Amor sem afeto

Quando o assunto fica sem mim, dou uma... assuntada nos jornais e revistas pra ver se ele me reencontra. Sempre enfatizando que, apesar da recaída, continuo fiel ao princípio de Drummond, e meu, de que nós serzinhos especiais dotados desta incômoda alergia de viver devemos nutrir desdém exemplar pelos acontecimentos.
Leio numa revista online aí que em breve uma carta enviada por Darwin a um advogado de sua terra irá a leilão em Nova York. Com 71 invernos, Charles finalmente se decide a responder a uma pergunta que lhe faziam insistentemente: do you believe in god, Darwin? (nunca sei se deixo god em minúscula ou maiúscula). A resposta se constitui de três meras linhazinhas e em suma diz que não, o autor d’A origem das espécies does not believe no, thank you. Estima-se que a folha com as três linhas possa alcançar 90 mil dólares.
Desde meus cinco anos e meio me encafifo com pessoas que creem nesse serzão fantástico que seria tudo que dizem ser e faria tudo que juram fazer. Naturalmente é noção nascida, junto com a civilização, da nossa cabecinha fantasiosa necessitada dum mínimo de significação existencial e compreensão do mundo. E que adotamos por herança, pois além de fantasistas, somos preguiçosos e damos preferência ao que nossos antepassados próximos e distantes já mastigaram por nós. Aí se inclui não apenas a ideia de deus mas tudo, ou quase, que pensamos de tudo. Por que, exatamente? Acho que porque, além de fantasistas e preguiçosos, ou por isso mesmo, somos tradicionalistas.
E por que somos tradicionalistas?
Estamos acostumados a favelas e indigentes e esfaimados e às dezenas de milhares de assassinatos impunes cometidos anualmente no Brasil e ficamos entorpecidos ante a selvageria em que vivemos. Nos tornamos tão letárgicos, que sequer a notamos. Até que de repente a mesmice leva um chacoalhão e nos lembramos pela enésima de que vivemos sob o império da violência.
O chacoalhão da vez é esse trágico êxodo rumo à Europa dos sírios em fuga da barbárie que desde sempre impera naquela região da Ásia. Assistindo às cenas de pais e mães com suas pequenas trouxas de roupa e crianças às costas em confronto com a polícia húngara na tentativa de chegar ao paraíso da Europa Ocidental, dispostos a abandonar tudo que tinham e se submeter a uma nova cultura e uma nova língua, o primeiro pensamento agoniado que me ocorreu foi até que ponto devemos nos subjugar à tradição para não nos reduzir a meros batalhadores pela subsistência e pela sobrevivência. Esse povo em fuga deixa para trás não apenas seus móveis, suas casas, suas cidades, seu país mas, sobretudo, o trabalho e o sangue de incontáveis gerações que o antecederam. Juntamente com a morte das pessoas amadas, o êxodo provavelmente é a ruptura mais dramática e dolorosa que pode ocorrer na vida de alguém. A quebra da continuidade deixa de ser um exercício acadêmico, como este que agora empreendo, ou uma possibilidade remota para quem, como nós classes médias brasileiras hoje, não tem muito com que se preocupar afora o que vai sobrando do lulopetismo e suas tentativas de nos transformar a quase todos, salvo banqueiros e grandes empresários, numa imensa Venezuela, onde facínoras como Chávez e bananões como Maduro aviltaram o Judiciário e o Legislativo a empórios do governo. Por isso não hesito em qualificar classes médias que andaram flertando com petistas totalitários de suicidas. Alguns, cheguei a torcer para que nunca mais pudessem comprar papel higiênico.
Não fosse a civilização moderna ocidental, esta que conquistamos e ora vivenciamos, propiciada, entre outros fatores, pela tradição, os costumes e a herança, nós brasileiros triviais que almejamos a progredir em todas as dimensões pessoais e sociais possíveis não poderíamos vislumbrar nossos próprios potenciais e talentos para concretizá-los. Essa afirmação não significa que nós relativamente bem de vida optamos pela indiferença em relação aos milhões de brasileiros que econômica e socialmente ainda se acham no século 18 – embora providos de celulares, tevês de plasma, linha branca e, uns poucos, carros populares que estão sendo retomados pelos amigos do Levy. Nada disso. Significa que somos responsáveis – sabemos que só nos resta trabalhar arduamente para mudar a realidade – e  humildes – estamos cientes de que não dispomos de ferramenta para mudar as coisas que não o voto, ao contrário dos aventureiros que neste momento estão em vias de bater em retirada depois de tentarem ressuscitar o delírio do stalinismo.
Que no ano de 2015 ainda exista quem acredite – ou diz acreditar – num regime que não deu certo em absolutamente nenhum lugar da Terra, é de cair o queixo.
A mesma maioria de viventes banais curte adoidado a tradição, embora não tenha lá grande consciência disso. A maioria dessa maioria até se dá o luxo de torcer o narigão para o passado ou coisas que o evoquem. Chegam a se idealizar os primeiros habitantes do planeta – e os últimos, sem antes, sem depois. Fico observando a molecada de agora, os ditos nativos digitais, e tento imaginar até onde a revolução da informação e da comunicação vai virar suas frágeis cabecinhas do avesso. Digo, no futuro. Dias desses O Globo – atualmente o melhor jornal do Pais – trouxe um artigo sobre um tal de Zygmunt Bauman, sociólogo polonês de que eu nunca ouvira falar (esses meus malditos poetas malditos nunca me dão um break, maledetos). Vou ver, vejo que é considerado “um dos maiores nomes da intelectualidade contemporânea”. Pinço uma citação de Bauman: “O pensamento está sendo influenciado pela tecnologia. Há uma crise de atenção, por exemplo. Isso se aplica aos jovens, em grande parte. Os professores reclamam que não conseguem lidar com isso. Até mesmo um artigo que você peça para a próxima aula eles não conseguem ler. Buscam citações, passagens, pedaços. Quando era jovem, passava muito tempo na biblioteca tentando ler cem livros para encontrar um pedacinho de informação de que precisava. Agora, basta pedir ao Google.”
