Ele voltou XII

...continuação de...

Parecia bom demais para ser verdade. A investigação terminara com a expulsão do Escritor de Sucesso da academiamakakitadeletras ─ aml e na prática com sua carreira literária. Porra, como as coisas se desdobram organicamente na vida, pensamos na hora. Todas as inacreditáveis inovações introduzidas pela tecnologia não podiam substituir nem de longe o velho talento artístico. O Escritor de Sucesso só pensara nos louros, como se deixar de lado os espinhos fizesse com que estes se desintegrassem por milagre. Muitos tinham saudado sua obra como pioneira, abrimento de novos caminhos para a literatura, o cacete. De repente deu de assumir porte imperial, escarnecendo de todos com um olhar arrogante como só fazem os medíocres que não merecem o que têm. O episódio levara a perguntas inquietantes. Primeira: como o Escritor de Sucesso conseguira enganar todos os críticos que chafurdam no enmerdeado paul da imprensa, esses vagabundos que vivem de dar palpites na seara alheia? (Annotatea Esses parasitas cretinos merecem um capítulo à parte Annotateb) Para mim, o mais importante era isso, todo o resto podia ser relegado. Para que serviam esses escrotos afinal se nem isso sabiam fazer? Bando de incompetentes. Que a fraude do Escritor de Sucesso tivesse sido ignorada por seus pares ─ corja de néscios a serviço do corporativismo que se proclamam escritores, Porra de hipócritas, pretendentes a arautos da alma humana e céleres em lamber no chão quaisquer migalhas estetizantes que se possam desprender da embolorada ambrosia do poder ─, era compreensível, pois não se podia esperar outra coisa de militares reformados que assinam com pseudônimos femininos (Annotatea Freuddaimeforças Annotateb), ex-políticos rabiscadores de clichês que se recusam a deitar na cova, escrevinhadores de quinta categoria que "escrevem" não por necessidade estética, artística ou por que Porra de necessidade seja, desde que com o mínimo de legitimidade, mas sim para despertar olhares de inveja dos vizinhos quando chegam em casa como se exibissem um carro novo acabaram de tirar na concessionária, gente dessa confraria de paspalhos não apontaria o dedo na cara dum de seus membros para dizer, fora ó vil embusteiro que emporcalhaste o sacro nome da academiamakakitadeletras ─ aml, se tivesse ficado por conta deles, o caso teria sido acobertado, pilantras.
Quando a banca de investigadores ─ formada por críticos "proeminentes" e acadêmicos, laia de carrapatos grudados no couro dos mortiços equinos que somos todos nós nos xupamxalupando o sangue de sicofantas autóctones ─ começaram a questionar o Escritor de Sucesso, a princípio consideraram as explicações convincentes. Nenhum trecho da obra podia ser diretamente relacionado aos livros que ele suspostamente usara como base, concluíram. De fato, era muito difícil estabelecer uma relação. O método de diversificação e randomização pluralizante textual que ele usara produzira resultados mais que satisfatórios. E duvidamos que conseguissem pegá-lo, não fosse a queda de energia que terminara por traí-lo. Até agora pensamos, como um sujeito tão argutamente atento fora se deixar pegar por bobagem tão prosaica? Frêud talvez explique isso também, sabe-se lá, o cara não conseguiu passar batido, era muita mamata, talvez não tenha logrado suprimir o sentimento de culpa, no fim ele se confessou crente, o que surpreendeu a todos os envolvidos, pela obra dele você o definiria como o mais ardoroso dos agnósticos, Caralho. Além, é claro, da irresistível propensão à bravata. Se ele não tivesse desafiado seus inquiridores dizendo que estes poderiam inspecionar seu computador à vontade, também dificilmente a coisa teria chegado aonde chegou.
Como tantos algoritmos variados poderiam produzir exatamente aquele resultado? todos se perguntavam. Giraldi construira algo que poderia colocar a experiência literária ─ e por que não dizer a humana? Porque... $bem,deixapralá$ ─ em cheque. Para mim, os escritores estavam num cudessaco. O produto de "artistas" considerados medianos pela "crítica" não passava de garatujice primária ante as randomizações de Giraldi ─ certos trechos inacreditavelmente belos, alguns estudiosos deuropa compararo ao goethe. Encostado na parede e desafiado a criar uma peça, pequena que fosse, a título de teste, ali na hora, diante de todos, o Escritor de Sucesso tivera, ou simulara, um ataque de nervos, vociferando-se estarrecido ante ao que chamara de comportamento inquisitorial. Quando finalmente se vira sem mais explicações plausíveis,  admitiu parte das acusações, mas se defendeu que na prática produzira coisas belas e era isso que interessava, afinal ninguém questionara o goethe sobre como ele conseguira perpetrar a segunda parte do fausto como se tivessse vivido na grécia antiga e escrito com a mentalidade dum Homero, evocando as profundezas da alma humana como que coagido por fé ilimitada na consistência primal dos mitos helênicos. Nisso o Escritor de Sucesso tinha simpatizantes e até defensores argumentando que era beleza demais para ser desprezada em nome da originalidade, que legitimidade era princípio ultrapassado e que as fronteiras do conceito de autoria estavam se diluindo e que essa Porra de internet era complicada, recursos computacionais, hoje todo mundo escreve, se não escreve redige, apanhar um texto na rede e dizer que é seu é fácil feito colher a maçã do paraíso, quem vai saber?
Mas era fácil demais. Ninguém poderia jogar toda a saga literária do gênero humano na lata de lixo assim sem mais nem menos, a mente acha e houve um terceiro fator que concorreu para sua condenação, todos os passos que ele dera, incluindo um violar as redes das grandes editoras para roubar textos literários e dois armazenar essas obras em seus discos rígidos, flexíveis e cds, com detalhes de diretórios e tudo o mais e treis digitalizar outras obras que também foram identificadas posteriormente, igualmente com nomes de arquivos, caminhos, etc e quatro todos os acessos a esses arquivos feitos por ele, com registro de cada frase parseada pelo randomizador que ele desenvolvera e cinco todas as operações de cópia e colagem interarquivos que ele executura, com data, hora, conteúdo, o escambau, tudo isso fora parar em arquivos eletrônicos da cademia. Talvez esse tenha sido seu maior erro. Ingenuamente ─ como ele mesmo viria a admitir ─, permitira que o sistema operacional da cademia registrasse virtualmente todos os comandos que ele executara durante sua "criação". Depois que ele me descrevera o processo, a primeira coisa que fez-se ao chegar em nosso escritório foi formatar nossos discos e subsequentemente aplicar uma ferramenta de sobreescrição de arquivos que o próprio Giraldi desenvolvera, ferramenta que funciona assim: apagamos um arquivo dum disco mas o desgraçado não é imediatamente removido. Um deles, o sistema operacional d'academia passa a identificar as posições anteriomente ocupadas pelo arquivo como livres e até aí ele nada demais mas o sistema nunca "esquece" essa identificação e ao invés vai guardando todas as informações que julgamos ter eliminado num banco de dados que para nós permanece sempre invisível. Quando conectamos a internet essas informações são sub-repticiamente transmitidas para um endereço do governo acadêmico, que, pode-se concluir, hoje sabe mais a nosso respeito do que ousamos imaginar e você nunca sabe o quanto está fudido nesta vida e tem outra ironia ─ o sabichão que descobriu isso foi o próprio Giraldi, que logo se pôs a trabalhar num aplicativo de proteção contra esse tipo de bisbilhotice, ferramenta essa que gera um arquivo temporário de igual tamanho e conteúdo apenas semelhante ao do arquivo apagado pelo usuário, arquivo temporário esse criado imediatamente antes de o sistema disparar o mecanismo de captura e simulando ipsis literis as condições esperadas pelo sistema que, ludibriado, armazena em seu banco de dados secreto apenas um clone inócuo e o aplicativo de Giraldi se certifica de que o sistema foi de fato enganado e o arquivo temporário é igualmente deletado do disco e deixa no lugar espaço efetivamente ocupado por novos dados, esses sim aleatórios sem efeitos danosos. Corre entre cientistas e engenheiros da computação que utilizar esse espaço deletado do disco é impossível, que contém apenas lixo deixado aleatoriamente pelos aplicativos que usamos cotidianamente, mas Giraldi demonstra que o roubo de informações confidenciais de usários pela cademia e pelo governo acadêmico era fato, me fazendo cagar de rir me contando que o local que os biguemaquianos escolheram para armazenar as informações pessoais de toda a raça era uma base naval na Coisa Morna, pacholas nunca cansam de brincar de holliwood, he he he, e por isso fazem tanta Merda e vão acabar no Grande Penico como todos os impérios e assim a vida, o dia, a noite, o tempo, o furacão esperam, desde que não nos atirem no Penico antes.
