Ele voltou XI

continuação de Ele voltou X

Uma das lembranças mais caras que ainda consigo guardar [dele] eram os passeios que dávamos pelo bairro enquanto ele ia me mostrando o que havia de belo em cada rua, me ensinando a descobrir diamantes ocultos sob a capa do cotidiano, as preciosidades que estavam na cara de todos mas que ninguém via, esta rua é muito antiga e ao mesmo tempo segura, exala tradição, veja, milhões já passaram por aqui e você sente o reconforto do que já foi trilhado, já foi feito, não está pisando no desconhecido. Os alfaílsones não gostam do que houve  antes porque só veem porcaria quando olham para trás, papai dizia. Vivem o presente com água na boca pelo futuro, tentando sufocar o passado a cada segundo. Já imaginou uma rua assim na Europa? Você olha para o fim dela e se perde. O que há depois da esquina? Mas não é a rua de Sartre nauseado. Papai não gostava de altos e baixos, inconstância ou surpresas. Dizia que ir para a rua e ouvir um caleidoscópio de ruídos sem querer saber de onde vêm é o máximo que podemos almejar em experiência estética. Olhar os baltaílsones e se reconhecer em cada um deles. Quem é esse fulano? Nunca vimos, você olha os ludaílsones e não se espelha, não se identifica, parece estar num país estranho. Têm um ar não de peregrinos que se acercam do lugar em que decidiram viver, uma valentia no rosto de quem está disposto a dar o sangue pelo direito que julga ser seu, mas de joõessembeiranemeira, de quem veio não para ficar e construir mas para tirar esvaziar aniquilar usar até acabar depois partir pra outra? Tinha mania de colocar pontos de interrogação em todas as frases. Às vezes não sabia quando ele estava perguntando ou afirmando. Me deixava meio angustiado, era duro conversar. Com o tempo a mente acha que também o corpo fica assim. Vamos caminhar um pouco, dizia. Vem conosco? Quando falava com os outros era indiferente. Não se preocupava em ser entendido. Geralmente os arnaílsones se viam embaraçados sem saber como responder. A mente acha que era só preguiça. Pra que falar? dizia. Tenha cuidado. Sempre atente para o que há por trás das palavras. Dominguílson só abre a boca pra mentir. Pior: ludibriar. Tem um prazerzinho sórdido em induzir outros em erro. Deve ser a salada étnica em que nos metemos, essa química como repetem hoje em dia os papagaios, o saci pererê só podíamos ser paubrasil, que estranha vocação nacional, ludibriosos por natureza, vem da nossa formação cultural, explica o professor doutor, os negros tiveram de desenvolver técnicas de engodo para escapar ao castigo do senhorio, fica no sangue da gente, que é que baiana tem? Bunda suculenta pra vosmecê. Bunda tão substancialmente carnuda que não darás conta dela não sinhô. Bunda pro que derevier, bunda pra ninguém botar... defeito, bunda que só baiana tem, paraguayos fazem romarias anuais pra mergulhar nessas delícias de banha, misteriosos desígnios que comandam o insondável geist, assim de repente, herr zelter, olha que wolfgang tá espiando, venha herr chimit que lhe daremos nossas mulheres, nossas filhas, nossas mães, nossas próprias bundas porque sabe-se que nessas horas johan deixa de lado os gregos e vira loved óxente. Venha sim herr griessman cumê a bunda de nossas negas que não temos outra coisa a lhe oferecer não. Até preparei um roteiro pra europeus de fina estirpe não se perderem na malemaluca terrinha, tudinho posto, tome lá gabrielita, precisa licença não, bem-vindo ao nosso lupanar, vossa criada. E tome aguinha de coco para ajudar na digestão.
A vocação macaquita para o ludíbrio, o que levam essa obcessão enganadora a sério é muito louco. Directions, dizem os biguemaqueanos em seu preciso linguajar. Por favor moço onde fica a Estação da Luz? O velhaco estuda o forasteiro e pondera se o sujeito é de fato um tonto. Se for, apruma o graciliânico espinhaço, puxa a calça pelo coz e lasca sem dó, o senhor pega o metrô aqui e desce no Brás. Então toma a baldeação para Osasco. Facinho facinho. Vendo o coitado obedecer sem pestanejar, tem ganas de sair flutuando de felicidade e glória. Mais um panaca despachado. Deve de tá assim de gente perdida em Osasco. Já o terceiro hoje. Se inebria de vingança. Vai ser bom assim lá longe. Preciso me candidatar a algum cargo eletivo, é muito talento pra desperdiçar pelo tesão do despacho. Vicentílsones, vosso rei proclama: a raça está redimida.
— Alô — abracadabra a voz ao telefone.
— Pode falar. Estamos escutando.
— Seu pai me incumbiu duma missão pouco antes de morrer.
— Qual? Ver se enlouqueci feito ele?
— Me designou pra tratar dum assunto com você. Me fez prometer que cumpriria.
— Sei.
— Como deve saber, ele estava terminando um livro quando morreu.
— Li uns trechos.
— Podemos nos encontrar?

