puxa fundo da garganta, produzindo um ruído insuportavelmente asqueroso, estufa ambas as bochechas e dispara uma tremenda cusparada gosmenta e variegadamente multicor no chão ao lado da mesa.
Tapo a boca com uma das mãos, tentando atenuar a ânsia de vômito, e olho na direção do balcão. O Lacerda observa de soslaio, fingindo que não viu.
O Demóstenes limpa os lábios melecados com o dorso da mão e prossegue imprecando: — ...daquele submundo de doentes, daqueles narcisinhos metidos a intelecas e artistas, daqueles neuróticos incapazes de enxergar o mundo real...! Ah! Minha vida virou um, com perdão da impropriedade, um inferno depois que você passou a cair de paixão por universitárias!
Concordo com a cabeça, concedendo que está coberto de razão. E faço de conta de que não registrei sua mania impertinente de enumerar xingamentos contra o mundo acadêmico. Um maneirismo absolutamente irritante. E desnecessário.
— Aquela foi parada mais que dura — completa.
— Todas são parada dura — sentencio já começando a me irritar. — Só me apaixono por mulheres especiais. E, por gentileza, evite se referir às minhas musas por dona e termos grosseiros do gênero.
Demóstenes abre um sorrisinho ligeiríssimo à la Gioconda. Provavelmente de escárnio. Um escárnio escarnecedor de fino. Se diverte com meu coração mole, minha vulnerabilidade, minha cabal ausência de instinto de autopreservação.
— Você há de convir. — Estica um braço e pousa a pata sobre a minha mão, que, à espera do reabastecimento, eu estacionara ao lado do copinho vazio. Podem pensar que estou exagerando — tudo bem, reconheço que passo dos limites, às vezes —, mas a manopla do cara dá três ou quatro da minha, que é fina feito a de dono de cartório. — Você há de convir, aquela dona era mais confusa que...
— ...cachorro em dia de mudança — me apresso a completar o chavão, quebrando o barato dele.
As enormes pupilas se dilatam ao limite, refulgindo nas cores do arco-íris. O Demóstenes tem um senso estético muito peculiar. Agora estou na minha seara. Sei que ele não se atreveria a lançar mão de meios que não fossem intelectuais. Ser inteligente às vezes vale a pena, rio por dentro.
— Bem, nisso até que você tem razão... — sacudo afirmativamente a cabeça.
De fato, a mente da Fran funcionava — se é que tal termo seja apropriado — de maneira mais errática que eletroencéfalograma de epiléptico. Nunca vi — nem espero tornar a ver — mulher mais volúvel. Era cheia de filosofias de vida, lemas e princípios. Os quais mudava a cada minuto. E quando digo mudava quero dizer mudava radicalmente – ou da água para o vinho, se preferirem uma imagem poética e original. Quando estávamos juntos passávamos horas bebericando um chopinho ali mesmo naquela mesa. Começávamos trocando as amenidades que todos conhecem (lembro duma ocasião em que chegamos a falar do tempo e dos índices de lentidão do trânsito, das novas marcas de automóveis, do preço dos imóveis e banalidades que tais) e então escolhíamos temas mais relevantes para ambas as partes à medida que os chops eram trazidos no piloto-automático pelo Lacerda. Fran estalava os lábios estufados de sensualidade, me lançava um olharzinho maroto e, como se fora o segredo mais importante do mundo, “confessava” como a poesia lhe salvara a vida.
— A redenção do ente humano está no resgate do espírito poético! — proclamava em voz grave, grudando uns olhões palpitantes em cima dos meus, intimando meu endosso.
Eu reprimia a gana de rir do solene pronunciamento e fazia que sim com a cabeça, procurando não denunciar meu sentimento com um vácuo que certamente se refletia em meu olhar. “Resgate”, ó Cristo! como detesto esse cliché-ônibus que todo mundo e meu primo Valdo nos últimos tempos deu de tascar sem piedade nem dó em qualquer contexto para se referir a qualquer coisa já passada.
— Acho absolutamente condenável a imposição estéril e artificial segundo a qual o pensamento deve referir sua própria dinâmica através da criação de conceitos...
Eu continuava assentindo. Já estávamos no sexto ou sétimo chops. Ela que misturasse em sua linda cacholinha as sandices que lhe aprouvesse. O que me interessa numa mulher é, um, beleza, dois, sensualidade, três, femininidade. Cultura, se houver, vem de bônus. Erudição e intelectualidade, dispensáveis. Eruditos não passam de computadores humanos com HD de trocentos gigas e centos megabytes de memória ram. O conhecimento fica lá guardadinho. Só que fragmentado em pedacinhos estanques. Não formam um todo. Você não pode apreciar o panorama duma só vez. Isso quando consegue subir até o belvedere. Tem de abrir e fuçar pasta por pasta. Fran, para meu azar, era eruditazinha. O pior no metido a erudito, porém, não é pretender ser um google alexandrino ambulante — é não se abster, nem um segundinho, de exibir o enciclopedismo vazio para todos que estejam ao redor. Fran jamais calava a boca. Na mesa do buteco me limitava a assistir sua língua de víbora serpentear imorredoura e lasciva entre os beiços maciços despejando toneladas de citações vãs. Tudo que eu queria era que meus olhos continuassem embevecidos pela beleza do rostinho angelical, prolongar o arrebatamento onírico o máximo possível.
— Segundo Bonnefoy...
— Quem? — o nome estranho me despertou da lassitude.
— Vai me dizer que nunca ouviu falar de Bonnefoy? — Sua voz adquiriu uma tonalidade metálica. Uma sombra hostil atravessou os olhos de musa, provocando um efeito extremamente perturbador.
— Infelizmente, não — me desculpei, erguendo a tulipa de chops e tentando ocultar a cara.
— Whatever! — Em inglês o escárnio soava mais chocante. — Como dizia, Bonnefoy afirmou que Auschwitz não impossibilitou a poesia, mas foi a falta de poesia que possibilitou Auschwitz! — Arrastava exageradamente os ciciantes fonemas germânicos, tentando uma pronúncia castiça.
Introduzi a borda da tulipa entre os lábios e deixei que o líquido gelado e amargo descesse vagarosamente pelo esôfago, me estufando ainda mais o estômago. “Bebo para me afogar”, costumo pensar nessas horas.
Depois de Primo Levi não tinha sentido algum discutir Auschwitz ou qualquer outra coisa referente ao extermínio dos judeus nos campos de Adolf. Quem leu Ist das ein Mensch? não precisa mais de explicações. O ser humano e suas taras medonhas estão todos lá. O que torna o livrinho de Levi básico é que ele passou pelas experiências que relata e, bom escritor, as descreve com precisão e competência. Não há, não pode haver ensaio bacharelístico que o supere.
Pensar em Auschwitz me traz de volta ao doloroso presente e a miríade de assombrações que me perseguem desde sempre. A maioria, vejo, pasmo, a maioria consegue ser feliz mesmo com a ideia de que campos de extermínio e quejandos existiram um dia, existem ainda hoje, insuspeitos ou não, em regiões inóspitas do planeta e, mesmo que um dia sejam extintos, sempre poderão existir no futuro. O vulgo, fabricado aos trilhões na porca linha de montagem d'um deus relapso e vagabundo, que a cada ano que passa se mostra mais e mais insuficiente para suprir as necessidades espirituais da malta, o vulgo sai de fábrica c'um mecanismo que parece desligar automaticamente ante os curto-circuitos mortais que de décadas em décadas vêm provocar uma pane terminal no cérebro da rapaziada. É o mesmo mecanismo que permite aos homens ocos conviver cotidianamente com as horrendas favelas e a indigência cancerígena que vão tomando conta do mundo e que todos fazem de conta que não estão ali. Nunca me acostumei a andar pelas ruas vendo gente jogada nos cantos das calçadas à espera da morte. Na minha noção infantil de ser humano, que, lembro, presidia soberana minha cabecinha lírica, mulheres e crianças foram feitos para viver c'um mínimo de dignidade. Quando há tempo e espaço, homens idem. Criança, olhava em volta atônito, procurando ver nos rostos à minha volta pelo menos um reflexo da repugnância do hediondo que me assoberbava. Nada. Na Índia os preceitos religiosos de que devemos cuidar apenas do espírito, nos preparando para uma suposta vida alhures, fez dos hindus capachos humanos que não titubeiam em se esparramar pelas ruas enquanto cultivam o espírito. Turistas ocidentais saem dos aeroportos e vão pisando alegremente em brâmanes e faquires programados para viver e reviver eternamente sem dar trela para os comandos da carne. Num país ocidentalizado qual o nosso, devia ser diferente. Fran e outras mulheres que me atropelaram pela vida até que tentaram desviar minha atenção, primeiro alegando que a beleza supera, ou é nossa obrigação fazer com que supere, todos os horrores, depois, já perdendo a paciência e, eu podia ver em seus suaves olhos de bruxa, se preparando mentalmente para montar em sua vassourinha mágica de mulher bonita que sabe levar homens nas pontas dos dedos e despachá-los sumariamente para alçar vôo em busca de outros reinos, depois começou a me chamar de masoquista. A pergunta que essa gente de “bom-senso” sempre me faz é “sofrer à toa para quê?” no estilo goze-e-relaxe, de boçalidade infinitamente atroz, que hoje em dia se escuta por toda parte. Tenho ganas de responder “Sofro porque a dor faz parte”. Neste mundinho irrespirável de milhões de felicidades mágicas instantâneas, artificiais como suco de fruta em pó, seria gastar saliva. Sem poder remediar a morte, a miséria e a ignorância, os homens imaginaram que, para ser felizes, não devem pensar em absoluto nelas. Pascal, citado por Bernhard em O alento. Sofro. Quando mais não seja, por questão de princípio. Sou um carinha à moda antiga. Creio em princípios. Princípios de verdade, não slogans arbitrários que tolinhas qual Fran procuram seguir como se a promulgação duma lei significasse o próprio fim do caos.
