Quantas vezes não vou andar meu caminho?

Me enganei pacas na minha vida
Me deixei enganar pacas na minha vida
Me enganei com o boa-praça de sorrisinho mecânico
Mas todo mundo que não é um boa-praça de sorrisinho mecânico se engana com o boa-praça de sorrisinho mecânico, não é mesmo?
Não foi só com o boa-praça de sorrisinho mecânico que me enganei
Me enganei com o anjo travestido de anjo que no fim se revelou um demônio
Me enganei com o anjo travestido de demônio que no fim se revelou um demônio
Me enganei com o demônio travestido de demônio que no fim se revelou um demônio
O dr. G dizia que sou paranoico
Está dizendo que nasci paranoico, dr. G?
Não estou dizendo nada. Não me comprometa
Será que me enganei com o dr. G?
Época houve em que meu primeiro pensamento de manhã era “com quem vou me enganar no dia de hoje? com quantos vou me enganar no dia de hoje?”
Você é muito ingênuo, acredita demais nos outros! Mamãe devia ter me ensinado
Não teria adiantado nada, mama. Não aprendi nenhuma das poucas lições que tentou me ensinar
Não aprendi nenhuma das infinitas lições que o mundo tentou me ensinar
Eram, cada uma delas, lições que não me serviam, sabia de antemão
Eram lições aprendidas pelos outros ensinadas para os outros
Eram lições aprendidas e ensinadas para quem nasceu para aprender e ensinar
Oh, tenho tanta aversão pelos aprendedores de lições
Tanto nojo dos ensinadores de lições
Professores me dão essa minha coceira metafísica
Alunos me evocam pequenos chimpanzés arredios, contrafeitos com a própria macaquice, ensandecidos com a ideia de virar gente
Foi por isso que decidi ser autodidata
Acho
É por isso, acho, que vivo a repetir
Não sei nada
Não preciso de nada
Não quero nada
Repito para mim mesmo, já disse
Tudo que faço
Tudo que digo
Tudo que nego
É para mim mesmo
É por isso, acho, que vivo a repetir para mim mesmo
O mundo não existe
E, se existe, não é para mim
E, se existe, não é o meu
E, se não é para mim ou não é o meu
Então não existe
E, se não existe, posso estar muito bem enganado
E não me enganei na vida tanto assim
No fim
Tem manhã acordo e não penso nada
E sinto meus lábios se abrir num sorrisinho mecânico
De bom boa-praça que sempre sonhei ser