Até incendiar

Roda roda tempestade
sussura teu tormento
fustigando a tarde dominical
soprando os cobertores coloridos
enfunando os panos de cortina
transporta de volta os esquecidos
das origens que se deixaram
oprimir pela glória da pureza
mortos nos braços da paz
Roda roda tempestade
narra a verdade aos ouvidos
ávidos de artifícios
livra as rosas de suas pétalas
ensina o forro de espinhos
empalhando de amor e ira
de paixão e ternura e cólera
os corações

Farsista vespertino

Te devo desculpas. Fui frívolo.
Deito falação por qualquer coisinha.
Sou egoísta. Extremamente. Sempre fui, mesmo quando fingia me condoer pela miséria humana.
Sendo fingido, fingia que não era fingimento.
E fingia fingimento com tamanha ingenuidade, que chegava a parecer um genuíno ingênuo.
Somos pueris todos que dançamos nas garras do Poderzão.
Gente próxima a mim dedica e dedicou a vida a “fazer o bem”.
Nunca tive aptidão para a generosidade.
Hoje passei para o lado que não é o meu.
Tendo a chorar por essas misérias sentimentais por puro egoísmo, uma identidade que me faz sofrer por tabela, sofrimento pelo qual preciso que reconheçam em mim.
É por esse tipo, entre outros, de sentimento que escrevo.
Somos tão fraquinhos nós perdedores que levamos de lavada dos senhores do mundo.
Entrei numas, estou sabendo.
Este choro é fingido, como todo o resto. Eis por que você deve acreditar em mim.

Apenas outro mapa inútil

Da minha casa até certa esquina, não estou certo se em direção norte ou sul, minha rua é cruzada por outras onze. Como não conheço pontos cardeais, apenas sei que quando passo por essas ruas estou sempre descendo rumo ao centro da cidade. Sei também que alguns dos meus vizinhos, diferentemente de mim, descem na direção da estação quando passam por elas.
A primeira dessas ruas começa na minha e sobe um morro íngreme que nasce aqui e se estende quatro quarteirões acima.
Essa primeira rua chama-se Constituição. Agora que estou tocando no assunto me ocorre que já não me pergunto mais o que significa seu nome. Menino — e, olha, um tanto tímido e tristonho para o meu próprio gosto, tanto naquela época quanto hoje  —, avistava esta placa grudada lá no alto da parede amarelada desta casa da esquina e me assombrava com a palavra pomposamente enigmática — ou talvez apenas pense que me assombrava quando hoje passo por aqui tentando me imaginar atravessando esta rua, mão brincando em torno dos lábios, olhos não arregalados — pois tinha pudor em exibir meus sentimentos, mas seguramente pupilas dilatadas à minha revelia.
Nesta rua Constituição moraram alguns amigos meus de infância. Ou, se você preferir que eu seja preciso, colegas. Decididamente, pois sequer uma vez me convidaram para conhecer os mistérios que de certo residiam no interior de suas casas. Nem o Roberto, que eu todos os dias deixava entrar na minha para jogarmos bafo e fazer outras coisas (muitas outras coisas, das quais não me lembro exatamente bem).
Nesta rua Constituição também moraram outras pessoas que me intrigaram por uma razão ou outra. Me lembro bem duma senhora de cabelos brancos que morava na quinta casa subindo do lado esquerdo. Nunca soube o nome dela — pois não éramos vizinhos e, pelo que também me lembro, só sabia os nomes dos vizinhos, e não apenas dos diretos, mas também dos da frente e dos de cinco ou seis casas para ambos os lados.
Depois da Constituição vem a segunda rua que começa na minha. A Cajado de Lemos. Esta, ao contrário da primeira, desce. É descida curta, de apenas dois quarteirões ou talvez nem isso. Não, certamente nem isso. Engraçado: também me ocorre agora que nunca me preocupei em saber o comprimento exato da Cajado de Lemos. Tampouco cheguei a pensar em quem seria o velho Cajado de Lemos cansado de guerra que sem dúvida aprontou alguma das grandes para receber a honraria de ter seu nome inscrito numa placa. Ao contrário de Mario de Andrade, o velho Cajado na certa não se avexaria em virar nome de rua. Eu mesmo acho que não importo se algum vereador se dispuser a rebatizar São Paulo com meu nome.
O mais curioso, porém, é que aqui na Cajado de Lemos, exatamente aqui nesta casa  — ou será naquela ali do outro lado da rua? — morou a Valnice, por quem me apaixonei caninamente quando tinha oito, dez, treze anos. (Ou será que o nome dela era Antonia? Não, certamente não. Nunca me apaixonaria por uma menina chamada Antonia — não importa quão bela fosse.) Seja como for, ainda hoje carrego o coração meio dilacerado pelo amor não correspondido que devotava a Valnice. Dias tinha que, depois de voltar da escola, almoçava, tirava o uniforme e vestia o calção surrado de jogar bola, fazia a lição de casa e acabava vindo aqui, me sentando exatamente neste degrau que existe até hoje. E então me esquecia do mundo, grudando os olhos na porta da casa da distante Valnice, rezando para que ela viesse à luz do dia olhar distraída as nuvens e conferir a possibilidade de chuva ou ir à padaria Zizza comprar seis pãezinhos e um litro de leite (que naquela época vinha branquinho naquelas garrafas gordas seladas cuma tampa de alumínio que exigiam o emprego dos dentes para sua remoção).
Ela raramente botava seus suaves pezinhos fora de casa — pois naqueles tempos as meninas primavam pelo recato e pela índole doméstica —, mas eu, teimosamente, montava guarda até a noitinha. Às vezes, para a minha inacreditável sorte, a Valnice dava o ar da graça e se punha a caminho da padaria para comprar os ditos pãezinhos ou do armarinho da dona Cida para adquirir um retrós de linha (sua mãe costurava pra fora). Nessas ocasiões minha boca ficava seca e meus olhos — aí sim, pois não tinha como evitar — se arregalavam de paixão. Valnice era orgulhosa: mal cruzava a porta, torcia o pescoço para o outro lado. Pior, era fria: subia os poucos metros da Cajado de Lemos e dobrava a esquina sem me dirigir um único olhar. E era cruel: fazia questão de subir a ladeira como se eu não existisse — embora soubesse perfeitamente bem que eu não deixava escapar um só movimento de seu corpinho de boneca predestinada a sequestrar o coraçãozinho dos garotos perdidos.
A terceira rua que cruza a minha é a rua São Paulo. Esta vem lá de baixo onde, há uns dois séculos, antes de existir esta cidade, havia um vale então atravessado pelo rio que, miraculosamente, resiste ainda hoje. Esse rio — chamado dos Meninos — deixou de ser exatamente um rio — foi pecaminosamente convertido num esgoto de misteriosas águas pútridas cor de asfalto e dos meninos que há sessenta anos se banhavam nele restou tão somente o nome.
Aí vem a Joaquim Nabuco, a Olavo Bilac, a... De repente me vejo na estação, a estação dos trens. Às vezes — uma ou duas por semana — minha mãe ia para a “cidade” (como ela e meu pai se referiam a São Paulo) e me arrastava atrás da saia como se o mundo fosse só dela e eu não existisse. Naqueles tempos meu grande sonho era sair de casa sem ser notado e enveredar a esmo pelas ruas sem prestar atenção ao rumo tomado aleatoriamente por meus passos. Parece que hoje finalmente consegui.