Antes que o Demóstenes desfaça o risinho zombeteiro, emendo:
— Aproveite e me diga se ela está pensando em mim neste instante.
— Quem? Fran?
— Essa já era. Ela!
— Nomezinho da peça?
— Ora! — rio. — Você não é o bonzão? Adivinhe.
O Demóstenes me fita sério.
— Podia me dar pelo menos uma dica. Não é nada fácil. Mesmo para um gostosão como eu. Mas não me avexo nem pejo. Saindo...
Dizendo isso, relaxa os ombros, abandonando os braços lassos e comprimindo fortemente as pálpebras, num esforço de concentração. A bocarra se escancara mais uma vez, agora vazia, mas ainda deixando escorrer pelos cantos um fiozinho de baba esverdeada e viscosa. De repente o vozeirão de barítono se faz ouvir, parecendo trovejar de dentro d'um poço:
— Hmmm... vejo umas letrinhas lá no escuro fundo...
Me arrepio. O Demóstenes pode ser realmente assustador quando quer.
— Está... está vindo...! Um nome... Não, parte. Parte d'um nome...
Não posso conter um sorriso folgado. Me recosto na cadeira, relaxo o espinhaço. O espetáculo do Demóstenes exibindo seus recursos sobre-humanos, prospectando as profundezas de seu tenebroso espírito para extrair a luz das trevas como se fora água cristalina e pura do rochedo, o espetáculo do Demóstenes é um espetáculo insuperável, só perdendo para o gozo propriamente dito. Estalo os dedos na direção do Lacerda. Mais um! Mais um! Mais um até o fim. A paz queremos com fervor, a guerra só nos causa dor, porém se a pátria armada...
— Não me desconcentre! — A chicotada sonora d'um trovão afugenta meu delírio. — Exaltar o exército numa horas destas!
— Desculpe, dê — balbucio, me recompondo, atordoado com a reprimenda e ao mesmo tempo me perguntando de onde raios veio aquela marcha que tanto escutei na infância, ao mesmo tempo me admirando com os dotes telepáticos do miserável.
— Ah! Agora sim — o Demóstenes abre um sorrisão satisfeito. — Tarebiz... Não, nada a ver. Hmmm... sim! Tzarbei! Não, esse também não existe. Ah, agora vai... Zeta Rib! It Zebra! Pronto! — Abre as pálpebras azuladas e olha o ar, extasiado. — Ahhhh...!
— Pronto o quê? — zombo. — Zeta Rib ou It Zebra por acaso são nomes de mulher? No máximo me evocam uma estrela de hollywood passando a tarde no zoológico.
— Anagramas, sua besta. Deu para entender ou tenho de desenhar?
Torço acintosamente o nariz diante do lugarzão comum me esfregado na cara assim com tamanho despudor. Ato contínuo, dou de ombros. Seria demais esperar senso estético de “gente” como o Demóstenes.
— Descobriu ou não descobriu, afinal? — ralho. — Essa brincadeira está me cansando.
— Cateleine! — ele solta um bafozinho fino e fétido. — E se pôs a recitar para si mesmo num cochicho inaudível: — Cateleine... Cateleine... Cateleine... Ai-ai, linda Cateleine... doce, suave, terna, leve, branda Cate...
Bato a mão espalmada no tampo da mesa com certa violência, produzindo um estalo seco. O Demóstenes tem um sobressalto e estatela os olhos. Ato contínuo, enrubesce, tonalidade entre brasa e carmim tingindo rapidamente a carona rechonchuda e disforme.
— Mais respeito! — exijo. — Você não está autorizado a seduzi-la para fins pessoais. Muito menos a exibir sua lascívia de bode no cio.
Ele arqueia o pescoço. Fita o chão, submisso, quase servil, pedindo mudamente perdão.
Por uns segundos sustento um olhar duro na direção dele, a custo contendo a gana de me entregar a um sermão eivado de achincalhes. Sujeitinho ordinário! Pela milésima vez caio em sua empulhação. Me distraio com os dotes do miserável, me deixo iludir, e quando me vejo em suas mãos, me atraiçoa.
Espero a raiva passar. Logo a imagem enevoada dela volta a comandar meus sentidos. Vou reassumindo meu estado natural de aturdimento, sonhando uma salada de delícias carnais, sensoriais, sentimentais e estéticas. Quase plenitude. Os grandes poetas deviam sentir essa salada epifânica a maior parte do tempo. Agora é minha vez. Graças a ela.
— Ela está pensando em mim? — pergunto ávido, sentindo uma apreensão repentina. Sofro dessa necessidade atroz de me conectar mentalmente com a minha amada. Não sei, jamais saberei, ser solitário. Preciso grudar nossos pensamentos até a mais cabal xifopagia. Amor, mesclemos os dois corpos e as duas mentes e os dois corações e as duas almas. Sejamos unos! Percamos nossos nomes num anagrama definitivo! Awe Blitz Irons! Atone Biz Swirl! Zaniest Rib Low! Lazier Nibs Two! — Diga, ela está pensando em mim?
— Está! E em outras coisas também. Ela está pensando em... — A voz dele modula para uma tonalidade mais prosaica. — Quer mesmo que eu conte? Inclusive o que não lhe diz respeito?
— Melhor não. Prefiro não me intrometer no que não é da minha conta.
O vozeirão volta a troar:
— Espera! Os pensamentos agora estão todos voltados para você. Ela está... está... está aguardando um... sinal...
— Aguardando como? Onde? Onde ela está? Na sala, no banheiro...
— Calma, rapaz! A coisa não funciona assim na velocidade da luz. — Ele torna a cerrar as pálpebras. Franze a testa. — Ela está... hã... Sim! No quarto.
— Como está vestida? — Minha sofreguidão se agudiza de segundo a segundo. — Está usando um babydollzinho fofo? Ou apenas calcinha e sutiã? Ou nada embaixo do lençol? Dá pra a sair uma foto?
O Demóstenes esfrangalha os olhos de pupilas arroxeadas. Vocifera:
— Por acaso tenho cara de impressora?
— Ai que suplício! — Apanho o copinho de stein que o Lacerda acaba de deixar entre as minhas mãos e enxugo tudo num sorvo. — Não suporto mais essa espera! Me diga pelo menos a roupa que está usando!
— Hã... Um... um vestidinho...
— Cor?
— A cor não posso dizer, você sabe.
— Onde ela está? Na janela, hipnotizada pelo luar? Sonhando com que há além da noite? Sentindo as vibrações sísmicas do meu peito? Onde ela está?
— Deitadinha na cama. Olhando o teto. Espera... Olhando não. Conversando com o teto. Cáspite! Essa eu nunca vi! — O Demóstenes libera uma formidável gargalhada, que parece chacoalhar as prateleiras e as mesas do buteco.
Sendo um cafajeste pragmático e mecânico, naturalmente conversar com o teto é, para ele, próprio de débeis mentais. Não, não estou afirmando que eu também converse com o teto do meu quarto. Mas, sendo, de minha parte, avesso ao pensamento-linha-de-montagem que assola e sempre assolou a humanidade, entendo perfeitamente bem quem assim faz. Que mal há em bater um papo com o teto? Tanta gente conversa com a parede. Só vejo problema quando é ele que conversa com você.
— Que é que ela está falando?
— Bom, vou lhe franquear apenas um trecho. Você conhece as regras. Se meu chefe me interpelar mais tarde, digo que foi apenas uma amostra grátis. Aí vai: Amo a vida e vislumbro uma imensidão à frente. Apesar de algumas tormentas vejo um farol tão iluminado que pode chegar a cegar por alguns instantes, mas está lá norteando mansa e firmemente o devir.
— Deixe de conversa. — De repente tenho uma tentação avassaladora de dormir. Refreio um bocejo. Por respeito ao Demóstenes. — A Cate não diria algo tão solene assim. Não para o teto. E esse devir aí, me faz lembrar da minha professora Deise e as aulas de gramática do terceiro ano, quando éramos obrigados a ler, cruzes, Alencar. O tronco do ipê! Forrado de devires e mumunhas outras. Ainda hoje sofro da síndrome da serra elétrica quando vejo um ipê na rua. — Lanço o braço no ar num gesto de desdém. — Fala sério.
O Demóstenes me fita friamente. Está falando sério. Eu sabia. As regras não toleram esse tipo de chiste. O Demóstenes, a — se é que posso pôr nesses termos — encarnação do profissionalismo, preza as regras do seu ofício acima da vida e da morte.
— Pelo menos me explique que sinal é esse que ela está aguardando? — Me aflijo. — Que sinal ela quer?
