Ele voltou XIII

...continuação de...

— Começa exatamente como termina — dito, microfone na mão, cara de feto feliz insciente de ter acabado de ser expulso do útero. — Os eventos se desenrolam até a palavra que ocupa ordinalmente a posição central no livro. Precisão matematicamente determinada. Depois dessa, eventos, sentenças e parágrafos sofrem reversão, retornando inversamente simetricamente até o restabelecimento virtual da primeira frase. E sabe que é? Nada gratuito. Aleatório. Tudo se encaixa. Programa. Se você tira uma palavra, desaba. Quer definição? Então vai: desafio. Irresistível. E engraçado. — Passo o microfone ao nossossanchopança, que o coloca em seu suporte no painel do Miata.
— Você sempre detestou essa gente — o nossossanchopança diz. — Por que  ajudar?
— Somos solidário. Okay, muitos deixam de lado seu ideal. Só pensam em digerir brócolis e germe de trigo. E uma conta bancária abarrotada.
— O que nos irrita é esse cosmopolitismo. De relações-públicas.
— Somos todos refugiados. Dê aqui o microfone de novo. — Pigarreio e disserto. — Estamos localizados entre o Céu e o Inferno. Oeste e Sul. Ocidente e Oriente. Inglês e espanhol. Rio grande do sul e a Coisa Morna. Brancos e negros. Portugueses e índios. Cuz-cuz e biguemaques. Sonho secreto morar em Luxemburgo. Estamos no meio dum incessante fogo-cruzado que nos ensurdece e que nos impede de escutar. Eternamente espremidos entre ontem e amanhã. O ontem passa mas o amanhã não chega. Nos consideramos mais racionais, mais profundos, mais próximos a deus que hindus, muçulmanos, budistas e protestantes. Sobretudo estes últimos, com sua falas mansas e higiênicas mãos branquinhas que nos cagamos de medo de tocar. Somos os proprietários por excelência dos mais belos atos de amor e portanto do reino dos céus.
Os olhos olham o nossossanchopança, que vai fazendo que sim com a cabeça.
Prossigo:
— Mas algo cresceu entre nós de que não nos se deu conta. Uma flor. Flor inodora, incolor, brotada no jardim que não nos pertence. A ela dedicamos o pouco de diligência que nos foi facultado. Não descuidamos de adubá-la, aguá-la, não queremos que deixe nosso mundo. E o corpo fica aqui parados à espera que desabroche, a flor que a ideia não sabe existir. Somos profundamente certos. Profundamente certos. — Devolvo o microfone ao nossossanchopança, que o encaixa no suporte.
— O importante é não fazer concessões — ele diz. — Custe o que custar.
— Nunca fez-se. Não vamos começar agora. Toque a fita mais uma vez.
O nossossanchopança tira a fita que eu acabara de gravar, insere outra na fenda do gravador, pressiona rewind, depois play. A voz de Giraldi torna a ocupar o compartimento de passageiros do Miata.
“A partir de agora nada mais acontecerá. Ao longo de todos os milênios que já vimosvemos nos dedicamos a desenvolver essa fantástica capacidade de organização que temos hoje. Para quê? Para depletar as reservas disponíveis.”
— Depletar.
“Nunca fomos tão bem-treinados, dotados e capazes. Finalmente derrotamos deus.”
— Derrotamos nossa própria natureza.
“Teremos derrotado nossa própria natureza? O homem sempre primou pelo hiato entre suas palavras e suas ações. Hoje estamos convicto, cientificamente, de ser esse o vazio de que nos queixamos desde sempre.”
— Que não enxergamos.
“Eis a flor do vazio. Que não enxergamos. Que viceja em nossos corações. Chegou a hora de decepar.”
— Pode desligar.
Os olhos olham para o carro ao lado e indico com um gesto de cabeça:
— Olha ela aí.
— Ela mesma.
— Ordens são ordens.
