Para amanhã ao acordar, sei lá que hora, não me acusar de autotraição


Melhor que dar um beijo é sentir a aproximação da boca do outro.

Melhor que dar a mão é estender a mão.

Melhor que esnobar é PODER esnobar e NÃO esnobar. 

Pior que dar a facada é apontar a faca.

Onde estão todos?

Não se angustie.

Todos estão onde todos estão.

(Que é que você acha de eu encerrar esta postagem exatamente aqui? Se o fizesse, você ficaria sem entendê-la mas eu, em contrapartida, faria alta literatura, embora para consumo estritamente pessoal, e, de minha parte, estaríamos conversados e, de sua parte, seu olhar buscaria rapidamente uma base, mas, você sabe, um escritor, grande ou pequeno, não deve se preocupar com a parte alheia. Na literatura, o problema do leitor sempre será do leitor.)

Naquela minha épica era de garoto solitário, todos estavam no salãozinho de reuniões do conjunto de casas e eu estava somewhere alhures somehow conversando comigo mesmo tentando abraçar essa imensa solidão que nunca coube em mim e encostar os dedos das duas mãos do outro lado, negociar, ver se ela, por uns momentos que fosse, podia me aceitar como digno de misericórdia, me dar uma trégua assim de colher de chá, que mal podia haver? eu não era tão ruim que não merecesse uns minutinhos de alívio, mesmo na farta escuridão da rua, longe do salãozinho de reuniões onde todos sempre estavam e não poderiam estar senão ali.

Todos continuam onde sempre estiveram e ainda assim continuo me surpreendendo que todos sejam e tudo seja assim.

Eu também.

Meus braços continuam enlaçados na ampla pança deste mostrengo da minha solidão e continuo a tentar que as pontas dos meus dedinhos se encostem do outro lado.

Posso, como sempre, ouvir seu coração palpitar. Sentir seu cheiro de suor. Ouvir seu hálito entrando e saindo por sobre meus cabelos.

Fomos feitos um para o outro.

Eu, para a minha solidão. Minha solidão para...

Oh não.

Casa cidade



Entre minha cidade,
A cidade que é minha,
E a cidade vizinha
Há outra.

Cidade em que entre uma rua e outra
Há outra
Entre uma casa e outra
Há outra
casa que é minha
à casa vizinha.

Não há parques nas redondezas e eu não ligo

Você pode rir e quem sabe eu até acabe rindo com você, não sou duro como gostaria, foram décadas de frustração tentando imitar os mocinhos altos, loiros, de olhos azuis daqueles faroestes de bolso que comprava às dezenas na banca de jornal na esquina de casa. Hoje vejo que queria não apenas macaquear os estereótipos de herói da subliteratura americana, mas queria acima de tudo que um dia em minha vida — um que fosse, de toda minha vida, do começo ao fim — pudesse ser simples como aquele da chegada do misterioso forasteiro num vilarejo no meio do nada que, com sua mera presença, instituía a civilização, escorraçava  os bandidos e de quebra amolecia o coração de pedra da sofrida mocinha que aos parcos 19 anos, tendo experimentado nada mais que percalços em sua brevíssima existência, já decidira que viver é lutar e que seus grandes, belos olhos, também azuis, que lembravam as taças de champanhe dos cabarés parisienses jamais haviam avistado uma única evidência de que existia no mundo algo suficientemente belo para ser avistado por seus grandes, belos olhos eternamente azuis.

Era uma dor palpável como a mesa da cozinha. A cabeceira da cama. O chão de pranchas de ipê. As venezianas apodrecendo na janela. O frasco de desodorante Avanço esguichado às pressas na noite de sábado como se em meu céu houvesse potencialidades.

Se Maharishi Mahesh tivesse então emergido de Within You Without You que tocava obsessivamente em minha vitrola xadrez e me ensinasse que tudo que eu precisava era aprender a morrer — e me convencesse —  eu teria me consentido a crer num deus, indiano, católico ou o que quer que fosse. Alegremente.