Sentimentos por kilo

Os cientistas ainda não descobriram se o rigor mortis é o último estado do relaxamento.

Este blog não existe. Este blog no qual você lê esta postagem é miragem. Esta postatem é miragem. Vai ver, esse teu monitor é miragem. Ih, este pastel de pizza é miragem. Quem sabe Vossa Exumada Excelência também é miragem? Minha avó é miragem, minha tia, a Benedita é miragem. Nenhuma miragem não é miragem nessa porra?

Parede ede ede. O eco voltou.

Este é o mais doce abril da minha vida.

2008, Franz marcou mais um. Bem-me-quer, annus horribilis, mal-me-quer, annus mirabilis. Prima facie, poderei sorver a aqua vitae à la carte. 2009, la joie de vivre par excellence, meu tour de force na maciota. Que os israelenses recebam o troco que lhes cabe. Que os impostores sejam desmascarados. Que os mentirosos tenham as mãos decepadas. Te entera.

Tem mais poesia em uma injeção introvenosa do que em toda obra de Pessoa
em uma ferida recoberta de bandaid
quando nascemos, devíamos passar pelo teste do bafômetro
estou pagando direitinho todas as cagadas que fiz — não sou caloteiro

Família linda, né? Pois é, pode elogiar

Puta merda, depois de décadas lendo Roth, descobri que não dou lhufas pro que um judeu americano pensa do que quer que seja.
Quintana me dá ímpeto de ser vândalo
O problema não é cair no buraco; o problema é sair dele
Estranha coincidência: tem mulher que só aparece quando você tá cheio da grana. E se você não tomar cuidado, as duas desaparecem juntas

Odômetro nunca foi mexido. Manual do proprietário original. Os pneuzão da cintura tão 1/2 careca. Tô doidinho prum test-drive, mas urtimamente a coisa tá ruça. Faço papel de Glenn Close como ninguém. Se tiver sangue, aí é que eu gamo.

