Fidro

No dia em que nasceste foste o tu-
do do meu todo,
presente do meu futuro. Alívio i-
nexpiável.

Embora te tenhas feito em-carne-e-osso pre-
sente, pensei
— e sob tortura hoje confesso a quem me qui-
ser confidente — os verbetes do meu dicioná-
rio de suplícios jamais tinham-se apagado
para constar apenas teu nome, os rostos do
meu álbum de fantasmas não esvaneceram
e cada fotografia, cada fotografia que fica
fluorescente quando olho para trás não pas-
sou a estampar totalitariamente teu rosto. M...

...mais que tudo — e bem o sabes
(o sabes terrivelmente bem) —,
não havia no meu céu uma só estrela (e às ve-
zes duvidava de haver um céu. Diga-me: sa-
bes?). Hoje, quando dás as costas e te afastas,
te pondo intocável, irretornavelmente ido, co-
mo se te guardasses dentro dum envelope para
te protegeres (de mim? a pergunta ecoa neste
pavilhão sem teto nem paredes. Perdoa a este
traidor ter te entregue ao mundo insolúvel!),
no meu céu desponta a estrela que não existe
e te afastas. E ela brilha e te afastas. E ela bri-
lha cada vez mais. Sei que não a enxergas —
olha! olha bem ali! diga-me que ainda não há
um céu teu. Se é isso tudo que tenho, deixa. Se a-
inda me restas, fica com minha estrela.