Ele voltou XV

...continuação de...

A informação dada por Giraldi é falsa. Ele apagou os arquivos do livro. Sessenta anos de experiências foram para o ciberespaço. Processo o disco com o restaurador, não será possível recriar tudo aquilo. A memória tenta lembrar que começava no dia em que papai foi à escola a primeira vez. E terminava dizendo que estava começando a pôr seus princípios em prática. Visão imperial. Parou de escrever em 20/10. O protagonista, o contador, é funcionário público. Não paga suas contas, vive perseguido por credores. Parece raquítico e frágil feito drummond, o em-sessenta-por-cento-dos-casos-chato. Roubou tudo o que tem da empresa onde trabalha mas nunca deu nada à família. Com o dinheiro construiu uma mansão nos Jardins para a amante. A mulher tinha visto a fotografia dela no computador dele, pegara o 38 que ele guardava em cima do guarda-roupa e esvaziara o tambor no descarado. Veja, ele é este aqui neste velho álbum. Sim, esta é a casa antiga. A mulher é esta, a amante é esta. Papai fez uns comentários a respeito, disse que foram encontrados mais de cem documentos na mansão. Os colegas do contador também estão envolvidos. É o caso típico em que o sujeito vive dois mundos, duas vidas, dois eus mas você sabe que a verdade não está em nenhum dos dois. Em ambos ele mantém um diário, num é o contador funcionário público de gestos comedidos e ar medíocre cuja maior aspiração é que ninguém o note, noutro é um pleibói que adora fazer com que os outros sintam seu prestígio e seu poder, esnobe, fanfarrão e mulherengo. Na segunda vida um dia começa a plantar indícios de que esconde de todos uma vida secreta. Faz de conta que tem atividades clandestinas, que guarda um grande e inconfessável segredo, mas que obviamente não é sua primeira vida. Quando se assegura de que todos estão com a pulga atrás daquele lugar em que as pulgas vivem nesse tipo de situação começa a plantar pistas mais significativas, cada dia mais, de repente todos veem claramente que ele é traficante de armas. Por algumas semanas fingem não saber, ele finge que ninguém sabe mas sempre arruma um jeito de mostrar que secretamente é bandido. Em dois ou três meses todos comentam abertamente. Agora já não é mais boato. O Filhodaputa é um tremendo dum Filhodaputa. Quando sai para a noite com a amante bebe todas e se mete a exaltar as façanhas que perpetrou, chama sorrateiramente seus convivas a um canto e cochicha ter armas químicas, bacteriológicas, gases, pós, iunêimit. Sabe aquele atentado em Buenosaires, teve um dedinho do papai aqui. Sabe onde fica nosso depósito? Pasme: no Texas. Uma fazenda de pecuária. Nosso sócio é congressista, já foi indicado para a eleição ao governo do estado. O notívago contador funcionário público contrabandista fascínora sabe como tirar proveito do físico frágil. Safados magrinhos fraquinhos são mais assustadores do que brutamontes. Amazing world hein?
Como alguém com tanto talento para manobrar as anesílsones e suas fantasias de oliude a ponto de lograr que elas acreditem no que ele quiser que elas acreditem não se renda de vez à própria capacidade de realização e contente-se em colher os louros desse talento e decida-se a desfrutar dos benefícios produzidos por sua capacidade de manipular outrem que seguramente só se encontra numa em cada dez mil habitantes? Por incrível que pareça contador não é contador por opção mas por querência e como tal tem a mesma natureza medíocre de todos os contadores que já passaram por este planeta. E pior do que um contador com sua mediocridade só a mulher do próprio. Essa então é mais medíocre ainda. A bendita jamais desconfia que o marido está levando vida dupla (a esta altura, tripla). O homúnculo explica que precisa viajar uns dias, inspecionar os balancetes das filiais da organização, coisa a ser executada in situ, e ela, para não mexer com alemão, aquiesce. Quando você quiser embasbacar alguém, aturdir a ponto da pessoa nem quereresboçarreação, tasque-lhe grego. A primeira vez que ele usara o estratagema a mulher estranhara, puxa da outra vez você disse que precisava ser in loco, agora tem de ser in situ? Deixe-me então explanar, é que as coisas andaram mudando lá na repartição, e você sabe, explanar é bem mais eficaz que explicar. Parece que vai ser assim de agora em diante: ora dum jeito, ora de outro.