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Ele voltou X

continuação de Ele voltou IX

Inacílsones têm essa mania intolerável de dar conselhos. Você não pede mas eles dão mesmo assim. Te acham um coió eternamente à procura dum mestre pra te ensinar coisas. E essa aporrinhação está sempre associada a outra: adoram explicar. Explicar o quê? Explicar tudo. Acham que tudo e o estoque do Extra Penha merece ser investigado. Talvez. Mas não precisa, Porra. Tudo, não. Às vezes. Venha conosco, nos sentemos nesta mureta, veja, a tarde cai, a noite vem, Caralho, não dá nem pra pensar, os araribaílsones passam na calçada e os olhos vão olhando, meio conectados em cada olhar estranho, demorando mais num, desviando logo o olhar doutro, alguns aceitam a intrusão, se reconhecem etnicamente em tua curiosidade inócua, outros de pronto te hostilizam, mas só o suficiente pra você não insistir, ninguém está ali ao cair da tarde pra comprar briga, chapa, este é o nosso mundo, esta é a nossa tarde, todos somos ameriquílsones, te entendemos, cara, pode olhar à vontade, sabemos que não vai abusar, tem semancol, ai que gostoso flutuar na noitinha no tapete mágico do nosso acordo tácito. Não abuso não abusas não abusa abusemos não.  Só balança as pernas na mureta sem estragar. Tudo chama tua atenção igualitariamente. A penumbra, os sons de longe abafados, a sensação da luz, o farfalhar da roupa dele que passa, o alarido agradável da molecada gastando energia. Ai que país pragmático. Eterna penumbra morenamente democrática. Jogue energia fora não, menina. Oi que vai precisar. Não vamos defender os meninos não. Vocês estão ganhando. Dez anos é? Eu também não. O dia vai desaparecendo. Teresílsones evoluindo. Não ando com lápis, senão ia ter de escrever toda hora. Lembra quando foi a uma vila caiçara? Sim, veja, estes são os trópicos. Temos aqui um comportamento compatível com a importância de todas as coisas. Olha lá. Ai que corpo. Não, não estraga, só balança as pernas. Será que o rebolado interfere nos movimentos da Bucetinha? Ai esses processos internos. O jornaocionao vai começar, hinozinho a ceciílson, mas que olho mais torto esse, outra noite chegando. Ele fala através de nós. Quem? Deus. Mora em mim. Esse aí tem uma tatuagem no calcanhar, sensação abstrata de estar aqui. Oitenta anos. Nenhum objetivo. Nada de decisões então. Hum que olhadinha mais íntima, onde já vimos? Não, não é. Ninguém  atento à nossa presença, somos muitos, muitos, muitos. Aproximadamente. Ele foi condenado por estrupro, diz um ao outro. Já temos idade suficiente, sabemos cumprir nosso dever. Precisa ser macho para ter flexibilidade, diz o outro. Um exército de grilos entoa odes além da luz. Como podemos saber isso? Sempre precisam de algo mais. Pobreza e liberdade. Experimente você também johnny. Tinha um amiguinho imaginário chamado johnny. Vai ver que nuvens azuis também. Será verdade que estamos bem no centro? Sim, por isso somos livres. Somos homem honrado, diz o olhar rígido desse. Podemos falar conosco? No momento não estamos, volte amanhã. Agora vivo num mundo novo, o velho Quecephoda. Olha. A estrela cadente rabiscando o firmamento rumo a Júpiter — destroços de deus. Falando sério, anda depressa. Ai que fome de amor que não nos dá vontade de dedar. Esse outro tem o olhar no futuro, está em reunião consigo mesmo. Pessoas na rua morrendo. Você queria ser mulher? A ideia não sabe, como será ter Buceta? Deve dar uma Puta duma insegurança. Você acha que os homens são satélites das mulheres? Sim, e isso é o mais impressionante. Eu somos. Dessa aí, por exemplo. Gravitemos em segurança, neném. Este é o país da bola, o país das botas, livro sem páginas. Eles estão contentes. O mundo estruturado. Tudo pronto. Como são íntimos os artuílsones. Leia em voz alta. Precisamos liberar a desordem dos nossos corações e fazer da violação a regra, do crime a lei. Experimente você também johnny, que você ainda tem paciência. Mas me respeite por favor.

