Pré-paraíso

Literalidades

De repente algo estranho. Aguço os ouvidos, atento às imorredouras manifestações do ambiente. Carros ainda passam na rua. Crianças na vizinhança ainda fazem o habitual alarido. Aviões ainda cruzam o céu. Alguém ainda escuta música sertaneja ao longe. Bem-te-vis assobiam tecendo a manhã nesta bela masmorra.
Os sons estão todos no lugar. 
Olho o quarto – paredes encardidas como o são há anos, as coisinhas miúdas com que me entretenho dia a dia cada qual no lugar errado como sempre estiveram, as folhas das venezianas misteriosamente manipuladas pelo vento que teima em tê-las entreabertas. E lá fora também tudo parece estar como sempre esteve. E o mundo também continua parado fazendo de conta que gira.
Então olho para dentro. Espanto! Não há nada aqui. Onde estão minhas aflições? Olho de novo, com mais vagar. Cadê aquelas sensasõesinhas intangíveis que me mantinham permanentemente alerta sem saber contra o que, as fieiras de sirenes e luzinhas alarmantes desfilando incessantes – dentro deste familiar pavilhão? Cadê os sinais de atenção, cuidado, não-baixe-a-guarda?
Atento mais demoradamente. Dou por outras ausências. Minhas dores – cadê minhas dores? Onde está a infalível solidão que fazia parte de mim tanto quanto estes braços pálidos, estas pernas tíbias, e sem a qual não posso viver? E o árido sentimento de abandono que me acompanha desde que existo? E todas aquelas imagens variegadas de terror que sobrevoavam os negros céus da minha imaginação às que, de ominosas, nunca ousei dar formas ou cores nem chamar pelo nome? 
Noto ainda outras faltas. Os medos. Onde estão Eles? Todos aqueles… aqueles… aquilo que fazia de mim permanente refugiado de lanças invisíveis, exilado em inefáveis ilhas sem margens nem horas, fugitivo de assassinos sem rosto obcecados por matar o que sempre foi morto, ladrões encapuzados ávidos por roubar o que nunca foi meu, temores que me tornavam eterno persona-non-grata das minhas assombrações, desterrado em minha terra, perseguido em meu esconderijo?
E as velhas tentações intoleravelmente extravagantes de cometer o mais hediondo dos crimes para pôr um fim definitivo à angústia de ser livre?
E as indefectíveis vontades de amor, de boceta, de doce, de dinheiro, de ser bacana, de ser picasso, presidente, piloto, de dizer mãe, eu estou aqui?
E os pesos do passado? Que fim deram os grilhões a me acorrentar ao ontem infinito? E as escassas alegrias descascando do espírito feito gesso do teto, as partidas de futebol em que eu era a bola?
E os filmes em branco? Onde estão todos aqueles filmes em branco que assisti na infância?
Sacudo a cabeça, tudo volta ao velho estado de normalidade premeditada. Em seguida atento novamente. Como se tivesse entre os dedos um botão de sintonia fina, experimento para um lado: nada. Para o outro: nada. Todas minhas velhas aflições estão extintas.
Por um segundo me passa um frio no estômago, penso no pior. Me sintonizo de novo. Não, estou bem. Ufa. Estou bem.
Ter perdido os lastros das minhas dores me deixa leve. Parece que vou flutuar. Não, já estou flutuando. Se amolecer posso sair voando pela janela. Algo no fundo fala "realidade". Não me enche o saco, é só o que peço.
Os alarmes não vão disparar. Está decidido. Não permito. Estou no comando agora. Pelo menos alguns minutos vou flanar, velejar, esquiar, tudo que sempre quis fazer e nunca fiz.
Então isso que é plenitude? A ausência da noção do tempo. A percepção repentina e esmagadora de que não necessito andar. Para quê? Coisa besta. Para que corrigir, reformar, apagar os incêndios, buscar abrigo dos raios? Para que perguntar? Não quero mais castigos e festas. Para que falar?