Por que ele não deixa de vez aquela vidinha ordinária com suas prescindíveis injunções, insignificâncias, marasmo, sensaborismo? Ele bem que tentou. Mas sentiu falta dos seus balanços. Do horário. Da existência regrada. Da patroazinha que não fazia outra coisa além de esperar a morte chegar. E depois viciara na duplicidade, descobrira-se um ser plural, Porra sequer imaginava que o bom mesmo é jogar em várias frentes, quando você cansa dum personagem muda de roupa, muda de casa e voilà vira um caieiro da vida e desvira aobelprazer e vira de novo. Só não acha bom quem nunca experimentou.
(Procuram-se voluntários para ser pessoas diferentes. Os mais bem-sucedidos receberão prêmios.)
As pastas com os documentos sobre o tráfico de armas estão na mesa de Giraldi. A do topo é sobre Taiwan. Depois vêm China, Canadá e affelandrepublik. Embaixo do nome do país está anotado o nome do respectivo autor. Giraldi apanha as três primeiras pastas e guarda numa gaveta da escrivaninha. Abre a quarta pasta e retira um calhamaço. Na primeira página está escrito Diário. Na segunda, Construção dum computador celular. Circuitos biológicos. Transporte dos mecanismos genéticos para a nanotecnologia. Fusil de alta precisão com mira a laser. Transistor de pentacene.
No auge do sucesso, todo o mundo admirava o estilo modesto de Giraldi. Seu grande personagem foi moldado quando ele fez quarenta anos, tendo atrás de si uma história bem construída, mas hoje vive acoçado, diz sofrer ameaças, reais ou não. Não há nenhuma implicação de fraude literária, tudo se resume a competência profissional. Giraldi nunca publicou porque alguns meses antes um romance quase idêntico chegou às livrarias. Tratava de outros assuntos mas usando quase as mesmas palavras. A capa também se assemelhava, um anjo no cio vertendo sangue pela vagina dando à luz uma hiena de cuja boca despontavam as asas dum anjo. Giraldi imaginava estar ficando maluco com o excesso imaginação. Cogitou lutar. Não via como. Começou a digitar furiosamente, certo de que a resposta estava em algum lugar nas dezenas de discos rígidos de cem tera cada um. Os arquivos somavam bilhões de trilhões de palavras, ainda não descobrira uma fórmula científica para classificar tudo, mas a informação estava em algum lugar. É real ou não? a pergunta não se dissipava. Tinha de se policiar, arregimentar um exército de leitores, muni-los de chaves para os códigos criptografados e permitir que se desenvolvessem à excelência das normas industriais. Em breve o público, cansado da guerra infinda contra os contrabandistas paraguayos e anestesiado com a rotina da neve que não parava de cair havia décadas perderia o interesse e a memória do computador ficaria a zero. A sucessão de bytes alinhados ao acaso estava fugindo a seu controle. As frases adquiriam formas indistintas que em apenas algumas centenas de parágrafos perdiam a capacidade de articulação e, daí, a inteligibilidade. Os críticos logo estranharam o tom cru cuja falta de reverberação violava as leis literárias conhecidas. Morte. Aleatoriedade. Morte. Giraldi foi instado a defender a obra por vários críticos e professores em vários jornais e revistas, até na tevê. Às vezes pensava em se manifestar mas a velocidade com que o computador jorrava texto na tela não permitia. Em apenas algumas horas dúzias de versões do romance eram geradas, baseadas em experiências diferentes e verossímeis, colocando inesgotavelmente a esperança e a promessa de que o próximo, o próximo e o próximo seria melhor que qualquer coisa que jamais fora escrita. Sabendo que a utilização de números genuinamente randômicos acabaria por produzir uma sucessão arbitrariamente bela de caracteres, Giraldi pôde prever que estava perto do que, poder-se-ia dizer, seria o mais próximo da verdade. Passados alguns dias nesse caleidoscópio wagneriano, pensou que podia concluir que tudo estava no reflexo do olhar. Você pode estar certo, o pai respondeu quando ele telefonou para contar. Envie uma cópia, o pai pediu. Ele enviou. A cópia é esta contida