Durante


Cruzo os braços para lembrar

Ontem um desses braços foi
de alguém que passa na rua
Hoje o outro é de meu pai.
Passo os dedos nas veias saltadas,
de quem labutou na enxada desde
pequeno.
Levavam sangue ao cérebro que tentava prever,
“Como será meu filho?”

Ontem minhas mãos eram lisas e efeminadas,
Próprias para acariciar.
Hoje incham escalavradas sob as asperezas das ramas na colheita do café, que começava às 5 da manhã
E, de tão grossas, em nenhum segundo dali em diante ousariam imaginar-se tocando um noturno de Chopin.

Que escuto, vindo de algum alto-falante
de alguém nas redondezas que não escuta.
As cordas vocais tantas vezes foram percutidas por aquele cérebro pré-filho e pré-Chopin insonoro
para produzir a mágica das palavras
neste instante se materializariam
À minha frente, no mais pisado e empobrecedor dos surrealismos
E profeririam que não tenho mais aonde me voltar
Em decepcionante tom de anticlímax.

Nos braços que não me seguram
Crispo os dedos com uma força que não sabia ter
E verifico que minhas unhas não deixaram marcas na pele que já perdeu a elasticidade sobre músculos imaginários.

Esta noite deito a cabeça no travesseiro
O travesseiro não é meu
Tampouco é minha minha cabeça.

Docemente finalmente

Sonhei
que estava
vivo e
então
acordei

Sou uma grande desinfeliz!

O cometão passou assim ao alcance do meu toque. Pra  não pensar nem dizer que não era eu, prendi as duas mãos uma na outra atrás das costas. Então ele veio vrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrruuuuuuuuuuuummmmmmm mmmmm mmmmm mmmm mmm mm m m m m m m  e de tão maravilhado ilhado em minha fantasmagórica necessidade de carinho poético me esqueci de estender os braços e muito penosamente entreabri os lábios e exalei um suspiro de sonhar com o trajeto dele pela Via Láctea e só então me dei conta de que já era tarde, que minha única chance se transformara num risquinho no céu empoeirado desta minha cidade industrial e me lembrei de que quando moleque roía as unhas e ia com a turma tomar banho no brejo da Cerâmica e catar guaru.

Integração


Preciso mijar nesta terra
Qual cão obtuso movido pelo senso do dever
Demarcar este território
Deixar pingar de dentro de mim
E escorrer
Espalhando meu cheiro
E neste chão sagrado infiltrando
Até atingir a alma do meu planeta
Já que minhas pegadas se apagam
Minhas lágrimas secam
Meu sangue fantasmas sugam
Meu suor nuvens encharca
Qual meu pai
Fertilizar
Para que meus filhos sejam férteis
Infecundos vermes
Impregnar de mim ossos que aqui descansam
Conspurcando da argila a asséptica pureza
De mel azedo e água nefasta
Que me cabe beber
A me restar para que minha terra
Seja bendita

Mina borgeana

Os pais com criancinhas que vejo pelas ruas são retardados. Conversam de igual para igual com seus pirralhos, tartamudeando o nenenês, mumunhando o bebenês, pantomimando a língua primeva e infantil a que, pensam eles, todos teríamos direito se pertencêssemos todos à fantástica classe média abastada e seu maravilhoso poder de compra.

Os petizes com seus papais e mamães que vejo pelas ruas são mesmerizados. No fundo de suas alminhas ainda não formadas (e que, a depender dos progenitores, nunca haverão de), recebem vagos, enevoados sinais de algo, alguém numa dimensão que não lhes pertence, procura – aparentemente desesperadamente – entabular comunicação. Como ainda não dominam a sofisticada técnica da mímica facial (que, ao transcorrer do tempo, aprenderão que se vai tornando mais e mais rudimentar e ineficaz e, adultos, renunciarão vez por todas a compreender os rumos tomados pela espécie que tenta a todo custo evoluir), os incautos pirralhinhos se limitam a esperar que o cosmos conforme para seus rostinhos máscaras minimamente humanas). (Renuncio aqui e agora à racionalidade com que procurei estruturar meus pensamentos desde o início deste texto. Renuncio como desde a primeira vez renunciei e não concedo a meus eventuais críticos autorização para denunciar meus fracassos.)