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Mil, trezentos e cinquenta

E me dá meio que uma saudade.
E me aliso a camisa e me autodeclaro feliz. Meu rosto está inexpressivo.
E me dá essa raiva.
E começo a gesticular como se uma muriçoca fugida detrás de Plutão viesse me picar.
E paro, homem abortado e perdido.
E quero vigiar as cercanias e roubar só pra mim a pupila rilkeana da única flor pós-dilúvio.
E me culpo por ter me deixado esterilizar abandonado por todos os perfumes e as carícias.
Ultradelicadíssimo carbono 60 que me protege do amor, és a membrana possível.
Neste grão-de-bico povoado por 9 bilhões de solitários, escrevo para ter uma leitura que me distraia quando me aposentar.

Sea Teens

Raízes extirpadas
Flor incólume e
O mundo impregnado do perfume do mar
Ouvidos violados por um lamento
Um não
Que dura uma hora
Uma vida
O poema supremo, derradeiro, na incubadora
Largado ao próprio destino
Grassa, imprevisível
Sob os versos que a natureza lhe reservou
É preciso ter paciência
Este monstro não se cria em dias
Ou anos
Não se cria por um homem nesta terra
É preciso a ajuda das forças dos ventos e dos raios e das luzes da manhã
Espera

Mil, trezentos e quarenta e cinco

Esta tarde mais
Uma vez achei
Esse tesouro
Desenterrado e mais
Uma vez não tive
Capacidade de lhe
Dar qualquer valor

Ou meu tesouro ou
O mundo não vale
Nada ou serei
Obrigado a enterrá-lo
De novo?

Mil, trezentos e quarenta e três

Eis que a noite vai se desmanchando em luz e as árvores e os nichos dos telhados liberam suas pequenas estátuas emplumadas que se atiram rumo ao céu em forma de aviõezinhos canoros e assanhados pela gana de bater as asas a tricotar a rede de cânticos pontuados de pios e assobios e por entre as nuvens em algum lugar atrás dos prédios fechos iluminados orientam a escuridão pelo caminho rumo a seu retiro temporário e no centro do palco, fora de sincronia com o passo das coisas do mundo, dissociado dos sentidos, sou livre enfim.

Mil, trezentos e quarenta e dois

Não gosto de responder. Por isso detesto atender telefone, pois quando dizem alô? do outro lado da linha sou obrigado a mumunhar alô do lado de cá. Configurando interação. Odeio interagir. Não sou promíscuo. Sou, acima de todas as coisas, um indivíduo.
Quando me fazem perguntas íntimas posso muito bem esmurrar a parede pra não socar a cara do curioso(a). E nem precisa ser tão íntima assim. Basta um aonde foi? que hora chegou? com quem estava? Uuuugh! Gana suicida instantânea.
Uma perguntinha qualquer, mesmo chinfrim como que horas são?, pode desencadear uma tempestade no dedal em miniatura que é minha paciência. Minha paciência com a curiosidade alheia.
Como assim, que horas são?
Paradoxalmente, se me param na rua pedindo informações, tudo muda blablablá. Me deixo inundar de hormônios balsâmicos. Embora tenha passado pela experiência dezenas de vezes ao longo das minhas seis décadas de vida, até hoje não consegui decifrar donde vem esse meu prazer de ajudar alguém que perdeu o caminho pelos intrincados labirintos urbanos. Embora outra vez a razão pareça óbvia: um estranho a indagar algo impessoal não tem como me ameaçar, se apressariam a diagnosticar os eternos psicólogos de plantão. Os explicadores de meia-tigela, perpetradores da redução das individualidades ao grau máximo. Essa explicação é óbvia além da conta, retrucaria. O óbvio me dá nos nervos.
O que interessa é que quando me pedem informações na rua me sinto inusitadamente poderoso. Tenho o destino — literalmente — de alguém bem aqui ó, nestas minhas mãos finas de tocador de... trombone.
Me ver procurado por um desconhecido na rua me faz um bem danado — sinto o benefício mesmo fisicamente, na forma dum fino, gélido, jubiloso arrepio a faiscar pela minha espinha desde o cóccix até um ponto indefinido entre as espáduas. Provar a ele, ou ela, mesmo desconhecido, que, apesar de não topar perguntas, tenho esta minha capacidade de me tornar um ser prestativo e solidário quando vejo outro espécime da raça em apuros.
Por isso nunca entendi esses calhordas filhos duma égua que dão informações erradas na rua. A mim me parece o mais rematado dos “prazeres estragados”, para recorrer a uma das peculiaríssimas expressões com que mamãe definia seu frio desprezo pelo mundo e os bocós que o habitam. Viável fosse, eu não hesitaria em pendurar um papelão no pescoço c’uma inscrição em letronas bem grandes, em vermelho e negrito