Qasim, Murtaza, Laith


...e Johnny e outras coisinhas exóticas
Terça à tarde, Humam, pai de Sadiq, chegou assustado do mercado e se atirou no sofá. Arquejava. Escapara por um triz. Saiu do mercado alguns segundos antes que uma bomba fizesse a velha edificação em pedaços. Sadiq ouviu aterrado, tentando engolir em seco. Não tinha mais saliva. Abriu a boca, pôs a língua fora, procurando umedecê-la. O ar exterior parecia querer consumi-lo. Sadiq olhava em torno buscando algo ou alguém que lhe desse um refresco. "Trégua", pensou. "Por Alá, trégua".
Quando o susto passou, Humam começou a falar estranho. Se pôs a contar uma história que a princípio parecia não ter pé nem cabeça para Sadiq. Humam disse que quando Haythim, o filho de Salah, nasceu há 13 anos, ele, Salah, saiu na rua aos berros, dizendo que estava com vontade de tocar um gongo, como se quisesse anunciar a Alá e ao mundo o nascimento do filho. Queria que tudo em volta reverberasse tal como ele estava vibrando por dentro. Era muito forte. Precisava partilhar com os outros. Naquela manhã o casebre de Salah virou escombros. Salah, Haythim, a mulher e outros filhos estavam mortos. Por pouco a granada que atingiu a casa dos vizinhos não destruiu também o casebre de Sadiq. Enquanto pensava em Haythim, seu amigo, e escutava a história estranha contada por Humam, Sadiq pensava que só queria chorar. Mal conseguia se lembrar do choro e de como era chorar. Estreitava os olhos ─ as lágrimas não vinham.
Johnny não vê a hora de atingir a idade legal mínima, se alistar, botar as garras no volante dum Abrams. Sempre foi fissurado por tanques de guerra. Se orgulha do bom conhecimento que tem deles. Sabe, por exemplo, que o melhor da Segunda Guerra foi o soviético T34. Certo, há controvérsias. Para Bobby, seu colega de escola mais chegado, o melhor foi o alemão Panther. Nada a ver, Johnny ri quando Bobby diz isso. O Panther não era páreo para o T34 em termos de mobilidade, poder de fogo, blindagem, confiabilidade e, acima de tudo, velocidade. É só comparar. E o Panther tinha um calcanhar de Aquiles: a complexidade de projeto. Assim como na área automobilística e na naval, a engenharia alemã sempre foi incapaz de desenvolver produtos simples, de fácil manutenção. Não é à toa que um Mercedes da década de sessenta incluía nada mais, nada menos que 15 mil peças, ao passo que um Chevy americano, apenas 5 mil. Tudo que alemão faz é complicado. Basta ver a filosofia. Mas esse é outro papo. O que interessa hoje em dia é o rei do pedaço, o M1A1 Abrams ─ joia da tecnologia descomplicada e eficiente de Tio Sam. Simplesmente perfeito. Se fosse fabricado nos anos quarenta a Segunda Guerra teria acabado 3 anos mais cedo.
O M1A1 Abrams é construído em blindagem de urânio empobrecido revestida de aço laminado. O urânio empobrecido é dos materiais mais eficientes em termos de proteção contra os armamentos desenvolvidos especificamente para destruir esses veículos. Só um míssil antitanque pode tirar o Abrams de combate. Não há projétil leve ou médio capaz de perfurar ou sequer danificar esse colosso de 70 toneladas. Isso mesmo ─ 70 toneladas, 25 a mais do que um Panther. E o bichão conta ainda com defesas contra ataques nucleares, biológicos e químicos. As gloriosas batalhas entre veículos blindados da Segunda Guerra provavelmente não teriam tido graça com os Abrams no pedaço. Onze pés de largura por 26 de comprimento, o sonnabitch é uma autêntica fortaleza, o mais formidável canhão móvel que já rodou suas enormes lagartas por este planeta. Foi batizado em homenagem ao general Creighton Abrams, ex-Army Chief of Staff e comandante do 37º batalhão blindado dos EUA. Fabricado em três versões. O M1A1, a mais recente, é equipado com Thermal Imaging, navegação GPS e comunicação digital.
Johnny delira. Não há páreo no mundo para o Abrams. Whew, 26 pés de comprimento quando a torre do canhão está apontada avante, 50 toneladas métricas. Para pôr esse titã em movimento é preciso uma força que seja tão colossal quanto ele próprio. Para isso o Abrams é dotado dum propulsor de 1500 cavalos de força, turbinado a gás. Essa fantástica máquina confere ao veículo potência para atingir até 70 km/h. Acelera de 0-32 km/h em parcos 7 segundos. E tem autonomia de 440 quilômetros. Fe-no-me-nal. 
O armamento principal do mother-fucker é um canhão de 120 mm capaz de disparar diferentes tipos de granadas, incluindo cápsulas penetrantes também feitas de urânio empobrecido. Uau, Johnny quase não se contém de excitação. O urânio empobrecido é 2,5 vezes mais denso que o aço ─ um dos materiais de mais baixa penetrabilidade já desenvolvidos. O M1A1 é ainda equipado com várias metralhadoras e lançadores de granada de fumaça. Pode superar obstáculos de um metro de altura e cruzar valas de 3 metros de profundidade. Para efetivar todo esse poder de destruição e botar pra quebrar, o Abrams conta com uma tripulação de 4 membros: comandante, armador, carregador e piloto, todos protegidos por roupas e máscaras próprias para suportar substâncias radiativas, biológicas e químicas. Dos 1955 M1A1 usados em combate na Guerra do Golfo, apenas 18 sofreram danos suficientemente sérios para tirá-los de ação. E não houve sequer uma baixa entre todas as tripulações. 
A belezinha custa apenas 4 milhões de dólares, uma pechincha frente a montanha de grana que os americanos torram com armamentos todos os anos.
Esses são os pensamentos que vagam pela mente de Johnny enquanto ele assiste alheio ao noticiário da tevê através do monitorzinho do seu celular, mastigando enfastiado um enorme biguemaque respingando rios de ketchup com mostarda e engolindo roboticamente os 2 litros de coca com muito gelo. Enquanto come quase sem vontade, Johnny tenta afastar dos pensamentos as implicações que ingerir toda aquela carga calórica trarão para a sua nada esbelta silhueta. Como a maioria de seus conterrâneos, Johnny é obeso feito uma porca.
Assistindo às mesmas notícias ao vivo através de sua janela sem moldura nem parapeito nem vidraça, Sadiq mal consegue abominar aquela gente estranha que está invadindo seu país. Sadiq tem ódio aos invasores mais por treinamento que, ó, forças das circunstâncias.
No meio da noite um Abrams apareceu do nada, magnânimo, ominoso, rugindo a força avassaladora do demônio. Veio solerte e desdenhoso, atropelando o casebre de Sadiq, dizimando o jogo de sofá e o sofá onde horas antes Humam tinha contado a estranha história de Haythim e que fora herdado pela mãe de Sadiq de sua mãe e as cadeiras na cozinha ganhas do primo Manaf e o guarda-roupa que ele agora não lembra de onde veio. O monstro veio assim, brincando, indiferente aos estalos da mesa sendo espatifada e dos ossos de Sajida e Jasim e Bashar quebrando em dois, três, mil pedacinhos, veio se exibindo como para um desfile, encarnação metálica da imponência, agora avançando contra os casebres vizinhos, fazendo paçoca sunita de Zaid, Laith, Feras, Mutaz, Jafar e outros amigos e/ou conhecidos de Sadiq sob sua gigantesca carcaça de urânio empobrecido, fruto da mais elevada, da mais fascinante tecnologia espacial, reduzindo, VRUMMMM, a refugo cada utensílio, item, peça, ferramenta engendrada pela tosca civilização mulçumana e, VRUMMMM, a escombros o grupelho de casebres quase flutuando perdido nas ondas de areia do deserto e, VRUMMMM, a cadáveres desfigurados os moradores sob o peso de suas lagartas gemendo com a lubrificação eternamente escassa no inferno de 40 graus das proximidades de Badgá.
Quando avistou o conjunto de casebres mal enfileirados no meio do vasto descampado desértico, Johnny não pôde resistir. Não tinha ordens para destruir habitações nem atacar a população civil de qualquer maneira que fosse. Mas as casinhas estavam tão convidativas ─ pareciam estar à espera daquela ocasião especial, praticamente suplicando que o Abrams as violasse qual um invencível estuprador cor da areia do deserto. Antes de acachapar os casebres, Johnny ainda considerou a alternativa de arrasá-los com um canhonaço à queima-roupa. Mas logo optou novamente pela ideia original de simplesmente reduzi-los a pó sob as poderosas lagartas do tanque ─ seria um massacre mais "humano", um toque de "intimidade" com suas vítimas desconhecidas. O kick de brincar com o destino das pessoas como se fossem bonecos não tem igual. Dá o maior barato.
Johnny calculou a trajetória. Enquadrou os casebres na mira do veículo. Acelerou até 60 km/h. Dois segundos e o trabalho estava feito. Johnny ficou meio desapontado. Não avistou ninguém, não escutou um grito, não viu uma gota de sangue, nada. Olhou pelo retrovisor de plasma. Havia apenas um vazio no lugar onde estavam os casebres. Da próxima vez vou usar o canhão, lamentou, frustrado com a falta de feedback dos motherfuckers iraquianos.
Assim que o Abrams se afastou, Sadiq ouviu um choro de criança. Mesmo no escuro da noite sem estrelas pôde identificar a silhueta dum menino a uns 15 metros dali, onde ficava a casinha de Salah. Era Basheer, o caçula do vizinho. Basheer e Sadiq eram os únicos sobreviventes. Mortificado, Sadiq aguardou quase paciente enquanto um pensamento homicida longínquo, quase imperceptível, quase sonho, se insinuava por seu cérebro aconselhando-o a pegar uma pedra, ir até Basheer e interromper o padecimento da criança. Como que fazendo um exercício de imaginação, Sadiq olhou em torno. Pedra era o que não faltava naquele areial desolado de restos e fragmentos em que se transformara seu mundo. Um segundo depois o lamento de Basheer já não o incomodava. Era apenas mais uma flor negra do demônio na dor da paisagem.
Sadiq não sabe que ficou obsoleto. Tornou-se tão imprestável hoje quanto um daqueles indiozinhos kaiowás que se veem encaçapados num dos interregnos que fatalmente se formam entre o mundo ocidental e sua ideologia de progresso acima de tudo e avanço tecnológico a qualquer preço e conforto absoluto obtido não importa como e felicidade garantida ou seu dinheiro de volta e bem-estar permanente como se fora o estado natural do homem desde há cinco mil anos de civilização, kaiowás mortalmente angustiados, sem saber como voltar para as tradições de sua tribo dizimada pelo alcoolismo e o vazio que restou de seu politeísmo caduco nem decidir se vale a pena vagar como fantoches indigentes e dormir em bancos de praça onde podem fazer o papel de judas fora de lugar incinerados por boizinhos enfastiados filhos de juízes e funcionários públicos e morar sob viadutos numa cidade qualquer, se enforcando no galho mais baixo duma das poucas árvores que ainda restam no entorno mal chegam à puberdade, exterminadora inclemente de todos os sonhos infantis.
Sadiq vale menos que um mico dourado. Micos dourados e araras azuis e tigres em extinção ainda têm valor como animais exóticos, podem servir como troféus em zoos, como pets bizarros em algum apartamento dum bando de americanos ou europeus dispostos a gastar dez mil dólares numa mesa de madeira de lei extraída inteiriça duma árvore amazônica de 200 anos, que obviamente nasceu e existe para ornar a saleta smart do flat de johnnies e bobbies e susans.
Quando finalmente Johnny cumprir sua missão e voltar para o seu quarto arretado de paredes recobertas de cartazes de ídolos do rock e montes de tralhas tecnológicas espalhados por todo lugar, mamãe Maggie vai comprar uma jiboia da Amazônia para o pobre filhote assim que ele chegar todo estressadinho da terra das Mil e Uma Noites e seus bárbaros aladins que vagam tontos pelas areias do deserto sobre trilhões de barris de óleo enquanto oram por Alá e maltratam suas mulheres.
Mas mamãe Maggie sabe que Johnny logo se cansará do novo pet. O rapazola é tão inconstante. Ainda não se decidiu na vida. E em dois meses será impossível manter no apartamento um monstrengo do tamanho duma jiboia. Johnny certamente vai abandoná-lo num bosque periférico de Springfield. Talvez alguém ache o bicho e o leve para casa. Talvez cães o trucidem. Whatever.