E o jornalista conclui o texto assim: “Mesmo após toda essa lista de desafios, a mensagem que o dono de uma das mais influentes mentes no mundo deixou para o auditório na noite de ontem foi de pura esperança: — Educar, senhoras e senhores, é fazer um investimento nos próximos cem anos.”
Pura esperança? me assombro. Esses caras da mídia não perdem a chance de tentar injetar otimismo no coração arregado de seus leitores e telespectadores. Sabem como é, pessimismo pega mal e atrapalha o consumo desvairado sob o bombardeiro propagandístico que a própria mídia impinge sobre a molecada. Eis aí uma das agudas contradições atuais que talvez Bauman disseque em sua obra. Vou pedir um livro qualquer dele a um dos meus dois presenteadores semanais de livros. [Cheio de novidades pra contar, aliás. Montão de livrinhos novos.]
Muitos pretendem execrar a tradição e o tradicionalismo mas se confrontados confessariam que não dispensam a deliciosa sensação de home sweet home que nos ajuda a aceitar o calvário. Para a maioria, mais uma vez, a vida é um teatro de horrores. Os providos de relativa segurança física e psíquica e dum mínimo de conforto ainda são proporcionalmente poucos no mundo. A maior parte da Ásia e quase toda a África são infernos na Terra. A grande luta é, e sempre foi, levar a esses lugares a civilização moderna ocidental e suas benesses, tendo como maiores obstáculos o tribalismo que ainda reina naquelas plagas e o incansável populismo esquerdista para o qual o eterno satã continuam sendo – pasme-se – os EUA.
Sem a tradição e o tradicionalismo seria insuportável acordar cada manhã e ver que não sobrou quase nada da batalha de ontem. Mais ou menos como estão se sentindo os milhares de emigrantes sírios neste momento. Tudo que herdamos – digo, nós classes médias – e juntamos ao longo da existência, material, cultural e espiritualmente, enxergamos no dia a dia como um reconfortante sinal duma das nossas mais importantes dimensões, também fruto da tradição: a continuidade.
Virtualmente todos nós queremos e gostamos dela. Digo “virtualmente” porque incluo aqui bilionários e trilhardários como Bill Gates e o dono do face e aquele mexicano cujo nome não lembro e o lulla e meia dúzia de nababos mais.
Foquemos por um minuto, em benefício da ilustração, o olhar em nosso pequeno – no sentido de medíocre e desprezível – torneiro mecânico que, fugido da caatinga também como emigrante, veio a se tornar um homem incalculavelmente (na exata acepção) abastado, provavelmente o sujeito mais rico do Brasil. Quanto bilhões o boçal pilhou do Erário, ninguém imagina, claro. A título de exercício, chuto aí uns trinta bilhões. Pra cima.
Pois bem. Que é que impede um cara com essa bufunfa indecente no cofre de dar um espetacular fôdasse ao mundo e ir morar em Las Vegas onde poderia viver a babar pelas bailarinas dançando can-can ao lado de tigres e cangurus e araras sequestradas na Amazônia e manter uma, duas, três dúzias de amásias em suítes de hotel, forjando o conto das mil e uma noites do agreste que deve cultivar em seus delírios mais baixos de ser primitivo? Por que é que o primário insiste em manter aparências em que ninguém acredita, desfilando de mãos dadas com a esposa que corneou incontáveis vezes, dando espetáculos deploráveis em discursos ensandecidos e patéticos, se fazendo de palhaço diante duma nação inteira, sendo achincalhado de ladrão por onde passa, a ponto de ter se queixado dia desses de não poder mais ir a um restaurante?
Há um paradoxo nesse papo de continuidade. Mas apenas na aparência. Que é o seguinte: se nos limitarmos a continuar, não evoluiremos. Isso parece auto-evidente. Aqui também falo da maioria. Essa tá se lixando se evoluímos ou não. Por isso um rudimentar feito lulla é capaz de virar ídolo. A maioria simplesmente herda e dá continuidade na banguela ao que vem detrás. Em todas as dimensões humanas.
Graças a deus, vira e mexe aparece um empiastro no seio da família mundial pra bagunçar o coreto. E o aparecimento dessas ovelhas negras é tão providencial, que até parece desígnio daquele serzão onipotente oniciente onipresente. São os que por um motivo ou outro, por um objetivo ou outro, interrompem o suave – embora não tão suave quanto gostaríamos – passeio do homem e da mulher rumo ao paraíso. Uns empiastros vêm meramente azucrinar e causar sofrimento – os adolfs, os josephs, os luízes inácios. Outros, pra dar – ou tentar – uma força a nós sísifos crentes num deus que nunca nos livra dos diversos demônios disponíveis na praça. As ovelhas negras do bem são, bidu, os inventores, descobridores, cientistas e pensadores que nesses cinco mil e tantos anos de civilização vêm mitigando – ou tentando – o fardo que castiga nosso lombo de mulas fervorosas, robusto por natureza que é pra suportar quase todo tipo de tranco.
Um dos meus prediletos entre esses estraga-prazeres se chama Friedrich Nietzsche.
Se já houve neste planeta um sujeito revolucionário na acepção da palavra, foi Friedrich. Nietzsche não deixou – ou pelo menos tentou – uma pedra sobre a outra. Os que se espantam com os olhares singulares que, por exemplo, poetas lançam sobre o mundo certamente ficariam estarrecidos com o pensamento de Nietzsche. “Radical” não descreve nem de longe o furacão que ele representa no pensamento moderno. Os miolos-moles do politicamente correto de hoje, de todos os matizes ideológicos, teriam uma síncope se tentassem ler, e soubessem compreender, sua prosa. Nietzsche foi um moralista, não no sentido freudiano vulgarizado de quem condena no outro o que é e sim um homem que estipulou para si e seus semelhantes um código de conduta absolutamente rígido que deveria ser seguido com rigidez absoluta. Nietzsche foi implacável. Debocharia de conceitos como “margem de tolerância”, tudo bem, você é cristão mas que mal tem dar uma escapadinha vez ou outra, se deixar seduzir por um ou outro pequeno deslize, que mal faz cometer uma transgressãozinha que não vai prejudicar ninguém afinal? E se sentir desconforto demais com o pecado cometido, uma passadinha no confessionário e o problema tá resolvido. Ao contrário da maldita maioria desavisadamente tradicionalista, a manada (conceito caro para ele) que marcha para lá ou para cá sem saber por que, Nietzsche sabia duma coisa igualmente revolucionária: a pureza – de pensamento, de caráter, de espírito – é possível. E podemos atingi-la se quisermos. Acho que este seria um esboço razoavelmente correto de sua ideia de super-homem. Que seguidores nazistas e leigos vulgarizam a ponto do desvirtuamento para propósitos políticos ou falso-moralistas. Como aprendemos com lulla, dilma e haddad, a propaganda é alma daquela coisa que nem alma tem.