De qualquer maneira mais tarde Giraldi me explica que esse lance de vigarice cibernética nem chegou a ocorrer com ele, pois algumas semanas antes seu computador desenvolvera um defeito de memória que ele mesmo havia programado e para o qual o sistema da academiamakakitadeletras ─ aml estava preparado, um defeito restaurador. Outro empecilho para a ladroagem da academiamakakitadeletras ─ aml foi que não tinham feito o sistema à prova de macaquices e a mesma queda de energia que posteriormente serviria para ajudar a comprometer a reputação do Escritor de Sucesso também contribuira para causar o defeito que impedira o roubo via internet.
A banca de investigação tentara encomendar a outros programadores um randomizador similar mas não tivera êxito e dos diversos projetos que lhes apresentaram nenhum conseguiu produzir textos de qualidade literária e apenas palavras e parágrafos a esmo impossíveis de ser dotados de estruturação orgânica mesmo após passar por um processo manual de edição. Os homens das letras estavam num beco sem saída, pois se não dessem prontamente um cobro à coisa qualquer semiliterado poderia vir a criar grandes "obras" e quando não tinham mais a quem recorrer me chamaram.
O meusanchopancha está ao nosso lado, nunca assumo uma missão daquelas sem ele. Saímos de horrendussampa às oito de la matina, às nove o Miata já estava na Dutra, às quatro da tarde chegamos ao rio.
Mal as pernas entram na avenida brasil somos repentinamente fechado por um carro branco que entra na frente do Miata como se este não existisse. Em menos dum segundo temos de frear, girar o volante para a esquerda, acelerar para que o veículo detrás não nos acerte, frear de novo, de novo, mais uma vez, girar o voltante para a direita para não abalroar o veículo à esquerda, acelerar novamente para abrir passagem ao veículo detrás que não esperava que eu fosse frear de repente. Enquanto executo desvairadamente essas manobras as mãos fecham os olhos e me vem à mente o primeiro telegrama que recebi de papai. Naquela época tínhamos muitas propriedades, papai viajara ao exterior e me transmitia algumas instruções que eu deveria repassar ao nosso contador. O telegrama fez um zoomin, saindo do estado em miniatura em que existia esquecido no cérebro para ocupar plenamente todos os nossos sentidos. Essas coisinhas minúsculas e insuspeitas que ficam guardadas dentro de nós. Data: 11/9. Origem: Alemanha. Maravilhado novas tecnologias todos transistores laser todas comunicações via telefone revolução beijo. Eram aproximadamente 16:45, ligamos, uma pessoa que atende o telefone na casa do contador diz que ele está viajando e não há como contatá-lo, deixamos recado, obrigado. Aumento novamente o volume do cedê que toca uma mazurca do porta-voz de deus torturado pelo diabo. Nas nossas contas devíamos declarar 450 mil de impostos retidos, ao passo que o contador defendia que a o montante correto seria 434 mil. As faixas de tráfego da avenida brasil são fitas de asfalto por onde correm impulsos carregados de sinais eletrônicos positivos e negativos cujo destino é a autoabolição. Baseiam-se no princípio da versatilidade mas esta não será suficiente para poupá-los. Apenas meia dúzia de pessoas chegará ao ano 2100. É justo, Giraldi diz. É? Dizemos. E legítimo. Precisamos ser mais flexível. Passamos horas falando desse assunto.
As manobras evitam um desastre.
─ Anote a placa.
O nossossanchopança pressiona uma tecla no painel.
Os motoristas cariocas certamente são os piores na face deste planeta, você não entende como ainda não se autodizimaram ao longo desses anos todos de existência do automóvel.
─ Devem ter desenvolvido um novo sentido de sobrevivência no trânsito que ainda não está ao nosso alcance ─ o nossossanchopança diz.
Quando você ultrapassa os limites do estado de são paulo rumo ao oeste nota uma diferença palpável nas coisas. O céu parece mudar de cor, o ar fica mais leve, os lucianílsones, mais intensos, órfãos bestificados cientes de que a eles pertence o paraíso. As cenas começam a passar em câmara lenta. Você não sabe o que é mas percebe a mudança. Nos a mente acha em outro país, habitado por seres manobrados por desígnios que não compreendo, Uóxito. O sentido de premência com que aprendemos a fazer as coisas aqui não existe. O valeranílson carioca se considera o beneficiário natural dos milagres da vida. Não se presta a responsabilidades, apenas frui. Se tudo se deteriorou com o tempo e com a esculhambação que sempre se abateu por sobre estas plagas, não interessa. A destruição é onipresente, nada ficara do pouco de bom deixado pelo império. Não tem importância, sempre há que curtir sendo uma das etnias mais adaptáveis da terra e não há meio ambiente que a desestimule ou afugente. O dia em que tudo absolutamente tudo tiver de se convertido num mar de esgoto e sangue lá estará o janaílson carioca refestelando-se em rósea cloaca.
─ Será que estão participando de algum esporte que não conhecemos? ─ o nossossanchopança diz.
─ Ou curtindo um barato de natureza insondável para nós.
─ Ou recebendo uma grana preta para servir de cobaias para algum experimento biológico dos biguemaqueanos.
─ Porra. Ou a experiência estética dos antigos habitantes foi tão profunda, que o estado catártico vai perdurar cem mil gerações.
─ Essa, melhor. O efeito machadiano. Ou então receberam um bombardeio de alguma arma cibernética recém-inventada.
─ Dizem que na Coisa Morna a situação é ainda pior.
─ É. Nenhum povo sai incólume de quatrocentos dias de carnaval por ano.
De repente um ataque de labirintite. O nossossanchopança, sempre atento aos nossos chiliques, segura o volante e controla o Miata. Não podemos resistir e as mãos fecham os olhos, é muito mais forte que eu. No escuro os olhos veem duas caras nos os olhos olhando. Parecem os dois xitanílson xitanílson e xororonílson xororonílson. Nunca mais havia pensado neles, a ideia não sabe por que foram me aparecer logo agora. Temos de resolver esse problema duma vez por todas, um parece dizer. Você não pode continuar se misturando à maioria.
─ Dê um jeito de parar logo o Miata. ─ suplico ao nossossanchopança.
─ A mente acha que tem alguém querendo te colocar a prova ─ ele diz. ─ Acelere. Freie. Agora acelere.
Lá fora só buzinadas e guinchos de pneumáticos automobilísticos de carros de gente tentando não trombar com o Miata. O nossossanchopança já se habituou a nos salvar nessas situações mas agora aparentemente vê-se em dificuldade para encostar em meio aos demônios cariocas. Escuto um baque do lado direito do Miata, seguido dum som metálico.
─ Porra, pegamos uma bicicleta. ─ o nossossanchopança diz. ─ Pronto. Estamos ao lado da calçada. Pode parar.
Quando reabro os olhos os olhos veem um homem esbravejando em pé ao lado do Miata. É o ciclista atropelado. Aparentemente não se machucou. Depois de breve negociação morremos com uma grana e ele se afasta pedalando.
As mãos dão a partida e acelero.
─ Você devia ser despedido por isso. ─ ralho com o nossossanchopança.
Ele dá de ombros.
Sentindo-me em locomoção novamente as mãos dão conta de que a terra é quadrada e não gira. O que dizem em contrário é lorota. Morrer é chegar a uma das bordas e cair. Os outros não sabem disso porque só veem o outro lado. Sentimos o olhar orvalhado que a sylvia fixa em mim quando diz que nos ama ─ olhos que não veem, só contemplam.


