Meditações caninas

Sou um cachorro.
Não metaforicamente, como costumam dizer por aí para se referir a canalha, cafajeste, etc. Não: sou cachorro na acepção da palavra, sem tirar nem pôr, com focinho, patas, rabo (que abano ocasionalmente para demonstrar alegria, como qualquer outro da turma).
Ao contrário de muitos dos meus parentes, lato apenas para fazer média com meus donos. Ou quando é preciso impor respeito. Ou condenar algo que mereça ser condenado.
Lato, não nego. Mas sempre com moderação. Tanta, que às vezes nem o pessoal da casa escuta. Fico irritado com certos primos meus que armam um carnaval para o entregador de gás, o sujeito que faz a leitura da luz, o que lê o relógio d'água. Tanto espalhafato para quê? Por acaso precisam provar que são cães? Que servem para alguma coisa? Só se for para atazanar a vida dos vizinhos.
Sei de muito cão falaz (ou seria "ladraz"?) por aí que late para a lua, para as nuvens, para as moscas e inutilidades que tais. Mas dorme feito anjo quando um ladrão entra na casa.
Pois é, só marketing. Pulgueiros embromadores.
Quanto a mim, sou sóbrio. As pessoas, quando me conhecem, se enganam com este meu ar quase bonachão. Alguns me vêem pela primeira vez e fazem pouco caso, me acham meio apalermado. Vai achando, penso cá comigo. Pisa no quintal às onze da noite para ver com quantos dentes se faz uma mordida na batata da perna.
Tenho um colega, que mora a três casas subindo a rua, que não tolera ser mal interpretado assim.
Costumo aconselhar a ele:
— Os humanos não têm obrigação de demonstrar deferência, Godói. (Também estranhei o nome quando conheci o Godói. Fazer o quê?) São muito ocupados. Nós existimos só para servi-los.
— Servir é pleonasmo! — Godói se exaspera. — É escravidão deslavada. Se existissem meia dúzia de pitbulls feito eu, quem estaria tomando conta do portão, coçando as pulgas e latindo feito besta seria o folgado do meu dono. E tem mais: visita não sai da casa do patrão sem levar uma boa avançada. Comigo é assim. E quanto mais pálido neguinho ficar, melhor.
A, penso resignado cá no meu canto: outro infeliz a praticar cegamente o lema do olho por olho, dente por dente. Quantos coitados sofrem assim sem saber? O quadrúpede escolhe meia dúzia de ditos e aplica em toda e qualquer situação, como se fossem pau para toda obra. Já tentei dissuadir o Godói, mas qual. O inocente não me escuta. Afinal, pergunto cá com minhas com minhas pulgas, para que servem ouvidos tão sensíveis?
Por isso, sempre digo: se quiser ser um bom cão-de-guarda, precisa balancear braveza e companheirismo. Nas horas de folga, manter a calma, passar segurança, mostrar aplomb. Os donos ficam intranqüilos quando têm em casa um pulguento traiçoeiro capaz de atacar a primeira canela desconhecida que lhe surgir pela frente. Ser pacato é a alma do negócio. Sem perder de vista, naturalmente, nosso maior objetivo, que é ganhar a simpatia da família.
Afinal, pergunto quando um dos meus colegas chega no portão de casa com focinho de quem levou um ponta-pé, o que é um cão pelo qual ninguém nutre simpatia alguma? E eu mesmo respondo: é um vadio, sem-dono, zanzando pelas ruas sem osso depois da janta, sem ração e, principalmente, sem cafuné.
Quando menciono esta última possibilidade, meus amigos deixam cair as orelhas e tremem de pavor.
Até que tudo bem perambular por aí sem território para demarcar ou ser chamado o tempo todo de Rex por desconhecidos na rua sendo que seu nome é Newton. Mas penar neste pulgatório, digo, purgatório sem nunca ganhar um afago na cabeça ou uma alisadinha nas costas (mesmo que seja com a sola suja dum sapato)? Ai! É impensável.
