Tudo que espero é
Tudo que quero
Amanhã cedinho
O mundo vai acabar
Sem horário certo
Nem lugar anunciado
Esmagado sob o peso
Dum poema meu
Blogando 0043 sobre o Detonador de Ilusões
Amanhã, se tudo estiver bem como esteve hoje e como esteve ontem, vou explicar por que sou o Detonador de Ilusões e como há décadas observo as pessoas se afastarem como se eu fosse leproso.
Uma coisa posso afirmar que aprendi — as pessoas não toleram que se lhes destruam as ilusões.
E àquele desprovido delas, ilusões, tratam como o mais maligno dos cancros.
As ilusões são nosso alimento.
E nosso veneno.
Uma coisa posso afirmar que aprendi — as pessoas não toleram que se lhes destruam as ilusões.
E àquele desprovido delas, ilusões, tratam como o mais maligno dos cancros.
As ilusões são nosso alimento.
E nosso veneno.
Blogando 0042
Fico pensando se Ludwig, já surdo, esmerilhando seu diabólico piano, deixava uns olhares escapar na direção da sua plateia, se perguntando, será que esses imbecis sabem que estou surdo?
Faz alguma diferença?
Os quartetos que Ludwig criou no fim da vida são definitivamente obra dum surdo. Um surdo genial. Um gênio surdo.
Se tivesse leitores, eu lhes perguntaria, será que não enxergam que estou deprimido? Deprimido ao nível intolerável?
Minhas postagens recentes são obra dum escritor envenenado pelo que se convencionou denominar depressão.
Vejam, senhoras e senhores, vejam quão rarefeito é o nexo das minhas palavras, quão vago é o sentido das minhas frases, quão abstrato é o sentimento que penso estar pespegando na fachada do meu blog com o mais sólido prego imaginário que posso conceber e cujo significado se dilui de alguma forma em algum lugar dentro de mim qual a mais fudigia das alucinações mnemônicas da minha existência uterina.
E escuto os quartetos de Ludwig e escrevo e lá fora é noite e a noite haverá de passar e amanhã tudo será o mesmo.
Faz alguma diferença?
Os quartetos que Ludwig criou no fim da vida são definitivamente obra dum surdo. Um surdo genial. Um gênio surdo.
Se tivesse leitores, eu lhes perguntaria, será que não enxergam que estou deprimido? Deprimido ao nível intolerável?
Minhas postagens recentes são obra dum escritor envenenado pelo que se convencionou denominar depressão.
Vejam, senhoras e senhores, vejam quão rarefeito é o nexo das minhas palavras, quão vago é o sentido das minhas frases, quão abstrato é o sentimento que penso estar pespegando na fachada do meu blog com o mais sólido prego imaginário que posso conceber e cujo significado se dilui de alguma forma em algum lugar dentro de mim qual a mais fudigia das alucinações mnemônicas da minha existência uterina.
E escuto os quartetos de Ludwig e escrevo e lá fora é noite e a noite haverá de passar e amanhã tudo será o mesmo.
Blogando 0041
DEFINITIVAMENTE, não entendo internautas. Não entendo
membros de redes sociais. Não entendo blogueiros. Não entendo blogueiros que se
pensam e pretendem se mostrar sensíveis, poetas, portadores de visões
especialíssimas do mundo.
Não entendo qual lógica seguem. Sei que não é a minha e é
tudo que sei e saber algo que não é não é saber muito.
Espero que minha última frase acima os confunda.
Se pudesse, os atrairia para a beira dum precipício, ficaria
esperando que tivessem então um insight do mundo sensível perdido.
Não entendo, entre mil outras coisas, uma gente de índole
literária aliterária E antiliterária. Gente de ideologia literária que não toma
conhecimento da base, do fundo, da partida e do fim: a palavra.
Não entendo gente literária cuja palavra tem sua ortografia
violentada, seu lugar ignorado, sua ordem trocada, seu significado desprezado,
sua sacralidade aviltada.
Não entendo gente literária em que a complexidade da
sensibilidade artística é contrabandeada pelo fascínio da conectividade que
pede urgente uma teclada mecânica como resposta mecânica a uma postagem
mecânica cujo conteúdo introspectivo, reflexivo é nulo.
Não entendo gente literária em que uma postagem de boa
vizinhança é enviada apenas para suscitar outra postagem de agradecimento e a
seguinte para provocar uma outra numa circularidade que se autoalimenta do
impulso clicatório, gerando no pobre internauta uma eterna ansiedade pela
próxima réplica.
