Twenty-Fourth of the Year

Poesia é facada que mais sangra quanto mais você escarafuncha.
E fica com medo.
Não de morrer.
Quem escarafuncha facada não teme a morte.
Que é que pode dar medo então?
O sangue.
Que você não sabe se chama de quente, cálido, vermelho, carmesim.
Quando teu sangue tá brotando de dentro do teu coração você não sabe nada.
Dá pra botar uma rolha, estancar?
Fazer de conta que a voz de Nat King Cole cantando When I fall in love suplanta teus medos, tuas verdades, tuas mentiras?


Twenty-Third of the Year

Sabe que tem dia tenho vergonha do que escrevo neste blog? Não na hora. Mas depois deito ou vou ler ou simplesmente ficar lá sentado na minha cadeira, fico pensando, não devia ter dito isso, não devia ter mencionado aquilo, pra quê? essa sanha intimista, cê tá querendo o que, afinal, neste palco vazio dum homem só diante de oito bilhões de espantalhos de palha? Rio da verdade subindo assim tão crua através do meu próprio teclado. Não, agora preciso dar o braço a torcer, me abstrair dos meus princípios narcísicos.  Reticências. Comecei a escrever aos treze anos, mais precisamente em 1967. Para os fãs dos Beatles, ano de hello goodbye, all you need, pennylane (sim, é all you need is love, fiquei com preguiça de escrever o título inteiro mas não com preguiça de pegar no pulo os indefectíveis guardiões das falhas alheias). Me vejo direitinho lá naquele meu quartinho atrás da loja de papai catando milho na minha Lettera 32, depois apagando os erros e reescrevendo, esperando que ninguém notasse. Ninguém quem? Ninguém ninguém. O que escrevi dos meus 13 aos meus 15 ou 16 continua inédito até hoje.  Eis o público com quem me dou bem. Meu pai um dia pegou meu caderno, perguntou que é que é isso? Que é que eu ia responder? Ele sabia, eu sabia. Não sabemos todos a verdadeira verdade da vida, porra? No domingo seguinte a mana chique veio almoçar em casa, mamã comentou minhas escrituras, a mana me olhou solene, que é que você escreve afinal? Não tem nada a ver. Me perdi. Minha perdição não estava no roteiro.  

Twenty-Second of the Year

Os nobres se reuniam num salão arretado em Bonn para escutar mais uma obra-prima de Herr van Beethoven e ficavam enlevados e iam para suas casas e geravam onomatopéias de êxtase e comentários de assombro como vinham fazendo há décadas e não se preocupavam que dificilmente teriam a chance de escutar aquela peça novamente.

Não havia vitrola. MP3. Não havia cassette. Não havia Walter Benjamin e a reprodutibilidade da obra de arte.

Hoje temos a graça divina de ter o u-tube e podemos testemunhar a arte de xitãozó e xororinho até o fim dos tempos emp po paux atchim.


Twenty-First of the Year, at last

Sabia! — brande as duas mãos diante do doce rosto dela.
Que volta o rosto doce para ele quase assustada.
Ele continua ali parado, braços erguidos, saboreando intimamente o que parece ser uma emoção profunda.
— Me permita uma risadinha, hihihi.
Sabia o quê? — ela decide falar:
— Que seria você.
Aguarda apreciando a reação dela. Dando-se por satisfeito, prossegue:
— Como são imprevisíveis os caminhos para os que não sabem olhar a luz a se morrer no horizonte.
Pausa.
— Me leva?
Te levar? Aonde? — ela está confusa.
— Na missa.
Não sabe se responde cum riso ou uma careta.
— Vamos fazer uma coisa?
Sem resposta.
— Brincar de confessionário?
— Sou o padre, você, a confidente.
— De cara te recomendo mil ave-marias. Deves ter pecado a pagar até o ano 2300.
Fita o rosto da mocinha tentando ler sua alma.
Me chama de homem não, me sinto estranho, sou apenas macho.
Tão evidente que tô exibindo meu talento? Então exagerei. Que cafona. Seja sincera, cê acha que tá na cara? Aprendi faz tampo, tempo que todos devemos ser sutis, escritores que se acham donos das palavras. Tô emitindo muita bobagem. Você me desconcerta. Que raio de desconcerta é esse? Sou Machado? Sei que é sincera. Vi logo de cara. Admiro a sinceridade. Respeito. De minha parte também procuro ser. O problema é que sou mais do que seria prudente. Já sentiu? Morro de inveja dos que sabem desenvolver uma fachada. Parece tão mais simples. Você não tem seu espaço íntimo invadido. Vou escrever um poema todo santo dia quando o dia não for santo.