FORNEÇO INFORMAÇÕES DE RUA
COM TODO PRAZER E CORDURA

e me postar numa esquina qualquer no centro da cidade. Freguesia garantida, embora não fosse cobrar nada, naturalmente — ninguém  teria coragem de pagar mesmo um centavo por esse tipo de info. No que estão errados, obviamente — esses muquiranas que se recusariam a despender um vintém por uma indicação confiável preferem zanzar feito barata tonta à procura dum endereço, torrando gasolina, esfumaçando a atmosfera, perdendo tempo, passando raiva e frustração.
Isso se o sujeito estiver motorizado. Caso contrário, as consequências podem ser ainda mais nefastas. O gajo é capaz de, saindo da Praça Roosevelt, subir toda a Consolação e descer a mesma Consolação até a Estados Unidos, já nos Jardins, só pra descobrir que o número que procura fica bem ao lado da... Praça Roosevelt.
Vocês seguramente vão achar que estou fazendo piada mas é fato. Parece difícil de acreditar mas metade dos brasileiros ainda não aprendeu a ler a numeração das casas. Não sacaram que a dita obedece a um ordem crescente e é par do lado direito e ímpar do lado esquerdo da rua.
Semana passada mesmo uma moça me parou na rua. Moço (Moço? Olho para os lados. Sim, era comigo.), os números aumentam para este lado ou aquele?
No primeiro instante imaginei que estivesse me gozando. (Ou me tirando, como dizem os geniais comediantes do Te peguei do João Kébler, o melhor programa da tevê deste país.)
A candidez no rosto dela logo me mostrou que não.
Afetando meu mais convincente cenho de expert urbano, fiz um aceno pedindo que me acompanhasse até a esquina. A garota aquiesceu sem hesitar, o que me deixou entre orgulhoso e apreensivo. Orgulhoso porque sua determinação em me seguir comprovou que posso ser bom ator quando quero. E apreensivo porque uma moçoila lindinha como ela, buscando uma orientação pela cidade, na certa corria enorme risco se aproximando assim tão inocentemente dum brutamontes barbudo qual Tolstoi e mal-encarado feito van Gogh se preparando para decepar a orelha. Para sorte da donzelinha, havia um príncipe bondoso e desinteressado por sob esta minha carranca de facínora.
Atingindo a esquina, apontei um dedo para a placa no alto dum poste metálico e ensinei: “Veja, para este lado a numeração sobe; para aquele, desce”.
Um largo sorriso iluminou o suave rostinho da ninfa. Parecia genuinamente feliz e surpresa com a nova descoberta. E então, para minha surpresa, enroscou um braço em torno da minha nuca, se erguendo na ponta dos pés e me desferindo um beijo na maçã do rosto. Para sorte de todos os envolvidos, eu tomara banho havia apenas dois dias.
Virei a cara para o outro lado e me esgueirei do abraço. Vocês quase três leitores sabem que sou morbidamente tímido, inda mais abordado tão repentina e entusiasticamente por uma fêmea (por um instante tive a impressão de poder sentir o perfume da progesterona e do estrogênio a pairar numa das esquinas mais movimentadas da cidade). O engraçado é que me constranjo mais na presença de desconhecidos que de conhecidos. Outra autodescoberta, quem diria. Se um dia regressar à psicanálise, vou mencioná-la ao dr. G. E pedir um desconto do carcamano pelo insight de minha própria autoria. Seiscentos paus a consulta, só o tio do lulla pra encarar.
Por dois segundos a anjinha me olhou meio desconcertada ante minha reação mas, deo gratia, não abanou a cabeça nem fez um comentário maldoso envolvendo minha sexualidade como qualquer outra faria. Seis sabem, mulher rejeitada pode ser um dos seres mais grosseiros do universo.
Se limitou a perguntar, Para onde você está indo?
Não gosto de responder. Inda mais questões íntimas.
Pra este lado, respondi, apontando o lado oposto ao dela.
Tudo bem, então. Dando de ombros, começou a se afastar.
E retomei meu rumo na direção contrária. Depois de alguns passos, parei. Que rumo? me perguntei silenciosamente.
Detesto quando querem respostas minhas. Nasci c’um foro íntimo ultradesenvolvido.
Olhei para diante, dei meia-volta, olhei para diante.
Qualquer direção que tomasse seria indiferente. Resolvi atravessar a rua. Talvez encontrasse do outro lado alguém disposto a me dar uma informação que me ajudasse a encontrar meu caminho.

