A A de Poá

Não há absolutamente nada de arrogante em propagandear nossa arte.
Mas o que sem dúvida existe é um pudor — ou dor de cotovelo, se você preferir — generalizado, uma má vontade das pessoas perante aqueles que criam.
As gentes por aí discorrem sobre Shakespeare, Goethe, Kant, Machado, Carlos Zéfiro assobiando e chupando cana, como se tivessem devotado décadas de estudo a cada um desses gênios.
Mas se um retumbante desconhecido como eu aparece c’um trabalho para debate, todo mundo e sua esposa olha pr'outro lado fazendo de conta que não viu.
Por que será que é tão mais fácil elucubrar sobre os medalhões e não tomar conhecimento dos peixinhos pequenos? Será que carinhas temem encher a bola dum de seus pares? Reconhecer num desconhecido algum talento e/ou autoridade?
Me parece que um dos problemas é que tendemos a sacralizar a literatura, elevando-a ao nível do etéreo e do divino, como se o que criamos não se prestasse ao consumo dos pedestres.
Receamos que equiparem o que fazemos a caixas de sabão em pó. (Eles, os “experts” em Shakespeare de fato o fazem e esnobam os criadores. Mas isso não deve te impedir de mostrar ao mundo teu trabalho.)
Os guardiães da Grande Arte querem que vivamos à sombra do Cânone. Pécora, crítico literário, decreta que não há mais literatura possível no século 21.
Então o que é que faço com minha compulsão a escrever?
Chega uma hora em que você tem de mandar todo mundo e sua prima se foder.
E essa hora chega rapidinho pra quem, como eu, precisa se expressar. À revelia dos eternos “críticos”.

DM, desparabéns a você

Me diga:
por que quanto mais envelheces, mais jovem é teu coração?
Voltando à terceira pessoa:
Não costumo parabenizar.
Em geral não vejo por quê.
Em geral não vejo quem.
Não gosto.
Também deve saber:
Não faço — nem sei fazer
E quando faço, faço mal
O que fazem todos
Porque todos fazem.
E não costumo parabenizar
Não só por aniversários.
Não costumo parabenizar
por nada.
Mas adoro lamentar.
Você sabe a terceira vez:
de espírito sou tão pobre.
Vi teu lembrete e
Me pus a ponderar:
Devo? Não devo?
Ponderar é modo de dizer.
O não não me passou pela ideia.
Como não deveria?
Que raio de parabéns é este
Em que falo só de mim, deixando
a aniversariante de escanteio?
Quanta frescura.
Mas que fricote.
Puro narcisismo dum infeliz
Cabotino.
Você de certo tá meneando a cabeça,
Nos lábios um sorrisinho entre
Decepcionado e irônico,
Talvez meio assombrada com
Um sujeito tão desajeitado e
Sua espetacular queda para
Gafes.
Voltando à segunda pessoa:
Tens toda razão, cara minha.
Se te fiz rir, por pouco que seja,
Me considero recompensado.
E se quiseres cair na gargalhada
Hoje é teu aniversário
Tens todas as razões para rir
Pois és tão especial
Eu, para agradecer tua amizade
Em O mercador de Veneza
Gratiano consola Antonio:
“Com alegria e risos, que venham
as velhas rugas”
Deixei o Bardo para o fim
Imaginando, será melhor assim.
Se desparabéns não sei começar,
Teus desparabéns nunca saberei
Terminar.

Ai que bode

Vejo online entrevista dum tal Luís Augusto Fischer. Apresentado como “professor, crítico e ficcionista”. Percorro até me atrair por uma pergunta:
“Como o sr. avalia o trabalho crítico de Wilson Martins?”
A resposta começa assim: “Era muito interessante...”
Bato asas e voo.