Mas de que forma conciliar essa necessidade básica e atávica de carinho com a ferocidade e o espírito vigilante que os humanos exigem? Cá pra nós: perto deste, o dilema daquele príncipe dinarmarquês que escuta fantasmas e não sabe se é ou se não é não passa de bobagem, não é mesmo?
Por isso, sempre aconselho: há que conciliar esses dois extremos, senão...
— Bah! — alguns coleguinhas rosnam — nenhum dono vai te dar um pé no rabo se você distribuir umas dentadas indevidas de vez em quando.
— Vai nessa! — respondo, meneando a cabeça e chacoalhando as orelhas.
Tem dono capaz de tudo. Nessa relação, quem é fiel é você. Tem cachorro que se engana, ou por ingenuidade ou porque gosta de se enganar. Pensa que está garantido, que a família não vive sem ele, que será um relacionamento para toda a vida, que não corre riscos, que não vão se livrar do bicho de estimação só por causa de uns excessozinhos de vez em quando, que auauau, blablablá...
Pura racionalização. Mania de confundir desejo e realidade. Muitos incorrem nesse erro.
Conheço uns indivíduos de quatro patas por aí que mal sonham com um filé e já sentem o cheiro de carne na cumbuca. Confusos, pensam que suas vontades se realizam por encanto. Que querer é poder. Não sei se é ledo, mas não tenho dúvida de que é engano. No mundo canino tem até um depoimento histórico, feito pelo cachorro do Freud, sobre isso de delirar com desejos supostamente atendidos. Continue dando uma mancada atrás da outra assim, que você vai ver onde é que a porca torce o rabo ou o galo canta. (Para ficarmos no reino animal, se mo permitem.)
Já vi casos de dono muito bonzinho, carinhoso, assíduo nas vacinas, petichope toda semana com xampu importado e coisa e tal, de repente tu caga no carpete ou rói o mocassim alemão e tchau e bença. Lá se foi o belo relacionamento que era por toda a vida. Tudo bem, tais casos são duros, mas não deixam de ter uma explicação.
O pior mesmo é o caso do vira-lata cuja dona de repente cai de amores por um desses pooddles afrescalhados que estão invadindo a praça. Com a mesma repentinidade o infeliz se vê doado à empregada. E, como cachorrada pouca é bobagem, a dita ainda mora numa favela.
Então pondero: se é com esse tipo de risco que você quer brincar, pois brinque. Quanto a mim, seguro morreu de velho.
Por ladrar nisso, certa vez travei o seguinte diálogo com o Bernardão, que apesar do nome não é um são-bernardo e sim um vistoso e bem-nutrido dobermann que mora aqui pertinho. Ele estava inconformado com a sina de ter de ceder o que existe de mais forte em sua alma em troca dum quintal onde morar:
— O maior problema nisso tudo, Chapinha — (A sim, já ia esquecendo de dizer que o nome do fofinho aqui, modéstia à parte, é esse.) — O maior problema é nosso instinto de territorialidade. Diz aí, tu que é tão entendido no caráter canino: como é que fica? Alguns humanos fingem esquecer o profundo apego que temos pelo nosso lugar. Outros sequer fingem. Simplesmente não tomam conhecimento.
— Não me venha com fricotes — fui obrigado a ser um tanto duro, pois já estava enfadado com aquele tipo de comportamento de vira-lata carente. — Me responda, Bernardão: sem teu dono tu teria todas essas mordomias de que desfruta? Comidinha limpa e saudável servida regularmente? Não é alcatra todo dia, bem sei, mas pelo menos não precisa fuçar sacos de lixos nas ruas para não morrer de fome. E tem cobertor particular, colete de lã no inverno. Se não está satisfeito e acha melhor viver sem eira nem beira, basta pular o muro e cair no mundo.
Bem, seria supérfluo ladrar que com isso calei o focinho do Bernardão. (Seria supérfluo, mas ladrei-o mesmo assim. Afinal, esta crônica — ou seria uma fábula? — é minha e ladro o que me aprouver.)
Aliás, lanço mão (ou pata, no meu caso) desse mesmo argumento quando alguns coleguinhas me vêm torrar a paciência com a história de que só servem para segurar a onda dos seus donos.