Twentieth of the Year

Minha senhora, estou extremamente grato por atender assim um po... mendigo que dedica a existência a zanzar pela cidade.
No começo, ficou receosa, não pude deixar de perceber. No wonder. Disponib... digo, escancarar assim a intimidade do lar a um completo desconhecido, quem seria capaz de tamanha generosidade? Inda mais com tanta gente por aí sofrendo de narcisismo mórbido, não é mesmo?
Ninguém. Ninguém seria capaz.
Tudo bem, atendeu a campainha pensando ser o vizinho ali da frente. Era ele o esperado, não era? Não se preocupe. Vou relevar. E não, não vou revelar...
Veja só como é intrigante esse encadeamento de coincidências.
Primeiro, seu vizinho faltou ao compromisso e quem apareceu no lugar dele foi este humilde vivente que vos fala. Segundo, quem faltou foi ele e quem tocou a campainha exatamente no mesmo horário fui eu! Se isso não é fantástico, que mais poderia ser?
Cá pra nós – e já rogando para que me perdoe a indiscrição –, que é que o dito rapaz vinha fazer aqui assim no meio da tarde? Principalmente considerando que teria de inventar aquela desculpa à esposa para vir sozinho? Seu marido, imagino,  não está em casa, está?
Hmmm, bem que desconfiava. Isso está me cheirando a...
O quê? Não tem nada a ver? É – e sempre foi – fiel? Não admite esse tipo de insinuação? Quer dizer que o sujeito vinha apenas tomar aquele nescafé como faz todas as segundas, quartas e sextas quando o maridão viaja a Campinas a negócios?
Sei. Nesse caso peço mais uma vez que desculpe. Mas espero que compreenda minha desconfiança. Os costumes tão liberados, libertinagem comendo solta...
Nada disso, minha senhora! Não é trocadilho não. Longe de mim tamanha grosseria.
Mas cá pra nós.  A senhora fez ou não fez uma forcinha pra dissimular a cara de assombro quando deparou cum desconhecido – no caso, eu? Confesse, vá! Não se preocupe, dona. Sou um men... um vivente discreto. Pra cunhar uma frase, minha boca é um túmulo, hehehe.
O susto que toldou sua fisionomia ao dar cum barbão azulado de sujeira... Tô certo ou não tô? Tudo bem, sei que pareço carregar um ninho de bichinhos rastejantes na cara. Também estou ciente do meu gorro ensebado e meu bafo azedo de cachaça sem limão. Sem falar destes andrajos imundos. Não foi à toa que esse seu braço que neste momento repousa na maçaneta simplesmente se recusou a obedecer o comando do seu cérebro para que batesse incontinenti a porta na minha cara.
E agora aí está a senhora com esse rostinho lin... digo, esse semblante preocupado, quase de angústia, sem saber direito o que fazer.
Se me permite dar uma sugestão, então dou: não faça nada. Não, mais que sugerir, imploro: só faça alguma coisa quando o estado de torpor e assombro em que me acho agora passar.
Rogo!
Tudo bem, não é assim tão simples quanto parece. Digo, colocar em risco seus ativos materiais. Sei como é. Ou melhor – como deve ser.
Afinal, como poderia saber? Nunca fui proprietário duma casa assim tão grande, tão chique, tão emper... elegante. Nunca tive nada. O único bem de que sempre dispus e ainda disponho no momento e provavelmente disporei até o dia da minha morte – que, como já devem ter deixado claro esta fisionomia alquebrada e minha pele amarelenta de cirrose crônica e esta voz rouquenha e desanimada por falta de saúde e de vontade de viver, não irá demorar muito... Bem, como estava dizendo, a única propriedade de que ainda disponho é este saco encardido no qual arrasto pelas ruas e avenidas desta selva de pedra uns poucos trastes que me sobraram.
E os mencionados trastes tampouco guardam algum valor monetário. Têm importância apenas sentimental, como não poderia deixar de ser. Se me permite, vou abrir o saco para que possa se certificar de que falo a verdade.
Veja.
Viu?
Fui sincero ou não fui?
Por falar em selva de pedra, suplico que me desculpe pelo infeliz clichê. Embora não possa deixar de ressalvar que se trata dum clichê de alta precisão e forte carga descritiva. Que outra expressão definiria a contento esta São Paulo de prédios e asfalto e minhocões e estações do metrô e essas infindas ondas de automóveis, ônibus e caminhões que não nos deixam caminhar em paz nem respirar direito? E essa algazarra dos infernos que não me deixa nem confabular com o Almeida e o Toninho, meus dois amigos imaginários?
Outrossim, quero alegar em minha defesa que sinto tanta fome, tanta sede, tanto frio, tanta solidão, que estou sem a mínima condição de descolar uma expressão original para me referir a esta cidade de Deus e o Diabo, beleza e feiura, tristeza e alegria, início e término, vida e morte.