Que é?

É ter um segredo pra contar.
Ter mas na maior parte do tempo não saber. Às vezes lembrar ter. Mas quando lembrar ter, lembrar ter muito raramente demais.
Na maior parte das vezes, lembrar ter mas não saber onde está.
Quando lembrar ter sem saber onde está, lembrar ter muito vagamente demais.
Quase uma sensação. Dorzinha domingueira de tão infinda e insentida.
Pulguinha infecta no sapato.
Pedrinha insondável atrás da orelha.
Mas um dia lembrando ter mais que vagamente e sabendo onde está, não interessar mais.
Pois que cansa. Como não haveria de cansar?
Saber permanentemente não lembrar ter e quando lembrar ter não saber onde está e quando saber onde está não querer mais saber?
Mas em algumas ocasiões raras, raras de rir, de querer desistir duma vez, vir tudo de supetão, com clareza totalitária de não esquecer nunca.
Na maioria das vezes clareza remota que atordoa e abre caminho de volta para o estado normal de fantasma sem pátria.
Mas outras vezes em que lembrar ter e saber onde está e for importante saber e a lembrança não devastar as pequenas sombras que todos – todos – temos e temos de ter, nessas mais que raríssimas vezes ali está: o segredo pra contar.
Segredo pra contar que na maior parte das vezes em que lembrar ter e saber onde está e for importante saber e a luz não devastar as pequenas sombras não há como abrir.
Segredo pra contar que nessas vezes parece portátil – quase que dá para roubar e sair correndo feito saci pererê... não fosse dum chumbo especial mais pesado que o braço lasso na barriga cansado de bracejar.
Câmara de outras lembranças sem frente, traseira nem lados ecoando na minha Via Láctea. Esmagadora mas invisível – a me assombrar nesta terra em que tudo me assombra.
Mas em todas as vezes – repitamos – todas as vezes, sem porta.
Então descobrir que tudo se resumia a lembrar ter e saber onde está e ser importante saber e a lembrança não te devastar tuas pequenas sombras.
Isto é escrever.