Na verdade o que espero do Demóstenes é que me dê algo minimamente concreto, uma evidência em que possa me fiar sem o perigo de quebrar a cara. Não, não pensem que tenho medo de assumir riscos. Meu dia-a-dia é uma corda bamba. Sofri algumas quedas ao longo dos anos. Mas nada suficientemente grave para me aleijar ou definitivo a ponto de inscrutar em meu ego qual introjeção neurótica. Certo, carrego alguns traumas, não posso negar. Mas essa também é outra história cujo relato devo postegar para outra ocasião. No momento estou é interessado em determinar como, se permitem mais uma impropriedade entre as tantas que já cometi, como abordar a Cate. Nos poucos contatos que pudemos estabelecer, me vi, confuso e aflito, às voltas c'uma mulher de opiniões e conceitos indetermináveis. Em outras palavras, escorregadia. Um escorregadio de mulher inteligente. Vocês sabem, provavelmente não há nada pior que uma mulher inteligente esperta. Você olha e não sabe se ela vem vindo em tua direção na penumbra da aurora ou se afastando no lusco-fusco do crepúsculo. Meio-tons tendem à escuridão, não à claridade. Ao obscuro, não à clareza. E, para que meu céu pareça definitivamente negro, ela me deixava mais e mais confuso a cada telefonema que trocávamos afobados, eu atrapalhado de paixão, embaralhando as palavras, ela, sempre com pressa, às voltas com as mil coisinhas de seu dia-a-dia de mulher com noção da auto-importância. Imprimia em suas palavras um tom para mim até então inusitado, expressava sentimentos em relação a mim de que até então eu não suspeitara, constantemente me surpreendendo e me angustiando, não me permitindo o bálsamo de uma certeza que fosse. Mais que tudo, parecia dizer “Você não me pega!”, se esquivando, mostrando ora um dos seus lados, ora outro e outro e outro, plantando falsas pistas, me induzindo ao erro, querendo me apanhar em minha própria armadilha. Tudo que eu desejava lhe dizer era, minha Cate, minha doce Cate, não sou homem de armadilhas, não sei usar armadilhas. Em todas as vezes em que, incauto, me dispus a caçar, acabei caçado. Quantas vezes me vi devorado em minha própria voracidade. Encurralado nos meus próprios becos. Apanhado na minha própria teia. Ainda não sei se você quer que te apanhe. Mas não posso esperar mais. Preciso atacar. É exatamente para te pegar que há dias venho me emaranhando numa profusão frenética de aflições, medos, esperanças e perplexidades, me torturando quase à morte para urdir uma trama capaz de te envolver e te paralizar e te fazer minha. Tudo que preciso é um sinalzinho, uma pista mesmo que remotamente verídica que me permita chegar até você.
— Mais não posso dizer. — O vozeirão do Demóstenes me acorda outra vez. — Não enquanto não fecharmos o negócio.
Tateio cegamente a mesa, procurando o copinho, que agarro com força entre todos os dedos e a palma da mão e levo à boca e emborco. É sempre assim. O desgraçado só me diz a metade. Um sádico, nada mais que um sádico.
O Demóstenes prossegue:
— Mas... Olha, não posso garantir, você sabe muito bem. Ainda não foi possível concluir até que ponto se trata d'uma mulher terna, bonita, sensual, feminina e amável, segundo os termos do nosso contrato, termos que, como você também sabe, não se aplicam necessariamente nessa ordem, e a potencialidade de vir a se revelar uma cila devoradora de homens. Pelo que levantei até agora, parece que há esperança...
— Dê, me deixa dar mais um telefonema, pelo amor de deus! Só unzinho. É tudo que peço.
— Nem pensar — o famigerado denega. — E é para o teu próprio bem. Não se esqueça do desastre da última vez, quando, mesmo contrafeito, atendi ao teu pedido. Você, teimoso como sempre, ligou. A distinta, naturalmente, bateu o telefone na tua cara. Escuta uma voz amiga. É para o teu próprio bem.
Outro calafrio. A dor daquela lembrança é aguda demais. Tem hora, o Demóstenes age como meu verdadeiro querubim-da-guarda.
Então tenho outra ideia:
— Qual é o índice de lentidão na cidade neste momento? — arqueio o lombo na direção dele, apreensivo com a possibilidade de o temido engarrafamento-monstro alardeado por especialistas e autoridades ter finalmente entupido toda a cidade.
O Demóstenes cerra novamente os olhos, agora com menos força. Aparentemente, auscultar a situação das ruas e avenidas de sampa não é tão difícil quanto entrar na cabecinha dourada da minha adorada Cate para fuçar seus pensamentinhos desordenados e confusos.
— Bom, hoje é Sexta-Feira da Paixão, você sabe. Todo mundo puxando o carro rumo ao interior. Exatamente o que você não está a fim de fazer agora...
A revelação me deixa lívido. Me esquecera do feriadão. A boiada de imbecis motorizados mais uma vez a entulhar cada milímetro de asfalto, impedindo que nós homens de boa vontade e embasbacados de amor cumpramos nossa missão, a única missão que viemos cumprir neste purgatório chamado Terra. Lembro as agruras anteriores, noites insones, ânsia de vômito incessante, porre contínuo por manhãs angustiadas, tardes moribundas, noites tenebrosas, madrugadas suicidas. O Demóstenes e seu chefe tinham me tirado praticamente tudo: a saúde, a alegria de viver, o otimismo e outras coisinhas de que prefiro não falar no momento. Resignado, indago:
— Quanto ele quer para dar um jeito no trânsito e em outros obstáculos que por ventura se interponham em meu caminho até a... cidade dela?
— Você sabe quanto ele quer.
Sei, obviamente. Ainda mais sendo o único preço que posso pagar.
— Será que desta vez ele cumpre o prometido? — minha voz sai entrecortada, meu peito arfa, o coraçãozinho doente de amor pulando mais que gota d'água em frigideira pelando. A vozinha ardida e incômoda que ainda tagarela algures dentro de mim se fez ouvir, dizendo que eu ia dançar mais uma vez. Como de costume, não dou ouvidos à intrometida. A possibilidade de reconquistar minha dançarina me deixa completamente obtuso. Mel! eis tudo que almejo, só que persigo, tudo que pode me restituir a lucidez! Quero me lambuzar num oceano de mel viscoso e açucarado cuja superfície seja plácida mas tenha as profundezas atormentadas por correntes mortais que me arrebatem e me conduzam e me transformem num delfim cheio de vigor a nadar insensato por todo o sempre movido da mais pura alegria!
— Claro, claro! — o Demóstenes me dá um tapinha no ombro com os dedões emporcalhados de gordura. — O chefe está mudado. Não sei o que deu nele, anda honrando tintim por tintim os tratos com os fregueses... digo, clientes. Fechado, então? — Ergue o braço diante do rosto e estreita os olhos na direção do rolex de ouro reluzindo exageradamente grande e chamativo em seu pulso. — Fechando agora, amanhã, neste mesmo horário, a doce Cate estará aqui no meu lugar, tomando um steinhäger com você.
Será que ela curte stein? penso, penso e sinto uma ponta de angústia, cogitando a hipótese de ela só tomar suco de fruta. A gente nunca sabe até onde pode chegar a loucura que vai varrendo este pobre e irrecuperável mundo. Por tudo que pude descobrir sobre ela até então, minha dançarina é combativa cruzada antialcoolismo.
Franzo a testa e dou um último olhar para o teto. Embora agnóstico por natureza, peço a proteção divina. Sim, entre meus milhões de defeitos, minha inconsistência reluz qual rubi no monturo. Num fiozinho de voz, ciciante qual o sussurro d'um riacho vertendo tímido e ao mesmo tempo sôfrego no breu da noite lá fora, balbucio:
— Fechado. — E faço menção de me levantar da mesa.
— Not so fast! — O Demóstenes prende meu braço com a manopla de aço, me retendo. Então passa um olhar severo e reprovador pelos meus sapatos, calças, camiseta, subindo até o cabelo. Num tom escandalizado, pergunta: — Você vai assim?
Confuso, dobro o pescoço e olho minhas próprias roupas. Sim, o desleixo está entre meus milhões de defeitos. Brado em voz suplicante e pusilânime:
— Vê aí o que você pode fazer, dê. Não tenho tempo de ir em casa me trocar.
O Demóstenes revira os globos oculares num gesto de impaciência e bufa alto e áspero, murmurando uns palavrões que não posso distinguir. Limpa cuidadosamente as mãozonas em dezenas de guardanapos de papel. Então abre as pernas gordas e musculosas e, c'um puxão seco e enérgico, me põe diante de si como se eu fora um meninote. Qual meninote, me largo inerme, olhando para o chão enquanto ele dá um trato nos meus sapatos e calças e descola, não sei de onde, uma elegantérrima camisa de viscose branca e me passa um líquido no cabelo — que torço com todas minhas forças para que não fosse sua própria baba esverdeada — e me penteia.
— Vejamos a dentição como anda. — Enfia o dedão indicador entre meus lábios e empurra meu maxilar para baixo. Vejo, pelo reflexo nas pupilas dele, uma luzinha se acender instantaneamente dentro da minha boca. Legal! penso, essa “luzinha intrínseca” faria muito sucesso entre os dentistas. — Hmmm, tá necessitado d'uma boa limpeza nesses dentes de cavalo que não come milho.
Uau, “dentes de cavalo que não come milho”! Que parâmetros o sujeito usa para diagnosticar esse tipo de condição bucal? Ele só podia estar — como tão alvissareiramente dizem os jovens hoje em dia — me tirando.
Na sequência, uma superkolynos saracoteia dentro da minha boca, me livrando da minha PLACA BACTERIANA.
— Essa aqui, só com plástica — Ele apalpa minha barriga e me avalia enojado.
Que se há de fazer. Entre ser atleta e pizzaiolo frustrado, o destino me deixou ficar com o segundo.
Antes de finalmente me voltar para porta do buteco e tomar meu rumo, o Demóstenes, num gesto surpreendentemente afetuoso que deixa marejados meus olhinhos assustadiços, me segura a nuca e, me fitando c'uma intensidade perturbadora, aconselha:
— Desculpe o tom paternal... mas seja construtivo ao lidar com a linda.
— Como assim, construtivo? — Estou desorientado. O Demóstenes não cansa de me espantar.
— Construtivo, ora! Por acaso vou ter de desenhar?