— O cara é de lua! — gane um.
— A perua só brinca comigo quando lhe dá na telha! — geme outro.
— Queriam o quê? — ralho, já à beira do destempero. — Gente é esquizofrênica mesmo. Ora está bem, ora está mal, ora alisa nossa orelha, ora chuta. Procure ver o lado positivo. Temos uma função nobre, qual seja: com nossa submissão às mudanças de humor dos seres humanos nós os ajudamos a suportar os terríveis fardos que lhes foram impostos pela natureza. E vocês que convivem com eles todos os dias sabem do que estou falando. Eles se acham os bacanas do pedaço, mas quem faz o mundo girar de fato somos nós. (Reconheço que isso às vezes não compensa muito o tratamento de cão que recebemos, mas serve de algum consolo.)
Em resumo, há que balancear as coisas. Ser equilibradamente dócil e feroz. E, sobretudo, saber tratar as pessoas certas. Eis um dos erros mais comuns cometidos por certos focinhudos doidivanas — trocar as bolas. Abanam o rabo pros amigos do alheio (pois é assim que os humanos às vezes chamam os larápios) e arreganham os dentes pros que vêm em paz. Quando flagro o desastrado nesse erro, estalo a língua, sacudo negativamente a cabeça e rosno esganido: não, não, não! Assim você vai acabar no olho da rua, sua anta farejadora! Ou no canil municipal, candidato a virar cobaia na Veterinária da USP. Ou, se tiver um pouco de sorte, condenado a exílio eterno no quintal, em absoluto ostracismo, para sempre proibido de se esticar embaixo da mesa enquanto o pessoal almoça. Quem sabe até destino pior: vedado de dormir no tapete da sala!
Bem, já são duas da madruga e tenho muitos latidos a dar. Se não bater o ponto de vez quando, os dorminhocos dos meus patrões são capazes de achar que estou amolecendo. Mas, ao contrário do que as pessoas imaginam quando escutam um cachorro ladrar na noite, meus latidos têm destino certo. A uns dois ou três quarteirões daqui mora um rapaz que noite após noite, sempre a essa hora, está tentando pegar no sono. Mas o diabo do sono não vem porque o coitado sofre terríveis ataques de tédio, que o fazem virar e revirar dum lado pra outro, sem cessar, incapaz de mitigar a intranqüilidade que o perturba. É nessa hora que me ponho a latir. Mas com cuidado. Pausadamente. Noites há em que ele se deixa afundar com tamanho peso sob a angústia, que demora uma eternidade até perceber meu latido. E, quando percebe, pensa: "Toda noite escuto um cão ladrar ao longe, onde quer que eu esteja". E assim vai pensando, embalado pela cadência do meu latido. Até finalmente dormir.





Meu guardião

Alta madrugada. O sono não vem. Escuta-se um latido ao longe. Terá existido noite intocada por um cão irrequieto? Sempre escutarei um onde quer que me deite - seja balançando num navio sob o troar das ondas do Atlântico, seja vasculhando o fundo da memória enquanto me aconchego entre os frios rochedos dum dos mares secos de Saturno.
Mas para que ou para quem são os latidos no meio da noite quando ninguém está disposto a escutá-los? Talvez para um gato, tentando chamar a atenção duma fêmea, miando sob o céu que de dia é azul. Ou quem sabe para um galho de árvore movido pelo vento num sussurro farfalhado.
Há noites em que se assombra por uma lua repentinamente exposta pelas nuvens. Há outras em que uma pedra que passou o dia imprecisamente equilibrada sobre outra resolve rolar às duas da manhã só para sobressaltá-lo. E há aquelas em que ladra simplesmente por querer, sem que precise se deixar iludir por um prosaico toque de magia.
Mas além dessas, noites há em que late para mim. Identifico o tom de urgência, como se me avisasse de algo. Em tais noites - algumas, não todas - ele se recusa a silenciar. A aflição dele me aflige também a mim e desisto de esperar o sono. Levanto da cama e vou zanzar pela casa, enfim rendido ao guardião da minha paz de espírito.