Adoração à minha frente, que é que II

LOUCO LÚCIDO
escrevi num pedaço de cartolina e pendurei no pescoço
E saí
A zanzar zonzo pelas ruas
Uma menininha logo apontou pro meu peito e disse:
“Olha, mamãe. Um louco lúcido!”
E a mãe:
“É feio apontar, filha. Olha que o homem te morde!”
Preciso escrever LOUCO LÚCIDO DESDENTADO
Num pedaço de cartolina
E pendurar no pescoço e sair a zanzar
Zonzo pelas ruas
Como se atrás do meu precavido anúncio
Houvesse a necessária explicação
Subtexto à satisfação dos professores que
Não têm o que ensinar e sossego dos pais
Mortificados de pavor que seus rebentos
Caiam nas garras dos malucos que perambulam
Pela cidade

Não me exija nada
A ciência ainda não inventou – e queiram os céus que nunca invente – um xarope que nos torne iguais
Que nos transforme no que desejem que sejamos

De me minha parte não tenho exigências.
Não quero nada de você
Não quero nada de ninguém
Não vim lhe pedir licença para ser quem sou

Não me exija que eu seja feliz
Tenho medo de quem se diz feliz
Não se choque.
Não sou fugitivo do zoológico

Não sou fugitivo de mim mesmo.
E não fugindo de mim mesmo
Não sou meu mais implacável carrasco
Eis a única liberdade digna do nome