Sob Shepherd Boy

Vamos trocar umas ideias hoje à noite?
Prometo me comportar.
Conter minhas wilzisses.
Disfarçar minha morbidez.
Não dizer que te amo.
Não brigar por nenhum motivo — pode me provocar à vontade.
Ser carinhoso.
Atencioso.
Fraterno.
Compreensivo.
Domarei minha agressividade.
Hostilidade.
Imbecilidade.
Animalidade. (Quesito a teu critério.)
Vamos trocar umas ideias hoje à noite.
Prometo fazer todas tuas vontades.
Espontaneamente.
Como se fossem minhas.
Sem sarcasmos, ironias, deboches e outros sinônimos.
Vamos trocar umas ideias hoje à noite.
Prometo me comportar.
Conter minhas intoleráveis idiossincrasias.
Rir quando me pedires para rir.
Ficar sério nas demais ocasiões.
Vamos trocar umas ideias hoje à noite?

Horizonte que me habita

Sou um cocheiro
Da caravana
Que passa
Sou um peregrino que
Olha a caravana
Sonhando que
Dorme sob os latidos do cão
Que ladra

Ele voltou XV

...continuação de...

A informação dada por Giraldi é falsa. Ele apagou os arquivos do livro. Sessenta anos de experiências foram para o ciberespaço. Processo o disco com o restaurador, não será possível recriar tudo aquilo. A memória tenta lembrar que começava no dia em que papai foi à escola a primeira vez. E terminava dizendo que estava começando a pôr seus princípios em prática. Visão imperial. Parou de escrever em 20/10. O protagonista, o contador, é funcionário público. Não paga suas contas, vive perseguido por credores. Parece raquítico e frágil feito drummond, o em-sessenta-por-cento-dos-casos-chato. Roubou tudo o que tem da empresa onde trabalha mas nunca deu nada à família. Com o dinheiro construiu uma mansão nos Jardins para a amante. A mulher tinha visto a fotografia dela no computador dele, pegara o 38 que ele guardava em cima do guarda-roupa e esvaziara o tambor no descarado. Veja, ele é este aqui neste velho álbum. Sim, esta é a casa antiga. A mulher é esta, a amante é esta. Papai fez uns comentários a respeito, disse que foram encontrados mais de cem documentos na mansão. Os colegas do contador também estão envolvidos. É o caso típico em que o sujeito vive dois mundos, duas vidas, dois eus mas você sabe que a verdade não está em nenhum dos dois. Em ambos ele mantém um diário, num é o contador funcionário público de gestos comedidos e ar medíocre cuja maior aspiração é que ninguém o note, noutro é um pleibói que adora fazer com que os outros sintam seu prestígio e seu poder, esnobe, fanfarrão e mulherengo. Na segunda vida um dia começa a plantar indícios de que esconde de todos uma vida secreta. Faz de conta que tem atividades clandestinas, que guarda um grande e inconfessável segredo, mas que obviamente não é sua primeira vida. Quando se assegura de que todos estão com a pulga atrás daquele lugar em que as pulgas vivem nesse tipo de situação começa a plantar pistas mais significativas, cada dia mais, de repente todos veem claramente que ele é traficante de armas. Por algumas semanas fingem não saber, ele finge que ninguém sabe mas sempre arruma um jeito de mostrar que secretamente é bandido. Em dois ou três meses todos comentam abertamente. Agora já não é mais boato. O Filhodaputa é um tremendo dum Filhodaputa. Quando sai para a noite com a amante bebe todas e se mete a exaltar as façanhas que perpetrou, chama sorrateiramente seus convivas a um canto e cochicha ter armas químicas, bacteriológicas, gases, pós, iunêimit. Sabe aquele atentado em Buenosaires, teve um dedinho do papai aqui. Sabe onde fica nosso depósito? Pasme: no Texas. Uma fazenda de pecuária. Nosso sócio é congressista, já foi indicado para a eleição ao governo do estado. O notívago contador funcionário público contrabandista fascínora sabe como tirar proveito do físico frágil. Safados magrinhos fraquinhos são mais assustadores do que brutamontes. Amazing world hein?
