GM II

Diz-me: que queres saber de mim e dir-te-ei incontinênti e com o máximo de honestidade que posso.
Posso mesmo assim continuar te dizendo o que penso de ti?
Do jeito que falaste, em tom de advertência, me senti terrivelmente indiscreto, estarei passando dos limites?
Me desculpa, é que me atrapalho com essas noções de autocontrole. Cedo ou tarde acabo chutando o balde. E a barraca. Espero que no teu caso isso venha a ocorrer o mais tarde possível.
Tenho escrito um monte de coisas sobre ti, para consumo próprio. Se preferires, posso prosseguir caladinho no meu canto te estudando sem te causar importunos com os  achados das minhas pesquisas sobre a minha nova flor.
Ah menina, sou tão viciado em fantasias, caminhões, trens, navios abarrotados delas, vivo em delírio quase constante, quando não fantasio me dá um vazio que me suga do avesso.
Por conseguinte, queria te alertar, outra vez: não me leva a sério demais.
Não, não que eu vá te dizer mentiras.
Isso já te alertei. Mas é que meu humor varia mais que relatório de sismógrafo na Indonésia em dia de tsunami. Quando eu disser bobagem além do razoável, promete que farás de conta que estás diante do versinho mais encantador que jamais viste na tua curta vidinha de fada? Não deve ser tão difícil, imagino, pra alguém tão gozosa.
Estás curiosa a meu respeito? Ai que lindinha.
Então serás a primeira ninfa que jamais se interessou por este carrancudo barbudo com cara de mau e alma negra.
Estou tão acostumado a gerar aversão nos outros. Mas isso na certa já percebeste desde meu primeiro parágrafo. Há décadas desisti de parecer minimamente cativante. (Promete: vais fazer uma forcinha pra que este "relacionamento" prospere pelo menos mais um dia? Me frustro tanto quando afugento com meus maus modos, minha patetice, minha verborragia abestalhada alguém que me tenha arrebatado.
Para fins de contabilidade amorosa, posso já adiantar algumas informações a meu respeito:
índice de carisma: zero absoluto.
Grau de pessimismo: mil.
Teor de toupeirice: máximo.
Jeito pra viver, sobreviver, amar, ser amado: nihil.
Mas por ti sou, juro, capaz de mudar. Te disse que sou capaz de tudo, não disse? Sou sim.
Tinhas razão, a diferença entre o veneno e o remédio está na dose.
Inocula em mim todo teu veneno. E então me dá uma gota do teu antídoto.

GM

Queres que eu não duvide do perfume que exalas?
Como? se soa a flor ora carmim feito sangue, ora negra qual as cinzas do incêndio amoroso?
Me pede o impossível, sem aspirar obedecerei
Pois sou capaz de tudo
Sou capaz de dirigir a mais destoante das orquestras
Que incendeie o ar com tua mais silente, singela sinfonia
Terás de te ausentar?
Como? por quê? se não estás presente
Um piscar de olhos é tão efêmero quanto a vida
Eterno qual tua ausência
Queres que eu não duvide do perfume que exalas?
Como, se me deste um beijo
Seguido deste medonho, protocolar “Abraço!”
E do imperioso, do categórico
Ponto de exclamação
Do adeus final?

Ele voltou XIV

...continuação de...