Eu mesmo, imagino, tive meus momentos de infante-máscara destituído de decanos ou padroeiros. Duvido que tal falta na infância não se reflita em meu severo cenho que hoje ostento ora orgulhoso, ora de justiceiro sem vítimas.

Avanço pela rua qual milhões de pirralhos que neste exato instante clamam mimeticamente que seus pais e mães larguem as fantasias de eternos namorados adolescentes e assumam como adultos a orientação e o ensinamento de seus filhos.

(Como temia, atingi um turning-point aqui. Que sei eu de pais, filhos ou do que quer que seja?)

(Esperar que a supergente devotada ao ahistórico hoje possa reagir? Somos oito bilhões de malucos à procura de acolhida e agasalho.)

Houve, um dia, um significado uno, uno e uno.

Ah, queridíssima, inalcançável senhora que comigo trocava olhares ora de mãe, ora de tótem da névoa, protegei-me de todos os olhares.

Tua sopa de macarrão e couve não me diz mais nada.

(Confessei de fato? Se me ensinaste algo, foi o pecado da confissão.)

Mar


O mar pode ser vasto

Por dias erra o navegante
semana após semana  errante
Por meses errante a navegar

Avistando nada mais que a linha do horizonte
Sob o céu que é seu
Entre nuvens translúcidas
Aves sempre vão
Retornando aves sempre

O mar pode seduzir

A inconstante nau
sem bússola avança sob ventos do mistério
O navegante exímio não busca destino óbvio
Tem por missão desvendar
o segredo que imagina existir
só para si
sob a superficial, metálica
Pele a cobrir as entranhas do mar

O mar pode se revoltar

O bom navegante almeja à tempestade
Se afinal zarpou,
Zarpou para fugir à calmaria
Delirando com prováveis monstros 
De que tanto ouviu dizer
Possíveis vagalhões a arrebentar inclementes contra o costado
A impossível sereia que, por impossível,
Flutua a procurar

Zarpando a incerto destino
Rumo a rumo nenhum nem rota
Desfez-se da âncora
Que não lhe fazia falta

O mar pode ser vasto

O mar seguramente pode ser profundo

(Afinal, é o que se espera do mar,
embora do navegante nada possa se esperar.)

O que o seduz não é o mar
e sim as profundezas
em que sonha mergulhar

Até descobrir, sendo errante sem 
rota nem
rumo nem
destino nem
bússola nem 
âncora nem 
nau que
o mar pode ser raso
pode ser raso o mar
raso pode ser o mar 

Meio da tarde



Saio para comprar cigarro
Nem bem dou uns passos
Me arrastando pela calçada
Sob hesitante luz do sol
Da alucinante manhã de abril
Topo de chofre cum vagabundo
Parado na esquina da Roberto Simonsen com a São Paulo
Desalinhamento em pessoa
Envergando como jamais vi
Seu uniforme de vagao:
Calças largas encardidas
De cor indefinível e
Um tecido que destoa
Por não ser jeans
Camisão acima do seu figurino
Também em cor inominável
Pendendo destrambelhado fora das calças
Abotoado nas casas erradas
Só até a barriga saliente
Como todo vagabundo
Meio gorducho de tanto
Fazer nada

Se fosse outro gênero humano
Me perguntaria distraído:
"Que é que faz esse sujeito aí parado?"
Mas, por se tratar dum vagabundo
Logo compreendo 
E não me pergunto nada

À medida que me aproximo
Fito o sujeito nos olhos
À medida que vou passando
Ele, claro, volta o rosto pr'outro lado
Tendo quase a ultrapassagem completado
Arrisco outro olhar cauteloso
Esperando que ele já tenha
Me esquecido
Mas eis que me investiga
Num medonho olhar de esguelha

