Florescendo para dentro

Aqui no interior é impossível respirar. Não por causa de algo fétido que alguém deixou para trás e sim pela ausência de ar. E se digo ausência, é ausência total. Se você for de fato explorador, explorador no sentido estrito, explorador totalmente desprovido de respeito pelo desconhecido, com o tempo se acostuma.
Foi o que ocorreu comigo. Quando entro... Quer dizer, entrava, sentia nas pernas aquela moleza própria dos covardes. Aturdido, tentava acionar os pulmões, afilando as narinas, em seguida puxando pela boca, e nada. Isso, nos momentos iniciais. Uma ou outra ocasião, cheguei a me ver meio metro da morte. Minha proverbial claustrofobia, de que sofro desde o primeiro minuto de vida, me atacava ferozmente os sentidos, me atordoando de pavor, atiçando meu instinto de sobrevivência, me forçando freneticamente a considerar um recuo, enquanto ainda desse tempo. Mas como nasci, além de claustrofóbico, teimoso, resistia brava e temerariamente. E quando digo “entrava” é porque hoje em dia vivo aqui dentro o tempo todo, praticamente. Nem me lembro mais de como é a vida lá fora. E chego mesmo a desconfiar que dificilmente poderia reaprender a conviver com a atmosfera – ai que me arrepia a lembrança de ventos e ventanias! –, com espaços abertos e a luz do dia ou mesmo a duma lâmpada fluorescente que faria de meus olhos, não me restam dúvidas,  dois glóbulos cegos e inúteis.
Não vejo mais motivos para sair. Hoje até duvido se seria capaz de retornar pelos meus próprios passos e encontrar a porta por onde entrei. Nos raríssimos momentos em que flagro em meus pensamentos um laivo de arrependimento por ter aqui me internado, uma pulsão mecânica, automática dirige meus pés para ainda mais longe de onde imagino estar a saída.
As condições insalubres, até morbígeras que aqui imperam, a elas me habituei. Já não me incomodam a retromencionada falta de oxigênio que antes me fazia temer o sufocamento. Tampouco me desassossegam estas paredes pegajosas cobertas duma substância indefinível e, claro, inodora, mas definitivamente gosmenta, que gruda em minhas mãos e cola meus dedos uns aos outros à medida que avanço pela cerrada escuridão. No início a gosma me causava asco e constituía mais uma razão para bater em retirada ao sabor dos instintos, sobretudo porque me era impossível sequer ver a cor e conhecer a aparência da matéria melada, mas também acabei por me acostumar.
Assim como, dadas as repetidas visitas, me familiarizei com o negrume à minha volta. O tempo por aqui é um cortejo ininterrupto de instantes virtualmente iguais que se sucedem invariavelmente com a mesma cadência, me levando mesmo a crer que os ponteiros do relógio da vida e das coisas finalmente estacionaram. Exatamente em que posição, jamais me pergunto. E tampouco me interessa. Os instantes desse cortejo são fugazes como todos os instantes mas perenes e de seus latejos intermináveis borbota uma eternidade que já ao nascer perece, embora não seja natimorta qual um nascituro desprovido de coração, se sobrepondo à anterior para engendrar este meu tempo particular feito de instantes eternos, este meu tempo que nunca para, este meu tempo que nunca avança.
E este meu tempo que é só meu me ensinou a evitar os obstáculos com que vou deparando em meu caminho. Nada surpreendentemente, os há inúmeros, embora o que me assoberbasse no começo fosse não sua infinita pluralidade e sim a perturbadora impressão de que pareciam mover-se, deslizando para trás e para a frente e para os lados no mais absoluto silêncio, multiplicando-se ao meu redor conforme penetrava cautelosamente o breu das trevas.
Obviamente,  o termo obstáculos aqui não passa de eufemismo. Quem sabe devesse dizer barreiras. Ou então dificuldades. Empecilhos ou estorvos talvez viessem mais a propósito. Mas nenhum deles refletiria a realidade com precisão, pois que, se almejo a ser o mais honesto possível, deveria é chamá-los de inimigos. E é exatamente neste aspecto que a situação no interior se assemelha à lá de fora. Tal como no mundo exterior, aqui não posso enxergar meus inimigos. E, sendo invisíveis, aqui, tal como no mundo exterior, posso fingir que não existem. E, tal como lá, são esses os mais cruéis. Os mais obstinados.
Porém, aqui neste lugar absolutamente abafado, neste lugar irremediavelmente escuro e inóspito para qualquer outro ser vivo, disponho de defensores.
Quem são eles?
Os anjos. Meus anjos. E, creia, eles podem ser infinitamente mais cruéis e mais obstinados que qualquer um dos meus inimigos. Assim como estes, são também invisíveis. São, pelo menos hoje. Antes não eram.
A primeira vez que ousei passar para o interior pude vislumbrar um ou outro vulto a desvanecer misteriosamente pelas bordas do meu campo de visão. A princípio, ainda confuso pela ausência de oxigênio e de luz e de som, ainda ludibriado pelas sombras, pensei que se tratavam de fantasmas. Naquele meu primeiro encontro quedei paralisado de terror. Minha experiência lá fora com o desconhecido se limitava a espectros e fui levado a deduzir que aqui a vida meramente daria prosseguimento ao meu estado anterior. Até que, quando comecei a compreender a nova situação, percebi quem eram de fato.
Mas não se engane – meus anjos em nada se parecem com aqueles do Cristianismo. São, na verdade, antípodas destes. Nada têm de bondosos. Nem de santos. Suas qualidades estão indescritivelmente afastadas da caridade, são antagônicas da clemência, avessas da tolerância, da compreensão, da aceitação incondicional das fraquezas humanas. Meus anjos, aqui neste antro totalmente ocupado pela mais plena escuridão e cingido pelo mais delicado silêncio e transformado pela inexistência do tempo, sob a égide da Perfeita Ausência que só pode vir a ser por meio da Infinita Solidão, meus anjos são, pelo contrário, terríveis.
Terríveis como aquele a rondar o Castelo de Duíno.
Disto isto, penso que finalmente reúno as condições necessárias para iniciar a leitura de Rilke. Sinto-me protegido. Estou, creio, preparado.