— Mas, dê! você me conhece, não sei falar desses assuntos que todo mundo fala! Ai! Tudo é tão complicado para mim! Você, mais que todos, sabe, sabe que ainda na infância me perdi aqui dentro de mim mesmo e nunca mais encontrei a saída. Não consigo me identificar com as bobagens que as gentes vivem emitindo pelos cotovelos dia e noite, dia e noite...
— Use a imaginação, asno! Afinal você é um pizzaiolo criativo ou what?
Sinto um campo magnético se instalando ao redor do meu cérebro. O pânico. Quando se trata de proferir conversa fiada só para passar o tempo ou curtir a presença de outra pessoa um vácuo toma conta do meu poder de articulação, perco a capacidade da fala. Inúmeras vezes tive de bater em retirada ante olhares inquiridores exigindo que eu me portasse assim ou assado ou dissesse o que esperavam que dissesse.
— Não adianta. Sou incapaz.
— Não baixe os olhos assim, traste de homem. Honre a fama que criou! É capaz, sim. Forje. Fantasie! Será que vou ter de te ensinar teu próprio métier? Vamos lá. Exercício. Invente um assunto construtivo.
— Você quer dizer, já?
— Não, zé-mané! Ano que vem!
— Criando assim do nada...? Como se fosse...?
— Ou você engendra um tema edificante já, ou nosso negócio está desfeito.
— Hannah Arendt...
— Que é que tem a Hannah Arendt?
— Ora, geralmente é um bom assunto entre pessoas preocupadas com o destino da humanidade. Os chamados humanistas.
— Ah, sim. Você me pegou nessa. Claro. Hannah Arendt. Mas como é que você vai impressionar a doce Cate falando de Hannah Arendt se você nunca leu Hannah Arendt? Me explique.
— Bem... Li aquele... como era mesmo... A banalidade do mal.
— Leu metade, se bem me lembro.
— Não será suficiente para simular que sou dono do fã-clube da mulher? Ah, também o li Homens em tempos sombrios em que ela fala de seu relacionamento com o Heidegger .
— Outro.
— Música popular brasileira. Esse é kartoffel. Não há brasileiro ou brasileira de boa vontade que não se anime em trocar abobrinha sobre emepebê. Não tem erro.
— Puf! — o Demóstenes abrocha os lábios grossos e cospe metaforicamente. — Que é que você sabe de música popular?
— Bom, manjo um tiquinho sobre aquele rapaz... Como é o nome mesmo? Aquele filho do Sérgio Buarque de Hollanda...?
— Chico. Chico Buarque de Hollanda. Como é que vai falar do cara se nem é capaz de lembrar o nome dele?
— Escrevo na palma da mão! Que é que você acha?
O Demóstenes tira uma esferográfica do bolso interno do paletó e ma entrega.
Escrevo “xico” em letras pequeninas no meio da palma da mão esquerda.
— E se a Cate te perguntar que música dele você gosta mais?
— Sem lenço sem documento! — exclamo eufórico, lhe mandando um olhar desafiador.
O Demóstenes cobre o rosto com as duas manoplas abertas, num gesto de cansaço extremo. Depois d'uns segundos, deixa as mãos escorregarem lentamente e vai abrindo as pálpebras. — Esquece. — Sacode a cabeçorra, desanimado. — Deixemos os assuntos construtivos para outro dia. Faça a única coisa que sabe fazer: fale de você mesmo.
— De bom grado. — Me entusiasmo. — Se a minha lindinha deixar, é o que farei.
— Como assim, se ela deixar?
— Bem, você sacou o jeitão dela, não sacou? Posso estar enganado, mas ela parece ser a personificação do narcisismo. Se é que me entende...
— Bah. — O Demóstenes ergue o antebraço e dobra espalhafatoso o pulso, deixando a mão cair num gesto expressivo. (E dúbio, me evocando quase uma desmunhecada. Por uns instantes me pergunto se, além de tudo, ele ainda etc. Hoje em dia bidu.)
Ele prossegue:
— Isso você tira de letra. Afinal é o narciso mais empedernido que conheço.
— Aí que está o problema. Dois...
— Chega de papo furado. Vai lá e bota para quebrar. Vou ficar aqui torcendo.
Pela primeira vez em minha vidinha sem graça olho agradecido para o Demóstenes. Estou ficando velho e, percebo neste instante, ele também. Partindo dele, aquelas palavras de incentivo adquirem ainda maior significação. A sombra dum navio-fantasma, porém, cruza célere a linha do meu horizonte. Será que ele está caducando? Perdendo a mão? Pois, se for esse o caso, então me acho em sério risco de quebrar a cara. Tudo que ele afirmou sobre a minha suave Cate podia ser inexato. Pior: distorcido. Pior ainda: inventado. Não! Afasto prontamente o pensamento ominoso. O chefe dele jamais consentiria. É o que digo e repito: com essa turma é profissionalismo e eficiência acima de tudo.
Sim, o Demóstenes tem razão. Chega de papo furado. Já me estendi além da conta nessa minha dolorosa preparação para meu primeiro confronto com a minha iridiscente, a minha volátil, a minha até então vaporosa Cate envolta em vagas nuvens e mistérios. Só então me dou conta de que, se não puser um fim a este relato, mesmo que seja um fim arbitrário, provavelmente nunca mais pararia de falar e especular e suspirar e devanear por ela. Um dia inteiro se passou desde que iniciei este tour-de-force. Minha intenção inicial era alinhavar dois ou três parágrafos que apenas sugerissem ao coração dela o vulcão que ameaça irromper aqui dentro. Se não der um basta agora, acho que nunca mais poderei parar. Sou, vocês sabem, um romântico mórbido.
Deixei de acreditar em religiões ainda criança. E em toda e qualquer crença que leva o zé-ninguém a sustentar sua inabalável, sua infatigável esperança de que o amanhã será melhor e outras tolices que tais. Minha incredulidade, hoje praticamente intrínseca, inclui superstições, magias, quebrantos, rezas, astrologia, pensamento positivo e quantas mais bobagens do gênero possam habitar a mente dos primários por esse mundão afora. O zé-ninguém foi feito não para desvendar a realidade e sim para prosseguir cego e surdo rumo ao abatedouro no meio da manada, às vezes mugindo, outras, mirando as estrelas na noite sem compreendê-las, desconfiando apenas longinquamente de que seu fim será irremediavelmente trágico. Não me perguntem por que viemos aqui desfilar nessa manada insana. Como disse alhures, sou agnóstico. Não me interesso pelas razões nem por que razões existem ou deixam de existir. O zé-ninguém é um ser pretensioso — almeja descobrir o que há por trás dos mistérios da vida. Quanto a mim, não creio em mistérios. Não creio em nada. Menti quando disse alhures que creio em princípios. Sim, a mentira é mais um dos meus defeitos. A necessidade de crer em algo é patética. Mas, outra vez, minto. Creio, sim. Creio que, pelo menos desta vez em minha existência de frustrações e vexames, serei agraciado c'um grãozinho de sorte pelo mecanismo que rege a minha sina. Ainda verei, estou certo, um sorriso se abrir sutilmente nos lábios da minha Cate, ainda ouvirei de sua voz meiga uma ou duas palavras de alento. Não, não é por isso apenas que meu coração pulsa. Mas me sentirei abençoado se alcançar pelo menos essa dádiva.
Sexta-feira da paixão, sábado da paixão, domingo... todo dia para mim é dia da paixão. Preciso, ó céus, preciso d'um cristo diário que morra por mim e me salve de mim mesmo e do que quer que me persegue e atormenta. Cristo, se eu morrer nesta empreitada, por favor, opere o milagre da minha ressurreição. Não preciso renascer no domingo. Não tenho tanta pressa. Mas tenho pressa — mais, urgência! — de amar. Amar é meu remédio. Minha saída. Cate, sei, sei com certeza absoluta e cristalina como devem ter sido um dia as águas do Rio dos Meninos, Cate será minha heroína por uns tempos. Quanto exatamente, não ouso imaginar. Doi pensar que, se houver um início, fatalmente haverá um fim. Não posso pensar nisso agora. Quando se cansar de mim — e haverá de, disso também tenho absoluta certeza, todos terminam por se cansar de mim cedo ou tarde, pois sou um voraz desmedido e vorazes desmedidos terminam por se devorar a si mesmos —, quando se cansar e me mandar plantar batatas ou sei lá que queira que eu plante, retornarei ao meu estado de objeto inanimado, sem alma nem anima, sem esperança e sem vida que tenho sido sempre. Por incrível que possa parecer, me acostumei. A perspectiva de que alguém me ame e me remova, mesmo que a fórceps, da minha anomia natural, faz de mim um ente intoleravelmente ávido. Ávido de afeto. De colo. De braços acolhedores. De beijinhos frívolos e supérfluos e ao mesmo tempo canônicos. De consolo. De paz. Passageira que seja, mas paz.
Aperto a mão do Demóstenes, me despedindo. Ele pisca uma das pálpebras roxas à guisa de desejo de boa sorte.
Paro na porta do buteco, olho para o céu ansiando por enxergar as estrelas. A caparaça da poluição é tudo que vejo.
Escuto alguém fazer psiu às minhas costas. Me volto. É o Demóstenes.
— Acabei de receber o sinal! — diz. E ri.
Meu coração dispara.
— Qual?
— Este: “Você me enxergou além... Focou em mim. Não entendo o porquê no meio de milhões.”
— Não brinca! — exulto.
— Nunca brinco.
Então finalmente entrego minha alma, na esperança — vã? — de amanhã, a esta hora, ter o rosto belo e bondoso diante de mim, me contando com sua voz aveludada (esclareço que nunca escutei a voz dela mas sei que fadas, ninfas, rainhas e outras excelsas foram dotadas de voz aveludada) me contando com sua voz aveludada milhões de coisinhas de sua vida, essas coisinhas que toda mulher apaixonada diz. Também sei que, nesta hora, não estarei prestando atenção, pois nos meus sonhos delirantes nada sei fazer senão sonhar que sonho que sonho que sonho.