Não entendo gente literária digital em que o digital é tudo
e o literário é nada.
Não entendo gente literária que adora escritores e poetas
por sua fama e não por suas obras e ideias, na mais decepcionanante rendição ao
mais grotesco culto à celebridade dos fofoqueiros da tevê.
DEFINITIVAMENTE, não entendo internautas literatos e sua
estranha concepção de que literatura é só mais uma desculpa para concretizar a
"experiência" digital.
Os internautas fazem, certamente, parte do mundo da palavra
abolida. São ágrafos sob o domínio de uma hipnose eletrônica.
Literatura é palavra e palavra é pensamento. As microsofts
ainda não inventaram um sucedâneo.
Para amanhã ao acordar, sei lá que hora, não me acusar de autotraição
Melhor que dar um beijo é sentir a aproximação da boca do outro.
Melhor que dar a mão é estender a mão.
Melhor que esnobar é PODER esnobar e NÃO esnobar.
Pior que dar a facada é apontar a faca.
Onde estão todos?
Não se angustie.
Todos estão onde todos estão.
(Que é que você acha de eu encerrar esta postagem exatamente aqui? Se o fizesse, você ficaria sem entendê-la mas eu, em contrapartida, faria alta literatura, embora para consumo estritamente pessoal, e, de minha parte, estaríamos conversados e, de sua parte, seu olhar buscaria rapidamente uma base, mas, você sabe, um escritor, grande ou pequeno, não deve se preocupar com a parte alheia. Na literatura, o problema do leitor sempre será do leitor.)
Naquela minha épica era de garoto solitário, todos estavam no salãozinho de reuniões do conjunto de casas e eu estava somewhere alhures somehow conversando comigo mesmo tentando abraçar essa imensa solidão que nunca coube em mim e encostar os dedos das duas mãos do outro lado, negociar, ver se ela, por uns momentos que fosse, podia me aceitar como digno de misericórdia, me dar uma trégua assim de colher de chá, que mal podia haver? eu não era tão ruim que não merecesse uns minutinhos de alívio, mesmo na farta escuridão da rua, longe do salãozinho de reuniões onde todos sempre estavam e não poderiam estar senão ali.
Todos continuam onde sempre estiveram e ainda assim continuo me surpreendendo que todos sejam e tudo seja assim.
Eu também.
Meus braços continuam enlaçados na ampla pança deste mostrengo da minha solidão e continuo a tentar que as pontas dos meus dedinhos se encostem do outro lado.
Posso, como sempre, ouvir seu coração palpitar. Sentir seu cheiro de suor. Ouvir seu hálito entrando e saindo por sobre meus cabelos.
Fomos feitos um para o outro.
Eu, para a minha solidão. Minha solidão para...
Oh não.
Todos estão onde todos estão.
(Que é que você acha de eu encerrar esta postagem exatamente aqui? Se o fizesse, você ficaria sem entendê-la mas eu, em contrapartida, faria alta literatura, embora para consumo estritamente pessoal, e, de minha parte, estaríamos conversados e, de sua parte, seu olhar buscaria rapidamente uma base, mas, você sabe, um escritor, grande ou pequeno, não deve se preocupar com a parte alheia. Na literatura, o problema do leitor sempre será do leitor.)
Naquela minha épica era de garoto solitário, todos estavam no salãozinho de reuniões do conjunto de casas e eu estava somewhere alhures somehow conversando comigo mesmo tentando abraçar essa imensa solidão que nunca coube em mim e encostar os dedos das duas mãos do outro lado, negociar, ver se ela, por uns momentos que fosse, podia me aceitar como digno de misericórdia, me dar uma trégua assim de colher de chá, que mal podia haver? eu não era tão ruim que não merecesse uns minutinhos de alívio, mesmo na farta escuridão da rua, longe do salãozinho de reuniões onde todos sempre estavam e não poderiam estar senão ali.
Todos continuam onde sempre estiveram e ainda assim continuo me surpreendendo que todos sejam e tudo seja assim.
Eu também.
Meus braços continuam enlaçados na ampla pança deste mostrengo da minha solidão e continuo a tentar que as pontas dos meus dedinhos se encostem do outro lado.
Posso, como sempre, ouvir seu coração palpitar. Sentir seu cheiro de suor. Ouvir seu hálito entrando e saindo por sobre meus cabelos.
Fomos feitos um para o outro.
Eu, para a minha solidão. Minha solidão para...
Oh não.
Casa cidade
Entre minha cidade,
A cidade que é minha,
E a cidade vizinha
Há outra.