Como alguém com tanto talento para manobrar as anesílsones e suas fantasias de oliude a ponto de lograr que elas acreditem no que ele quiser que elas acreditem não se renda de vez à própria capacidade de realização e contente-se em colher os louros desse talento e decida-se a desfrutar dos benefícios produzidos por sua capacidade de manipular outrem que seguramente só se encontra numa em cada dez mil habitantes? Por incrível que pareça contador não é contador por opção mas por querência e como tal tem a mesma natureza medíocre de todos os contadores que já passaram por este planeta. E pior do que um contador com sua mediocridade só a mulher do próprio. Essa então é mais medíocre ainda. A bendita jamais desconfia que o marido está levando vida dupla (a esta altura, tripla). O homúnculo explica que precisa viajar uns dias, inspecionar os balancetes das filiais da organização, coisa a ser executada in situ, e ela, para não mexer com alemão, aquiesce. Quando você quiser embasbacar alguém, aturdir a ponto da pessoa nem quereresboçarreação, tasque-lhe grego. A primeira vez que ele usara o estratagema a mulher estranhara, puxa da outra vez você disse que precisava ser in loco, agora tem de ser in situ? Deixe-me então explanar, é que as coisas andaram mudando lá na repartição, e você sabe, explanar é bem mais eficaz que explicar. Parece que vai ser assim de agora em diante: ora dum jeito, ora de outro.
Por que ele não deixa de vez aquela vidinha ordinária com suas prescindíveis injunções, insignificâncias, marasmo, sensaborismo? Ele bem que tentou. Mas sentiu falta dos seus balanços. Do horário. Da existência regrada. Da patroazinha que não fazia outra coisa além de esperar a morte chegar. E depois viciara na duplicidade, descobrira-se um ser plural, Porra sequer imaginava que o bom mesmo é jogar em várias frentes, quando você cansa dum personagem muda de roupa, muda de casa e voilà vira um caieiro da vida e desvira aobelprazer e vira de novo. Só não acha bom quem nunca experimentou.
(Procuram-se voluntários para ser pessoas diferentes. Os mais bem-sucedidos receberão prêmios.)
As pastas com os documentos sobre o tráfico de armas estão na mesa de Giraldi. A do topo é sobre Taiwan. Depois vêm China, Canadá e affelandrepublik. Embaixo do nome do país está anotado o nome do respectivo autor. Giraldi apanha as três primeiras pastas e guarda numa gaveta da escrivaninha. Abre a quarta pasta e retira um calhamaço. Na primeira página está escrito Diário. Na segunda, Construção dum computador celular. Circuitos biológicos. Transporte dos mecanismos genéticos para a nanotecnologia. Fusil de alta precisão com mira a laser. Transistor de pentacene.
No auge do sucesso, todo o mundo admirava o estilo modesto de Giraldi. Seu grande personagem foi moldado quando ele fez quarenta anos, tendo atrás de si uma história bem construída, mas hoje vive acoçado, diz sofrer ameaças, reais ou não. Não há nenhuma implicação de fraude literária, tudo se resume a competência profissional. Giraldi nunca publicou porque alguns meses antes um romance quase idêntico chegou às livrarias. Tratava de outros assuntos mas usando quase as mesmas palavras. A capa também se assemelhava, um anjo no cio vertendo sangue pela vagina dando à luz uma hiena de cuja boca despontavam as asas dum anjo. Giraldi imaginava estar ficando maluco com o excesso imaginação. Cogitou lutar. Não via como. Começou a digitar furiosamente, certo de que a resposta estava em algum lugar nas dezenas de discos rígidos de cem tera cada um. Os arquivos somavam bilhões de trilhões de palavras, ainda não descobrira uma fórmula científica para classificar tudo, mas a informação estava em algum lugar. É real ou não? a pergunta não se dissipava. Tinha de se policiar, arregimentar um exército de leitores, muni-los de chaves para os códigos criptografados e permitir que se desenvolvessem à excelência das normas industriais. Em breve o público, cansado da guerra infinda contra os contrabandistas paraguayos e anestesiado com a rotina da neve que não parava de cair havia décadas perderia o interesse e a memória do computador ficaria a zero. A sucessão de bytes alinhados ao acaso estava fugindo a seu controle. As frases adquiriam formas indistintas que em apenas algumas centenas de parágrafos perdiam a capacidade de articulação e, daí, a inteligibilidade. Os críticos logo estranharam o tom cru cuja falta de reverberação violava as leis literárias conhecidas. Morte. Aleatoriedade. Morte. Giraldi foi instado a defender a obra por vários críticos e professores em vários jornais e revistas, até na tevê. Às vezes pensava em se manifestar mas a velocidade com que o computador jorrava texto na tela não permitia. Em apenas algumas horas dúzias de versões do romance eram geradas, baseadas em experiências diferentes e verossímeis, colocando inesgotavelmente a esperança e a promessa de que o próximo, o próximo e o próximo seria melhor que qualquer coisa que jamais fora escrita. Sabendo que a utilização de números genuinamente randômicos acabaria por