Pausa para um momento Harold Bloom

Há uns cinco anos cansei de ver o nome de Fabrício Carpinejar propalado em verso e prosa na imprensa e resolvi comprar um livro do rapaz. Se tratava dum volume de crônicas (ou seriam contos?). O nome do livro esqueci. Mas lembro que li três páginas e enfiei num canto no fundo da minha estante destinado às leituras irremediáveis. Lembro também de ter pensado que os contos (ou seriam crônicas?) configuravam uma espécie de sub-Verissimo, ou seja, aquela subliteratura forjada para tirar dos acontecimentos uma moral. E quando fabricar a fábula parece impossível, provar ao leitor que as vicissitudes sempre podem ser superadas para que o império do otimismo e da esperança se estabeleça triunfalmente.
Então Carpinejar deslizou suavemente para o fundo do meu arquivo mnemônico e acabei por o limpar do meu horizonte literário. Até que, acho que ano passado, vislumbrei o mancebo na tevê, apresentando um programa de entrevistas. Lembro de ter pensado que ele talvez tivesse mais sorte fazendo par com Gugu e Faustão. Deve ser duro sofrer dessa obsessão de querer se tornar ídolo a qualquer custo.
Carpinejar tem pai e mãe poetas. Neste mundo sempre tão cioso em nos afastar o máximo possível da nossa vocação – a boa herança é fortuna premiada apenas aos eleitos de deus –, a identificação profissional com a mãe e o pai deve parecer meio caminho andado. Meu caso, só para fins de comparação, foi bem diferente. Tanto papai quanto mamãe eram semi-analfabetos – ambos originários da roça – e em casa eu e a mana, tratados como os roceiros tratam a cria, reserva de mão de obra programada para entrar em ação na pré-adolescência, sofremos o cão para provar aos velhos que valia a pena tentar outro futuro que não a enxada. Não foi moleza.
Puxo no Google uns poemas de Carpinejar. Ai vai um curtinho, escolhido apenas para fins ilustrativos:

Domingo
As garças capinavam
as águas.
A saliva das aves
movia o motor
do riacho.

Rarissimamente leio um texto qualquer, seja prosa ou poema, procurando detectar um significado preciso. Ou qualquer significado que seja. Meus próprios textículos demonstram que em geral não dou importância para cravar um sentido com que meus leitores – e muito menos meus críticos – eventualmente possam me definir assim ou assado. Ou usar contra mim no juízo final. Mas, para quem certamente vem fazendo uma força danada para alcançar a ribalta e virar celebridade literária, o poemeto acima, que não quer dizer absolutamente nada, redunda mais que constrangedor.
O conceito de Carpinejar não é lá muito elevado entre os críticos profissionais. Meu xará Wilson Martins, que escreveu a História da inteligência brasileira em sete volumes elevados ao nível do cânone pela inteligência brasileira – esticou as canelas em 2010 – não pegou leve com o poeta gaúcho quando assestou seu olhar de águia para o lado dele. E há quem compare a literatura de Carpinejar a livros de auto-ajuda.
A favor de Carpinejar posso dizer que ter levado umas broncas do mestre Martins não é lá tão grave assim. Num pequeno ensaio em que trata dum livro de crônicas de Ignácio de Loyla Brandão, Martins comete o disparate de asseverar que as tais estão entre as melhores jamais escritas no Brasil.
Do que peço vênia para discordar. Brandão é um dos mais chatos, dos mais previsíveis, dos mais convencionais, dos menos ambiciosos, dos menos criativos homens das letras deste país.

O desabrochar das moças nas praias

Sabem por que odeio ler Pessoa?
Por isto:

AH, A FRESCURA na face de não cumprir um dever!
Faltar é positivamente estar no campo!
Que refúgio o não se poder ter confiança em nós!
Respiro melhor agora que passaram as horas dos encontros,
Faltei a todos, com uma deliberação do desleixo,  
Fiquei esperando a vontade de ir para lá, que eu saberia que não vinha.
Sou livre, contra a sociedade organizada e vestida.
Estou nu, e mergulho na água da minha imaginação.
É tarde para eu estar em qualquer dos dois pontos onde estaria à mesma hora, Deliberadamente à mesma hora...
Está bem, ficarei aqui sonhando versos e sorrindo em itálico.
É tão engraçada esta parte assistente da vida!
Até não consigo acender o cigarro seguinte... 
Se é um gesto, 
Fique com os outros, que me esperam, no desencontro que é a vida.
 
Tive uma ideia hoje e me preparava para a escrever e postar no blog, quando quase sem querer descobri este textículo em meus arquivos.
Exatamente a minha ideia! O meu estilo!
Pessoa era um plagiário safado.

Duas vidas num só olhar

Toda vez que escuto o primeiro acorde do adagio do concerto para piano, opus 16-2, attacca, de Grieg, meus olhos são puxados para o centro da Terra como se não fossem meus.

Eye, the caldron of morning


Quase todos temos pensamentos e sentimentos conflitantes sobre os outros, não temos?
Analisa por segundos qualquer pessoa do teu círculo próximo — e também do remoto —, compara a análise com o julgamento que tinhas da pessoa em outros tempos.
Nosso conceito de terceiros, longe de ser monolítico, varia, tanto pelas deformações de visão causadas pela passagem do tempo quanto pelo nosso jeito inconstante de ser.
Não sei se tal inconstância se deve à fluidez com que as nuvens viajam por sobre nossas cabeças. 

Circulares

Vira e mexe alguém me pergunta por que escrevo. Assim: por que você escreve?
Manjada, bien sûre. Sempre que ma fazem, cismo. O que querem saber de verdade, imagino, é: você se acha escritor?
Se me perguntassem assim na lata, c’um mínimo de honestidade, responderia que sim.
Não, não responderia que sim coisa nenhuma. Simplesmente diria: meu blog tem mil e sei lá quantas postagens. E devolveria a pergunta: se não sou escritor, sou o quê?
Quem tem esse tipo de dúvida se esqueceu de esquecer o banco da escola. E, pasme-se, quase todo mundo se inclui nessa categoria. Na comunidade Literatura, da Orkut, diuturnamente um beócio tentava me ridicularizar por não ter nenhum livro publicado. O sujeito me perseguiu com tamanha obsessão, que o caso teria ido parar num tribunal se o Google não decidisse fechar a Orkut antes. O mais revoltante é que o estafermo me atacava a partir de perfis falsos e apelando a apodos aviltantes. Como todos sabemos agora, a internet é o paraíso dos covardes que abusam do anonimato para extravasar a inveja que os come por dentro.
Quem pensa que você não pode se chamar escritor por não ter publicado um livro se baseia em conceitos extraliterários e não tem a mais diminuta noção do que significa escrever. Desconhece a miríade de experimentos literários que correm soltos pela rede afora. Não é exagero dizer que manter um blog pode ser considerado atividade tradicional. Quase convencional.
Tenho certeza de que quem me lê acaba se fazendo esse tipo de indagação. Não duvido que um ou outro leitor, ou talvez mesmo um bom número deles, me confrontasse com “a” pergunta se tivesse a chance. O contrário também é verdadeiro: um número igualmente importante de leitores meus já superou a dúvida há tempos. Alguns deles conheço bem. Me enviam mensagens ocasionais, alguns assiduamente. Há os que me frequentam com regularidade mas preferem continuar na moita. Gostaria sinceramente de os conhecer mas cada um na sua, claro. Sei perfeitamente que sou antipático e devo ter espantado uma quantidade razoável de potenciais “clientes” até hoje. A clientela literária é um tema que pretendo desenvolver outra hora de modo mais substancial. Por ora quero apenas repetir que grande parte dos blogueiros por aí buscam nada mais que interatividade com seus pares, reproduzindo o mesmo esquema com que se viciaram nos portais de relacionamento.
De tanto repetir, muitos se afastaram. Por um ou outro, lamento. Mas nada que me perturbe além do que tudo que me perturba vem me perturbando desde etc. Se considero tais blogueiros escritores? Obviamente não. Mesmo que tenham cravado mil postagens em cada um de seus blogs. Todas destinadas a desencavar um afago da panela. Não se espante se disser que mesmo medalhões como Luiz Fernando Verissimo sobrevivem desse esquema. Muitos dos que se apresentam como escritores e que a mídia propala como escritores são meros fabricantes de textos – humorísticos, graciosos, enternecedores, picantes, divertidos, recreativos – que seus leitores deglutem e suas memórias expelem minutos depois como se fossem consumidores, não leitores.
Tenho uns romances estocados no fundo do baú, maturando, encorpando, cevando sabor e picardia e brilho numa parte nebulosa da minha consciência. Revisito um a um, ocasionalmente. Um ou outro tem futuro, estou certo. E como meu carburador tem rateado nos últimos tempos, já estão encaminhados a quem de direito. Que, espero, traga pelo menos um a lume, se a Grande Engrenagem engripar antes.
Uma ou outra pane tem dado as caras com maior frequência do que o esperado. Pode ser perigoso, vocês sabem, estacar de repente depois da curva, o detrás vem e passa por cima. Ou então o enguiço cismar de aparecer bem quando a gente tá alcançando a metade do Saara e você olha em volta e não vê sequer miragem. Por isso venho observando abstinência duns tempos pra cá. Esclareço: abstinência do prazer. Ultimamente meu Balla12 e outros aditivos que uso para lubrificar meu motor da felicidade não têm dado conta de azeitar linhas e circuitos a contento.
Hendrix fez um roquinho premonitório, Hear my train a'coming. E o bicho mal apitou na curva.
Já tive a coleção completa do Hendrix. E de todos os roqueiros suicidas e não suicidas que instalam posto de pedágio na vidinha inútil de cada um de nós gauches a contragosto.
Tento evitar a todo custo abrir minhas técnicas de escrita de mão beijada. Dane-se. Não é nenhum segredo coca-cola. Ouço o galo cantando algures. Lamento mais uma vez que não seja o do João Cabral.
Às vezes acho que o que faço é digno de chamar literatura. Outras, pfui. Gangorra imprevisível. Curto minha imprevisibilidade e não mexo um dedo pra botá-la sob cabresto. Quem não manja lhufas nem de arte nem de literatura nem de artistas nem de escritores vive cobrando consistência. Certas vezes em que tentei a consistência tudo que logrei foi tremer qual gelatina implorando uma dentada do cão raivoso. Os cobradores consistentes conhecem as datas dos grandes eventos históricos e os nomes dos personagens mas não têm ideia do que é consumar o derrame estético. Repito isso toda santa vez que falo deste assunto. E tenho algo a acrescentar aos consistentes cobradores: eu sei o que pensar de vocês, vocês não sabem o que pensar de mim.
Outra confissão. Terei quebrado o barato dos rezadores de ladainhas enclausurados em suas celas monásticas suplicando uma luz ao pai? Não tenho voglia de confessionalismo. Abrir o coração, só o dia que cair no Hospital das Clínicas.
Bem, acho que a resposta finalmente chegou. E já desmilinguiu. Espero que tenham sabido detectar.
Caras do contra não merecem um lugarzinho ao sol. Não temos chance. Não a chance que nascem esperando os senhorezinhos construídos para dominar o mundo, perpetuar a espécie e engendrar a consistência dos homens ocos de Eliot que indefectivelmente descambam na insaciável sede de poder que descamba na consistência assentida e idolatrada do mundo absurdo que fazem para eles mesmos e mais ninguém.
No mambembe, secreto zoo da humanidade somos os bichos exóticos na vitrine que Bernhard se recusava a admitir, os párias destinados à Reserva dos Selvagens de Huxley.
Mas tem um mas. Eu particularmente gosto. Suscito, seja aqui, seja pessoalmente, algo instintivo, quase ideológico, uma aversão que os nascidos-para-ser-felizes não sabem nem querem compreender e descartam sumariamente feito o lixo que — nada é perfeito — faz parte.
Requer estômago. Afora a literatura, é por que curto Bernhard, Dostô e poetas gauches defacto daqueles que Drummond pretendeu ser e não foi. O zé-ninguém que não me entende simplesmente torce o nariz e segue em frente. (Torcer o nariz é o que tem salvado a humanidade até aqui.) O zé-ninguém que me saca um pouco provavelmente sente algo de pânico. Atravessamos os píncaros da autoindulgência hedonista. Cercados de bon-vivants grotescos.
A maioria quando muito experimenta um bocadinho de enviesamento ao passar em brancas nuvens pela adolescência. O Grande Hiato. Parênteses a que não se dá importância. Salvo-conduto para loucuras, desde que não raiem a aberração, soft.
Meus parênteses começaram quando nasci e terminarão quando morrer. Na adolescência minhas nuvens foram apenas mais negras do que são o resto do meu tempo. Meu céu era baixo, lembro. Vivia agachado. A cabeça enfiada na negridão acima dos ombros. Meu lugar no mundo é apertado. Ao longo dos anos venho tentando aprender que não tenho a quem reclamar. Venho tentando aprender a morar na minha própria lata. É parte de mim qual minha roupa, essas havaianas com que zanzo pra cima e pra baixo.
Queria dar uma resposta minimamente objetiva. Mais que essa, impossível. Não vou fechar meus olhos à brutal falta de sentido de uma vida condenada à morte. Are u?