Não que pessoalmente me sinta à altura da super-humanidade. Seria o menos apto candidato a. Deixarei Nietzsche simplesmente como uma referência sólida no oceano de caos que inunda minha cabeça, como tantos outros pensadores, escritores e poetas.
O único livro de Nietzsche que li de cabo a rabo foi O anticristo. Como dizia o filósofo John Searle, Nietzsche deve ser lido como se beberica conhaque – um golinho parcimonioso de cada vez, tomando-se o cuidado de não enxugar a garrafa inteira.
Nietzsche teve colossal desprezo pelo conceito religioso – principalmente cristão – de que o homem está aqui apenas cumprindo escala, ou se preparando, para a verdadeira vida, aquela que vem depois desta. Para ele essa redução do nosso calvário a uma travessia (dilma terá razão?) terminou por fazer de nós escravos morais e nos impediu de alcançar a liberdade, a independência e a felicidade. E então me ponho a imaginar quão criativos poderíamos vir a ser e como poderíamos empregar nosso cérebro para encontrar nosso caminho verdadeiro rumo à evolução efetiva.
À medida que o império da tecnologia miraculosa, do horizonte sob o qual tudo parece possível, do conforto quase absoluto vai nos acachapando, a velha noção dum criador do universo vai perdendo força.
Chegamos a este ponto em nossa evolução por obra e culpa de cientistas geniais como Darwin e pensadores transcendentais qual Nietzsche. Eles ajudaram de alguma forma e em algum ponto da nossa caminhada a criar o wi-fi e as gerações destituídas de noção histórica. Eles sabem – e nós sabemos – que não se pode controlar tudo, ao contrário dos esquerdistas demagógicos que dizem querer mudar o mundo para embolsar a grana do gado choramingando no meio da manada. De minha parte sei que posso controlar a mim, e muitas vezes o controle me foge daquilo de que o controle adora fugir.
A declaração de Bauman aos professores, “Educar, senhoras e senhores, é fazer um investimento nos próximos cem anos,” não sei se a entendo. Talvez por não acreditar na educação. Ou melhor, em educadores. Estou errado, reconheço. Mas tudo – virtualmente – que sei, e pouquíssimo sei, aprendi sozinho. A tal maioria, claro, não teve oportunidade de desenvolver essa capacidade.
A garotada vem que vem quente. Tenho para mim muitíssimo claramente que pretender adivinhar o futuro é exercício acadêmico. Exercício acadêmico demagógico e, como toda demagogia, irresponsável e frívolo.
Cabral e Colombo partiram rumo a terras desconhecidas mesmo imaginando que o oceano abrigava monstros marinhos que podiam afundar as naus e em certas regiões não permitia a navegação porque a água fervia. E não desprezavam a hipótese do fim do “mundo”, onde navegantes tinham caído para nunca mais voltar.
A classe explodiu numa gargalhada de escárnio quando a professora acabou de falar. Inclusive este cético que hoje tá com a macaca perorante. Que jumentos! Que atraso!
A rapaziada tem de ter calma. Encetamos nossa viagem civilizatória há apenas cinco milênios. Segundo os homens que estudam as estrelas, o Sol vai se apagar daqui a dez milhões, cem milhões de anos? Até lá ninguém mais se recordará do conceito do Chefe pairando lá em cima a cuidar de tudo e de todos. Teremos cruzado pelo caminho com incontáveis darwins e nietzsches e ante as novidades com que esses inumeráveis gênios do futuro brindarão a moçada de então nossa internetezinha capenga não merecerá nem mesmo chacota.
Uma vez tive um vizinho. Ainda tenho, mas estes não vêm ao caso. Aquele vizinho era espírita. Um dia sua mãe morreu. Subsequentemente comecei a escutar uns ruídos estranhos vindos da casa dele no meio da madrugada. Soube depois que os ruídos eram causados por um rádio fora de sintonia. Era o cara passando noites tentando se comunicar com a mãe no outro mundo.
Doutra vez tive um amigo que desdenhava do meu ceticismo dizendo que eu só acreditava no que via. A segunda intenção era clara – ele se achava um privilegiado. Ou, se preferirem, um predestinado. Se quisesse – e de fato queria –, era capaz de crer no que aparentemente não existia. Eu que me estrepasse com meu pobre pragmatismo espiritual.
Crentes desse tipo fingem ser humildes quando na verdade são presunçosos. Mil vezes este desprezível descrente teve de sustentar seus olhares de superioridade. E em sua arrogância pretensiosa, não se conformam. Querem pelejar. Te passar uma lição. É por causa de empiastros feito eu que a catástrofe se abateu sobre a humanidade.
Dar curso à essencial continuidade não é tão simples quanto pode parecer. O que é bom continua e o que é ruim também. Cabral não teria se perdido no meio do caminho rumo às Índias se soubesse.
A verossimilhança espiritual da existência dum ser supremo se extinguirá cedo ou tarde. Supérfluo acrescentar que é óbvio. Se a função da ideia de deus é, para Nietzsche, nos manter reprimidos e oprimidos, não será o deus da internet que nos libertará dessa vocação a aceitar tudo que veio antes de nós acriticamente.
Queria dar continuidade a este post até depois de amanhã, mas agora quero escrever um poema. Um poema, pra variar, pagão.
Fiquem com deus. Amém.