Quando nem onde

Vou subindo a avenida
Contra o vento soprando
De outras esquinas quebradas
No passado

Com que então Neil
Armstrong foi até a Lua
E voltou à Terra sem
Conhecer o lado escuro
do nosso satélite

Subindo a avenida, posso
Dizer que entendo Neil
Armstrong e para entender
Neil Armstrong não tive
De ir tão longe

Subindo a avenida
Subindo a avenida é
Tudo que sou
Sem olhar os que
Descem
Nem cogitar pelos
que vão na calçada
Oposta

Me lembro vagamente
dos que vão ao outro
Lado do mundo
Ao outro lado do rio
E me reconforto que
Não pretendo ir sequer
Ao outro lado de mim

Blogando 0040


Esta noite tive vários sonhos vários.
Em sua maioria eram foncusos, digo, confusos e disparatados e perturbadores como sempre são meus sonhos desde que me lembro. Ora simplesmente oníricos, ora arrematados pesadelos.
Teve um, no entanto, que destoava dos demais — em vez de me deixar atarantado como sempre fico quando sonho, me obrigando a acordar para fugir dum padecimento, esse me enlevava. Digo, me enlevava ao longo de sua duração. Pois que permitiu que eu tivesse ciência de que saía — ou me tirava  — dum lugar e chegava  — ou me levava  — em outro. Ou seja, tinha tempo. E, não sei como, pude perceber o decorrer do tempo desse sonho.
Provavelmente já me ocorreu isso antes. Mas, se ocorreu, não me lembro. E meu sonho dotado de tempo me fascinou. E fascinado ia curtindo meu enlevo onírico me regozijando comigo mesmo, como não faço também desde que me lembro.
Mas não foi  isso.
Esse meu sonho temporal e prazenteiro, ao contrário da imensa maioria dos sonhos que tenho durante meus lances de sono espasmódico, tinha  — e disso me lembro claramente  — um sentido.
Digo, um sentido que estava ao meu alcance, acessível aos meus parcos conhecimentos de sonhador penitente e leigo explicador de sonhos. Me lembro que não era desses sonhos que criamos para o exame do arguto cérebro de um freud na esperança de que um freud igualmente onírico nos revele a chave do nosso enigma.
Pois, assim como, imagino, a imensa maioria dos seres humanos que cada noite depois que nascem sonham mil sonhos, também cismo. Cismo não apenas com cada um dos sonhos que sou capaz de recordar ao acordar, mas cismo sobretudo com o fato de sonhar.
Por que nós seres humanos sonhamos, afinal?
Ou melhor, para quê?
Okay, estou ciente de que a imensa maioria dos sonhadores felizes que compõem nossa espécie talvez não goste de abordagem assim tão investigativa dos momentos para lá de íntimos que passam a sós consigo mesmos no aconchego de seus lençóis. Como espécime da raça, sei mais ou menos como é. E também prefiro evitar que esses profissionais do cérebro que penduram uma plaqueta na porta anunciando as maravilhas da cura espírito-mental vasculhem meus domínios secretos com suas lamparinas de diógenes sem rumo. Uma, porque todas as vezes em que tentei a experiência, esqueceram aqui dentro pedaços de gaze apocalíptica, tesouras de recomendações em grego, bisturis de conselhos cegos, cacos de barbeiragens interpretativas e outros objetos estranhos que essa gente costuma abandonar dentro de suas cobaias. (Ou será que deixam de propósito, mais ou menos sob o espírito dos experimentos "médicos" de Auschwitz?) Duas, porque de todas minhas experiências com esses pretensos conhecedores da alma humana saí cuma profunda impressão de que me conheço e sempre irei me conhecer um milhão de vezes melhor que qualquer sujeito que se ache o engenheiro das minhas razões, ou das faltas delas, só porque estudou o funcionamento da mente por uns anos numa faculdade qualquer. Três, porque nenhuma consulta vale o que esses caras cobram, really. E, quatro, porque me dá nojo aquele brilho de triunfo a iluminar aqueles carões sempre satisfeitos por acharem que têm nas mãozinhas finas de exegetas ociosos a chave do enigma dum pobre-diabo inerme.
Mas eis que aqui pego em minha tosca arapuca a imensa maioria dos meus quase três leitores. Sei  — ah como sei — que já estavam a ponto de rir do meu enésimo naufrágio literário. Será que nós frágeis seres humanos jamais conseguiremos superar esses patéticos papéis de gatos e ratos que desempenhamos com tamanha pusilanimidade?
Será que um dia serei capaz de começar a falar de Freud sem descambar em Darwin?
Não fui talhado para as leis da selva. Ou, como se diz hoje em dia, não tenho esse "perfil" — esse perfil que os praticantes de perfis praticam para trucidar os que não querem ou não podem ter perfil algum.
Sei que meus quase três leitores haverão de levar em conta os verdadeiros motivos que subjazem a este pobre textículo. Sei que compreendem que estou preso neste meu circuito de irrecorríveis ajustes de contas com os sabichões da existência e que assim vou blogando e que ir blogando é tudo, é só o que me move a esta altura.
Isto dito, eis que finalmente posso arrematar esta pequena peça de especulação metafísica confessando que meu sonho tinha um sentido e o sentido era que não havia sentido e isso me fez um bem danado.
Pra variar.