Tchbung! going to the beach. Não acredito, devo ter perdido o resquício de lucidez que ainda mantinha. Mas desta vez não me escapa — me afogo na primeira onda. Se der tudo errado, volto na segunda. Lindinha, se a gente não se falar mais, te amei tanto quanto a natureza humana mo permitiu. Vou beber muito à tua imagem pulsando na minha cabeça todo o fim de semana. Te adoro. Don't you ever let me go again please...

MV II

Podias ter nascido
peixa de espinhos
anestésicos
em minh'água
sem aquário
sem gato nem
anzol

Podias ter nascido sapa
eu, princeso
enterrado num casulo de seda
a sonhar
que nasceras peixa
e de rimar tanto gostavas
que acabavas gueixa
com mi'a vida
em tuas garras

Quem diria?

Reescritura de "Fato"

Não imagino quem me imaginas
O pensamento veio assim do nada e se aboletou acima dos outros
Quem diria? não imagino quem me imaginas
Surgiu há uns três minutos e lá se ia pro buraco do esquecimento, com bilhões de outros, se eu não tivesse teimado em salvá-lo
Quando surgiu, me empolguei — parecia a minha saída
Por ele exterminei os que vinham atrás
(É que, sabe, me conheço um tiquinho, sei como funciono, extermino agora pra retornarem depois, já não me preocupo tanto)
Pensando bem, não imagino quem me imaginas
Nem é preciso pensar tão bem
Não imagino quem me imaginas
Por que agora já não faz tanto sentido?
Era ou não era meu remédio?
Não imagino quem me imaginas
Por que sou tão volúvel?
(Não se preocupe, não vou enumerar as milhares de razões por quê
Afinal, sei, ufa, como me imaginas)
Não ia dar conselho algum — não sou de dar conselhos, não gosto que me deem conselhos
sim, não imagino quem me imaginas
Com a língua entre os dentes, numa salada amarga de raiva, despeito, ternura e transcendentalismo
Quem diria? não imagino quem me imaginas
De repente nem quero

Fenecido jardim de promessas

Domingo cedo, oito no máximo, mamãe entuchava na caçarola o frango com farofa preparado na tarde anterior e lá nos íamos para o clube de campo nos confins de Santo André, do qual papai era sócio. Escrevendo agora, preciso me esforçar para não circundar cada palavra c’um par de aspas. Outro escritor talvez se perguntasse por quê. Quanto a mim, não vejo razão para me perguntar o que quer que seja.
Era uma viagem relativamente curta, primeiro no DKW cinza e branco 1961, depois no DKV azul marinho 1966, papai ao volante, mamãe do lado, eu e a mana mudos e indiferentes um ao outro no banco traseiro. Em geral levávamos de gaiato um primo ou uma prima que não tenho vontade de nomear – o primo, o odiava; a prima, a desprezava, sentimentos que mais tarde, adulto, descobri ocupavam lugar imenso em meu relicário emocional e com o tempo se mostrariam preponderantes em minha visão das coisas.
Foi numa dessas excursões domingueiras – que, como também viria a descobrir tempos depois, sempre se revertiam em incursões para dentro de mim mesmo – que escutei pela segunda vez A Day in the Life no rádio do DKW azul marinho e resolvi que seria o fã número um dos Beatles por toda a vida.
Papai mostrava a carteira de sócio na portaria e avançávamos uns quilômetros adentro pelo parque. DKW estacionado, nos embrenhávamos na Mata Atlântica até encontrar um dos inúmeros conjuntos de mesa e bancos destinados aos farofeiros. Mamãe retirava as tralhas da grande sacola e repartia o frango entre todos. Eu indefectivelmente preferia uma coxa. Reclamava que não queria a farofa mas ela infalivelmente se fazia de surda aos meus rogos. A mana aceitava tudo que se lhe ofereciam, desde que em modos polidos, e se preserva assim ainda hoje.
Findo o repasto, nos defrontávamos com as pouquíssimas opções disponíveis. Se mamãe tivesse providenciado nossos exames médicos, poderíamos dar um mergulho na piscina olímpica do clube, mas ela jamais quis se dar o trabalho, por mais aplicada que fosse na execução de seus próprios afazeres. A partir da segunda visita ao clube fui obrigado a me conformar amargamente que um reles banho de piscina não era pro bico duma prole de pais e mães relapsos.
A essa altura papai já tomara o rumo da pista de boccia, provavelmente o único esporte que praticou em toda sua vida. Me lembro duma feita em que, depois de bater o pé até vencê-lo pela exaustão, o convenci a me levar a uma das quadras de basquete e, em lá chegando, requisitar uma bola mediante a entrega de sua carteira de identidade. Depois de três ou quatro arremessos ao cesto sob o olhar enfastiado dele, enjoei e voltamos à nossa mesa dos farofeiros.
Duas da tarde, hora de puxar o carro. Reassumimos nossas posições familiares nos bancos do DKW e retornei para casa com A Day in the Life martelando quietamente na cabeça.