Era no dia seco de setembro

Lá vamos (e passamos) o trio esperança para mais uma excursão na tarde abafada e poluída de Sampeia. Zezeí larga na frente, só indo parar 50 m adiante para a primeira mijada vespertina. Quico dá uma arrancada que por pouc não me desloca a clavícula, querendo seguir atrás, me obrigando a refrear seu ímpeto desbravateiro. Que inveja dessa animalidade ainda intacta de devorador perpetuador da espécie, embora já devidamente surrupiado das duas bolinhas escrotais por uma vet da Zona Norte. Que coragem. E que coragem. Os hormônios podem levar até seis meses pra eliminar, comunicou a dita. Por ora parece que os ditos estão todinhos onde sempre estiveram, fazendo de Quico um pequeno dínamo absolutamente determinado a satisfazer suas vontades como se não houvesse amanhã nem lei de causa e efeito e completamente alheio aos eventuais empecilhos que o mundo e as gentes que nele vivem possam se lhe antepor. (No caso, este sofredor que ora vos cansa a beleza.)
Tivesse eu (ainda) essa energia cega, chegava na lua, virava poeta amante seresteiro, tirava a Dilma do trono em quarenta minutos, não quarenta anos como FHC e sua tropa de moleirões.
A essa altura Zezeí já está dobrando a esquina e ainda nem me decidi para que lado da rua pretendo zanzar. Minha casa fica exatamente no meio do quarteirão e deliberar não é tão fácil quanto parece, por isso gosto de deixar que os dois tomem a decisão em meu lugar, desde que não resolvam atravessar a avenida. Não significa, porém, que ambas as alternativas sejam iguais ou pelo menos equivalentes. Deste lado, o lado pelo qual Zezeí optou, tem uma pirambeira de desanimar qualquer cristão. Não duvido que mamãe, que nunca vi refugar missão diante do mais invencível obstáculo, pensasse duas vezes. Ou três. E no caminho para a pirambeira tem outra desvantagem das grandes: o Vivo.
Daquele lado tem a Japa. Da qual falarei em outra oportunidade. Ainda não firmei jurisprudência sobre ela.
O Vivo vive quatro casas acima. E a casa dele, tal como a minha, tem um terraço que dá para a rua. É nesse terraço que o safado arma acampamento e fica dia e noite de tocaia querendo me pegar. Até já deduziu que, sendo o menos metódico dos homens deste planeta, não tenho horário para empreender minhas odisseias e por isso mesmo sempre dou de cara com o miserável empoleirado metro e meio acima da minha cabeça, disfarçado atrás duma mureta, aguardando a passagem do trio esperança.
Como todo mundo e seu catador da carrocinha, o Vivo a-do-ra o Quico. Não é pra menos, saliente-se en passant. O peste, além de esbanjar hormônio e ardor, bem que poderia estrelar um reclame de ração, vocês na certa se lembram da foto que postei aqui dia desses.
Todo mundo e seu adestrador para a gente na rua pra tirar uma casquinha do velhaco.
Ontem mesmo levei um susto quando, já perto de casa retornando duma das nossas marchas inglórias de fuçação incessante em sacos de lixo e inúmeros pitstops para troca de pneus, de repente surge uma dona de braços abertos à nossa frente, não sei se rindo ou chorando, balbuciando o que soava qual uma oração a um totem exótico.
Congelamos no ato.
A mulher se ajoelha, agarra o Quico como se fosse o último dos vira-latas e se põe a gemer e zumbir no que me parece um lamento fúnebre.
A eternidade vai escoando e nada da dona se despregar do bicho. Eu e Zezeí só na expectativa, trocando olhares prenhes de cumplicidade. Vários minutos se passam e a mulher não se digna a ergue a cabeça e me dar uma satisfação. Aos tartamudeios, a voz entrecortada pelo esperneio do pirulitão, vai explicando que teve uma cadela exatamente igual. Que era uma mistura de raças inidentificáveis como o Quico. Que era espichadona, fucinhuda e orelhuda como o Quico. Que também não gostava de obedecer ordens. Que era espontânea. E feliz. E folgazã. E que morreu não sei quando, tadinha. Junto com uma outra, pastor.
Zezeí me olha dando a entender que ter enfrentado o Vivo teria sido menos penoso. Estico um canto da boca na direção da orelha em sinal de fica-na-tua. É nessas horas que Zezeí gosta de armar seu barraco particular. É pixotinha mas a fuça de poucos amigos dá o que pensar a quem não a conhece – e mesmo aos seus íntimos. Com minha puxada de canto de boca procuro argumentar que a dona é bastante simpática. E parece bem-feitinha de corpo. Que uma mulher bonita no meio do caminho não chega a configurar sacrifício. Só falta vislumbrar e conferir o rosto.
A mulher continua agachada à minha frente, cobrindo Quico de carícias e gemidinhos de festa. Enquanto isso vou estudando, sopesando prós e contras. Ancas sólidas, firmes, mas sem a robustez de mulheres que fazem musculação ou malham exageradamente. Cabelos loiros lisos, aparentemente naturais, não suporto mulher tingida, mulher que quer enganar idade, que finge ser o que não é.
Pernas e quadris e seios estão encobertos mas tudo leva a crer que se trata de produto de primeira. E, porco dio, nunca vi tamanha demonstração de genuíno carinho em minha existência de perdedor de estrelas.
Então ela faz uma pausa nos folguedos e me olha.
Jesus pai, é a cara daquela atriz americana, como é mesmo? Aquela que “despontou para o estrelato” num filme do Stallone? Que formava um casal de lésbicas com aquela outra que é casada com o Warren Beatty? Que naquele filme ano passado interpretou Alice com Alzheimer?
Isso! Julianne Moore. (Que na tevê jornalistas de dentaduras eternamente à mostra pronunciam “mur”.)
Sim, a dona ainda ajoelhada à minha frente e abraçada ao Quico é a cara da Julianne. Só que mais bonita. E mais novinha, se me perdoam o jargão técnico. E com boa dose de sensualidade. E sem aquele ar de carregadora de piano do cinema disposta a encarar qualquer papel, comum em bons atores e atrizes mas impessoal e profissional demais pro meu gosto. Olhos mais verdes, totalmente verdes, absurdamente verdes, duas esmeraldas raras que Bartolomeu Bueno da Silva arrancaria de seu rosto pensando se tratar da real thing e que me obrigam a desviar o olhar temendo uma hipnose instantânea que me sugue me aprisionando dentro da sua alma e me fazendo deixar meus dois pets ao léu sob risco de se perder ou ser atropelados pelo caminhão de gás tentando atravessar a avenida.
Então me lembro das panturrilhas da Moore.
Será?
Meneio a cabeça. Consulto Zezeí c’um ligeiro alçar das sobrancelhas. Zezeí parece aconselhar um “take your time” preventivo.
Julianne Moore tem as batatas das pernas mais batatudas do cinema mundial. No mínimo o dobro da campeã olímpica de salto de vara. Quase o triplo da de salto em distância. Ou de qualquer modalidade esportiva que requeira panturrilhas king-size. Santa mãe, levar um coice duma pernuda dessas durante a pegação na cama ou no sofá vendo a novela, mesmo sem querer, que perigo. No pescoço ou na cabeça, black out ou mesmo glup. Em qualquer outra região, aleijamento na certa.
E aquele firmamento de sardas, good heavens. É tão... tão protestante. Aposto que a dona nunca se confessou. Não leva o papa a sério! Provavelmente leu, glup! Max Weber! Se bobear, é bem capaz de exigir que eu participe dum desses clubes anglossaxões que ensinam a gente a pescar em vez de dar o peixe de mão-beijada.
Sem falar na pele branquela do tórax e os seios redondinhos qual suspiros adocicados em excesso sob o decote decoroso, o brilho cândido, direto do olhar, o sorriso correto em-mim-você-pode-confiar...
Dou um puxão imperativo na guia, Quico se desprende da mulher, comando em-frente-marcha! Zezeí retoma o passo, seguimos viagem. Será que não se pode mais passear sossegado nesta porra de cidade?

