Outro dos momentos aqueles

Andei pensando.
Um-um.
Olha, pensei bastante.
E?
Tive de tomar essa decisão.
Qual?
Vou te deixar.
...
Está me ouvindo?
...
Alô! Diz alguma coisa.
P... p... por quê?
Nenhuma razão especial. Eu...
Fiz alguma coisa?
Não. Bem, sabe como é. Você... Bom, já não importa.
Que foi que fiz? Me desculpe. Não faço mais!
Nada. Não fez nada.
Está me dizendo que vai me deixar a troco de nada? Diga! Que foi que eu fiz?
Já disse. Relaxa.
Relaxar? Como é que vou relaxar com você me ligando aqui no hospital e assim de supetão me dando uma notícia dessas? Notícia, não. Tiro no peito! Ainda bem que estou no lugar certo. Daqui vou para a UTI. Depois, necrotério.
Taí uma das coisas que você sempre faz. É por isso.
Que é que eu sempre faço? Não estou fazendo nada.
Esse teatro. Dramatiza as coisinhas mais simples.
Coisinhas! Simples! Está me dizendo que me telefonar aqui no hospital, no meu horário de trabalho, pra me dizer que vai me deixar é coisinha simples? Será que escutei bem? É isso mesmo que está me dizendo?
Sabia!
Que é que você sabia?
Que ia dar nisso. Até pensei em gravar esta conversa. Só pra te esfregar na cara depois. Se alguém te escutasse agora pensaria que está encenando Nelson Rodrigues.
Você nunca leu Nelson Rodrigues. Como sabe o que é encenar Nelson Rodrigues? Lembra quando ganhamos Os sete gatinhos de brinde com a assinatura da Veja? Está lá na gaveta até hoje, ainda lacrado com o plástico. Essa é boa!
Não li, mas assisti uma série na Globo baseada num livro dele. É a mesma coisa. A única diferença é que a gente vê em vez de ler.
Só podia mesmo me comparar a um personagem do Nelson Rodrigues. Nada mais clichê. Eu estranharia se me comparasse a um do Jorge Andrade. Aí eu queria ver.
E ainda queria razões! Pronto. Mal começamos a conversa, já me deu duas. Espere um minuto, vou pegar papel e caneta pra anotar. Vejamos. Primeira: vive fazendo tempestade em copo d’água e ameaçando subir pelas paredes sem mais nem menos. Segunda: adora me esnobar. Mais uns minutinhos e terei um cardápio de pizzaria completo de motivos pra te deixar. Pelo menos uma vez na vida me dê uma razão para continuarmos juntos! Uma só. Agora quero ver.
...
Alô! Ainda está aí?
Estou.
Então, responda.
Que é que você quer que eu responda?
O que perguntei, oras.
Que foi que perguntou?
Não finja que saiu do ar. De novo não, pelo amor de Deus! Esse seu truquezinho tá mais manjado que não sei o quê.
Como assim, “mais manjado que não sei o quê”? Isso é comparação que se faça?
A comparação é minha e comparo como me der na telha.
Vamos lá. Você pode fazer melhor que isso.
Dio mio! Agora virou um filme B roliudeano porcamente traduzido.
Come on, baby. Tente uma comparaçãozinha mais maneira. Você consegue. Eu sei que consegue.
É claro que consigo. Só quis te irritar um pouco.
Ah, essa quero ver.
Que é que quer ver?
Me irritar. Quantas vezes você conseguiu fazer isso em todos esses anos? Hein? Quantas?
Não me faça rir que me doem os dentes. Que conta você quer? Por hora, por período, por dia? Esses anos todos, você disse? Precisava dum computador pra calcular.
Não caio nessa arapuca não. Te manjo faz tempo, ó.
Que barulho foi esse? Quebrou alguma coisa?
Estalei os dedos. Deixe de teatro. Sempre estalo os dedos quando digo isso. Você sabe muito bem.
Quando diz o quê?
Te manjo faz tempo, ó.
Manja coisa nenhuma. Não manja nada. Nunca manjou. Eu é que sempre te levei aqui, ó.
Onde, exatamente?
No gogó.
Você, me levar no papo? Never, cherri. Tá pra nascer o cristão que vai me dar chapéu.
Então tá.
Como assim, então tá? Que é que você tá insinuando?
Nada, oras. Você acabou de dizer que nunca levou nem vai levar chapéu. Muito bem. Acredito. Não está mais aqui quem falou.
Quem falou o quê? Você não falou nada.
Exatamente. Não falei nada. Deixemos pra lá.
Uma pinoia! A que você estava se referindo fazendo aquela vozinha de mistério?
Nada, já disse. Foi apenas uma piadinha sem graça. Como tantas que fazemos no dia-a-dia. Não vivemos fazendo gracinhas um pro outro? Então.
Mas agora foi diferente. Senti na tua voz uma coisa estranha. Muito estranha.
Impressão tua. Foi só uma piadinha, já expliquei.
Você está me escondendo algo. Que quis dizer com “me levar no gogó”? Quando foi que você me levou no gogó?
Bom, já que insiste. Foi uma ou outra vezinha à-toa. E faz tanto tempo. Nem vale a pena lembrar.
Vale a pena, sim. Agora quero saber. Que vezinhas foram essas?