produzir uma sucessão arbitrariamente bela de caracteres, Giraldi pôde prever que estava perto do que, poder-se-ia dizer, seria o mais próximo da verdade. Passados alguns dias nesse caleidoscópio wagneriano, pensou que podia concluir que tudo estava no reflexo do olhar. Você pode estar certo, o pai respondeu quando ele telefonou para contar. Envie uma cópia, o pai pediu. Ele enviou. A cópia é esta contida neste envelope que ele nos deixou. Será? O pai anotou no diário que só voltou a falar com Giraldi, e mesmo assim muito brevemente, na manhã seguinte, ele disse que não estava suportando mais a impaciência. Às vezes os romances que saíam eram exatamente os mesmos, descrevendo absolutamente a mesma curva. Em alguns seguintes faziam-se pequenas substituições de nomes de personagens ou falas, minúsculos enganos calculados eram introduzidos. Na tarde do dia seguinte a aml anunciou oficialmente que acusações de fraude seriam apresentadas contra Giraldi com base em estudo de 130 mil livros envolvendo quase seiscentos mil personagens. São as algoestruturas, Giraldi anotou no diário. Tenho de admitir, cometi muitos erros, escreveu na mesma nota. A dada altura os personagens descobriram uma forma de criar seus próprios romances a partir do próprio computador de Giraldi. Ele estava em dúvida se devia ou não permtir que levassem aquilo adiante. Talvez conviesse destruir tudo antes que fosse tarde. Tarde para quê? o pai quis saber exatamente. Sou eu quem deve decidir qual é meu papel. Somos todos iguais apenas na aparência. Os efeitos gerados em nossas vidas são apenas experimentais, escreveu um deles no diário. Qual, precisamente? Uóxito. Giraldi tentou regredir no código do programa primeiro linha a linha, depois construct por construct, algo por algo, função por função, depois procedimento por procedimento, depois unidade por unidade, deveria remover tudo que atribuísse independência autônoma aos personagens, construíra um mini-big-bang miraculoso praticamente sem querer, os personagens punham sítios no ar, forjavam identidades em portais, desenvolviam motores de busca. A comissão que a aml encarregara de acompanhar o caso acreditava que Giraldi, ou sabe-se lá quem, alterara o código pelo menos três mil vezes mod três mil vezes vezes oito em tipo integer, procurando atingir um estado de autoalgoritmização intra e intermolecular que não deixasse pistas. O país começava a encolher sob os ataques dos traficantes paraguayos nos diversos frontes. O presidente do país vizinho já fazia discursos em que deixava clara a ambição de nos dominar de la gran sabana ao canal de beagle. A remoção do código de aleatoriação genuína se fazia imperativa. A maioria dos geradores de números randômicos produzem o que é conhecido como ruído branco, george, o último protagonista, confidenciou. Você pode pesquisar meu nome quantas vezes quiser mas não conseguirá me extinguir. Sou mais rápido que você. Giraldi a princípio pensou que as substituições poderiam ter acontecido por engano do próprio computador e chegou a ficar animado. A alegria vai durar pouco, george riu. A natureza recorrente desses enganos indica que você perdeu o fio da meada. Não sabe mais em qual formato o programa está produzindo o código e, pior, de que forma cada parâmetro será interpretado e executado e, pior ainda, por qual compilador rodando nas máquinas. Toda vez que solicitar um expurgo de dados do servidor uma nova onda de bytes randômicos inundará a rede, rearmando a trama geracional. Com as repetições dos procedimentos as identidades nacionais se perderam. O espanhol está invadindo incontrolavelmente o vernáculo. Leia os jornais. Ligue o rádio. Não adianta chorar com luela. Luela, imbecil. A comissão vai divulgar os resultados daqui a três dias e você está fudido. Nunca pensamos o que você queria que pensássemos. Não mais possibilidade de ressubstanciar o algoritmo, a obra agora está a nosso cargo.
O pai costumava dizer que Giraldi poderia ter imprimido os circuitos em plástico eletrônico, que em teoria não permitia a proliferação autoalgorítmica. Hoje em dia o plástico eletrônico é o único material cuja fórmula ainda não caiu nas mãos dos paraguayos e que ainda é capaz de registrar um instantâneo dum dado estado da rede. O plástico eletrônico é constituído de cristais de kloc obtidos através dum estranho método químico, lixiviação, sim, quando Giraldi mencionou todos torceram o nariz, impossível.