Mil, trezentos e quarenta e um

Que dor

Saber que os


Que me compreendem


Não me compreendem

Mil, trezentos e quarenta, sob fastio

Certa ocasião, há longo longo longo tempo, pensei em criar uma comu de nome “Escrita coletiva”, por aí. Estávamos na saudosa era da orkut que não volta mais. Na época era frequentador assíduo duo uo da comu Literatura, o que só me causava desgosto. Cansei  de quebrar a cara por aquelas bandas. Nunca obtinha respostas às minhas postagens. Pessoalzinho só participava de tópicos absolutamente vulgares. Ou então surrados e óbvios além do inexprimível. Os que à primeira vista pareciam abrigar algum resquício de vida inteligente por um título mais ou menos provocativo na segunda linha revelavam uma pretensiosidade estéril, resvalando para o popularesco e o demagógico. Uns queriam tratar de Nietzsche, que obviamente nunca tinham lido, outros bradavam palavrões. Em muitos casos caíam no cambalacho do cabotinismo.
Um dia ofereci uma recompensa de 10 real pra quem me dissesse HONESTAMENTE (a meu juízo) por que os membros mais assíduos jamais comentavam minhas postagens. E fiz uma ressalva: não vale dizer que é porque sou briguento. No fundo onde não dá pé, nem é o caso, todos sabiam que sou boa-praça. Quando me meto em enrascada só estou me defendendo de ataques de ciúme que provoco a granel. Não sou briguento mas sou uma peste. Sei que meus quase três leitores haverão de torcer seus narigões pra esta declaração de foro íntimo. Mas quero exatamente mostrar que, em se tratando de escritores, não haveria como cercear a pessoalidade. E as idiossincrasias. E os caprichos. E a volubilidade. (Não conheço bom escritor não volúvel. Quer dizer, estou sendo volúvel – conheço sim mas não vem ao caso; se viesse, furaria minha lógica) E, vejam, algo assim seria só o começo da encrenca coletiva. Nada mais distante da literatura que a diplomacia, não é?
O segundo problema é que minha comuzinha Escrita coletiva não poderia ser pública, i.e., os membros teriam de passar por um crivo, comprovar que dominavam os rudimentos e que se escrevessem errado seria por querência, não involuntariamente. Mais complicação. A menos que optasse desde o início por proscrever comentários mais acerbos. Teria de ser algo diametralmente oposto a coisas como esse “Vamos escrever um poema coletivo” ou “Que merda você está lendo” que vira e mexe alguém ressuscitava na Literatura. O escangalho aí era equilibrar domínimo mínio, digo, domínio mínimo da palavra c’um grão de arroz que fosse de autocrítica. O pessoal curtia a Literatura exatamente por que aqui não precisava de nada, fosse disso ou de qualquer outra coisa. Proferissem a besteira que quisessem, ninguém daria lhufas. E, outra descoberta que fiz de lombo próprio, a moçada de hoje nem imagina o que seja autocrítica. E, pelas postagens na Literatura, não estão nem um tico dispostos a reconhecer valores ultrapassados como humildade e modéstia e autoridade pra defender pontos de vista, matéria-prima essencial para quem se acha escritor.
Quinto, esse longínquo, onírico, ultrapassado estado espírito-mental chamado solidão. Que raio é isso? Ninguém em malsã consciência pode admitir uma coisa dessas hoje em dia. Solidão, perguntam, não é uma doença que só ataca pervertidos, bandidos, loucos, depressivos, weirdos que não conseguem um jeito salutar de se descolar na vida?
Vocês podem achar que estou ironizando além da conta (excesso de ironia é contraproducente pra quem escreve), mas não é o que se vê por toda parte, com quem quer que se leve um lero?