Reflexos no fundo da xícara


 (ou o estado de graça em eternos três segundos)

Levo a xícara de café aos lábios. Sinto um tremor. Vejo uma vaga imagem refletida na luzidia superfície do líquido negro. É uma cabeça humana. Por eternos três segundos fico esquecido.
Esquecido e assoberbado. Ao me ver olhando o que seria eu, vem uma febre de orgulho, sou testemunha de circuitos nevrálgicos que se energizam instantaneamente, estabelecendo num átimo miríades de relações e identificando sentimentos mortos que ressuscitam.
Afasto o olhar da xícara, fito a parede. Que maravilhoso mundo interior esse dos bípedes que habitam esta terra. Nos mantém algemados em eterna órbita em torno de nós mesmos.
Até quando? Levo o olhar de volta ao fundo da xícara.
O tremor que senti abalou o repouso da superfície do café. A imagem desvaneceu, o momento fugiu. Só restam negras ondinhas. Vai ver tudo se resume a incessantes, variegadas perdas.
Mas não estou disposto a renunciar facilmente ao enlevo perdido. Me compenetro, tentando reconstituir à força o estado de graça.
Forjo uma sensação de poder, tão efêmera quanto a ilusão de plenitude.
Ora, caçoo, que frívolo, querendo brincar com reflexos da sua própria imagem. Tudo que você fez foi entrevê-la no luzidio espelho de café.
Reconduzido ao meu habitual estado de macambúzio, apelo. Agora é tudo ou nada. Flexiono os pensamentos em ginásticas impossíveis, me agarro a experiências conscientes de “estranhamento” com o mundo exterior, escarneço das minhas quedas em profundidades do espírito brincando com sensações infantis.
Ai, parece que estou novamente enganado. Tudo soa tão perdulariamente supérfluo. E pensar que as respostas – talvez algumas, não todas – estão escondidas em vidas esquecidas a flutuar fugidias, evanescendo inapelavelmente no passado.
Queria ter coragem, gritar, quero pelo menos o que sobrou das minhas ralas ilusões.
Volto por fim ao meu estado de objeto inanimado. O que houve com o espírito rico de perspectivas que estava aqui ainda há pouco?
Espio o fundo da xícara. Um olhar nostálgico, eis tudo que me resta.


Segredo

Há um segredo contado pela primeira vez pelo primeiro homem a outro cuja identidade é mantida em segredo até hoje, mas que, sabe-se, repassou o segredo a outro homem cuja identidade também é mantida em segredo e assim por diante. Dessa forma o segredo chegou até os dias de hoje, sempre bem guardado por alguém que ninguém sabe quem é. Embora, digam, o conheçam alguns motoristas de táxi e... bem, talvez certos barbeiros...
Segundo uma teoria que corre por aí, é provável que algumas profissões tenham sido inventadas por dois motivos precípuos: o primeiro, claro, manter o segredo; o segundo, conservar essa gente ocupada. Correm, por outro lado, alguns rumores de que os mantenedores do segredo são pessoas conservadoras, elitistas e de enormes egos, que, segundo também se comenta, teria certo cunho fálico. O que se sabe com certeza, porém, é que os mantenedores não gostam de visitas (sobretudo as inesperadas), cartas anônimas e, sobretudo, viajar de avião.
Há na cidade, por fim, um burburinho – surdo, às vezes – segundo o qual todos os mantenedores do segredo (que, alega-se, contam umas vinte ou trinta pessoas no máximo) realizarão um espetáculo de natureza político-artística, com o fito de homenagear todos os mantenedores que já passaram por este pequeno planeta e que desde meninos aprenderam a dizer “não sei” quando se lhes fazia alguma pergunta mais capciosa, cuja resposta pudesse conter um potencial revolucionário que por sua vez resultasse em inusitados sentimentos de alegria.
Seja como for, o que se sabe com segurança é que os mantenedores, ou pelo menos alguns deles, vivem com a seguinte frase na ponta da língua:
– Temos um presente para lhe dar.
Cabe aqui fazer ao pais, portanto, uma advertência: dado que os mantenedores não mantêm arquivos, transmitindo o segredo apenas verbalmente de um para outro desde tempos imemoriais, convém cercar seus filhos e filhas de toda proteção possível contra o dito segredo, pois conta-se que há muito tempo, em algum lugar no interior da Índia ou da Austrália, não se sabe ao certo, uma criança, dessas que existem na maioria dos países, teve ganas de dar cabo dos pais e ficar em Nenhum Lugar assim que foi inadvertidamente exposta ao segredo. As outras crianças do lugar quiseram entrar em greve, o que certamente poderia provocar não apenas um colapso na hierarquia do mundo mas também, quem sabe, na ordem das estrelas desta nossa grande, periférica galáxia.


Ugh ou sorriso engolido em seco

Aquele vizinho gostava de escutar música erudita. Não porque fosse erudito ele mesmo. Estava mais pra diletante. Esnobe não era. Quer dizer, era. Mas não muito.
O problema é que os vizinhos daquele vizinho não sabiam que tinham um vizinho diletante, muito menos que o mesmo — ninguém mais senão o próprio — se amarrava em música erudita.
Para aquele vizinho, escutar, digamos, um concerto de Brandenburgo, um noturno ou uma mazurca, uma sonata ou mesmo uma abertura operística ou uma ária — não esquecendo um trecho de Tristão e Isolda ou uma fuga de Haydn —, mais do que um prosaico ato de fruição estética, era uma verdadeira cerimônia cosmológica, ritual sagrado que às vezes incluía requintes como uísque importado em copo raso de cristal com gelo de água também importada, um livro de Rilke ou outro gênio germânico à mão (ou pelo menos ao alcance dos olhos, só para sentir-se seguro e mesmo para mostrar aos espíritos alemães que ele não estava para brincadeira).
Naquela manhã de domingo, aquele vizinho, como fazia todas as manhãs de domingo, saiu para o jardim e deu início aos preparativos de mais uma sessão de "contato com a arte superior", como gostava de pensar. Selecionou meia dúzia de cedês de sua estupenda coleção da chamada música clássica e depositou-os cuidadosamente ao lado das caixas quadrifônicas. Abriu o porta-gelo e deixou cair exatamente três pedras dentro do copo, divertindo-se com o suave tilintar produzido pelo encontro com o cristal. Com um sorriso indefinível nos lábios, apanhou a garrafa do escocês legítimo, desatarraxou a tampa, aproximou o bico da garrafa das narinas para sentir o buquê, apanhou o copo, elevando-o à frente dos olhos embevecidos, lado a lado com a garrafa, e mediu-os como que imaginando um concurso de beleza entre Dionísio e Baco. Quando pareceu dar-se por satisfeito, emborcou esta última, zelosamente despejando sobre o gelo três metódicos dedos de "chá de malte", como gostava de chamar o elixir.
Assim munido, copo na mão direita, livro na esquerda, rumou para o centro do gramado. Depositou os valiosos apetrechos sobre uma mesinha de madeira e instalou-se confortavelmente em sua cadeira preferida. Fechou os olhos e prestou atenção nos sons do jardim.
Não, não era um jardim. Era um pedaço encantado do mundo, especialmente desenhado para os que são sensíveis, com leves pinceladas de rosas, petúnias, gladíolos e tulipas multicores aqui e ali, hibiscos, alamandas e lágrimas-de-cristo de todas as cores, pitangueiras, amoreiras e limoeiros de todos os cheiros — cada elemento formando um todo mágico de perfumes e recantos que, por sua vez, escondiam um pequeno universo de maviosa harmonia. De tão belo, o jardim amiúde era objeto de inveja dos seus vizinhos, que sequer tinham um jardim, muito menos um paradisíaco feito o seu.
Em estado de graça com o chilrear dos pássaros e o farfalhar das folhas, abriu os olhos, mas continuou sem enxergar, pois as coisas lá fora não existiam. Seu mundo agora era uma fonte que brotava de dentro, deixando-o alheio, arrebatado até a raiz dos cabelos (que, por força da idade, já escasseavam no alto da cabeça).
Aprumou-se elegantemente na cadeira — pois, sabia, mesmo embevecido cumpria manter a compostura. Como sempre, sentiu orgulho do modo como sempre soubera combinar senso artístico e disciplina. "Enfim pronto", pensaria se estivesse em poder dos próprios sentidos. Mas, também como sempre, não estava. Foi capaz apenas de abrir o dedo indicador da mão direita e aproximá-lo da tecla play do toca-cedê. Pousou a ponta do dedo no aparelho, fruiu pela enésima vez o enlevo do pré-êxtase... de repente, em alguma das casas nas proximidades, explodiu um acorde de guitarra elétrica. E xitãozinhoexororó imperou triunfante.