continua em...

For a While


V

Dormes
sorrindo
me ouvindo
por mágicas ondas digitais
chamando
chamando improvável
meu nome

Atendo surdo
teu mudo convite
nesta noite rubra
de corpos impalpáveis
e sonhos embriagados
de silêncio

GM II

Diz-me: que queres saber de mim e dir-te-ei incontinênti e com o máximo de honestidade que posso.
Posso mesmo assim continuar te dizendo o que penso de ti?
Do jeito que falaste, em tom de advertência, me senti terrivelmente indiscreto, estarei passando dos limites?
Me desculpa, é que me atrapalho com essas noções de autocontrole. Cedo ou tarde acabo chutando o balde. E a barraca. Espero que no teu caso isso venha a ocorrer o mais tarde possível.
Tenho escrito um monte de coisas sobre ti, para consumo próprio. Se preferires, posso prosseguir caladinho no meu canto te estudando sem te causar importunos com os  achados das minhas pesquisas sobre a minha nova flor.
Ah menina, sou tão viciado em fantasias, caminhões, trens, navios abarrotados delas, vivo em delírio quase constante, quando não fantasio me dá um vazio que me suga do avesso.
Por conseguinte, queria te alertar, outra vez: não me leva a sério demais.
Não, não que eu vá te dizer mentiras.
Isso já te alertei. Mas é que meu humor varia mais que relatório de sismógrafo na Indonésia em dia de tsunami. Quando eu disser bobagem além do razoável, promete que farás de conta que estás diante do versinho mais encantador que jamais viste na tua curta vidinha de fada? Não deve ser tão difícil, imagino, pra alguém tão gozosa.
Estás curiosa a meu respeito? Ai que lindinha.
Então serás a primeira ninfa que jamais se interessou por este carrancudo barbudo com cara de mau e alma negra.
Estou tão acostumado a gerar aversão nos outros. Mas isso na certa já percebeste desde meu primeiro parágrafo. Há décadas desisti de parecer minimamente cativante. (Promete: vais fazer uma forcinha pra que este "relacionamento" prospere pelo menos mais um dia? Me frustro tanto quando afugento com meus maus modos, minha patetice, minha verborragia abestalhada alguém que me tenha arrebatado.
Para fins de contabilidade amorosa, posso já adiantar algumas informações a meu respeito:
índice de carisma: zero absoluto.
Grau de pessimismo: mil.
Teor de toupeirice: máximo.
Jeito pra viver, sobreviver, amar, ser amado: nihil.
Mas por ti sou, juro, capaz de mudar. Te disse que sou capaz de tudo, não disse? Sou sim.
Tinhas razão, a diferença entre o veneno e o remédio está na dose.
Inocula em mim todo teu veneno. E então me dá uma gota do teu antídoto.