Mil, trezentos e sessenta ou Alguém tem o celular da Melanie? II

Não gosto de falar dos outros. Quero falar de mim. Não vejo nada que me interesse em quem quer que seja. De todo mundo que conheço, conheço apenas a mim mesmo. E já sou complexo e vasto o bastante para ter assunto pelo resto da vida.
Sou minha (dis)traída musa.
Mas pra falar de mim preciso primeiro saber algumas coisas sobre vocês. A que horas acordam? Deix’eu adivinhar. Sete e dez. Ai que delícia. Toda manhã às sete e dez vou pensar em vocês, quando estiver acordado. Não tenho horário para acordar, não. Tem dia acordo às 5, outros, às 9, começo a beber às 17, outros, às 14, começo a pensar em vocês logo cedinho e vou assim até desabar, como ocorre praticamente todo dia. Taux diferente hoje, não? É que resolvi mudar de repertório. Preciso de novos ares. Quero ver se consigo sair deste meu eixo besta, sunshine on my shoulders makes me happy, cantei essa musiquinha pro meu cunhado quando ele morreu, sofreu o cão, pobre, câncer no pulmão, if I had a tale that I could tell you, não tô nostálgico hoje, é minha nostalgia que embanana tudo quando escrevo, queria poder chegar na sexta e sair pra curtir a noite, extrapolar, mas extrapolo tanto a cada minuto do dia a dia, well, não sei mais o que escrever, é doloroso não saber se vocês sequer leem, não deixa de ser um bom exercício.
Taux pensando em fazer ioga, esticar os braços e as pernas em busca do nirvana, desde bebê tenho esse impulso pelas alturas, cresci, vi que podia atingi-las através das palavras, vocês usam implantar no trabalho? verbinho besta, né? eu uso o tempo todo, na indústria a gente implanta tudo a toda hora e o mundo cada vez mais fudido de tanta implantação, sunshine on the water looks so lovely, Lennon de novo, beautiful boy, ouvem o Chico? eu, cada vez menos, depois que resolveu falar do Brasil a partir das margens do Sena, ainda escuto quando meu filho vem almoçar comigo aos domingos, começou a curtir Chico e bossa-nova cedinho, a molecada toda vidrada no rock, puxou o pai, tadinho, heranças são foda, né? os pobrezitos não podem escolher nem seus próprios cantores, fui elitista desde o berço também, meu papo sempre foi Beethoven,  já ouviram a Sétima? suprema, se entenderem não ouvem outra coisa, quer dizer, fora Lennon, Denver e outros baladeiros com suas diabólicas baladinhas infantis, close your eyes, have no fear, the monster is gone, beautiful beautiful beautiful me, já tá bom, já pensaram se não existisse a internet, como é que eu aqui em Sampeia ia escrever pruns desconhecidos, é miraculoso, tão distantes no espaço e nas mentalidades e nas preocupações e nos propósitos, beautiful, beautiful brave new world, eu aqui confidenciando com quem não sei o nome nem o rosto é fantástico.
Agora vou (lhes) dizer só porque me perguntaram. Caso contrário não diria. É minha primeira tentativa de escrever sóbrio em meses. Procurem reprimir esses pensamentos bobocas na cabeça. Relaxem uma vez na vida.
Escrevo porque as palavras são minhas e faço com elas o que me aprouver. Fossem do Aurélio ou do Houaiss ou do dr. Paschoalino Nenhuma Beleza mandaria que fizessem bom proveito e iria pro buteco do Lacerda perpetrar aquela conferência com minhas prezadas kaipiroskas entremeadas de balla12 e stein e HINE Cognac (me trouxeram uma garrafa da França outro dia, pena que meia hora depois tinha evaporado, esqueceram de botar a rolha, fiz o Lá me providenciar outra incontinênti).
Meu passatempo predileto é vamos-brincar-de-escangalhar-as-palavras.
É tudo muito simples, na verdade mentirosa. Começa assim: você senta lá na sua mesinha no canto mais sombrio e desolado do salão do buteco, faz tipo uma pose ereta, quase comedida, chegando mesmo ao elegante, tomando o cuidado de não abrir as pernas como se fosse abortar inesperadamente qual costuma fazer a maioria dos machos (dio mio, coisa horrorosa homem que se senta de canetas escancaradas pra refrigerar o saco escrotal), aguarda a devida entrega do suprimento etílico (não tenho preferência particular nesse quesito; varia de acordo com minhas variações naturais; não tenho preconceito contra mudar; se a mudança for repentina e surpreendente, melhor ainda; meu menu em geral abrange de cachaça e vinho, passando por toda a extensa gama dos destilados e dos fermentados).
O que faço questão no duro é evitar comida. Petiscos, nem pensar. Amendoim, só se for japonês (em homenagem à minha doce e aristocrática Masami, a mulher mais linda, mais amável, mais adorável de todo este vasto universo). É sempre um perigo misturar bebes e comes.
Se o aperitivo se incluir na família do uma-talagada-só (stein, conhaque, caninha, vodka, rum e que tais), mando pra dentro, como o próprio nome já diz, numa só talagada. Esse é meu introito preferido, pois o efeito é praticamente imediato e o embriagamento, garantido. A inebriação sem detença é meio caminho andado quando você tá a fim de estuporar as malandrinhas mas sem paciência suficiente pra empregar o método calma-que-o-mundo-é-nosso-deles.
Agora, sobre ontem ao crepúsculo.
Masami me deu o costumeiro beijinho de boa-noite que me tranquiliza o coração que vive querendo saltar pela minha boca.
Aqui estou de volta ao meu posto num desses anéis que circunda Saturno. Na verdade estava relutante em vir, pois os astrônomos dizem que tais anéis se constituem de partículas (algumas podem ter metros de comprimento), sei lá, uma delas pode me bater na cabeça. (Seria, cá pra nós, uma dádiva.)
Mesmo nos confins de Saturno escuto a voz esganiçada de mamãe, “Já tá se enfiando numa alegoria de novo? Toma vergonha nessa cara, bandido!”
Sua mãe já te chamou de bandido alguma vez? Se não, é uma delícia, creia. É aquela sensação cálida e fina de que teu lugar no mundo tá bem guardado.
Os donos do mundo, ou alguns deles, pelo menos, se espantam que nós seres errados possamos ser tão negativos contra nós mesmos. Nunca lhes passa nem nunca lhes passou pela cabeça feita de bons instintos preservacionistas que um cristão atente ou atentasse contra a própria existência. Os donos do mundo chegam (ao mundo) e já encontram tudo arranjado (para eles, claro). A carreira, é só imitar (a do papai). O caminho, é só seguir (...) A fome e a sede e o prazer, é só estalar os dedos no estacionamento. A felicidade, é só esticar a mão na prateleira e botar no carrinho.
Escrever daqui deste anel daqui deste planeta distante não é tão fácil quanto parece.
Tudo bem, ainda tenho aquilo de que mais preciso, a solidão.
Aliás, faz uns minutos que venho pensando. Preciso mesmo viajar tão longe pra descolar uns momentos a sós?
Bate um vento cósmico, me arrepio até o talo, esqueci de trazer uma blusa. Que falta faz minha mãe.
Como são mimadas as crianças hoje em dia. As que conheço vivem cercadas dum bando de adultos permanentemente sôfregos por satisfazer as mais ínfimas vontades e necessidades do pirralho. Nada contra, acho.
Agora preciso dar uma saída. Mexer os músculos. Meus músculos tão virando farofa. Ó carnes que eu amei sangrentamente, Carnes, virgens e tépidas do Oriente do Sonho e das Estrelas fabulosas, carnes acerbas e maravilhosas, tentadoras do sol intensamente...
Vou saindo devagarinho. Não quero chamar atenção.
Dizem que em alguns países nórdicos você é capaz de viver décadas sem nunca ter olhado na cara dum vizinho.
Será?
Então é o paraíso que sempre procurei.
No inferno estou desde que nasci. É este país em que os que participam da minha comunidade me obrigam a fazer um pit-stop diante de seus portões quando me pegam de cristo saindo imprudente à rua para levar minha Zezeí Berenguinha a um passeio para finalidades fisiológicas. Tem hora – maldição – que torço para ela ir-se logo embora deste vale de lágrimas e assim me poupar desse padecimento. E então a mais pontiaguda das culpas me aguilhoa meu frágil baço de vivente incauto.
Roberto DaMatta em seu A casa e a rua diz que a rua invade a casa e a casa invade a rua e quando está na rua o brasileiro se vê destituído de sua individualidade.
So much for individuality. Somos um povo sem essa dádiva. Em outro texto DaMatta fala de como sua mãe batia na porta de seu quarto querendo saber o que ele fazia lá dentro trancado. Também sofri esse tipo de violação e violência. Talvez oriundo desse misto de portugueses e italianos e aborígenes que nos formaram. Um dia tranquei a porta do meu quarto, mamãe bateu bateu bateu até eu destrancar e exigiu a chave. Papai se limitou a ficar olhando, inerme e omisso como sempre. Algum dia haverei de escrever minha autobiografia.
Se o Chico e o Caetano deixarem.
Caetano e Chico se insurgiram contra os biógrafos exatamente pela mesma razão. São desprovidos de individualidade tal qual eu e DaMatta e não sabem tolerar que sequer possam se atrever a nos violar nosso cabacinho metafísico. Como todo brasileiro, imaginam que nosso mundo interno possa se desintegrar se devassado por um olhar mais inquiridor. Mundo interno, aliás, que não temos. Estamos expostos em praça pública em carne viva, ao alcance de qualquer bisbilhotice mais descarada.
Por hoje é só, pessoal.
Espero não ter desalinhavado pérolas de sabedoria além do suportável.
Espero não ter infringido a ortografia, a gramática, a sintaxe além do preconizado pelo Paschoalino Nenhuma Beleza. Talvez amanhã revise e corrija.
Tudo que posso dizer é que duro ser você mesmo nesse imenso liquidificador que é o mundo, se mantendo infenso às crenças e crendices e bruxarias dos que lhe são estranhos.
Todos vocês me são estranhos.
Não, não lamento.
Não, não lamentem.
Também sou vosso estranho.
Nos ensinam a nos amalgamar num único ente que não pode nem sabe ser senão um só.
Queria concluir proclamando que “é foda” mas seria demasiado grosseiro. Preciso ser alguma coisa que me ensinaram devesse ser nesta situação de que não me lembro e não vejo escapatória nem saída de.