O nossossanchopança apanha o cel e tecla. Alguns segundos depois os olhos veem a meninota ao volante do outro carro atender.
— Olá. Como estás? — o nossossanchopança diz com sotaque colombiano. — Si. Si. Nos conoscemos na buate, te recuerdas? Dançamos la rumba por la noche. Me deste tu teléfono. No te recuerdas pero si. Estávamos eu e mi amigo paseando por estas partes quando os olhos olham para o lado e quienes veo? Mira, no es Izildita? pregunto e mi amigo contesta, si, si. Si, estamos bem de tu lado. Mira.
A moça olha em nossa direção. O rosto se ilumina e ela acena.
— Encoste o carro ali adiante. Vamos tocar un papito.
Alguns minutos depois estamos os três no Miata, o nossossanchopança sentado no banco de trás com izildinha, tengo un barato muy rico,  deixa eu experimentar. Enxarco um chumaço de estopa em clorofórmio e passo pelo lado do banco. O nossossanchopança imobiliza os braços da moça e pressiona a estopa contra o rosto dela, cobrindo a boca e o nariz. Quando a izildinha desmaia o nossossanchopança a ajeita no banco. Sai do Miata, dirige-se ao carro da izildinha parado à frente, entra, dá partida e arranca. Giro a chave de ignição do Miata e seguimos atrás.
Quarenta e cinco minutos depois estamos no labirinto do Ipsius Ego. Atrás do espelho observamos izildinha, filha de norberto coelho, elogiadíssimo escritor da atualidade, autor dos mais mirabolantes thrillers. A menina está prestes a ser…
Bem, agora um desses escritores abastados, cafonas e preguiçosos vai ver com quantas emoções se faz um romance.




“É como ter um braço arrancado e ouvir o mozart fazendo de conta que não sente a dor”.
Está na tela quando começo a digitar.
Começamos: “Roberto sempre fora alvo de piadas de seus colegas.”
A tela exibe: “Ainda moço percebeu que não daria para os negócios como seu pai.”
Digitamos: “Os negócios já eram tradição familiar. Ninguém se atreveria a enveredar por outra profissão.”
A tela exibe: “Sequer nutriam-se expectativas quanto a ele, pois fazê-lo seria admitir que Roberto poderia seguir outro caminho que não o esperado.”
Digitamos: “Você é um peso para a família. É infantil essa sua pretensão de querer ser diferente da maioria.”
“E vocês são patéticos. Querem apenas o que esperam. Veja. Quase nada em nossa vida é nosso. Mas o pouco me basta. Não precisamos ficar doente de preocupação em não perder o que não temos. Vocês são loucos por ter. A obsessão pela propriedade. E tudo o que conseguiram com isso foi ser mesquinhos.”
Digitamos: “Não nos condene por buscarmos a satisfação dos nossos desejos. O conforto do nosso espírito. Que mal há nisso? Você se acha um messias que está aqui para nos redimir. Mas não passa dum moralista. Um tolo moralista.
“Não me interessa a opinião de gente como você. Sim, somos moralista, com muito orgulho. Não finjo para mim mesmo que renunciei aos princípios éticos para não sentir a culpa que fingem não ter. O fato de serem maioria não prova coisa alguma.”
Digitamos: “Prova, simssenhor. Prova que você não é capaz de comungar com seus iguais. Não é capaz de estender a mão nem para dar nem para pedir. Não é capaz da humildade. Não é capaz de admitir que está sozinho.”
“Não. Não estamos sozinho. Temos nossas certezas do nosso lado. Podemos não ser o melhor dos homens, quem sabe nossa verdade esteja errada e eu não viva para outra coisa senão para prová-la. Esse é nosso sacrifício. Pelo menos não somos um ator cínico representando um hamlet que não tem a alma torturada.”