Tinha jurado parar de beber. Disse a mim mesmo, se puser uma só gota duísque na boca você é um estrume escroto pândego peidoreiro. Se voltar a se embebedar tomara que ela te deixe, que arrume o primeiro que aparecer — e olhe que pra ela é fácil como estalar os dedos.
Os neurônios ficam tantalizados com a ideia, enviam à garganta um nó que desce para o peito e resfria o estômago. Podíamos suportar qualquer coisa — bem, quase qualquer coisa —, menos viver sem ela, seria o mesmo que definhar qual um vira-lata desfigurado de padecimento, atormentado pela sarna do abandono, um fantoche horrivelmente solitário. Os olhos veem a cena, primeiro as pernas perambulando às tontas pelos cômodos da casa, o olhar se deixando perder inutilmente nos cantos das paredes, meia hora estudando essas teiazinhas de pó que se formam nos interstícios, de repente a atenção surpresa se dando conta de que os olhos estão ali de olhar parado no vão entre o sofá e o carpete, então a cabeça se sacode cinematograficamente, a voz fala alto como se houvesse alguém ao lado do corpo, a cabeça acha que tá ficando lelé mas um minuto depois se dá conosco em outro canto, outra teiazinha, outro vão, outro espasmo encenado de náusea, se demorar mais um minuto a loucura afogará a consciência, sonambulamente pernas pro quarto, as mãos puxam a calça por cima da bermuda, os pés se enfiam nas havaianas, a memória tenta puxar vagamente que há alguns anos havia um cuidado com a aparência, até desprezava esses caras que vão a qualquer lugar maltrapilhos como se não conhecessem o valor do asseamento, tudo bem, tá todo mundo ligado no mundo interior, elevando sentimentos à máxima potência, aqui do lado de dentro foi o que nos sobrou, antes ser que ter, é verdade, precisamos logar o autocontato, o que importa é desenterrar o eu profundo, ter qualquer um pode ter, olha hoje em dia você tem de ser você mesmo, checar quem é verdadeiramente, todo o resto é supérfluo, quem não julga os outros pela superfície? mas cumpre cultivar um respeitozinho ao próximo senão vira bagunça, há de ter um mínimo de compostura, o problema de hoje é os extremos a que chegamos para alcançar uma chance de exercer a liberdade individual, antigamente era bom porque o coletivo vinha em primeiro lugar, se você se esculacha tá logo dormindo na rua entre mendigos e nem percebe, nossos amigos me chamam burguês, que papo mais anos setenta, dizemos, dizem, dizemos mais alto, essa é boa, burguês, era coisa de gente que delirava com o comunismo, somos todos burgueses, vira homeless, se descuidar morre de beber, vai pro institutomédicolegal, acaba sepultado como indigente, quem? eu? Logo eu que fizemos faculdade na usp, nos bons tempos ninguém ganhava de nós no gogó, discutia qualquer assunto, mandaí, atirava insolente o queixo contra o intelectualóide do outro lado da mesa entulhada de antárticas vazias, diz mermão, por que os milicos portugueses deixaram de apoiar a unita permitindo a debacle do cabral em angola, o ouro sempre terá valor para a elite porque esses porcos também precisam de fetiche, igualzinho às costureiras, guarda-noturnos (guarda-noturnos?) e torcedores do coríntians, os heterônimos do pessoa não podem ser explicados psicologicamente, eu enterrado como indigente? além do mais somos bem-apessoado, sei o nome do papai da mamãe até dos nossos avós (menos o materno parte pai), não queria ter de apelar mas bem ou mal temos linhagem, sem querer abusar, sabe-se que vale Merda, tudo bem que as mãos dão valor a estatos, me comparar a esses marcianos que vivem morrendo pelas ruas é descabido, só pra você ter uma ideia, papai já foi dono de escola, tudo bem, era de datilografia mas escola in its own right, embora isso tenha sido antes de eu nascer, escola na devida acepção, tudo bem que logo depois de eu nascer escafedeu-se, mamãe teve de morar em casa emprestada, depois com minha tiaeva, aí fomos parar naquele cortiço em que ela era obrigada a… bem, eu tinha de… enfio os pés nas havainas pensando, não