E pensar que bastava folhear um livro

Escapadinha sabática básica no crepúsculo hehehe. Olho Zezeí, Zezeí me olha, estamos entendidos. Sim, vamos dar uma sacaneada no bixho adoidado, o demônio encarnado em Sampeia, Mr. Preta e Marrom Brown Black Shadow, a mais nefasta combinação de cores do arco-íris que não vejo desde aquele verão de 1969. Sim, Zezeí, vamos deixar o Quico em casa, saravá. Hoje à tarde o Furacão Orelhudo escapuliu portão afora outra vez. Correr atrás se mostra insanamente inútil. Tentar cercar, a desgraça pensa que é folguedo e aí que sapequeia. O único remédio, e quando digo único bidu, é me soltar lasso na beira da calçada, vulgo sarjeta, mostrando que não tenho segundas, i.e., estou nessa. A Praga do Inferno parece sensibilizar-se ante tamanha demonstração de humildade e submissão e se detém por um segundo. Então, com cara de quem explodiria na mais espalhafatosa gargalhada do planeta se soubesse e se pudesse, parte feito um zéfiro para a calçada do outro lado da avenida, zunindo por entre três ou quatro carros que freiam e tentam não passar por cima daquele estranho vulto dotado de rabo e narigão que repentinamente cruza sua frente. Um dos motoristas se assusta e detém o veículo no meio da rua, instantaneamente provocando um freadaço seguido dum buzinaço. Todos voltam a cabeça para mim, não sei se apiedados por ser o feliz proprietário da Besta Comprida ou irados por ser, em última instância, o causador dum quase engavetamento. Absolutamente alheio ao drama humano que transcorre a apenas três metros dali, o Insano Cometa toma a direção da esquina, abandonando atrás de si apenas seu nada brilhante halo. Então, de novo, em desastrosa decisão que, de tão ilógica, não dá tempo nem mesmo de ser tomada, concluo que devo atravessar a avenida atrás da Peste. Assim que me detecta do mesmo lado, o Flagelo do Apocalipse retorna à primeira calçada, aquela onde fica minha casa, aquela onde tudo começou. Ciclicamente, retoma-se a comoção no trânsito, mais ou menos com os mesmos incidentes, com os mesmos riscos de tragédia e sangue. Um casalzinho de namorados vem subindo a avenida com aquele entusiasmo de viver típico da juventude. O rapaz, talvez por ser ainda mais jovial que a namorada, assistindo ao drama em que Quico é o supremo protagonista e eu, apenas figurante a contragosto, me pergunta, de longe, sempre animado, se preciso de ajuda. Sem força para acionar a língua, que se converteu em apêndice plúmbeo e gelatinoso como que por encanto, meneio a cabeçorra afirmativamente, tomando cuidado para não exagerar no gesto, pois, vocês sabem, minha cabeça vive me botando nas mais improváveis e angustiantes enrascadas. Assim que assinto, o rapazola parte lampeiro para a outra calçada, velejando nas asas da autoconfiança, certo de que aquela coisa escura orelhuda que nos observa zombeteira já está no papo. O jovem nem bem alcança a calçada oposta, o Suplício de Todos os Dias da Semana queima o chão de volta, reiniciando o Ciclo da Flagelação, o freadaço, o buzinaço, o metafísico arrependimento. Por meu magnânimo turno, é minha vez de assistir. E, conformado com meu papel de telespectador da vida, deixo que a desesperança configure os músculos e os traços do meu rosto. E assim desacorçoado qual o Luís da Silva de Angústia, assisto enquanto os deuses do trânsito, mancomunados com os malditos engenheiros de tráfego do Haddad, vão jogando solertes seus dados elétricos. O cassino está inteiramente às escuras, só minha mesa de asfalto iluminada por um holofote diabólico.
De repente sinto algo, alguém, alguma coisa em meu colo. Ainda estou sentado na sarjeta, se bem se recordam. Meu pescoço se dobra um tico, meus olhos céticos enxergam a Mortificação Quadrúpede em meus braços. O monstrengo parece rir. Rio também, só por solidariedade, me dói o peito imaginar que ele se sinta só neste mundo insolúvel. Aperto a Calamidade Canina contra o peito com toda a exígua força de que disponho. Posso ter um treco e morrer aqui e agora mas o FDP não me escapa.
Uns copos de água e açúcar e umas gotas de florais de Bach depois, Zezeí e este cristão ateu que vos fala — e que, embora ateu, de joelhos rezou um bocado durante a carnificina que enfim não se concretizou, pedindo pro trânsito ficar sem fluir — nos vemos subindo a ladeira. Zezeí aparentemente já se recuperou do trauma. Ou, pra variar, está se fazendo de desentendida. Até agora não sei com razoável precisão até que ponto a intempestiva chegada do Quico perturbou a linha do horizonte da minha Esbirigueta, que até ontem parecia, ela, a linha, tão regular e previsível. Sou caçula, não me resta senão especular sobre o estrago causado por intrusos indesejados em nossos respectivos paraísos para sempre perdidos.
Pelas ruas não vemos mais que pedestres distribuídos esparsamente, como se também fizessem papel de figurantes. Talvez seja coincidência, mas estão todos desacompanhados. Vamos passando por cada um deles e cada uma delas indo e vindo sabe lá aonde e de onde e um agudo sentimento de solidão me cutuca a alma lá no fundo. Olho Zezeí, procuro conforto, gosh, me sinto impossivelmente só. Até há um segundo vinha escrevendo mentalmente a história dum sujeito que pega o carro e desce a Anchieta e aluga um barco e parte para alto-mar. Venho escrevendo essa história há pelo menos quarenta anos e não consigo chegar ao fim.