E, além de não ter uma mansão como esta e nem nada de meu, nunca fui casado. Na verdade, sequer tive uma namorada até hoje, dá pra’creditar? E mesmo que tivesse tido ou me casado, minha namorada ou minha esposa não teriam nem dez por cento da beleza desta mulher que estes meus dois olhos também amarelados pela hepatite apreciam neste exato instante, sôfregos a ponto de saltarem das órbitas. Isso sem falar que os mesmos dois olhos já transmitiram ao meu frágil coraçãozinho de pedinte um recado simples e breve: que mulher... Que mulher... Que mulher!
Veja a senhora que ele, o meu frágil coraçãozinho de pedinte, parece que entrou em surto e não foi capaz sequer de descolar um adjetivo qualquer para qualificar a mulher dos meus... a mulher da minha... Bem, se não se incomoda, deixemos assim no ar. Acho que já me fiz entender.
E, olha, dona, não custa repetir, Deus lhe pague por acolher assim um pobre p... mendigo que vive às tontas pela cidade. Sem falar que a senhora ter entrado de repente na minha vida foi a mais feliz das coincidências.
Sabe por quê?
Claro que não. Me desculpe a piadinha sem graça – a alegria até me faz perder a compostura.
A coincidência é que...
Adivinha!
Adivinhou?
Hoje faço anos!
Isso mesmo!
É ou não é fantástico?
E se eu dissesse que, mesmo não sabendo do meu niver, a senhora já me deu um presente? Acreditaria? Diria que um sujeito da minha idade devia se envergonhar de cantada tão ordinária? Debocharia de tanto lugar-comum numa única tarde? Ou simplesmente daria um risinho curto e cristalino com essa boquinha mais dengosa, mais sensual de todo o mundo, terminando por arrasar de vez meu coraçãozinho entupido de mel?
Na verdade, eu sabia.
Sabia o quê? a senhora haverá de perguntar.
Então, antes que pergunte, respondo: sabia que não ia deixar passar em vão. Pois, deixar o dia dos meus anos passar sem me dar parabéns não teria, com perdão da rima e da anáfora, perdão.
A senhorita estaria sujeita a uma penalidade.
Vejamos uma multa bem, mas bem dura mesmo...
Já sei.
Um beijinho.
Não!
Melhor ainda.
Uma beijoca!
O quê? Não vai beijando qualquer um assim sem mais nem menos?
Exige respeito?
Ah, tem toda a razão. Sou um po... cafajeste. Onde já se viu?
Então, que tal um... ahn... um... uma... uma foto?
Mas uma foto especial só pra mim. Não dessas que já foram lambidas e devoradas por olhões grandes de...
Pode ser igual àquelas em que a vítima de sequestro é fotografada com um jornal do dia e a foto é enviada à família e...
Peraí.
Falando em olhões grandes e família, ao que parece a senhora... Está sozinha em casa?
Sei. Seu pai e seus oito irmãos estão lá no fundo preparando um churrasco, hehehe. Só falta o Capitão Gancho, né fofa?
Bom, já que a senhora não me convida a entrar, sou obrigado a dar uma de cara-de-pau. Como já deve ter notado, só não faço a barba porque sai serragem, hehehe. Sugiro que passemos a chave na porta, se não se incomoda. Tem muito safado à solta por aí, não é mesmo? Hehehe.
Uau! Exatamente como imaginei. Uma cacetada – pardon my french, hehehe – de artesanato nordestino. Comprou in loco ou foi na República mesmo? E esta manjedoura em crepom vitrificado, que lindeza, dona! Não me diga que é religiosa! Olhaí, outra coincidência. Tem algum santo predileto? Quanto a mim, sou devoto de são Henry, padroeiro protetor dos bêbados e tarados. Puxa, este jogo estofado lilás em couro legítimo tá um arraso! Vê-se que não costuma frequentar as Casas Bahia, hehehe.
Vem cá, minha franguinha assustada. Pode sentar a bundinha ao lado do papai. Bundinha é força de expressão, naturalmente. Vejo que a princesa tá bem servida de background, hehehe.
Isso... Pronto. Não vai doer nada. Digo, sente só o muque. Viu? Pois é, mourejar pelos confins da cidade deixa a gente duro. Não precisa academia não. Garanto que o anjinho e suas amiguinhas gastam uma fábula fazendo musculação, ioga e outras tranqueiras mais, não é verdade? Experimenta catar papelão e lata de brama por aí, dou um mês pra perder essa barriguinha...
Hmmm, mas que barriguinha mais perfeitinha essa sua, dona! Não tem pra academia nem trampo brabo não. É obra de deus. Ai que me dá água na boca!
Isso. Senta no colo do papai bunitinha. Xispa! tira essa carinha de emburrada, viu? Papai não gosta de menina malcriada. Aqui, encosta a cabecinha no meu ombro. Só não vale chorar.
Agora vamos se livrar dessa calça, ai que apertada, deve de dar até nó na circulação. Pronto. Isso, abre...
Ana Rita se vê numa banheira de suor. Passa o dedo médio da mão direita entre os grandes lábios, está molhada de vontade. Não, quer ser sincera pelo menos uma vez. Volúpia. Se sente meio boba com a palavra. Lembra Romance Moderno, que lia na adolescência, um desses lixos da Abril. Enfia o dedo na boca, lambe. Foi sonho? Pesadelo? O engraçado é que não importa, hehehe.