Penteado ao amanhecer

Me curvo à cidade e seus habitantes.
A cidade é espetacular em sua arquitetura a escrever a vida cotidiana de seus habitantes, seus habitantes ostentam, para quem quiser se dar o trabalho de enxergar, a história de sua luta e suas aflições nas rugas do cenho.
Se não fosse dotado deste pudor que sempre me impediu de franzir o rosto de volta, me faria abobalhado ante este espetáculo. Sou, não estou certo se infelizmente apenas para mim mesmo, um documento vivo. Neste instante, e em todos os instantes em que fui capaz de não me autossubornar com necessidades baratas como carência afetiva e afeto, tenho esta capacidade de me colocar fora da farsa. Se tal capacidade se revertesse em mágica, poderia, acho, sair voando por sobre os cabos estendidos tibiamente entre os postes da rua.
O humano me desumaniza, olho para a outra calçada receando que um desses possantes que atravancam o trânsito poderia me atropelar apenas para que minha teoria restasse comprovada.
Enquanto subo, dobro esquinas, desço, estaco nos faróis e olho para os lados antes de atravessar, vou me entrevistando. Cada pergunta, invariavelmente, suscita resposta impossível. As sei de cor e as respostas que não ouso me dar também. Ainda assim não sei reagir a cada uma senão com desconcerto. A algumas mais dolorosas, com genuíno espanto. Ao fim da entrevista que nunca tem fim a conclusão é sempre a mesma: não sei nada.
Passo diante dum colégio, hora da saída da gurizada. É um pequeno rebanho de pequenos seres cobertos de calças escuras e camisas claras. Me ponho ante cada menino e cada menina e, microfone em punho, enceno a mesma entrevista que se repete desde os tempos em que também trajei um uniforme, compenetrado em meu papel de perpetuador da disciplina que mantém a cidade em pé e dos preceitos, da alienação e da preguiça que perpetuam e reciclam nosso desamparo.

Nada, nadador

É legal quando os assuntos vêm vindo fácil pra eu desenvolver. Assim não preciso quebrar a cabeça.
Em geral só sei falar de intelectualices chatérrimas e poesia e tragédias e leituras pesadas, certamente te faria dormir.
Podia perguntar de que filmes você gosta, mas tenho certeza de que temos gostos totalmente diferentes.
Falando em embriaguez, você disse que não tolera álcool. Que pena, ia te convidar pra me pagar uma caipiroska de vodka no buteco do Lacerda aqui na esquina.
Quanto a experimentar, acho que não me apetece muito, não. Mas depende de quê. Vejo gente que tá sempre pronta pra qualquer coisa, fico meio admirado e invejoso. Sou muito enjoado.
Mas senso crítico é básico. Não topo gente que topa tudo, gosta de tudo, ri de tudo, é sempre simpática, me forçando ao maldito de bem com a vida.
E como não ser cético neste mundo miserável feito de escaramuças e mentiras?
Você diz que não é de bem com a vida infelizmente, eu digo felizmente.
Essa praga é mais um slogan publicitário que todo mundo e seu marquetero começa a repetir feito papagaio sem saber direito o que significa.
Vou soar arrogante, sei, mas sou muito complexo e complicado pra caber dentro dum slogan desses.