Blogando 0039


Se um céu existe, é lá onde nos unimos àqueles que perdemos.
Não um reencontro.
Um encontro apenas. 
Um encontro definitivo, sem tempo nem passado.
Um encontro sem futuro nem sempre.
Sem nunca, sem não.
Um constante sim.
Um eterno sem fim.

Se um céu existe, é lá onde nos abraçamos à mãe e ao pai.
À irmã e ao irmão. Ao filho e à filha.
Ao primo da cidade distante do interior.
À prima distante que morava na outra esquina.
É lá aonde foram nossos cães e gatos ao desaparecerem de nossas vidas.
Lá onde sabemos. Não por milagre — não há milagres no céu.

Se existe um céu — não esse com que sonhamos dia e noite,
E que faz das nossas pobres cabeças uma prisão no inferno,
O nada mais terrível,
Mas lá onde não perdemos ninguém e ninguém nos perde
Não esperamos ninguém e ninguém nos espera,

Onde somos o que somos,
Onde estamos onde estamos.

Me sentando na beira da cadeira


Acabei de chegar.
De onde?
De lá.
Aquele lugar que se tornou um, digamos, santuário na minha vididinha de pagão.
Não, nada de santuário. Nada para mim merece o nome de santuário.
Recomeço.
Acabei de chegar.
De onde?
De lá.
Aquele lugar que de repente deixou de ser apenas mais um entre os milhares de lugares absolutamente banais e desinteressantes pelos quais passei e que passaram por mim até hoje marcando em mim nada mais que um sinal a ferro de enfado quando o que sempre desejo ardorosamente é o disco voador do qual falo e hei de falar para todo o sempre e que espero desde que nasci e que pensava poderia me sequestrar para outras inéditas paragens sem nada que as identificasse com este desolado mundo onde tenho a impressão de ter sido gerado por engano.
Acabei de chegar daquele lugar no meio daquela avenida que nunca me significou absolutamente nada e cujo nome evocava em mim um vago resquício do meu antigo mundo associado a uma palavra indígena de sonoridade desajeitada e pela qual transitei a pé e de carro e de ônibus milhares de vezes sempre torcendo para erradicar da memória de onde vinha e fantasiar com minha imaginação de eterno adolescente um destino milagroso que não morresse de maneira tão decepcionante na porta duma loja ou dum banco e que me levou milhares de vezes aonde fui obrigado a ir contra minha débil vontade.
Aquele lugar que se tornou um refúgio na minha vididinha de ermitão.
Refúgio alternativo, segundo ao meu primeiro refúgio que é minha caverna.
Para onde busco que me ensinem a fugir quando preciso de um alívio à insuportável mesmice que é minha solidão.
Então me ensine alguém.
Me ensina como faço para estar nesse meu novo refúgio de corpo e espírito, como me convencer de que finalmente posso deixar de simular esta minha implacável indiferença ao mundo que converte em risíveis fósseis os seres que nele vivem.
Hoje, ao sair do meu novo refúgio, já não esperava meu impossível disco voador.
Então meio que me congratulei.
Estarei hoje, vim pensando, nesta minha segunda odisséia às minhas novas paragens, dominando minha irrefreável tendência à fantasia?
Será que posso baixar a guarda, me achar enfim capaz de me pôr neste exato segundo no papel deste homem específico, este homem de carne e osso que desde sempre venho tentando em vão ser, pois, se não tive escolha senão representar outro que não a mim mesmo?
Então, me dizendo heroi, respirando meio aliviado, me congratulando por ter liquidado com a parca munição que me cabe o disco voador e os insidiosos seres determinados a fazer de minha existência um permanente estado de ansiedade, então, assim, me congratulando, vim me reunindo com outros cento e quarenta e dois que sou, assembleia barulhenta, selvagem, em que eu e os outros dois mil, setecentos e quarenta e três que sou tentamos deliberar sobre o que devemos pensar sobre o que devemos pensar sobre o que devemos pensar.
Então, ao chegar, alguém que talvez me ensine, depois de exterminar os seissentos e trinta e cinco que sou, incinerá-los como vermes ávidos pelos meus pensamentos, deportá-los para onde quer que se abriguem em sua sombra distante dos meus sentidos, então, alguém que bem que poderia me ensinar, depois disso tudo, depois de tantas outras ações e exercícios que sou obrigado a cumprir depois de sempre que a presença desse alguém a escassíssimo meio metro do sorriso constante desse alguém e do sorriso inebriante desse alguém e sorriso comovente desse alguém e depois de me considerar remotamente reintegrado em mim e razoavelmente apto a reecontrar meu rumo e me lembrar da localização da minha caverna, aqui me sentei em minha cadeira e liguei meu computador e botei a minha música e me pus a digitar em meu teclado este meu desvario que, tenho quase certeza, um dia alguém haverá de compreender e, talvez, aceitar.