Com certo esforço fico na minha
E sigo em frente até a entrada do boteco
Ergo um pé para o degrau e
Antes de entrar arrisco a última espiada
O vagabundo continua parado na esquina
Alheio a mim
Ao trânsito, a tudo
Em sua magnífica autossuficiência de vagabundo

Entro no boteco e, enquanto compro o cigarro
Considero a hipótese de
Tomar uma branquinha para enfrentar
A viagem de volta
Decido que não para meu próprio espanto e
atrapalhado
Pago e saio
Olhando ávido a esquina
Ele já se foi

Quando chegar em casa
Se não me der preguiça
Talvez me sente na mesa da cozinha
Talvez faça banana com aveia
Talvez faça um poema
Talvez não faça nada 

Nego (baixinho), nego até o fim

Quer dizer que você pensa que tem alguma chance?
Vai poder virar a mesa quando achar conveniente?
Que as charadas que se lhe impuseram até agora foram brincadeiras?
Que poderia anunciar "não brinco mais" quando enjoasse?
Que os pontos de interrogação uma hora teriam fim?
Que a partir dum instante mágico, que, sendo mágico, seria destituído de timing, sua vidinha, até então às moscas, enfim se inauguraria?
Que a fronteira infância/idade adulta se tornaria nítida duma hora pra outra?

Não quero rir.
Você se leva a sério e bem o sei.
Eu mesmo execraria que debochassem assim dos meus sentimentos.

Na grande guerra dos que lutam por um lugar ao sol, você me abateu.
E fincou o mastro de sua bandeira na colina formada por meu dorso.
E, descendo de volta ao cotidiano, ninguém havia na praça disposto e pronto a exaltar seu triunfo.

Não é amargo, insuportavelmente amargo, que o único a comemorar sua vitória é seu inimigo?

Nada de estupor, exaltação, alarme, ameaça, júbilo

Estou aqui, é onde estou, estou agora, é quando estou.
A parede me olha.
A parede me escuta.
A parede me fala.
A parede me espera.

Não retribuo.
A cautela é uma das minhas qualidades.
Evito a sedução de senhoras estranhas.

Não aceito a promiscuidade e outros vícios intermináveis.
Centenas de mãos calejadas de experiência humana a afagaram.
Indícios e sinais não faltam.

Me recuso a ser mais um.

Meu barco



(sem mar,
sem rio,
sem Tejo,
sem aldeia)


Há anos um barco construo
baseado em livro de engenharia
naval que mandei vir
especialmente de Portugal.
Isso quando ainda
acreditava que Portugal existia.

Aprendi técnicas e decorei termos
náuticos como escaler, chalupa,
crista de aiveca e castelo da popa,
e enquanto pregava pregos e pranchas,
pensando em quantos timoneiros
desorientados fui, sou e serei,
decidi escolher como meu cantinho
predileto o cesto da gávea.

Há anos construo um barco
sólido para cruzar o mais
encapelado dos mares, que
obedeça ao meu saber parco
com calado suficiente para atingir
Tróia, Las Vegas, Antares
mas não o suficiente para encalhar
nos charcos
e me levar ao mais próximo
dos lugares.

E sei que meu barco nunca vai
zarpar (se é que meus barcos zarpam)
porque também sei que os anos que
restam não serão suficientes para
arrastá-lo até o mar.
E se no trajeto deparar com um desses
guardiões que por aí buscam construtores
navais errantes, pedirei, para que
tudo não tenha sido em vão,
pelo menos me enterre no porto
quando estiver morto.