Oito bilhões de espíritos

Como vai?
Cacete, não gosto, nunca gostei de perguntar a alguém como vai.
Tenho vívido cá comigo desde sei lá quando que nós pessoas não nos devíamos dar a tais demonstrações de adulação gratuita.
Achava — e ainda acho, mas tive de me dobrar ao espetacular teatro que me fizeram engolir logo cedo — que essa pergunta era absolutamente particular. E que nada impedia o distinto ou a distinta de expressar seu verdadeiro estado de espírito. E que ao perguntador não devia ser dado o direito de se escandalizar se o perguntado respondesse “Vou mal pra caralho, porra!”.
Posso fazer outra pergunta?
Obrigado.
Por que o sobrenome agora é obrigatório?
Não, não me responda, peço.
Quero saber e não quero.
E essa botina poderosa aí. É de militar?
Estou sendo demasiado intrusivo?
Estou, sei.
Detesto intrusivos.
Mas quando me embebedo fico e adoro xeretar.
Queria perguntar outras coisas.
Vou parar por aqui.
Tenho medo de me mandar cuidar da minha vida.
Mas gostaria de receber uma resposta do tipo.
Sou muito intrometido.
Tem hora, me acho insuportável.
Que é que taux fazendo aqui às dez da noite despejando a uma desconhecida tamanho lodaçal de bobagens?
Amanhã vou me arrepender.
Toda manhã me arrependo das asneiras que fiz na noite anterior.
Tenho esse recurso de retroalimentação hipertrofiado.
Na hora, a cabeçorra entupida de vapores etílicos, digo, fôdasse.
Gosto de dizer fôdasse, mesmo quando estou sóbrio, o que é raro.
Aí, no alto da madruga, começo a acordar meio sonhando meio vígil, me lembrando das cagadas e vou ficando envergonhado e perco o sono e tenho gana de me morder de raiva e arrependimento.

DM IV

DM, vou dormir, cansei de te esperar, queria te dizer que meu coração sangra por essas bobagens que esta bosta de vida nos apronta, mas não vou te dizer mais nada, pois te melindras com qualquer coisa que te diga, se tivesse o helicóptero do dilmão ia até aí, batia na tua porta, te puxava prum escurinho mais próximo, te abaixava as calças, te lambia tua buceta túrgida de tesão incontido e então gozavas na minha boca e então te enfiava minha língua de dragão na tua boca e te lambia os dentes e as amígdalas e te sorvia e te encharcava e te adormecia.



Que delícia. Que pudor! Que delícia.


Gostou, né?
Já brochei com mulher tarada.
Me senti estuprado.
Maior tesão, de repente o fenômeno do amolecimento.
Um dia uma zinha insistiu tanto pra eu falar com ela na porra do msn, aquiesci, hehe, tamos lá trocando aquele belo monte de merda, aí falei “eu dormiria com você”. O msn caiu prontamente, a zinha saiu dos meus amigos, me bloqueou. Depois me mandou uma mensagem “Não sou o que você está pensando”. Mas não tô pensando porra nenhuma, zinha. Minha rola é que está.
DM, vais usar mais esta minha inocente confidência contra mim qualquer hora, não vais? Afinal já usaste até o poetinha de quem te contei.
Estás a coligir minhas confidências no Grande Livro Vermelho de WV pra esfregar na minha fuça quando chegar a hora?
Não ligo.
DM, essa nova foto do teu perfil é para meu benefício? Gostei. Mas talvez algo mais explícito viesse a calhar, no dizer da Primeira Dama da literatura nacional LF Verissimo?
Só agora vi em seu perfil “Amado Rio Grande do Sul” e me escrachei de gargalhar. DM era a última pessoa do mundo de quem eu esperava esse tipo de ufanismo patriótico.
DM, releve as espicaçadas. Só sei me relacionar assim, hostilizando. Mas já percebeste, claro.
Quando acordares e vires e leres, conta até 1000.
Não mira todas tuas lanças envenenadas contra este pobre pretendende a poeta que não acerta uma na poesia, na vida, no amor e na loteria.
Me poupa, minha querida. É quase tudo brincadeira.

Não leva a mal mas te amo.



...999, 1000. Pronto.
Tu não me assusta, Wilson. Nem mesmo em tempos onde as fêmeas perdem as suas vidas na mão de trogloditas tarados, dementes e sádicos. hehe.
Os machos também perdem suas dignidades e até mesmo a vidinha, nas mãos de gatinhas estelionatárias, viúvas negras e gostosas plastificadas. Mas não é o meu caso. Não se preocupe comigo também, querido.
A foto do perfil era pra me lembrar de uma vontade que hora dessas concretizo. Mas se me queres deitada, tudo certo. De pé também, de ponta cabeça, nozada, rasgada ao meio, só uma parte, a parte toda... como quiseres.
Corro pros pequenos, agora, minha única fonte de sanidade. Volto a noite pra te desejá-la. Desejo-te a noite.