Vivemos numa época absurdamente ahistórica. Soa inacreditável mas os guris pensam que nasceram ontem. (Sei que os ruim de ouvido vão pensar que errei a concordância. Duas vezes.) E, cara, poucas proezas parecem mais impossíveis que conversar com alguém que nasceu ontem. Eles pretendem prescindir da noção de causa e efeito que rege não só o universo como também suas vidinhas de mosquito. Sua única, assoberbante dimensão temporal é o presente. Que na cabecinha perfumada deles é eterno. (Filosoficamente, até é. Afinal o presente nunca passa. Mas eles não sabem.) Nesta paupérrima ditadura da imagem e da instantaneidade em que penamos, imaginam o passado como um filme que, graças, foi apenas uma ficção em que protagonistas e figurantes eram sofredores do planeta Y23K2. O menino cuca-fresca se horroriza (não muito claramente, claro) que já houve épocas sem internet, sem posto de gasolina, sem Carrefour. Como é que aquela gente podia se dar bem sem um celular que os atasse umbilicalmente ao resto da patota?
Certo, a esta altura você deve tá se perguntando que é que tudo isso tem a ver. Estalo de pe. Vieira, eu também. Vou tentar engatar a primeira de novo.
Ah sim, solidão. Bem lembrado. A solidão do artista.
A solidão pode ser secreta?
Por que temos vergonha de ser solitários? Por que identificam solidão e fracasso?
Portais de RELACIONAMENTO são um libelo antissolidão. Na orkut o gajo era julgado por estrelinhas: sexy, confiável, sei lá que mais. Sendo o número de amigos o critério de desempate. Não sei com anda o angu no facebook, mas na orkut via gente reclamando que mil amigos era muito pouco. Quantos seriam suficientes? Um perfil abarrotado de carinhas petrificadas qual naquelas fotinhos esmaltadas nos túmulos do cemitério. Cáspite, carregamos um necrotério inteiro em nossos perfis (pela enésima, essa palavrinha calhorda) e nem nos tocamos. Era com isso em mente que me perguntava se era com essa gente que imaginava partilhar experiências literárias. (Enquanto matutava a respeito, registrei em minhas anotações que aquele mesmo dia tinha visto em algum lugar na rede alguém perguntando a outro “Qual é seu ponto?” Em minha anotação, acrescentei: “Sugiro usarmos essa pergunta como critério de eliminação na nossa nova comu. Quem respondesse a sério seria sumariamente defenestrado.”)
Em seguida me perguntava, que esperar de pretendentes a escritor incapazes de reconhecer e de viver na solidão? Orkutianos, “A comunicação humana é um artifício cuja intenção é nos fazer esquecer a brutal falta de sentido de uma vida condenada à morte”.
A vida online é uma espetacular fantasia tornada realidade. Aqui podemos clicar amores, desclicar desafetos, confidenciar a quem está do outro lado do mundo, enquanto na vida real continuamos a virar a cara para o vizinho. (Quer dizer, estou falando de mim mas imagino que vocês também viram a cara pra alguém uma vez por dia pelo menos – não é assim que gente normal age?) Há muito pouca coisa de humano em conversar com alguém cujo nome, rosto e cheiro você desconhece.
A solidão, o escritor sabe que é seu dever experimentá-la. Vivenciá-la como experiência palpável e concreta, que lhe deixe ao menos uma lição ou mais. Sem medo, sem nojo, sem neuras. A solidão faz parte. Quer você saiba, ou admita pra você mesmo, ou não. A solidão é a instância, e única, em que temos a chance de aprender alguma coisa sobre nós mesmos, em primeira mão, sem intermediários ou gurus. Quem não tá a fim, que brinque de palavras cruzadas.
Quem acha que seu barato é escrever, tem de aceitá-la. Praticá-la como um exercício. Mas aceitá-la como natural, não como problema a ser resolvido com Prozac ou num consultório. Se, pra começar a brincadeira, você precisar iniciar o processo de aceitação imaginando que é um tipo de loucura, tudo bem. É o método que uso. O importante é nunca se achar em território estranho. Em MINHA solidão me conheço como a palma daquela coisa que todos conhecemos como a palma etc.
E foi assim que terminei por obrar um manifesto – este. E este seria a base da minha comu Escrita coletiva quando finalmente viesse a fundá-la.
E naquela anotação que mencionei acima, fiz mais este registro: “Ter sonhos e persegui-los não é sinal de que há alguma coisa errada com a gente. Nunca é cedo pra começar.”
Relendo isso hoje, não me reconheci, embora me lembre bem de o ter escrito. Me soou tão ingênuo. Algo presunçoso. Tão cafona.