Ninth of Forty Years Ago

When your time has just come
you will know that you're done
you will be on good terms
with me

When you had just one chance
to spin swifter than your own dance
but you've got into step
with me

Dear horseman now stay
it ends up the same way
no one needs those avoidable
pains

Dear anyhow
I'll get you anytime now
anyway inside out
upside down

When you bump against the stars
your backstroke, theirs, backwards
summit meeting of
connivers

You're in the saddle at last
I'm going to ride you so fast
knights erring down the streets
of the universe

Sixteenth of the Year

Outra vez nauseado das esquinas do mundo e do mundo
Refestelado entre répteis peçonhentos
Peço vênia para uma trova de Bill
Em tradução de Nelson Ascher
Que, não sei como, conheceu
minha ex-mulher em algum canto
de Sampa pa pa


SILVIA
(Canção de "Dois Cavalheiros de Verona", 4,2)

Quem é Sílvia? 0 que ela oculta
em si, pois tudo a exalta?
Ela é pura, bela, culta
e, como não tem falta,
qualquer moço, ao vê-la, exulta.
Será doce como é bela?
Beleza inclui doçura.
Cego, o Amor, tão logo apela
a seu olhar, se cura
e hoje habita os olhos dela.
Louvemos Sílvia, senhores,
porque Sílvia supera
quanto vive, até os melhores
mortais aqui da Terra,
coroêmo-la de flores.


