Quem me dera fosse meu o mundaréu

Tem esse trem inesgotável de palavras desfilando aqui dentro, quando estender o braço e apanhar uma? E depois de apanhar, deixar cair atrás? Jogar na frente das outras? Fazer confete?
Que gostoso se depois elas todas se voltassem em minha direção e me dissessem alguma coisa, algo que nunca ouvi, algo que não sabia nem da vida nem do mundo nem de mim, nem de mim!
Eis tudo, ou quase, por que anseio.
Não quero saber segredos do mundo nem da vida. Essas coisas não me dizem respeito. Nem me interessam informações ou notícias dos outros.  Não tenho interesse pelos outros. Nunca tive interesse pelos outros. Por que teria se não tenho nem mesmo por mim?
Quero é assistir o desfile, rir de como elas se atropelam e se pisam nos pés umas das outras, e como se cheiram uma à outra seus rabicós perfumados de palavrinhas dignas e distintas protagonistas a dar seu showzinho particular para estes sentidos sempre indecisos das serventias das coisas.
Quero que se juntem numa só isenta de significado e então se estilhacem em bilhões prenhes de significantes e me façam esquecer tudo que sei e me desensinem o que ainda não sei nem nunca haverei de querer saber.
Será esta noite quem sabe?
Sim, será. Como sempre é. E da festança não sobrará uma única sílaba ou um copo com a borda suja de batom rouge.
É chegado o instante da interjeição.
Que engulo em seco ajudado por um gole de uísque.
Engulo mesmo contra a recomendação do médico. Olha que esse seu coração, falta isso pra entupir de vez.
Você tá enganado, doc. O pobre já nasceu encalacrado. E venho tentando desentupir desde então. Não é moleza. O manual vem sendo escrito à medida que avanço.
Estava pronto, o manual, veio comigo.
E a cada manhã o atirei longe, decidido a me redescobrir. E a cada noite o joguei na sarjeta duma das infinitas esquinas da minha vida, desesperado por encontrar minha língua.
Nunca soube o que soube sempre.
Espera!
Não, não é uma boutade, renunciei a ser leviano.
Mas tão somente o desfile que não cessa.
Vou atrás. Jamais me ocorreu perguntar por quê. Pareceu o caminho natural desde o começo.
Quem sabe, minha vocação. Ou profissão. Meu destino. Que não é meu. Por que haveria de ter um mesmo já tendo encontrado?