GM

Queres que eu não duvide do perfume que exalas?
Como? se soa a flor ora carmim feito sangue, ora negra qual as cinzas do incêndio amoroso?
Me pede o impossível, sem aspirar obedecerei
Pois sou capaz de tudo
Sou capaz de dirigir a mais destoante das orquestras
Que incendeie o ar com tua mais silente, singela sinfonia
Terás de te ausentar?
Como? por quê? se não estás presente
Um piscar de olhos é tão efêmero quanto a vida
Eterno qual tua ausência
Queres que eu não duvide do perfume que exalas?
Como, se me deste um beijo
Seguido deste medonho, protocolar “Abraço!”
E do imperioso, do categórico
Ponto de exclamação
Do adeus final?

Ele voltou XIV

...continuação de...


Tinha jurado parar de beber. Disse a mim mesmo, se puser uma só gota duísque na boca você é um estrume escroto pândego peidoreiro. Se voltar a se embebedar tomara que ela te deixe, que arrume o primeiro que aparecer — e olhe que pra ela é fácil como estalar os dedos.
Os neurônios ficam tantalizados com a ideia, enviam à garganta um nó que desce para o peito e resfria o estômago. Podíamos suportar qualquer coisa — bem, quase qualquer coisa —, menos viver sem ela, seria o mesmo que definhar qual um vira-lata desfigurado de padecimento, atormentado pela sarna do abandono, um fantoche horrivelmente solitário. Os olhos veem a cena, primeiro as pernas perambulando às tontas pelos cômodos da casa, o olhar se deixando perder inutilmente nos cantos das paredes, meia hora estudando essas teiazinhas de pó que se formam nos interstícios, de repente a atenção surpresa se dando conta de que os olhos estão ali de olhar parado no vão entre o sofá e o carpete, então a cabeça se sacode cinematograficamente, a voz fala alto como se houvesse alguém ao lado do corpo, a cabeça acha que tá ficando lelé mas um minuto depois se dá conosco em outro canto, outra teiazinha, outro vão, outro espasmo encenado de náusea, se demorar mais um minuto a loucura afogará a consciência, sonambulamente pernas pro quarto, as mãos puxam a calça por cima da bermuda, os pés se enfiam nas havaianas, a memória tenta puxar vagamente que há alguns anos havia um cuidado com a aparência, até desprezava esses caras que vão a qualquer lugar maltrapilhos como se não conhecessem o valor do asseamento, tudo bem, tá todo mundo ligado no mundo interior, elevando sentimentos à máxima potência, aqui do lado de dentro foi o que nos sobrou, antes ser que ter, é verdade, precisamos logar o autocontato, o que importa é desenterrar o eu profundo, ter qualquer um pode ter, olha hoje em dia você tem de ser você mesmo, checar quem é verdadeiramente, todo o resto é supérfluo, quem não julga os outros pela superfície? mas cumpre cultivar um respeitozinho ao próximo senão vira bagunça, há de ter um mínimo de compostura, o problema de hoje é os extremos a que chegamos para alcançar uma chance de exercer a liberdade individual, antigamente era bom porque o coletivo vinha em primeiro lugar, se você se esculacha tá logo dormindo na rua entre mendigos e nem percebe, nossos amigos me chamam burguês, que papo mais anos setenta, dizemos, dizem, dizemos mais alto, essa é boa, burguês, era coisa de gente que delirava com o comunismo, somos todos burgueses, vira homeless, se descuidar morre de beber, vai pro institutomédicolegal, acaba sepultado como indigente, quem? eu? Logo eu que fizemos faculdade na usp, nos bons tempos ninguém ganhava de nós no gogó, discutia qualquer assunto, mandaí, atirava insolente o queixo contra o intelectualóide do outro lado da mesa entulhada de antárticas vazias, diz mermão, por que os milicos portugueses deixaram de apoiar a unita permitindo a debacle do cabral em angola, o ouro sempre terá valor para a elite porque esses porcos também precisam de fetiche, igualzinho às costureiras, guarda-noturnos (guarda-noturnos?) e torcedores do coríntians, os heterônimos do pessoa não podem ser explicados psicologicamente, eu enterrado como indigente? além do mais somos bem-apessoado, sei o nome do papai da mamãe até dos nossos avós (menos o materno parte pai), não queria ter de apelar mas bem ou mal temos linhagem, sem querer abusar, sabe-se que vale Merda, tudo bem que as mãos dão valor a estatos, me comparar a esses marcianos que vivem morrendo pelas ruas é descabido, só pra você ter uma ideia, papai já foi dono de escola, tudo bem, era de