Mil, trezentos e trinta e nove, sob intenso suor

Mudei.
Estou mais mórbido.
Excretando interiormente uma fonte cada dia mais pródiga de pus. (Desculpe, sei que você não gosta desse tipo de detalhe.)
Mudei por você, em parte. Depois que me deixou comecei a sonhar que te chamo. E pesadelos em que uma mulher braba sem rosto corre atrás de mim c'um cutelo de destrinchar frango.
De repente passei a ver uma máscara feita do teu rosto cobrindo o rosto de mulheres. A caixa do mercadinho. A gerente do mercadinho. A balconista dos frios. A jornaleira. A frentista. A ubíqua atendente das minhas carências.
Tive uma crise de vômito e fui na gastro há duas semanas. Meu nome foi chamado. Entrei. Ocupei uma cadeira como me indicaram e fiquei lá sentado fascinado enquanto ela-você preenchia as fichinhas. Profissão? perguntou. Explorador onírico, respondi. Ela-você riu, exibindo uns dentões magníficos de angélico-selvagem marfim.
Me pediu uns hiperultrasons do ventre, uns exames de sangue.
Ontem voltei com os resultados.
Depois d’uma hora e meia de atraso ela-você chamou meu nome. Entrei na sala com o coração aos solavancos. Mas ele, coração, congelou quando vi que não havia mais ninguém na sala.
Além de você.
Examinou a fotografia das minhas vísceras. Seu fígado está sessenta por cento tomado pela gordura, comunicou, informou, relatou. Estado avançado de cirrose.
Vamos ali na esquina tomar um Balla, convidei, pondo minha mão sobre a tua. Um só que seja.
Você deu um gritinho assustado e puxou a mão numa reação de nojo e perturbação.
A dra. Ana Maria rabiscou uma receita, fez umas recomendações apressadas.
Não se aproxime de feiticeiras!
Até quando, doutora? Não me diga que por todo o sempre!
Não por ora.
Respiro aliviado. A mágica acabaria de vez.
Ela abriu a porta e me enxotou da sala.

Mil, trezentos e trinta e oito

me comprometo a aspirar
tão só à imortalidade do meu querer
reconhecendo que no ato
serei esquecido como
esquecido estou
me conformando com
minha ficção
deitado insone, sem saída,
prometo, ademais, nunca ter meus
próprios pensamentos nem registrar
meus toscos versos em vão louvor
Deixarei os sonhos meus
se desprendendo, faíscas
incandescentes, brotando
bolhinhas de sabão, ascendendo
ao teto a explodir em branca
espuma seca que derramará sua
névoa em minha noite
Prometo, por fim, condenar-me a
renunciar por todo o sempre ao
teu cheiro e à tua boca e ao teu
olhar e às tuas palavras e nunca
te chamar e nunca me queixar
Apenas suspirar

Mil, trezentos e trinta e sete

Devorar-se não é para os saciados
Requer um apetite fantasioso que não está na glândula salivar
Veneno protéico que não está nas frutas, nos peixes, nas aves, na água ou no ar
Requer a sede incalculável dum oceano Atlântico com todos seus navios e todos seus náufragos e cada uma de suas ondas
A substância do planeta, a oleosidade dos poços de petróleo, a espuma dos copos de cerveja gelada e da urina quente que a terra absorve
Que aquele que se devora se disponha a tornar-se seu próprio predador
Requer a volúpia que do autocorpo reste só os autoossos e da autoboca só os autodentes (que também não hão de sobrar, se o autopredador for sincero)
Mas há algo que aquele que se devora não pode ter:
Memória