Cidade em que entre uma rua e outra
Há outra
Entre uma casa e outra
Há outra
casa que é minha
à casa vizinha.
Entre minha cidade,
Não há parques nas redondezas e eu não ligo
Você pode rir e quem sabe eu até acabe rindo com você, não sou duro como gostaria, foram décadas de frustração tentando imitar os mocinhos altos, loiros, de olhos azuis daqueles faroestes de bolso que comprava às dezenas na banca de jornal na esquina de casa. Hoje vejo que queria não apenas macaquear os estereótipos de herói da subliteratura americana, mas queria acima de tudo que um dia em minha vida — um que fosse, de toda minha vida, do começo ao fim — pudesse ser simples como aquele da chegada do misterioso forasteiro num vilarejo no meio do nada que, com sua mera presença, instituía a civilização, escorraçava os bandidos e de quebra amolecia o coração de pedra da sofrida mocinha que aos parcos 19 anos, tendo experimentado nada mais que percalços em sua brevíssima existência, já decidira que viver é lutar e que seus grandes, belos olhos, também azuis, que lembravam as taças de champanhe dos cabarés parisienses jamais haviam avistado uma única evidência de que existia no mundo algo suficientemente belo para ser avistado por seus grandes, belos olhos eternamente azuis.
Era uma dor palpável como a mesa da cozinha. A cabeceira da cama. O chão de pranchas de ipê. As venezianas apodrecendo na janela. O frasco de desodorante Avanço esguichado às pressas na noite de sábado como se em meu céu houvesse potencialidades.
Se Maharishi Mahesh tivesse então emergido de Within You Without You que tocava obsessivamente em minha vitrola xadrez e me ensinasse que tudo que eu precisava era aprender a morrer — e me convencesse — eu teria me consentido a crer num deus, indiano, católico ou o que quer que fosse. Alegremente.
Era uma dor palpável como a mesa da cozinha. A cabeceira da cama. O chão de pranchas de ipê. As venezianas apodrecendo na janela. O frasco de desodorante Avanço esguichado às pressas na noite de sábado como se em meu céu houvesse potencialidades.
Se Maharishi Mahesh tivesse então emergido de Within You Without You que tocava obsessivamente em minha vitrola xadrez e me ensinasse que tudo que eu precisava era aprender a morrer — e me convencesse — eu teria me consentido a crer num deus, indiano, católico ou o que quer que fosse. Alegremente.
Quando nem onde
Vou subindo a avenida
Contra o vento soprando
De outras esquinas quebradas
No passado
Com que então Neil
Armstrong foi até a Lua
E voltou à Terra sem
Conhecer o lado escuro
do nosso satélite
Subindo a avenida, posso
Dizer que entendo Neil
Armstrong e para entender
Neil Armstrong não tive
De ir tão longe
Subindo a avenida
Subindo a avenida é
Tudo que sou
Sem olhar os que
Descem
Nem cogitar pelos
que vão na calçada
Oposta
Me lembro vagamente
dos que vão ao outro
Lado do mundo
Ao outro lado do rio
E me reconforto que
Não pretendo ir sequer
Ao outro lado de mim
Contra o vento soprando
De outras esquinas quebradas
No passado
Com que então Neil
Armstrong foi até a Lua
E voltou à Terra sem
Conhecer o lado escuro
do nosso satélite
Subindo a avenida, posso
Dizer que entendo Neil
Armstrong e para entender
Neil Armstrong não tive
De ir tão longe
Subindo a avenida
Subindo a avenida é
Tudo que sou
Sem olhar os que
Descem
Nem cogitar pelos
que vão na calçada
Oposta
Me lembro vagamente
dos que vão ao outro
Lado do mundo
Ao outro lado do rio
E me reconforto que
Não pretendo ir sequer
Ao outro lado de mim
Blogando 0040
Esta noite
tive vários sonhos vários.
Em sua
maioria eram foncusos, digo, confusos e disparatados e perturbadores como
sempre são meus sonhos desde que me lembro. Ora simplesmente oníricos, ora
arrematados pesadelos.
Teve um,
no entanto, que destoava dos demais — em vez de me deixar atarantado como
sempre fico quando sonho, me obrigando a acordar para fugir dum padecimento,
esse me enlevava. Digo, me enlevava ao longo de sua duração. Pois que permitiu que
eu tivesse ciência de que saía — ou me tirava — dum lugar e
chegava — ou me levava — em outro. Ou seja,
tinha tempo. E, não sei
como, pude perceber o decorrer do tempo desse sonho.
