Fuga aos solavancos em ré maior

Ando tentado.
Mesmo sabendo que amanhã é dia útil.
Talvez me reanime um versinho surpreendente, um café meio amargo.
Mal posso esperar a hora de dizer au revoir.

Ando sem sono e assim sou tiro.
Ando exausto e assim sou queda
tão instantânea, que nem há tempo 
de dizer adeus.

Sonhei que me abandonara o mais letal dos tédios que sinto quando sonho.
Ai que cansaço me dão versos xucros na feitura,
soporíferos na leitura.
Adeus, só se for definitivo.
  
Tracei um plano.
Morremos os dois juntos.
Eu antes, tu em seguida.
Eu, Romeu invertido, tu, Julieta nua.
Eu morreria primeiro; e, me vendo morto, brindarias, com a última dose,
o último verso sobre o bilhete derradeiro
Magistral coroação do sofredor obstinado.

Plano sem dia nem hora.
Podemos o executar amanhã, sábado à aurora, ontem à noite.
Deixarei umas palavras de despedida.
A ninguém — ninguém é tudo que tenho.
Um beijo agrodoce de nunca mais a este mundo impossível.

As escreverei assim num vupt!
Dois minutos, liquidado, nem carece revisão.
A inspiração, essa perdida, favas contadas,
dará o ar de sua graça
Será como há anos não tem sido
Inacreditável como nunca foi.
Serás outra. Outro serei.

O dia que nos afastarmos de vez sobrará um nevrálgico 
vazio que se juntará a outros inúmeros em minha cabeça 
e passarei o resto dos meus dias lamentando ter te perdido
Pois para perder-te foi que um dia te ganhei.
Esse dia chegou.
Como poderia não ser assim?

No bilhete sem hora nem lugar
haverei de declarar:
Poetas tantos já passaram por 
isto.
Quero os plagiar
Todo suicida sofre da mais repelente
das invejas.
Não a do outro, mas dele mesmo e
daquele momento e daquela arrebatadora 
intimidade com os sentimentos.
Da raridade da abundância da
escrita na banguela, fingindo que 
sente, usando a técnica vaziamente, 
sem daonde sair, sem aonde pousar.

Sob a escala de valores éticos do 
mundo, sou um cafajeste

que há tempos desenvolve uma técnica 
de buscar sentimentos.
Foi-se o tempo em que brotavam,
bastando sair a andar, lembrar de 
alguém há muito esquecido, sentir o cheiro 
do biscoito no café de Marcel Proust.

Mas, precisado d'outra técnica, avançar 
além do conhecido, 
tentar sensações inéditas,
me aproximei perigosamente de 
malucos, tomei porres virgílicos, 
a jejuar dias a fio, me empanturrando
de acarajé e feijoada,
me explorando além da conta. 

Disfarçadamente assim aqui me peço,
não me leva a sério.

A frieza será melhor.

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