podemos ficar mais um segundo aqui dentro senão piro, vamos dar o pira, saímos pra rua malajambrado, fôdasse, nego tem que ver o que com nossa vida? e se embobar as mãos damo vexame memo, precisoextravasar, o nó no estômago subiu de novo pro peito, só poder ser enfarte, o cara tá com uma dor encalacrada, sem mais nem menos cai duro, não extravasou dançou, tem que pôr pra fora, não interessa, ficar engolindo essa Merda pra quê? se na hora me achar no direito vamos pro meio da rua e paro o trânsito, subo na capota do primeiro carro, abaixo a calça, a bermuda, minh’alma saponácea precisa platéia, temos muita coisa guardada aqui dentro, ficaria bobo se soubesse, segredos que jamais contei a alguém, desde pequeno, sabe que todo dia a memória tenta lembrar o primeiro pensamento lúcido que tivemos na vida? coisa de crânio, temos umas visões do balacobaco, termo forte, tô sabendo, fazer o quê? um dia, ou melhor, uma noite, tô deitado, tá escutando? tô deitado na cama pra dormir, um segundo antes de o sono chegar passa um filme pela nossa cabeça, bem, pode chamar de curta-metragem — não, documentário não — no dia seguinte conto pra mamãe, que falou: foi sonho. Mas não foi não, era premonitório, vimos limpidamente em três dimensões como no cinema o quênede levando uma azeitona na cabeça, embora o que mais me tenha causado espécie foi a gostosa da jáquie, que mulheraço, c’uma mulher daquela eu também encararia liôsval, jaquezinha senta no colinho do guardacosta enquanto o liôsval não vem, é cê vai dizer, tinha de ter uoliú no meio masquequepossofazer? tá vendo, ainda temos a manha de me defender expondo detalhadamente nossos argumentos, outro diria o que tem a dizer, daria as costas queimando o chão, olha tinha só 2 ½ anos mas de repente ter telefonado ao efebeí teria salvo o marido da jáquie, ui! jaquezota tô plugadaço na tua fleumática Xoxota que não derramou uma lágrima em público, se for verter me chama que enxugo, dá aqui esse lencinho branco de cetim, deixa cair que pegamos, as pernas entram na tevê e me enfio debaixo dessa tua saiona preta de luto te aliso todinha negra rainha da morte esvoaçando na penumbra do nosso quarto e desassombrando nossas noites de rostos sem rosto de insondáveis sorrisos, de repente entra a marcha com deus pela liberdade, mas se nem mamãe acreditou por que você haveria?
Escuto uma buzinada na rua. Vamos olhar. É o motoqueiro entregando pítsa no vizinho. Em dia de semana, fIlhOdapUTa. É quartafeiradecinzas por acaso? Já sabe-se. Como não pensamos nisso antes? Uma bomba. Melhor: cianureto. Morte lenta. Pode levar três dias. Se a dose não for cavalar. Mas não dá pra pôr uma dose cavalar numa pítça. Mesmo que seja de gorgonzola. Nosso, só italiano pra gostar daquela merda. Sim, nosso vizinho é paulista. A maior solidão dum paulista é conversar com um nelsoniano. Isso porque você nunca foi em casa dum sábado à noite pra traçar uma de alitche e muçarela com rios de coca. Suprema experiência da autoimolação. End da vida. Para o cara, o paroxismo da celebração, olhinhos hipnotizados do casalzinho de guris assistindo enquanto papai executa o ritual do fatiamento, a esticação dos queijos derretidos (você sabia que uma fatia de pítça de muçarela de búfala pode esticar do chuíaooiapoqueaochuí?), a turma tomada dum acesso nervoso contido pelo cheiro combinado da azeitona com as bordas queimadas da massa, mamãe apressa-se a ir buscar guardanapos, guardanapos de pano, ai mamãezinha gostosaça essa dos filhos do vizinho, que gostosona tem o vizinho, que tetões suculentos os da mulher do vizinho, onde esse FiLhOdAPutA foi arrumar essa dona saborosa, se tivesse uma mulher dessas, deixa que eu seguro teus tetões enquanto você distribui a de atum, vamos lá, uma pro chefe da família, uma pro zezinho varão da família, uma pra mariazinha donzela da família, entrementes dê aqui esse guardanapo de pano que o corpo fica limpando essas excreções de molho de sangue premenstrual atomatado à la tarantella, melhor elessedê.