O altruísta

De quantas partes é formado um solitário?
Difícil responder.
De quem é formado um solitário?
Essa é mais fácil: sua mãe; sua família; você.
Ele mesmo?
Que delícia de pergunta.
E ainda imensamente mais deliciosa resposta.
Aonde vai um solitário?
Pergunta errada.
Aonde não vai um solitário?
Não que lhe (a ele) interesse.
Quero crer que você já sente pulsando.
Há uma bomba incolor e inodora debaixo do mundo. À qual ele está agarrado como se abraçasse um réptil intratável prestes a lhe engolir a cabeça.


Que gostoso brincar.
Hoje cedinho ainda na cama delirava  como todos os homens deliram cedinho na cama.
Uma conversa com o sabiá a pontificar colericamente pousado no cabo de alta tensão no poste aqui da esquina.
Estava o sabiá tão colérico, que era o sabiá mais desafinado que já escutei neste mundo.
Sou, ao contrário do meu sabiá – seja meu pelo menos esta manhã, caro –, o mais afinado dos homens quando estou colérico.
Vim a este mundo – se é que vim, se é que é este este mundo – para demonstrar minha cólera.
Que, de tão tamanha, já estava aqui, em algum lugar, quando nasci.
E a mim coube adotá-la qual filha mal-amada e necessária.


Anjo sem espelho.
Não sabes quase nada do mundo, dos homens, dos anjos nem de nada.
Anjo solitário.
Faces de pueril louça em minhas mãos. Reflexo imaculado de defeito e pecado a jorrar incandescente em meu território áspero.
É tua tua imagem?
Não nasceste, brotaste.


Re-descobri a história da minha história.
Que perdi pela história que não era minha.
Não consultei, pela infinitésima, meu relógio sem ponteiros, nem olhei de soslaio na esperança de que uma equipe de cinema estivesse me filmando secretamente.
Há longo tempo desisti de procurar minha resposta num acidente sujo de ânsias lambuzadas.


Lábios de sabiá
Singram caninos telégrafos na madrugada
Te compreendo quando não esperas
Te compreendo quando não queres
Te compreendo quando não te escuto
Em tua carrasca melodia
Abiá, não, não esqueci nosso pacto
Nossos camaradas cães ladram ao redor
Esquecidos dos que os escutam
Desafinado abiá, vai que meu delírio te toca
Nosso próximo pio requer a bravura que não tenho

O que não aconteceu

O tempo parou. O que sobrara de sua passagem transitou em diluição no prazo previsto, se dissipando na sombra além da janela e ascendendo ao céu límpido e escuro.
Nenhum pensamento passava na cabeça de nenhum dos presentes na sala daquele bar.
O aroma da cerveja barata e do fumo violava insensivelmente olfatos e pulmões.
Alta madrugada, um homem, vestindo apenas camisa apesar do frio incômodo, entrou. Se dirigiu ao balcão enquanto observava as putas a aguardar em pé contra uma parede.
O homem estudou perdidamente uma loira gorda e baixa, que se apressou a mostrar que não vestia peça de roupa alguma debaixo da saia e da blusa.
Ao seu lado, uma negra arremessou o pé direito na parede num potente coice de apatia e o homem se pôs a analisar os seios desnudos duma garota que parecia ser ainda virgem.
Sendo o quarto número 1 correspondente ao primeiro amor, se dirigiram ao terceiro, onde a cama já estava ocupada por três: duas fêmeas e um macho.
Nos quartos restantes não foi diferente e a menina de cabelos castanhos o levou a um coberto nos fundos do bar e eles se deitaram numa esteira cinza, estreita e comprida em meio a caixas de bebida e velhos móveis amontoados.
O mundo ao redor permaneceu intacto. Assim como as consciências e as loucuras.
O homem teve um orgasmo sentindo-se um leão. A garota sob ele, uma gaivota. Estava orgulhoso. E desesperado por não saber o que queria.
Segurou os dois pulsos da menina, a erguendo da esteira, e com um olhar pessimista a apreciou como o que de mais belo já tivera nas mãos sem saber o que fazer da imensa beleza.
O dia nasceu. Estavam de costas um para o outro. O homem pensou vagamente em prometer a si mesmo que nunca mais haveria de ter outro orgasmo. Vendo a expressão do rosto dele, a garota fez um gesto. Podia masturbá-lo. Abriu as pernas querendo acordar o interesse dele.
O homem calçou os sapatos. Se levantou. Puxou as calças. Foi embora.
O mundo ao redor permaneceu parado, cúmplice.

Minhas definições - a retomada

Inspiração: autoconsciência múltipla, plena e implacável.

I want you, I need you, I love you

De repente, saiu da adolescência.
A beleza, se apurando até então paulatinamente, atinge a impossível perfeição.
E à medida que ela ficava mais e mais bela, o menino se deixava mergulhar mais e mais e mais na paixão.
E um dia, assoberbado ao intolerável, prometeu a si mesmo que não viveria mais outro dia sem tê-la.
E se um dia a tivesse, jurou a si mesmo que jamais iria perdê-la.
E enquanto o menino, no ínfimo cantinho que a vida lhe reservara com a incumbência de aprender a bastar-se sozinho, se corroía de amor, ela não imaginava que àquela hora insuspeita da tarde, passando melancolicamente por um beco das docas do porto de Santos, ele arriscou uma espiadela para dentro de um dos armazéns e vislumbrou um daqueles cadilaques americanos que eram o desejo mais profundo de todos os meninos do Brasil e num átimo sonhou que parava em frente à casa dela na Califórnia e buzinava e ela abria instantaneamente a porta da mansão e saía correndo, cabelos esvoaçando sobre os ombros, dentes à mostra no sorrisão inédito, olhar fixo no dele, e entrava no Cadilaque e os dois partiam num passeio eterno pelas luzes e sombras do dia, sem passado e sem futuro, sem rumo nem lugar, sem memória nem reflexão.