─ Não vai ser fácil ─ dizemos. Estamos sentados em torno duma mesa de reuniões no escritório dum doutor Estevão.
─ O que o senhor pode fazer? ─ ele diz.
─ Teoricamente é possível. Mas extremamente difícil. O que podemos dizer com segurança é que sabe-se que foi usado um método fraudulento. Mas só sabe-se disso porque Giraldi me contou, senão seria quase um milagre descobrir. O problema é que não há um padrão.
─ Mas precisamos ter um modo ─ o doutor Estevão diz quase em tom de súplica. ─ Nossa credibilidade está em jogo. Pode parecer chavão mas não nos restou muito mais coisa. Se nos tirarem isso teremos de encerrar nossa carreira.
─ Estamos ciente da gravidade do problema. Mas, como sabem, Giraldi fez um trabalho genial. Não é força de expressão, não. Trata-se de obra de gênio, dessas tipo duas ou três num século. Ele não deixou escapar nada: enganos aparentemente inadvertidos, impressões fora do alcance de virtualmente todas as ciências, efeitos expressivos que, vocês sabem, só foram detectados no shakespeare e no goethe, embora alguns tenham especulado sobre inúmeras similaridades com os gregos, mas pretender ir tão longe seria o mesmo que dar a tarefa por irrealizável. Citaria ainda o equilíbrio entre experimentação e tradição, nesse sentido também é obra ímpar. Em resumo, pensamos que tivesse passado por um transplante de alma assim que acabamos de ler. O corpo fica semanas em estado de graça, como se estivesse convivendo com rílquecos anjos no castelo de duílio. Extasiante.
─ Mas por que ninguém consegue reproduzir algo de tal nível mesmo usando a ferramenta de Giraldi? ─ perguntou outro dos investigadores.
─ Francamente, não fazemos ideia. Como já havia lhes explicado, iniciei nossos estudos a partir duma abordagem optocomputacional que pressupunha o emprego de cálculos inconstantes. Persisti nessa direção vários meses até determinar que estava no caminho errado e nos dar por vencido. Depois tentamos várias opções, confabulei vários dias com os matemáticos imlah, gelseln e kaaheto, mas quanto mais avançávamos, mais longe ficávamos duma solução. Hoje, nosso nego, estamos tentado a admitir que somos incapaz de resolver essa parada.
─ Ooooh ─ alguns dos investigadores dizem gemendo, alguns dizem levando a mão à boca.
─ O senhor vai desistir? ─ o doutor Estevão contorce a parte inferior do rosto numa das mais enternecedoras manifestações de decepção que jamais presenciei.
─ Estamos pensando. Para mim essa confusão toda não tem muita importância. É apenas o homem evoluindo, vocês sabem. Ninguém disse que devemos caminhar na direção que consideramos mais conveniente para nossas vidinhas medíocres. Bola de cristal não existe, vocês sabem. O homem vem evoluindo aonde precisa, não aonde quer. Talvez não seja mais assim, a ideia não sabe.

À medida que dizemos o senho dos investigadores sobrecarrega-se de frustração. Cada vez mais.

continua em...

Aborto malogrado

Me amarro em rompantes de sinceridade. Pessoa escreveu O guardador de rebanhos duma só tacada, 40 minutos.
Não tenho medo dos sentimentos. Dos meus, digo. Dos dos outros não tomo conhecimento. Me perguntam por que tanta agressividade? Me perguntam que foi que me fizeram?
E se não me perguntam, deveriam.
Ser agressivo é apenas um dos meus incontáveis estados. Me pergunto, por que não querem saber dos demais?
Tenho minhas razões por ser o que estou e, claro, estar o que sou. E quando não as tenho, razões, é ainda mais gostoso.
Pessoas têm preconceito contra sentimentos como agressividade e hostilidade. Rios infinitos que correm em mim banham minhas costas para desaguar em minha cabeça. Meus problemas não são os problemas dos outros, os problemas dos outros não são os meus. Lidar com meus sentimentos, bons ou ruins, já me assoberba o suficiente. Não me surpreendo. Me surpreendo apenas com os outros. Mas não é surpresa que me custe mexer um dedo. Sei, vocês têm suas razões.
O jardim humano é pobre, não foi fertilizado como deveria, ou poderia, pelas tempestades cósmicas deflagradas há bilhões de anos. Em nosso modesto jardim florescem esplendores ao longo do dia e horrores durante a noite. Será nossa consciência a média das nossas experiências? O dia a dia, que dá em todo lugar, é a flor de perfume mais inebriante e perigoso. Houve época em que sabia colher essa flor e trazê-la diligentemente na lapela. Eles não fazem ideia do que estou falando, claro.
Longe estão os dias em que me contentava com xingar o mundo todo. O auge imprecatório se deu após a leitura de Cléo e Daniel, do psiquiatra Roberto Freire. Era tão simples e fácil me sujeitar à indignação olímpica e esperar que a catarse exercesse sua função higiênica. Comecei a adoecer quando parei de me indignar. Adoeci ainda mais ao me dar conta de que fora um indignado ingênuo até então. Mais uma vez sob o encanto do perfume venenoso das nossas flores, percebi, sob um clarão ofuscante, que minhas razões não eram minhas. Parágrafo.
Que não havia saída. Fácil ou difícil. Comecei a ficar a favor do contra. E, óbvia, clara, naturalmente, contra o a favor. Veja como as flores do nosso jardim ainda teimavam em nascer, desabrochar, polinizar a atmosfera com suas sementes do destino e por fim bater palmas e ulular aos meus estertores.
Passado o desmaio, empaquei por anos a fio. Você não vai acreditar mas não me lembro de absolutamente nada do que houve nesse período, comigo, com o mundo, com as pessoas à minha volta. Se o dr. Ito, médico da família, morto após contrair cirrose durante uma cirurgia, ressuscitasse e me dissesse que estive morto ao seu lado por duas décadas, eu não teria como contestar. Se a terceira guerra mundial tivesse eclodido e levado quatro bilhões de bípedes para o inferno, não teria tomado conhecimento. Meu pai morreu. E levou boa parte de mim. Minha mãe morreu. E levou o resto. Sobrei sem ter restado.
Levei trezentos anos para aprender que não sou o que penso ser e as palavras que minha boca articula e meus dedos digitam têm pouco a ver comigo. Minha melhor definição talvez seja, ESTOU NO LUGAR ERRADO. E todos também estão.
Me ensinaram – em casa, na escola, no buteco bebericando uma cerveja – que a principal meta da raça humana é evitar mal-entendidos. Me ensinaram, admito, mas não aprendi a lição. Nunca compreendi a moral subjacente ao princípio do mal-entendido. Um dos primeiros pensamentos claros e lúcidos que tive foi, por que não chegar dizendo o que penso?
Quer saber o que penso?
Não queremos não senhor. Nós mesmos não pensamos. Nos limitamos a imitar. Vai embora com tuas estranhices. Nos deixa em paz com este caminho que seguimos, pois é o único que nos deram e não queremos saber se é o caminho errado.
Meu caminho é feito de perdas. Provavelmente porque não acredito no princípio dos princípios. E em muitos fins de tardes, esmorecendo, dilacerado entre seguir e voltar, permiti que alguns sujeitos que se diziam meus amigos me acolhessem diante dum balcão de bar onde falávamos de tudo e de nada, ocasionalmente até mesmo de literatura, trocando provocações inócuas e boutades bajulatórias, sem que nos passasse pela ideia que éramos os sujeitos errados no lugar errado.
Talvez tenha sido aí que cheguei a dizer (a alguém) o que pensava ter a dizer.