continua em...

DM CXXVII

Dizem tantas coisas.
Uau! Quem?
Oh dear, todos eles.
Pois têm línguas e não se fazem de rogados. Nem do que odeiam se fazer.
Terão medo de que suas línguas um dia atrofiem por falta de uso?
Melhor não arriscar.
Se atrofiassem, ficariam as incansáveis, serpeantes línguas como seus cérebros e seus corações.
Mas o que é que essa gente toda tanto diz, afinal?
Gosh, dizem tantas coisas.
Tantas, que seria impossível enumerar tudo que essa gente tanto diz.
Só não dizem que são maníacos do dizer.
Aí seria dizer demais.
E esses seres que tanto dizem podem ser tudo menos idiotas.
Okay, já sabemos: eles dizem muitas, muitas, muitas coisas.
Mas de novo: o que é que essa gente toda tanto diz, afinal?
Não daria pelo menos para exemplificar?
Provavelmente.
Não, de certo.
Daria, sim.
Por exemplo, entre tudo e tanto que dizem sem parar desde quando nascem até o dia em que suas elétricas paramétricas línguas enfim jazem caídas para sempre, dizem que a vida é uma luta.
Alguns vão além: a vida é nada mais nada menos que uma guerra!
Uuuu...!
E, dentre todas as coisas que eles tanto dizem tanto, tanto, tanto, dizem, veja só! dizem que a base de toda a vida é o merecimento!
Não! Não dizem, não!
Dirão barbaridades darwinistas assim?
Dirão, sim! E como! e, quando dizem, dizem solenes, a boca cheia do que se enchem as bocas, a língua viscosa estalando despudorada saboreando a verdade, baba babando babosa sem pejo nem continência enquanto os babões balbuciam aos borbotões suas baboseiras.
A base de toda a vida é o merecimento! eis o que mais dizem.
Que digam! digo eu.
Podem até estar certos.
Que sei eu?
Não sei quase nada.
Não passo dum garoto envelhecido que desde seu primeiro dia nesta Terra optou por duvidar de tudo que tanto lhe dizem.
Enquanto eles, de tanto, mas tanto dizerem, acabaram todos surdos ao que dizem.
Que digam! insisto.
Digam e digam e digam até caírem duros, com as orelhas entupidas de suas bombásticas declarações.
E enquanto dizem e dizem e dizem, fico aqui no meu cantinho, a me perguntar:
Se a base de tudo é o merecimento, por que DM gosta de mim?

Pré-consciência da nossa fragilidade

Em entrevista para a Paris Review, James Salter diz que precisava de solidão total para escrever. Se permitia fazer anotações e sinopses em trens e bancos de parques, mas na hora da composição geral não deixava por menos que solidão absoluta. E completa: “De preferência, com a casa vazia”.
Que inveja. Presumo que a casa vazia incluísse, além da solidão completa, silêncio imperial que propiciasse serenidade e uma distância segura de ruídos que pudessem interferir em sua percepção do mundo.
Vizinhos. Para que servem vizinhos?
Acho que sei a resposta. Para impedir que alcance a solidão imensa a que aspiro.
Aquele sentimento de solidão que devo ter atingido apenas duas ou três vezes em minha vida, aquele sentimento de solidão em que me deixei tomar pela soberba de pensar que era afetivamente autônomo e não precisava de absolutamente ninguém, sequer um pontinho indistinto longíquo no horizonte.