datilografia mas escola in its own right, embora isso tenha sido antes de eu nascer, escola na devida acepção, tudo bem que logo depois de eu nascer escafedeu-se, mamãe teve de morar em casa emprestada, depois com minha tiaeva, aí fomos parar naquele cortiço em que ela era obrigada a… bem, eu tinha de… enfio os pés nas havainas pensando, não podemos ficar mais um segundo aqui dentro senão piro, vamos dar o pira, saímos pra rua malajambrado, fôdasse, nego tem que ver o que com nossa vida? e se embobar as mãos damo vexame memo, precisoextravasar, o nó no estômago subiu de novo pro peito, só poder ser enfarte, o cara tá com uma dor encalacrada, sem mais nem menos cai duro, não extravasou dançou, tem que pôr pra fora, não interessa, ficar engolindo essa Merda pra quê? se na hora me achar no direito vamos pro meio da rua e paro o trânsito, subo na capota do primeiro carro, abaixo a calça, a bermuda, minh’alma saponácea precisa platéia, temos muita coisa guardada aqui dentro, ficaria bobo se soubesse, segredos que jamais contei a alguém, desde pequeno, sabe que todo dia a memória tenta lembrar o primeiro pensamento lúcido que tivemos na vida? coisa de crânio, temos umas visões do balacobaco, termo forte, tô sabendo, fazer o quê? um dia, ou melhor, uma noite, tô deitado, tá escutando? tô deitado na cama pra dormir, um segundo antes de o sono chegar passa um filme pela nossa cabeça, bem, pode chamar de curta-metragem — não, documentário não — no dia seguinte conto pra mamãe, que falou: foi sonho. Mas não foi não, era premonitório, vimos limpidamente em três dimensões como no cinema o quênede levando uma azeitona na cabeça, embora o que mais me tenha causado espécie foi a gostosa da jáquie, que mulheraço, c’uma mulher daquela eu também encararia liôsval, jaquezinha senta no colinho do guardacosta enquanto o liôsval não vem, é cê vai dizer, tinha de ter uoliú no meio masquequepossofazer? tá vendo, ainda temos a manha de me defender expondo detalhadamente nossos argumentos, outro diria o que tem a dizer, daria as costas queimando o chão, olha tinha só 2 ½ anos mas de repente ter telefonado ao efebeí teria salvo o marido da jáquie, ui! jaquezota tô plugadaço na tua fleumática Xoxota que não derramou uma lágrima em público, se for verter me chama que enxugo, dá aqui esse lencinho branco de cetim, deixa cair que pegamos, as pernas entram na tevê e me enfio debaixo dessa tua saiona preta de luto te aliso todinha negra rainha da morte esvoaçando na penumbra do nosso quarto e desassombrando nossas noites de rostos sem rosto de insondáveis sorrisos, de repente entra a marcha com deus pela liberdade, mas se nem mamãe acreditou por que você haveria?
Escuto uma buzinada na rua. Vamos olhar. É o motoqueiro entregando pítsa no vizinho. Em dia de semana, fIlhOdapUTa. É quartafeiradecinzas por acaso? Já sabe-se. Como não pensamos nisso antes? Uma bomba. Melhor: cianureto. Morte lenta. Pode levar três dias. Se a dose não for cavalar. Mas não dá pra pôr uma dose cavalar numa pítça. Mesmo que seja de gorgonzola. Nosso, só italiano pra gostar daquela merda. Sim, nosso vizinho é paulista. A maior solidão dum paulista é conversar com um nelsoniano. Isso porque você nunca foi em casa dum sábado à noite pra traçar uma de alitche e muçarela com rios de coca. Suprema experiência da autoimolação. End da vida. Para o cara, o paroxismo da celebração, olhinhos hipnotizados do casalzinho de guris assistindo enquanto papai executa o ritual do fatiamento, a esticação dos queijos derretidos (você sabia que uma fatia de pítça de muçarela de búfala pode esticar do chuíaooiapoqueaochuí?), a turma tomada dum acesso nervoso contido pelo cheiro combinado da azeitona com as bordas queimadas da massa, mamãe apressa-se a ir buscar guardanapos, guardanapos de pano, ai mamãezinha gostosaça essa dos filhos do vizinho, que gostosona tem o vizinho, que tetões suculentos os da mulher do vizinho, onde esse FiLhOdAPutA foi arrumar essa dona saborosa, se tivesse uma mulher dessas, deixa que eu seguro teus tetões enquanto você distribui a de atum, vamos lá, uma pro chefe da família, uma pro zezinho varão da família, uma pra mariazinha donzela da família, entrementes dê aqui esse guardanapo de pano que o corpo fica limpando essas excreções de molho de sangue premenstrual atomatado à la tarantella, melhor elessedê.