Digitamos: “Enough”
“Você é um mecanicista que se crê dotado duma função…”
Digitamos: “Enough”
“…que precisa executar a todo custo. Tantos jovens deixam…”
Digitamos: “Enough”


Contato Giraldi.
“Não está obedecendo ao comando de novo.”
“… deixam a família para tentar seguir sozinhos, perseguindo o sonho da independência, mas terminam apenas solitários.”
“Não está obedecendo ao comando enough”.
“Não se preocupe. É efeito do último bombardeio. Deverá passar em alguns minutos”.
“Quantos?”
“Seis”.
Digitamos: “Seis”.
“Unidade?”
“Minutos”.
Digitamos: “Passados”.
“Ontem o comando para passar quinze deu pau”.
“Pouco antes do meio-dia, não foi? Efeito de fogo de artilharia pesada da guerra na Coisa Morna. Também notei”.
“Os biguemaquianos também, provavelmente. Nossa defesa automática está de pé”.
“Notei aqui. Apesar das respostas diferentes, pudemos detectar. Essa é a vantagem”.
“Filho, temos de confessar, você não foi desejado. Quando nasceu, não foi amado.”
Digitamos: “who”
“Por isso hoje acha que é o jesus sob disfarce. Ficou meio esquizofrênico”.
“Vê? Interferência. Não responde who. Associaram uma nova forma variável ao estado pregnant.”
“Pode ser que estejam operando a partir da costa do pacífico. Obviamente não estão conseguindo explorar as moléculas unilaterais. Essas moléculas tendem a produzir uma ocupação integral da capacidade de cálculo e assim deixam de atender às necessidades mais pragmáticas.
Então testemunho o seguinte diálogo:
“Olha, parece algo muito mais importante. Mais excitante que política, arte, leitura. Caótica e conservadora ao mesmo tempo. Tática do nãoconfronto, parece.”
“Note a distinção. Um rato grande. Mas é mais que um.”
“Cinquenta ao todo: vinte e cinco para cada uma. Ainda há o perigo de que as mulheres sejam devoradas. Depende muito do papel que vão depesempenhar.”
“Ainda a mente acha que deviam ser banidos.”
Digitamos: “Veja, sotaque paraguayo.”
— Sim — Giraldi.
O diálogo continua:
“É exatamente esse o problema: não passa de mera representação de papéis. Desincumbência de obrigações.”
“Agora estão executando o processo de restabelecimento de algumas das conexões: processo de reunião.”
“Alguém mais sabe?”
“Há quem.”
“Quer dizer que tem alguém assistindo neste momento?”
“Bem, esse é um dos tabus. Não se preocupe. Os nandeílsones receberam treinamento para filtrar esse comportamento. Foram dotados de alguma sensibilidade. Com eles o risco que as mulheres correm é outro.”
“Hoje não se fala muito disso mas foram eles que deram um impulso decisivo no projeto.”
“O Escritor de Sucesso admite ter sido ganancioso, que se deixou arrastar. Que não passa dum deformador. Agora tenta alegar visão do universo mais antropológica, não rigorosamente filosófica. Mas não há mais tempo, não lhe parece?”
“Sim. Pior que a diversidade pellegriniana, o que inebria hoje é a variedade. Pior: variabilidade.”
“Oração traduzida em ação.”
“Escrever, ato saneador. Poder de cura. Mas não pode se limitar a quem escreve. Deve servir às pessoas. Um jardim que você se prepara a vida toda para cultivar, cada dia mais treinado a identificar as ervas daninhas, mais atento para distingui-las das plantas nobres. E principalmente estado de alerta permanente para não se deixar enganar pelas flores. O maior perigo: as flores. Ofuscam os olhos, te deixam cego para o que realmente importa: embelezar o mundo. Mas todos caem na armadilha hipnotizados pela façanha de terem produzido flores belas and the next minute se acham proprietários. Alegam não ter culpa. Mas não sabem fugir do encantamento. Requer disciplina. Incomensuravelmente.”
