iwjj012 ou Teus sapatos

Entro no quarto distraído, dou com teus objetos pessoais amontoados num canto, tuas roupas largadas na cadeira.
Dos teus objetos e de tuas roupas, teus sapatos são os mais tristes.
Os mais reveladores.
(Serão também os meus? Os de todos nós?)
Ao contrário da tua camisa. E da tua blusa. Estas registram, quando muito, apenas as gotas de café que deixaste pingar enquanto falavas desses assuntos de que falas todos os dias.
(E quantos são os assuntos de que tens de falar todos os dias.)
Ou nas horas de ansiedade em que esperavas que uma notícia finalmente boa viesse te afastar do teu destino.
Tua blusa exibe alguns fios caídos do teu cabelo escasso.
A camisa, furtivos, brancos flocos de caspa.
(Mas não a neve furtiva e branca que, vejo pela janela do quarto, não cai lá fora.)
Também ao contrário das tuas calças.
Nelas, deixaste as marcas de suor das tuas mãos nervosas, eternamente a esfregar uma sujeira inexistente que pensavas indelével.
Os fundilhos quase se esgarçaram, tantas foram as cadeiras em que cumpriste as esperas que te couberam. Tantos foram os bancos que disciplinadamente te obrigaste a ocupar enquanto não passasse o nervosismo, a ansiedade com que insistes em viver.
Tantas foram as poltronas em que teu corpo cansado, sob domínio da tua amarga impaciência, repousou depois dos frenéticos exercícios com que tentavas vencer tua inocência. Tantos foram os sofás em que te estiraste na penumbra, dando-se o luxo de permanecer longos minutos em estado de absorção, matutando os mistérios que forjaste para afetar uma profundidade que, sabias (sempre soubeste), nunca foi verdadeira.
Os muros em que trepaste na infância, aprendiz que tinhas sido (desde o berço, talvez) do homem inquieto por excelência, desta e todas as épocas. As sarjetas em que nas madrugadas, depois de tomar teus definitivos, ritualísticos, messiânicos porres, teu corpo, rendido sob o peso de sonhos etílicos, buscou o conforto do leito perdido, desgovernado por tua cabeça em que rondava (agora sabes, se é que já não sabias) a palavra-fantasma que passou a te assombrar o espírito desde o instante em que tomaste ciência de sua presença (que a partir de então foi tua única constante).
Também ao contrário dos teus livros.
Uns quase intactos, que, sabias (como sempre soubeste), ensinamento algum guardavam para ti. Outros tendo a capa gasta por teu manuseio, ostentando na lombada abcessos e estrias feitas pelas unhas dos teus dedos que sofregamente saltavam as páginas, devoradas por teu olhar faminto – faminto do desconhecido, faminto da vida.
(E esperançoso de que a próxima linha, a palavra vindoura finalmente trouxesse a verdade que, sabias, sempre soubeste, te fora reservada por teu fátuo deus – cujo maior deleite e único propósito era brincar contigo de existir.)
Ao contrário, ainda, dos teus escritos, tão obsessiva, monotonamente centrados nos temas que, pensavas, eram teus votos sacerdotais.
Ao contrário, ainda, das coisas supérfluas que sonhavas eliminar do mundo.
Coisas supérfluas como chicotes de domadores de tigres, xícaras de porcelana chinesa, cupons de concursos de carros e casas que caíam de revistas e que, em tua incurável preguiça, tua niilista preguiça, assistias perderem-se sob a cômoda enquanto te conformavas pensando, "lá se vai mais uma vez minha sorte", castanholas que certa feita ouviras estalar nas mãos duma vizinha castelhana que, sonhavas, viera da Andaluzia.
De tudo isso, são teus sapatos os mais reveladores.
Díspares, parecem não formar o mesmo par.
No esquerdo o salto por pouco não se consumiu de todo.
No direito, está quase todo inteiro.
Isso demonstra...
(Prova cabal, prova de todas as provas de que todos ao redor de ti precisávamos! Para fazer o balanço dos teus dias. O levantamento das tuas derrotas. O resumo dos teus rumos.)
...que, além de andares tortamente, andas dando voltas.
Um, amarrotado, sulcado de estrias, desbotado.
(Sinal claro de que não te empenhas suficientemente em te desviar dos teus obstáculos ou evitar teus tropeções.)
O outro, quase novo – cromo praticamente incólume.
(Eis outra evidência: certamente não dás todos os passos que te compete dar em tuas andanças.)
Acima de tudo revelam que ao longo de tua vida cada um dos teus pés tem te levado por caminhos, não errados, apenas antagônicos.