continua em...

DM CXXVII

Dizem tantas coisas.
Uau! Quem?
Oh dear, todos eles.
Pois têm línguas e não se fazem de rogados. Nem do que odeiam se fazer.
Terão medo de que suas línguas um dia atrofiem por falta de uso?
Melhor não arriscar.
Se atrofiassem, ficariam as incansáveis, serpeantes línguas como seus cérebros e seus corações.
Mas o que é que essa gente toda tanto diz, afinal?
Gosh, dizem tantas coisas.
Tantas, que seria impossível enumerar tudo que essa gente tanto diz.
Só não dizem que são maníacos do dizer.
Aí seria dizer demais.
E esses seres que tanto dizem podem ser tudo menos idiotas.
Okay, já sabemos: eles dizem muitas, muitas, muitas coisas.
Mas de novo: o que é que essa gente toda tanto diz, afinal?
Não daria pelo menos para exemplificar?
Provavelmente.
Não, de certo.
Daria, sim.
Por exemplo, entre tudo e tanto que dizem sem parar desde quando nascem até o dia em que suas elétricas paramétricas línguas enfim jazem caídas para sempre, dizem que a vida é uma luta.
Alguns vão além: a vida é nada mais nada menos que uma guerra!
Uuuu...!
E, dentre todas as coisas que eles tanto dizem tanto, tanto, tanto, dizem, veja só! dizem que a base de toda a vida é o merecimento!
Não! Não dizem, não!
Dirão barbaridades darwinistas assim?
Dirão, sim! E como! e, quando dizem, dizem solenes, a boca cheia do que se enchem as bocas, a língua viscosa estalando despudorada saboreando a verdade, baba babando babosa sem pejo nem continência enquanto os babões balbuciam aos borbotões suas baboseiras.
A base de toda a vida é o merecimento! eis o que mais dizem.
Que digam! digo eu.
Podem até estar certos.
Que sei eu?
Não sei quase nada.
Não passo dum garoto envelhecido que desde seu primeiro dia nesta Terra optou por duvidar de tudo que tanto lhe dizem.
Enquanto eles, de tanto, mas tanto dizerem, acabaram todos surdos ao que dizem.
Que digam! insisto.
Digam e digam e digam até caírem duros, com as orelhas entupidas de suas bombásticas declarações.
E enquanto dizem e dizem e dizem, fico aqui no meu cantinho, a me perguntar:
Se a base de tudo é o merecimento, por que DM gosta de mim?