Mil, trezentos e cinquenta e nove

E ainda há os que vêm a este blog à procura duma lágrima, uma risada, uma sacada, uma frase de mau jeito que justifique sua antipatia pelo autor, um versinho que compense a vazia jornada pelo facebook, dio mio, estamos todos encrencados, principalmente os que teimamos em fingir que não.

Mil, trezentos e cinquenta e oito

Ontem ganhei Ariel, de Sylvia Plath.
Já leu? pergunta quem mo presenteou, estendendo o livro.
Minha língua cai paralisada uns cinco, seis segundos, aguardando enquanto meu cérebro tenta processar o estímulo. Ao fim do constrangedor momento, arrebato o livro, boto debaixo do braço e prossigo com minha liça habitual, auscultar a parede.
Já lhes disse que não tolero que me façam perguntas? Acho que já. Umas trezentas mil vezes. Mas não custa reiterar, custa?
Qual dente está doendo? quer saber o dentista.
Santa Maria mãe de deus, pra que foi que o senhor estudou 15 anos na USP, doutor? Já sei, não saía do buteco, não é mesmo? Perdeu exatamente aquela aula em que aprenderia a identificar o dente dolorido do paciente sem ter de lhe atazanar com a maldita pergunta.
E os médicos perdem justamente a aula em que o professor lhes ensinaria a descobrir onde está doendo no paciente sem precisar lhe torrar a paciência com inquirições supérfluas.
E os atendentes de bar, o que vai ser?
E os garçons, o que vai comer?
E o bilheteiro do Metrô. Paro diante do guichê, empurro R$3,50 por aquele pequeno fosso de aço debaixo do vidro. O sujeito ergue os olhinhos de quem nos últimos vinte anos tem passado dia e noite repetindo o mesmo gesto. Ergo meus olhinhos de volta. O sujeito estica as sobrancelhas. Estico as minhas de volta. Ele não resiste: quantos?
Minha língua desaba paralisada uns cinco, seis segundos, aguardando enquanto meu cérebro tenta processar o estímulo. Me vejo encarapitado no alto dum púlpito montado bem no centro daquele imenso pavilhão abarrotado de baratas apressadas, munido dum microfone, meu vozeirão de Plácido Domingo gripado a animar a festa:
SENHORAS E SENHORES! Um segundo de sua atenção (tenho visto séries demais ultimamente). O nosso querido bilheteiro aqui – dobro os joelhos e abaixo a cabeça à la Roberto Carlos e estico um braço na direção do famigerado – quer saber quantas passagens pretendo adquirir com três reais e cinquenta centavos!
Finalmente compreendo a irresistível compulsão de meninos que viram legistas ou coveiros e garotas que acabam se formando veterinárias.
O pior, o mais doloroso duma pergunta é não saber não o que responder mas o que dizer.
Quantas vezes na vida você se viu sem saber o que dizer?
Três? Nove? Vinte e uma?
Não contou, contou?
Tenho dois livros diante de mim: Ariel e A guerra começou, de Camus.
Tenho um livro.
Não tenho nenhum.
Plath caminha por uma rua londrina, Camus está em close, cigarro recém aceso entre os lábios crispados, encostado num parede, cenho franzido a fitar o mundo impossível.
Plath caminha pela rua de Londres. Mãos nos bolsos do casaco não muito pesado sobre a blusa de gola olímpica, uma enorme tiara xadrez branca e vermelha domando os cabelos loiros, no rosto um sorriso que você qualificaria de faceiro se quem sorri não fosse quem é.
Plath e Camus estão lado a lado em minha mesa, casamento impraticável como todos os casamentos.
Quantas vezes já lutei tentando fugir da minha vocação romântica?
Não contei, contei?
Contei, sim. Tenho o número bem guardadinho aqui dentro. Tudo bem que está meio perdido entre tantos outros. Prefiro assim, quebra-cabeça insolúvel, com peças que não casam, peças que não formam um quebra-cabeça.

Mil, trezentos e cinquenta e sete ou Carta a uma poeta

Vejo Elizabeth vindo ao longe.
Ela vem dormir em minha cama.
Tomara que não seja romântica.
Tentarei cercá-la de cuidados. Espero que os vizinhos não façam barulho. E muito menos soltem rojões.
Será que vai me perguntar o que faço na vida?
E se perguntar, que é que vou dizer?
(Tentarei tergiversar dizendo que o auge da minha vida ocorreu há longos anos mas não o aproveitei pensando que o auge da minha vida já tinha ocorrido ou me enganando que o auge da minha vida ainda não tinha chegado.)
Não posso contar a verdade. Mas se não disser a verdade, que é que poderei dizer?
Não sei mentir. E confessar que não sei mentir é meu último recurso. E quando recorro ao meu último recurso, não tenho mais salvação.
E tenho certeza de que ela não se deixaria burlar por tão primário truque — poetas são seres matreiros — poetas mulheres, então...
“Mas que é que você faz, afinal?”, vai insistir ante meus olhares dissimulados.
Padre, como é que poderei ocultar meu tormento? Ante uma inquirição qualquer, de pronto me exponho do direito e do avesso. Entrego logo meus mil defeitos. E, se acharem que é pouco, sou capaz de inventar duas dúzias mais, só para contentar meu inquiridor.
Se fosse ainda moleque, jogaria um comentário displicente e impreciso mais ou menos assim: faço teatro amador nos fins de semana. Mas, mesmo quando era moleque, nunca convenci ninguém. (Como é que um inconvicente poderia convencer alguém?)
Não. O melhor é radicalizar. Ir pras cabeças. Nas poucas vezes em que me dei bem, me dei bem indo além do além. Além do que ninguém poderia supor que eu fosse capaz de ir. Nem mesmo uma poeta.
Sobretudo uma poeta?
Sou engenheiro.
Ah! agora quero ver a cara dela!
Sai dessa, madame! Além do além do além. Engenheiro, porra! Você passou debaixo daquele pontilhão que liga o centro ao bairro? Pois é. Cruzou a avenida que leva do oeste ao norte ao sul ao leste? Também! Passou defronte o novo prédio da prefeitura?
Santo padre, que pífias minhas respostas. Percebe agora por que afundo mais sempre que tento uma solução?
Que nada, cara! ela ri, me congelando o sangue nas veias. Adoro engenheiros. Já namorei dezenas de engenheiros em minha vida. Transei com centenas deles. Até visitei o Cristo Redentor com um.