DM

Enquanto este dia durar me lembrarei: quem está de parabéns sou eu
Nesta data e em todas as que passaram a sê-las em maiúscula
Depois daquela vez em que te conheci
Lembra?
Não, obviamente
Eu compreendo (Mentira)
Pra você foi uma só, só mais uma,
E eu, mais um solitário, sozinho, só
Desses que contam as vezes que teve na vida
Como todas aquelas deste instante em que você passa neste mundo
Indiferente a este para quem os instantes não passam
Neste dia em que estou de parabéns
Ganho um imerecido
Tão imenso, descabido presente
Que cabe direitinho aqui dentro
Do meu coração vacilante
Sob o cobre dos cabelos
Tem sorriso de madrinha
E estranhamente
Olhos de serpente
Risonhos e ardentes
Desprezo formalidades
Nem ligo se por isso me desprezam
Não lido bem com intimidades
E congratular alguém pelo aniversário me soa tão estranho, mesmo sendo eu um estranho
Não gosto de dar parabéns
seja qual for o dia e o mês
Não gosto de receber parabéns
senão no Vinte de Setembro

T

Às vezes bate saudade dos nossos papos no… Como chamava mesmo? Nem... Aquele programinha de chat da MS... Live? MSTalk? Bom, não tem grande importância. Umas noites esticávamos até as 3 da matina, te perguntava, não tá com sono? Não. E me admirava aqui comigo, essa é durona, vai trampar cedinho e tá firme aqui alta madruga. Eu, segurando meu copão de uísque nos dedos da mão esquerda, que delícia, porca madosca, que senso de liberdade. A vida online pode ser compensadora quando temos sorte, não é? Tive sorte com você. Depois acabou como essas coisas acabam e fiquei meio nostálgico. Não tive mais ânimo de tentar outras experiências do tipo. Vou colocar em termos mais precisos: ninguém teve mais ânimo de tentar esse tipo de experiência comigo. Pelo que não culpo o mundo. Não sou louco, embora possa dar pinta de. Quer dizer, posso parecer, segundo os padrões em voga por aí. Mas você sabe que não ligo para tais padrões. E hoje em dia é cada um na sua à máxima consequência, não é? Somos cada qual tanto cada um na nossa, que eis-me aqui me dirigindo a uma estranha sem me preocupar que tal estranha não me responderá nem com o que pensará ou deixará de pensar de mim. Como deve estar patente, estou escrevendo para mim mesmo. Você, aqui, é apenas uma desculpa. Escritores precisam de desculpas para escrever, repito todo maldito dia. Agora há pouco peguei meu copo de balla12, me sentei diante da tela e pensei, que é que vou escrever? pergunta que me faço amiúde. Pergunta que todo escritor se faz amiúde. A escrita – ou seja, escrever – requer uma coisa muito esquisita que é um misto de experiência e necessidade de expressão. Quando se sente assim meio frouxo, sem convicção das coisas e do mundo suficiente para se aventurar numa dessas definições definitivas da existência que fazemos intimamente para nos consolar solitariamente do nosso desamparo, você – no meu caso, eu, escritor – tem de apelar à experiência. Sei que deve soar altamente complicado mas é verdadeiro e faz, para mim, sentido. O sentido é a cruz do escritor. O escritor é um sujeito que domina, em maior ou menor grau, a palavra e a técnica para empregá-la mas esse domínio não lhe faculta ir enfileirando palavras a torto e bidu. O segredo e o básico é enfileirar as malditas sob um sentido que as una e amarre de modo que possam ser reconhecidas por quem as lerá.
Como vão as coisas aí do seu lado, T? E as aulas de dança? Quer dizer, imagino que sejam aulas.
Não, não me diga, não tenho a mais remota vontade de saber, é só esta minha bendita mania de questionar, esses ecos imorredouros sobreviventes da época em que me obrigaram a aprender que um dos meus destinos seria o cultivo do interesse pelos outros. Vou desaprendendo aos pouquinhos, ou tentando, não é moleza, você deve saber. Hoje sei conscientemente o que sempre soube intuitivamente, que meu único, meu exclusivo interesse sou eu mesmo. Posso até me deixar cativar uns instantes ou uns dias por alguém mas o enfado súbito e inevitável varre meus pensamentos e minha vontade e não vejo saída que não permitir que a mais sólida das indiferenças me converta numa estátua escritora. Aprendi, autodidata que sou, e com proprietários de egos hipertrofiados como Fernando Pessoa, Rilke e alguns outros poetas, que não existem neste e em outros mundos indivíduos que valham a pena senão eu. Mas não me classifico um ególatra, longe disso. Sou, antes, um arrematado introspectivo.
E agora tenho esse assunto inadiável para tratar, a morte. A minha. Que vem vindo quente atrás da curva, feito o trem de Jimi Hendrix.
Pensei que ia me inebriar de inspiração quando chegasse a hora. Que a proximidade do encontro me facilitaria verter poemas antológicos, versos memoráveis, analogias originalíssimas. Estou frustrado. Tudo que sinto é essa mastodôntica letargia que extermina na fonte tudo que tenho, e sei que tenho, de metafísico, apesar da minha proverbial ojeriza da metafísica e outras alternativas a este mundinho besta.
O que me faz parar por aqui. Mas não se preocupe, estou lutando contra o Grande Bode. Sei que vou expulsá-lo cedo ou tarde, e sei que só preciso ter paciência, quem sabe esperar até o último minuto. 