Blogando 0038


Era uma vez um garotinho que queria ser amalucado que não sabia que havia no mundo muitos outros garotinhos que queriam ser desvairados.
Ponto, parágrafo e dois pontos.
Então esse garotinho que queria ser diferente que não sabia que havia no mundo muitos outros garotinhos que queriam ser excepcionais começou a ser um garotinho singular.
E esse garotinho que queria ser descabeçado que não sabia que havia no mundo muitos outros garotinhos que queriam ser desmiolados continuou sendo um garotinho desequilibrado.
Só que esse garotinho que queria ser lunático que não sabia que havia no mundo muitos outros garotinhos que queriam ser loucos mas mesmo assim continuou sendo um garotinho delirante que não sabia que havia no mundo muitos outros garotinhos que queriam ser esdrúxulos um dia percebeu que havia no mundo outros garotinhos já decididamente — e eis que aqui entra O GRANDE ADVÉRBIO  insanos que eram muito mais excêntricos que ele, o garotinho que queria ser esquisito.
Schlupt!
A maluqueza foi aí um dia e engoliu o garotinho.
E ninguém se perguntou bosta nenhuma.
Pois o garotinho que queria ser espeloteado nunca tivera peito de alertar seu pessoal  e ele o desconfiava, pretendente a culto que era  que a loucura podia um dia fugir ao SEU controle e assim num VAPT fazer do seu mundinho areia e do seu esqueminha filosófico FARINHA e da sua pretensão a DEUS SOLITÁRIO DE SI MESMO açougue e si nada, pois (então o menininho recebeu a iluminação) não somos porra nenhuma ante um sentimentozinho que subitamente brota lá longe do passado para confrontar nossa cara com o espelho que  CREDO CRUZ  não queremos olhar PUF puf PUF
E o garotinho que queria ser alienado ficou querendo ser estapafúrdio até empunhar a verborrágica metralhadora que pipocava três pontinhos a cada segundo undo und un u


Blogando 0037

Dou horas de cada um dos meus dias a Beethoven e Bach e Wagner, pouco menos a Schubert, Schumann, Chopin, Mozart e tantos outros mortos há séculos.

E aos Beatles, ao Mammas & Pappas, Jimi Hendriks, Ten Years After, todos já devidamente inumados nos cemitérios do passado.

Será que isso quer dizer que a partir dum ponto no tempo estamos avançando para trás e não temos como sair dessa enrascada?

Blogando 0036

Blogar minhas sombras
Blogar minhas fissuras
Blogar meus recuos, minhas cismas, minhas neuroses, meus pecados, meus fracassos, minhas taras

É minha liturgia pessoal secreta pública
Pela qual a Corte Celestial que sei que não existe
Decreta minha possibilidade de
Ser
Finalmente
O que
Sou

E é assim blogando que me torno
Meu ladrão e
Me roubo
E estou conversado

Blogando 0034

re ver be ran dor ev erb era nd or eve rbe r a nd o

ecos, venham meus amiguinhos!
décio pinhatari está morto
tanto quanto vocês
pobres crianças ecólatras

é tanto
tanta é
meus braços ganham vida própria e se erguem acima da minha cabeça

escutem, tudo está contido nestas bochechas estufadas das palavras que represei
meu terno amor, me diga, como é que os mudos suportam?
a imensurável lagoa piscosa
de peixes podres

não tenho mais sonhos e deles não tenho falta

as marteladas do juiz ecoam pelas paredes do pavilhão
de volta