Tonietti II

Muito boa noite, Toni. Me desculpe não ter latido antes. Fiquei até agora escondido debaixo dum banco numa praça qualquer aí. Sabe como é, os fogos. Que os humanos chamam de artifício. Só se for o artifício de matar a raça canina de pavor, não é mesmo? Digo, pois é. Esses humanos são muito, mas muito engraçados mesmo. Vão retrocedendo ao invés de evoluir. Cada dia mais animalescos, agindo qual tribos de selvagens, esgoelando “vai curíntia!” como se entoassem um medonho grito de guerra, todos numa imensa turba num só pensamento, ou falta dele, as caras retorcidas sob o mesmo esgar da barbárie, os olhares vazios de símios instintivos. E se me deixo ao alcance de seus pezões grotescos, não hesitam em me desferir chutaços, me chamando de cachorro. Vai mal o mundo. Bem, de certo está ciente, não preciso lhe abrir os olhos. Neste exato momento me encontro ainda na tal praça, tentando decidir o que fazer para atravessar a terrível noite que, brrrrrrr, já encobre este meu m... Epa! Sai pra lá! Ah, desculpe, não é com a senhorita, não. Pensei ter visto um fantasma. Sabe como é, essa apreensão constante, a gente, digo, nós cães vamos perdendo a capacidade de controlar nossas reações. Mas não vá pensando que meu dia foi só aporrinhação, não. Estava batendo perna por uma avenida aí hoje cedo quando escutei um psiu-psiu acompanhado duns cochichos “Wil! Wil! Wil!”. Olhei para a calçada do outro lado da rua, adivinha quem era? Bidu! Ninguém menos que minha velha amiga Lady! Abanei o totozinho, surpreso e feliz ao mesmo tempo. Fazia um tempão que não via minha companheira velha de guerra. Num ímpeto, atravessei a avenida ao som duma orquestra de buzinadas e guinchos de pneus freando bruscamente. Quando alcancei a outra calçada, vi que Lady estava lívida, sem saber se me lambia de felicidade por me rever ou me lascava umas mordidas pela minha imprudência. Cuidado! ladrou, ao que eu, malandro calejado, me limitei a lhe farejar o traseiro, snif sniff snifff. Reparei então que tava que era só pele e osso, a pobrezinha. Sabe como é, cachorro não é urubu, se ressente da dieta à base de carniça. Sem me dar por achado, comecei a engatar um fuk-fuk relâmpago quando ela arreganhou aqueles seus caninos belos e extra-grandes, pedindo que me comportasse. A senhorita tá sabendo que sempre fui obediente feito um cão e, assim, obedeci. “Diz aí querida!” exclamei, sorridente, espevitando a orelha direita e enconchando a esquerda, jogando aquele charme pra cima da cachorra. “Long time no see!” caprichei no sotaque francês. “Pois é, meu queridíssimo amigo de outros carnavais! Tantos anos se passaram, não é mesmo?” Ao que tasquei na lata: “Te mandei vários latidos expressos, você nunca me respondeu. Pensei até que estivesse zangada comigo.” Nem bem fiz o comentário, percebi que Lady tentou disfarçar o constrangimento: “Mandou, é? Puxa, não recebi nenhum!” Sacando então que seria uma furada insistir na cobrança (pois é, tem coisas que é melhor deixar pra lá), dei uma guinada de 180 graus na temática: “E então, gata, digo, gatinha, manhã de domingão ensolarado, dando altos rolês coisa e tal...” Ao que Lady não se fez de rogada: “Pois é, gatão, digo, cachorrão. Tava a caminho da padaria pra assistir o giro dos frangos na máquina de assar. Tá a fim?” “Só, fofa! Tevê de galináceo é bão pra cachorro!” E foi assim que passamos, eu e minha velha e querida amiga Lady, a hora do almoço e o início da tarde, antes do início do famigerado jogo e os fogos de artifício. Lá pelas duas, o carinha que destrincha os frangos ainda jogou uns ossos e umas pelancas pro nosso lado. Cavalheirescamente, menti que já estava almoçado e deixei o banquete para a famélica coitadinha. Sabe como é. Cão que é cão perde o bocado mas não perde a nobreza.