Molengoide honraria

Meu Chrome fica o tempo ligado na rádio venice classic, em www.veniceclassicradio.eu. Só clássicos clássicos, se me faço entender. Ativo e desativo o volume, dependendo. Música clássica, ou erudita, no Brasil, não é toda escutável só porque tem violino ou oboé ou maestro regendo. Boa parte é... Ia dizer porcaria, coisa chata cai melhor, não tô a fim de pisar nos calos dos músicos. Villa Lobos, por exemplo, é unanimidade só por aqui. O que é normal. Essa coisa de puxar sardinha acontece em toda parte, mesmo nos “civilizados”, aqueles que trucidaram noventa por cento da população para chegar aonde estão hoje. Muitos dos escritores e poetas americanos incensados por lá não entrariam na minha lista dos cem mais (ecos ainda a ribombar das Cem melhores crônicas brasileiras de que falei outro dia e, espero, terminarei de falar qualquer hora). E esse tipo de assunto sempre sucumbe por sob uma camada mais ou menos espessa de areia movediça. Para Harold Bloom, considerado o maior crítico do planeta pelos, bidu, americanos, The Tobacco Shop, de Pessoa, é, de novo, um dos maiores poemas da literatura ocidental au au escritos até hoje, com o que concordo do primeiro ao último verso, claro. Mas Bloom, no que me soa como implicância acadêmica, não inclui Edgar Alan Poe no primeiro time. Do lado debaixo do Equador, Wilson Martins, provavelmente nosso mais importante crítico literário, suspeitamente desancado por Flora Süssekind em artigo escrito após a morte de Martins (podia ter peitado o homem ainda em vida), em História da inteligência brasileira, que, reitero, ainda aguardo de presente de Natal, qualifica a poesia concreta de simples exercícios tipográficos, levando o despeitado Haroldo de Campos a subir pelas paredes de seu apê em Higienópolis e me lavando, enxaguando, secando e passando a alma. Tudo estaria bem se o mesmo Martins não tivesse decretado que Ignácio de Loyola Brandão é um mestre da crônica brasileira. Quando li tal diagnóstico pensei que se tratasse de erro de impressão. Quando me certifiquei de que não, peguei e fui reler alguma coisa de Brandão para ver se não estava ficando louco. Não. O louco era meu xará. Xeretando na rede dou c’uma tradução de Psicografia para o inglês: “The poet is a man who feigns And feigns so thoroughly, at last He manages to feign as pain The pain he really feels”. Não precisa dum tratado pra explicar por que a grande poesia é intraduzível. Fiquei chocado quando li há uns dois anos um artigo no New York Times sobre James Dickey, um dos meus poetas americanos prediletos, onde ele falava dum poeta português “chamado Fernando Pessoa”, que se desdobrara em quatro (sic) personalidades e “tentou criar uma obra totalmente separada para cada um dos quatro. Infelizmente, acho que nenhum dos quatro se saiu muito bem, mas que ideia fantástica!” A ignorância dos comedores de biguemaque a respeito do resto do mundo é mesmo abissal, não é apenas anedótica. Depois dessa tive de deixar Dickey em quarentena. A mesma que apliquei a Pessoa há duas décadas quando soube que ele acreditava piamente em, eca, horóscopo. Tinha um encontro com Cecília Meireles em Lisboa e se atrasou nada menos que dez horas porque os astros desaconselhavam que saísse de casa antes. E Dickey certamente teria formado outra ideia de Pessoa se imitasse Ezra Pound e aprendesse o idioma exótico só para ler poesia no original. Pound conhecia dezenas de línguas. Roman Jákobson lia Pessoa em português. Eu atiraria o livro na lareira se desse com “The poet is a man who feigns And feigns so thoroughly” logo nos dois primeiros versos.
Finzinho da tarde, tomo o oitavo banho sob a canícula, assistindo rios d’água a escorrer pelo ralo com a cara do Alckmin (que se outorgou um prêmio por ter  “solucionado” a crise hídrica, cuspe), a rádio na internet toca um concerto que levei algum tempo para discernir. Então, Brahms. O terceiro “B” dos três que fazem um dos orgulhos, justificados, não a nossa vaidade brasílica absolutamente furada, dos alemães.
Fiquei indeciso aos primeiros acordes porque sempre me custa identificar o sentimentalismo de Brahms e aceitar essa droga de BBB que os germânicos forjaram só pra criar o acróstico mercadológico.
Saí do box, fui correndo botar Meeresstille und glückliche Fahrt, antídoto que surte efeito mais rapidamente, sobretudo por ser uma cantata, formato menos frequente em Beethoven, estabelecendo o grande diálogo com Bach.
É recurso a que sou obrigado a recorrer quase todas as vezes em que me deixo apanhar desguarnecido por um compositor piegas como Brahms ou choramingão como Tchaikovsky.
A altivez de Ludwig seduz por si só e, aliada à genialidade musical, me leva e eleva ao céu. Ludwig não se deixou abater ou humilhar sequer pela atrocidade da surdez a acometer logo ele. Ludwig não tinha vocação para vítima e não fugiu à luta quando confrontado pela vida.
Lembra tanto os coitadinhos esquerdistas do nosso Berção, não lembra? A elite isso, os tucanos aquilo, a polícia, o racismo, a imprensa golpista...
Lembram quando Dilma, a Patética, há uns anos chegou na Europa botando banca pra cima da Merkel querendo dar lição de gerenciamento de crises? E quando Lula caçoou que Obama precisava implantar um SUS nos EUA?
Vai ver, é por essa e outras que estamos décadas à frente dos chucrutes e dos ianques. Hoje reli a crônica de Nelson Rodrigues, Complexo de vira-latas, inclusa nas Cem melhores. Nelson errou feio em seu diagnóstico da nossa pretensa humildade. No mesmo livro há uma outra, de Alcântara Machado, essa sim precisa na análise desse povo que se acha conterrâneo de deus. Se chama Genialidade brasileira e ri da nossa mania de nos considerarmos gênios.
Aí vai um tira-gosto:
“Castro Alves bate Vítor Hugo na curva. Wagner é canja para Carlos Gomes. Em Berlim como em Sydney, em Leningrado como em Nagasaki só temos admiradores invejosos. O universo inteiro nos contempla. Eta nós!”
É sintomático que a visão ufanista de Nelson Rodrigues corra de boca em boca e a constatação de Machado seja absolutamente desconhecida. Somos os gostosões. O mundo que caia em genuflexo.

Tédio estranhíssimo

Quero te contar uma mentira, uma que seja tão fantástica, que você acredite e eu também e por um incalculável instante possamos vivê-la como a nossa verdade.
E durante, explorar esta utopia, explorar esta utopia sem medo de que se acabe me deixando sem ter aonde voltar.
Esta noite os escondidos saíram para a luz. Não há ilusão – não vieram buscar congraçamento nem se deixaram demover de que precisam retornar a qualquer custo a seus esconderijos. Estão convictos de que um mero interrogatório jamais será suficiente para ofertarem trégua ao mundo. Sabem que o mundo não dá trégua.
Não esqueci as senhas dos nossos olhares, apenas estou especialmente apto a mentir esta noite.
Vem, me dá a mão. Pela primeira vez deixarás que te guie, pela primeira vez deixarei que te deixes guiar.
Nunca nos vimos, afinal.
Esta mesa, está boa para você? Ou prefere ali perto da janela onde poderemos apreciar a vista? Que morros bucólicos lá longe, veja. Não te dá vontade de magia?
Faça de conta de que não estão aí. Vamos nos sentar aqui e olhar para o outro lado. Enquanto ainda há luz. Enquanto há som ainda.
Quer dizer que está menstruada? Ah como me cativam mulheres capazes de verter sangue espesso e recendente de fluidos e proteínas pelo útero. Podias deixar que te escorresse pelas pernas. Podia sorver uma garrafa inteira desse teu sangue morno e grosso não ardesse esta noite feito a fornalha do inferno.
Vem, conta uma mentira. E te responderei com outra.
Não sei teu nome. Não sei o meu.
Sim, estou acima do peso. Me chamaria de gordo? Sério?
Você me parece tão bem. Que tapeando, nada. Talvez aqui debaixo do queixo, se perdesse esta linha que separa as papadas...
Revendo muamba do Paraguai. E você?
Uau, nunca imaginaria. Faz tempo?
Tenho esse aparelho da Nokia recém-lançado na Europa.
Mais que duas vezes não dá. É, é uma pena.
As batatas grudadinhas, que barato. Morreram afogadas juntas no óleo quente. Putz, não tô aguentando. Gosta com ketchup? Eu adoro.
Prefiro sertanejo raiz. Bem mais autêntico. Melhor que emepebê não tem, não é mesmo?
Tô morrendo de vontade de te dar um beijo. Só limpa a maionese aí no cantinho. Isso.
E se fôssemos morar no Porto? A cidade dos meus sonhos. Sempre quis viver pertinho do mar.
Queria mesmo era morar num país monarquista. A rainha da Grã-Bretanha, quer charme mais divino, reinado mais espetacular?
Sofri muito na escola. Não conseguia me enturmar. Só me dava bem mesmo com o Paulinho. O Paulinho tinha os braços e as pernas atrofiados, tadinho. Era meu companheiro nas aulas de educação física. A gente se defendia um ao outro. Não perdoavam, aqueles animais.
Um Voyage. Verde. E você?
Fox preto? Que legal. Só que o seguro é uma facada, não é não? Pois é, os carros da Volks.
Assim de repente? Que foi que houve? Disse alguma coisa errada? Tem de botar a roupa na máquina a esta hora? Olha lá, o jornal vai começar, e se esperássemos acabar? Vão falar daquele casal do Paraná que matou os quatro filhos. Paga pelo menos as caipirinhas que tomou, né? Legal. A gente se vê qualquer dia. Por aí. Quê isso. Não reparei coisa nenhuma não.
E eu que já tava contando cuma buceta esta noite. Mesmo menstruada. Por que fui falar de música regionalista, porra? Hum, que tetinhas mais tenras, podia ficar chupando a noite toda. Disse que ia no dermatologista logo cedo, vai ver tem problema de pele, eca. Tava até planejando levar ela no zoo sábado à tarde mas sábado à tarde faz curso de orquídea. Nunca imaginei que orquídea precisava de curso. Mais um sem espuma, por favor.


