Altivez beethoveniana

Peço esmola só pra ver as pessoas a quem peço me olharem lá de cima das nuvens onde moram.
Peço esmola só pra ver as pessoas a quem peço torcerem seus narizinhos nobiliárquicos que em geral não veem razão para se retorcerem.
Você sabe que neste mundo o simples fato de alguém pedir o que quer que seja já é sinal de vocação para a vassalagem.
O que, modéstia à parte, é meu caso.
Quando peço esmola não sou assim tão verborrágico.
E posso pedir esmola em latim, se preferires.
Não pense que peço esmola por precisão.
Peço esmola porque os pedintes sempre me intrigaram.
Desde cedinho me deu essa vontade de saber como é a experiência.
Será, pensava, será que precisa ter coragem?
Será que precisa ter algum tipo de vocação?
Desde cedinho saquei que não tinha, nem nunca teria, vocação pra porra nenhuma.
Fazia uma bela confusão entre mendigar e ser um comandante de exército ou líder duma equipe de pesquisas espaciais.
Hoje, tanto tempo depois, tenho a impressão de que fui os dois.
Fui os três.
Ter, e manter, aqui no fundo os antípodas do que sou me livrou das incógnitas. Sou o feliz proprietário de certas coisinhas da minha vida.
Ajuda a suavizar este meu tédio existencialista.
Guardar em mim antípodas me salvou da curiosidade quanto ao outro.
Sou hoje o feliz indiferente de quantas gentes e tipos de gentes possam haver nesse vasto mundo aí fora. E o que possa lhes passar pelo cérebro que nunca para de evoluir. Para que evolui, não me perguntem.
A indiferença por sua vez me livrou da bisbilhotice.
Posso pedir esmola mas não peço perdão.
Minha presença no mundo é feita de coisas, que louvo ao nascer das  manhãs, despertando para o mal de existir.
Esquecido do pesadelo que me ninou noite adentro.
Sabedor de que foi pesadelo.
No instante de abrir os olhos, já sem medo de acordar para reviver o pesadelo acordado.
Embalado pela Sonata 19 em sol menor.