Provavelmente
já me ocorreu isso antes. Mas, se ocorreu, não me lembro. E meu sonho dotado de
tempo me fascinou. E fascinado ia curtindo meu enlevo onírico me regozijando
comigo mesmo, como não faço também desde que me lembro.
Mas não
foi só isso.
Esse meu
sonho temporal e prazenteiro, ao contrário da imensa maioria dos sonhos que
tenho durante meus lances de sono espasmódico, tinha — e disso
me lembro claramente — um sentido.
Digo, um
sentido que estava ao meu alcance, acessível aos meus parcos conhecimentos de
sonhador penitente e leigo explicador de sonhos. Me lembro que não era
desses sonhos que criamos para o exame do arguto cérebro de um freud na
esperança de que um freud igualmente onírico nos revele a chave do nosso
enigma.
Pois,
assim como, imagino, a imensa maioria dos seres humanos que cada noite depois
que nascem sonham mil sonhos, também cismo. Cismo não apenas com cada um dos
sonhos que sou capaz de recordar ao acordar, mas cismo sobretudo com o fato de
sonhar.
Por que
nós seres humanos sonhamos, afinal?
Ou melhor,
para quê?
Okay,
estou ciente de que a imensa maioria dos sonhadores felizes que compõem nossa
espécie talvez não goste de abordagem assim tão investigativa dos momentos para
lá de íntimos que passam a sós consigo mesmos no aconchego de seus lençóis.
Como espécime da raça, sei mais ou menos como é. E também prefiro evitar que
esses profissionais do cérebro que penduram uma plaqueta na porta anunciando as
maravilhas da cura espírito-mental vasculhem meus domínios secretos com suas
lamparinas de diógenes sem rumo. Uma, porque todas as vezes em que tentei a
experiência, esqueceram aqui dentro pedaços de gaze apocalíptica, tesouras de
recomendações em grego, bisturis de conselhos cegos, cacos de barbeiragens
interpretativas e outros objetos estranhos que essa gente costuma abandonar
dentro de suas cobaias. (Ou será que deixam de propósito, mais ou menos sob o
espírito dos experimentos "médicos" de Auschwitz?) Duas, porque de
todas minhas experiências com esses pretensos conhecedores da alma humana saí
cuma profunda impressão de que me conheço e sempre irei me conhecer um milhão
de vezes melhor que qualquer sujeito que se ache o engenheiro das minhas
razões, ou das faltas delas, só porque estudou o funcionamento da mente por uns
anos numa faculdade qualquer. Três, porque nenhuma consulta vale o que esses
caras cobram, really. E, quatro, porque me dá nojo aquele brilho de triunfo a
iluminar aqueles carões sempre satisfeitos por acharem que têm nas mãozinhas
finas de exegetas ociosos a chave do enigma dum pobre-diabo inerme.
Mas eis
que aqui pego em minha tosca arapuca a imensa maioria dos meus quase três
leitores. Sei — ah como sei — que já estavam a ponto de rir do
meu enésimo naufrágio literário. Será que nós frágeis seres humanos jamais
conseguiremos superar esses patéticos papéis de gatos e ratos que desempenhamos
com tamanha pusilanimidade?
Será que
um dia serei capaz de começar a falar de Freud sem descambar em Darwin?
Não fui
talhado para as leis da selva. Ou, como se diz hoje em dia, não tenho esse
"perfil" — esse perfil que os praticantes de perfis
praticam para trucidar os que não querem ou não podem ter perfil algum.
Sei que
meus quase três leitores haverão de levar em conta os verdadeiros motivos que
subjazem a este pobre textículo. Sei que compreendem que estou preso neste meu
circuito de irrecorríveis ajustes de contas com os sabichões da existência e
que assim vou blogando e que ir blogando é tudo, é só o que me move a esta
altura.
Isto
dito, eis que finalmente posso arrematar esta pequena peça de especulação
metafísica confessando que meu sonho tinha um sentido e o sentido era que
não havia sentido e isso me fez um bem danado.
Pra
variar.
Blogando 0039
Se um céu existe, é lá onde nos unimos àqueles que perdemos.
Não um reencontro.
Um encontro apenas.
Um encontro definitivo, sem tempo nem passado.
Um encontro sem futuro nem sempre.
Sem nunca, sem não.
Um constante sim.
Um eterno sem fim.
Se um céu existe, é lá onde nos
abraçamos à mãe e ao pai.
À irmã e ao irmão. Ao filho e à filha.