Angustologia

Me lembro lembrando subindo a rua da casa antiga pensando que não mais me lembraria quando descesse. Voltei por outro caminho e não sobrou nada do teu rosto.
Teus olhos eram o esquecimento.
Me lembro da cabeça desorientada e dos passos determinados seguindo aonde imaginei que estavas. As nuvens rumavam para o poente longe da esperança. Todos  na rua caminhavam para o único lugar a que sabem fugir.
Durante o trajeto fui te destruindo. Te reconstruindo. Tua boca, um só lábio. Teu rosto, dois queixos. Um sorridente, outro aproximadamente.
Passei por um bar.
Passei por outro.
Por um terceiro.
Um quarto.
E mais um e mais um.
Não parei em nenhum.

Chove e não tenho guarda-chuva.
Doze mil motociclistas morrem neste país a cada ano.
Me encosto na parede, cruzo os braços, cruzo as pernas.

Quero fazer mãos-ao-alto em plena esquina
Antegozando o assalto
E enquanto meus braços se erguem
Me perguntar, Me diga aí alguém, pra que li milhares de alfarrábios? Que é que vou fazer com os tratados e suas revelações reducionistas?

Nunca poderei superar o trauma da tua perda
Ao me perder, curaste tua dor ensaiando um lamento
Nunca poderei superar o trauma do teu lamento
Posas de feminista
Evito me abismar
Me lembro da cerva que não tomamos juntos
Descendo a rua sonho que me agasalhas em teu útero
Onde me deixarás viver sem jamais ser parido
Não te predarei
Não me abortarás
Desacelero meus passos
Me sincronizando com o futuro do passado

Desço, desço desfocado
Meus olhos lacrimejam sonhando com o oceano Atlântico
Sob pontadas no tornozelo
Me apresento
Estendo a mão direita
Pareço tão viável por um segundo
Deixo pela primeira vez que meus delírios batam asas por sobre os cabos elétricos dos postes como se tivessem razão de existir
Volto
Volto pela noite errada
Volto pela rua errada
Entressorrindo mentirosamente
Me assisto