De escravos e livre-pensadores

Dia desses eu e Ulisses falávamos do mal que as ideologias, políticas e outras, fazem ao mundo. Mencionamos en passant como as pessoas que se deixam conduzir ideologicamente acabam escravizadas dentro da espiral do pensamento único. Não sei como o Aurélio define a palavra, mas tenho para mim que “ideologia” é uma forma de pensamento que exclui todas as demais.
Simples, não é mesmo?
No outro blog que mantenho, Delenda PT!, escrevi pacas sobre o assunto. Criei aquele blog em 2006, auge da comoção que correu o País após as denúncias do mensalão e da polarização ideológica que se sucedeu. Os honestos já tínhamos sacado, desde as denúncias contra Waldomiro Diniz, então braço-direito de Zé Dirceu, que Lulla estava disposto a se manter eternamente no Planalto e para isso convertera seu partido, que outrora se dava ares de honrado e incorrupto, num eficiente bando de saqueadores do Erário. O plano era igualmente simples: roubar o Tesouro, comprar com o produto do saque deputados e senadores para obter sua fidelidade canina sem percalços ou riscos de defecções e se segurar no poder na maciota, sem conflitos nem armas (pois Lulla, além de safado, é um tremendo dum covarde e jamais botaria o pescoço a prêmio).
Em suma, um golpe de que a quadrilha sairia limpa e não emporcalharia as mãos de sangue. Bem ao estilo cordial preferido pelo brasileiro, que ferra todos que pode mas sempre com jovialidade e simpatia.
Desci uma borduna lascada na máfia travestida de partido político em várias dezenas de artigos, cravando uma pequena audiência de vinte a trinta leitores diários, que dobravam em dias em que fazia promoção em fóruns da Veja e de alguns jornais por aí. Até que um dia meu modesto leitorado começou a dar sinais de fenecimento. Logo saquei a razão: um longuíssimo texto em que metia bala no faroleiro profissional Diogo Mainardi.
Mainardi nunca me convenceu com as “análises” ligeiras e frívolas que publicava semanalmente nas páginas daquela revista que gosto de chamar de manual da classe média deslumbrada. Por anos foi o articulista mais lido da Veja e, como sói ocorrer com quem não dispõe dum caráter à prova de envilecimento, o sucesso logo lhe subiu àquele lugar que esse tipo de gente costuma deixar que suba. Mainardi cantava ridiculamente a queda de Lulla toda santa semana e quebrava tristemente a cara em seu papel de pitonisa e eu já parara de ler suas diatribes fazia tempo. Até que um dia fiquei sabendo meio sem querer que anos antes o falastrão havia montado um palavrório em que atacava fútil e mesquinhamente Carlos Drummond de Andrade. E qual fora o pecado imperdoável de Drummond ao olhos do vingador vejeano? Ter tido pendores socialistas na juventude.
Não me contive, obviamente. O cara que fosse ter seus ataques de estrelismo e prepotência em outra freguesia. E assim escrevi e postei o tal longo texto, carregado da mais fina mescla de furibundice e sarcasmo da blogosfera.
Foi esse o primeiro golpe na audiência do Delenda PT!
Mais ou menos um ano depois resolvi postar no blog um texto que escrevera ainda durante o último mandato de Fernando Henrique Cardoso chamado Um dia no Planalto. Se trata dum petardo literário satirizando o então presidente e sua proverbial, descomunal vaidade e a não lá muito forte propensão ao trabalho na administração do País.
Debandada geral. Dos vinte a trinta leitores diários sobraram dois ou três bravos guerreiros.
Como gosto de repetir pelo menos uma vez ao dia, meu papo é escrever. Não dei bola. E fui mais fundo. Resolvi botar pra fora a antiapatia cada vez mais aguda que sentia de Reinaldo Azevedo.
Fui leitor do blog do Azevedo por uns meses e umas duas ou três vezes o exaltei como a voz mais firme e dura contra a infâmia lulopetista. Até me dar conta de que Azevedo reescreve exatamente o mesmo texto todo santo dia sob formas outras. E por que faz isso? Porque tem uma plateia cativa, um grande público que o frequenta sabendo de antemão o que encontrará ali. Azevedo, tal como a imensa maioria dos que escrevem profissionalmente, não inventa nem surpreende. E nem quer. Os que o leem não buscam pensar e sim corroborar velhas opiniões que se cristalizaram ao longo do tempo. Azevedo, cabotino de marca maior, se autoproclama lógico a cada duas linhas que digita mas sua maior proeza está em não decepcionar seus leitores. É também lógica simplérrima. Mas seu maior assunto não é o lulopetismo, ao contrário do que poderia parecer, e sim ele mesmo. Azevedo é seu grande tema. Mais que jornalista, é um guru. Mais que guru, desempenha um papel messiânico que Lulla tem de sobejo e falta em virtualmente todos os oposicionistas do Pinguço Inflável. Os leitores de Azevedo não estão atrás de informação ou simples leitura; querem é um ser carismático que lhes satisfaça as aspirações de redenção. Eis a grande mentira de Azevedo. A cada parágrafo se autoclassifica de racional enquanto vai despejando toneladas de frases feitas e profecias e violentas injúrias antilulistas ao povaréu sedento de catarse e salvação. Azevedo é o líder político que os tucanos não sabem ser, o antilulla por excelência, o antípoda perfeito ao salvador da pátria. E tão demagógico quanto. E, pasme-se, populista tal e qual. Pois em seus textos Azevedo conversa consigo mesmo, se dividindo em dois personagens, um ingênuo que coloca perguntas constrangedoras de tão elementares, outro que responde paternal e lapidar, digno dum Oráculo de Delfos. Azevedo não se envergonha de se chamar pateticamente de Tio Rei, pois é o apodo “carinhoso” que grande parte de sua claque emprega.
De volta ao que interessa nesta postagem: a ideologia e como a ideologia mói o pensamento.
Ideologias são extensos cardápios que cada freguês escolhe ou por gosto ou por um outro critério qualquer que para mim sempre é arbitrário. Exatamente por que me escapa. A herdade, uma herança a preservar, a hereditariedade a seguir, tudo que já foi conquistado para nós em nosso nome e em nosso lugar bem poderia servir de começo de explicação. Mas o mundo concreto lá fora logo desmente razões dessa natureza. Ideologias parecem jazer no reino da simpatia. Por que o freguês opta por uma ou por outra, quer cedo, quer tarde na vida, é para mim um mistério. Conheço direitistas jumentos e direitistas brilhantes. E esquerdistas sagazes e esquerdistas asnáticos.
Quanto a mim, sou, pela enésima, eu mesmo.
Outro dia os jornais online alardeavam uma “declaração” de Rubem Fonseca. Parece que o autor de O cobrador fora à ABL receber um prêmio e estava explicando por que nunca se candidatou a uma cadeira naquele antro de fósseis. “Sou um homem idiossincrático e idiossincrasias não se explicam”, foi o que disse. Li a manchete mas não me interessei em ler o artigo. É patente, evidente, manifesto que Fonseca é idiossincrático e ele provavelmente estava apenas fazendo blague para jornalistas, pois nunca dá entrevistas.
Idiossincrasia é uma palavra cara para mim. Desde que me conheço tenho essa consciência vívida de não saber precisamente o que sou mas saber que definitivamente não quero ser como os outros. Muito menos ser o que os outros querem ou esperam que eu seja.
É um esforço contínuo e doloroso de autoexploração e autodescoberta. Atenção, não tentem isso em casa.
Automatismos me dão engulhos, mecanicismos me enfaram, pré-concepções me enjoam, ideologizados aversos ao pensamento vivo me dão sono.
Os pobres de espírito dividem o mundo em Marilena Chauí e Olavo de Carvalho, esquerda e direita, isso e aquilo. Quando você vai lá ver, é apenas um Coríntians X Palmeiras que nunca termina.
Eles querem é bater boca, xingar a mãe, se sentir importantes, se sentir “parte”.
Bom proveito.
Agora passo a palavra a quem entende do assunto.
Da supracitada discussão, Ulisses teve a ideia de escrever sobre Um inimigo do povo, de Ibsen. Falar de Ibsen no geral e dessa peça em particular significa tratar da figura do livre-pensador.