“O Escritor de Sucesso não quis acreditar.”
“Então cometeu o pecado capital: cultivar a flor de plástico. Pode-se perdoar isso a todos, menos a gente como ele. Descarado. Ainda quer que enfeitemos a mesa da sala com ela. Sabia que levaríamos em conta sua reputação de bom jardineiro. O que é um pecado ainda mais grave. Infâmia das infâmias. O Decorador da Vida emporcalhou nossa mesa de centro.”


“Seu papel de jardineiro é definido pela forma como ele reage aos eventos. Por isso não lhe cabe reivindicar coisa alguma pelo que faz. Mais que todos, ele deve se munir dum espírito de respeito em relação a todos nós. Tal como um militar que se prepara para obedecer ordens: seu dever não é perguntar por que, mas apenas obedecer. Cegamente. Irrefletidamente.


Estamos preocupado com as atitudes de Giraldi. Não queremos ofendê-lo mas a forma como o testamento foi redigido…
Finalmente surgiu a oportunidade para destruir a “casa”. Ele fica o tempo todo nu. É o trabalho dele. O Escritor de Sucesso tem as pálpebras sujeitadas por presilhas para impedir que feche os olhos. Os nervososimpacientesávidos coelhos gigantes correm dum lado a outro dentro da cela. A precisão é a marca que está em tudo — uma precisão que você não está acostumado no diadia.
— Dinheiro não tem nada a ver com isto — O Ipsius Ego diz. — Estamos buscando afeto. O afeto doce dos braços duma mãe. O afeto terno dum pai que agradece o filho por ter nascido. O resto não interessa.
— Tudo é acidental. — O Escritor de Sucesso suplica. — O que somos, onde nascemos, onde vivemos, a língua que falamos, a profissão que escolhemos. Tudo. Você quer me punir pelo que as leis do universo fizeram ou deixaram de fazer?
— Pode-se dizer que sim. — O Ipsius Ego repousa uma das mãos no corpo da jovem. — Puxa, está morta. Os olhos frios na cabeça decepada já não refletem o mundo. Mas o corpo ainda está morno. O calor deve perdurar uns oito minutos. Quer aproveitar essa nesga de vida? Se quiser mando levarem o corpo até aí.
— Aaaaaaaaaah. Pelo amor de Deus.
Dois assistentes recolhem o corpo e saem da sala enquanto o Escritor de Sucesso é desamarrado. Pela tela observamos os assistentes entrar na cela com o corpo, depositando-o no chão em frente ao Escritor de Sucesso, que se agacha, introduz os braços por sob o corpo, deita-o no colo e o abraça, tombando a cabeça sobre o peito.
— Quer agradecer a deus agora? — O Ipsius Ego pergunta. — Você tem razão, tudo é acidental. Tudo é acidental. Mas por que as coisas ruins só acontecem com os outros, nunca com você?
Embora atordoado de dor, o Escritor de Sucesso tem forças para espantar-se:
— Isto não é ruim?
— Surpresinha.
De repente todas as telas exibem a izildinha ainda amarrada dentro da câmara. O Escritor de Sucesso põe-se em pé repugnado dum salto, tentando atirar longe o corpo que tem no colo.
— De quem é este corpo?
— Não tem importância. O que interessa é que sua linda princesa ainda está viva.
— Pelo amor de deus, me deixe falar com ela.
— Ainda não. Primeiro temos uma obra a criar.
— Que tipo de obra?
— Um romance. Parecido com as dezenas que você já escreveu.
— Sobre o quê?
— Sobre uma jovem que está nas garras dum facínora doente sanguinário ansioso por disseminar a dor por toda parte.
— Deus, não. Não brinque com nosso coração dessa maneira. Me mate. Suplico. Me mate sem me torturar assim.
— Neinneinneinneinnein. Você é um cara inteligente, meticuloso e organizado, caso contrário não teria escrito os belos livros que escreveu, e portanto sabe que a criação requer algumas formalidades. Não sabe?