A eles, simpáticos predadores

Viro na Haddock Lobo. Galguei estas ribanceiras e despenquei por estas ladeiras infinitas vezes empurrando um carrinho de bebê primeiro há 35 anos, depois há 31.
Não mudou muito. Do lado esquerdo, esquina com a Santos, erigiram (esse merece) o maldito Renaissance com seu maldito e cafonérrimo nome nobiliárquico de merde e seu maldito splendeur fascina-otário, sua maldita, monumental entrada tomada dos malditos valets que ganham um salário mínimo mas parecem ter o rei naquele lugar e são capazes de te pisar em cima se você bobear. Sob o hotel ficou soterrado o estacionamento onde há três décadas e meia deixava meu TL marrom metálico e guardava nossas duas bicicletas, a minha, equipada cuma cadeirinha em que nas manhãs de domingo como esta descia esta mesma Haddock ou a Augusta ou a Consolação e passava metade do dia flanando pelas alamedas do Jardim Europa relativamente protegidas dos malditos carros, na volta trazia a bike na mão porque a pirambeira era demasiado íngreme. Outras vezes me aventurava no sentido oposto, pegando a mesma Consolação ou a Doutor Arnaldo até a Pacaembu e nos arriscando pelo inferno dominical do Centro. Meu trajeto preferido era a Major Sertório até a Rego Freitas, quebrando na Araújo para desfilar para as putas e os travecos que àquela hora da matina encerravam o expediente. A maioria se encantava com o bebê e mexia “Ai que lindinho! Ai que anjinho!”, ao que o do lado respondia “O pai também não é de jogar fora!”, com exclamação e tudo, na época usava, perdoa Pai, bigodes, óculos ainda não, e o bebê em seu troninho às minhas costas nada perdia com seus olhões-espelhos.
Os seus olhos-espelhos tão fixados no meu olhar
No seu rosto lua-cheia um lobo a passear(...)
Na volta, a mesma parada, bike na mão pra encarar o aclive até alcançar a Paulista no alto desta colina que três séculos atrás foi de fato esplendorosa sem os malditos carrões e os malditos arranha-céus e suas malditas torres de tevê e celular e seus malditos bancos de fachadas trazidas de Saturno.
Vez ou outra saíamos os três nas duas bikes, mais raramente do que gostaria, ela nunca foi muito chegada em mexer o esqueleto. E nessas vezes o passeio nunca se estendia para além de três ou cinco quarteirões ou quadras, como querem os tradutores de filmes. Quando muito rodeávamos o Trianon, fazendo um break pr’uns goles d’água nas garrafinhas sem gás. Ficava morrendo de vontade de parar no butecão na esquina da Santos com a Peixoto Gomide e me sentar numa das mesinhas na calçada e sorver poeticamente uma vodka enquanto apreciava o ir e vir dos domingueiros, a primeira vez que fiz a sugestão ela nem se deu o trabalho de responder, no que hoje lhe dou razão, imagina eu inebriado de aguardente de batata pilotando minha magrela deslizando melífluo na contramão pela Rocha Azevedo fustigado a golpes de deslumbramento disparados pelo olhões-espelho refestelado no banquinho atrás de mim e não duvido de que fosse capaz de alçar voo até o Jockey por sobre o caudal de esgoto do Pinheiros e descer numa das aleias do Parque do Morumbi pr’uma segunda dose. Que pena que o maldito Spielberg tenha estragado para todo o sempre a imagem com seu maldito filmeco para retardados.
A brincadeira durou pouco.
Manhã de domingo, manhã como esta, eu e olhões-espelho chegamos para pegar nossa bike, pluft. A dela também. Sobrou apenas a corrente que as prendia a uma barra de ferro no teto dum dos porões do estacionamento onde hoje incha qual cancro do demônio esse maldito Renaissance que parece crescer mais e mais cada vez que ergo os olhos para tentar discernir a cobertura entre as nuvens. Tinha escolhido a corrente mais grossa disponível na loja de ferragens, impossível que a serrassem. Apanho o elo aberto do chão. Alguém dedicou uma noite inteira ao serviço. O que mais lamentei foi a cadeirinha. Era azul cor do maldito céu. Podiam ter deixado a cadeirinha. Ninguém as usava naquela época. Levaram só para jogá-la num lixão no cu do judas.
Zezeí e Quico fazem um pitstop no meio do quarteirão entre a Haddock e a Bela Cintra, mais ou menos no ponto onde mamãe largou o velocípede para prestar atenção no neto e era uma vez. Tinha guidão e rodas-balão azuis, corpo laranja. Igualmente descuidado, lhe dei uma das minhas malditas broncas. Deste lado esquerdo havia apenas um edifício, os demais imóveis eram todos casarões, o restaurante macrobiótico, a camisaria do Gerson, a escola de inglês, não sobrou nada. Na esquina do outro lado, em frente ao Renaissance, uma das mais belas antiguidades de Sampeia, atravessou décadas desocupada, provavelmente sob litígio dos herdeiros, até virar paçoca. Dá-lhe arranha-céu, dá-lhe carro, dá-lhe congestionamento e poluição, dá-lhe.
Do lado da Bela Cintra, o velho München, igualmente desaparecido, onde atravessamos incontáveis noites bebericando um dos chops mais deliciosos da cidade. Uma vez saímos sem pagar, só pelo kick of it. Estava tão abarrotado aquela noite, que duvido que tenham se dado conta. Voltamos no dia seguinte munidos da nossa melhor cara de pau, prevenidos para o confronto, que não aconteceu. Tinha dia descia sozinho para um chops na hora do almoço enquanto ela trabalhava. Mamãe morava no prédio ao lado do München e me escondia atrás da pilastra quando ela passava, morreria de vergonha se me visse bebendo vagabundamente como sempre bebi e gostei, pois é o modo mais sensato e prazenteiro de beber.
Pelo menos uma vez por semana comíamos no restaurante macrô, tocado por um velhote careca e alquebrado assistido por um pequeno clã de velhotas, todos meio fanáticos pelas benesses da dieta à base de raízes e cereais e meio soberbos em seu benigno fanatismo. Os pratos continham bardana e eu detestava. Me conformava em prol do casamento e do futuro das duas crias. Meu preferido era de longe o mineiro bem na metade do quarteirão entre a Bela Cintra e a Consolação. Arroz carreteiro, yum-yum, bisteca de porco, yum-yum, linguiça frita, yum-yum, mineiro e mineira é que sabem das coisas. Eis porque Minas é aquele atraso. A terra-mãe pródiga em tudo roubou aos carinhas a oportunidade de desenvolver o senso crítico que só vem da, bidu, crise. Nem Drummond é exceção, se é que você me entende. Cronistas do pitoresco como Mendes Campos, nem é preciso dizer. Pedro Nava, nosso arremedo de Proust, menos ainda. Falei do problema alhures.
De quando em vez gostava de passar no Mac da Augusta prum junk food básico, quero morrer engolindo tons de batata frita, aquela que o rapaz em Supersize Me mostrou que podem durar quatro meses fora da geladeira sem embolorar. O Mac se assentava perto da esquina com a Santos onde antes era outro fastfood, o saudoso Jack-in-the-Box, acho que uma dentre as duas ou três existentes na cidade. Certa vez Ignácio de Loyola Brandão estava à mesa ao meu lado com seus dois pirralhinhos. Sabia, pela imprensa, que ele tinha acabado de se separar da mulher. Ri por dentro do literato célebre, que já distribuía sensatices do alto de sua coluna de cronista no Estadão, levando os filhos pra ingerir lixo. Morava nas redondezas, Alameda Jaú ou Itu, acho. Cruzamos na rua em várias oportunidades, me lembro também de que ele tinha essa mania repugnante do brasileiro de olhar intrusivamente quem passa no sentido oposto querendo estabelecer aquele rapport típico dos compadres das paróquias. Brandão é de Araraquara, todo mundo e seu agente literário sabe. Minha família também. Uma vez há uns cinquenta anos passei um dia na casa da família dele, com o irmão dele e um primo meu. Também conto isso alhures. Foi o dia em que comemos um pãozinho seco e tomamos um guaraná daquelas garrafinhas mirins que existiam antigamente, yum-yum.
Dobro à esquerda na Consolação. A casa do Céu Aberto ainda existe. Milagre. Ao que parece virou estacionamento. Olho em volta, as demais esquinas relativamente iguais. A sanha dos devastadores imobiliários ainda não teve tempo de passar por aqui. Você adivinhou, Céu Aberto era uma escolhinha. A primeira instituição educacional metida goela abaixo do meu olhos-espelho. A parede azul claro, claro, ostentava CÉU ABERTO em branco e eu gostava de tampar o É com a mão quando passávamos por lá numa das nossas indefectíveis rondas noturnas para uma vodka em cada bar, enquanto ela me olhava cúmplice e silenciosa, rindo fingindo me repreender. Um dia, deixado sozinho numa sala, ele subiu numa cadeira pra mexer no interruptor, caiu, quebrou a perna. Fiquei putíssimo e a diretora, sem se desculpar, alegou que segurança absoluta não existe, o mesmo argumento que hoje emprego em relação à violência urbana. Na esquina diametralmente oposta havia um restaurante angolano que exalava um perfume de peixe na hora do almoço quando íamos pegá-lo na escolinha que nos deixava delirando de fome. Uma lista à porta anunciava preços obscenos que era pouco crível que alguém ousasse encarar.
Em frente nesta direção, a Rebouças, aonde nunca ia, exceto de carro, ao crepúsculo, não raro já meio encharcado, rumo à Cidade Universitária, quase sempre c’um pitstop no Bate Pinga na Vital Brasil. Às vezes só pra troca de pneus, outras pr’um full overhaul. O Butantã se achava “em pleno” rejuvelhecimento imobiliário e o Bate Pinga vivia atulhado de pedreiros e serventes e pintores, o melhor papo pro fim dum dia agitado. Os estudantes mais frequentes eram os stalinistas da Refazendo e da Caminhando, de quem sempre tive asco, base universitária que logo depois fundaria o PT e quem conhecesse os bandidos de perto não teria dúvida em predizer que viria a ser um partido nefasto que poderia levar o País à tragédia, como de fato bidu.