O regaste ugh

Tava relendo meu caderno de notas (gente coisa é outra fina) e fisguei o textículo a seguir, que escrevi no fórum da comu Literatura da Orkut.


Não posso deixar escapar a oportunidade. Os estertores da orkut vieram a calhar. Vou falar o que defacto penso da Suely.
Antes, porém, uma apresentação.
A Suely é uma dama.
Não, não lhe aplico o título algo vetusto por sua idade. Não sei a idade da Suely. Não me interessa a idade da Suely. Não sou como esses energúmenos que até ontem vinham a este antro forense fazer suas necessidades fisiológicas como se não tivessem latrina em suas digníssimas pocilgas residenciais.
Esses energúmenos que se orientam e classificam pessoas pela idade.
Estava ainda há pouco olhando a parede branca acima da tela do meu computador, matutando "Preciso escrever sobre a Suely. Que é que posso escrever sobre a Suely?"
E ponderando fui indo.
Até que tropiquei numa lembrança e desabei do estado letárgico em que entro quando me entrego a devaneios e bumba-meu-bio, digo, meu-boi. Senti os lábios e as bochechas conformados num sorrisinho satisfeito. (Adoro meus sorrisinhos satisfeitos. São raríssimos. Só ocorrem (à revelia) quando a rédea do meu superego está solta, o que só acontece uma ou duas vezes ao dia.)
Sim, povo meu. Sorria com as frases que meu cérebro ia tecendo em torno do que penso da Suely.
Que é que penso da Suely?
Bem, não tenho muito que pensar da Suely.
Pra começo de conversa, a Suely é um fake. Um fake do bem.
I mean, até certo ponto.
O prenome, pelo menos, é genuíno. O sobrenome não vem ao acaso. A Suely não precisa dar o currículo. É daquelas que se ajustam suavemente aos provérbios e ditos, fazendo o bem sem olhar a quem.
A Suely me fisgou pela cordialidade ao primeiro post.
Não sou um sujeito que se é cordial com assim sem mais nem menos. Muito au contraire. Espumo hostilidade ao primeiro contato e hostilidade atraio. Não, não foram os fóruns que me ensinaram esta autolição. O seio-o desde meus dois meses de idade.
Certa feita, nesta comu, uma loira oxigenada curitibense que fazia suruba com seus cãezinhos e flanava por aqui só pra encher meu saco me acusou de ser destituído de EMPATIA.
Assim, tu é bom mas não tem empatia.
Perguntei pra dona se estávamos participando de concurso de miss, sacumé. Adi que meu papo não era ser animador de auditório. Que tava aqui pra falar de literatura. Não, esquece, não tava aqui pra falar de literatura porra nenhuma. Tava aqui pra falar de mim. Que é a única coisa que sei fazer nesta minha vida de narciso desenxabido.
Tão vendo como tudo aponta pro mesmo ponto fulcral de inanição intelectual?
Os caras achavam que eu devia FAZER MÉDIA puta que la merda!
É o que os blogueiros por aí fazem. I'll scratch your back, you'll scratch mine. O proverbial "quem não tem sei lá o que faz nem imagino como".
De repente, a Suely.
A Suely foi assim.
Sabem essas pessoas que ocorrem uma, duas, no máximo três vezes na tua vida?
Não troco a Suely pelo salário do Neymal. E olha que o Neymal fatura CINCO MI POR MÊS.
Suely, perdoe a piadinha cretina -- não resisti. Precisava atacar o cretininho de alguma forma.
Vocês conhecem o Roberto Piva?
Claro que não.
Esta é uma comunidade literária em que os membros dizem que Machado é uma merda.
Agora há pouco tava lendo o Roberto Piva e uma hora lá o cara tasca o seguinte: (Sorry, citação literária à frente.)
"Nada mais provinciano do que os clubinhos fechados da poesia brasileira, com seus autores-burocratas tentando restaurar a Ordem & cagando Regras que o futurismo, dadaísmo, surrealismo & modernismo já se encarregaram de destruir. (...) A poesia é um salto no escuro como o amor. Por isso, MEUS LEITORES PREFERIDOS são os heréticos de todas as escolas & os transgressores de todas as leis morais & sociais."
Vejam que MEUS LEITORES PREFERIDOS está em letrona grande. Como dizem por aí, grifo meu.
Lembram daqueles tópicos bobocas em que perguntavam como retardados "Qual é seu escritor preferido?"?
Voltem à citação. Vejam lá, MEUS LEITORES PREFERIDOS.
Piva tinha seus leitores preferidos.
Só um poeta que é defacto poeta pode se dar o luxo de ter leitores preferidos. A nenhum membro semiereto da comu literatura jamais ocorreria perguntar QUAL É SEU LEITOR PREFERIDO? pois os membros semieretos da comu literatura acham, ainda acham, sempre acharam, sempre acharão que escrever é concurso de miss.
Qual Piva, também tenho leitores preferidos.
Qual meus escritores preferidos, são poucos, são raros.
Dos meus leitores preferidos, a Suely é minha leitora preferida.