neste envelope que ele nos deixou. Será? O pai anotou no diário que só voltou a falar com Giraldi, e mesmo assim muito brevemente, na manhã seguinte, ele disse que não estava suportando mais a impaciência. Às vezes os romances que saíam eram exatamente os mesmos, descrevendo absolutamente a mesma curva. Em alguns seguintes faziam-se pequenas substituições de nomes de personagens ou falas, minúsculos enganos calculados eram introduzidos. Na tarde do dia seguinte a aml anunciou oficialmente que acusações de fraude seriam apresentadas contra Giraldi com base em estudo de 130 mil livros envolvendo quase seiscentos mil personagens. São as algoestruturas, Giraldi anotou no diário. Tenho de admitir, cometi muitos erros, escreveu na mesma nota. A dada altura os personagens descobriram uma forma de criar seus próprios romances a partir do próprio computador de Giraldi. Ele estava em dúvida se devia ou não permtir que levassem aquilo adiante. Talvez conviesse destruir tudo antes que fosse tarde. Tarde para quê? o pai quis saber exatamente. Sou eu quem deve decidir qual é meu papel. Somos todos iguais apenas na aparência. Os efeitos gerados em nossas vidas são apenas experimentais, escreveu um deles no diário. Qual, precisamente? Uóxito. Giraldi tentou regredir no código do programa primeiro linha a linha, depois construct por construct, algo por algo, função por função, depois procedimento por procedimento, depois unidade por unidade, deveria remover tudo que atribuísse independência autônoma aos personagens, construíra um mini-big-bang miraculoso praticamente sem querer, os personagens punham sítios no ar, forjavam identidades em portais, desenvolviam motores de busca. A comissão que a aml encarregara de acompanhar o caso acreditava que Giraldi, ou sabe-se lá quem, alterara o código pelo menos três mil vezes mod três mil vezes vezes oito em tipo integer, procurando atingir um estado de autoalgoritmização intra e intermolecular que não deixasse pistas. O país começava a encolher sob os ataques dos traficantes paraguayos nos diversos frontes. O presidente do país vizinho já fazia discursos em que deixava clara a ambição de nos dominar de la gran sabana ao canal de beagle. A remoção do código de aleatoriação genuína se fazia imperativa. A maioria dos geradores de números randômicos produzem o que é conhecido como ruído branco, george, o último protagonista, confidenciou. Você pode pesquisar meu nome quantas vezes quiser mas não conseguirá me extinguir. Sou mais rápido que você. Giraldi a princípio pensou que as substituições poderiam ter acontecido por engano do próprio computador e chegou a ficar animado. A alegria vai durar pouco, george riu. A natureza recorrente desses enganos indica que você perdeu o fio da meada. Não sabe mais em qual formato o programa está produzindo o código e, pior, de que forma cada parâmetro será interpretado e executado e, pior ainda, por qual compilador rodando nas máquinas. Toda vez que solicitar um expurgo de dados do servidor uma nova onda de bytes randômicos inundará a rede, rearmando a trama geracional. Com as repetições dos procedimentos as identidades nacionais se perderam. O espanhol está invadindo incontrolavelmente o vernáculo. Leia os jornais. Ligue o rádio. Não adianta chorar com luela. Luela, imbecil. A comissão vai divulgar os resultados daqui a três dias e você está fudido. Nunca pensamos o que você queria que pensássemos. Não mais possibilidade de ressubstanciar o algoritmo, a obra agora está a nosso cargo.
O pai costumava dizer que Giraldi poderia ter imprimido os circuitos em plástico eletrônico, que em teoria não permitia a proliferação autoalgorítmica. Hoje em dia o plástico eletrônico é o único material cuja fórmula ainda não caiu nas mãos dos paraguayos e que ainda é capaz de registrar um instantâneo dum dado estado da rede. O plástico eletrônico é constituído de cristais de kloc obtidos através dum estranho método químico, lixiviação, sim, quando Giraldi mencionou todos torceram o nariz, impossível.

continua em...