Voltando pela Consolação rumo à Santos passamos defronte o prédio onde morava Rodriguinho, coleguinha de olhos-espelho de perna quebrada, clavícula descolada e danos colaterais outros. É prédio de acabamento simples a destoar das torres no entorno empetecadas de granito e dourados e penduricalhos mil. Quico e Zezeí aproveitam para um ligeiro escoamento. A arquitetura paulistana, ou a falta de, reflete dolorosamente a cultura, e a falta de, dos habitantes deste formigueiro de caipiras afluentes. Ao contrário do que quer Velaux, a força da grana não ergue coisas belas coisa nenhuma, sequer as destrói, não as há belas mais para demolir. Tudo que sobrou é melancolicamente feio e o que botam no lugar,  desalentadoramente pomposo e fake. Querem é mostrar que estão montados. Eles e seus palácios imponentes a desfilar pelas ruas estreitas de concepção herdada a italianos e portugueses em seus carrões suntuosos a emporcalhar a atmosfera e converter a urbe na mais fenomenal das pocilgas revestida do aço e do alumínio dos onipresentes painéis com que pretendem esconder a feiura do caduco só para fazer a feiura do novo avançar um estágio além, mais e mais e mais. Ignorância e abundância (de dinheiro, de presunção, de ignorância), mistura letal. Aquele que diziam viria salvar a pátria se mostrou o rei dos ignorantes endinheirados. Nos últimos tempos dei de tentar me conformar de novo que talvez não haja saída que não uma guerrinha civil básica. Então não haverá. Os bananões preferem virar fósseis diante da tela da tevê e de gadgets arretados.
Entrementes construíamos uma casinha na xácara que herdei de papai no Embu. Um pequeno xangrilá, falando propriamente. Fantásticos mil e quinhentos metros quadrados rodeados de dezenas de outras chácaras, tudo muito arborizado e bucólico, aqui e ali extensas glebas de mata nativa, gambás, raposas, ouriços, corujas eram vezeiros, até que o pessoal da área os exterminasse para jantar, estágio pré-favelização que vai cercando o luxo dos centros urbanos com cinturões haitianos. E não era bem uma casinha, mas uma edificação confortável e sólida e sóbria e modesta, sem acabamento interior e exterior, blocos à vista, pintada, por mim mesmo, com camadas bem grossas de suvinil misturada meio a meio com massa corrida para vedar os poros naturais dos blocos. Piso de cimento queimado, um cômodo de cada cor. Dois quartos e sala-cozinha americana separada por um largo balcão de tampo de madeira onde tomamos memoráveis porres de cerva, a dois, olhos nos olhos, as crianças em sono alto, um banheiro, varanda, que construí com o matuto Osório, morto de aids três anos depois e que um dia arrombou a vidraça da cozinha e me levou todas as panelas. Foi ali que o segundo, futuro cantor lírico, viveu os dois primeiros anos de sua existência. Foi ali que Osório me passou uma erva batizada sei lá com que, que me fez passar a noite no pronto-socorro e me deixou chapado quatro dias inteiros.
A barra já pesava mas ainda dava pra segurar. Me aproximei de muitos desocupados e de muitos ocupados em surrupiar a propriedade alheia, material farto no pedaço. O Brasil verdadeiro fica logo ali no km 25 da Régis, antro de analfabetismo, miséria profunda, injustiça e desesperança solapando inexoráveis vidas e saúde física e psíquica sem que os sei lá quantos milhões de “servidores públicos” tomem conhecimento. Como disse antes de ontem, as mulheres quase todas nos cultos, os homens quase todos nos botequins. A pinga começava a jorrar generosamente nos balcões logo cedinho. Na hora do almoço metade dos capiaus já se achava a meia dose do desmaio. Conheci dois ou três que foram atropelados tentando atravessar a rodovia. Um deles certa feita me contou que possuía dois barracos na “vila”, nome que davam ao aglomerado de casebres situado morro abaixo, longe das vistas de quem passava na rua principal. O chamavam Alemão por ser loiro e ter olhos azuis, provavelmente herdeiro genético da soldadesca de Maurício de Nassau que deploravelmente não logrou nos livrar da canga lusitana no século 17. Alemão morava no barraco da frente e alugava o dos fundos a uma mulher que nunca pagara a conta de água e de luz. Um ano depois de cobranças vãs, ele resolveu ir à delegacia. Sendo meio choramingão, foi aos choramingos que relatou seu caso ao delegado de plantão. Finda a narrativa, a autoridade avisou que mandaria lhe aplicar uma surra e o botaria a ferros por três dias se ele aparecesse outra vez para reclamar.
Tive vários amigos como Alemão. Um deles foi Zé-Pinguinha.
Zé-Pinguinha bebia emocionalmente, talvez como a maioria dos ébrios, por dor-de-corno. Era pedreiro, um dos incontáveis que trabalharam na obra da minha casa, praticamente toda semana me deixavam na mão. Se punha a fazer pródigas, íntimas confidências após um determinado nível etílico. A mulher o traía. Com seus amigos, seus colegas, seu patrão. Zé-Pinguinha era inofensivo, quase uma flor de pessoa, bem-falante e amistoso, poderia ter se dado bem em outras circunstâncias. Não tinha a mais remota ideia de como resolver a parada com a esposa. Uma noite, durante uma cerva num dos inúmeros butecos do lugar, disse que a esposa tinha matado um galo para a janta e me convidou. Tentei escapar, não teve jeito, lá vamos nós, ele morava numa das últimas casas lá em cima no pico do morro. Entramos, o galo estava pronto no centro da mesa da cozinha, a esposa de Zé-Pinguinha apareceu saída do quarto, me apresentou. Era uma morena extremamente bonita, de traços delicados e muito gostosa. E obviamente sabedora de seus atributos. Dessas mulheres que exudam sensualidade pelos poros, reduzindo o macho a escravo dócil e submisso a serviço da própria animalidade. Ela pediu licença, disse que tinha compromisso, saiu, Zé-Pinguinha tentando dissimular a mágoa. Fiquei morrendo de pena, tentado a sugerir que largasse a mão, não havia escapatória. Outro dos meus amigos era o Zé-Meleca mas este não bebia nem trabalhava nem fazia coisa nenhuma fora filhos, cito just for the record.
As histórias de roubos e assassinatos na área só aumentavam e comecei a temer que meu “trânsito” com a bandidada talvez não livrasse nossa cara por muito mais tempo. Num caso que me impressionou particularmente, os pilantras entraram numa das maiores chácaras das cercanias, de gente bem, botaram tudo que puderam num caminhão e, antes de sair, cagaram dentro dum liquidificador na cozinha, ligaram e puxaram o carro.
Fechar os olhos para os sinais explícitos da miséria cada vez mais próxima ia ficando impossível e resolvemos vender a casa sete anos depois. A cidade turística, na verdade um chiqueiro onde tratam o turista como cidadão de terceira, ainda exercia alguma atração e havia procura, mas não “naquele bairro perto de favela”, segundo alegavam os pretendentes. Depois de quatro ou cinco anúncios improducentes em jornal comecei a pensar que nunca me livraria da chácara. Até que um professor de Sociologia da USP apareceu como que por encanto, dizendo que era exatamente o que procurava. Poor guy.
Revisitamos o lugar duas ou três vezes depois da venda e vimos nossos temores confirmados. Muitas das chácaras, talvez a maioria, outrora bem mantidas e cuidadas por caseiros, agora estão desocupadas, uma ou outra invadida, desmazelo e abandono por toda parte. Um dos nossos antigos vizinhos, cansado de ter virtualmente todos os móveis e utensílios roubados a cada mês, deixou a casa aos cuidados dum PM, que começou a promover “festas do pó” nos fins de semana tão logo recebeu as chaves. No fim o proprietário abandonou o imóvel.
A essa altura nos mudáramos para São Caetano, nossa cidade natal. Uma das mais desastrosas decisões da minha vida. Lugarejo próspero com todos os defeitos e nenhuma das vantagens de Sampeia. Cidade-dormitório campeã do desenvolvimento humano, paradoxo de que ninguém parece se dar conta. Provinciazinha de ignorantaços endinheirados metidos a besta, gente intelectual e culturalmente esclarecida e ambiciosa que tem como grande ideal viajar uma vez a cada seis meses ao inferno da disneilândia e outra vez nos outros seis meses ao inferno dos cassinos de Punta del Este. Aos mais pobrezinhos restam os bingos. Pascal dizia que “Sem poder remediar a morte, a miséria e a ignorância, os homens imaginaram que, para ser felizes, não devem pensar em absoluto nelas”. Bernhard emendou que a Áustria, sua terra natal, era um “inferno comum em que o intelecto é incessantemente conspurcado e a arte e a ciência, destruídas”. Não é a primeira vez que faço essa citação, que me ocorre sempre que falo de São Caetano. Tenho pelos abastados dessa aldeia abarrotada de metalúrgicas o mesmo desdém que Bernhard devotava aos seus conterrâneos austríacos e sua enraizada vocação para o fascismo.
Por hoje é só, folks. Não reparem na bagunça. Devo “confessar” que hoje quase cheguei lá, não fosse esta maldita dorzinha nos quadris que não tá me cheirando nada bem (a dor, não os ditos). Escrevo como escrevo em honra a uns benditos americanos que me ensinaram que o leitor não merece refresco. Prefiro deixar quem não sabe ler pensar que não sei escrever. Neste mundo de gente reduzida à condição de malditos consumidores metidos a malditos sabichões ungidos da divina regalia da justiça, quero é que se foda.