— Parâmetros...
— Que seja. Discussão velha. Sempre haverá quem defenda a predominância da forma patati patatá e quem advogue the other way around. Tipo da chiquenandeguesitueichion. O que deve ficar claro é que a beleza não é produto do aleatório. Concorda?
— Sim.
— Que temos essa mania besta de atribuir ao aleatório toda beleza de cuja existência estamos certos mas que não podemos compreender. Concorda?
— Sim.
— Você mesmo em seus livros deu pouca importância a conceitos como sorte, azar, destino, fortuna, etc. Grande parte do fascínio que suas tramas exercem nos leitores provém da consistência. Lógica. Coesão. Coerência. Continuidade…
— Por favor, não faça mais enumerações. Apesar de tudo nossa sensibilidade ainda está viva.
— Sempre houve consenso de que suas soluções literárias eram satisfatórias. Mas a razão por que estamos aqui é outra: os problemas da sociedade, o reequilíbrio das forças sociais, a revisão das políticas existentes.
— O que um escritor tem a ver com tudo isso? Nosso trabalho é escrever, não dar de comer aos pobres.
— Neinneinneinneinnein. Todos temos a obrigação de dar de comer aos pobres.
— Mas já fazemos a nossa parte. Nossos livros contribuem para a conscientização dos robervaílsones, o que por sua vez contribui…
— Quando ouço falar em contribuição temos ganas de sacar nossa seringa de eliessedê. Papo mais furado. Mesma cascata usada pelos padres. Ó, nossa missão é proclamar a palavra de deus. Que por sua vez disseminará a bondade e a solidariedade. Que por sua vez o Caralho. Enquanto nos embromam eles vão comendo nossas mulheres, nossas filhas, nossos filhos. Estamos de saco cheio dessa teoria da missão sagrada. Ou passamos fome todos ou ninguém.
— Ou todos passamos ou ninguém passa fome seria melhor.
— Fica meio desequilibrado. Melhor ainda: ou a fome é para todos ou para ninguém. Isonômico. Mas assim não vamos chegar a lugar algum.
— Não. Tudo bem. Aceito dar de comer aos pobres. Aceito qualquer coisa. Basta dizer.
— Quisera fosse tão fácil. A questão é verossimilhança, o último termo que ia enumerar antes de ser interrompido. Como bem sabe, a ficção deve ser verossímil para ser considerada de qualidade. O que significa isso? Significa simplesmente que para o beócio do leitor só têm sentido os eventos que ele acha ser verdadeiros. Isso obviamente nada tem a ver a com a vida como ela é, Uóxito. Pouca gente dá atenção quando os grandes poetas colocam o dedo naquele lugarzinho que o dedo foi feito para ser colocado. Vamos fazer de conta que ninguém é de ferro. Mas tem uma coisa que faz tempo, muito tempo, queremos dizer a você e seus pares. Sabe o quê? É esse privilégio de tirar vantagem da própria dor. O que mais acabrunha um candidato é ver um verdadeiro artista alimentar-se da própria dor. Então o candidato, invejando essa capacidade de sublimação, tenta imitá-lo, rabisca asneiras no papel, mancha telas com borrões incôngruos, pega um violão e toca a esmo, fingindo saber o que sente, pior, fingindo expressar o que sabe, mente aos outros e a si, mas a necessidade estética nunca é satisfeita, pois ele passa a mil quilômetros do que finge sentir, e por isso olha o artista genuíno feito você e não entende e fica puto. O Filhodaputa sofre e ainda ganha grana e fama e Buceta com isso, rosna desacorçoado. Eis a grande injustiça. O que, cá pra quem diz esse tipo de bosta, também a mente acha. Os verdadeiros heróis da humanidade não são os goethes nem os shakespeares nem os wagners nem os schuberts que ensinam a todos os demais o que é a beleza. Heróis são os pobre-coitados que guardam o incêndio dos infernos no peito mas não sabem emitir sequer uma fumacinha pra mamãe se orgulhar.