Memórias do cárcere químico XII

De repente ele arrasta o sujeito até um canto escuro na rua. Puxa uma peixeira e mete a ponta do instrumento no fígado do outro.
Que, naturalmente, se agarra c’um olhar aterrorizado à máscara feroz que cobre o rosto do dono da faca. E o terror se mostra ainda mais fundo e agoniento pela incompreensão dos motivos.
Vai mesmo me furar o fígado? suplica a vítima num fiapo de voz.
Houve um tempo em que sabia a resposta. Quando foi criança.

Memórias do cárcere químico XI

Noite adentro vai o ventilador
A soprar no meio do escuro
Lamuriando mágoas
Evocando infortúnios
Disparando latidos
Compondo a cantiga
Na noite inimiga

Memórias do cárcere químico X

Que delícia deve ser
Nascer, fechar os olhos
E não viver

E que delícia certamente é
Nascer, fechar os olhos
E não ver

Saber sem conhecer
E ficar no mundo
Sem estar
E deixar o mundo
Sem lembrar
E olhar o mundo
Sem querer
E abrir os olhos
E não ser

Memórias do cárcere químico IX

Um convescote todo de velhotes vem descendo a pirambeira. Estão empoleirados na grande caixa de aço dum desses caminhões caçambeiros que infestam a cidade aos trancos e sobressaltos.
Um convescote móvel de velhinhos assanhados. Cada um deles visivelmente cego. Todos aparentemente surdos. Mas mudos, não. À medida que o grande caminhão carregado de entulho passa, os velhotes assobiam, emitem chistes obscenos e piscam piscadelas lascivas para os e as transeuntes. As mulheres, as chamam de putas. Os homens, os provocam de cornos.
O caminhão desaparece atrás da primeira esquina, deixando no ar apenas os nheque-nheques produzidos pelas consúteis mandíbulas dos velhinhos fantasmas.