Fifteen of the Year, shit

O problema está neste quadrilátero aqui, senhor.
Mas é essa titica que vem causando tanta dor de cabeça? Hahaha.
Hehehe.
Onde está, exatamente?
Aqui, nesta porcariazinha chamada Zer... Ber... Mer... Ah, aqui está. Terra.
Que não se perca pelo nome, hehehe.
Hahaha.
Corpinho menos celeste que esse, só Chj403wnfwe, hehehe!
Hahaha!
Let’s get down to business. Que é que temos nesse muquifo, afinal?
Bem, senhor, nosso Controle Mestre começou a dar curto-circuito há mais ou menos oito desmembragens. Ou seja, o equivalente a alguma décadas do tempo em voga na titica terráquea.
Quais foram os sintomas esquizotímicos saltitantes impugnatórios?
Ai é que está. O Controle Mestre a princípio se mostrou relutante e desembestou a esgoelar numa vozinha aguçada indicando impedimento vital, joelho torto e, como nosso Reportador Termoenigmático acaba de confirmar, demônio conceitual carcado fundo na alma.
Hm... Parece sério. Acionaram a Embreagem Imanifesta?
Obviamente, senhor. Foi a primeira ação. Em seguida convocamos nosso Consultor Escarlate Contranatural.
Entendo. Esta manchinha vermelha aqui, não que diga que...
Infelizmente sou obrigado a confirmar, senhor. Trata-se dum pseudoperiquitinho em involução de desaprimoramento desenquestante sob obstinação onividente com estertores miatórios e alucinações de prego feliz em levar marteladas na cachola. Na verdade, um caso assaz insalobro de passa-não-pássaro-passado em distraído estado de gestão genésica não obituária.
Hahaha! esquecemos de rir.
Esquecemos, não senhor. Só rimos baixinho pra ninguém escutar.
Chega de papo furado. Que medida foram tomadas até agora concretamente?
Bem, temos esses fulaninho aqui...
Como é que é...? Shoik... Shik...?
Shakespeare, senhor.
Tá bom. Aí vamos passando por esse monte de...
Esse tal de Freud até que se aproveita alguma coisa, senhor.
E qual era a dele?
Falou alguma coisa sobre sublimação...
Hahaha.
Hehehe.
Mas que lástima.
Pois é, senhor. Completa.
Voltemos ao nosso quadrilátero. Que é que tá pegando nessa merda?
Bem, senhor, o que nossos superultrahiperultrasuperultrahipercomputadores levantaram até agora é que estamos diante dum daqueles... daqueles... ...casos...
Não!
Sim senhor!
Puta merda, será o benedito?
Sinto muito, senhor.
Quer dizer que o fedepê num acredita em porra nenhuma?
Absolutamente, senhor.
Nenhumazinha?
Nenhuma, nenhuma, nenhuma, senhor.
Filho duma égua! Esses caras ainda vão dar um Grande Crepe no Universo!
Companheiro, tem hora, até me pergunto, pra que enguiçar desse jeito? Não podia ser feliz e burro como todo mundo?
Pois é, senhor. Me faço a mesma pergunta desde o século oitenta a.C.
E se simplesmente tacássemos fogo no infeliz e fôssemos dormir, que já passa das nove?
Senhor, devo lembrar que o último que incineramos, o tal DUeadasfU393a, deixou ovos ocultos debaixo do coelhinho da páscoa e nunca mais fomos capazes de acertar o relógio do universo. Ai que me arrepio!
Ui! Mal posso lembrar! PQP, a receita dessa bosta tá desandando faz milênios. Pior, agora não dá pra voltar atrás.
Mestre, me permitiria uma sugestão?
Uma, duas, um milhão! Minha cuca tá detonada depois desses trilhões de anos em vão. Manda!
E se desse um undo?
Como assim, undo?
Control zê, mestre.
Con... z... Ai que me arrepia! Nem me lembrava mais desse comando!
A solução às vezes tá tão perto, ne?
Só.
Pois é...
Control zê...
Até me lembro, esse titica nesse quadrilátero nesse planetinha de merda, ele sabia dar um control zê.
Agora me lembro! Foi quando essa história começou a me atazanar a paciência.
Foi.
E faz algum tempo que ele vem tentando...
Oh poor thing. Por que não disse antes?
O senhor andava tão atarefado, os rolezinhos, o Haddad, a inauguração da Copa com uma cabeça dos decapitados do Maranhão...
Manda ver, cara! Let the show begin!