Quando nem onde

Vou subindo a avenida
Contra o vento soprando
De outras esquinas quebradas
No passado

Com que então Neil
Armstrong foi até a Lua
E voltou à Terra sem
Conhecer o lado escuro
do nosso satélite

Subindo a avenida, posso
Dizer que entendo Neil
Armstrong e para entender
Neil Armstrong não tive
De ir tão longe

Subindo a avenida
Subindo a avenida é
Tudo que sou
Sem olhar os que
Descem
Nem cogitar pelos
que vão na calçada
Oposta

Me lembro vagamente
dos que vão ao outro
Lado do mundo
Ao outro lado do rio
E me reconforto que
Não pretendo ir sequer
Ao outro lado de mim

Onde estão todos?

Não se angustie.


Todos estão onde todos estão.

(Que é que você acha de eu encerrar esta postagem exatamente aqui? Se o fizesse, você ficaria sem entendê-la mas eu, em contrapartida, faria alta literatura, embora para consumo estritamente pessoal, e, de minha parte, estaríamos conversados e, de sua parte, seu olhar buscaria rapidamente uma base, mas, você sabe, um escritor, grande ou pequeno, não deve se preocupar com a parte alheia. Na literatura, o problema do leitor sempre será do leitor.)

Naquela minha épica era de garoto solitário, todos estavam no salãozinho de reuniões do conjunto de casas e eu estava somewhere alhures somehow conversando comigo mesmo tentando abraçar essa imensa solidão que nunca coube em mim e encostar os dedos das duas mãos do outro lado, negociar, ver se ela, por uns momentos que fosse, podia me aceitar como digno de misericórdia, me dar uma trégua assim de colher de chá, que mal podia haver? eu não era tão ruim que não merecesse uns minutinhos de alívio, mesmo na farta escuridão da rua, longe do salãozinho de reuniões onde todos sempre estavam e não poderiam estar senão ali.

Todos continuam onde sempre estiveram e ainda assim continuo me surpreendendo que todos sejam e tudo seja assim.

Eu também.

Meus braços continuam enlaçados na ampla pança deste mostrengo da minha solidão e continuo a tentar que as pontas dos meus dedinhos se encostem do outro lado.

Posso, como sempre, ouvir seu coração palpitar. Sentir seu cheiro de suor. Ouvir seu hálito entrando e saindo por sobre meus cabelos.

Fomos feitos um para o outro.

Eu, para a minha solidão. Minha solidão para...

Oh não.

