Bebê de meia-idade II

posso te chamar mãe?
posso acreditar que o sangue que corre em minhas veias também corre nas tuas?
estou só
o leite não me alimenta, não tenho fome
o abraço não me aquece, não sinto frio
a canção não me acalma, não sou revoltado
murmura tuas mentiras em meu ouvido
sustenta minhas mãos voadoras por dois segundos, o depois não importa
colherei essa violeta que perfuma teus olhos, com ela enfeitarei a lapela do meu último terno
és o sonho do qual despertarei
em meu túmulo de moleque eterno
és o milagre desta noite quente de agosto na qual nasci e morrerei
penteia meu cabelo, faz a última recomendação
não, economiza teu parco conhecimento
não me ensina a viver
joga os dados, tira uma carta
e escreverei na areia em ouro
pode me chamar filho e do que desejares
és só
teu leite é azedo
a dor que escapou dos teus olhos devorou os meus