Só, mestre…

Fifteenth of the Year

Enfim nos reduzimos ao mundo verbal em que todo mundo e a ocupação do metrô na hora do rush tagarela sem parar, respondendo ao impulso oral, não dando lhufas a que suas palavras tenham ou não sentido.
Eis que somos enfim nossas palavras. E, a julgar por elas, não somos grande coisa. Até há pouco ainda líamos Shakespeare e tínhamos respeito pelos mestres da língua. Hoje somos os mestres. De quebra, derrotamos a língua.
Se parla pelos cotovelos internet afora atendendo a uma comichão universal de botar pra fora. O que exatamente, ninguém sabe, ninguém liga. É a oralidade inócua, externação do produto dos músculos da mandíbula, interminável novena de cochichos. a mais entediante reza do terço do mundo.
Línguas coçam, olhares sonolentos acionando dedos que não sabem ficar quietos, disparam tecladas mecânicas.
Os falastrões estão no comando. Ninguém mais tem rosto, background ou história. Não queremos mais saber com quem estamos falando. Muitos sequer mostram a cara, o que, queiram admitir ou não, é um absurdo. No mundo concreto ocultar a identidade é sinal de más intenções. Neste, não é sinal de nada.
Nada é sinal de coisa alguma.
A razão é óbvia: assim os personagens ocultos sob o “anonimanto” podem vestir suas fantasias e brincar de grandes. Grandes qualquer coisa. Ou aproveitar para se mostrar pequenos como nasceram.
E o resultado concreto da universal presepada qual é? Nenhum. As mentiras virtuais são mero reflexo das convencionais. O mundo continua a desandar como sempre, o angu vem insosso como nunca. E o sabor de superficialidade nunca passa.
Tal como lá fora, erros não são reconhecidos. Fanfarronices são ignoradas. Não há desafios, a ação segue desestimulada. A parolice malemolente acoberta o conflito – tal como lá fora – a fajutice da nossa democracia que não permite que uns se mostrem melhores que outros vai solapando intelectos e personalidades. A internet deu uma voz a cada um. O vestibulando se acha no direito de ensinar o mestre, a noção de mérito se perde, ninguém se avexa de palpitar, nas escolas alunos espancam professores.
O Grande Fórum é de fachada, ninguém corre riscos, os tiros são de festim, o debate é um simulacro, um congresso nacional em miniatura em que as grandes questões são deixadas de lado enquanto os congressistas de chamam de Va. Exa.
A polêmica hiperrecheada de gabolice está vazia. Como no mundo de verdade, a cacofonia de cada voz se perde em ensurdecedora harmonia. Esta arena é feita de peças e personagens Lego em que os participantes simulam uma guerra de mentira onde o sangue é feito de suco de tomate.
Entrementes o sangue prossegue a esguichar nas ruas de cada cidade, se derramando para alagar cada esquina deste Brasil varonil em que os amestrados de Painho Lula só pensam em comprar o próximo modelo de tevê de CL.
Sangue, eu disse? Pronto, os poucos empedernidos que ainda me liam acabam de ir-se embora, enojados que um chato insista em cagar na mesa repleta de cristais cheios até a metade de Don Perignon da sala de jantar de mogno extraído da Amazônia.
Dizem que o facebook já ultrapassou a marca do primeiro bilhão de membros, e parece que faz algum tempo. Em breve todos os viventes que tiverem um PC estarão “curtindo” something somewhere someday somehow. Estraga-prazeres como eu não têm vez nessa maravilha do novo, admirável mundo. Tenho essa terrível tendência a melar as relações cordiais do distinto público. Afinal tudo que todos querem é preservar esse estado hipnótico em que fazem uma mediazinha mútua, puxando o saco uns dos outros, trocando figurinhas enquanto teclam sonâmbulos.
Preclaros senhores e senhoras, não se preocupem, contudo. Para alegria geral do povão hipnotizado, em breve não haverá mais chatos no mundo online. Os espíritos irrequietos, e inquietos, muitos dos quais ao longo dos nossos cinco mil anos de civilização fizeram questão de se rebelar apenas pelo prazer do espírito-de-porquismo, hoje têm assessoria de imprensa, escrevem na Folha e se deixam tratar com honrarias de celebridades.
Quando você um dia sentir falta duma voz desafinada no eterno coro dos contentes, puf! Já era. O facebook e congêneres terão reduzido a dissidência a paçoca.
Então será tarde, baby. Só te restará se resignar a dormir online.