Bobagens, já disse. Detalhezinhos sem importância.
Por exemplo...?
Bem... Sei lá, nem lembro mais.
Não lembra mais? Esse tipo de coisa não se esquece assim fácil, não.
De que tipo de coisa estamos falando?
E eu é que sei? Foi você quem tocou no assunto.
Bom, depois não vá dizer que não avisei. Hã... teve aquela vez que... hã...
Diga logo. Que foi que aconteceu aquela vez?
Vamos deixar pra outro dia. Nem vale a pena...
Outro dia porra nenhuma! Que foi que houve aquela vez? Diga, pelo amor de Deus!
Acho melhor parar por aqui.
Começou, agora vai até o fim. Desembucha.
Tudo bem. Desembucho. Mas só se você também confessar.
Não tenho nada pra confessar. Você sabe muito bem disso. Muito bem!
Então nada feito.
Por mim, tudo bem.
Sabia. Não tem coragem.
Tenho, sim. Quem não tem é você.
Quer saber? Tá parecendo crônica do Verissimo.
Que Verissimo?
De novo, não.
De novo, sim. Quem é esse cara?
Eu disse de novo não! Será que não escuta? Chega! Corta! Deu! Vou desligar.
Desligue. Mas admita. Que é cequedê.
Cequedê. Pronto. Admiti.
De qual cequedê está falando? Você não demonstrou coisa nenhuma. Só provou outra vez que apela pra qualquer artifício barato quando fica sem argumento. Eu é que digo cequedê!
Você não tem um pingo de humor. Eis o meu cequedê. Não sei como pude te aturar todos esses anos. Essa sua mania de levar tudo ao pé da letra. E tem o desplante de me ligar no serviço pra dizer que vai me deixar! Ora, eu é que vou te deixar, está ouvindo?
...
Alô, ainda está aí?
...
Alô! Alô! Alô!
...
Que aconteceu? Diga alguma coisa! Tussa! Engasgou? Bata três vezes o fone...
Celular não tem fone.
Que alívio. Pensei que tivesse acontecido alguma coisa...
Pois aconteceu.
O quê?
Não te amo mais.
Isso não é acontecimento. É apenas essa sua depressão que vai e volta e às vezes...
Depressão merda nenhuma. Pare de desviar o assunto. Faz anos que não caio nas garras da maldita.
De que maldita você está falando?
Do que mais podia ser? Da maldita depressão que não me larga um segundo.
Não esqueceu de tomar o lítio como o médico mandou, esqueceu?
Não é isso, benhê.
O que é, então.
É...
Diga.
Não sei se devo.
Manda bala. Vamos aproveitar a oportunidade. Sejamos totalmente francos um com o outro.
Não. Isso de ser franco é perigoso. Muito.
Que nada, benhê. Pode falar. Te conheço bem. Nada que você possa dizer vai me magoar. Já passamos tudo juntos.
Você que pensa, benhê. Tem coisas que a gente deve guardar só pra gente.
Segredos? Ter segredos um com o outro? Nunca. Ou fala ou vai ter briga.
Deixa disso.
Fala.
Já que insiste...
Insisto, sim.
Nojo.
Nojo o quê?
Tenho nojo.
De quê?
De você.
Deixa de brincadeira.
Não é brincadeira. Tenho. Pior. Asco. A última vez que transamos fui no quintal e vomitei.
Que exagero. É mais uma das tuas piadas. Diga que é!
Vomitei. No duro.
Benhê. Ai que choro. Asco de mim! Sou barata, por acaso? Minhoca?
Pior.
...
Alô?
Pior que minhoca? Que é que pode ser pior que minhoca?
Lombriga.
Ai!
...
Quanta crueldade, santa mãe. Que foi que te fiz? Chuif! Ai que morro de tanto chorar.
Lombriga não chora.
Para, benhê! Sei que você nunca gostou da minha pele leitosa.
E...
E...?
O que mais?
Sarapintada.
Que culpa eu tenho? Diga!
Podia ter feito tratamento. Hoje em dia é tão fácil.
E tirar daonde? Ganho uma mixaria no hospital, você sabe.
Para com isso, porra. Não suporto mais tuas desculpas esfarrapadas.
Você conseguiu.
Consegui o quê?
Estou no parapeito...
Que parapeito?
Do oitavo andar.
Que é que tá fazendo no parapeito?
Vou me atirar!
Essa eu quero ver. Me manda uma foto.
Pronto. Mandei.
Benhê! Sai daí! Pelamordedeus! Olha que escorrega! Vai se espatifar lá em baixo!
Claro que vou. Não é o que você queria?
Deixa disso, benhê! Brincadeira tem hora.
Tem. Esta. Tchau!
Aiiiiiii! Alguém ajuda! Socorro!
Quem que é lombriga agora?
Me perdoa, benhê! Nunca mais falo isso. Juro. Por deus.
Tá de joelhos?
Não. Mas vou ajoelhar.
Quero ver. Manda a foto.
Mandei. Viu?
Um, tá com aquela blusa azul...
Tô. Você que me deu.
Foi. No teu aniversário. Nunca te vi com ela.
Viu como te amo?
Eu também.
Vem logo pra casa. Tô morrendo de saudade.
Tou indo. Vai botando umas cervas no freezer.