Ibsen e a figura do livre-pensador

Ulisses Razzante Vaccari
doutor em Filosofia pela USP, experto em Kant e Hölderlin e profe numa universidade federal do pedaço


Em Um Inimigo do Povo, o norueguês Henrik Ibsen decide encenar a trágica e indesejável figura do livre-pensador. Por meio dessa figura, realiza uma profunda reflexão sobre os temas da hipocrisia, da mentira e da democracia nas sociedades contemporâneas, procurando pensar o papel do governo, da imprensa e do povo nas esferas do poder.
Na peça, o livre-pensador é o personagem principal, o Dr. Stockmann, um médico responsável por cuidar da qualidade da água do balneário municipal de uma pacata cidade nórdica. Motivo de orgulho do prefeito e dos cidadãos, o balneário traz gente de todo o país em busca do efeito medicinal das suas águas, que inunda também os cofres da prefeitura. Um belo dia, entretanto, suspeitando da qualidade da água, o Dr. Stockmann resolve testá-la num laboratório. O resultado, como já se esperava, revela que a água vinha sendo envenenada pelos curtumes de algumas residências próximas ao balneário. Ao serem informados pelo doutor da notícia bombástica, os editores do jornal local A Voz do Povo põem-se imediatamente ao seu lado, reservando no periódico um espaço para Stockmann publicar um artigo trazendo à tona o fato, de interesse público. Mas o prefeito da cidade, que é irmão do Dr. Stockmann, logo se mostra avesso a essas ideias, alertando para o fato de que tal notícia espantaria os visitantes e levaria à falência tanto o balneário como a própria prefeitura e os negócios que dependiam dele. Insensível ao apelo do irmão de que seria preciso dizer a verdade, o prefeito alerta o Dr. Stockmann a não levar adiante a história, ameaçando-o de perder seu emprego e ter a opinião pública voltada contra ele.
Mas o Dr. Stockmann está obcecado com a verdade e pensa ser um dever moral revelá-la; está convencido de que o interesse pela verdade está acima dos interesses mesquinhos do prefeito e de uma minoria que pensa apenas no lucro. É um sonhador, um ingênuo ou um idealista, como diríamos hoje em dia. Nesse meio tempo, seu irmão, o prefeito, faz uma visita à redação do A Voz do Povo e explica aos seus editores as nefastas consequências que o artigo do Dr. Stockmann traria para a cidade e para o balneário. Aturdidos com a ideia da falência e da bancarrota geral, os editores do jornal viram a casaca num piscar d´olhos, e negam ao Dr. Stockmann o espaço antes prometido para seu artigo no periódico. A reviravolta soa tanto mais revoltante quando o leitor ou espectador da peça toma conhecimento de que eles não apenas se recusam a publicar o artigo do Dr. Stockmann, como, no seu lugar, publicam um artigo do prefeito, em que este calunia as intenções do irmão.
Apesar desse segundo golpe, proveniente do conluio da imprensa, que havia primeiramente se colocado ao seu lado de forma incondicional, com seu próprio irmão, o Dr. Stockmann está ainda mais coprometido com seus princípios. Pensa que os recentes fatos tornam ainda mais urgente a denúncia desse grupelho e de suas intenções enganosas, pois o povo precisa saber que a tão celebrada prosperidade da cidadela é falsa, fundada numa mentira! Nesse meio tempo, entretanto, o artigo do prefeito já havia sido publicado no jornal, difamando a figura do Dr. Stockmann ao espalhar a notícia de que sua intenção era destruir a sua própria cidade. Numa tentativa quase desesperada de conter as calúnias e ao mesmo tempo revelar a verdade, o doutor convoca uma assembleia popular, esperando esclarecer para as pessoas o “mal-entendido”. Mas, ao chegar à assembleia, Stockmann se depara com a presença do prefeito e dos editores do A Voz do Povo, que se põem a falar antes que o doutor pudesse se defender das calúnias que vinham sendo feitas a ele. Após acusado de louco e ser xingado e insultado pelos cidadãos agora tanto mais convencidos de sua insanidade, o Dr. Stockmann finalmente começa o seu discurso, espécie de clímax da peça, em que constrói sua teoria sobre a hipocrisia desse tão celebrado conceito de democracia.
Segundo o doutor (e aqui o leitor saboreia como nunca a verve crítica do próprio Ibsen), a democracia é uma farsa. Por trás desse conceito pomposo e promissor, a grande maioria é tanto mais facilmente manipulada pela meia-dúzia de poderosos que mandam e desmandam na cidade. E, assim sendo, se essa ideia de que a maioria escolhe o que é melhor para todos é uma farsa, uma tapeação, porque, no fundo, quem escolhe são sempre apenas os mesmos poderosos, que a manipulam, então essa maioria deve ser considerada inimiga da verdade e da liberdade: “O inimigo mais perigoso da verdade e da liberdade, entre nós, é a enorme e silenciosa maioria dos meus cidadãos. Esta massa amorfa”, afirma o doutor em seu tumultuado pronunciamento. As duras palavras, proferidas assim a seco, ofendem profundamente o público que, levando a assembleia ao caos geral, exige imediatamente a retratação do insano orador, ameaçando-o das formas mais inesperadas. Mas o Dr. Stockmann já não pensa mais nos males que essa sua atitude lhe causará; não está mais preocupado com sua família, nem com seu emprego, nem com sua fama nefasta. Pode-se dizer que encarnou a figura suicida do verdadeiro filósofo, do livre-pensador. Apenas a verdade interessa-lhe, a verdade nua e crua, essa mesma verdade que ninguém mais pode suportar. Recusa-se de pronto a se retratar pelo seu pronunciamento e assim quadruplica o já intolerante ódio dos presentes, desde o povo mais humilde até o prefeito e os editores do A Voz do Povo.