Natal

Vinte e cinco de dezembro. Manhãzinha-zinha-zinha. Estou deitado, fingindo que durmo. Finjo a mim mesmo ou não sei pra quem. Sei que me engano. Passamos uma cacetada do nosso tempo nos iludindo, sobretudo nas coisinhas mais idiotas e com as quais a encenação é ainda mais eficaz porque, sendo uma besteirinha, não nos deixaríamos enganar.
Vinte-e-cinco-do-doze. A data pisca de longe nas folhinhas, neon básico, dos que não curtimos o Natal fingimos não ter importância mas sabemos estar apenas fingindo, em nossa simplória circularidade pessoniana.
Espírito natalino. É inevitável ler ou escutar ou pensar nessa expressão, só para em seguida sentir algo dolorido algures no estômago. Pior que o Natal são as explicações que uns quinze dias antes começam a pipocar de todos os lados, na tentativa de enquadrar o antinatalino, esse ser esdrúxulo e desajeitado que não cabe mais em lugar nenhum. Nos jornais, indefectíveis reportagens sugerindo alternativas aos incapazes de confraternizar com o(s) próximo(s) e que nos últimos anos vêm me dando uma sensação de deslocamento gauche cada vez maior. Piores que essas só as reportagens sobre como fugir do Carnaval. Ninguém foge do Carnaval neste país – nem que você se enterre numa mina de chumbo abandonada a 500 metros de profundidade no meio da Amazônia. O desgraçado gruda na tua medula feito doença incurável e você, melancólico duma alegria insoluvelmente perdida n’algum escaninho do passado, fica lá olhando os carnavalescos e se perguntando quem é que está doente nessa história.
Mas o Natal é mais contagioso. Toda criança classe-média família-cristã está inoculada do vírus e não há vacina que cure. Se tem algo na tua vida que você pode chamar de “experiência” é ele. À medida que vamos crescendo e dando tino das palavras até chegar aquele dia em que todos, sem exceção, chegamos em que paramos, como por milagre, de cismar com as altas pilhas de sons de significado enigmático e os aceitamos, já em forma de conceito, dentro de nós como caroços que somos – e seremos daí em diante – obrigados a engolir, a associação de Natal e “experiência” é também cada vez mais natural e também chega o dia, tão infalível quanto o da morte, em que você deixa de estranhar todo aquele afã no fim do ano.
Provavelmente é o que de mais genial e eficiente inventaram para enganar as crianças. O logro pela sedução. É inebriante feito um licor fantástico que te tira da pasmaceira angustiante do dia-a-dia, te abrindo possibilidades mágicas. Depois dum interminável ano em que não houve uma só chance de fugir da perseguição implacável da realidade, finalmente vem chegando mansa e alvissareira a época do ano em que me permitem realizar meus sonhos, esses entes inalcançáveis que vivem pairando em cima da minha cabeça feito virgens angelicais suplicando para ser defloradas.
E tem aquela dobradinha. Natal-barra-Ano-Novo. Par Perfeito. Tão perfeito, que são um só. Fecho de Ouro. A não ser que você tenha levado bomba na escola – e aí não há magia que te afaste das torturantes labaredas do Diabo –, o Natal – especialmente Papai Noel – é a prova de que, sim, a felicidade existe. A vida, afinal, não se resume à renúncia mais apática do que estoica mas inescapável aos rarefeitos prazeres em conta-gotas a que temos iniquamente direito. O sujeito que pôs o Natal perto do fim do ano não o fez ingênua ou arbitrariamente. Foi sacada de mestre. O pai dos marqueteiros modernos.
De repente – uma longa e dolorosa repentinidade –, a razão. E vinda por um caminho tortuoso e sombrio que daí por diante também parecerá não só natural mas também rímica: a decepção. E ambas, R&D, passam a fazer outro par perfeito na tua existência – amargo mas perfeito. E você acaba se acostumando – sempre que tem a chance de espiar dentro do mecanismo vago e invisível (mas que sabe existir) das coisas, você fecha os olhos e espreme os lábios, decepcionado, esperando a seca/instrutiva bofetada da realidade. E também aos poucos aprende que espiar dentro desse mecanismo angustiante não é prerrogativa – é danação. Até que chega o dia em que deixa de ter consciência do mecanismo. Sim, é quando – na pitoresca linguagem dos explicadores do mundo – você o “incorpora”. No meu caso, não incorporei – engoli. E desceu. Na marra, fazendo um nó nauseante na garganta. E se instalou algures em meu estômago.
Quanto aos diferentes dissabores que vão se juntando dentro da nossa cabeça em pares perfeitos, que por sua vez passam a formar fila – e dependendo do freguês, várias ou inúmeras delas –, cada um de nós tem os seus, cada um de nós, rico ou pobre, forte ou fraco, amarelo ou vermelho, nos versos ordinários e fáceis daquela toadinha que virou mais um intolerável hino natalino e que alguém na vizinhança escuta no último volume e berra a pulmões cheios no que se tornou o flagelo dos tempos modernos, o mais bestial fruto nascido do coito das civilizações ocidental e oriental: o caraoquê. O autor da toadinha, aquele ex-beatle que “cantava pela paz” e que, escutando alguém às suas costas chamar “Mr Lennon”, se voltando e recebendo seis balaços incandescentes nas vísceras, deve ter prontamente associado aquele momento fatídico a outra canção que compusera anos antes, “Happiness is a warm gun”. Yes it is, Mr Lennon. God, se isso não é um Par Perfeito, então não sei o que é. E foi uma morte heroica para quem pretendeu ser sub-herói numa era de sub-heróis pífios. Nós modernos e nossos mitos de meia tigela. No frigir dos ovos de tartaruga a apodrecer nas praias de Ilha Bela, não tem importância alguma para ninguém. Mas serviu para passar o tempo da moçada da minha geração e me dar assunto para mais um parágrafo.
E você, pia leitora (se me permite uma despretensiosa citaçãozinha a Machado), não vai deixar o “dissabores” aí acima passar batido, claro. Como você sabe, sou obsessivo, cioso e perfeccionista, e não cometeria termo tão grosseiramente fora de moda. Meus erros, quando os perpetro, não são tão evidentes e em geral consigo dissimulá-los – satisfatoriamente ou de modo que não causem muito dano – de mim mesmo e dos outros. Em minha experiência objetiva ou não nunca tive dissabores na vida (pois, como fator adicional de complicação, os dissabores, quando ocorrem, são raros e atingem nada menos que a vida e não uma outra dimensão mais modesta do que somos, se tornando tão indissolúveis quanto as parelhas de que falávamos bem lá trás). Acabrunhado, abro meu aurélio eletrônico e procuro um substituto à altura para “dissabor”. Mas os sinônimos disponíveis – “contrariedade, aborrecimento, desprazer, amolação” – tampouco dão conta de refletir minhas aflições. Nenhum suficientemente coloquial. Ao contrário, cada um deles é palavra que só existe em dicionário, vegetando qual fungo sob a proteção e na sombra dos outros milhares de vocábulos inúteis, todos sem aplicação possível no cotidiano. E se eu insistisse em usá-los, leitora castíssima, você certamente diria que meu texto recende a bolor. 
Além de serem nativos dos dicionários, esses termos moribundos acham-se amiúde também em autores antigos, obviamente. Quando estamos em perseguição da “realidade”, nada mais frustrante que um almeida-garrett e seu vocabulário soterrado sob a poeira do tempo e o dióxido de carbono dos automóveis e o alarido dos programas de auditório na tevê. Ainda ontem dei com um romance dele na internet, comecei a ler e já no segundo parágrafo senti falta de ar. Tudo bem que o rapaz não foi lá grande coisa nem no seu próprio tempo, mas a sensação de asfixia aflige também os gênios. Até Machado – se você não for apenas um pesquisador ou professor lendo o homem por dever de ofício – tem trechos rançosos.
Quem está atrás da dona Realidade – meu caso quase o tempo todo –, há de evitar enxergá-la por retratos em branco-e-preto, que apenas mostrarão a velha senhora de espartilho e merinaque se aprontando para vestir a saia-balão, ao lado dum mancebo de nome remoto e pitoresco ostentando bastos bigodes e espessas suíças. Na certa vai querer um quadro menos obsoleto. O que é igualmente difícil de achar.