Não


O dia não amanhece.
Há luz. Mas o dia não amanhece.
Pássaros não cantam. Os galhos das árvores não tendem a envergar.
Ninguém diz, nem quer dizer: “Sou livre”. “Minha alma é leve”. “Que se há se fazer?”
Cortes não cicatrizam. Gêmeos não se parecem.
O açúcar não adoça, a guerra não saneia.
Os lápis param de riscar. Os postes desistem de sustentar os fios elétricos. Nos pântanos, os caranguejos não querem mais tomar sol.
(Ao qual nunca se deve olhar diretamente. Menos neste dia.)
E não é um dia de agosto, em que sempre há uma saída – embora a saída nunca seja outra.
E não é um dia de inverno, nem de verão, nem de nada. Pois é um dia que não amanhece. E dias que não amanhacem não têm classificação.
Neste dia, as salas de espera estão vazias. As fábricas continuam imponentes (e muito, muito mais altas que os habitantes da cidade), mas já não devoram operários pelas bocas escancaradas de devorar operários.
Nada depende das circunstâncias. Alguns até queriam mexer os pés, apalpar a nuca para ver se ainda está tensa. Mas pensam bem e decidem que não querem.
Nas feiras-livres não há comadres para comprar os pepinos e os tomates.
Meninos não entram nem saem correndo de casebres. (Meninos não entram nem saem correndo de casebres impunemente.)
E a devastação que se previa – a devastação não veio.
Neste dia que não amanhece não se vêem mulheres sedutoras (ah, que sedutoras as mulheres!).
Os ouvidos se recusam a escutar discursos. E os telefones, a tocar.
Em todas as ruas o asfalto enrugou. Nas cozinhas, as facas não cortam. Nas mangueiras, a água não corre.
As ilhas se incorporaram aos continentes. Os caminhões ficaram cansados. Os panos se recusam a rasgar. Os pedreiros bem que queriam, mas as paredes não se deixam demolir.
Nas ruas, não se vêem jovens perplexos.
As palavras não aceitam mais letras maiúsculas.
Nas calçadas, acabaram-se os tropeços. Nos museus, o cubismo não tem mais sentido.
Os cofres se recusam a ser trancados, os pinos se recusam a entrar em suas sedes, as tumbas se recusam a admitir cadáveres. E as noivas se recusam a morrer no dia do casamento.
Os uniformes não uniformizam. Os impulsos arrefeceram. Os espasmos sossegaram. Nos músculos enrijecidos, os tremores acabaram.
As folhas não têm mais versos.
As mães desistiram de parir.
Todos pararam de envelhecer.
Neste dia que não amanhece, é como se o mundo estampado numa folha de gibi abrisse de supetão a camisa num gesto extremado de expor o peito viril e gritasse: “Chega de esperar milagres!”
Sobretudo – neste dia que não amanhece –, os parafusos se recusam a entrar nas porcas. O fogo se recusa a esquentar. As agendas não aceitam mais horas marcadas (sejam consultas, encontros, compromissos que nunca mais serão inadiáveis).
Não há pistas. (Não há mistérios.)
Não há sonhos. (Não há futuro.)
Mas há, neste dia (e em todos os santos dias), (em certos rostos), um sorriso recatado - o sorriso dos humilhados que não se cansam de ser humilhados.

O anão gigante e o gigante anão


Sou o primeiro a chegar à cidade
Antes de mais nada, olho ao longe
Vejo que nas proximidades
Há um deserto
Que à noite é iluminado pelo luar
De dia, aquecido pelo sol
Corta-o o leito dum rio seco
Que em vez de a cidade banhar
Traz submersos um gigante
E um anão

Procuro onde repousar da viagem
Avisto um banco da praça
Me sento
Ao meu lado direito instala-se um
Gigante
Ao esquerdo, um anão
O gigante é mudo
O anão, maldizente
O gigante, feliz
O anão, prudente
O gigante, irriquieto
O anão, transigente
O gigante, confuso
O anão, conivente
O gigante é anão
O anão, gigante

Os anos passam
O gigante encolhe
O anão resplandece
Até que um dia
Percebo que estão
Ambos do mesmo tamanho
Olho para mim entre os dois
Vejo nada mais que pouco
Já não tenho medida
Sou apenas sobra