Eterno II

Preciso cada dia mais de espaço e solidão
Se continuar assim chegará o dia em que terei de mudar para o deserto do Saara para escrever

Vou tentar esquecer o que Gore Vidal disse de Solzhenitsyn.
Vidal disse que Solzhenitsyn é o pior romancista de nossa época em qualquer nível – como escritor de narrativas, intelectualmente e filosoficamente.
Que Solzhenitsyn é o tipo de homem que nunca deveria chegar perto da literatura, da religião ou da política porque é engenheiro.
Que tudo tem que fazer sentido para um engenheiro, tudo tem que conectar ou ele enlouquece.
Que Jimmy Carter, engenheiro, foi um dos piores presidentes dos EUA porque se entregava aos detalhes tentando fazer com que fizessem sentido.
Ah meu adorado boiolinha Gore, Solzhenitsyn de certo nunca nos fará falta mas você, sim. Leio e leio e releio teus ensaios, que pena que tenha perdido teu tempo e tua energia com teus romancezinhos sensaborões ao invés de se dedicar inteiramente à ensaística tica ica. Não que concorde inteiramente com tuas impressões dos escritores, claro. Tua bichice gets in the way too often. Não gosto da visão de mundo dos gays. Na verdade não vou muito com a cara dos gays, acho. Conheci uma cacetada de vocês, nenhum com caráter. Duvido que tenha sido coincidência. E a obsessão de vocês com o sexo, que coisa sacal. Me admira que você, por exemplo, tenha conseguido deixar de lado a gana de copular para se dedicar à literatura. Sei que passava a maior parte do tempo na caça. É o que vocês vivem para. Sempre que te leio fico te imaginando com essa tua cara de Adônis e esse teu olhar ao mesmo tempo duro e sonhador seduzindo ou esmolando ou comprando o serviço dum par. Cáspite, esse desprendimento deve ser o cúmulo da sofisticação dos chiques da tua laia, inacessível a matutos terceiro-mundistas deste que inveja teu berço e todas as benesses que vieram de brinde. Que dádiva não ter credores nem precisar dar satisfações. Privilégio de quantos neste mundo de sofredores? Meia dúzia? O mais invejável em teus ensaios são as sacadas que só estão ao alcance da crème fouettée. Todos só pensamos em sexo e grana e você de cara pôde se ver livre duma metade do que nos escraviza. Te ler é perceber que todas as veleidades de nós caipiras aqui embaixo são delírios infantis, aqueles presentes com que crianças sonhávamos sem imaginar que se destinavam apenas ao beautiful people. Terror supremo: que estou, e nasci, condenado ao sonho, lambendo meus dedos secos e os beiços dos eleitos do jogo de cartas marcadas da vida. E ainda faltaria falar de que aquele afortunado coup de dés te jogou no centro do centro do universo, tendo um senador dos EUA como avô e um presidente na família.

Sofro, qual um homossexual, da doença da sofreguidão. Homossexuais têm presas, eu, vítimas. Homossexuais fazem uma maçaroca das nossas dimensões física e espiritual, tentando reduzir esta àquela para que nós seres incabíveis caibamos num maldito molde que seja.
Minha sofreguidão me faz gerador e recipiente de toneladas de emoções e os carneirinhos no pasto me olham ao longe, olha lá um louco. Sou capaz de me entregar dias a fio a escrever sob o efeito dum ataque sedutor. Posso obrar meio romance, dezenas de páginas de visceralidades, embasbacar esses seres que pairam pelas esquinas da cidade esperando que as complicações do mundo e da vida vão embora simplesmente, literalmente. Claro. Eles, os embasbacados pacíficos, me veem e se perguntam, quais serão as intenções desse sujeito.
Ãh? arregalo os olhos, capturando no éter a pergunta c’uma das minhas anteninhas atrofiadas, não tenho intenção nenhuma não senhor. E passa uma gostosa e não me olha como se fôssemos desconhecidos e fico pensando, essa aí bem que se derretia se lhe fizesse um pedido de casamento. E de repente tudo ficaria factível. Tudo que desejamos é ser desejados, de preferência, imensamente.

Somos todos personagens duma ópera vagabunda cujo enredo não faz sentido pra ninguém, muito menos pra nós mesmos. Vamos fingindo que atuamos, nós e nossos pares, a contento. Nosso maior esforço é para nos convencermos a nós mesmos e à plateia. O maior perigo é a tentação de algum de nós sucumbir a ser o que de fato somos. A peça prossegue impávida do nosso primeiro ao nosso último dia e ao fim de cada espetáculo tudo que esperamos é uma salva de palmas ensurdecedora que abafe o ruído indistinto, mas sinistro, dos nossos medos mais medonhos.