Não achados e perdidos

Matina de sexta, tour básico pelas nada redondas redondezas.
Direto no estômago logo ao botar o pé e as patas na calçada: na outra, uma grávida.
Quico arranca querendo decolar para Vênus e levar meu braço junto. Arrumou encrenca com Johnny, que mora ao lado, logo no primeiro dia. E olha que Johnny, como todo setter que se preza, é o rei da bonomia. Eu que batizei Johnny assim, o nome dele é outro, um nome grego, poor guy, bode expiatório dos recalques do dono, já não bastasse dar nomes mitológicos aos filhos.
Primeira esquina dobrada, segundo direto no estômago. Outra grávida, esta, acompanhada da mãe, ou avó. Todo mundo e seu adestrador fazendo festa pro Quico. Que coisa estranha essa atração entre os seres. Zezeí, não lhe dão pelota. É feinha, velhota, de maus bofes, mirradinha, lone ranger. E também não dá lhufas ao que sucede ao redor, tal qual o dono. Com Quico a ligação se dá instantânea. Acende nos caras essa chama da celebração de existir. Mais: existir sem querer saber por que ou pra quê. Que, obviamente, deve ser o grande barato.
Esse papo sempre me faz recordar quando um dia me acusaram de ser acarismático, não com tamanha sofisticação vocabular, claro, não estaria à altura da acusadora. Foi na saudosa comu Literatura. Você escreve bem mas não tem carisma, tonto. Redargui se a dona queria um sílvio-santos poeta. Que é o estratagema de que os blogueiros “literários” lançam mão por aí para arrancar um Like de suas respectivas patotas. Como devo ter dito umas quinhentas vezes alhures, poucos me leem porque não faço média. E o duro é ver que até os literatos autênticos praticam a puxação de saco recíproca. Os caras estão sempre em jantares, lançamentos, colóquios, “eventos”. Facilita a bajulação e dificulta a marretada. Eleito senador, Collor foi saudado por um discurso baboso de Mercadante da tribuna do Senado. Cobrado pela incoerência, Merca alegou que os senadores não podem conviver em situação de hostilidade. Ou seja, o conflito é inaceitável. Os senadores, e políticos em geral, não sabem que são eleitos para representar os interesses de seus comitentes. Então se alienam em seu clubinho chique, mandando os eleitores às favas. então o conchavo se impõe, emperrando o processo eleitoral, desfigurando os papéis institucionais, deturpando a razão mesma de existir do Parlamento.
Aqui fora não é diferente. Conflito é anátema. Carinhas morrem de medo de se indispor com outros. Daí o eterno papo-furado de todo mundo em todos os lugares em todas as instâncias da vida social. Mesmo na “literatura”, a que nasce para moeda de troca. Vira e mexe provoco ressentimento quando digo o que penso a alguém pessoalmente. Os caras se espantam, depois se retraem. Descer à sinceridade é uma quebra do pacto, você tem de flutuar na superfície, de preferência sem fazer onda. E a espiral hipócrita vai crescendo, vai crescendo até atingir o ponto em que estamos agora: impeachment, mesmo previsto na Constituição, é golpe. Para a maioria dos bobocas do STF e dos que se habituaram a mamar no poder, pega mal – a razão verdadeira de ser o brasileiro médio o banana que é.
Ontem deu n’O Globo um tal de trisal, i.e., um casal formado por três, um cavalheiro e duas senhoras. No começo era apenas ele e ela. Até que um dia ela revelou que queria experiências outras. Ah sim, era bi. Após idas e vindas, se decidiram por uma terceira, acho que igualmente bi. E foram felizes for ever after. Na foto aparecem transbordando felicidade pelos sorrisões satisfeitos. Ah sim, estão no face. Vou lá ver (tenho um perfil só pra fins de espionagem). Centenas de parabéns de simpatizantes e pedidos de consulta de trisais outros. Não perdi mais dum minuto tentando entender, fiquei meio enojado. Não pela promiscuidade, que nem promiscuidade é. Esses arranjos existem desde sempre. Nas elites do lulla são absolutamente banais, com a diferença que os envolvidos não vivem sob o mesmo teto. Marta Suplicy teve êne affairs sob as fuças do senador Dudu, que aparentemente encorajava, vai saber por que, Abílio Diniz sendo apenas o mais célebre. Na literatura, milhões de casos. Freud dizia que o casamento é a forma encontrada pela sociedade para aceitar o sexo. Para mim, modestamente, o casamento monogâmico ainda é o meio mais eficiente para um casal lutar pela sobrevivência e pela prosperidade material e ao mesmo tempo produzir a prole que até ontem se impunha como básica e hoje anda em baixa por razões óbvias. Com todas as implicações sociais e morais daí decorrentes.