A teoria da gratificação em gráfico que cobre em grupos o separador integrante mínimo dum umbral linear arborescente e cíclico circular formal por caminhos mais curtos com complexidade e problemas dinâmicos.
Há pecados que devem permanecer intactos. Se tivesse nascido em outro século outro país não teria tropeçado na crise política na qual a mente se acha agora. Eles são, muito, mais, serão ego-crítico, escutarão? a crítica. tropicais. A alegria dos janaílsones pobres é tão limpa, tão claro. independente. público. Por que não estão mudando a doutrina deles/delas? Desconfiança.



Giraldi escreveu L'impossibile à luz dos preceitos paraguayos com algumas pitadas da estética regional, frases que se alternam em incessante intercâmbio de tensão e relaxamento como se competissem por determinar o estado de espírito do leitor. Que nunca tem oportunidade de descansar da leitura para ver como isso o afeta por dentro.
— A competição mortevida — Giraldi explica. — Também a compensação mortevida. Eterna atração mortevida. O pensamento inovador que fechará o vazio entre literatura e matemática, ciência e filosofia. O intelectual não diretamente ligado a pesquisas ou experimentações finalmente ocupará uma função digna do nome na sociedade. Unidade entre palavra e ação, enfim. O artista converter-se-á em ser concretamente atuante que de fato mudará o destino dos homens. Chega de especulação infrutífera. Basta aceitar meramente o primado da razão. Não foram cinco mil anos de busca? Pois chegou o momento de acolhê-la e converter-se. Estamos ciente de que a transformação não será fácil assim mas agora que conseguimos isolar a alma tudo será diferente. Está decretado o fim da luta contra a natureza. O fim dos ciclos. Chega da ansiedade por raízes. Acaba aqui a incerteza sobre a verdadeira validade de tudo que já foi pensado antes de nós. Não haverá mais razão para os tradicionais conflitos entre masculino ou feminino, natural ou sintético, couro ou plástico, preto ou branco. Podemos dizer que todo o passado hoje é uma ficção. Já imaginou um mundo sem o mínimo risco duma guerra nuclear? O novo sistema anula automaticamente essa possibilidade. E não há, repito, não há como o burlar, pois só funciona de acordo com suas próprias regras. Se alguém tentar mudá-las, o sistema prontamente identificará a alterações e reassumirá seu estado natural. Sua conversão ao movimento antibélico não se deveu ao emocionalismo ou a pressões de colegas. Isso é certo. Há mais confiança entre nossos países, mas infelizmente não eliminamos completamente a desconfiança. Você tem de amar. Tem de querer. O que aconteceu foi um incidente isolado. Alguns intelectuais podem aprovar as mudanças, outros não. Não importa se está quente, e é para os convidados. O poder político é ilusório. Hoje em dia comentário satírico é tinta desperdiçada. Galvanizado por uma sensação de grande nacionalismo desesperado. Hoje somos pessoas diferentes.
Estamos totalmente felizes. Amanhã e depois. Abolimos a ideia de ligar a ideologia às relações humanas. Há pessoas assim. Há coisas piores para ser. Associaria a cachorros. O mundo tem a quantidade certa de poetas. Por razões de pesquisa tivemos que comprar um barco. Quando necessitam de intimidade, eles têm de escolher. Com exceção de armas nucleares, um inimigo não pode alcançar a affelandrepublik. Revelar a loucura que fingimos não existir. Nossos parentes, claro, nos imaginam um bolo de carne biguemaquiano assado semana passado. A ideologia de Los Angeles está à beira da cova. Todos devem ser iguais. Os janaílsones e os roquefellas.
Se tiverem de nos extinguir, que nos arranquem o coração.

continua em...