Ele voltou XI

continuação de Ele voltou X

Uma das lembranças mais caras que ainda consigo guardar [dele] eram os passeios que dávamos pelo bairro enquanto ele ia me mostrando o que havia de belo em cada rua, me ensinando a descobrir diamantes ocultos sob a capa do cotidiano, as preciosidades que estavam na cara de todos mas que ninguém via, esta rua é muito antiga e ao mesmo tempo segura, exala tradição, veja, milhões já passaram por aqui e você sente o reconforto do que já foi trilhado, já foi feito, não está pisando no desconhecido. Os alfaílsones não gostam do que houve  antes porque só veem porcaria quando olham para trás, papai dizia. Vivem o presente com água na boca pelo futuro, tentando sufocar o passado a cada segundo. Já imaginou uma rua assim na Europa? Você olha para o fim dela e se perde. O que há depois da esquina? Mas não é a rua de Sartre nauseado. Papai não gostava de altos e baixos, inconstância ou surpresas. Dizia que ir para a rua e ouvir um caleidoscópio de ruídos sem querer saber de onde vêm é o máximo que podemos almejar em experiência estética. Olhar os baltaílsones e se reconhecer em cada um deles. Quem é esse fulano? Nunca vimos, você olha os ludaílsones e não se espelha, não se identifica, parece estar num país estranho. Têm um ar não de peregrinos que se acercam do lugar em que decidiram viver, uma valentia no rosto de quem está disposto a dar o sangue pelo direito que julga ser seu, mas de joõessembeiranemeira, de quem veio não para ficar e construir mas para tirar esvaziar aniquilar usar até acabar depois partir pra outra? Tinha mania de colocar pontos de interrogação em todas as frases. Às vezes não sabia quando ele estava perguntando ou afirmando. Me deixava meio angustiado, era duro conversar. Com o tempo a mente acha que também o corpo fica assim. Vamos caminhar um pouco, dizia. Vem conosco? Quando falava com os outros era indiferente. Não se preocupava em ser entendido. Geralmente os arnaílsones se viam embaraçados sem saber como responder. A mente acha que era só preguiça. Pra que falar? dizia. Tenha cuidado. Sempre atente para o que há por trás das palavras. Dominguílson só abre a boca pra mentir. Pior: ludibriar. Tem um prazerzinho sórdido em induzir outros em erro. Deve ser a salada étnica em que nos metemos, essa química como repetem hoje em dia os papagaios, o saci pererê só podíamos ser paubrasil, que estranha vocação nacional, ludibriosos por natureza, vem da nossa formação cultural, explica o professor doutor, os negros tiveram de desenvolver técnicas de engodo para escapar ao castigo do senhorio, fica no sangue da gente, que é que baiana tem? Bunda suculenta pra vosmecê. Bunda tão substancialmente carnuda que não darás conta dela não sinhô. Bunda pro que derevier, bunda pra ninguém botar... defeito, bunda que só baiana tem, paraguayos fazem romarias anuais pra mergulhar nessas delícias de banha, misteriosos desígnios que comandam o insondável geist, assim de repente, herr zelter, olha que wolfgang tá espiando, venha herr chimit que lhe daremos nossas mulheres, nossas filhas, nossas mães, nossas próprias bundas porque sabe-se que nessas horas johan deixa de lado os gregos e vira loved óxente. Venha sim herr griessman cumê a bunda de nossas negas que não temos outra coisa a lhe oferecer não. Até preparei um roteiro pra europeus de fina estirpe não se perderem na malemaluca terrinha, tudinho posto, tome lá gabrielita, precisa licença não, bem-vindo ao nosso lupanar, vossa criada. E tome aguinha de coco para ajudar na digestão.
A vocação macaquita para o ludíbrio, o que levam essa obcessão enganadora a sério é muito louco. Directions, dizem os biguemaqueanos em seu preciso linguajar. Por favor moço onde fica a Estação da Luz? O velhaco estuda o forasteiro e pondera se o sujeito é de fato um tonto. Se for, apruma o graciliânico espinhaço, puxa a calça pelo coz e lasca sem dó, o senhor pega o metrô aqui e desce no Brás. Então toma a baldeação para Osasco. Facinho facinho. Vendo o coitado obedecer sem pestanejar, tem ganas de sair flutuando de felicidade e glória. Mais um panaca despachado. Deve de tá assim de gente perdida em Osasco. Já o terceiro hoje. Se inebria de vingança. Vai ser bom assim lá longe. Preciso me candidatar a algum cargo eletivo, é muito talento pra desperdiçar pelo tesão do despacho. Vicentílsones, vosso rei proclama: a raça está redimida.
— Alô — abracadabra a voz ao telefone.
— Pode falar. Estamos escutando.
— Seu pai me incumbiu duma missão pouco antes de morrer.
— Qual? Ver se enlouqueci feito ele?
— Me designou pra tratar dum assunto com você. Me fez prometer que cumpriria.
— Sei.
— Como deve saber, ele estava terminando um livro quando morreu.
— Li uns trechos.
— Podemos nos encontrar?

continua em...

Ele voltou X

continuação de Ele voltou IX

Inacílsones têm essa mania intolerável de dar conselhos. Você não pede mas eles dão mesmo assim. Te acham um coió eternamente à procura dum mestre pra te ensinar coisas. E essa aporrinhação está sempre associada a outra: adoram explicar. Explicar o quê? Explicar tudo. Acham que tudo e o estoque do Extra Penha merece ser investigado. Talvez. Mas não precisa, Porra. Tudo, não. Às vezes. Venha conosco, nos sentemos nesta mureta, veja, a tarde cai, a noite vem, Caralho, não dá nem pra pensar, os araribaílsones passam na calçada e os olhos vão olhando, meio conectados em cada olhar estranho, demorando mais num, desviando logo o olhar doutro, alguns aceitam a intrusão, se reconhecem etnicamente em tua curiosidade inócua, outros de pronto te hostilizam, mas só o suficiente pra você não insistir, ninguém está ali ao cair da tarde pra comprar briga, chapa, este é o nosso mundo, esta é a nossa tarde, todos somos ameriquílsones, te entendemos, cara, pode olhar à vontade, sabemos que não vai abusar, tem semancol, ai que gostoso flutuar na noitinha no tapete mágico do nosso acordo tácito. Não abuso não abusas não abusa abusemos não.  Só balança as pernas na mureta sem estragar. Tudo chama tua atenção igualitariamente. A penumbra, os sons de longe abafados, a sensação da luz, o farfalhar da roupa dele que passa, o alarido agradável da molecada gastando energia. Ai que país pragmático. Eterna penumbra morenamente democrática. Jogue energia fora não, menina. Oi que vai precisar. Não vamos defender os meninos não. Vocês estão ganhando. Dez anos é? Eu também não. O dia vai desaparecendo. Teresílsones evoluindo. Não ando com lápis, senão ia ter de escrever toda hora. Lembra quando foi a uma vila caiçara? Sim, veja, estes são os trópicos. Temos aqui um comportamento compatível com a importância de todas as coisas. Olha lá. Ai que corpo. Não, não estraga, só balança as pernas. Será que o rebolado interfere nos movimentos da Bucetinha? Ai esses processos internos. O jornaocionao vai começar, hinozinho a ceciílson, mas que olho mais torto esse, outra noite chegando. Ele fala através de nós. Quem? Deus. Mora em mim. Esse aí tem uma tatuagem no calcanhar, sensação abstrata de estar aqui. Oitenta anos. Nenhum objetivo. Nada de decisões então. Hum que olhadinha mais íntima, onde já vimos? Não, não é. Ninguém  atento à nossa presença, somos muitos, muitos, muitos. Aproximadamente. Ele foi condenado por estrupro, diz um ao outro. Já temos idade suficiente, sabemos cumprir nosso dever. Precisa ser macho para ter flexibilidade, diz o outro. Um exército de grilos entoa odes além da luz. Como podemos saber isso? Sempre precisam de algo mais. Pobreza e liberdade. Experimente você também johnny. Tinha um amiguinho imaginário chamado johnny. Vai ver que nuvens azuis também. Será verdade que estamos bem no centro? Sim, por isso somos livres. Somos homem honrado, diz o olhar rígido desse. Podemos falar conosco? No momento não estamos, volte amanhã. Agora vivo num mundo novo, o velho Quecephoda. Olha. A estrela cadente rabiscando o firmamento rumo a Júpiter — destroços de deus. Falando sério, anda depressa. Ai que fome de amor que não nos dá vontade de dedar. Esse outro tem o olhar no futuro, está em reunião consigo mesmo. Pessoas na rua morrendo. Você queria ser mulher? A ideia não sabe, como será ter Buceta? Deve dar uma Puta duma insegurança. Você acha que os homens são satélites das mulheres? Sim, e isso é o mais impressionante. Eu somos. Dessa aí, por exemplo. Gravitemos em segurança, neném. Este é o país da bola, o país das botas, livro sem páginas. Eles estão contentes. O mundo estruturado. Tudo pronto. Como são íntimos os artuílsones. Leia em voz alta. Precisamos liberar a desordem dos nossos corações e fazer da violação a regra, do crime a lei. Experimente você também johnny, que você ainda tem paciência. Mas me respeite por favor.

continua em Ele voltou XI