“machos também perdem suas dignidades e até mesmo a vidinha, nas mãos de gatinhas estelionatárias, viúvas negras e gostosas plastificadas”
Não se preocupe comigo também, DM. Não tenho dignidade. Portanto não posso perdê-la. Nunca tive. Nunca me preocupei em tê-la. Não dou lhufas pra dignidade. Nem sei o que é dignidade. Não sei pra que serve. Não imagino quem são os dignos, o que fazem, onde moram, onde dormem. Fôdanse os dignos e suas dignas dignidades.
Quer dizer que foto é pra te lembrar de te matar? Então a puseste pra mim alright. Te matar e te envolveres comigo é a mesma coisa.
Corre pros pequenos? Não me diz que é teu ofício tem algo a ver com crianças. Pauvres enfants. Promete que não fará com eles o que fazes comigo. Sofro numa boa, mas não tolero testemunhar o padecimento alheio.
Vou tentar começar a beber mais tarde hoje pra ver se aguento em pé além das onze. Falando em se matar, tô chegando lá. Fiquei anos tentando criar coragem, escolhendo entre um método e outro, escrevendo sobre, criando teses científicas, racionalizando, até que concluí que nunca teria coragem de implementar um método tradicional, o que único jeito seria uma “passagem” lenta e sufocante e masoquista, bem ao meu estilo, e voilà! Cá estou eu me matando dia a dia de tanto mamar. No ritmo em que vou, devo chegar até meado do próximo ano, se o diabo quiser. Dá pro gasto. Já vivi tudo que tinha a viver e já saquei que não tenho capacidade de viver aquilo que queria viver.


Oi, lindo.
Matar-me, não. Saltar de uma ponte. Somente. Morrer seria um risco, mas não um propósito. No entanto, quem já não quis dar cabo da própria vida? Mas, por enquanto, eu só queria um cabo um pouquinho mais firme, que me atasse com certo vigor aos propósitos de existir e que eu não estou sabendo entender quais são. Inda tenho esperança.
Oh, querido, se tu me conhecesse, diria que dou uma boa professorinha. Tenho apreço pelas crianças, vou me divertindo com elas porque decidi jamais ter um exemplar para mim. Sou um modelo de educadora: meiga, libertária, companheira e compreensiva (tudo verdade, nada ironia). Mas entendo e reconheço minha loucura. Quem sabe um dia, todas penduradinhas no teto da salinha... Não, não, sou inofensiva. Só tenho dentro de mim a tortura de pensar e pensar. Se pudesses me ver num dia qualquer, veria o quanto saio fora do ar, ou entro dentro do ar, sei lá. Quando dou por mim, o mundo aconteceu e eu ainda estou ali, parada naquela dimensão estranha.
Que vergonha, Wilson! A cara roxa de ler os teus lambuzos... Não tenho traquejo pra escrever sobre desejos mas não é muito difícil fazer isso quando eu vou sentindo um latejamento gostoso e fico com a cabeça num lugar totalmente alheio ao meu lugar-comum, me afundo em ideias lascivas a teu respeito e vou engolindo o teu todo com a velocidade de um orgasmo.
Mas, cadê tu?


Aqui, minha linda.


Ha. Desbravando as Savanas de extensas pradarias tropicais.


Savanas não se desbravam, minha loba.
Savanas são áreas de vegetação baixa, abertas, sem mistérios nem poesia.
Savanas abrigam sendas pelas quais trilho quando preciso recuperar forças para retornar à minha missão mítica de explorar os Pampas, estes, sim, merecedores da minha heróica sina.


Uau! Que lindo! Droga, me derreti que nem manteiga... Nossa, que sensação mais gostosa que me deu agora. Inexplicável, Wilson.
Senti-me a puta rejeitada, lá no canto do buteco, a puta com o rímel escorrido, a cara já lavada da noitada chorosa, entre os copos de conhaque barato e as lágrimas pelo homem que a deixou.
Mas ele chega, de mansinho, vem vindo lá no fundo com seu trotar elegante, o cheiro nobre das boas moças das festas requintadas, bordado nos seus trajes bem passados.
Ele a beija com lubricidade e estende-lhe a mão. Ela o agarra e chora mais um pouco, como que querendo-o convencer de alguma coisa em que nem ela mesma consegue acreditar.


Vou fumar um cigarro.
Ótima!
“Relacionamento” online é um martírio.
DM foi ver a novela, me deixou aqui sozinho com a savana caravana sarabatana filha da minha tia ana.


Não, não. Estava brincando com o sobrinho de pista da hotweels. Incrível como sou versátil, mas não consigo gostar de brincar disso. Falta o pai pra esse menino, o pai que fez um filho na tapada da minha irmã e escafedeu-se.
Relacionamento? Martírio? Explique-me.