A moçada, fugindo do prolixo, caiu matando na esqualidez como estilo da época. Claro, tem todo aquele plá de dicotomia forma-fundo, lemas tomados a cru de peculiaridades americanas exóticas como “menos é mais”, o escambau, plá sobre que a esta hora da manhã não me apetece discursar. Pode-se dizer que a rapaziada light hoje em dia esteja escrevendo lean tentando alcançar o clean, ou vice-versa (não sei). E – para usar uma palavrinha que outro dia li novamente em Machado e me encantei – salvante cobras como Dalton Trevisan, muitos dos que estão brotando aqui e ali c’uma forma que eles mesmos batizaram de “despojada”, se dizendo – ou sendo apontados pela mídia incansavelmente deslumbrada – minimalistas, se mostrando horrorizados com a prolixidade arcaica, ressequindo a gordura para chegar além do osso, enxugando o excesso para atingir o nada, bien, muitos destes são apenas semiliteratos.
A falta de técnica pode ser uma técnica em si. (O que, claro, é logicamente impossível e passa a ser uma técnica in its own right, gerando automaticamente um claro-escuro infinito.) Bom é o texto que não denuncia a própria técnica. Quando lemos alguém de talento, em geral nos comovemos ou reagimos de qualquer outra forma que o miserável quer que reajamos, nos lixando para a técnica que ele usou para nos engambelar. In other words, não damos a mínima para a forma. Essa coisa de forma-conteúdo é papo-furado de professor de letras que precisa justificar o salário. Mas é também aí que flagramos os excessos do nego talentoso, mesmo quando ele é genialérrimo. Digo isso pensando em certos trechos da busca perdida de Proust em que ele carregou a mão naquela torrente ao mesmo tempo doce e comovente e densa e extasiante de pensamentos inexauríveis. Mas não admira. Eu, se tivesse nos dedos dez por cento daquele controle infernal da memória, da cabeça, do coração e das palavras, não deixaria por menos. Abusaria ainda mais. E provavelmente entornaria o caldo.
Tem, claro, toda aquela lengalenga de que difícil é ser simples. Só. Nosotros que não somos gênios, fiquemos no feijão-com-arroz, maneirando no sal, evitando a pimenta, nos contentando em escolher as palavras com razoável precisão e parcimônia, o que, como sabe qualquer um que alguma vez escreveu algo na vida, já é uma bela duma proeza. E, claro, sair da difícil arte de escolher palavras rumo à própria dificuldade de escrever não requer mais que um passo. Que, como bom perfeccionista, gostaria de não me furtar a dar. Mas a que me furto mesmo assim, pois, como você há de lembrar, é de manhãzinha, ainda estou na cama e meu sono já vai passando.
E você, dona leitora, na certa percebeu também que me perdi completamente do meu assunto original, me enrolando numa maçaroca danada, me aventurando temerariamente em filosofices e até em teoria literária, tema de que, como você deve ter sacado, não manjo lhufas. A, caprichosa cabecinha oca. Vive me aprontando vexames. Meu plano original era desancar Papai Noel, lamentar o declínio da tradição, condenar o consumismo exacerbado de hoje em dia, essas coisas de que todo escritor deve “abordar” nessa época do ano. Quando dei por mim, estava descendo o ferro no Proust, de cuja busca, confesso, li não mais que uns trechinhos, pulando aqui e ali à procura de algo que me dissesse pessoalmente respeito.
Por isso, acho que vou ficando por aqui. Como sou sujeito impulsivo e às vezes desregrado, preciso me conter, senão logo terei outra recaída, falando do que desconheço. Além disso, estou prestes a abrir os olhos – e depois que abro os olhos, fico uns bons minutinhos sem pensar em nada. E como o vizinho fã de Mr Lennon resolveu desligar a vitrola e ir fazer algo útil na vida, vou deixar para outra ocasião o Natal, o espírito natalino, a nossa índole irrequieta que oscila do nazareno ao nazismo em questão de segundos. Se você não se importa. 
E já não era sem tempo. Percebo apreensivo que estou retornando ao meu estado normal de acidez fatigante, como já deve estar patente. Acontece todas as manhãs. Da cabeça a acidez desce para o estômago. O sono vai sumindo n’algum canto aqui dentro, talvez chupado por um ralo interno do qual não tenho ciência, e dando lugar a uns incomodozinhos. Com o passar dos anos aprendi um truquezinho para me livrar da indisposição matinal – ingerir em jejum uma caninha pura e sem gelo. Antes que a sóbria leitora se espante com tão explícito pendor etílico mal o sol abriu os olhos, me apresso a esclarecer que, sem uma cachacinha logo cedo, fico um pouco rabugento. Um tiquinho de nada, mas fico. Nada de alarmante, porém. Outra agora, só na hora do almoço – que, aliás, já está chegando. Faço esse sacrifício pelos outros, naturalmente. Você sabe o quanto é duro aguentar a rabugice alheia. Pior que isso, só aguentar a própria. E não vou esconder que alguns parentes já testemunharam que fico até simpático quando entorno umas e outras num desses casamentos que acontecem de dez em dez anos na família. E, ao contrário do que você pode ter concluído, soberba leitorinha, tampouco sou beberrão. Não é apenas nos citados casamentos que encho a lata, admito. Mas em geral sou um cara comedido.
Bem, como estava dizendo, vou ficando por aqui. Antes, porém, só queria esclarecer que essa acidez a que me referi, passo a maior parte do tempo tentando me safar da miserável. Ela me esmaga os pensamentos, fazendo deles uma massa homogênea e informe e grudenta e inútil e...
A, com licença, estão tocando a campainha. Justo quando ia finalmente me despedir. Sacudo a cabeça. De leeeve. Leeeeeeve. Beeem leeeeeeve. A campainha toca. Já vai, porra, grito por dentro, com preguiça de acionar a voz (que em geral só ponho em uso no período da tarde). Odeio gente que não espera pelo menos um minuto inteiro antes de enfiar o dedo na maldita pela segunda vez.
Depois da irritação, o espanto. De novo ce esqueceu de arrancar a campainha do portão! me recrimino, soltando uns palavrões interiores contra minha própria mãezinha. É sempre assim. Toda vez que apertam a campainha, juro que agora chega, vou acabar é já com essa tortura. Depois, sei lá por que, acabo esquecendo. Até quando ce vai ficar se tapeando? me faço pela milésima vez a pergunta que me recuso a responder.
A campainha toca a terceira vez. Já estou diante da porta, olhos espremidos, bufando, rangendo os dentes. Devido ao treino que tenho feito todas as manhãs, em alguns segundos me acalmo. Faço uns trejeitos até apagar do rosto a expressão assassina. Abro a porta. Um velhote no portão me vê e estende o braço. Abre a mão.
Que é? pergunto sem abrir a boca, sacudindo a cabeça num gesto seco. Ele fecha os dedos dentro do punho e torna a abri-los. Esmola? pergunto, agora com a boca. Ele faz que sim.
É natal, digo a mim mesmo enquanto volto ao quarto, tentando conter a gana de enxotar o inoportuno com um palavrão. Apanho uma moeda no bolso das calças, visto as calças, volto para a porta. O velhote continua de braço estendido.
Saio para o dia, protegendo os olhos da luz do sol, na cabeça martelando é natal, é natal. O velhote, olhinhos opacos cintilando. No alto da cabeça, um gorro imundo e ensebado. Cabelo e barba brancos, pardos de sujeira. Às costas, um saco gorduroso qual o gorro.
- Quer uma xícara de leite? – pergunto e me assombro. A pergunta saiu da minha boca? Ainda estou dormindo, acho.
Faz que sim com a cabeça. Abro o portão, entra, passa por mim. Indico a porta com o braço. Se põe em movimento, passinhos miúdos e pressurosos e prudentes.
Entra na sala, entro atrás, digo para sentar no sofá, senta. Vou para a cozinha, abro a geladeira, apanho a caixa de leite, ponho leite numa xícara, adiciono café, açúcar, mexo, esquento no micro, volto para a sala.
Estendo a xícara. Apanha e sorve, me olhando maravilhado e humilde.
Sento na poltrona e fico olhando. Desvia o olhar para a tevê, assistindo como se estivesse passando algum programa.
Acaba o leite, fica lá parado olhando a tevê. Quer mais? Faz que sim.
Volto para a cozinha, etc. Acaba a segunda xícara. Quer mais? Não. Quer comer? Sim.
Levo ele para a cozinha, faço sentar. Abro a geladeira e tiro manteiga, queijo, iogurte, sei lá mais o quê. Pego pão, bolacha, doce de goiaba. Apesar de desdentado, come tudo depressa e com facilidade.
Sento diante dele na mesa. Como o senhor chama?
Noel, diz.
É brincadeira?
Faz que não.
Noel Ferreira Silva.
Trouxe um presente para mim? debocho, inerme.
Faz que sim.
Sorry, paciente leitora. Não consegui resistir. No fundo sou um jeca, não nego. Até os mais insensíveis e cínicos feito eu tem suas recaídas. Afinal até hoje não esqueci aquele triciclo vermelho e branco que estava no meio da sala quando acordei e pulei da cama e saí correndo do quarto para ver se meu presente estava lá.
Quem deu? perguntei.
Papai Noel, meu pai disse.
É nada. Papai Noel não existe.
Foi, sim.
Acreditei.
Tenho culpa se a porra da cena ficou grudada algures em meu coração?