Ao fim e ao cabo, após um grande tumulto, a assembleia tem por bem declarar o Dr. Stockmann inimigo do povo. Humilhado e insultado, ele se recolhe à casa, que tem as vidraças apedrejadas. Despejado pelo seu senhorio, seus filhos passam a ser insultados na escola. O apego irrefletido pela verdade e pelos princípios, a atitude quase kantiana com a moralidade lhe sai extremamente cara. As pessoas endeusam a verdade, esse conceito abstrato e romântico, mas não a suportam. Esse mundo insuportável e insustentável da verdade, entretanto, é a casa do livre-pensador, o lugar ao qual ele pertence e o único em que se sente realmente bem a ponto de arriscar sua vida material para apoiá-lo, difundi-lo e sustentá-lo. E é essa figura que o Dr. Stockmann de Ibsen encarna, em sua forma mais crua e radical. Como todo livre-pensador, Stockmann não é ligado a nenhum partido, ao contrário do prefeito, cuja função na administração municipal consiste em defender o interesse dos banqueiros e investidores (no Brasil atual, esses investidores são os empreiteiros, que enriquecem com propinas enquanto as cidades transbordam de concreto). Mas a liberdade de Stockmann contrasta também com a promiscuidade da imprensa, pintada por Ibsen como espécie de maria-vai-com-as-outras, a tender para o lado que se mostrar mais favorável, mais rentável. E exatamente por isso, por não pertencer a nenhum partido, a nenhum grupo, o livre-pensador, detentor da verdade que ninguém quer ouvir, se torna o ponto mais fraco da corda, aquele que necessariamente sucumbe quando um embate desse quilate vem à tona. Ao ser oficialmente declarado inimigo do povo pela assembleia, Stockmann torna-se o bode expiatório, a figura ideal para a população como um todo despejar o ódio inconsciente acumulado por séculos e séculos de dominação e ultraje dos poderosos sobre ela.
Ao longo da história, a humanidade conheceu muitos livres-pensadores, artistas, cientistas e filósofos que, incapazes de apenas reproduzir uma ideologia, se comprometeram com a divulgação da verdade e pagaram um preço caro por essa decisão, que, no fundo, é uma vocação, um destino do qual não puderam fugir. Não podemos deixar de pensar aqui em Sócrates, ele próprio declarado inimigo público, segundo as autoridades de Atenas, por corromper a juventude. Podemos pensar em Galileu, condenado pela Inquisição a se retratar pela descoberta das manchas solares, contrariando claramente os dogmas da Igreja. Ou podemos pensar em Espinosa, excomungado por ambas as comunidades religiosas, a cristã e a judaica, esta última tendo sido suficientemente clara na sua determinação: “Pela decisão dos anjos e julgamento dos santos, excomungamos, expulsamos, execramos e maldizemos Baruch de Espinosa […] Maldito seja de dia e maldito seja de noite; maldito seja quando se deita e maldito seja quando se levanta; maldito seja quando sai, maldito seja quando regressa […] Ordenamos que ninguém mantenha com ele comunicação oral ou escrita, que ninguém lhe preste favor algum, que ninguém permaneça com ele sob o mesmo teto ou a menos de quatro jardas, que ninguém leia algo escrito ou transcrito por ele” (texto da sinagoga de Amsterdam de 1656).
Espinosa formulou um pensamento tão nocivo às duas ideologias dominantes, das quais fazia parte – a cristã e a judaica –, que teve de ser expulso de ambas. Se soar por demais peremptório e dogmático afirmar que foi excomungado por possuir a verdade, para além da questão da verdade, a ojeriza causada por pensadores desse calibre se refere antes ao fato de eles não comungarem de linhas de pensamentos determinadas, de nenhum padrão claro ou linha pré-definida. O que causa asco em todos esses casos – e aqui podemos pensar também na empreitada de Nietzsche contra o cristianismo e o proselitismo – é a liberdade de que gozam. É a rara liberdade com a qual falam o que pensam, sem se preocupar em agradar a este ou àquele lado da disputa, que constrange o que não é livre, que o ameaça em sua confortável posição, protegido que é por seus asseclas, por seus pares, que invariavelmente “pensam” como ele.
No fundo, aquele que defende uma ideologia – seja ela de esquerda ou de direita, cristã ou judaica – não pensa no sentido mais radical da palavra. O ideólogo apenas reproduz ou imita uma doutrina pronta, um leque de ideias que está sempre lá à sua disposição, espécie de manual ou repositório intelectual ao qual ele pode recorrer sempre que se vê em perigo. Com isso, ele se exime da responsabilidade de pensar e do que já foi pensado, protegendo-se das possíveis críticas na casca da ideologia. Geralmente, os ideólogos o fazem porque têm algum interesse em jogo ou porque têm algo a perder, como o prefeito ou os jornalistas da peça de Ibsen, colocando seus cargos e seu bem-estar pessoal acima do bem público, acima do interesse da maioria. Como diz o Dr. Stockmann em seu discurso, é por isso que a tão celebrada democracia é uma farsa. Em última análise, trata-se apenas de um conceito utilizado e difundido por uma meia dúzia de poderosos para manipular a maioria, que vota em quem eles determinam previamente, recebendo o suporte (e isso é o mais grave) da classe dos ideólogos, constituída por pseudopensadores e pseudoartistas em geral, pseudoprofessores e pseudojornalistas, todos interessados em tirar uma casquinha do poder, em participar desse oba-oba público-privado, localizado nas altas-esferas da sociedade, ao mesmo tempo em que desempenham papeis previamente esboçados na grande farsa, na tragicomédia da democracia.

Mouro

O caminho dos meus olhos são os seus
O rumo das minhas mãos são as suas
O suor da minha testa é o seu
O desígnio da minha boca é a sua
O prêmio dos meus lábios é o seu
O fogo da minha língua é a sua
A razão são as pálpebras fechadas a ocultar pensamentos que são meus
O ritmo da viagem derradeira pela negra e úmida floresta de mistérios que conheço e delícias que desejo é do seu ventre o arquejo
Suas palavras são as minhas
Minhas palavras são as suas
Seu destino é minha luz
Minha voragem, seu remanso
Sua bonança, meu caos
O começo da vida, da morte, do fim