Explico nada.
Natureza fdp, avançando feito um trator por sobre as veleidades dos pequenos seres sem vontade, desejo ou esperança.
O que nasce de bastardo, puta merda, somos (quer dizer, ELES são) um brinquedinho nas mãos dessa força maior desgraçada.
DM, leu alguma das historinhas que postei no meu site?
São todas pra criancinhas inocentes que correm lampeiras no jardim deste paraíso.
Quem sabe adotas pra tuas turminhas de monstrinhos?


Estou lendo agorinha mesmo. A herança.
Quietinho. Senão não me concentro.
Bye.
Há, Wilson. Que aperto que me deu. Como somos frágeis.
Gostei mesmo. Até lembrei de um dia, meu pai e eu, na ambulância, meu pai indo pras quimios dele na cidade grande. Ele não estava se sentindo bem, por isso pegou uma carona naquele hospitalzinho ambulante. Minha mãe, que tem pavor de hospital, delegou a tarefa pra mim, de acompanhá-lo. Não fosse o sufoco que passei, teria sido de boa lembrança, já que infelizmente aquela foi a última vez que “passeamos” juntos de carro.
Passei tão mal no trajeto sinuoso até a cidade grande que quem saiu de maca de dentro da ambulância fui eu. Juro. Minhas unhas estavam roxas. É como se eu tivesse ficado por uma hora com todas as doenças e catástrofes do corpo juntas e que já passaram por aquele lugarzinho.
Sim. Tchau.
Dorme, querido. Descansa essa mente fulgurante, que precisa ser compartilhada. É lei: vieste para este mundo exatamente para fazer o que fazes. Para e para fazer e fazer.
Dorme o sono dos cansados porque criar, ensinar e alimentar os teus filhotes não é tarefa fácil. Ainda bem que jamais os domesticará. É por isso que te amo.
Quando me quiser, espero poder estar aqui. Quero poder continuar aqui, conquanto que eu não me canse muito de estar inserida até a goela neste mundo digital do qual fugi até bem pouco tempo atrás.
Sabe, não gosto de estar aqui por muito tempo. Me faz mal. Tenho náuseas. Uma sensação de que o mundo inteiro está empoleirado nos meus ombros, fazendo pressão pra baixo e eu me curvando cada vez mais.
Tenha uma sexta agradável e bastante inspiradora. Fico imaginando que prum escritor de verdade essa história de inspiração é bem balela. Sei lá, fico pensando nos tormentos de uma cabeça cheia de ideias. Nas dores do pensamento rápido que quer pular logo pra folha, pra tela. Imagino um terremoto de coisas acontecendo na cabeça de um escritor. Ajeita aqui, coloca lá, completa aqui comprime acolá, meu tempo é curto pras coisa que preciso escrever só mais uma coisinha é hora de terminar parece estar incompleto, há, que legal, nossa peguei pesado, droga, que porcaria, puxa que lindo.
Descansa essa mente fulgurante, querido.
Nooooossa, Wilson. Eu estava dando uma olhada na tua comunidade. Meu, mas tu deve dar umas boas risadas da minha cara.
Os perigos de um relacionamento digital... hahahahaha. Agora fiquei com cara de tacho de marmelada de figo. Imagina o que tu deve estar pensando, essa louca que tá dando em cima de mim, vai ver tá se achando minha namoradinha virtual, se dou corda ela se enforca.
Puta que pariu, que vergonha. Desculpe-me, Wilson, se passei essa impressão. Tô confundindo a porra de tudo, mesmo.
Bah, foi mal. Licença que vou cavar um buraquinho lá no jardim pra enfiar a beça e ver se congelo esse fogo no rabo de ficar me oferecendo pra literato que saca os joguinhos que as pessoas insistem em fazer, e ainda têm a ousadia de dar outros nomes pra eles, nomes mais românticos, lindos, felizes e amáveis.
Putz! Tu é um dos caras mais inteligentes que eu já conheci na vida!