Ao primo da cidade distante do interior.
À prima distante que morava na outra esquina.
É lá aonde foram nossos cães e gatos ao desaparecerem de
nossas vidas.
Lá onde sabemos. Não por milagre — não há milagres no céu.
Se existe um céu — não esse com que
sonhamos dia e noite,
E que faz das nossas pobres cabeças uma prisão no inferno,
O nada mais terrível,
Mas lá onde não perdemos ninguém e ninguém nos perde
Não esperamos ninguém e ninguém nos espera,
Onde somos o que somos,
Onde estamos onde estamos.
Me sentando na beira da cadeira
Acabei de chegar.
De onde?
De lá.
Aquele lugar que se tornou um, digamos, santuário na minha
vididinha de pagão.
Não, nada de santuário. Nada para mim merece o nome de
santuário.
Recomeço.
Acabei de chegar.
De onde?
De lá.
Aquele lugar que de repente deixou de ser apenas mais um
entre os milhares de lugares absolutamente banais e desinteressantes pelos
quais passei e que passaram por mim até hoje marcando em mim nada mais que um
sinal a ferro de enfado quando o que sempre desejo ardorosamente é o disco
voador do qual falo e hei de falar para todo o sempre e que espero desde que
nasci e que pensava poderia me sequestrar para outras inéditas paragens sem
nada que as identificasse com este desolado mundo onde tenho a impressão de ter
sido gerado por engano.
Acabei de chegar daquele lugar no meio daquela avenida que
nunca me significou absolutamente nada e cujo nome evocava em mim um vago
resquício do meu antigo mundo associado a uma palavra indígena de
sonoridade desajeitada e pela qual transitei a pé e de carro e de ônibus
milhares de vezes sempre torcendo para erradicar da memória de onde vinha e
fantasiar com minha imaginação de eterno adolescente um destino milagroso que
não morresse de maneira tão decepcionante na porta duma loja ou dum banco e que
me levou milhares de vezes aonde fui obrigado a ir contra minha débil vontade.
Aquele lugar que se tornou um refúgio na minha vididinha de
ermitão.
Refúgio alternativo, segundo ao meu primeiro refúgio que é
minha caverna.
Para onde busco que me ensinem a fugir quando preciso de um
alívio à insuportável mesmice que é minha solidão.
Então me ensine alguém.
Me ensina como faço para estar nesse meu novo refúgio de
corpo e espírito, como me convencer de que finalmente posso deixar de simular
esta minha implacável indiferença ao mundo que converte em risíveis fósseis os
seres que nele vivem.
Hoje, ao sair do meu novo refúgio, já não esperava meu
impossível disco voador.
Então meio que me congratulei.
Estarei hoje, vim pensando, nesta minha segunda odisséia às
minhas novas paragens, dominando minha irrefreável tendência à fantasia?
Será que posso baixar a guarda, me achar enfim capaz de me
pôr neste exato segundo no papel deste homem específico, este homem de carne e
osso que desde sempre venho tentando em vão ser, pois, se não tive escolha
senão representar outro que não a mim mesmo?
Então, me dizendo heroi, respirando meio aliviado, me
congratulando por ter liquidado com a parca munição que me cabe o disco voador
e os insidiosos seres determinados a fazer de minha existência um permanente
estado de ansiedade, então, assim, me congratulando, vim me reunindo com outros
cento e quarenta e dois que sou, assembleia barulhenta, selvagem, em que eu e
os outros dois mil, setecentos e quarenta e três que sou tentamos deliberar
sobre o que devemos pensar sobre o que devemos pensar sobre o que devemos
pensar.
Então, ao chegar, alguém que talvez me ensine, depois de
exterminar os seissentos e trinta e cinco que sou, incinerá-los como vermes
ávidos pelos meus pensamentos, deportá-los para onde quer que se abriguem em
sua sombra distante dos meus sentidos, então, alguém que bem que poderia me
ensinar, depois disso tudo, depois de tantas outras ações e exercícios que sou
obrigado a cumprir depois de sempre que a presença desse alguém a escassíssimo
meio metro do sorriso constante desse alguém e do sorriso inebriante desse
alguém e sorriso comovente desse alguém e depois de me considerar remotamente
reintegrado em mim e razoavelmente apto a reecontrar meu rumo e me lembrar da
localização da minha caverna, aqui me sentei em minha cadeira e liguei meu
computador e botei a minha música e me pus a digitar em meu teclado este meu
desvario que, tenho quase certeza, um dia alguém haverá de compreender e,
talvez, aceitar.
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