Quarenta e um

DEFINITIVAMENTE, não entendo internautas. Não entendo membros de redes sociais. Não entendo blogueiros. Não entendo blogueiros que se pensam e pretendem se mostrar sensíveis, poetas, portadores de visões especialíssimas do mundo.
Não entendo qual lógica seguem. Sei que não é a minha e é tudo que sei e saber algo que não é não é saber muito.
Espero que minha última frase acima os confunda.
Se pudesse, os atrairia para a beira dum precipício, ficaria esperando que tivessem então um insight do mundo sensível perdido.
Não entendo, entre mil outras coisas, uma gente de índole literária aliterária E antiliterária. Gente de ideologia literária que não toma conhecimento da base, do fundo, da partida e do fim: a palavra.
Não entendo gente literária cuja palavra tem sua ortografia violentada, seu lugar ignorado, sua ordem trocada, seu significado desprezado, sua sacralidade aviltada.
Não entendo gente literária em que a complexidade da sensibilidade artística é contrabandeada pelo fascínio da conectividade que pede urgente uma teclada mecânica como resposta mecânica a uma postagem mecânica cujo conteúdo introspectivo, reflexivo é nulo.
Não entendo gente literária em que uma postagem de boa vizinhança é enviada apenas para suscitar outra postagem de agradecimento e a seguinte para provocar uma outra numa circularidade que se autoalimenta do impulso clicatório, gerando no pobre internauta uma eterna ansiedade pela próxima réplica.
Não entendo gente literária digital em que o digital é tudo e o literário é nada.
Não entendo gente literária que adora escritores e poetas por sua fama e não por suas obras e ideias, na mais decepcionanante rendição ao mais grotesco culto à celebridade dos fofoqueiros da tevê.
DEFINITIVAMENTE, não entendo internautas literatos e sua estranha concepção de que literatura é só mais uma desculpa para concretizar a "experiência" digital.
Os internautas fazem, certamente, parte do mundo da palavra abolida. São ágrafos sob o domínio de uma hipnose eletrônica.
Literatura é palavra e palavra é pensamento. As microsofts ainda não inventaram um sucedâneo.

Alberto Segundo

Fui incoerente, não fui?
Cara, tenho nojo de quem dá lição e não vou lhe dar.
Simplesmente veja os dois contextos em que eu disse uma e outra coisa...
...e veja se faz sentido.
Pra mim faz.
Mas, olha, fazer sentido prum poeta não quer dizer nada.
Aliás, fazer sentido não quer dizer porra nenhuma pra ninguém, em se tratando de literatura.
Você até pode dar seus primeiros passos poéticos mandando o sentido pro caralho.
Se quiser.
Quer ser poeta?
Então não se fie na opinião de ninguém.
Nem na minha.
Não espere reconhecimento.
Não fique aí parado feito tonto esperando um docinho.
Um afago.
Um elogio.
Quer ser poeta?
Então seja poeta.
Primeiro...
...aprenda a sentir.
Pra sentir...
...aprenda a sentir.
Pra sentir...
...aprenda a se livrar das besteiras que te enfiaram na cachola desde o dia que você nasceu.
Aprenda, acima de tudo, a sentir...
...a dor...
...que é sua...
...só sua...
...sua...
...sua...
Eu estou tentando ser poeta há 40 anos.
 E vejo hoje que tenho mil toneladas a aprender.
A cada manhã.
A cada tarde.
A cada lusco-fusco usco co o.
E desaprender.
Dsprender.
Aprnder.
Prndr.
ndr.
r.
Preciso aprender a aceitar o que sinto.
Preciso desaprender o que me entucharam na cabeça.
Tem lógica?
Se tiver, então tô falando merda.
Mas uma coisa tenho por certo nessa salada milenar:
Seguinte:
Três pontos
Não deixe que teorias e teóricos queiram te ensinar o que você sente ou deve sentir.
A poesia e a literatura em geral tem raríssimos criadores.
E palpiteiros a dar com o pau.
Não há poeta igual a outro.
Não há escritor igual a outro.
Cada verso é uma declaração de independência.
Uma declaração de guerra.
Um manifesto por um mundo carmim de sangue.