Ah DM, obrigado, mas essa rasgação de seda pra cima de mim me deixa constrangido. Nem sou tão inteligente assim. Mais doente que poeta. E sei que a qualquer minuto, de repente, teu saravá vai baixar e despejarás sobre este pobre mortal aquele caudal de elogios às avessas em que és mestra.
Linda experiência essa com teu pai. Não vou explicar o “linda”, tô dando de barato que saibas compreender. Tô de saco repleto e completo de explicar coisas, sobretudo a mim mesmo. É nesse tipo de experiência que tu vê que o mundo e a vida e a pqp não comportam teorias nem hipóteses e o abismo se abre à tua frente num segundo e te engole junto com teus planos e projetos e num segundo esqueces que teu mundinho era tão gracioso naquele desenho da casinha com o sol em cima e uma chaminé borbotando fumaça que tinhas estampado no primeiro plano da tua mente.
Estás divina nessa foto aí. Olhar de tolerância limítrofe ante este mundo que demora tanto a girar, pote de impaciência que explodiu no tempo passado silenciosamente, perplexidade engolida em cacos de que se faz a estátua a apoiar tão pesadamente a cabeça que só não tomba sob as forças invencíveis da gravidade que nos une cada um de nós a todos nós porque a necessidade de mantermos uma atitude digna perante a humilhação de viver é ainda mais forte.
Em nenhuma das tuas fotos é possível enxergar tua cara direito. Podias me enviar umas mais límpidas e próximas.


Mas pra quê, Wilson? Pra que fiques me analisando e vendo se vale mesmo a pena continuar esta conversa maravilhosa? Também és ligado na estética da cara das pessoas?
Já vou adiantando: tenho espinhas, meus dentes são tortos e amarelados, meus ângulos são desconexos, desarmoniosos, tenho tudo torto: queixo, boca, olhos (um maior do que o outro), meus cabelos já estão ficando brancos e secos (30 anos) e não possuo mais lubrificação vaginal (menopausa precoce).
Amei o que escreveu a pouco. Amei. Não sei se é impressão, mas és tão fresco, pela manhã! Suave e levemente adocicado.
Que coisa mais interessante isso...


DM, tô de saco completo e repleto da tua mania de autovitimização. Pelo pouco que pude enxergar nessas tuas fotos desfocadas e camufladas de quem parece estar fugindo de algo ou alguém, és bonita, charmosa, envolvente, sensual, meio trôpega e desejável.
Mas se não quiser se mostrar, tudo bem.
E, mein Gott, essa da lubrificação vaginal, vai te lascar, tens um talento magistral para ser brochante. Tava cum puta tesão, foice.
Quanto esforço pra se fuder e fuder tudo junto.

Posso matar pela inspiração

Sou capaz de rememorar minhas aulas de gramática (em que ia catastroficamente mal, até me dar conta, anos depois, que minha gramática nada tinha a ver com a dos livros escolares e então passei a tirar cem em minhas provas diárias de redação).
Pela inspiração posso estancar de repente a fuzarca dos meus pensamentos e atentar hipnoticamente para os silvos dos bem-te-vis trocando desaforos canoros nos telhados da vizinhança enquanto pedestres e motoristas circulam lá em baixo inscientes da verdadeira vida que corre por sobre suas cabeças.
E pela inspiração sou bem capaz de pegar um abacate graúdo nas mãos e, apalpando-o para me certificar da sua madureza, cortá-lo precisamente ao meio e, com golpes suaves duma colher, raspar a tenra polpa creme-esverdeada sobre um prato e, enquanto a picoto com golpes resolutos duma faca sem dentes, me por a lembrar do prazer quase inefável com que papai se deliciava com seu abacate depois do almoço pontualmente às onze e meia de cada manhã, por sua vez quem sabe também deixando a memória brincar em torno dos prazeres de seu próprio pai, meu avô.
Me acometem incontáveis sobressaltos a cada instante ao longo do dia e em meu sono agitado e breve e espasmódico durante a noite e, se tivesse a capacidade de registrá-los por escrito, em frases e períodos impressionistas que fosse, poderia enfim apresentar a todos que esperaram de mim a disciplina e a decência a prova incontestável de que a forma e a fórmula do meu sucesso não estão inclusas nos manuais tão inócua e diligentemente elaborados pelas infernais usinas de processamento de robôs.
A vida é um incessante esconde-esconde e, quando terminar, terei encontrado o esconderijo que busquei incansavelmente na infância, a cabeça envolta e perdida numa fumaça invisível e letal, a consciência ciente de sua própria insuficiência e inutilidade, a certeza nunca explicitada de que nunca veria, por fim, o horizonte se mostrar límpido e miraculoso diante dos meus olhos de esperançoso leigo.
Sabia, sempre soube, desde os tempos mais profundos dos meus pesadelos e dos meus sonhos, que certos homens merecem os braços leitosos duma fada benévola ao fim de cada lida. Sabia, sempre soube, que tal dádiva existe de fato, sendo exclusiva de alguns raríssimos eleitos. Alguns destes até ganham o capricho duma lauta janta ao cair da noite consistindo duma suculenta lasanha e uma grande taça de vinho tinto excepcionalmente fresco. E nessa hora são eles capazes de reencontrar e exibir no rosto a expressão do menino que foram um dia.