Não achados e perdidos

Matina de sexta, tour básico pelas nada redondas redondezas.
Direto no estômago logo ao botar o pé e as patas na calçada: na outra, uma grávida.
Quico arranca querendo decolar para Vênus e levar meu braço junto. Arrumou encrenca com Johnny, que mora ao lado, logo no primeiro dia. E olha que Johnny, como todo setter que se preza, é o rei da bonomia. Eu que batizei Johnny assim, o nome dele é outro, um nome grego, poor guy, bode expiatório dos recalques do dono, já não bastasse dar nomes mitológicos aos filhos.
Primeira esquina dobrada, segundo direto no estômago. Outra grávida, esta, acompanhada da mãe, ou avó. Todo mundo e seu adestrador fazendo festa pro Quico. Que coisa estranha essa atração entre os seres. Zezeí, não lhe dão pelota. É feinha, velhota, de maus bofes, mirradinha, lone ranger. E também não dá lhufas ao que sucede ao redor, tal qual o dono. Com Quico a ligação se dá instantânea. Acende nos caras essa chama da celebração de existir. Mais: existir sem querer saber por que ou pra quê. Que, obviamente, deve ser o grande barato.
Esse papo sempre me faz recordar quando um dia me acusaram de ser acarismático, não com tamanha sofisticação vocabular, claro, não estaria à altura da acusadora. Foi na saudosa comu Literatura. Você escreve bem mas não tem carisma, tonto. Redargui se a dona queria um sílvio-santos poeta. Que é o estratagema de que os blogueiros “literários” lançam mão por aí para arrancar um Like de suas respectivas patotas. Como devo ter dito umas quinhentas vezes alhures, poucos me leem porque não faço média. E o duro é ver que até os literatos autênticos praticam a puxação de saco recíproca. Os caras estão sempre em jantares, lançamentos, colóquios, “eventos”. Facilita a bajulação e dificulta a marretada. Eleito senador, Collor foi saudado por um discurso baboso de Mercadante da tribuna do Senado. Cobrado pela incoerência, Merca alegou que os senadores não podem conviver em situação de hostilidade. Ou seja, o conflito é inaceitável. Os senadores, e políticos em geral, não sabem que são eleitos para representar os interesses de seus comitentes. Então se alienam em seu clubinho chique, mandando os eleitores às favas. então o conchavo se impõe, emperrando o processo eleitoral, desfigurando os papéis institucionais, deturpando a razão mesma de existir do Parlamento.
Aqui fora não é diferente. Conflito é anátema. Carinhas morrem de medo de se indispor com outros. Daí o eterno papo-furado de todo mundo em todos os lugares em todas as instâncias da vida social. Mesmo na “literatura”, a que nasce para moeda de troca. Vira e mexe provoco ressentimento quando digo o que penso a alguém pessoalmente. Os caras se espantam, depois se retraem. Descer à sinceridade é uma quebra do pacto, você tem de flutuar na superfície, de preferência sem fazer onda. E a espiral hipócrita vai crescendo, vai crescendo até atingir o ponto em que estamos agora: impeachment, mesmo previsto na Constituição, é golpe. Para a maioria dos bobocas do STF e dos que se habituaram a mamar no poder, pega mal – a razão verdadeira de ser o brasileiro médio o banana que é.
Ontem deu n’O Globo um tal de trisal, i.e., um casal formado por três, um cavalheiro e duas senhoras. No começo era apenas ele e ela. Até que um dia ela revelou que queria experiências outras. Ah sim, era bi. Após idas e vindas, se decidiram por uma terceira, acho que igualmente bi. E foram felizes for ever after. Na foto aparecem transbordando felicidade pelos sorrisões satisfeitos. Ah sim, estão no face. Vou lá ver (tenho um perfil só pra fins de espionagem). Centenas de parabéns de simpatizantes e pedidos de consulta de trisais outros. Não perdi mais dum minuto tentando entender, fiquei meio enojado. Não pela promiscuidade, que nem promiscuidade é. Esses arranjos existem desde sempre. Nas elites do lulla são absolutamente banais, com a diferença que os envolvidos não vivem sob o mesmo teto. Marta Suplicy teve êne affairs sob as fuças do senador Dudu, que aparentemente encorajava, vai saber por que, Abílio Diniz sendo apenas o mais célebre. Na literatura, milhões de casos. Freud dizia que o casamento é a forma encontrada pela sociedade para aceitar o sexo. Para mim, modestamente, o casamento monogâmico ainda é o meio mais eficiente para um casal lutar pela sobrevivência e pela prosperidade material e ao mesmo tempo produzir a prole que até ontem se impunha como básica e hoje anda em baixa por razões óbvias. Com todas as implicações sociais e morais daí decorrentes.
O que me deu mal-estar nessa história foi o exibicionismo. O maldito. Os carinhas se colocam numa vitrine e vão distribuindo micagens a pedido do distinto público. A molecada parece não ter motivo ou meta ou barato na vida que não aparecer. Virar assunto de reportagem deve ter levado o trio ao gozo tridimensional. Por aí parece que já tem gente se matando sob o foco dum celular só pra virar viral no utube. Upa lalá.
Em alguns minutos o terceiro direto no estômago. Ao fim da volta nas redondezas cinco prenhas ao todo. O governo chinês anda pensando em abrir um segundo filho a todos os casais sem exceção, o que já vinha fazendo off the record em alguns casos. “Alguns casos” na China deve equivaler a uns 200 milhões de pessoas. Os chinas começaram a envelhecer mais rapidamente e precisam ser repostos para segurar a arrancada da economia. No Japão existem uns 60 mil japas com mais de cem anos e em 2060 quase a metade da população terá ultrapassado os 65 anos. França e Alemanha há anos estimulam a natalidade para enfrentar o declínio populacional.
O fascínio animal exercido por uma grávida é dos mais poderosos. O intelecto se rende à ordem natural das coisas. O meu, quase. Muito na imagem duma grávida caminhando numa calçada é indefinível e, para mim, altamente angustiante ante a força do que chamam natureza. Temos de lutar contra a celerada do nosso primeiro ao último segundo, e, infâmia das infâmias, por um mecanismo que a própria nos impõe e com as armas que ela mesma escolhe, no mais manjado dos duelos, na mais patética das tragédias, na mais irrecorrível das marmeladas. A inoculação por um malandro doido para perpetuar as doenças e os defeitos de sua raça que em primeiro lugar foi inapto e inepto na condução da própria desgraceira e que não admite que se lhe confisquem o direito a reproduzir um sofredor à sua imagem e semelhança. Morei no Embu uns anos há uns anos, um dos capiaus que me ajudavam a limpar o mato, pouco mais de trinta, cinco filhos, a mulher grávida, o pai dele abusando da primogênita então com seis ou sete, todo mundo no bairro sabia, ficou uma fera quando entre uma cerva e outra no buteco perto de casa sugeri que talvez já fosse hora de encerrar a produção. A contundência com que reagiu à minha sugestão me chocou. Dizem que filho é um dos poucos direitos do pobre. A Igreja, sempre a serviço do atraso, não aceita. No Embu, em sua área ainda rural na época, hoje quase toda tomada de favelas, os maridos bebiam até cair, literalmente, vários dos meus compadres enxugavam a derradeira e saíam noite afora para cair na primeira valeta no caminho, onde dormiam até a manhã seguinte, as esposas no culto a entregar suas almas e as das crianças a deus e as dos carrascos seus esposos, de quem apanhavam dia após dia e noite após noite, ao diabo. Nas noites de sexta e sábado as cantorias pelos templos espalhados nos morros ainda semivirgens se emendavam para formar uma mixórdia algaraviada de minutos em minutos entremeada de gritos histéricos e ululos e ganidos provavelmente destinados a exorcizar o demo de algum corpo. O pandemônio podia também durar até a manhã seguinte e minha chance de cair no sono era zero. Ia pra sala tentar ler e acabava dormindo com dois indicadores nos tímpanos.
Numa cidadezinha do norte da Dinamarca a adolescente Lisa Borch de quinze namorava o iraquiano Bakhtiar Abdulla de trinta e nove. Ela, estudante, ele, muçulmano. Uma noite Bakhtiar chamou Lisa para assistir uns vídeos na internet, uns vídeos que mostravam vítimas do Estado Islâmico sendo degoladas e decapitadas. A sessão durou várias horas. Em seguida Lisa se armou duma faca de cozinha e desferiu vinte golpes na própria mãe, que dormia. O padrasto da garota diz que ela passara a se interessar pelo grupo jihadista depois que conhecera Bakhtiar num centro para refugiados nas proximidades. Ela pretendia se mandar para a Síria e se juntar à facção extremista. Foi condenada a 9 anos de prisão. Abdulla, a 13.
Há uns anos escrevi sobre Tânia Nijmeijer, universitária holandesa que acabou nas garras das FARC. Por que é que essas belezinhas de barriga cheia têm de se meter com as mazelas do mundo?