O que me deu mal-estar nessa história foi o exibicionismo. O maldito. Os carinhas se colocam numa vitrine e vão distribuindo micagens a pedido do distinto público. A molecada parece não ter motivo ou meta ou barato na vida que não aparecer. Virar assunto de reportagem deve ter levado o trio ao gozo tridimensional. Por aí parece que já tem gente se matando sob o foco dum celular só pra virar viral no utube. Upa lalá.
Em alguns minutos o terceiro direto no estômago. Ao fim da volta nas redondezas cinco prenhas ao todo. O governo chinês anda pensando em abrir um segundo filho a todos os casais sem exceção, o que já vinha fazendo off the record em alguns casos. “Alguns casos” na China deve equivaler a uns 200 milhões de pessoas. Os chinas começaram a envelhecer mais rapidamente e precisam ser repostos para segurar a arrancada da economia. No Japão existem uns 60 mil japas com mais de cem anos e em 2060 quase a metade da população terá ultrapassado os 65 anos. França e Alemanha há anos estimulam a natalidade para enfrentar o declínio populacional.
O fascínio animal exercido por uma grávida é dos mais poderosos. O intelecto se rende à ordem natural das coisas. O meu, quase. Muito na imagem duma grávida caminhando numa calçada é indefinível e, para mim, altamente angustiante ante a força do que chamam natureza. Temos de lutar contra a celerada do nosso primeiro ao último segundo, e, infâmia das infâmias, por um mecanismo que a própria nos impõe e com as armas que ela mesma escolhe, no mais manjado dos duelos, na mais patética das tragédias, na mais irrecorrível das marmeladas. A inoculação por um malandro doido para perpetuar as doenças e os defeitos de sua raça que em primeiro lugar foi inapto e inepto na condução da própria desgraceira e que não admite que se lhe confisquem o direito a reproduzir um sofredor à sua imagem e semelhança. Morei no Embu uns anos há uns anos, um dos capiaus que me ajudavam a limpar o mato, pouco mais de trinta, cinco filhos, a mulher grávida, o pai dele abusando da primogênita então com seis ou sete, todo mundo no bairro sabia, ficou uma fera quando entre uma cerva e outra no buteco perto de casa sugeri que talvez já fosse hora de encerrar a produção. A contundência com que reagiu à minha sugestão me chocou. Dizem que filho é um dos poucos direitos do pobre. A Igreja, sempre a serviço do atraso, não aceita. No Embu, em sua área ainda rural na época, hoje quase toda tomada de favelas, os maridos bebiam até cair, literalmente, vários dos meus compadres enxugavam a derradeira e saíam noite afora para cair na primeira valeta no caminho, onde dormiam até a manhã seguinte, as esposas no culto a entregar suas almas e as das crianças a deus e as dos carrascos seus esposos, de quem apanhavam dia após dia e noite após noite, ao diabo. Nas noites de sexta e sábado as cantorias pelos templos espalhados nos morros ainda semivirgens se emendavam para formar uma mixórdia algaraviada de minutos em minutos entremeada de gritos histéricos e ululos e ganidos provavelmente destinados a exorcizar o demo de algum corpo. O pandemônio podia também durar até a manhã seguinte e minha chance de cair no sono era zero. Ia pra sala tentar ler e acabava dormindo com dois indicadores nos tímpanos.
Numa cidadezinha do norte da Dinamarca a adolescente Lisa Borch de quinze namorava o iraquiano Bakhtiar Abdulla de trinta e nove. Ela, estudante, ele, muçulmano. Uma noite Bakhtiar chamou Lisa para assistir uns vídeos na internet, uns vídeos que mostravam vítimas do Estado Islâmico sendo degoladas e decapitadas. A sessão durou várias horas. Em seguida Lisa se armou duma faca de cozinha e desferiu vinte golpes na própria mãe, que dormia. O padrasto da garota diz que ela passara a se interessar pelo grupo jihadista depois que conhecera Bakhtiar num centro para refugiados nas proximidades. Ela pretendia se mandar para a Síria e se juntar à facção extremista. Foi condenada a 9 anos de prisão. Abdulla, a 13.
Há uns anos escrevi sobre Tânia Nijmeijer, universitária holandesa que acabou nas garras das FARC. Por que é que essas belezinhas de barriga cheia têm de se meter com as mazelas do mundo?