Fourteenth of the Year, dio porco

Antes de mim
As pessoas não dormiam chorando
Nem deixavam portões abertos ao passar sorrindo distraídas de alegria
Não cochichavam entre si, com dissimulação estudada, o que pareciam ser os mais obscuros segredos possíveis entre dois seres, só para causar inveja em quem eventualmente as observasse
Não cultivavam diligentes, não levavam até o túmulo uma visão fugaz que um dia as impressionou na mais longínqua infância
Tinham coração e não deixavam que se despedaçasse tocado por vozes de fada sob terno olhar ou gratuito escárnio, uma dessas pequenas derrotas do dia a dia, uma jura de vingança ciciada entre dentes por lábios que ainda ontem  foram beijados com apaixonada doçura
E as ruas eram ladeadas por calçadas de pedras que não se deixavam polir por séculos de solidão


Antes de nós
As pessoas não choravam nem riam
Não havia portões nem alegria
Nem calçadas nem ruas
Eu não olhava para trás


Durante você
Ganhei da vida um presente
Carregado de sentido
Quando por dentro me revestia de nojo
As esperas vãs deixaram de ser vãs
Pra quem contava com a caridade alheia
Um desformigamento
Desconfuso
Pardais não grilavam de noite, grilos não cricilavam de dia
Um risinho matinal nasceu nestes lábios sempre tesos
O antipiloto abandonou seu posto



Depois de nós
O dia nega a noite
Nada por que, ninguém a quem pedir socorro
A espuma do vestido de renda já não se derrama ao redor dos teus pés na grama verde do parque em que os velhinhos jogam damas
Espero sem esperança
Poeta paroxítono empalhado em minha cadeira giratória
Olhos pétreos pros teus olhos que um dia foram de rapina
Boca aberta pros teus seios secos
Esquecido do que raios mais vasculhar

Fourteenth of the Year

Acho que chegou a hora
De contar um dos meus
incontáveis segredos
Um que aprendi menino
Quando 'inda sabia o mundo
Quando não tinha desaprendido
O que havia de bom
E me tornar o analfabeto da vida
que hoje sou

Estava aqui
respirando
E me lembrei do segredo
em que nunca mais tinha pensado

Deve haver uma razão para esse esquecimento
Como há razão para esta lembrança

O segredo, que o menino sabia e
O homem esqueceu
É que não existimos à toa
Não, não se trata de nada esotérico
Nem metafísico
ou cabalístico

Desde então tive
ojeriza por tal noção
Pois à medida que me graduava
no analfabetismo de ser
Este sujeito
culto, sagaz, sofisticado
aprisionado sob os próprios
critérios científicos
Este pobre-diabo inepto para o
prazer
Este auto-esquecido que de repente
me tornei

E é, o segredo, duma verdade tão,
Mas tão simples
Que fácil se diluiu nos delírios
Da minha destrambelhada cabeça
Sumindo como se nunca me
tivesse ocorrido

Existimos para amar
E quando não amamos
Nos esquecemos
Da razão de existir

De existir